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quinta-feira

PAIXÃO DE OCASIÃO


PAIXÃO DE OCASIÃO (Picture perfect, 1997, Warner Bros, 121min) Direção: Glenn Gordon Caron. Roteiro: Arleen Sorkin, Paul Slansky, Glenn Cordon Caron, estória de Arleen Sorkin, Paul Slansky, May Quigley. Fotografia: Paul Sarossy. Montagem: Robert Reitano. Música: Carter Burwell. Figurino: Jane Robinson. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Debra Schutt. Produção executiva: William Teitler. Produção: Erwin Stoff. Elenco: Jennifer Aniston, Kevin Bacon, Jay Mohr, Olympia Dukakis, Illeana Douglas, Kevin Dunn. Estreia: 01/8/97

Comédias românticas, via de regra, seguem algumas fórmulas - já consagradas e sem as quais os fãs do gênero se sentiriam órfãos. Uma dessas fórmulas (talvez a mais utilizada, mas sempre eficiente) é seguida quase à risca em "Paixão de ocasião", um dos primeiros sucessos no cinema de Jennifer Aniston - então já famosa por "Friends" mas ainda antes de seu célebre casamento com Brad Pitt. Dirigido por Glenn Gordon Caron, produtor executivo de televisão, mas com poucos trabalhos como cineasta, o filme, simpático e agradável, serviu para comprovar o carisma de Aniston, que se tornaria, com o passar dos anos, a mais bem sucedida integrante do elenco da série (ao menos na tela grande). Mesmo sem apresentar maiores novidades em seu enredo - e talvez justamente por isso -, a história de um triângulo amoroso surgido através de um mal entendido conquistou o público (em especial o feminino) com sua mistura de humor, romance, belas paisagens e uma trilha sonora moderna - em suma, a receita completa para uma bela sessão da tarde despretensiosa.

Kate (Jennifer Aniston) é uma jovem de 28 anos que trabalha em uma agência de publicidade de Nova York, ao lado do homem por quem é apaixonada, o galante Sam (Kevin Bacon). Ainda solteira apesar dos apelos de sua dramática mãe, Rita (Olympia Dukakis), que não vê a hora de ser avó, Kate está praticamente desistindo da vida amorosa quando percebe que nem mesmo sua vida profissional está andando pra frente devido a seu estado civil. Deixada de lado em uma campanha milionária somente por ser solteira - de acordo com seus chefes ela não tem a estabilidade necessária para que confiem a ela uma responsabilidade maior -, Kate acaba aceitando fazer parte de uma mentira criada por sua amiga e colega de trabalho Darcy (Illeana Douglas): de uma hora para outra, o cinegrafista Nick (Jay Mohr) - que vive de filmar eventos particulares em Massachussets - se torna seu noivo, graças a uma fotografia casual tirada em um casamento. Para manter a mentira, Kate convida Nick para visitá-la e acompanhá-la em um jantar de negócios - ele se apaixona de verdade por ela, que não percebe a situação por ainda estar obcecada por Sam, que repentinamente também passa a sentir-se atraído pela colega capaz de trair o noivo para ficar com ele.

 

As situações criadas pelo roteiro de "Paixão de ocasião" são deliciosas, tanto no que diz respeito aos problemas criados na vida de Kate por sua mentira quanto por seu encontro com Nick, que se demonstra uma pessoa adorável e muito mais apaixonante do que ela poderia prever. Ao contrário de seus colegas nova-iorquinos, esnobes e consumidos pelas carreiras, ela vê, no rapaz, alguém sensível e capaz de oferecer mais do que conversas sobre mercado financeiro e estabilidade profissional: delicado e atencioso, Nick é a antítese de Sam, egoísta, autocentrado e que só percebe Kate quando tem certeza de que ela, comprometida, não lhe cobrará mais do que noites de sexo escondido. Enquanto um mal entendido leva a outro, no entanto, a trama perde a oportunidade de discutir temas relevantes, como a posição da mulher no mercado de trabalho e o preconceito contra mulheres solteiras e independentes. Não chega a ser um demérito - afinal não parece ser a intenção do roteiro - mas soa a uma oportunidade perdida ignorar uma premissa tão cheia de possibilidades, principalmente porque, conforme é mostrado logo nas primeiras cenas, Kate é tão talentosa quanto qualquer um de sua agência, sendo casada ou solteira. Mas essa discussão praticamente inexiste no filme - e, levando-se em conta de que se trata de uma comédia romântica com o objetivo simples de entreter e deixar a plateia com um sorriso nos lábios, é algo perdoável e compreensível.

"Paixão de ocasião" é, para os ávidos consumidores do gênero, uma delícia. Atores fotogênicos e talentosos, um roteiro que não exige demais dos neurônios, um roteiro que trabalha os clichês com segurança e carinho e uma direção que não tenta sobrepujar os elementos de que dispõe. Correto e sem grandes deslizes, Glenn Gordon Caron - cujo maior crédito em cinema é "Love affair: segredos do coração" (1994), remake de "Tarde demais para esquecer" (1957) - conduz seu filme com elegância e, mesmo que pudesse inserir um pouco mais de leveza a seu ritmo, faz dele um programa sem contra-indicações. Em seu primeiro papel principal em um gênero que fez a glória de Meg Ryan, Jennifer Aniston mostra personalidade própria e carisma o bastante para alçar voos mais ambiciosos - como seu elogiado desempenho em "Cake: uma razão para viver", lançado em 2015 e que comprovou seu talento dramático.

quarta-feira

LONGE DELA

LONGE DELA (Away from her, 2006, Foundry Films/Capri Releasing, 110min) Direção: Sarah Polley. Roteiro: Sarah Polley, conto "The bear come over the mountain", de Alice Munro. Fotografia: Luc Montpellier. Montagem: David Wharnsby. Música: Jonathan Goldsmith. Figurino: Debra Hanson. Direção de arte/cenários: Kathleen Climie/Mary Kirkland. Produção executiva: Atom Egoyan, Doug Mankoff. Produção: Daniel Iron, Simone Urdl, Jennifer Weiss. Elenco: Julie Christie, Gordon Pinsent, Olympia Dukakis, Michael Murphy, Tom Harvey, Stacey LaBerge. Estreia: 11/9/06 (Festival de Toronto)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Julie Christie), Roteiro Adaptado

Em 2001, no voo de volta da Islândia, onde havia acabado de filmar "No such thing", de Hal Hartley, a jovem atriz Sarah Polley - conhecida por filmes como "O doce amanhã" e "Vamos nessa" - deu de cara com o conto "The bear come over the mountain", da escritora Alice Munro e nao pode deixar de imaginar como uma adaptação para o cinema da história poderia ser poderosa, especialmente se o papel principal feminino ficasse nas mãos de Julie Christie, com quem havia acabado de fazer o filme de Hartley. Depois de ver o projeto de seu primeiro filme abortado - a história de uma atriz de doze anos de idade fazendo uma série de televisão - Polley resolveu então recorrer a seu plano B. Roteiro escrito, ela o enviou à Christie, que o recusou por diversas vezes, por mais de um ano até que finalmente dobrou-se à tenacidade da jovem diretora estreante. Surgia assim "Longe dela", um belo e tocante drama sobre o amor, a velhice e a abnegação - que deu a Christie, merecidamente, uma indicação ao Oscar de melhor atriz. Tendo estreado no Festival de Toronto de 2006, porém, o filme só chegou às telas americanas em 2007, o que fez com que a eterna Lara de "Doutor Jivago" batesse de frente com Marion Cottilard em "Piaf, um hino ao amor" - o que acabou com suas chances de vitória. Se tal acontecesse, porém, não seria nada injusto: poucas vezes uma interpretação feminina foi tão sutil e delicada.

Christie - com seus belos olhos azuis e sua beleza plácida em nada prejudicada pelo tempo - faz o papel de Fiona Anderson, uma mulher inteligente e dedicada ao casamento de 44 anos com o professor aposentado Grant (Gordon Pinsent), com quem vive em Ontário, no Canadá. Sem filhos, o casal, ainda apaixonado apesar das crises pelas quais passaram durante essas quatro décadas, se vê, de repente, diante de seu maior desafio: a possibilidade de Fiona ser portadora do mal de Alzheimer, aventada por seus lapsos de memória cada vez mais constantes. A solução encontrada pelos dois, a menos a princípio, é sua internação em um sanatório chamado Meadowlake - um lugar pacífico e agradável onde ela pode conviver com outros pacientes e ser assistida por médicos e enfermeiros especializados. O problema maior do hospital, no entanto, é a regra de manter os pacientes sem visitas durante seus primeiros trinta dias, como forma de facilitar a adaptação. Grant sente-se torturado pela possibilidade, mas quando este período de tempo passa e ele finalmente reencontra a esposa, ela não apenas não o reconhece como o marido de uma vida toda como demonstra um interesse especial por um colega de internação, o também casado Aubrey Barque (Michael Murphy).


Contando sua história fora de ordem cronológica - mas sem os exageros estilísticos com os quais muitos estreantes tentam demonstrar serviço - Sarah Polley demonstra um surpreendente conhecimento da alma humana (especialmente das pessoas de mais idade), desenvolvendo em seus personagens uma profundidade rara (cortesia de sua origem literária, provavelmente). Muitas vezes abdicando dos diálogos e deixando que seus atores (sensacionais) falem mais com os olhos, ela exige do espectador uma sensibilidade quase feminina, desenhada em pequenos gestos e em uma tristeza pungente, que atravessa todo o filme, sublinhada pela trilha sonora minimalista de Jonathan Goldsmith e pela fotografia elegante de Luc Montpellier, que tira proveito da branquidão da neve canadense para enfatizar a solidão dos protagonistas - como se dentro deles também houvesse uma geleira intransponível que só pode ser derretida com o amor e o calor humano, por mais doloroso que ele possa soar.

Em seu terço final, quando fica claro ao espectador a razão pela qual Grant procura a esposa de Aubrey, a conformada Marion (Olympia Dukakis, sempre ótima), "Longe dela" cresce ainda mais. Ousando em um desfecho pouco comum - que consegue ser ao mesmo tempo feliz e extremamente melancólico - Polley desconstroi de forma tênue mas firme as convenções a respeito de casamento, fidelidade e generosidade, entregando ao público uma história forte e comovente a respeito do poder do amor e da lealdade. Amparado por uma atuação monstruosa de Julie Christie e pela força silenciosa de Gordon Pinchent - que perdeu a esposa em janeiro de 2007, quatro meses depois da estreia do filme - "Longe dela" é de deixar o coração apertado, mas aquecido. Uma estreia das mais auspiciosas.


terça-feira

JEFFREY, DE CASO COM A VIDA

JEFFREY, DE CASO COM A VIDA (Jeffrey, 1995, The Booking Office, 92min) Direção: Christopher Ashley. Roteiro: Paul Rudnick, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Jeffery J. Tufano. Montagem: Cara Silverman. Música: Stephen Endelman. Direção de arte/cenários: Michael Johnston/Andrew Baseman. Produção executiva: Kevin McCollum. Produção: Mark Balsam, Mitchell Maxwell, Victoria Maxwell. Elenco: Steven Weber, Sigourney Weaver, Patrick Stewart, Victor Garber, Christine Baranski, Camryn Manheim, Kathy Najimy, Nathan Lane, Olympia Dukakis. Estreia: 04/8/95

Filmes como "Meu querido companheiro" (90) e "E a vida continua" (92) retrataram, com uma boa dose de melancolia e realismo, a devastação causada pela AIDS na comunidade gay norte-americana. A doença, que espalhou paranoia, preconceito e dor entre os homossexuais - até que assumiu o status de epidemia a ultrapassar os limites da sexualidade para encontrar suas vítimas - é também o motor propulsor de "Jeffrey, de caso com a vida", que, apesar do tema sombrio é, surpresa, uma comédia. Baseado em uma peça off-Broadway lançada em 1993, o filme de Christopher Ashley - que também comandou a montagem nos palcos - o filme brinca com os clichês relativos ao mundo gay sem desrespeitá-lo e, através da ironia e do humor debochado, tenta fazer um inventário das relações amorosas entre homens. Em alguns momentos até consegue atingir seus objetivos, mas acaba preso a uma irregularidade que o impede de se tornar melhor do que é.

Jeffrey, o protagonista vivido com gosto e carisma por Steven Weber - que em seguida seria corajoso o bastante para substituir Jack Nicholson em uma versão para a TV de "O iluminado", escrita pelo próprio Stephen King em formato de minissérie - é um ator desempregado que, para ganhar a vida, trabalha como garçons em eventos. Traumatizado com uma sequência de aventuras sexuais frustradas pelo medo da contaminação pelo vírus da AIDS, ele toma uma decisão radical: abdicar totalmente de sexo. Essa categórica decisão não é bem-vista nem por seus pais liberais nem tampouco por seu melhor amigo, Sterling (Patrick Stewart), cujo amante Darius (Bryan Batt) é soropositivo. Todos eles acreditam que o rapaz não precisa do celibato e sim de um novo amor. Esse novo amor surge na pele de Steve Howard (Michael T. Weiss), que ele conhece na academia e por quem imediatamente sente-se atraído. A atração e o apoio dos amigos, porém, não são o suficiente para Jeffrey, que tem medo de envolver-se em uma relação amorosa que pode acabar em dor e sofrimento.


É preciso louvar a coragem do dramaturgo e roteirista Paul Rudnick em transformar um tema tão pesado quanto a AIDS em uma comédia leve e despretensiosa: a sombra da doença paira densa sobre os personagens do filme, sempre lembrando-os de sua existência perniciosa, mas os diálogos e o desenvolvimento da trama fogem com destreza do dramalhão, até mesmo quando ele esmurra com força a porta. Patrick Stewart, por exemplo, usou a tristeza que sentiu ao ler o roteiro como elemento para uma cena dramática de "Jornada nas estrelas: generations" (94). Mas, talvez como maneira de exorcizar o tema, Rudnick preenche suas cenas com um humor ácido e recheado de referências culturais típicas do universo gay, como filmes musicais, programas de auditório cafonas e as mães exageradamente liberais - caso da personagem interpretada pela sempre sensacional Olympia Dukakis, que vive a mãe de um homem gay que se tornou lésbica (!!) e que está em vias de fazer uma operação de mudança de sexo.

Contada de forma episódica - o que enfraquece o desenvolvimento de seus personagens, até mesmo os principais - "Jeffrey" tem a seu favor também a participação especial de nomes consagrados em papéis pequenos. Sigourney Weaver brilha como uma espécie de palestrante de autoajuda a quem o protagonista recorre em seu desejo de aprovação - e que se mostra preconceituosa e arrogante. Patrick Stewart - ícone da série "Star Trek" e dos filmes "X-Men" - vive um gay extremamente afetado mas muito carinhoso e dedicado aos amigos e ao amante. Christine Baranski interpreta uma milionária que dá festas beneficentes como quem troca de sapatos. Victor Garber faz uma ponta como um viciado em sexo que participa do grupo que Jeffrey passa a frequentar. E Dukakis, como já citado, brilha como uma mãe orgulhosa do rebelde rebento. Essas participações dão credibilidade ao filme de Ashley - iniciante em cinema - e disfarçam suas inconsistências dramáticas. A criatividade de muitos momentos - criados para o palco e que nem sempre funcionam na transição para a tela grande - se perde na falta de coesão do resultado final, mas mesmo assim é refrescante ver a praga da AIDS sob um novo - e menos fatalista - ângulo.

MEU PAI, UMA LIÇÃO DE VIDA

MEU PAI, UMA LIÇÃO DE VIDA (Dad, 1989, Amblin Entertainment, 117min) Direção: Gary David Goldberg. Roteiro: Gary David Goldberg, romance de William Wharton. Fotografia: Jan Kiesser. Montagem: Eric A. Sears. Música: Howard Shore. Figurino: Molly Maginnis. Direção de arte/cenários: Jackson De Govia/Thomas L. Roysden. Produção executiva: Steven Spielberg, Kathleen Kennedy, Frank Marshall. Produção: Gary David Golberg, Joseph Stern. Elenco: Jack Lemmon, Ted Danson, Olympia Dukakis, Ethan Hawke, Kathy Baker, Kevin Spacey, J.T. Walsh. Estreia: 10/11/89

Indicado ao Oscar de Maquiagem

A maior expectativa em torno de "Meu pai, uma lição de vida" era uma indicação ao Oscar de melhor ator para Jack Lemmon, um dos grandes astros dos anos 50 e 60 e que, sob o comando de Billy Wilder, já havia legado ao cinema americano obras-primas como "Quanto mais quente melhor" (59) e "Se meu apartamento falasse" (60) - além de ter ganho duas estatuetas, por "Mr. Roberts" (55) e "Sonhos do passado" (73). Quando a lista de indicações saiu, porém, apenas o trabalho de maquiagem do filme foi lembrado pela Academia. Injustiça? Talvez, uma vez que a interpretação de Lemmon é, mais uma vez, sensacional. Mas o fato de a obra de Gary David Goldberg parecer mais um produto televisivo de "doença da semana" do que um produto cinematográfico de qualidade provavelmente pesou na hora h e o veterano ator - assim como sua colega de cena Olympia Dukakis, também soberba - acabou sendo deixado de lado. Porém, mesmo com o fracasso de seu principal objetivo, "Meu pai" merece ser assistido, nem que seja para comprovar o talento acima da média de seu protagonista - se é que ainda possa existir alguma dúvida quanto a isso.

Baseado em romance de William Wharton, "Meu pai, uma lição de vida" busca a emoção do público ao retratar o relacionamento entre pai e filho que são obrigados a conviver novamente depois que a velhice chega inexoravelmente à sua família. Tudo começa quando a ativa Bette Tremont (Olympia Dukakis) sofre uma parada cardíaca em pleno supermercado, o que a leva imediatamente ao hospital. O fato muda a rotina de sua família, uma vez que é ela, sozinha, quem cuida do dia-a-dia do marido, Jake (Jack Lemmon), de saúde frágil e dependente da atenção da esposa. Enquanto Bette permanece internada, é seu filho mais velho, John (Ted Danson) quem passa a pajear o pai, com quem mantém uma relação de certa distância emocional. Durante esse período, porém, surge entre eles uma inesperada amizade e o próprio Jake passa a tomar um pouco as rédeas de seus dias. Quando Bette retorna ao lar, no entanto, é seu marido quem sofre um derrame e entra em coma - do qual ressurge ainda mais ativo e saudável. Essa nova fase surpreende a todos (não exatamente de forma positiva, já que Bette é obrigada a lidar com uma desconhecida face do marido) e faz com que John perceba que está perdendo a juventude do próprio filho, o adolescente Billy (Ethan Hawke).


Experiente em programas de televisão - como "Caras e caretas" e "Spin City", dos quais foi roteirista e de onde tirou a facilidade em impor ritmo a suas narrativas - o diretor Gary David Golberg tropeça justamente no ponto que deveria, em tese, ser seu maior trunfo, e oferece ao espectador um roteiro sem um foco específico, que muda de direção a cada novo lance dramático (e eles são em número suficiente para que tudo soe como exagero). A relação entre John e seu pai - a princípio o ponto principal da trama - é frequentemente interrompida com novas tragédias, o que dá a impressão de tratar-se de um compêndio médico sobre as mazelas da velhice. Tal opção - que é também culpa do romance original - esvazia bastante a premissa inicial, resumindo o filme a um dramalhão familiar fácil e sentimentaloide, valorizado basicamente por seu elenco, que faz o possível para manter o interesse por uma história que a cada cena vai ficando mais e mais previsível - e até Kevin Spacey entra no jogo, em um de seus primeiros papéis de relativa importância, como o genro de Lemmon e Dukakis.

Então quer dizer que no final das contas "Meu pai, uma lição de vida" é uma bomba? Não, não é pra tanto. Nenhum filme que conte com Jack Lemmon e Olympia Dukakis em papéis importantes pode ser considerado ruim, uma vez que eles são atores superlativos, capazes de engrandecer qualquer texto. Mas Gary David Goldberg perdeu a oportunidade de criar um grande filme justamente por não conseguir impor limites ao dramalhão desbragado que toma conta dela a partir da metade da narrativa - que ainda por cima apresenta uma nova e desnecessária doença ao protagonista, que desvia mais uma vez o rumo da história, a tornando mais longa do que o recomendável. Com alguns defeitos que enfraquecem suas qualidades, é uma obra irregular, mas palco de mais um show de Jack Lemmon, um dos maiores atores de todos os tempos.

quarta-feira

EU E AS MULHERES


EU E AS MULHERES (In the land of women, 2007, Castle Rock Entertainment, 97min) Direção e roteiro: Jonathan Kasdan. Fotografia: Paul Cameron. Montagem: Carol Littleton. Música: Stephen Trask. Figurino: Trish Keating. Direção de arte/cenários: Sandy Cochrane/Louise Roper. Produção executiva: Lawrence Kasdan. Produção: Steve Golin, David Kanter. Elenco: Adam Brody, Meg Ryan, Kristen Stewart, Olympia Dukakis, Elena Ayala, Jobeth Williams, Clark Gregg. Estreia: 16/04/07

Filho mais velho do cineasta Lawrence Kasdan - diretor de títulos essenciais da filmografia americana dos anos 80, como "O reencontro" e "Silverado", além de roteirista de "Caçadores da Arca Perdida" - o jovem Jonathan Kasdan preferiu fazer sua estreia atrás das câmeras sem muito alarde. Roteirista de episódios das séries "Dawson's Creek" e "Freaks & Geeks", ele aproveitou seu conhecimento da juventude americana de seu tempo e criou o delicado e sutilmente engraçado "Eu e as mulheres". Simpático e doce, o filme não chega a ser uma obra-prima, mas revela em Kasdan um olhar atento à sensibilidade humana.

Talvez haja um pouco - ou muito - de Kasdan em seu protagonista, Carter Webb, um roteirista de filmes eróticos vivido com graça e discrição pelo ótimo Adam Brody. Recém chutado pela bela namorada, a atriz Sofia Buñuel (Elena Ayala), ele resolve dar um tempo em sua atribulada vida em Los Angeles e vê na doença de sua avó (Olympia Dukakis, sensacional) a oportunidade de mudar-se por um tempo para Detroit. Enquanto ajuda a senhora idosa - cuja demência a deixa cada vez mais apática e distante - Carter resolve escrever sua obra-prima, longe das influências de sua cidade. Sua paz começa a sofrer interrupções, porém, quando ele conhece a família que mora diante de sua nova casa. Os Hardwicke - formado por um casal com duas filhas - logo torna-se parte de sua nova rotina, especialmente a filha mais velha, Lucy (Kristen Stewart) e a mãe, Sarah (Meg Ryan). Ao passo que Lucy tenta lidar com o despertar de sua sexualidade, Sarah descobre sofrer de câncer. É Carter quem irá servir de apoio às duas.


Não há maiores lances e reviravoltas em "Eu e as mulheres". O roteiro de Kasdan é sutil, fazendo piadas que não almejam gargalhadas e criando dramas que não exigem lágrimas. Seu olhar é quase contemplativo, deixando que as personagens vivam seus tormentos sem interferência exagerada da fotografia ou da edição. Nem mesmo a trilha sonora tenta sobrepor-se à história contada, sendo apenas um complemento às cenas, conduzidas com leveza e um senso de humor carinhoso com os protagonistas. Nem mesmo as piadas internas - que satirizam o meio cinematográfico - soam autocomplacentes, o que revela no jovem filho de Lawrence uma promessa bastante empolgante.

Mas é na direção de atores que Jonathan Kasdan consegue ser ainda mais bem-sucedido. Adam Brody encarna com perfeição o protagonista desajeitado e vulnerável que se vê obrigado a amadurecer para ajudar desconhecidos e Kirsten Stewart mostra que, antes de tornar-se a chatonilda mor da série "Crepúsculo" tinha expressões faciais variadas e sabia atuar. Mas é Meg Ryan o maior destaque. Fugindo do seu papel de sempre - a mocinha das comédias românticas - a atriz surpreende com uma interpretação contida e dramática, que jamais apela para o sentimentalóide. Só o fato de ter dado à eterna Sally Albright um papel à altura de seu talento já faria de seu jovem diretor um cara bom. Para sorte do público, ele tem ainda outras qualidades que deve provar em breve.

segunda-feira

MR. HOLLAND, ADORÁVEL PROFESSOR

MR. HOLLAND, ADORÁVEL PROFESSOR (Mr. Holland's Opus, 1995, Hollywood Pictures/Polygram Filmed Entertainment, 143min) Direção: Stephen Hereck. Roteiro: Patrick Sheane Duncan. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Trudy Ship. Música: Michael Kamen. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: David Nichols/Jan Bergstrom. Produção executiva: Patrick Sheane Duncan, Scott Kroopf. Produção: Robert W. Cort, Ted Field, Michael Nolin. Elenco: Richard Dreyfuss, Glenne Headly, Jay Thomas, Olympia Dukakis, William H. Macy, Alicia Witt, Terrence Howard, Forest Whitaker, Joanna Gleason, Joseph Anderson. Estreia: 29/12/95

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Richard Dreyfuss)

Não há como subestimar o poder de um grande ator. Mesmo muito tempo depois de ser um dos mais populares astros de Hollywood - o que aconteceu nos anos 70, quando trabalhou com Steven Spielberg em "Tubarão" e "Contatos imediatos de terceiro grau" - Richard Dreyfuss é a principal razão pela qual o drama "Mr. Holland, adorável professor" fez o sucesso que fez nas bilheterias americanas. Mesmo sem ter a seu favor uma beleza estonteante ou fazer parte de qualquer franquia milionária, Dreyfuss tem carisma o bastante para fazer com que o filme de Stephen Herek tenha rendido mais de 80 milhões de dólares somente no mercado americano. Indicado ao Oscar por seu precioso trabalho, ele teve o azar de bater de frente com o ultra-premiado Nicolas Cage. Caso contrário, era bem possível que também tivesse conquistado os eleitores da Academia mais uma vez, quase vinte anos depois de sua primeira vitória, por "A garota do adeus".

Quando a história de "Mr. Holland" começa, em 1965, o protagonista tem 30 anos de idade, enquanto Dreyfuss já estava perto dos cinquenta. Basta alguns minutos, porém, para que esse pequeno problema matemático seja abstraído, graças à atuação gigantesca do ator. Ele vive Glenn Holland, que tem como maior sonho de sua vida compor uma sinfonia para deixá-lo rico e famoso. Buscando tempo suficiente para atingir seu objetivo, ele arruma um trabalho como professor de Apreciação Musical em uma tradicional escola do interior dos EUA. A princípio frustrado com sua falta de vocação, logo ele descobre uma maneira pouco tradicional de conquistar seus alunos: misturando Bach com rock'n'roll, ele choca seus superiores, mas seduz seus estudantes, que passam a admirá-lo incondicionalmente. A cada dia mais e mais empurrado para longe da realização de seu sonho - principalmente por compromissos financeiros domésticos - ele não percebe a passagem dos anos, até que, trinta anos depois, quando a escola decide fechar o departamento de música, ele nota que sua vida girou em torno de influenciar todos os que passaram por suas aulas.



O roteiro de Patrick Sheane Duncan - indicado ao Golden Globe - faz milagres ao compactar trinta anos de movimentos sociais e musicais em pouco mais de duas horas de duração sem soar apressado ou superficial. Seu maior toque de inteligência foi utilizar um sub-gênero hollywoodiano - o filme de professor - para contar uma trama que alterna momentos puramente emocionais com uma disfarçada crítica às instituições de ensino americanas, bem como sua história. Traumas como a guerra do Vietnã e a morte de John Lennon são o pano de fundo para a trajetória de um homem comum, que precisa lidar com problemas pessoais - como a surdez do único filho - ao mesmo tempo em que precisa ser a inspiração para adolescentes em ebulição. E é comovente como ele ajuda a tímida Gertrude Lang (Alicia Witt) a levantar a auto-estima, o problemático Louis Russ (Terrence Howard) a manter-se na escola e a talentosa Rowena Morgan (Jean Louisa Kelly) a buscar suas aspirações - e com quem tem um perigoso flerte. Seus alunos, como bem diz uma personagem na sequência final, são sua sinfonia. E entre eles, em participações não creditadas, estão atores como Forest Whitaker e Balthazar Getty.

E a música é elemento fundamental em "Mr. Holland, adorável professor". Ao acompanhar a evolução rítmica do mundo ocidental, da década de 60 - quando o rock ainda estava em seu período áureo - até a metade dos anos 90, o público é brindado com um apanhado de belas canções, que vão de Gershwin a Beatles. E é justamente a morte de John Lennon a responsável pela mais bela cena do filme, quando Holland faz uma singela homenagem ao filho cantando "Beautiful boy", que o ex-Beatle compôs para o herdeiro Sean. São esses momentos de absoluta ternura que conquistam a plateia, a despeito de estarem perigosamente perto do piegas. E é aí que o talento de seus protagonistas faz toda a diferença.

Richard Dreyfuss é um dos atores mais sensacionais do cinema americano e demonstra isso em cada momento de "Mr. Holland". Dos 30 aos 60 anos de idade, ele convence plenamente, seja como professor dedicado, como compositor frustrado ou marido em crise de meia-idade. Capaz de emocionar e fazer rir, ele encontra em Glenne Headly uma parceira ideal. Na pele de Iris, sua esposa fiel e companheira, a atriz não deixa o astro eclipsar um trabalho sutil e delicado, injustamente esquecido pelas cerimônias de premiação do ano de 1995. Juntos, o casal conduz o público por um caminho emocionante, agradável e pontuado por uma trilha sonora deliciosa.

O único problema de "Mr. Holland, adorável professor" é que ele é capaz de despertar lágrimas até mesmo no mais empedernido espectador. E nem todo mundo gosta de assumir seu lado sensível...

terça-feira

PODEROSA AFRODITE

PODEROSA AFRODITE (Mighty Aphrodite, 1995, Miramax Films/Magnolia Pictures/Sweetland Films, 95min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo DiPalma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Produção executiva: J.E. Beaucaire, Jean Doumanian. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Helena Bonham-Carter, Mira Sorvino, Peter Weller, Michael Rapaport, F. Murray Abraham, Olympia Dukakis, Jack Warden, Paul Giamatti. Estreia: 27/10/95


2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Mira Sorvino), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Mira Sorvino)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Mira Sorvino)

Por mais paradoxal que seja essa afirmação, o escândalo envolvendo o nome de Woody Allen no início dos anos 90 - quando trocou a parceira amorosa e profissional Mia Farrow pela adolescente Sun-Yi Previn, filha adotiva dela - fez dele um cineasta mais leve. Filmes como "Misterioso assassinato em Manhattan" e "Tiros na Broadway" devolveram ao público o diretor bem-humorado de obras-primas como "Noivo neurótico, noiva nervosa" e "Zelig", em contraponto ao baixo-astral e pessimismo de "Crimes e pecados" e "Setembro", que por melhores que sejam, deixavam um gosto agridoce ao final da sessão. Essa fase 'de bem com a vida' de Allen encontra em "Poderosa Afrodite" seu auge. Otimista e alegre - sem nunca perder, no entanto, o olhar irônico do cineasta - o filme deu a Mira Sorvino o Oscar de atriz coadjuvante e agradou gregos e troianos. E sem trocadilho, é justamente um coro de tragédia grega que comenta e narra a curiosa história de Lenny Weintraub e sua busca pela mãe biológica de seu filho adotivo.

O próprio Allen interpreta o protagonista, depois de uma pausa em que foi substituído por John Cusack em "Tiros na Broadway". Lenny Weintraub é um comentarista esportivo que vive um casamento estável e amoroso com a marchand Amanda (Helena Bonham-Carter). Sua família se completa quando eles adotam Max, que, na infância, demonstra uma inteligência ímpar. Curioso a respeito das origens do filho, Lenny chega até sua mãe verdadeira, a bela Linda Ash (Mira Sorvino), uma ex-atriz de filmes pornô que ganha a vida como prostituta. Apesar de sexy e atraente, Linda é bastante limitada intelectualmente, o que não impede que uma atração surja entre ela e Lenny, que passa por uma crise em seu relacionamento. Para não cair na tentação, o jornalista resolve então bancar o cupido e arrumar um marido para Linda e tirá-la da vida fácil. O escolhido é o boxeador Kevin (Michael Rapaport), também pouco dotado de inteligência.



Assim como acontece nos melhores filmes do cineasta, "Poderosa Afrodite" é uma crítica ácida e sarcástica sobre as relações humanas. Sem a sofisticação de "Hannah e suas irmãs", por exemplo, é uma comédia que pode ser considerada romântica, ainda que esteja a anos luz de todas as características que regem o gênero. Pra começo de conversa, o romance entre Lenny e Linda não pode jamais ser chamado de uma história de amor, ao menos no sentido convencional do termo. O que acontece entre os dois é um belo golpe do destino - tema recorrente da obra do diretor - narrado por um genial coro de tragédia grega (o oráculo, por sua vez, assume a forma de um mendigo cego vivido por Jack Warden). Como acontece frequentemente nos filmes de Allen, um ciclo é fechado quando os créditos finais iniciam - e aqui isso acontece deliciosamente com a canção "When you smile". No mínimo, otimista!

E mais uma vez Woody Allen cercou-se de atores geniais. Helena-Bonham Carter sai do século XIX - cenário da vasta maioria de sua filmografia - para encarnar uma Amanda moderna, ciosa dos deveres de mãe, mas preocupada com os rumos de sua carreira e casamento (principalmente quando se envolve com outro homem, vivido pelo Robocop em pessoa, Peter Weller). Michael Rapaport é encantador como Kevin, alternando uma ingenuidade ululante com uma masculinidade latente. E Mira Sorvino rouba todas as cenas em que aparece com a genial construção de sua Linda Ash. Aproveitando cada hilária linha de diálogo oferecida por Allen, a filha do ator Paul Sorvino - que foi mais uma vítima da temível "síndrome do Oscar" - deita e rola com uma personagem que lhe cabe como uma luva. A voz estridente, o jeito de andar e até o visual de Linda foram ideias da atriz, acatadas com entusiasmo por Allen, que, assim, reafirma seu status de grande diretor de coadjuvantes.

"Poderosa Afrodite" é um dos filmes mais alto-astral da carreira de Woody Allen, e isso fica patente no humor que escorre de cada cena, de cada personagem, de cada situação. Allen estava feliz e fez sua plateia sorrir alegremente. Como diz a canção dos créditos finais, "quando você sorri, o mundo todo sorri com você...."

domingo

FLORES DE AÇO

FLORES DE AÇO (Steel magnolias, 1989, Columbia Pictures, 117min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Robert Harling, peça teatral de sua autoria. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Paul Hirsch. Música: Georges Delerue. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Gene Callahan, Edward Pisoni/Garrett Lewis, Lee Poll. Casting: Hank McCann. Produção executiva: Victoria White. Produção: Ray Stark. Elenco: Sally Field, Dolly Parton, Julia Roberts, Daryl Hannah, Shirley MacLaine, Olympia Dukakis, Tom Skerrit, Dylan McDermot, Sam Shepard. Estreia: 15/11/89

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Julia Roberts)
Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Julia Roberts) 

Em 1977, o cineasta Herbert Ross esteve em seu auge, chegando a concorrer consigo mesmo ao Oscar de Melhor Filme - graças à comédia romântica "A garota do adeus" e ao drama de balé "Momento de decisão". Depois, teve uma carreira irregular, onde sucessos de bilheteria como "Footloose" e "O segredo do meu sucesso" dividiam espaço com obras bem menos consideradas, como o fraco "Dinheiro do céu". Em 1989 ele voltou a chamar a atenção da crítica e do público com um filme cujo grandioso elenco feminino seria praticamente impossível de ignorar: "Flores de aço", um dramalhão familiar disfarçado de comédia de costumes que hoje em dia só é realmente lembrado por ter sido a primeira real oportunidade da carreira de Julia Roberts, que foi indicada ao Oscar de coadjuvante.

Apesar de ser coadjuvante (e ter ficado com o papel oferecido a Winona Ryder e Meg Ryan), é a personagem de Roberts que serve como fio condutor e ponto em comum das personagens criadas pelo roteiro de Robert Harling (que escreveu a peça teatral que deu origem ao roteiro em homenagem à irmã, morta depois de uma cirurgia mal-sucedida). Pouco antes de ser alçada à condição de mega-estrela com sua participação em "Uma linda mulher" (que estrearia nos cinemas poucos meses depois), Roberts vive Shelby, uma jovem diabética que, nas primeiras cenas do filme, se casa com seu príncipe encantado, o charmoso Jackson (Dylan McDermott) e parte para uma vida distante da pequena cidade da Louisianna, onde vive sua família, liderada pela superprotetora M'Lynn (Sally Field). O filme conta a trágica história de Shelby - que tem diabetes e arrisca uma gravidez perigosa para formar uma família - através dos olhos de um grupo de mulheres que frequentam o salão de beleza da exuberante Truvy (Dolly Parton). As reuniões femininas que tem lugar na casa da esteticista acabam sendo o mais perto que todas elas tem de reuniões familiares - ainda que algumas delas realmente tenham uma família de verdade.



"Flores de aço" é um filme para mulheres e não é sexismo ou preconceito afirmar isso. As personagens masculinas pouco aparecem ou tem participação ativa na trama (ainda que o elenco conte com nomes importantes como Tom Skerrit e Sam Shepard), deixando que o "sexo frágil" mande no jogo o tempo todo. No entanto, o resultado final, apesar das promessas, não deixa de ser insatisfatório. Ao concentrar seu foco na relação entre M'Lynn e Shelby, Ross ganha em parte - porque Sally Field e Roberts dão conta do recado lindamente - mas perde por não dar oportunidade de brilho a outros membros do seu formidável elenco. Shirley MacLaine, por exemplo, tem o ingrato papel de uma matrona desagradável e mau-humorada e nem mesmo o inegável talento da atriz consegue tirar muito da superficialidade de sua personagem. E Daryl Hannah, enfeiada propositalmente para viver a cabeleireira, tem um dos trabalhos mais pálidos de sua carreira.

"Flores de aço" é considerada uma comédia dramática. Como drama funciona muito bem - apesar de exagerar na sacarina em seu final. Como comédia, no entanto, não desperta mais do que alguns sorrisos tímidos. Vale para ver Julia Roberts antes de virar a atriz mais bem paga de Hollywood.

sexta-feira

UMA SECRETÁRIA DE FUTURO


UMA SECRETÁRIA DE FUTURO (Working girl, 1988, 20th Century Fox, 113min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Kevin Wade. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Sam O'Steen. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/George DeTitta. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Robert Greenhut, Laurence Mark. Produção: Douglas Wick. Elenco: Melanie Griffith, Harrison Ford, Sigourney Weaver, Joan Cusack, Alec Baldwin, Kevin Spacey, Philip Bosco, Oliver Platt, Olympia Dukakis, David Duchovny. Estreia: 20/12/88

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mike Nichols), Atriz (Melanie Griffith), Atriz Coadjuvante (Joan Cusack, Sigourney Weaver), Canção ("Let the river run")
Vencedor do Oscar de Melhor Canção Original ("Let the river run")
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Comédia/Musical (Melanie Griffith), Atriz Coadjuvante (Sigourney Weaver), Canção Original ("Let the river run")


Tess McGill é uma trintona que mora em Nova Jersey e trabalha como secretária na ilha de Manhattan. Com dificuldades de manter-se nos empregos que arruma, ela vive um romance fogo brando com o seu eterno namorado Mick (Alec Baldwin) e passa suas noites frequentando festinhas suburbanas ao lado da melhor amiga, Cyn (Joan Cusack). No entanto, sua sorte muda quando ela começa a trabalhar no escritório de Kathryn Parker (Sigourney Weaver), que divide com ela a ambição de subir na vida. Tess McGill não é um exemplo ético. Tess McGill é a protagonista de "Uma secretária de futuro", a mais bem-sucedida comédia romântica do diretor Mike Nichols desde "A primeira noite de um homem". Cotada para ser vivida por Michelle Pfeiffer, Geena Davis, Carrie Fisher, Kim Basinger, Kathleen Turner, Debra Winger, Diane Lane e Sarah Jessica Parker, ela acabou nas mãos de Melanie Griffith, que aproveitou a chance com tudo e acabou finalista ao Oscar de melhor atriz.

Quando "Uma secretária de futuro" começa, Tess McGill está saindo de um emprego insatisfatório e começando a trabalhar como secretária de Kathryn, uma mulher linda e bem-sucedida que não hesita em roubar descaradamente uma ideia de Tess, envolvendo a compra de uma emissora de rádio. Ao descobrir a traição da chefe - quando ela fica fora da cidade devido a um acidente de esqui - a ambiciosa secretária resolve dar a volta por cima. Passando-se por executiva, ela conta com a ajuda do atraente Jack Trainer(Harrison Ford) para conquistar seu lugar ao sol. Sua farsa, no entanto, corre o risco de ser desmascarada quando ela descobre que justamente que o homem por quem está perdidamente apaixonada é também amante de sua patroa.


"Uma secretária de futuro" não é exatamente um filme brilhante, como alguns dos filmes assinados por Mike Nichols (em especial "A primeira noite" e "Closer, perto demais"). Mas tem um charme oitentista que conquista desde os créditos de abertura (ao som da canção de Carly Simon vencedora do Oscar) até o visual exagerado tanto da protagonista em suas primeiras cenas quanto das coadjuvantes - é engraçado reparar na clara divisão entre o kitsch anos 80 do figurino e dos penteados das suburbanas secretárias e do requinte clean da classe "superior". Sigourney Weaver, em especial, esbanja beleza e classe, metida em vestidos caríssimos e vivendo em um apartamento chique, enquanto Tess e suas amigas habitam um mundo quase escuro - matizado apenas pela maquiagem sempre acima do básico.

"Uma secretária de futuro" é também o auge da carreira de Melanie Griffith, uma atriz sem maiores talentos dramáticos que, depois de uma vida regada a drogas e álcool, se reergueu artisticamente aqui. Depois de algumas escolhas equivocadas posteriores - a saber "A fogueira das vaidades", de Brian de Palma e "Uma luz na escuridão", ao lado de Michael Douglas - ela voltou a seu quase anonimato, sendo notícia quase sempre devido a seu casamento com o ator espanhol Antonio Banderas. Na pele de Tess, no entanto, Griffith - filha da atriz Tippi Hedren, de "Os pássaros" - brilha, em uma atuação discreta, eficiente e envolvente. Por incrível que pareça é ela que dá luz ao filme, mesmo dividindo cenas com as sensacionais Weaver e Joan Cusack - ambas indicadas ao Oscar de coadjuvante.

"Uma secretária de futuro" é a cara de seu tempo, pro bem e pro mal. Lançado em um momento em que as mulheres buscavam desesperadamente seu espaço no mercado de trabalho e o movimento yuppie estava em seu apogeu - é dessa época a famosa frase de Gordon Gekko em "Wall Street" que dizia que "ganância é bom!" -, foi o filme certo no momento certo. Daí talvez sua reputação um tanto exagerada - inclusive como finalista ao Oscar de melhor filme. É uma comédia romântica interessante - ainda que não seja exatamente uma comédia rasgada - e que retrata com ironia e condescendência um importante momento social e econômico americano, sem apelar para lições de moral. Divertido e simpático! O que mais se espera de um filme assim?

PS - E de quebra, "Uma secretária de futuro" conta com uma participação pequena de Kevin Spacey, no início de uma brilhante carreira.

domingo

FEITIÇO DA LUA


FEITIÇO DA LUA (Moonstruck, 1987, MGM Pictures, 102min) Direção: Norman Jewison. Roteiro: John Patrick Shanley. Fotografia: David Watkin. Montagem: Lou Lombardo. Música: Dick Hyman. Figurino: Theoni V. Aldredge. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg. Casting: Howard Feuer. Produção: Norman Jewison, Patrick Palmer. Elenco: Cher, Nicolas Cage, Vincent Gardenia, Olympia Dukakis, John Mahoney. Estreia: 18/12/87

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Norman Jewison), Atriz (Cher), Ator Coadjuvante (Vincent Gardenia), Atriz Coadjuvante (Olympia Dukakis), Roteiro Original
Vencedor de 3 Oscar: Atriz (Cher), Atriz Coadjuvante (Olympia Dukakis), Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Atriz/Comédia ou Musical (Cher), Atriz Coadjuvante (Olympia Dukakis)


Como é bom perceber que mesmo dentro de um gênero em tese tão repleto de clichês e armadilhas como as comédias românticas ainda é possível ser criativo, delicado e surpreendente! Premiado merecidamente com o Oscar de roteiro original, "Feitiço da lua", dirigido pelo normalmente seríssimo Norman Jewison é uma simpática história de amor, dona de um humor passional e repleta de diálogos brilhantes. Mesmo fugindo da ambição de ser inesquecível, é um filme que conquista pela inteligência, pelo bom-humor e pelo elenco impecável. Não foi à toa que Cher e Olympia Dukakis também levaram suas estatuetas para casa, por entregarem luminosas performances.

Ficando com o papel originalmente escrito com Sally Field em mente, Cher provou-se como atriz séria - e não apenas uma cantora exótica e frequentemente espalhafatosa - na pele de Loretta Castorini, uma contadora descendente de italianos que vive no Brooklyn e que há muito deixou de acreditar em coisas como romances. Precocemente viúva, ela é pedida novamente em casamento por Johnny Cammameri (Danny Aiello), um homem mais velho e também longe de ser um exemplo de romantismo. Ao viajar para a Itália a fim de acompanhar os dias finais de vida de sua mãe, ele pede a Loretta que entre em contato com seu irmão, com quem ele rompeu anos antes, para uma reaproximação. Obediente, Loretta vai até o raivoso Ronny (Nicolas Cage), um padeiro que não tem uma das mãos e que culpa o irmão por isso. Ao tentar convencê-lo a ir à cerimônia, Loretta acaba se apaixonando por ele.


A qualidade do roteiro de John Patrick Shanley é inegável. Além de contar a história do belo romance entre Loretta e Ronny - que explode ao som de "La Boheme" - Shanley aproveita para criar personagens complexos e interessantes na família Castorini. Vincent Gardenia conquista pela simpatia com que conduz a aventura extra-conjugal de seu Cosmo, que busca reconquistar a juventude perdida envolvendo-se com outra mulher. E Dukakis mereceu seu prêmio de coadjuvante graças a seu trabalho delicado como Rose, uma mãe de família tentando entender a força que a lua cheia dá a seus familiares.

Ao brincar com a lenda que dá à comunidade italiana a fama de romântico/passional, "Feitiço da lua" oferece a seu público bem mais do que simplesmente uma comédia romântica: é simpático, encantador e deliciosamente sedutor. O trabalho de Cher é sutil, mas irrepreensível - até mesmo seu sotaque e seu jeito exagerado de falar e gesticular soam naturais e verdadeiros. E não há como não se deixar envolver por um filme cujos créditos de abertura apresentam a bela "That's amore" na voz de Dean Martin. Para ver com um sorriso no rosto!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...