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quarta-feira

LOBO

 


LOBO (Wolf, 1994, Columbia Pictures, 125min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Jim Harrison, Wesley Strick. Fotografia: Giuseppe Rotunno. Montagem: Sam O'Steen. Música: Ennio Morricone. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Jim Dultz, Juliet Taylor/Linda DeScenna. Produção executiva: Robert Greenhut, Neil Machlis. Produção: Douglas Wick. Elenco: Jack Nicholson, Michelle Pfeiffer, James Spader, Christopher Plummer, Kate Nelligan, Richard Jenkins, David Hyde Pierce, Eileen Atkins, Ron Rifkin. Estreia: 17/6/94

Quando o ator Jack Nicholson e seu amigo e parceiro profissional, o roteirista Jim Harrison, tiveram a ideia de fazer um filme sobre lobisomens, jamais imaginaram que, apesar do prestígio do astro, ainda demorariam mais de uma década para vê-lo nas telas. Com algumas pequenas alterações na trama originalmente imaginada - o protagonista deixou de ser um advogado para virar um editor literário, por exemplo - e mudanças no elenco durante a fase de pré-produção - até mesmo Marlon Brando esteve envolvido com o projeto em determinado momento -, "Lobo" estreou no verão norte-americano de 1994 com grandes expectativas por parte do público e da Columbia Pictures, ávida por um sucesso de bilheteria mas temerosa devido a fracas exibições-teste, que adiaram seu lançamento por quase um ano. Dirigido pelo experiente Mike Nichols e com o objetivo de conquistar um público adulto e mais exigente - em tese o oposto das plateias que lotavam as salas para testemunharem banhos de sangue adolescente -, o filme acabou por decepcionar a todos: não apenas teve uma bilheteria doméstica morna (que nem chegou a cobrir seu orçamento de aproximadamente 70 milhões de dólares) como ficou aquém, em termos artísticos, ao que se poderia esperar da reunião de Jack e Mike - que, juntos, já haviam realizado "Ânsia de amar" (1971), O golpe do baú" (1976) e "A difícil arte de amar" (1986).

Sugerido para a direção por Jack Nicholson - que tinha direito à palavra final na escolha do nome para a condução do projeto -, Mike Nichols oferece a "Lobo" uma visão elegante e madura, realçada por um elenco de primeira linha e uma equipe técnica brilhante. Da fotografia impressionante do italiano Giuseppe Rotunno (colaborador frequente de Fellini e Visconti) à trilha sonora quase minimalista de Ennio Morricone (que substituiu John Williams devido ao atraso do cronograma de produção), tudo no filme respira classe. Sem apelar para a violência extrema (o que de certa forma decepcionou parte do público), Nichols conduz seu filme com um tom de seriedade muito bem-vindo - não à toa alguns temas citados por ele a respeito da obra (a morte de Deus, o declínio da civilização ocidental e até a epidemia da AIDS) são bastante densos e contrastam radicalmente da falta de conteúdo da maioria das produções do gênero. Tanta preocupação com subtextos, no entanto, não conseguem esconder o fato de que, a despeito de suas qualidades de produção, o filme de Nichols falha em sua principal missão: contar sua história de forma marcante - ou a menos com a força que se espera de uma produção de seu nível. O público fã do gênero tem muito a gostar, mas o resultado final não deixa de ser um tanto frustrante.

 

A trama criada por Jim Harrison - e reescrita por Wesley Strick, para desgosto do autor original - já começa em plena ação: o editor literário Will Randall (Jack Nicholson), em uma viagem de volta ao lar, atropela e é mordido por um lobo em plena noite de lua cheia. Ao mesmo tempo em que começa a perceber estranhas mudanças em seu organismo - a audição fica apurada, sua força física aumenta e o faro torna-se mais potente -, Randall vê sua vida entrar em franca decadência. Demitido por seu chefe, Raymond Alden (Christopher Plummer), abandonado pela esposa, Charlotte (Kate Nelligan), e traído por seu homem de confiança, Stewart Swinton (James Spader), Randall encontra apenas um consolo: a atração recíproca que sente pela bela filha de Alden, a voluntariosa Lauren (Michelle Pfeiffer). Conforme vai percebendo que o ataque do lobo pode tê-lo transformado em um lobisomem, o executivo aproveita as vantagens da situação ao mesmo tempo em que se preocupa com a possibilidade de ver sua nova natureza assumir um tom violento e irracional.

Dotado de uma narrativa convencional - mas com uma edição ágil o bastante para não aborrecer às plateias mais jovens -, "Lobo" apresenta qualidades quase redentoras, como a atuação habitualmente caprichada de Jack Nicholson, a beleza estonteante de Michelle Pfeiffer (em papel recusado por Sharon Stone e Annette Bening e que quase ficou com Mia Farrow, em meio à sua polêmica confusão com Woody Allen) e o roteiro que enfatiza o tom de suspense que acompanha o folclore em torno dos lobisomens. Não deixa de ser atípico ver um cineasta como Mike Nichols (mais acostumado com relações pessoais e crises sentimentais do que com efeitos visuais) no comando de uma obra tão comercial, mas seria ainda mais surpreendente se a primeira escolha do estúdio tivesse se mantido: ninguém menos que Stanley Kubrick foi sondado para a tarefa - e recusou, para surpresa de ninguém. É de se imaginar o que o britânico poderia ter feito com o material (não se pode esquecer que já havia dirigido Jack Nicholson em outro filme de terror, o infame "O iluminado", de 1980), mas certamente teria sido menos esquecível - para o bem ou para o mal.

terça-feira

FAMÍLIA HOLLAR


FAMÍLIA HOLLAR (The Hollars, 2016, Sony Pictures Classics, 88min) Direção: John Krasinski. Roteiro: Jim Strouse. Fotografia: Eric Alan Edwards. Montagem: Heather Persons. Música: Josh Ritter. Figurino: Caroline Eselin. Direção de arte/cenários: Daniel B. Clancy/Gretchen Gattuso. Produção executiva: Michael London, Mike Sablone, Jim Strouse, Janice Williams. Produção: John Krasinski, Ben Nearn, Tom Rice, Allyson Seeger. Elenco: John Krasinski, Richard Jenkins, Margo Martindale, Anna Kendrick, Shartlo Copley, Charlie Day, Randall Park, Josh Groban, Mary Kay Place, Ashley Dyke. Estreia: 24/01/2016 (Festival de Sundance)

Quando o terror "Um lugar perigoso" estreou, em 2018, muita gente se surpreendeu com o talento de seu diretor: conhecido por seu desempenho na série "The office" (2005-2013), onde interpretava o bom-moço Jim Halpert, o jovem John Krasinski mostrava, então, uma faceta que não era exatamente nova para os fãs de cinema independente, que o acompanhavam desde sua estreia como diretor de longas-metragens - com o elogiado mas pouco visto "Breves entrevistas com homens hediondos", de 2009. Sensível, discreto e dotado de um senso de humor caloroso e humano, Krasinski atingiu, em seu segundo filme, o equilíbrio perfeito entre drama, comédia e romance. "Família Hollar" pode não ser um exemplo de originalidade (e tampouco tenta subverter as regras do cinema mainstream), mas é uma deliciosa sessão de risadas e lágrimas, defendida por um elenco acima de qualquer crítica e amparada por um roteiro redondinho, do qual é impossível não se gostar.

Se o filme tem um personagem principal, este é John Hollar, interpretado pelo próprio diretor: às vésperas de tornar-se pai pela primeira vez e frustrado com uma carreira de desenhista de graphic novels que não deslancha, ele é chamado às pressas para voltar à sua cidade natal quando sua mãe, a agregadora Sally (Margo Martindale), é diagnosticada com um tumor cerebral. Chegando em casa, ele encontra uma família à beira do colapso: seu pai, Don (Richard Jenkins), está falido, e seu irmão, Ron (Shartlo Copley), não consegue superar o divórcio e vive em constante conflito com a ex-mulher a respeito das duas filhas pequenas. Além disso, o enfermeiro que cuida de sua mãe, Jason (Charlie Day), agora é casado com sua ex-namorada, Gwen (Mary Elizabeth Winstead) - que deixa bem claro a quem quiser ouvir que ainda não o esqueceu. Enquanto tenta lidar com toda a pressão que subitamente caiu em sua cabeça, John conta com o apoio da apaixonada Rebecca (Anna Kendrick) - com quem não consegue se comprometer completamente.

 

Alternando sequências de um humor ingênuo e momentos que desafiam o público a não derramar rios de lágrimas, "Família Hollar" se sustenta em dois pilares fundamentais para cativar a plateia: seu roteiro, enxuto e nitidamente influenciado pelo bom cinema de personagens europeu, e seus atores, excepcionais e em dias de grande inspiração. Sem medo de abraçar carinhosamente os clichês que inundam os dramas familiares - e explorando-os a seu favor -, o script do também produtor Jim Strouse apresenta personagens com os quais a identificação é fácil e imediata e conduz com sensibilidade a trajetória de pessoas cuja complexidade vai se revelando pouco a pouco, conforme as situações vão se apresentando, muitas vezes de forma inexorável e avassaladora. É um imenso acerto não dotar nenhum de seus protagonistas com almas irretocáveis - todos os membros da família já erraram e acertaram da mesma forma, o que faz deles seres humanos falíveis e que podem ser encontrados em qualquer lugar do mundo, em qualquer classe social, em qualquer raça. Tal universalidade é um gol de placa - especialmente quando seus representantes são interpretados por um elenco de aplaudir de pé.

Se John Krasinski não precisa se esforçar muito para convencer no papel de um rapaz que é o orgulho da família, não deixa de ser surpreendente ver o sul-africano Shartlo Copley (de "Distrito 9") no papel de um desajustado mas amoroso pai, capaz de desatinos lamentáveis para ficar ao lado das filhas - é difícil não se deixar conquistar por ele, apesar de suas atitudes nem sempre éticas. Anna Kendrick volta a viver uma personagem dócil, emprestando a sua Rebecca um senso de responsabilidade essencial para o clã do namorado. Mas é impossível não reconhecer que o maior show em "Família Hollar" vem de seus protagonistas veteranos: oferecendo uma generosa dose humanidade ao casal de patriarcas, Richard Jenkins e Margo Martindale brilham em cada cena, em cada sequência, em cada momento, fazendo uso de sua vasta experiência para transmitir à plateia um sentimento de amor incondicional que somente a maturidade consegue atingir. Vem deles as lágrimas mais sentidas, as risadas mais honestas e a sensação de calor humano que persiste muito tempos depois dos créditos finais. Se "Um lugar perigoso" mostrou Krasinski como um cineasta inteligente em utilizar-se de todas as ferramentas técnicas de seu ofício, em "Família Hollar" ele já havia comprovado que também não lhe falta coração e o olhar afetuoso a seus personagens. Bravíssimo

EU, EU MESMO E IRENE


EU, EU MESMO E IRENE (Me, myself & Irene, 2000, 20thCentury Fox, 116min) Direção: Bobby Farrelly, Peter Farrelly. Roteiro: Bobby Farrelly, Peter Farrelly, Mike Cerrone. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: Christopher Greenbury. Música: Lee Scott, Pete Yorn. Figurino: Pamela Withers.Direção de arte/cenários: Sidney J. Bartholomew Jr./Scott Jacobson. Produção executiva: Tom Schulman, Charles B. Wessler. Produção: Bobby Farrelly, Peter Farrelly, Bradley Thomas. Elenco: Jim Carrey, Renée Zellweger, Chris Cooper, Robert Forster, Richard Jenkins. Estreia: 15/6/2000

Sutileza nunca foi o forte de Bobby e Peter Farrely. Desde que apareceram no radar de Hollywood com "Débi & Lóide: dois idiotas em apuros" (1994), os irmãos não pararam de apelar para a vulgaridade como forma de fazer as plateias gargalharem sem que fosse preciso acionar o cérebro. Atingiram o auge do sucesso com "Quem vai ficar com Mary?" (1998), em que aproveitaram a popularidade e o carisma de Cameron Diaz para um desfile de piadas infames com o verniz de credibilidade oferecido por um grande estúdio (a 20th Century Fox) e se tornaram nomes quentes na indústria. Porém, até mesmo aqueles que fingiam não ver o excesso de grosserias visuais e verbais de seus primeiros filmes não deixaram de ficar chocados com a absoluta falta de noção apresentada em "Eu, eu mesmo e Irene". Estrelado pelo mesmo Jim Carrey de "Débi & Lóide" e valorizado pela presença da sempre ótima Renée Zellweger, o terceiro longa dos Farrelly não poupa o espectador de piadas constrangedoras que atingem todo e qualquer tipo de minoria - racial, étnica ou médica -, mas esbarra perigosamente em sua falta de limites. Mesmo com uma bilheteria polpuda de quase 150 milhões de dólares, a comédia quase romântica dos Farrelly encontrou severa resistência em sua estreia, e foi criticado justamente por aquilo que parecia ser o ponto forte dos cineastas: o humor politicamente incorreto.

Quem primeiro chiou a respeito do filme foram as associações de familiares de portadores de esquizofrenia, que não gostaram nem um pouco de ver a doença tratada como piada - principalmente da forma avassaladoramente histriônica apresentada por Jim Carrey no auge de seu sucesso no gênero. Depois disso, vieram reclamações sobre como o filme debochava de anões, negros e albinos - se quisesse, qualquer um poderia encontrar motivos justos para queixas. A grande questão, porém,  descontado o absoluto desprezo da dupla de realizadores por um mísero traço de sofisticação, é o fato de que, apesar de seguir quase à risca a fórmula dos primeiros filmes dos cineastas, "Eu, eu mesmo e Irene" não é nem de longe tão engraçado quanto eles. Primeiro por forçar piadas que soam deslocadas e nem sempre funcionam. E principalmente porque, ao contrário de seus trabalhos anteriores, elas estão diluídas em uma trama que exige mais do espectador do que simplesmente risadas - por vezes, a história (fraca) que envolve os personagens fica tão confusa que sobra pouco tempo para rir.

 

O personagem central do filme é Charlie Baileygates, um pacato policial de Rhode Island, cumpridor das leis, afável a ponto de ser tratado como capacho por quase todo mundo e um pai dedicado de trigêmeos que são a prova do adultério da ex-esposa. Continuamente abusado em sua boa-fé, ingenuidade e bondade, um dia Charlie deixa escapar uma nova personalidade: bruto, desbocado, vulgar e sem filtros, Hank assusta os moradores da pequena cidade e principalmente seus colegas de trabalho. Ciente dessa nova condição psíquica de Charlie - administrável quando devidamente medicada -, seu superior, Coronel Partington (Robert Forster) lhe dá uma missão simples: acompanhar com segurança, até o estado de Nova York, a forasteira Irene Walker (Renée Zellweger), presa por dívidas com a polícia rodoviária. No caminho, porém, Charlie descobre que Irene está na mira de policiais corruptos e um ex-namorado tóxico, que farão de tudo para eliminá-la. Intercalando momentos bons com outros dominados por Hank, ele se apaixona pela bela fugitiva e passa a disputá-la com seu grosseiro alterego.

Assumindo o papel central depois que Jack Black pulou fora do projeto, Jim Carrey deita e rola em sua mais absoluta zona de conforto. Seu talento para o humor físico serve como uma luva para as insanidades do roteiro - terminado por Mike Cerrone em 1991 e posteriormente adequado ao estilo dos irmãos Farrelly pelos próprios diretores - e é difícil imaginar outro ator com a coragem suficiente de participar, em uma fase já de grande prestígio na carreira, de algumas sequências francamente duvidosas (sem spoilers, basta citar um momento com uma mãe amamentando um bebê e outro com uma vaca atropelada no meio da estrada). Renée Zellweger está encantadora como Irene Walker, mas tem pouco a fazer diante das atrocidades comandadas por Carrey (com quem namorou durante as filmagens), e o elenco coadjuvante conta com nomes consagrados por indicações ou vitórias no Oscar (Chris Cooper, Richard Jenkins, Robert Forster). Nada disso impede, no entanto, que "Eu, eu mesmo e Irene" fique na história mais como um filme que talvez tenha ido longe demais em seu conceito de humor a qualquer preço do que por suas qualidades artísticas e/ou cômicas. Não à toa, os próprios Farrelly o consideram seu pior filme - e isso que depois eles ainda virariam sua metralhadora giratória para obesos ("O amor é cego", de 2000) e gêmeos siameses ("Ligado em você", de 2003), até Peter deixar de lado seu pendor para o politicamente incorreto, e cometer "Green Book: O Guia", que levou o Oscar de melhor filme de 2018 ao falar sobre racismo (mesmo que sob um ponto de vista branco e pouco profundo).

A FORMA DA ÁGUA


A FORMA DA ÁGUA (The shape of water, 2017, Fox Searchlights, 123min) Direção: Guillermo Del Toro. Roteiro: Guillermo Del Toro, Vanessa Taylor. Fotografia: Dan Laustsen. Montagem: Sidney Wolinsky. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Luis Sequeira. Direção de arte/cenários: Paul D. Austerberry/Jeffrey A. Melvin, Shane Vieau. Produção: J. Miles Dale, Guillermo Del Toro. Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Octavia Spencer, Michael Stuhlbarg, Doug Jones. Estreia: 31/8/2017 (Festival de Veneza)

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Guillermo Del Toro), Atriz (Sally Hawkins), Ator Coadjuvante (Richard Jenkins), Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Mixagem de Som, Edição de Som

Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Guillermo Del Toro), Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Trilha Sonora Original

Quando tinha apenas seis anos de idade, o cineasta Guillermo Del Toro assistiu ao clássico "O monstro da lagoa negra" (1954) e não se conformou com o fato da mocinha do filme, interpretada por Julie Adams, não ter tido um final feliz com a criatura do título. Mais de quarenta anos depois, já consagrado como o diretor de filmes mundialmente aclamados -  "A espinha do diabo" (2001) e "O labirinto do fauno" (2006) - Del Toro pode finalmente contar a história a seu modo. Disfarçadamente, é claro - mas nem tanto - e com um toque de fantasia que dialoga diretamente com suas obras mais admiradas., "A forma da água" transformou-se, em pouco tempo, do projeto dos sonhos do realizador (e um de seus filmes mais pessoais) em um grande êxito de bilheteria e crítica. Vencedora do Leão de Ouro do Festival de Veneza e de quatro Oscar (incluindo melhor filme e diretor), a romântica história da relação entre uma tímida e sonhadora faxineira e uma criatura anfíbia tida como prisioneira em um laboratório do governo norte-americano durante a Guerra Fria, subverte as convenções de heroísmo, beleza e amor e entrega à plateia uma das mais deslumbrantes produções de seu tempo - calcada no capricho visual característico de Del Toro, em um roteiro que funciona como um passe de mágica e, principalmente, em um elenco escolhido a dedo, no qual se destaca a impecável Sally Hawking.

Primeira e única escolha do diretor para viver a delicada Elisa Esposito - "Eu queria que Elisa fosse bonita a seu próprio modo, não do modo de um comercial de perfume. Que você acreditasse que essa personagem, essa mulher poderia estar sentada a seu lado no ônibus. Mas que ao mesmo tempo tivesse uma luminosidade, uma beleza quase mágica, etérea...-, Sally Hawking entrega uma atuação fascinante, em que mescla inocência, inteligência e uma inusitada sensualidade. Indicada ao Oscar de melhor atriz, perdeu a estatueta para Frances McDormand em "Três anúncios para um crime", mas alcança, em seu trabalho, notas de uma sutileza ímpar. Interpretando uma personagem muda sem que se utilize dessa característica para forçar a simpatia do público, ela faz cada espectador acreditar não apenas na força que demonstra quando é obrigada a isso, mas também - e aí o mérito é dela e da direção delicada de Del Toro - de que seu amor redentor por um ser aparentemente inalcançável é passível de um final feliz. Tal ousadia do roteiro - a de eleger como herói romântico alguém que em outros tempos não seria mais do que o principal antagonista (ou até mesmo um vilão cujo destino esperado e desejado era a morte mais trágica possível) - faz de "A forma da água" uma história de amor e fantasia que embaralha as cartas dos gêneros para criar uma realidade alternativa doce e comovente.


Enquanto nos filmes clássicos de horror dos anos 1950 - época em que a Universal Pictures reinou absoluta com seus vampiros, lobisomens e cientistas lunáticos - a fórmula mandava que o monstro jamais fosse capaz de conquistar o amor da mocinha por quem se apaixonava perdidamente ("King Kong", "A bela e a fera") e preferencialmente encontrasse um desfecho que comprovasse a superioridade dos humanos em relação às bestas, no mundo invertido de Del Toro os pretensamente seres racionais é que sofrem de desvios graves de caráter (especialmente o detestável Richard Strickland interpretado com gosto por Michael Shannon) e são as minorias que não só demonstram uma humanidade à toda prova como são capazes de alterar destinos tidos como definitivos (o homossexual enrustido vivido pelo excelente Richard Jenkins, a faxineira negra criada por Octavia Spencer e a protagonista quase invisível de Hawking). O universo de Del Toro é um mundo à parte, desenhado com precisão - a vitória da equipe de direção de arte no Oscar não foi à toa: perdidos em um período da década de 1960, os cenários retratam uma visão particular e afetiva do diretor, um espaço no tempo em que o passado conservador estava em vias de se encontrar com um futuro que apontava a Lua e o espaço sideral. A paleta de cores - em que tons mais vivos vão surgindo conforme Elisa descobre a capacidade do amor em transformar a forma como ela vê o mundo até então cinzento - serve como comentário visual às ideias românticas da trama e deslumbra pela força com que envolve a audiência em sua espiral de fantasia e emoção.

E seria injusto não citar o trabalho de Doug Jones como um dos pontos fundamentais do sucesso de "A forma da água": na pele da criatura anfíbia que desperta a curiosidade, o carinho e posteriormente o amor de Elisa - e no caminho conquista seus amigos e mostra que a devoção que despertava "nos selvagens da América do Sul, que o idolatravam como a um deus" não era algo desproporcional -, Jones oferece um desempenho poucas vezes visto no cinema. Debaixo das claustrofóbicas roupas do ser anfíbio - um processo que lhe custava horas -, o ator impressiona com uma interpretação silenciosa mas extremamente expressiva. São comoventes todas as sequências em que ele e Elisa descobrem um ao outro sem trocar uma única palavra - cenas sublinhadas pela genialidade de Del Toro em utilizar-se do cinema como pano de fundo para o despertar do amor. Com um ritmo invejável - são duas horas que passam voando - e um dos finais mais poéticos que o cinema já proporcionou (ao menos nas últimas décadas), "A forma da água" é uma obra-prima indelével, o tipo de filme que já nasceu clássico e que provavelmente irá resistir bravamente à prova do tempo. É um filme para sonhadores - de todos os tipos, raças e espécies.

sexta-feira

FORA DE CONTROLE

FORA DE CONTROLE (Changing lanes, 2002, Paramount Pictures, 98min) Direção: Roger Michell. Roteiro: Chap Taylor, Michael Tolkin, estória de Chap Taylor. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: David Arnold. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Debra Schutt. Produção executiva: Ron Bozman, Adam Schroeder. Produção: Scott Rudin. Elenco: Samuel L. Jackson, Ben Affleck, Toni Collette, Sydney Pollack, Richard Jenkins, William Hurt, Amanda Peet, Dylan Baker. Estreia: 07/4/02

Doyle Gipson precisa chegar ao tribunal para provar ao juiz que acaba de dar entrada em uma casa onde seus filhos pequenos poderão morar com a mãe - o que evitaria que fossem de mudança com ela para longe de Nova York. Gavin Banek é um jovem e bem-sucedido advogado que também tem um compromisso importante, que fará com que sua firma (cujo principal sócio é seu sogro) assuma a administração de um fundo milionário de um cliente já morto. No meio do caminho, os dois carros batem um no outro e, na pressa, Banek deixa Gipson para trás, sem dar-lhe tempo de resolver seu grande problema - e, consequentemente, salvar-se da separação dos filhos. Porém, o destino não brinca em serviço: assim que chega no tribunal, Banek descobre que um importantíssimo documento (crucial para sua vitória) ficou nas mãos de Gipson - que, por sua vez, não tem a menor intenção de devolvê-lo antes que seu prejuízo seja sanado. Essa guerra de nervos, que retrata o tênue limite entre a civilidade e a barbárie, é o tema de "Fora de controle", dirigido por Roger Michell como seu projeto seguinte ao grande sucesso da comédia romântica "Um lugar chamado Notting Hill" (1999). Ao contrário do solar e delicado filme estrelado por Julia Roberts e Hugh Grant, porém, "Fora de controle" mostra um lado amargo, pessimista e cínico da humanidade - daí, talvez, o motivo de seu fracasso comercial nos EUA mesmo com o elenco liderado por Ben Affleck e Samuel L. Jackson. Mesmo conseguindo cobrir seu custo estimado de 45 milhões de dólares, o filme nem chegou à marca dos 70 milhões no mercado doméstico - o que também pode ser creditado ao marketing equivocado, que vendia um thriller dramático como um suspense de ação.

O trailer de "Fora de controle" realmente prometia à plateia uma trama eletrizante, com cenas repletas de tensão - e a presença de Ben Affleck, então um ator em ascensão e vindo direto de "Pearl Harbor" apenas aumentava essa impressão. O que Michell apresenta, no entanto, é um filme de ritmo bem mais lento do que o esperado, com uma pegada bem menos dinâmica e violenta do que se poderia supor. Não é um defeito - a narrativa é fluida e evita com inteligência o óbvio - mas de forma alguma se conecta com aqueles que procuram uma produção calcada em perseguições de carro, tiroteios ou a velha e boa troca de socos. A intenção do diretor (apoiado em um roteiro repleto de diálogos a respeito de ética, civilidade e tentativas de manter a esperança em um mundo com armadilhas à espreita em cada esquina) é fazer pensar, mais do que injetar adrenalina no espectador. Poderia ter dado mais certo se um dos protagonistas não fosse interpretado por Ben Affleck, notadamente um dos atores mais inexpressivos de sua geração - o que fica ainda mais evidente diante do show de seu parceiro de cena, o sempre espetacular Samuel L. Jackson.


Descoberto pelo público com sua atuação hipnotizante em "Pulp fiction: tempo de violência" (94), que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante, Jackson teve, a partir de então, um novo recomeço de carreira - iniciada no começo dos anos 70 e finalmente reconhecida na década de 90, graças ao cineasta Spike Lee, que lhe deu o papel de um viciado em drogas no filme "Febre da selva" (91), responsável por um prêmio de coadjuvante no Festival de Cannes (uma categoria, aliás, criada exclusivamente naquela edição do Festival e nunca mais repetida). Parceiro constante também de Quentin Tarantino - seu trabalho em "Jackie Brown" (98) resultou em um prêmio no Festival de Berlim - e dono de um típico físico marcante, o ator empresta ao desiludido mas ainda esperançoso Doyle Gipson nuances que vão se avolumando com o desenrolar da narrativa: é um homem comum que se vê sem alternativa quando vê, diante de si, a possibilidade de perder tudo que lhe é mais caro. Jackson passeia com maestria entre diferentes estados de espírito - a esperança, a raiva, o desespero, a ternura, a angústia - e leva o público junto com ele por todo o caminho. O mesmo não acontece com Affleck - que ainda tem o azar de ter ficado com um personagem bem menos gostável.

Quando fez "Fora de controle", Affleck já era um nome conhecido dos cinéfilos, graças a filmes como "Gênio indomável" (que lhe deu o Oscar de roteiro original, dividido com o amigo Matt Damon), "Armageddon" (98), "Forças do destino" (99) e "Pearl Harbor" (2001), superprodução de Michael Bay que, ao invés de tornar-se um novo "Titanic", decepcionou crítica e público. Frequentado capas de revistas mais por seus casos amorosos - com as atrizes Gwyneth Paltrow e Jennifer Lopez - do que exatamente por seus dotes artísticos, Affleck é um ator que funciona razoavelmente quando bem dirigido, mas que, sob um comando menos rígido, demonstra toda a fragilidade de seu talento como ator. Roger Michell enquadra-se na segunda categoria, o que acaba por minar a potência de sua trama: quando os dois protagonistas estão juntos em cena, a fúria e o desespero de Jackson é palpável, mas tudo que vem de Affleck soa artificial e forçado. Não ajuda nem mesmo colocar como coadjuvantes atores excelentes como William Hurt, Richard Jenkins e Toni Collette (subaproveitada como uma colega de trabalho e ex-amante de Gavin): servindo apenas como peões em uma trama centrada basicamente no duelo entre os dois personagens centrais, eles não conseguem disfarçar o fato óbvio de que, com um ator com mais recursos para fazer frente à Samuel L. Jackson, nem mesmo o equívoco na hora de vender "Fora de controle" ao público seria um pecado tão mortal. Do jeito que está, o filme de Michell é um bom entretenimento, com qualidade dramática e uma história que faz pensar nos rumos de uma sociedade cada vez mais intolerante e sem empatia - mas é pouco diante do grande filme que poderia ter sido.

terça-feira

AMIZADE COLORIDA

AMIZADE COLORIDA (Friends with benefits, 2011, Screen Gems/Castle Rock Entertainment, 109min) Direção: Will Gluck. Roteiro: Keith Merryman, David A. Newman, Will Gluck, estória de Harley Peyton, Keith Merryman, David A. Newman. Fotografia: Michael Grady. Montagem: Tia Nolan. Figurino: Renee Ehrlich Kalfus. Direção de arte/cenários: Marcia Hinds/Cindy Coburn, Alyssa Winter. Produção executiva: Glenn S. Gainor. Produção: Liz Glotzer, Will Gluck, Martin Shafer, Janet Zucker, Jerry Zucker. Elenco: Justin Timberlake, Mila Kunis, Woody Harrelson, Patricia Clarkson, Richard Jenkins, Jenna Elfman, Bryan Greenberg, Nolan Gould, Andy Samberg. Estreia: 18/7/11

Talvez reflexo inconsciente das relações modernas, filmes sobre casais que elegem o sexo como base para seu relacionamento - sem que exista nenhum outro tipo de vínculo sentimental - e depois se apaixonam pipocaram nas telas de cinema como nunca em 2011, com qualidades variadas. Houve o ótimo "Amor e outras drogas", com Jake Gylenhaal e Anne Hathaway e houve o tenebroso "Sexo sem compromisso", com Natalie Portman e Ashton Kutcher. No meio do caminho entre os dois fica "Amizade colorida", o divertido e sexy filme estrelado por Justin Timberlake e Mila Kunis e dirigido por Will Gluck, cujos créditos anteriores incluem o pouco visto, mas muito engraçado, "A mentira" - cuja estrela, Emma Stone, aparece aqui em uma pequena participação especial como a namorada que dá o fora no protagonista na primeira cena.

No filme de Gluck, a bela Kunis interpreta Jamie, uma caça-talentos de Nova York que convence o jovem diretor de arte Dylan (vivido com surpreendente timing cômico por Timberlake) a sair de Los Angeles e mudar-se para a Grande Maçã, para trabalhar para a revista GQ. Ambos saídos de relacionamentos fracassados, Jamie e Dylan tornam-se amigos e, bonitos, inteligentes e sexies, resolvem iniciar uma relação de sexo sem compromisso. Logicamente as coisas não andam da maneira com que eles pretendem (mas seguem à risca as comédias românticas que Jamie adora): eles se apaixonam um pelo outro, ainda que a princípio não o percebam e renegam o sentimento enquanto podem, mesmo quando as evidências estão bem diante de seus olhos. Quem irá ajudá-los a esclarecer as coisas são pessoas tão díspares quanto a mãe promíscua de Jamie (vivida por Patricia Clarkson, sempre ótima em personagens liberais), o editor de esportes homossexual da GC (Woody Harrelson, sem levar-se a sério, como de hábito) e o pai de Dylan, um homem abandonado pela esposa e que sofre de Alzheimer (Richard Jenkins).


Logicamente o roteiro de "Amizade colorida" é repleto de clichês (e é o tipo de filme cujo final se adivinha só de olhar-se o cartaz). Mas a grande sacada - e que o diferencia de bombas como "Sexo sem compromisso" - são alguns diálogos realmente engraçados, os coadjuvantes afiados e que não servem apenas para fazer piada (Clarkson e Richard Jenkins, ambos de "A sete palmos" estão ótimos) e a química sensacional entre seus protagonistas. Kunis, que já se atracou com Natalie Portman em "Cisne negro", já provou que não tem pudores e Timberlake mostra-se extremamente à vontade em cenas pra lá de provocantes que mixam com equilíbrio invejável uma sensualidade discreta e um bom-humor muito bem-vindo. Mesmo quando não estão na cama, Kunis e Timberlake convencem o público que estão apaixonados (mesmo que não o saibam) e conseguem o que qualquer dupla romântica sonha em filmes como este: uma torcida por seu final feliz. E Will Gluck sabe, como poucos cineastas recentes, brincar com as referências pop do espectador e utilizá-las a seu favor.

Tudo bem que "Amizade colorida" não vai mudar a vida de ninguém, nem tampouco consegue escapar da queda de ritmo em sua segunda metade, quando o humor picante e desbocado da primeira fase dá lugar ao drama e a um romantismo convencional. Mas é tão charmoso, despretensioso e bem-humorado (outro destaque é sua maneira de tratar a rivalidade entre Los Angeles e Nova York, com seus hábitos muito diferentes) que é impossível não se deixar cativar. Uma grata surpresa que mostra que Will Gluck é um nome a se memorizar.

domingo

DEIXE-ME ENTRAR

DEIXE-ME ENTRAR (Let me in, 2010, Overture Films/Exclusive Media Group, 116min) Direção: Matt Reeves. Roteiro: Matt Reeves, romance e roteiro original de John Ajvide Lindqvist. Fotografia: Greig Fraser. Montagem: Stan Salfas. Música: Michael Giacchino. Figurino: Melissa Bruning. Direção de arte/cenários: Ford Wheeler/Wendy Barnes. Produção executiva: Philip Elway, Fredrik Malmberg, John Ptak, Nigel Sinclair. Produção: Tobin Armbrust, Alex Brunner, Guy East, Donna Gigliotti, Carl Molinder, John Nordling, Simon Oakes. Elenco: Kodi Smith McPhee, Chloe Grace Moretz, Richard Jenkins, Elias Koteas. Estreia: 13/9/10 (Festival de Toronto)

Seguindo sua eterna mania de traduzir para seu mal-acostumado público filmes estrangeiros de sucesso, Hollywood achou por bem realizar uma versão americana do terror sueco "Deixe ela entrar", dirigido por Tomas Alfredson. O remake, comandado por Matt Reeves (que estava por trás das câmeras de "Cloverfield"), sofreu uma pequena alteração no título - passou a chamar-se "Deixe-me entrar" (?!?!) - e, apesar de uma modificação crucial em relação a origem de sua protagonista, é bastante fiel ao filme original. Se beneficiando também da onda da época de seu lançamento - o vampirismo, sepultado e humilhado na série "Crepúsculo" - é um trabalho que agrada aos fãs do gênero e pode até conquistar àqueles que procuram um bom filme mesmo não se interessando pelo assunto. Tudo graças ao clima impresso pelo visual caprichado e por seus dois atores principais, Kodi Smith-McPhee e Chloe Moretz, que emprestam à obra uma qualidade única.

Depois de ter emocionado a plateia com seu sensível trabalho em "A estrada", o pequeno Smith-McPhee volta a entregar um trabalho de alta qualidade como Owen, um menino tímido e introvertido que precisa lidar com a separação dos pais e com os ataques de bullying que sofre dos valentões da escola que frequenta, na pequena cidade de Los Alamos, Novo México, no ano de 1983. Isolado em seu mundo solitário, ele conhece e faz amizade com Abby (Chloe Grace Moretz), uma menina misteriosa que tem uma relação mal-explicada com um homem mais velho (Richard Jenkins, eficiente como sempre) e que mora na casa ao lado da sua. Quando vários violentos assassinatos começam a ocorrer nos arredores, Owen descobre que Abby está envolvida, mas decide manter com ela - com quem compartilha um forte senso de solidão e inadequação - um relacionamento de confiança e amizade. Porém, o cerco de um dedicado policial (Elias Koteas) e a aumento das torturas impostas por seus colegas acabam por precipitar um festival de violência que traz à tona a verdade sobre a origem da tímida menina.


A grande sacada de "Deixe-me entrar" é não ser um produto de terror no sentido puramente tradicional. Ao priorizar a relação entre Owen e Abby em detrimento de cenas sanguinolentas - ainda que apresente algumas sequências bastante violentas e convincentes - o filme mostra seu diferencial, ao preocupar-se com seus personagens mais do que com sua vontade de assustar a qualquer preço. A excelente química entre Smith-McPhee e a garotinha Chloe Moretz é preciosa e de certa forma dispensa até mesmo outros atores: a mãe de Owen, por exemplo, nunca tem seu rosto mostrado e o "pai" de Abby aparece sempre envolto em sombras e escuridão. Até mesmo as cenas em que o suspense assume importância central o diretor opta pela sutileza e pela discrição, filmando de longe ou protegido pela fotografia, que lembra muito sua origem nórdica - é especialmente brilhante a escolha de iluminar os primeiros encontros entre os protagonistas com uma luz amarela e claustrofóbica, mesmo estando eles na rua. A preferência de Reeves pelo não-explícito salva o filme do lugar-comum, mas paradoxalmente o afasta dos fãs de coisas como "Crepúsculo", onde a inteligência inexiste e as regras impostas por dezenas de filmes sobre vampiros simplesmente são ignoradas. Sem falar que, mesmo bem mais jovem, Smith-McPhee e Chloe Moretz são atores muito, mas muito melhores que Robert Pattinson e Kirsten Stewart.

Fascinante, inteligente e dotado de uma elegância surpreendente, "Deixe-me entrar" é um dos filmes de terror mais interessantes da nova geração, equilibrando o grotesco e o sanguinolento com doses de delicadeza e sensibilidade. É difícil não torcer pela difícil amizade entre Owen e Abby, mérito de um conjunto de fatores acertados que transforma uma refilmagem - normalmente algo violentamente rechaçado pelos cinéfilos - em um produto muito acima da média, que não fica nada a dever a seu original (a não ser, é claro, pelas pequenas alterações feitas no roteiro que transformam radicalmente a verdadeira origem de Abby). Quem não se importar com purismos, no entanto, terá em mãos um filmaço de terror.

sábado

O VISITANTE

O VISITANTE (The visitor, 2007, Groundswell Productions/Next Wednesday Productions, 104min) Direção e roteiro: Tom McCarthy. Fotografia: Oliver Bokelberg. Montagem: Tom McArdle. Música: Jan A.P. Kaczmarek. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: John Paino/Kim L. Chapman. Produção executiva: Omar Amanat, Chris Salvaterra, Jeff Skoll, Ricky Strauss. Produção: Michael London, Mary Jane Skalski, John Woldenberg. Estreia: 07/09/07 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Richard Jenkins)

De vez em quando a Academia de Hollywood faz um favor aos fãs de cinema, ao destacar, em meio a produções milionárias que parecem sufocar toda e qualquer produção menos ambiciosa, filmes que, não fosse seu aval, passariam despercebidos e acabariam melancolicamente relegados a exibições em canais por assinatura ou restritas salas alternativas. Um dos melhores e mais simpáticos filmes a merecer tal distinção foi "O visitante", um encantador drama de personagens que arrebatou a indicação ao Oscar de melhor ator (Richard Jenkins, premiado no Festival de Moscou e pelo National Board of Review por seu desempenho). Tendo estreado no Festival de Toronto de 2007, o filme só chegou comercialmente aos cinemas em maio do ano seguinte, o que lhe empurrou para disputar a estatueta dourada no ano em que os muito mais ambiciosos "O curioso caso de Benjamin Button" e "Quem quer ser um milionário?" eclipsaram todos os demais candidatos - com a possível exceção de "Milk, a voz da igualdade" e "Batman, o cavaleiro das trevas".  Discreto, simples e baseado em emoções sutis, o filme do também ator Tom McCarthy é daqueles feitos para aquecer o coração sem apelar para exageros sentimentais.

Jenkins - um ator sensacional mas eternamente relegado a papéis coadjuvantes - está em seus melhores dias na pele de Walter Vale, um professor universitário aborrecido com a vida solitária e sem emoções que vive desde a morte da esposa. Suas tentativas de aprender piano - instrumento que ela tocava - são infrutíferas e sua carreira chegou a um ponto em que não há mais desafios ou alegrias. Quando ele sai de Connecticut para participar de uma conferência em Nova York, porém, sua vida se transforma radicalmente: em seu apartamento, ele encontra um casal de imigrantes ilegais, o sírio Tarek (Haaz Sleiman) e a senegalesa Zainab (Danai Gurira), que foram enganados na hora de assinar o contrato de locação. Para não deixá-los na rua e à mercê das autoridades, Vale acaba por permitir que eles fiquem com ele em sua casa. Aos poucos eles vão trocando experiências e o sisudo professor volta a sentir-se com um sentido na vida - principalmente quando Tarek é preso injustamente e, ameaçado de deportação, une, sem querer, seu novo amigo e sua mãe, Mouna (Hiam Abbass).



Construindo sua narrativa de forma delicada e suave, McCarthy - cujo filme anterior, "O agente da estação", foi muito elogiado em festivais de cinema internacionais - cativa a plateia aos poucos, desenhando com cuidado a mudança de personalidade de seu protagonista, que se transforma de um homem arredio e tenso em uma pessoa solidária e leve sem aquela pressa comum a produções menos afeitas a sutilezas. O expressivo Jenkins - cujo papel de maior destaque até então havia sido o do patriarca morto da elogiada série "A sete palmos" - empresta a Walter Vale uma elegância fria que, conforme a trama se desenvolve, vai se transmutando em uma generosidade inesperada e fraternal, fortalecida pelo amor à música - é aprendendo a tocar o instrumento que Tarek usa em suas apresentações em bares da cidade que Vale começa sua redenção e seu autodescobrimento, que culminam em uma surpreendente paixão por Mouna, um amor impossível e destinado ao rol das experiências inesquecíveis na vida de ambos.

Com uma interpretação silenciosa e minimalista, Richard Jenkins é o corpo e a alma de "O visitante", mas deve boa parte do sucesso de seu trabalho ao diretor e roteirista Tom McCarthy, que evita o piegas mesmo quando tudo se encaminha para tal. Em alguns momentos o roteiro chega perto do sentimentalismo, mas McCarthy é hábil o suficiente para fugir do banal, preferindo, ao invés disso, dirigir sua atenção para os detalhes de sua história - um par de óculos novo que deixa explícito um inesperado carinho, por exemplo - e para o desenvolvimento de seus personagens. Também é mérito dele a escalação certeira do elenco: além de Jenkins, se destacam também o ótimo Haaz Sleinman e a carismática Hiam Abbass, perfeitamente apropriados aos papéis de pessoas devastadas pelo destino e ainda assim dispostas a lutar pela felicidade. Com eles em cena é fácil compreender os motivos que fazem com que Vale reencontre sua alma - e é difícil não se deixar conquistar pela delicadeza como tudo é narrado. "O visitante" é um filme mágico e arrebatador, feito para quem acredita em nobres sentimentos e no poder da amizade e do amor.

terça-feira

TERRA FRIA

TERRA FRIA (North country, 2005, Warner Bros, 126min) Direção: Niki Caro. Roteiro: Michael Seitzman, livro "Class Action: The story of Lois Jensen and the landmark case that changed sexual harassment law", de Clara Bingham, Laura Leedy. Fotografia: Chris Menges. Montagem: David Coulson. Música: Gustavo Santaolalla. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: Richard Hoover/Peter Tosti Stephenson. Produção executiva: Helen Bartlett, Doug Claybourne, Nana Greenwald, Jeff Skoll. Produção: Nick Weschler. Elenco: Charlize Theron, Sean Bean, Frances McDormand, Jeremy Renner, Richard Jenkins, Sissy Spacek, Woody Harrelson, Michelle Monaghan. Estreia: 12/9/05 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Charlize Theron), Atriz Coadjuvante (Frances McDormand)

Mesmo sem que seu nome não diga nada à vasta maioria da população mundial, Lois Jenson poder ser considerada, sem favor, uma das figuras mais importantes na luta pelos direitos femininos da história dos EUA: na tradição de Crystal Lee Sutton (retratada no filme "Norma Rae", de 1979) e Karen Silkwood (protagonista de "Silkwood, o retrato da coragem", de 1983), ela foi a responsável por um processo - ou vários deles, na verdade - que abriram o precedente para que fossem criadas as leis responsáveis por criminalizar o assédio sexual no ambiente de trabalho. Por incrível que possa parecer, no entanto, tais leis, sem as quais as relações profissionais entre homens e mulheres sempre sofreriam de uma tensão muitas vezes palpável, só chegaram aos tribunais americanos em 1989. Por causa de Jenson, uma mulher simples que só queria o direito de trabalhar em paz em um ambiente cercado de machismo - e do qual fazia parte seu próprio pai. Rebatizada como Josey Aimes e com o belo rosto de Charlize Theron, Jenson juntou-se Silkwood e Sutton no imaginário dos fãs de cinema quando foi a protagonista de "Terra fria", filme dirigido por Niki Caro - de "A encantadora de baleias" - que chegou à festa do Oscar 2006 indicado em duas categorias: melhor atriz (Theron, sempre excelente) e atriz coadjuvante (Frances McDormand).

Concentrando vários processos movidos pela real Lois Jenson em apenas um - para fins dramáticos e sem prejuízo para a verossimilhança do roteiro - "Terra fria" segue à risca a tradição dos filmes sobre mulheres valentes lutando contra o sistema, mas, graças à direção firme de Caro e à intensidade de Charlize Theron, tal característica não chega a impedir que o resultado final perca sua força e capacidade de indignar ao espectador. Evitando o sentimentalismo e enfatizando a solidão de sua protagonista em seu árduo caminho em direção à justiça, o filme peca apenas por ser excessivamente burocrático: não há ousadias na narrativa de Caro, e essa simplicidade quase documental acaba por impedí-la de atingir todas as suas possibilidades emocionais. Mesmo assim, a forma com que a fotografia acinzentada do veterano Chris Menges combina com o tom monocromático da vida dos personagens e a força das interpretações de Theron, McDormand e do sensacional Richard Jenkins - além da participação especial de Sissy Spacek, de presença sempre marcante - elevam "Terra fria" a um programa bastante acima da média.


Fugindo de um casamento abusivo e tentando recomeçar a vida ao lado dos dois filhos, a bela Josey Aimes (Charlize Theron) retorna à sua cidade natal, no interior de Minnesota, volta a morar com os pais e arruma emprego em um salão de beleza, que não lhe paga um salário suficiente para manter um nível de vida razoável. Incentivada por uma amiga que trabalha na mina de carvão local, a determinada Glory (Frances McDormand) ela resolve desafiar as convenções e tornar-se colega do pai, de um antigo namorado e de outras mulheres também necessitadas de um contracheque menos magro - caso da jovem Sherry (Michelle Monaghan), que precisa sustentar a mãe doente. Bonita e interessante, logo Josey chama a atenção dos colegas homens, que passam a assediá-la sexualmente, tanto com brincadeiras grosseiras quanto com ameaças reais de estupro. Sabendo que tal comportamento não se restringe apenas a ela, mas também a todas as suas colegas do sexo feminino, Josey resolve pedir ajuda à diretoria da mina, mas, sendo humilhada até mesmo por seus patrões - que questionam inclusive o fato de ela não saber quem é o pai de seu filho mais velho - não cabe a ela outra opção a não ser contratar os serviços de um advogado amigo, Bill White (Woody Harrelson), para levar a empresa aos tribunais. Falta apenas, no entanto, convencer suas colegas a testemunhar a seu favor.

Centrando suas forças no talento inegável de Charlize Theron - que mesmo desglamourizada continua linda e carismática - "Terra fria" conquista o público principalmente por fazer de sua protagonista uma heroína clássica, propensa a todos os sofrimentos reservados às grandes mártires do cinema. Sozinha contra o mundo, Josey vê sua vida tornar-se um inferno apenas por desejar justiça, o que acaba por desencadear uma volta ao passado que machuca todos à sua volta. Chegando bem perto do clichê em diversos momentos - em especial quando seu pai (vivido por Jenkins em atuação digna de um Oscar mas injustamente esquecido pela Academia) finalmente toma seu partido diante de todos os mineiros que a estão hostilizando abertamente - o filme de Caro se redime magnificamente sempre que Charlize toma as rédeas, em um trabalho comovente mas nunca piegas. A força de seu desempenho sustenta o filme como um todo - e é força suficiente para torná-lo imperdível.

quinta-feira

O HOMEM QUE NÃO ESTAVA LÁ

O HOMEM QUE NÃO ESTAVA LÁ (The man who wasn't there, 2001, Gramercy Pictures/Good Machine, 116min) Direção: Joel Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes, Tricia Cooke. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Chris Spellman. Produção executiva: Tim Bevan, Eric Fellner. Produção: Ethan Coen. Elenco: Billy Bob Thornton, Frances McDormand, James Gandolfini, Michael Badalucco, Jon Polito, Katherine Borowitz, Scarlett Johansson, Richard Jenkins, Tony Shalhoub. Estreia: 13/5/01 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Fotografia

A estreia dos irmãos Coen em 1984 - o inteligente "Gosto de sangue", que os revelou à crítica como a grande promessa da década - era uma releitura moderna do filme noir, gênero caríssimo do cinema norte-americano. A partir de então, os cineastas entraram em uma jornada artística que virou do avesso a comédia, os filmes de gângsteres e os filmes musicais e policiais com doses generosas de humor negro e um qualidade narrativa que encantou os espectadores, sempre confiantes de que, sob sua assinatura, histórias sempre criativas e elegantes fazem a diferença na mesmice do cinemão comercial hollywoodiano. Outro exemplo dessa afirmação é o contemplativo "O homem que não estava lá", belíssimo drama policial que revisita o noir com ainda mais propriedade de seu primeiro filme. Em um hipnotizante preto-e-branco de Roger Deakins (filmado em cores e depois alterado para maior efeito dramático) e com uma atuação inspiradíssima de Billy Bob Thornton no papel central, a história de traição, morte e desenganos criada pelos cineastas é um dos mais bem-acabados trabalhos de sua carreira até então - o que não é pouco para quem criou pérolas como "Fargo" (96) e "E aí, meu irmão, cadê você?" (00).

Passado em uma cidade do interior da Califórnia em 1949, "O homem que não estava lá" conta a história de Ed Crane (Billy Bob Thornton), que leva um dia-a-dia tedioso trabalhando na barbearia do cunhado Frank (Michael Badalucco) enquanto examina silenciosamente a vida se desenrolando à sua volta. Um dia, por acaso, ele se vê tentado a investir em um negócio de lavagem a seco e, para conseguir os dez mil dólares necessários para a sociedade, passa a chantagear o empresário Big Dave Brewster (James Gandolfini), chefe e amante de sua mulher, Doris (Frances McDormand). Sua chantagem acaba tragicamente com a morte de Big Dave e sua vida se transforma em um pesadelo surreal quando Doris é presa pelo crime. Sabendo da verdade sobre o assassinato mas sem poder provar, Crane se vê envolvido em uma trama que mistura advogados melodramáticos, uma viúva que acredita que uma invasão extra-terrestre matou seu marido e Birdy (Scarlett Johansson), uma adolescente que, através de sua música, seduz o durão e silencioso barbeiro.


Usando com maestria uma das maiores características do cinema noir - a narração em off - "O homem que não estava lá" é construído brilhantemente em todos os seus detalhes visuais e dramáticos, oferecendo ao público um filme elegante e sério, repleto de camadas dramáticas e desdobramentos inesperados que são tirados de letra por um elenco espetacular. Billy Bob Thornton, que no mesmo ano viveu um assaltante de bancos falastrão em "Vida bandida", de Barry Levinson, dá um show na pele de Ed Crane, um homem tão lacônico quanto psicologicamente violento que resolve o turbilhão de sua existência com a mesma expressão de paisagem que utiliza quando corta o cabelo de seus clientes. Frances McDormand mais uma vez comprova a extensão de seu talento na pele da infiel esposa de Crane, com uma interpretação também minimalista e delicada e James Gandolfini não se deixa eclipsar por seus colegas e cria uma espécie de vilão com a gama de nuances que fez sua fama na série de TV "A família Soprano". Seguindo um roteiro preciso e econômico, eles são os responsáveis por dar credibilidade a uma trama recheada de reviravoltas rocambolescas e inusitadas.

Com sequências milimetricamente elaboradas para encantar os olhos do espectador - não à toa sua fotografia concorreu ao Oscar da categoria - "O homem que não estava lá" é mais um grande filme dos irmãos Coen: inteligente, forte, plasticamente deslumbrante e dirigido com firmeza. Talvez seja mais lento do que o público esteja acostumado, mas tem qualidades mais do que suficientes para neutralizar seu ritmo pouco ágil - que, diga-se de passagem, é extremamente apropriado à narrativa ambicionada pelos cineastas. Um filme que Humphrey Bogart protagonizaria sem hesitação.

COLCHA DE RETALHOS

COLCHA DE RETALHOS (How to make an american quilt, 1995, Amblin Entertainment/Universal Pictures, 109min) Direção: Jocelyn Moorhouse. Roteiro: Jane Anderson, romance de Whitney Otto. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Jill Bilcock. Música: Thomas Newman. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Leslie Dilley/Marvin March. Produção executiva: Laurie MacDonald, Deborah Jelin Newmyer, Walter F. Parkes. Produção: Sarah Pilsbury, Midge Sanford. Elenco: Winona Ryder, Anne Bancroft, Ellen Burstyn, Dermot Mulroney, Kate Nelligan, Alfre Woodard, Claire Danes, Lois Smith, Jean Simmons, Kate Capshaw, Adam Baldwin, Maya Angelou, Dennis Arnt, Rip Torn, Johnathon Schaech, Samantha Mathis, Loren Dean, Melinda Dillon, Richard Jenkins, Jared Leto. Estreia: 06/10/95

Se é que existe um subgênero cinematográfico que se pode chamar "filme de mulher", o drama romântico "Colcha de retalhos" é um perfeito exemplar dele. Dirigido pela australiana Jocelyn Moorhouse com base no romance de Whitney Otto, o filme lembra a estrutura do belo "O clube da felicidade e da sorte", substituindo as gerações de nipo-americanas do filme de Wayne Wang por um grupo de amigas de meia-idade que se utilizam de suas experiências de vida para dar rumo à confusa neta de uma delas, que não se sente preparada para assumir o compromisso de um casamento - ao mesmo tempo em que termina uma tese para a faculdade. Com um invejável elenco feminino e dotado de sensibilidade e delicadeza, o filme de Moorhouse pode não ter feito muito barulho em seu lançamento, mas dentro do que se propõe não deixa de ser um entretenimento agradável, apesar de ser prejudicado por sua estrutura frágil e um tanto previsível.

Finn Todd (Winona Ryder, linda e disfarçando seus defeitos como atriz com carisma e simpatia) é uma jovem de 26 anos que acaba de ser pedida em casamento por seu namorado, o arquiteto Sam (Dermot Mulroney). Com medo das responsabilidades que vem junto com o compromisso, ela pede a ele um tempo e viaja para a fazenda de sua avó, Hy (Ellen Burstyn). Lá, ela espera concluir sua tese de mestrado, enquanto decide os rumos de sua vida. Suas dúvidas aumentam quando ela conhece o sedutor Leon (Johnathon Schaech), que balança seus alicerces com seu ar romântico que contrasta com a praticidade de Sam. No decorrer do verão, Finn - que tem como espelho de relacionamento o casamento frustrado dos pais - passa a conhecer as diversas histórias que circundam as amigas de sua avó e da irmã dela, Glady Joe (Anne Bancroft), que se reunem diariamente para confeccionar uma colcha de retalhos: cada uma delas, incluindo suas familiares, tem dramas e tragédias pessoais em seu passado, que ajudarão a jovem a decidir seu destino.


Apesar de ser a espinha dorsal do filme, a hesitação de Finn em entregar-se a uma vida adulta romanticamente estável é a parte menos interessante do trabalho de Moorhouse, talvez por não ser suficientemente explorada psicologicamente - a protagonista parece mais uma jovem mimada do que uma mulher realmente em busca de estabilidade emocional, apesar dos esforços de Winona Ryder, uma atriz limitada mas aqui razoavelmente convincente. São as tramas paralelas que a envolvem que fazem valer a pena assistir-se a "Colcha de retalhos", principalmente porque sempre é um prazer testemunhar os shows de interpretação de gente como Anne Bancroft e Ellen Burstyn, que, na pele de duas irmãs com um passado traumático, roubam sem muito esforço cada cena em que aparecem. O elenco veterano, aliás, está extremamente à vontade, provando à Hollywood que, se bons papéis para atrizes maduras são raros, não o são intérpretes de talento e carisma. Uma pena, porém, que tais atrizes - Lois Smith, Kate Nelligan, Melinda Dillon - tenham tão pouco tempo em cena.

No final das contas, "Colcha de retalhos" cumpre o que promete. É romântico, sincero, dramático sem exageros e bem interpretado. Não ousa nem surpreende, mas tampouco eram essas as intenções dos produtores e da diretora. Seu público-alvo certamente não tem do que se queixar. É um entretenimento simples e eficiente que tem, entre seus coadjuvantes juvenis, Claire Danes e Jared Leto em início de carreira. Talvez carregue no açúcar em alguns momentos, mas não tem contra-indicações.

segunda-feira

E A VIDA CONTINUA

E A VIDA CONTINUA (And the band played on, 1993, HBO Pictures/Spelling Entertainment, 141min) Direção: Roger Spottiswoode. Roteiro: Arnold Schulman, livro de Randy Shilts. Fotografia: Paul Elliott. Montagem: Lois Freeman-Fox. Música: Carter Burwell. Figurino: Patti Callicott. Direção de arte/cenários: Victoria Paul/Diana Allen Williams. Produção executiva: Aaron Spelling, E. Duke Vincent. Produção: Sarah Pillsbury, Midge Sanford. Elenco: Matthew Modine, Ian McKellen, Glenne Headly, Richard Gere, Anjelica Huston, Alan Alda, Charles Martin Smith, Phil Collins, Nathalie Baye, Richard Jenkins, Saul Rubinek, Donal Logue, Patrick Bauchau, Steve Martin, Swoozie Kurtz, Tchéky Karyo. Estreia: 11/9/93

Em 1989, o filme "Meu querido companheiro", de Norman René, já mostrava, através de um grupo de amigos de Nova York, o estrago que o vírus da AIDS fez junto à comunidade homossexual americana em seus primórdios, quando ainda era conhecido apenas como o "câncer gay". Com enfoque humanista e emocional, o filme deu a Bruce Davison uma indicação ao Oscar de coadjuvante e tornou-se o primeiro filme ianque a tratar abertamente do assunto - não por acaso, era uma produção independente, já que os grandes estúdios de Hollywood evitavam o tema como se fosse uma doença contagiosa (ops...).Foi somente com "Filadélfia", de Jonathan Demme, que os grandes orçamentos e astros bancáveis começaram a demonstrar um interesse que acabou, com o tempo, tornando-se o caminho fácil para o Oscar - que o diga Tom Hanks, Matthew McConaughey e Jared Leto. No mesmo ano em que o filme de Demme foi lançado, porém, outra produção fora dos limites do cinema comercial americano tocou no tema, de forma séria, pontual e quase didática. Baseado em um livro de Randy Shilts que narrava a odisseia dos médicos americanos e franceses em entender e combater uma doença cuja origem e desenvolvimento ainda eram grandes incógnitas, "E a vida continua" estreou no canal a cabo HBO em setembro de 1993 apresentando um elenco de rostos conhecidos e um capricho que, anos depois, se tornaria a marca registrada da emissora.

Com a longa duração de 141 minutos - sendo que os finais são dedicados a uma montagem com imagens de vítimas famosas (ou não) da doença sob a voz de Elton John cantando a bela "The last song" - "E a vida continua" evita o sentimentalismo ao tratar do assunto de forma quase jornalística, centrando seu foco em Don Francis (Matthew Modine, indicado ao Golden Globe por seu desempenho), um jovem médico infectologista que tenta, junto à equipe do Centro de Controle de Doenças de Atlanta, desvendar o que está causando a morte de dezenas de homossexuais masculinos, que perdem a imunidade repentinamente e morrem devido a doenças oportunistas. Sem o apoio do governo - que parece não se importar com o fato de que uma epidemia está em vias de acontecer - e nem mesmo dos próprios gays (que se recusam a mudar seu estilo de vida por considerarem tal ato um retrocesso a seus direitos civis), o grupo de médicos parte em busca da ajuda de profissionais franceses, como o competente Luc Montagnier (Patrick Buchau) - que entra em confronto direto com outro americano, Robert Gallo (Alan Alda), o primeiro médico a descobrir um retrovírus e que pretende ficar com o mérito de também ter descoberto o vírus da nova doença.


Mostrando passo a passo a evolução tanto da epidemia quanto das conquistas médicas, o filme de Roger Spottiswoode - diretor burocrático mas pouco ousado que já havia tentado arrancar graça de Sylvester Stallone em "Pare, senão mamãe atira!", em 1992 - segue no rumo oposto a "Meu querido companheiro", preferindo dedicar sua atenção na batalha incansável travada pela Medicina do que em suas vítimas e nos efeitos arrasadores da epidemia junto à população homossexual. Enquanto Francis luta por financiamento, por ajuda do governo e pelo apoio do próprio grupo de risco, o filme desenha sem maior ênfase o destino de alguns pacientes, como o comissário de voo promíscuo (Jeffret Nordling) que ajuda os médicos a encontrarem uma trilha de contaminação, o jovem símbolo da doença (Donal Logue) que luta para chamar a atenção da população e o coreógrafo famoso (Richard Gere) que se descobre doente e faz uma generosa doação para as pesquisas. A presença de Gere no elenco, aliás, é um dos pontos de destaque do filme. Um dos mais populares astros da década de 90 - vindo de sucessos como "Justiça cega" e "Uma linda mulher" - Gere entrou no projeto por acreditar em sua importância social e sua atitude resultou em uma corrida desenfreada de atores querendo fazer parte da empreitada, mesmo que em papéis pequenos.

Foi assim que Anjelica Huston, Steve Martin, Ian McKellen e Alan Alda embarcaram em "E a vida continua", um filme de importância política e social inegável e que lançou luz a um tema até então considerado impróprio e desagradável para o grande público - e para a presidência do país, uma vez que foi preciso mais de uma década desde a primeira morte para que Ronald Reagan fizesse sua primeira menção à epidemia. De lá pra cá o cinema e a televisão vem explorando o assunto em produções de qualidades variadas - inclusive a mesma HBO lançou, em 2014, o sensacional "The normal heart", que dramatiza o mesmo período histórico sob um ponto de vista mais dramático e menos técnico - mas isso não lhe tira o mérito do pioneirismo.

sábado

QUERIDO JOHN

QUERIDO JOHN (Dear John, 2010, Screen Gems/Relativity Media, 108min) Direção: Lasse Halstrom. Roteiro: Jamie Linden, romance de Nicholas Sparks. Fotografia: Terry Stacey. Montagem: Kristina Boden. Música: Deborah Lurie. Figurino: Dana Campbell, Kathryn Langston. Direção de arte/cenários: Kara Lindstrom/Summer Eubanks. Produção executiva: Toby Emmerich, Jeremiah Samuels, Tucker Tooley, Michelle Weiss. Produção: Marty Bowen, Wyck Godfrey, Ryan Kavanaugh. Elenco: Channing Tatum, Amanda Seyfried, Henry Thomas, Richard Jenkins. Estreia: 24/01/10

Tudo bem que Nicholas Sparks não é um escritor dos mais dotados literariamente falando, mas nada justifica o crime cometido contra seu livro "Querido John" na adaptação cinematográfica dirigida por Lasse Halstrom - que em tempos mais criativos foi saudado como um dos maiores talentos estrangeiros em Hollywood graças a "Minha vida de cachorro", pelo qual chegou a ser indicado ao Oscar. Não que o filme seja uma desgraça (pode até emocionar os coraçõezinhos mais sensíveis) mas o roteiro conseguiu estragar todas as poucas surpresas do livro e, pior ainda, mudou indecentemente o final, que funcionava muito bem no papel e provavelmente também o faria na versão para as telas. A pergunta é só uma: por que??

A trama açucarada de Sparks - autor também dos livros que deram origem a "Uma carta de amor", "Um amor para recordar", "Noites de tormenta" e o belo "Diário de uma paixão", todos eles trágicos, diga-se de passagem - conta a história de amor entre o soldado John Tyree (Channing Tatum) e a universitária Savannah Curtis (Amanda Seyfried). Eles se conhecem durante o verão de 2001 e iniciam um romance como aqueles que só a literatura e o cinema podem conceber. Duas semanas depois ele volta para o exército, mas eles se mantém correspondendo. Com o atentado ao World Trade Center, as coisas mudam: ele passa a dedicar-se ainda mais à carreira e, cansada da solidão e da distância, ela põe um ponto final no relacionamento. O que acontece a partir daí é digno de qualquer novela global.
Não se pode exigir muito de um filme como "Querido John", cujas ambições são apenas de levar adolescentes românticas ao cinema - ambições essas plenamente cumpridas com a renda de mais de 80 milhões de dólares arrecadados somente nos cinemas americanos. E, justiça seja feita, não é um filme dolorosamente ruim, como fizeram pensar muitos críticos. É preciso levar-se em consideração que é um produto ligeiro, que, sem pretensões a tornar-se um ícone de seu tempo ou um clássico romântico, pode ser assistido tranquilamente - exceção feita aos não-fãs inveterados do gênero.

Amanda Seyfried é uma graça, conforme mostrou em "Mamma Mia!" e "Cartas para Julieta", e aqui se movimenta com desenvoltura, chegando até mesmo a emocionar em momentos mais dramáticos. Channing Tatum desfila seu físico invejável boa parte do filme e, se não chega a encantar por seus dotes histriônicos, ao menos não faz feio nem ao lado de Seyfried nem contracenando com o sempre ótimo Richard Jenkins, que vive seu pai, na atuação mais interessante do longa de Lasse Halstrom. Aliás, se tem uma coisa que decepciona em "Querido John" é justamente saber que é dirigido pelo sueco.

Deixando de lado suas ousadias há um bom tempo, Halstrom enveredou pelo banal e comercial, como o inacreditável "Chocolate" e o chatinho "Chegadas e partidas", que só se salvou pelo elenco. Fosse dirigido por um cineasta menos talentoso e experiente, "Querido John" seria apenas mais um romance bonitinho a chegar às telas. Saber que foi comandado pelo homem que deu sinceridade e emoção a "Regras da vida" surpreende negativamente. Mas quantas adolescentes da plateia sabem quem é Lasse Halstrom, certo??

"Querido John" é um bom drama romântico para os menos exigentes e dá uma vontade enorme de fazer declarações de amor à pessoa certa. Mas, por incrível que pareça dizer isso de uma obra de Nicholas Sparks, o livro é melhor...

quarta-feira

COMER, REZAR, AMAR


COMER, REZAR, AMAR (Eat, Pray, Love, 2010, Columbia Pictures, 133min) Direção: Ryan Murphy. Roteiro: Ryan Murphy, Jennifer Salt, livro de Elizabeth Gilbert. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Brad Buecker. Música: Dario Marianelli. Figurino: Michael Dennison. Direção de arte/cenários: Bill Groom. Produção executiva: Jeremy Kleiner, Brad Pitt, Stan Wlodkowski. Produção: Dede Gardner. Elenco: Julia Roberts, Javier Bardem, James Franco, Billy Crudup, Richard Jenkins, Viola Davis. Estreia: 13/8/10

O livro foi um fenômeno de vendas no mundo inteiro, conquistando leitoras com seu jeito despojado de misturar autoajuda com guia de viagem. O filme, que todos esperavam repetir o sucesso – especialmente com a presença da megaestrela Julia Roberts no papel principal – já não foi uma unanimidade tão grande assim. Com a crítica dividida e o público pouco entusiasmado (ao menos em comparação com a bilheteria imensa que se imaginava), a versão para as telas do best-seller “Comer, rezar, amar” pode ter decepcionado aos produtores, mas está longe de ser o desastre que muitos tentaram pintar. Carismática e boa atriz, Roberts foi a escolha perfeita para o papel principal, o da escritora Elizabeth Gilbert, que abandona suas raízes para tentar encontrar a paz de espírito que seus relacionamentos amorosos não lhe trazem. Por pouco não dirigida novamente por Garry Marshall – que lhe deu a chance para o estrelato em “Uma linda mulher” (90) e recusou o projeto pelas dificuldades logísticas que ele abrangia – ela é o corpo e a alma de um filme que tem em seus belos cenários personagens tão importantes quanto a própria Gilbert.

Bem dividido nos três capítulos que dão nome ao livro e ao filme, “Comer, rezar, amar” ainda se utiliza de alguns flashbacks para melhor dar ao espectador a chance de conhecer a protagonista e seus anseios. Tal artifício, que poderia atrapalhar a narrativa, serve, no entanto, como um respiro à jornada de Liz – uma personagem que pode parecer, a princípio, apenas como uma mulher chata e propensa a aumentar a proporção de seus problemas. O desafio do roteiro – escrito pelo próprio diretor Ryan Murphy em parceria com Jennifer Salt – era mergulhar a plateia nos pensamentos da protagonista, justamente para que ela não caísse na armadilha da autocomiseração e da complacência. Nem sempre funciona – a versão estendida, lançada em bluray, teve mais sucesso nesse ponto – mas quem leu o livro sabe que a busca de Gilbert servia mais como uma espécie de descanso sabático do que exatamente uma busca pelo sentido da vida. Rica, bonita e inteligente, ela sai em viagem pelo mundo (o que não é algo que muita gente consegue fazer, convenhamos) não para curar suas feridas, mas sim para encontrar novas perspectivas. E mesmo que o filme não tenha sido exatamente bem-sucedido em deixar isso muito claro – em alguns momentos sua decisão soa um tanto aleatória – não deixa de ser delicioso acompanhar Julia Roberts e seu belo sorriso por algumas das paisagens mais bonitas do mundo.


Escritora infeliz no amor, Liz Gilbert (uma Julia Roberts que batalhou pessoalmente para levar o livro às telas) acaba de terminar o namoro com um jovem ator (James Franco). Seu relacionamento, amoroso mas incompleto, segue um divórcio doloroso, do qual saiu praticamente exaurida emocionalmente. Incentivada pelas tendências religiosas do rapaz e pelas lembranças de uma viagem feita à Bali alguns meses antes, ela resolve, então, colocar os pés na estrada e, por um ano, afastar-se de sua rotina para, em três partes diferentes do planeta, reencontrar sua alma. Na Itália, dedica-se a experimentar os prazeres da culinária, da beleza e do dolce far niente que lhe ensinam os nativos. É a melhor parte do filme, leve, luminosa, engraçada e fotografada com um misto de contemplação e paixão pelo veterano Robert Richardson. Logo em seguida, ela passa por um período bem menos prazeroso, tentando acostumar-se com a rotina de um mosteiro indiano. Entre lavar o chão do local e procurar acertar-se com as rígidas regras de oração e meditação, ela trava contato com outro americano, o sofrido Richard (Richard Jenkins), que tem um motivo bem mais radical para estar buscando a paz espiritual – e é dono da cena mais emocional do filme, principalmente graças ao trabalho excepcional de Jenkins.

O terço final do filme é, talvez, o mais controverso e menos fascinante. Controverso por apresentar um Javier Bardem com tenebroso sotaque português interpretando um brasileiro, Felipe, por quem Liz acaba se apaixonando. Além da escalação de Bardem (um ator extraordinário mas inadequado ao papel), o roteiro inventa características bizarras ao povo brasileiro – segundo a produção, pais e filhos tem o costume de beijar-se na boca – e escolhe, para trilha sonora, a mesma “Samba da bênção”, cantada por Bebel Gilberto, que também esteve presente em “Closer, perto demais” (04), estrelado pela mesma Julia Roberts. No mínimo falta de imaginação. À parte isso, o romance entre Liz e Felipe não chega a encantar ou seduzir o público, até então envolvido com as duas primeiras partes da trajetória da protagonista. Mesmo as belas paisagens que os rodeia são insuficientes para dar liga ao casal e isso acaba por prejudicar seriamente o resultado final e encerrar a viagem com uma sensação de anti-clímax.

Mas, se no conjunto final “Comer, rezar, amar” não é uma obra-prima da sétima arte, é injusto não reconhecer suas qualidades. Ryan Murphy – criador de séries como “Nip/Tuck”, “Glee” e “American Horror Story” e em seu segundo longa-metragem – tem a receita de contar histórias que conquistam sem fazer muito esforço, e contar com Julia Roberts, uma das maiores estrelas de Hollywood no papel principal, não atrapalha em nada. Ainda que sua falta de experiência fique clara em alguns pontos – a edição poderia ser mais ágil e podar alguns momentos menos inspirados – é perceptível seu carinho pelo material e seu esforço em traduzir em imagens as palavras de Elizabeth Gilbert. Bom diretor de atores, extrai boas atuações do elenco masculino – que inclui também Billy Crudup como o primeiro marido de Liz – e consegue fazer com que o carisma de Roberts não fique no caminho da história. Muitas fãs do livro não se deixaram seduzir pela adaptação cinematográfica, mas é inegável que é um filme subestimado e com potencial para ser melhor avaliado no futuro. Nem sua duração excessiva chega a ser um defeito se o espectador se deixar levar pela viagem de Gilbert.

OS AGENTES DO DESTINO

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