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terça-feira

O DESTINO BATE À SUA PORTA

O DESTINO BATE À SUA PORTA (The postman always rings twice, 1981, MGM, 122min) Direção: Bob Rafelson. Roteiro: David Mamet, romance de James M. Cain. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Graeme Clifford. Música: Michael Small. Figurino: Dorothy Jeakins. Direção de arte/cenários: George Jenkins/Robert Gould. Produção executiva: Andrew Braunsberg. Produção: Charles Mulvehill, Bob Rafelson. Elenco: Jack Nicholson, Jessica Lange, John Colicos, Michael Lerner, Christopher Lloyd, Anjelica Huston. Estreia: 20/3/81

Publicado em 1934 pelo norte-americano James M. Cain, o romance "The postman always rings twice" sempre foi bastante atraente para o cinema. Já em 1939, o francês "Paixão criminosa", de Pierre Chenal traduzia para a tela a história de luxúria, ambição e paranoia criada por Cain. Quatro anos mais tarde, foi a vez da Itália apresentar a sua versão da trama, em "Obsessão", dirigido por Luchino Visconti - uma produção que só chegou aos cinemas dos EUA em 1976 (segundo consta, por imposição dos editores do autor). Mas foi somente em 1946 que Hollywood rendeu-se à tentação de adaptar a obra, com direção de Tay Garnett e Lana Turner no papel central feminino - uma demora explicada pela dificuldade de transformar uma obra com alto teor sexual em algo palatável ao gosto dos famigerados responsáveis pelo Código Hayes, que mandava nas produções da época e implicava até mesmo com beijos que durassem mais do que alguns segundos. Foi preciso mais trinta e cinco anos, porém, para que um cineasta americano chegasse perto da amoralidade e da sensualidade retratadas pelo escritor. Mais afeito a rebeldias temáticas do que ao cinemão promovido por Hollywood - vide títulos como "Os Monkees estão à solta" e "Cada um vive como quer", retratos nítidos da contracultura dos anos 60 - o cineasta Bob Rafelson é quem teve a coragem de tirar o pó de um livro com quase meio século de idade, distanciar-se do tom noir imposto pelo filme de 1946 e enfatizar o lado mundano de seus personagens. Com um roteiro seco e incisivo do dramaturgo David Mamet (estreando no cinema), "O destino bate à sua porta" versão 1981 pegou de surpresa o puritano público norte-americano e provou, entre uma cena mais quente e outra, que a bela Jessica Lange , ainda desacreditada pela crítica, era uma atriz de grande potencial dramático - o que ficou provado no ano seguinte, quando ela arrebatou indicações ao Oscar de atriz e atriz coadjuvante por dois filmes totalmente opostos (e ganhou a estatueta da segunda categoria pela comédia "Tootsie").

Enfatizando a sexualidade quase animal dos protagonistas e tornando-os mais humanos (e portanto mais suscetíveis a falhas de caráter e incoerências), o roteiro de Mamet transformou o romance de Cain em um pesadelo claustrofóbico e sufocante, tanto pelo visual árido oferecido pela fotografia do sueco Sven Nykvist - colaborador habitual de Ingmar Bergman - quanto pela atmosfera de tensão criada por Rafelson. Substituindo o visual elaborado de luz e sombra dos filmes americanos da década de 40 por um tom naturalista que sublinha a sordidez das situações da história, Nykvist aproxima seus personagens da plateia, impelindo-a a mergulhar em seu emaranhado de circunstâncias cruéis e trágicas sem a proteção de qualquer tipo de glamour. Quando Jack Nicholson e Jessica Lange cedem ao desejo e fazem da mesa da cozinha como palco de seu amor - em meio à farinha e outros ingredientes - o público sabe que está testemunhando o início de um romance que não tem como dar certo, mas compreende completamente suas ações. No auge da beleza, Lange é impossível de se resistir - e Nicholson, em sua quarta parceria com Bob Rafelson, surge em sua vida como alternativa a um mundo sem perspectivas. É um caminho de paixão desmedida e avassaladora conduzido com um senso absoluto de urgência e melancolia - e, paradoxalmente, de uma elegância ímpar mesmo em seu desolador cenário.


A história se passa durante a Grande Depressão americana ocorrida logo após a queda da bolsa de Nova York em 1929. À beira de uma estrada da Califórnia, o grego Nick Papadakis (John Colicos em papel que foi oferecido ao cineasta Elia Kazan) vive com a esposa bem mais jovem, Cora (Jessica Lange) e dirige um restaurante e um posto de gasolina. É lá que vai parar Frank Chambers (Jack Nicholson), um andarilho sem passado - e logicamente sem futuro - que não demora em conquistar a confiança do proprietário do local e convencê-lo a lhe dar um emprego. Surge então, entre ele e Cora, uma tensão sexual que é rapidamente transformada em um caso tórrido e irresponsável. Apaixonados, os dois resolvem fugir juntos, mas quando percebem que lhes será impossível manter o relacionamento sem uma boa base financeira, decidem matar Nick e fazer parecer um acidente. Como não são exatamente gênios do crime, porém, as coisas começam a sair muito erradas - o que coloca a polícia em seu encalço e o remorso em sua rotina como amantes. Em pouco tempo, sua história de amor vira uma história de angústia e desespero.

Acostumado a filmar histórias com anti-heróis e personagens que não se encaixam em uma sociedade convencional, Bob Rafelson faz dos protagonistas de "O destino bate à sua porta" pessoas de carne e osso, uma visão mais perto da obra de Visconti do que da adaptação estrelada por Lana Turner - de certa forma presa à estética noir. Ao dotá-los de características mais humanas, o cineasta (e o roteirista David Mamet) acaba por oferecer a seus atores centrais um material rico e complexo. Em seu ponto de vista, Frank Chambers e Cora Papadakis não são simplesmente dois amantes sórdidos e ambiciosos - como sugere o romance original e suas adaptações anteriores: são pessoas lutando desesperadamente por uma vida menos triste e sem sentido. É lógico que o fazem da maneira errada, mas sua incapacidade até mesmo de lidar com suas escolhas os aproxima do público com grande sucesso, mesmo que seja para serem rejeitados por ele. Nesse ponto é Jessica Lange quem se sai melhor, dotando sua Cora de subtextos e nuances que expandem a compreensão de sua personagem até o limite da compaixão. Jack Nicholson se mantém como o sedutor mau-caráter que sempre lhe cai bem, mas é Lange quem brilha, justificando a escolha de Rafelson e pavimentando um caminho que lhe traria ainda muitas glórias. Tenso e cortante, "O destino bate à sua porta" é uma das adaptações mais certeiras da obra de Cain, ainda que, por incrível que pareça, tente se distanciar das versões cinematográficas anteriores.

sexta-feira

OS EXCÊNTRICOS TENENBAUMS

OS EXCÊNTRICOS TENENBAUMS (The royal Tenenbaums, 2001, Touchstone Pictures, 110min) Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson, Owen Wilson. Fotografia: Robert Yeoman. Montagem: Dylan Tichenor. Música: Mark Mothersbaugh. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: David Wasco. Produção executiva: Rudd Simmons, Owen Wilson. Produção: Wes Anderson, Barry Mendel, Scott Rudin. Elenco: Gene Hackman, Anjelica Huston, Gwyneth Paltrow, Ben Stiller, Owen Wilson, Luke Wilson, Bill Murray, Danny Glover, Seymour Cassel, Alec Baldwin. Estreia: 05/10/01 (Festival de Nova York)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Gene Hackman) 

Era uma vez uma família de pequenos gênios que, não conseguindo lidar com o tamanho de seus talentos, cresceu à sombra de seus precoces feitos, levando uma vida adulta triste e frustrada até que seu pai, de quem viveram afastados por décadas, reaparece alegando uma doença terminal e uma vontade férrea de reconciliação. Essa trama, um tanto banal a princípio, é a base para um dos filmes mais estranhos, criativos e surpreendentemente comoventes de 2001 - apesar de ser, a rigor, uma comédia: dirigido por Wes Anderson e co-escrito por ele e o ator Owen Wilson, "Os excêntricos Tenenbaums" aprimora o estilo de seu diretor - depois do pouco conhecido "Pura adrenalina" e do cultuado "Três é demais" - ao contar a história desses bizarros personagens incapazes de lidar com sua decadência de forma divertida e emocionante, com toques discretos de melancolia e cinismo. Contando com um elenco formado por atores premiados com o Oscar - Gene Hackman, Anjelica Huston e Gwyneth Paltrow - e colaboradores habituais - Owen Wilson, seu irmão Luke, Bill Murray - Anderson criou um espetáculo de estilo personalíssimo, capaz até mesmo de chamar a atenção da Academia de Hollywood, que lhe deu a oportunidade de concorrer ao Oscar de melhor roteiro original - que perdeu para "Assassinato em Gosford Park". Essa mesma Academia, que ignorou o desempenho exemplar de Gene Hackman como o patriarca Royal Tenenbaum, mais de uma década depois se encantaria com "O Grande Hotel Budapeste", obra da maturidade do cineasta -  mas os fãs já conheciam esse talento há muito tempo.


A história da família Tenenbaum é narrada pela voz de Alec Baldwin, que dá o tom exato entre fábula e comédia de costumes à sua estranha trajetória. Quando crianças, os três filhos de Royal e Etheline Tenenbaum (Gene Hackman e Anjelica Huston) demonstram talentos incomuns para sua idade, transformando-se rapidamente em pequenas celebridades: o mais velho, Chas, desenvolve habilidades incomuns para as finanças e a química; a filha adotiva, Margot, escreve peças de teatro aplaudidíssimas; e o caçula Richie chama a atenção como prodigioso jogador de tênis. A separação de seus pais, porém, abala suas estruturas emocionais e intelectuais e os joga em uma espécie de arremedo deles mesmos. Vinte e dois anos depois da separação, os três irmãos vivem prostrados diante de suas vidas medíocres: Chas (Ben Stiller) acaba de perder a esposa e tenta cuidar sozinho dos dois filhos pequenos, versões em miniatura de si mesmo. Margot (Gwyneth Paltrow) deixou o teatro de lado e vive em depressão ao lado do marido, o brilhante psiquiatra Raleigh St. Clair (Bill Murray), com idade para ser seu pai. E Richie (Luke Wilson), depois de abandonar a carreira durante uma crise emocional em uma partida, saiu em viagem pelo mundo em um barco de pesca. Quando seu pai retorna à mansão onde todos foram criados, dizendo estar sofrendo de um câncer terminal - às vésperas do casamento de Etheline com o contador Henry Sherman (Danny Glover) - a família se vê obrigada a encarar os fantasmas do passado para finalmente conseguir olhar para a frente.

A trama soa como um dramalhão dos mais carregados no açúcar, mas Anderson não é um diretor dado a sentimentalismos baratos, e aplica em seu roteiro toda a criatividade visual que se tornaria sua marca registrada. A mansão da família, que serve como principal cenário, por exemplo, é de uma sofisticação visual impressionante, refletindo em cada detalhe todos os paradoxos temporais e psicológicos da trama, repleta de camadas e piadas escondidas (como o fato de todos os irmãos terem sido inspirados em personalidades reais, como o tenista Bjorn Borg, a cantora alemã Nico e no escritor Cormac McCarthy). A história de amor proibido entre Richie e sua irmã adotiva Margot dá o toque romântico ao roteiro, que ainda encontra espaço para explorar os dramas de Eli Cash (Owen Wilson), vizinho da família que se torna famoso como romancista especialista em desmistificar heróis americanos - e cujo maior sonho era ser um Tenenbaum. Fugindo do piegas até mesmo nos embates dramáticos entre pai e filhos, o filme de Anderson é conduzido como um delicado acerto de contas banhado em uma ironia rara e inteligente que transpira até mesmo nos figurinos irreverentes - os três irmãos, por exemplo, usam, mesmo na fase adulta, o mesmo estilo de roupas que usavam na infância.

E se o roteiro e a direção de "Os excêntricos Tenenbaums" são um show de sutileza e minimalismo, o mesmo pode ser dito a respeito do extraordinário elenco reunido por Wes Anderson. Gene Hackman levou o Golden Globe de melhor ator em comédia ou musical por seu trabalho como Royal Tenenbaum - no qual ele inspirou-se na própria relação distante com os filhos - e Anjelica Huston mais uma vez mostra que não é preciso lágrimas em profusão para emocionar. E os três irmãos gênios - Ben Stiller, Gwyneth Paltrow e Luke Wilson - estão no tom perfeito, entrando com presteza no jogo do cineasta, dono de um estilo tão peculiar que muitas vezes pode soar artificial. No entanto, quem se deixa cativar por sua exuberância não tem do que reclamar. A família Tenenbaum é, sem dúvida, o exemplo perfeito do seu cinema que a tantos encanta.

segunda-feira

E A VIDA CONTINUA

E A VIDA CONTINUA (And the band played on, 1993, HBO Pictures/Spelling Entertainment, 141min) Direção: Roger Spottiswoode. Roteiro: Arnold Schulman, livro de Randy Shilts. Fotografia: Paul Elliott. Montagem: Lois Freeman-Fox. Música: Carter Burwell. Figurino: Patti Callicott. Direção de arte/cenários: Victoria Paul/Diana Allen Williams. Produção executiva: Aaron Spelling, E. Duke Vincent. Produção: Sarah Pillsbury, Midge Sanford. Elenco: Matthew Modine, Ian McKellen, Glenne Headly, Richard Gere, Anjelica Huston, Alan Alda, Charles Martin Smith, Phil Collins, Nathalie Baye, Richard Jenkins, Saul Rubinek, Donal Logue, Patrick Bauchau, Steve Martin, Swoozie Kurtz, Tchéky Karyo. Estreia: 11/9/93

Em 1989, o filme "Meu querido companheiro", de Norman René, já mostrava, através de um grupo de amigos de Nova York, o estrago que o vírus da AIDS fez junto à comunidade homossexual americana em seus primórdios, quando ainda era conhecido apenas como o "câncer gay". Com enfoque humanista e emocional, o filme deu a Bruce Davison uma indicação ao Oscar de coadjuvante e tornou-se o primeiro filme ianque a tratar abertamente do assunto - não por acaso, era uma produção independente, já que os grandes estúdios de Hollywood evitavam o tema como se fosse uma doença contagiosa (ops...).Foi somente com "Filadélfia", de Jonathan Demme, que os grandes orçamentos e astros bancáveis começaram a demonstrar um interesse que acabou, com o tempo, tornando-se o caminho fácil para o Oscar - que o diga Tom Hanks, Matthew McConaughey e Jared Leto. No mesmo ano em que o filme de Demme foi lançado, porém, outra produção fora dos limites do cinema comercial americano tocou no tema, de forma séria, pontual e quase didática. Baseado em um livro de Randy Shilts que narrava a odisseia dos médicos americanos e franceses em entender e combater uma doença cuja origem e desenvolvimento ainda eram grandes incógnitas, "E a vida continua" estreou no canal a cabo HBO em setembro de 1993 apresentando um elenco de rostos conhecidos e um capricho que, anos depois, se tornaria a marca registrada da emissora.

Com a longa duração de 141 minutos - sendo que os finais são dedicados a uma montagem com imagens de vítimas famosas (ou não) da doença sob a voz de Elton John cantando a bela "The last song" - "E a vida continua" evita o sentimentalismo ao tratar do assunto de forma quase jornalística, centrando seu foco em Don Francis (Matthew Modine, indicado ao Golden Globe por seu desempenho), um jovem médico infectologista que tenta, junto à equipe do Centro de Controle de Doenças de Atlanta, desvendar o que está causando a morte de dezenas de homossexuais masculinos, que perdem a imunidade repentinamente e morrem devido a doenças oportunistas. Sem o apoio do governo - que parece não se importar com o fato de que uma epidemia está em vias de acontecer - e nem mesmo dos próprios gays (que se recusam a mudar seu estilo de vida por considerarem tal ato um retrocesso a seus direitos civis), o grupo de médicos parte em busca da ajuda de profissionais franceses, como o competente Luc Montagnier (Patrick Buchau) - que entra em confronto direto com outro americano, Robert Gallo (Alan Alda), o primeiro médico a descobrir um retrovírus e que pretende ficar com o mérito de também ter descoberto o vírus da nova doença.


Mostrando passo a passo a evolução tanto da epidemia quanto das conquistas médicas, o filme de Roger Spottiswoode - diretor burocrático mas pouco ousado que já havia tentado arrancar graça de Sylvester Stallone em "Pare, senão mamãe atira!", em 1992 - segue no rumo oposto a "Meu querido companheiro", preferindo dedicar sua atenção na batalha incansável travada pela Medicina do que em suas vítimas e nos efeitos arrasadores da epidemia junto à população homossexual. Enquanto Francis luta por financiamento, por ajuda do governo e pelo apoio do próprio grupo de risco, o filme desenha sem maior ênfase o destino de alguns pacientes, como o comissário de voo promíscuo (Jeffret Nordling) que ajuda os médicos a encontrarem uma trilha de contaminação, o jovem símbolo da doença (Donal Logue) que luta para chamar a atenção da população e o coreógrafo famoso (Richard Gere) que se descobre doente e faz uma generosa doação para as pesquisas. A presença de Gere no elenco, aliás, é um dos pontos de destaque do filme. Um dos mais populares astros da década de 90 - vindo de sucessos como "Justiça cega" e "Uma linda mulher" - Gere entrou no projeto por acreditar em sua importância social e sua atitude resultou em uma corrida desenfreada de atores querendo fazer parte da empreitada, mesmo que em papéis pequenos.

Foi assim que Anjelica Huston, Steve Martin, Ian McKellen e Alan Alda embarcaram em "E a vida continua", um filme de importância política e social inegável e que lançou luz a um tema até então considerado impróprio e desagradável para o grande público - e para a presidência do país, uma vez que foi preciso mais de uma década desde a primeira morte para que Ronald Reagan fizesse sua primeira menção à epidemia. De lá pra cá o cinema e a televisão vem explorando o assunto em produções de qualidades variadas - inclusive a mesma HBO lançou, em 2014, o sensacional "The normal heart", que dramatiza o mesmo período histórico sob um ponto de vista mais dramático e menos técnico - mas isso não lhe tira o mérito do pioneirismo.

sexta-feira

MISTERIOSO ASSASSINATO EM MANHATTAN

MISTERIOSO ASSASSINATO EM MANHATTAN (Manhattan murder mystery, 1993, TriStar Pictures, 104min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Produção executiva: Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Anjelica Huston, Alan Alda, Jerry Adler, Lynn Cohen, Ron Rifkin. Estreia: 18/8/93

Com o final de sua bem-sucedida parceria profissional de 12 anos com Mia Farrow - com quem também era casado até o escândalo que surgiu em 1992, quando ele assumiu seu romance com a filha adotiva da atriz - a carreira de Woody Allen poderia entrar em um período de recesso. Para sorte de seus (inúmeros) fãs, porém, o cineasta nova-iorquino não deixou que problemas pessoais interferissem em sua tradição informal de lançar um filme por ano. Chamando de volta Diane Keaton, sua antiga colaboradora e com quem realizou algumas de suas maiores obras-primas dos anos 70, como "Noivo neurótico, noiva nervosa" (77) - que lhes rendeu Oscar de direção e atriz, respectivamente - e "Manhattan" (79), Allen não só deixou em segundo plano as polêmicas de seu novo relacionamento como entregou ao público uma comédia como há muito não realizava. "Misterioso assassinato em Manhattan" é sofisticado, engraçado e dotado de uma ironia de que só o cineasta nova-iorquino é capaz, além de brindar o espectador com seu reencontro com Keaton, uma atriz que ilumina a tela com seu carisma e talento.

Como bons amigos que voltam a se encontrar depois de anos, Keaton e Allen estão em sua melhor forma em "Misterioso assassinato em Manhattan", que marca também o reencontro do diretor com outro velho conhecido, o corroteirista Marshall Brickman, com quem ele dividiu o Oscar de "Noivo neurótico" - filme do qual, aliás, deriva a ideia central de um casal investigando um pretenso homicídio. Ao lado de Brickman, Allen volta a equilibrar com maestria diálogos sensacionais, uma trama consistente e personagens carismáticos, interpretados por um elenco coadjuvante que tem o luxo de poder contar com Alan Alda e Anjelica Huston (que também colaboraram com o diretor em seu "Crimes e pecados", de 1989). Lançado ainda no rastro da polêmica do fim do romance entre Allen e Mia Farrow, a comédia acabou recebendo generosos elogios da crítica e agradou em cheio o espectador que vinha de outro grande trabalho seu, o dramático e catártico "Maridos e esposas" (92).


Os protagonistas de "Misterioso assassinato em Manhattan" são Larry e Carol Lipton (Allen e Keaton), um casal sofisticado, culto e bem-sucedido que passa por um período de vazio em suas vidas com a ida do filho para a faculdade. Larry trabalha no mercado editorial e Carol pretende abrir um restaurante como forma de preencher seu tempo ocioso. Uma noite, quando estão chegando em casa, eles descobrem que uma de suas vizinhas, uma senhora de idade com quem travaram conhecimento há poucos dias, morreu repentinamente, vítima de um ataque do coração. Percebendo que as atitudes do viúvo não condizem com o fato - ele não parece estar nem um pouco abatido com a situação - Carol passa a desconfiar que ele na verdade matou a esposa e passa a investigar o caso. A princípio fazendo pouco das ideias absurdas da esposa, Larry acaba entrando no jogo por ciúmes, quando nota que um amigo antigo e agora divorciado, Ted (Alan Alda), está constantemente a seu lado. Junta-se ao grupo também a escritora Marcia Fox (Anjelica Huston), que acredita que sua experiência como autora de livros policiais pode ajudá-los a desvendar o crime.

Repleto de citações deliciosas a Hitchock ("Janela indiscreta" e "Um corpo que cai" são as mais diretas), Billy Wilder ("Pacto de sangue" é duplamente lembrado) e Orson Welles (o clímax homenageia "A dama de Shangai"), "Misterioso assassinato em Manhattan" mostra um Woody Allen de bem com a vida, distante dos temas densos que estiveram em evidência durante uma fase de sua carreira. Sua química com Diane Keaton é esplêndida e a trama, por incrível que pareça, não serve apenas como pretexto para piadas e sequências cômicas (ainda que elas existam e sejam ótimas): a tramoia que envolve a morte da vizinha dos Lipton tem mais camadas do que aparenta em uma primeira visão, o que dá ao filme um molho extra que certamente agradará também aos fãs do gênero policial. Em suma, um Woody Allen de boa safra, com uma Diane Keaton, como sempre, brilhante.

sábado

OS IMORAIS

OS IMORAIS (The grifters, 1990, Cineplex-Odeon Films, 110min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Donald E. Westlake, romance de Jim Thompson. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Mick Audsley. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Richard Honrnung. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Barbara de Fina. Produção: Robert A. Harris, Jim Painter, Martin Scorsese. Elenco: Anjelica Huston, John Cusack, Annette Bening, Pat Hingle, Xander Berkeley. Estreia: 14/9/90 (Festival de Toronto)

4 indicações ao Oscar: Diretor (Stephen Frears), Atriz (Anjelica Huston), Atriz Coadjuvante (Annette Bening), Roteiro Adaptado

Lilly Dillon ganha a vida lavando dinheiro da Máfia, frequentando hipódromos para buscar a grana de seu violento patrão, Bobo Justus. Seu filho, Roy, vive de golpe em golpe, arriscando-se em busca do ganha-pão e não a vê há oito anos. Sua nova namorada, a alegre sirigaita Myra Langrty, utiliza-se de sua beleza para pagar com o corpo o aluguel e outras dívidas que não consegue amortecer, depois de ver suas chances de enriquecer com um golpe milionário irem por água abaixo. Esse trio de bandidinhos, malandros pés-de-chinelo, a quilômetros de distância do glamour hollywoodiano são os protagonistas de "Os imorais", noir sujo, direto e sem concessões baseado com extrema fidelidade no romance de Jim Thompson e dirigido por Stephen Frears que conseguiu a façanha de, no mesmo ano de "Os bons companheiros", de Martin Scorsese, e "O poderoso chefão, parte III", de Francis Ford Coppola, chegar até a cerimônia do Oscar em categorias nobres como direção, roteiro e atriz. Scorsese, aliás, é produtor executivo do filme, o que talvez explique a maneira com que as entranhas do submundo do crime são tão cruamente expostas nessa pérola de Stephen Frears, até então mais conhecido pelo elegante "Ligações perigosas" (88).

Pela direção da adaptação do clássico romance de Choderlos de Laclos estrelado por Glenn Close e John Malkovich, o diretor foi esnobado pela Academia, apesar do filme concorrer à estatueta principal, mas dessa vez não teve como ignorá-lo. Sua direção firme, fria e direta casa perfeitamente com o texto incisivo e cínico de Jim Thompson, escritor americano que frequentou Hollywood contribuindo com o roteiro de  "O grande golpe" (56) e "Glória feita de sangue" (57), ambos de Stanley Kubrick: sem preocupar-se com firulas, sua obra vai direto à jugular, com uma violência verbal e física capaz de encantar aos fãs do tradicional cinema noir hollywoodiano - mas, ao contrário dos filmes mais famosos do gênero, abdica do glamour para concentrar-se nos escaninhos mais sórdidos das histórias de gângsteres, aqueles que até o mais amoral criminoso tem vergonha de admitir. Ao retratar bandidos ralé ao invés de poderosos chefões, "Os imorais" ganha pontos pela autenticidade, garantida por um trio de atores principais de tirar o chapéu.


Anjelica Huston (loiríssima) está sublime como Lilly, uma Jocasta extemporânea que, depois de oito anos de ausência, reencontra o filho, Roy (John Cusack iniciando uma expressiva fase da carreira que o levaria a trabalhar com cineastas do porte de Woody Allen e ser reconhecido como um dos atores mais promissores de sua geração) e de cara implica com sua nova namorada, Myra (Annette Bening, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), em uma antipatia recíproca, como se ambas percebessem a inevitável rivalidade prestes a ocorrer. Lilly quer que Roy a ajude a fugir de seu patrão, que desconfia de sua honestidade (não sem motivos). Myra deseja que o namorado se torne seu sócio em um esquema que lesa milionários desavisados. As duas sabem que qualquer escolha do rapaz anulará a outra e uma guerra silenciosa é declarada entre elas.

Contando com uma edição ágil mas nunca apressada de Mick Audsley - que começa o filme dividindo a tela em três, apresentando à plateia as personagens com quem irão conviver pelas próximas duas horas - "Os imorais" se beneficia também do roteiro enxuto de Donald E. Westlake, que segue religiosamente sua origem literária e da coragem de Stephen Frears em obrigar o publico a testemunhar cenas de grande impacto emocional (a tortura psicológica sofrida por Lilly e um punhado de laranjas enroladas em uma toalha) sem nunca ultrapassar os limites visuais da violência. Trabalhando principalmente sobre a personalidade de seus protagonistas - e até mesmo deixando no ar algumas questões como o tipo de relação entre Lilly e Roy, que beira o incesto - a trama prefere investigar os mecanismos tortuosos entre os três personagens como engrenagens de uma complexa história de amor, traição e vingança. Não deve agradar a todos - seu visual é desprovido de qualquer beleza e seu ritmo é brusco e árido - mas poucos filmes de sua época tiveram sua coragem de arrancar sem temores os véus de delicadeza que cobriam o gênero policial. Só por isso já merece aplausos.

terça-feira

A HONRA DO PODEROSO PRIZZI

A HONRA DO PODEROSO PRIZZI (Prizzi's honor, 1985, ABC Motion Pictures, 130min) Direção: John Huston. Roteiro: Richard Condon, Janet Roach, romance de Richard Condon. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Kaja Fehr, Rudi Fehr. Música: Alex North. Figurino: Donfeld. Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Bruce Weintraub. Produção: John Foreman. Elenco: Jack Nicholson, Kathleen Turner, Robert Loggia, John Randolph, William Hickey, Anjelica Huston, Lawrence Tierney, Lee Richardson. Estreia: 13/6/85

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Huston), Ator (Jack Nicholson), Ator Coadjuvante (William Hickey), Atriz Coadjuvante (Anjelica Huston), Roteiro Adaptado, Montagem, Figurino
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Anjelica Huston)
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Comédia/Musical, Diretor (John Huston), Ator Comédia/Musical (Jack Nicholson), Atriz Comédia/Musical (Kathleen Turner) 

Penúltimo filme da carreira de John Huston - o derradeiro seria "Os vivos e os mortos" (88), adaptado de conto de James Joyce - e último realizado nos EUA, "A honra do poderoso Prizzi" surpreende pela energia imposta pelo então quase octogenário cineasta a uma trama que mistura no mesmo caldeirão um filme de máfia, uma comédia de humor negro e uma crítica à hipocrisia da sociedade patriarcal e machista da América. Adaptado de um romance de Richard Condon, o filme foi lançado às pressas nos EUA porque o estúdio considerava que o material não tinha estofo comercial, mas acabou sendo contrariado pelas críticas mais do que positivas, pelo sucesso de público e, melhor ainda, pelas generosas oito indicações ao Oscar - e pela estatueta mais do que justa abocanhada por Anjelica Huston, que ficou com o papel oferecido a atrizes tão díspares quanto Mia Farrow, Demi Moore e Michelle Pfeiffer e provou que era mais do que simplesmente a filha do diretor e namorada de Jack Nicholson.

Nicholson, aliás, está em um de seus desempenhos mais discretos, sem o arsenal de caras e bocas que marcaram sua carreira - e também recebeu uma justa indicação ao Oscar. Ele vive Charley Partanna, o afilhado do poderoso Don Corrado Prizzi (William Hickey), chefe de um das mais poderosas famílias mafiosas dos EUA. Trabalhando para a família como matador, ele também tem relações com o passado da neta de Corrado, a ousada Maerose (Anjelica Huston), com quem mantinha um relacionamento que acabou com uma tumultuada separação e a expulsão dela do rígido clã. Em uma festa de casamento, Partanna cai de amores pela bela Irene Walker (Kathleen Turner), que está em Nova York a negócios. Os dois iniciam um tórrido romance que acaba em casamento, mas logo as coisas se mostram bem mais complicadas do que pareciam a princípio, já que ambos tem a mesma profissão e não demora para que sejam contratados para matar um ao outro.


Com um roteiro brilhante co-escrito pelo autor do romance que lhe deu origem, "A honra do poderoso Prizzi" brinca com os clichês dos filmes de máfia sem nunca deixar de prestar-lhe os devidos tributos de cânones essenciais da cultura cinematográfica americana. Evitando a violência explícita - mesmo as cenas de morte tem um pé no surreal, o que as deixa no mínimo bizarras - e utilizando um senso de humor mordaz que encontra em seus atores os intérpretes ideais, Huston conduz as reviravoltas de seu filme com a segurança de um cineasta que sabe melhor do que ninguém - a julgar por sua cinematografia cínica e quase cruel - como funciona a alma daqueles cidadãos cujas regras são ditadas por seus próprios interesses e ambições. Um dos últimos diretores da velha guarda de Hollywood, ele não deixa de lado a elegância nem mesmo quando seus personagens agem de forma egoísta ou violenta. Pode-se até dizer que "Prizzi" é um filme de gângster sem sangue algum - até mesmo em seu clímax existe uma discrição à moda antiga, como se seguisse a máxima de Hitchcock, que dizia que um assassinato

"A honra do poderoso Prizzi" chegou ao Oscar enfrentando a concorrência quase injusta de "Entre dois amores", de Sydney Pollack, que com suas características de épico romântico deixou todos os indicados do ano comendo poeira, incluindo o belíssimo "A cor púrpura", de Steven Spielberg. Mesmo tendo o aval do Golden Globe, onde teve sorte bem melhor, o filme de Huston ficou apenas com a estatueta de Anjelica, o que nem de longe reflete suas inúmeras qualidades. Um retrato bem-humorado do mundo da máfia mas que jamais abandona seu jeitão de filme de gângster, é uma pequena obra-prima de um dos mais importantes cineastas da história do cinema ianque e, de quebra, apresenta uma química de ouro entre Jack Nicholson, Anjelica Huston e Kathleen Turner. Um filme para quem gosta de cinemão.

50%

50% (50/50, 2011, Summit Entertainment, 100min) Direção: Jonathan Levine. Roteiro: Will Reiser. Fotografia: Terry Stacey. Montagem: Zene Baker. Música: Michael Giacchino. Figurino: Carla Hetland. Direção de arte/cenários: Annie Spitz/Shane Vieau. Produção executiva: Nathan Kahane, Will Reiser. Produção: Evan Goldberg, Ben Karlin, Seth Rogen. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Seth Rogen, Anna Kendrick, Anjelica Huston, Philip Baker Hall, Bryce Dallas Howard. Estreia: 12/9/11 (Festival de Toronto)

Passar por um câncer raro na coluna provavelmente não é exatamente uma das experiências mais agradáveis da vida, mas há quem consiga ver um lado bom até nisso. É o caso do roteirista Will Reiser, que utiliza suas lembranças da doença como matéria-prima de "50%", comédia dramática que arrancou elogios da crítica e até foi cotado para conquistar uma vaga entre os candidatos ao Oscar de roteiro original de 2011.  A maior qualidade do filme dirigido por Jonathan Levine? A forma franca e direta com que trata o tema, equilibrando com inteligência momentos de cortar o coração com um senso de humor que o afasta do dramalhão sentimentaloide.

Amparado pela bela atuação do cada vez melhor Joseph Gordon-Levitt - que substituiu James McAvoy dois dias antes do início das filmagens - o filme de Levine acompanha a trajetória do jornalista Adam Learner, de 27 anos, depois que ele descobre que tem um tipo raro de câncer (de origem genética) na coluna.  Atordoado com a notícia (como não poderia deixar de ser), ele conta com a ajuda do melhor amigo Kyle (Seth Rogen) para lidar com as consequências da doença. Entre sessões de terapia com a jovem médica Katherine (Anna Kendrick) e quimioterapia com o veterano paciente Alan (Philip Baker Hall), Adam precisa também superar a crise em seu relacionamento com a artista plástica Rachael (Bryce Dallas Howard) e recuperar sua relação com os pais, em especial a mãe superprotetora Diane (Anjelica Huston, dando olé em cada cena que aparece).


Realizado de forma independente com um orçamento irrisório de 8 milhões de dólares (que se transformaram em mais de 30 somente nos EUA), "50%" surpreende também pela forma não-romantizada com que trata a situação central da história, não derrapando na tentação de partir para clichês de autoajuda. Ainda que seja positivo, não esconde também o lado pesado da situação vivida pelo protagonista, interpretado com simpatia por Gordon-Levitt (indicado ao Golden Globe de melhor ator): para cada momento de humor (genuíno, inteligente e irônico) há uma cena capaz de emocionar (delicadamente, sem exageros), lembrando à audiência que, apesar das risadas, a história que está sendo contada não é um pastelão inconsequente.

Embora a opção do roteiro em não estigmatizar a doença através do humor possa ser considerada de mau-gosto por uma parcela mais conservadora do público, é inegável que a leveza com que Reiser revestiu sua triste (mas esperançosa) história é muito mais palatável à plateias contemporâneas do que o petardo emocional "Laços de ternura", citado nominalmente em um diálogo do filme. "50%" é muito melhor do que sua aparência de filme indie e metido a modernoso. Embalado por uma irresistível trilha sonora (que une Roy Orbison a Eddie Vedder) e interpretado por um elenco em dias inspirados (inclusive o bobalhão Seth Rogen, provando que por trás do comediante exagerado existe um ator de grande potencial), é uma das gratas surpresas da temporada, infelizmente lançada diretamente em DVD no Brasil (em mais uma prova da falta de visão das distribuidoras).

quinta-feira

CRIMES E PECADOS

CRIMES E PECADOS (Crimes and misdemeanors, 1989, Orion Pictures, 104min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Alan Alda, Martin Landau, Anjelica Huston, Claire Bloom, Sam Waterston, Jerry Orbach. Estreia: 13/10/89

3 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Ator Coadjuvante (Martin Landau), Roteiro Original

Em sua vasta carreira como cineasta, onde comédias sofisticadas dividem espaço com dramas existenciais profundos e densos, Woody Allen criou quase que um universo próprio, facilmente reconhecível dentro de sua filmografia. Mesmo que nem sempre acerte em cheio - ainda que até mesmo seus filmes menores sejam excelentes -, Allen de vez em quando aparece no auge de seu ofício, entregando à plateia filmes tão sensacionais que é difícil não reconhecer sua importância seminal no cinema americano. Um desses exemplos é "Crimes e pecados", um trabalho impecável de roteiro e direção, que é quase que uma reunião do que de melhor ele pode oferecer ao público. Um certo senso de humor melancólico, neuroses urbanas e uma dose de pessimismo (realismo?) fazem do ... do diretor uma de suas obras-primas. E para isso, ele não precisou nem de grandes astros nem de um orçamento estratosférico. Não foi ao Vietnã (como em "Nascido em 4 de julho"), não assumiu nenhum tom paternalista em relação à velhice (como em "Conduzindo Miss Daisy") nem falou de superações pessoais (como em "Em nome do pai"). "Crimes e pecados" fala de pessoas simples, com problemas que lhes atormentam a alma. Talvez por isso não tenha encontrado lugar entre os finalistas ao Oscar principal - ainda que tenha concorrido nas categorias de diretor, roteiro original e ator coadjuvante.

Retomando a ciranda de relacionamentos com que já havia brincado em "Hannah e suas irmãs" - com matizes mais leves e também bem-sucedidos - Allen conta várias histórias paralelas que se encontram sutilmente, graças a um roteiro bem costurado. O próprio diretor interpreta Cliff Stern um documentarista que se vê obrigado a ir contra os próprios ideais ao aceitar conduzir um programa de TV enfocando seu cunhado, o produtor de televisão Lester (Alan Alda, sensacional). Durante o processo, ele se apaixona pela produtora do show, Halley Reed (Mia Farrow), em quem reconhece uma alma parecida com a sua. Além de Lester, Cliff é também cunhado de Ben (Sam Waterston), um rabino sábio e inteligente que está em vias de perder a visão. Por isso, ele frequenta o consultório do renomado Judah Rosentahl (Martin Landau, indicado ao Oscar de coadjuvante), um homem aparentemente em paz com a vida mas que esconde uma terrível angústia: sua amante Delores Paley (Anjelica Huston) está ameaçando revelar seu caso com ele e ainda por cima denunciar uma fraude cometida anos antes.


As personagens de "Crimes e pecados" estão entre as melhores já criadas por Woody Allen. O roteiro investiga, de forma concisa e inteligente, os questionamentos humanos em relação à fé e a justiça divina. A visita de Judah à casa onde passou a infância (homenagem explícita a Ingmar Bergman), por exemplo, é um primor, assim como a conversa imaginária que ele tem com o rabino Ben, quando decide finalmente eliminar seus problemas da maneira menos ética possível, recorrendo a um assassinato. Segundo o filme, "o olho de Deus tudo vê", mas também segundo o roteiro, Deus pode ser apenas uma ideia, o que concede à humanidade e a seus atos uma aleatoriedade triste mas realista. Fugindo do otimismo de "Hannah", Allen é cético e quase cínico em sua abordagem sobre as pessoas e suas relações, o que se retrata na opção de Halley em abandonar seus ideais em nome do sucesso e na escolha de Judah em seguir o caminho mais "fácil" para sentir-se livre das pressões que o afligem.

Poucas vezes o cinema de Woody Allen foi tão contundente quanto em "Crimes e pecados". Infelizmente!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...