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quinta-feira

BUSCA FRENÉTICA


BUSCA FRENÉTICA (Frantic, 1988, Warner Bros, 120min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Gérard Brach. Fotografia: Witold Sobocinski. Montagem: Sam O'Steen. Música: Ennio Morricone. Figurino: Anthony Powell. Direção de arte/cenários: Pierre Guffroy. Produção: Tim Hampton, Thom Mount. Elenco: Harrison Ford, Emmanuelle Seigner, Betty Buckley, John Mahoney, Gérard Klein. Estreia: 19/02/88

Nada como, depois de um fracasso de proporções homéricas, voltar às origens para recuperar, se não o caminho das bilheteria, ao menos boa parte do prestígio acumulado em décadas de sucesso. Dois anos depois do fiasco irrecuperável de "Piratas" (1986) - que custou cerca de 40 milhões de dólares e rendeu menos de dois ao redor do mundo -, a carreira de Roman Polanski precisava urgentemente de um filme que resgatasse o respeito da crítica e relembrasse ao público o cineasta por trás de obras impecáveis como "O bebê de Rosemary" (1968) e "Chinatown" (1974). Nada mais natural, então, do que recorrer ao gênero que fez dele um dos mais importantes realizadores europeus de sua geração: de volta à Paris onde filmou seu clássico "O inquilino" (1976) e munido de intenções hitchcockianas, Polanski atingiu parte de seus objetivos. Apesar de não ter se tornado o grande êxito comercial esperado pela Warner Bros, sua primeira colaboração com a futura mulher Emmanuelle Seigner (com quem se casaria em agosto de 1989) o reconciliou com a maioria da crítica e mostrou que abandonar a grandiosidade e abraçar o minimalismo foi sua melhor opção.

Não é preciso ser graduado em Cinema para perceber que a inspiração de "Busca frenética"" - em termos temáticos e visuais - é o mestre do suspense Alfred Hitchcock. Com uma trama que remete diretamente a "A dama oculta" (1938), sequências que homenageiam obras como "Janela indiscreta" (1953) e a indefectível loura misteriosa que foi marca registrada de boa parte de sua filmografia , o filme de Polanski recorre até mesmo a um dos truques preferidos do cineasta britânico: o infame mcguffin - aqui representado por um artefato capaz de detonar armas nucleares (!!). Tal artifício até chega a incomodar de tão pueril, mas é fato que, até que se descubra os motivos por trás do desaparecimento da esposa do protagonista (interpretado por um apático Harrison Ford, provavelmente responsável por boa parte da repercussão popular do filme), a produção envolve e intriga na medida certa, aproveitando as ruas escuras de uma Paris bem menos acolhedora do que nos cartões postais mas charmosa o bastante para desfilar com beleza pelas lentes da fotografia do veterano polonês Witold Sobocinski - colaborador de nomes como Andrzej Wajda e Krysztof Zanussi. Percorrendo becos inferninhos, a câmera nervosa de Sobocinski mergulha o público em uma trama onde tudo parece perigoso e todos parecem suspeitos de algum crime inconfessável.

 

A trama começa com a chegada de Richard Walker (Harrison Ford) à Paris. Acompanhado da mulher, Sondra (Betty Buckley), ele está na capital francesa para uma conferência profissional, mas o casal tem também a intenção de reviver os bons momentos que passaram na cidade em sua lua-de-mel. Seus planos começam a dar errado quando Sondra simplesmente desaparece do quarto de hotel enquanto o marido está no chuveiro. Completamente perdido - não sabe falar francês e não tem a menor ideia do que pode ter acontecido com a esposa -, Walker tampouco recebe ajuda das autoridades locais, pouco interessadas em sua história. Depois de tentativas quase infrutíferas de investigar por conta própria, o médico descobre que o sumiço de Sondra está ligado a uma troca de malas ocorrida ainda no aeroporto - e tal descoberta o leva até Michelle (Emmanuelle Seigner), uma bela jovem que pode estar de posse do objeto procurado pelos sequestradores, que tem ligações com um grupo com intenções de controlar armas nucleares. Juntos, Walker e Michelle partem em busca de uma forma de resgatar Sondra e evitar uma tragédia maior, já que a polícia aparenta estar mais preocupada em desbaratar a quadrilha do que manter a mulher do médico viva.

A trama rocambolesca e com ares de aventura obsoleta de James Bond é o calcanhar de Aquiles de "Busca frenética". Roman Polanski é um diretor com o dom de buscar sempre ângulos desconfortáveis e criativos para enfatizar suas ideias frequentemente claustrofóbicas, mas acaba tropeçando em um roteiro - coescrito com o parceiro Gérard Brach - frequentemente confuso e sem foco bem definido. A presença de Emmanuelle Seigner soa gratuita a maior parte do tempo e a atuação de Harrison Ford, morna e indiferente, prejudica a empatia com seu personagem - que foi cogitado para cair nas mãos de Nick Nolte, William Hurt e Kevin Costner. Salva-se a primeira metade, intrigante, algumas sequências interessantes e até mesmo a presença magnética de Seigner. No mais, é um Polanski mais palatável ao gosto médio (ou seja sem maior personalidade) e menos marcante. Um supercine de luxo!!

A PELE DE VÊNUS

A PELE DE VÊNUS (La Vénus à la fourrure, 2013, R.P. Productions, 96min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, David Ives, romance de Leopold von Sacher-Masoch, peça teatral de David Ives. Fotografia: Pawel Edelman. Montagem: Hervé de Luze, Margot Meynier. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Dinah Collin. Direção de arte/cenários: Bruno Via/Philippe Cord'homme. Produção: Robert Benmussa, Alain Sarde. Elenco: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner. Estreia: 25/5/13 (Festival de Cannes)

Quando trabalhou junto com a atriz Emmanuelle Seigner pela primeira vez, no thriller "Busca frenética" (1988), o diretor Roman Polanski encontrou na bela francesa uma esposa e uma musa. Desde então dirigiu-a em "Lua de fel" (1992) e "O último portal" (1999), mas nunca teve a oportunidade de mostrar à plateia a evolução de seu talento como atriz, adquirida com a experiência e a maturidade. Trabalhando com o marido pela primeira vez em seu idioma natural - o francês - a bela Seigner finalmente teve a chance de deixar de ser coadjuvante para ser a estrela em "A pele de Vênus", que estreou no Festival de Cannes 2013 com efusivos elogios e rendeu ao veterano Polanski um César (o Oscar francês) de melhor diretor. Com um roteiro inspirado na peça de teatro de David Ives - por sua vez baseado no romance homônimo de Leopold von Sacher-Masoch - o filme volta a brincar com a obsessão do cineasta por ambientes claustrofóbicos, e envolve a plateia em um jogo de sedução e dominação inteligente e perspicaz, que tem especial ressonância àqueles apaixonados por teatro. Com uma invejável química entre Seigner e Mathieu Amalric - que substituiu Louis Garrell pouco antes do começo das filmagens - e um ritmo que se mantém em constante ebulição, "A pele de Vênus" é mais um filme que confirma Roman Polanski como um inquieto criador de obras perturbadoras e densas.

Uma clara homenagem ao teatro - forma de arte de que o próprio Polanski já se utilizou em filmes como "A morte e a donzela" (2004) e "O deus da carnificina" (2013) - e à arte da atuação, "A pele de Vênus" é, também, uma sofisticada obra de arte, recheada de referências culturais e psicológicas, que, ao contrário do que poderia acontecer, jamais soa pedante ou inalcançável. É, sem dúvida, muito acima da média do cinema popular (em que o cérebro do espectador raramente é acionado), mas dificilmente pode ser acusado de intelectualizado em excesso. Ao abraçar uma estrutura puramente teatral - sem respiros artificiais ou tramas paralelas desnecessárias - o roteiro, coescrito pelo diretor e pelo autor da peça original, exige da plateia uma atenção e uma disposição absolutas, mas lhe dá em troca um espetáculo do mais alto nível. É contra-indicado àqueles que reclamam da verborragia do teatro filmado, mas suas qualidades cinematográficas - a edição precisa, a trilha sonora impecável de Alexandre Desplat, a direção segura de Polanski - conseguem facilmente conquistar a admiração até do mais exigente espectador que se deixar envolver pela complexa relação estabelecida entre seus dois protagonistas.


Thomas (Mathieu Amalric) é um dramaturgo que está em vias de estrear como diretor, adaptando um clássico e polêmico romance escrito no século XVIII. Depois de testar dezenas de candidatas ao principal papel feminino e quase desistindo de sua busca, ele se vê surpreendido pela bela e determinada Vanda (Emmanuelle Seigner), que chega ao teatro onde os ensaios devem tomar forma com o firme objetivo de mostrar a ele que é a atriz ideal para viver a personagem, que, coincidentemente, tem o mesmo nome que ela. A princípio recusando-se a testar Vanda por ela ter chegado atrasada e parecer pouco apropriada fisicamente ao papel, aos poucos Thomas vai percebendo que, por trás de sua aparência vulgar e pouco inteligente, ela é uma mulher não apenas completamente dedicada à sua profissão como também apaixonada pelo texto - do qual ele tem indisfarçável orgulho. Não demora para que ele se deixe seduzir pelo talento da moça, que transforma uma simples audição em um sagaz jogo de dominação - que é, afinal, o tema da peça de Thomas. Cada vez mais certo de que Vanda (por coincidência ou não, o mesmo nome da protagonista de sua trama) é a melhor escolha para a peça, ele aceita sua proposta de fazer uma espécie de ensaio informal ali mesmo, diante de uma plateia vazia: surge, então, uma bizarra relação entre os dois.

E é esse relacionamento sui generis que conduz "A pele de Vênus" durante seus 96 minutos. Valorizando cada trecho de diálogos - bem escritos, inteligentes, irônicos e questionadores a respeito de temas como fetichismo e a complexidade das relações homem/mulher - mas jamais esquecendo as ferramentas do cinema (edição, fotografia), Polanski brinda o espectador com um brilhante exercício artístico, que sublinha o melhor de cada linguagem e as reapresenta em forma de um novo e excitante tabuleiro, onde cada nova cena ilumina um novo lado da personalidade - do texto, da direção e dos personagens, que se multiplicam conforme a narrativa vai se tornando mais e mais sinuosa. Para sua sorte, conta com dois atores excepcionais nas reviravoltas dramáticas e que seguram com extrema habilidade cada nuance proposta pelo roteiro. Elegante, fascinante e inteligente, "A pele de Vênus" é o melhor que um teatro filmado pode ser.

quarta-feira

DENTRO DA CASA

DENTRO DA CASA (Dans la maison, 2012, Mandarin Films/Mars Films/France 2 Cinéma, 105min) Direção: François Ozon. Roteiro: François Ozon, peça de teatro "El chico de la última fila", de Juan Mayorga. Fotografia: Jérôme Almerás. Montagem: Laure Gardette. Música: Philippe Rombi. Figurino: Pascaline Chavanne. Direção de arte: Arnaud de Moleron. Produção: Eric Altmayer, Nicolas Altmayer, Claudie Ossard. Elenco: Fabrice Luchini, Kristin Scott Thomas, Ernst Umhauer, Emmanuelle Seigner, Denis Ménochet, Bastien Ughetto. Estreia: 10/9/12 (Festival de Toronto)

Um dos mais prolíficos e criativos do cinema francês contemporâneo, François Ozon transita sem constrangimento pelos mais diversos gêneros, brindando o espectador com um cinema elegante e criativo que vai do musical ("Oito mulheres") ao suspense ("Swimming pool, à beira da piscina") sem perder o brilho e a inteligência. Apaixonado pela arte da narrativa, Ozon encontrou na peça de teatro "El chico de la última fila", de Juan Mayorga, o material ideal para aquele que pode ser considerado, sem exagero, um de seus melhores trabalhos. Explicitando seu amor pela literatura e pelo cinema como elemento de voyeurismo - como fez Alfred Hitchcock em sua obra-prima "Janela indiscreta", homenageada carinhosamente na sequência final - Ozon faz de "Dentro da casa" um genial exercício de meta-linguagem que borra a fronteira entre cinema e literatura sem jamais perder o fio condutor da trama ou soar pretensioso. Não bastasse isso tudo, ainda tem no elenco a presença sempre forte de Kristin Scott Thomas, uma das melhores atrizes de sua geração.

O protagonista de "Dentro da casa" é Germain Germain (Fabrice Luchini), um entediado professor de Francês de uma escola pública que há muito tempo deixou de encantar-se com a profissão ou acreditar nas possibilidades dos alunos adolescentes. Casado com a bela Jeanne (Kristin Scott Thomas) - cuja carreira como curadora de uma galeria de arte está por um fio graças a uma ameaça de fechamento do local - o cansado professor se vê repentinamente intrigado pelo trabalho de Claude Garcia (Ernst Umhauer), um discreto e silencioso aluno que demonstra um inesperado talento para as letras. Ao narrar sua primeira visita à casa do colega Rapha Artole (Bastien Ughetto) - e suas impressões a respeito da dinâmica familiar que encontra lá dentro - o rapaz prende a atenção do mestre, que passa a lhe dar atenção, emprestar livros clássicos e dar dicas de como manter o interesse do leitor na história, iniciada como uma simples redação e desenvolvida, a partir daí, como um folhetim recheado de inesperadas reviravoltas. Para deixar seu relato ainda mais envolvente,  não hesita em manipular seu amigo e se infiltrar na família a ponto de tentar seduzir a mãe do rapaz, a bela e aparentemente infeliz Esther (Emmanuelle Seigner).


Aos poucos, porém, as coisas começam a fugir do controle, e Claude revela uma faceta pouco confiável de sua personalidade. Para conquistar as graças do professor e o amor da mãe de seu amigo, ele não hesita em criar situações cada vez mais complicadas - que podem ou não ser verdadeiras - e confundir ficção com realidade. Quando a vida de todos se cruzam inesperadamente, caberá a Germain dar um basta no problema, mas será que ele tem interesse em acabar com algo que finalmente está dando um certo sentido à sua vida e à sua carreira? E até que ponto o jovem está disposto a seguir suas orientações para finalizar sua história sem que haja maiores vítimas?

Contar mais sobre os desdobramentos de "Dentro da casa" é privar o espectador das surpresas oferecidas por um roteiro inteligente e pela direção ágil de Ozon, que tira o máximo proveito de seu elenco afinado e da trama envolvente. Fabrice Luchini deita e rola no papel do subitamente entusiasmado professor e Ernst Umhauer entrega uma performance perfeita no equilíbrio entre a inocência e a malícia de um adolescente cujas reais intenções permanecem uma incógnita até o final coerente e adequado. Com o duelo travado entre os dois, resta a Emmanuelle Seigner e Kristin Scott Thomas (que já dividiram a tela no perturbador "Lua de fel", de Roman Polanski, marido de Seigner na vida real) enfeitar a tela com seu charme em papéis aparentemente secundários que assumem sem medo a condução da narrativa quando é preciso. Dotado de inúmeras qualidades e uma força dramática irretocável, "Dentro da casa" é um pequeno grande filme que merece ser descoberto por fãs de bom cinema.

O ESCAFANDRO E A BORBOLETA

O ESCAFANDRO E A BORBOLETA (Le escaphandre et le papillon, 2007, Pathé Renn Productions, 112min) Direção: Julian Schnabel. Roteiro: Ronald Harwood, livro de Jean-Dominique Bauby. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Juliette Welfling. Música: Paul Cantelon. Figurino: Olivier Bériot. Direção de arte/cenários: Michel Eric, Laurent Ott. Produção executiva: Pierre Grunstein, Jim Lemley. Produção: Kathleen Kennedy, Jon Kilik. Elenco: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Marie Josée Croze, Anne Consigny, Niels Arestrup, Jean-Pierre Cassell, Max Von Sydow. Estreia: 22/5/07 (Festival de Cannes)

4 indicações ao Oscar: Diretor (Julian Schnabel), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem

É de se imaginar a reação do executivo do estúdio (no caso, o Pathé, de Paris) ao ser informado do projeto de "O escafandro e a borboleta": a história de um homem vítima de um derrame que, incapaz de mover um único membro do corpo exceto o olho esquerdo, revê sua vida e seus relacionamentos enquanto escreve suas memórias através de uma técnica nova, desenvolvida por sua fonoaudióloga. O roteiro, baseado no livro autobiográfico do personagem central, previa ainda que os quarenta minutos iniciais do filme fossem totalmente através do seu ponto de vista (ou seja, sem que ele interagisse ativamente com os demais personagens) e o diretor escolhido para o projeto, Julian Schnabel - que havia sido elogiado pela cinebiografia do escritor cubano Reinaldo Arenas, "Antes de anoitecer" - não estava interessado em astros de Hollywood para liderar o elenco, ainda que Johnny Depp e Gary Oldman tivessem sido cogitados para tal. Não é de admirar, portanto que, devido a tais particularidades, a adaptação de Ronald Harwood do livro de Jean-Dominique Bauby corresse o sério risco de manter-se na lista dos "melhores roteiros não filmados" da história. Mas Schnabel pode ser acusado de tudo, menos de desapaixonado: nascido no Brooklyn, aprendeu francês e convenceu o estúdio a mudar o idioma original do script para a língua original do protagonista - que ficou nas mãos do excelente mas pouco "comercial" Mathieu Amalric. Resultado: críticas unanimemente elogiosas e quatro importantes (e merecidíssimas) indicações ao Oscar: diretor, roteiro, fotografia e edição.

Realmente, a experiência de assistir a "O escafandro e a borboleta" não é das mais fáceis, uma vez que a obra de Schnabel foge do habitual festival de clichês que inunda os filmes do gênero e exige do espectador um mergulho sem reservas no universo restrito do protagonista. No entanto, sua inteligência e sensibilidade, somados à criatividade em transformar palavras e sentimentos abstratos em imagens de extrema poesia, fazem com que, ao final da sessão, o público sinta-se banhado de uma beleza de que somente o cinema europeu - livre das amarras financeiras da indústria hollywoodiana - é capaz. Anos-luz distante dos dramalhões sobre doenças e superação, a história de Bauby - editor da revista Elle francesa - é sobretudo coberta de humanidade, ao eleger como protagonista um homem comum, com defeitos reais e qualidades verossímeis, que tem sua existência transformada radicalmente de uma hora para outra e se vê obrigado a encarar pensamentos dos quais fugiu a vida inteira. Com a ajuda da atuação brilhante de Mathieu Amalric - que não precisa nem mesmo falar pela maior parte do filme - essa viagem por sua consciência é pontuada por cenas de uma poesia melancólica e nostálgica, valorizadas pela fotografia do oscarizado Janusz Kaminski ("A lista de Schindler" e "O resgate do soldado Ryan"), que consegue revestir a claustrofobia inerente à situação da trama com um verniz de delicadeza e uma atmosfera de sonho.


Já começando o roteiro com a internação de Bauby - sem deixar tempo para o espectador acostumar-se com a nova situação, assim como ele - "O escafandro e a borboleta" o acompanha pelo calvário de exames, visitas, especulações e procedimentos hospitalares tendo apenas seus pensamentos e memórias como vínculos com seu cotidiano pré-derrame. Sofrendo de uma condição chamada "Síndrome de Encarceramento" - consequência de um AVC que o deixou em coma por várias semanas - Bauby tem plena consciência do que se passa à sua volta, mas é incapaz de mover qualquer parte do corpo, com exceção do olho esquerdo, com o qual consegue enxergar as pessoas que passam a fazer parte de sua rotina, como a fonoaudióloga Henriette (Marie Josée-Croze) - que irá ajudar-lhe em sua comunicação com o mundo e até escrever um livro - e sua ex-mulher, Céline (Emmanuelle Seigner, sra. Roman Polanski), que releva a separação dolorosa para manter-se a seu lado com os três filhos pequenos. Além disso, Bauby repassa em sua mente também a relação carinhosa que mantém com o pai (Max Von Sydow).

Equilibrando com maestria cenas tocantes e diálogos inteligentes com sequências feéricas que exploram o turbilhão sensorial de seu protagonista sem nunca cair no sentimentalismo - com direito até a um inesperado senso de humor em determinados momentos - "O escafandro e a borboleta" é uma soma de qualidades que faz dele um filme imperdível e inesquecível. Além da fotografia inspirada de Kaminski e do roteiro perfeito em sua mistura entre drama, poesia e delicadeza narrativa, a direção de Schnabel (merecidamente indicado ao Oscar por seu trabalho) consegue ultrapassar os limites de um gênero ingrato e elevar seu filme a uma pequena obra-prima.

sexta-feira

PIAF, UM HINO AO AMOR


PIAF, UM HINO AO AMOR (La Môme, 2006, Lègende Films, 140min) Direção: Olivier Dahan. Roteiro: Olivier Dahan, Isabelle Sobelman. Fotografia: Tetsuio Nagata. Montagem: Richard Marizy. Música: Christopher Gunning. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Olivier Raoux/Stéphane Cressend, Petra Kobedova, Cecile Vatelot. Produção: Alain Goldman. Elenco: Marion Cottilard, Gérard Depardieu, Emmanuelle Seigner, Sylvie Testud. Estreia: 14/02/07

3 indicações ao Oscar: Atriz (Marion Cottilard), Figurino, Maquiagem
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Marion Cottilard), Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Marion Cottilard)

Se alguém tem dúvidas sobre os motivos que levaram Marion Cottilard a tornar-se apenas a segunda atriz a levar o Oscar por um trabalho não falado em inglês basta assistir a "Piaf, um hino ao amor". A biografia da cantora Édith Piaf - realizada por um inspirado Olivier Dahan - tem na bela Cottilard seu maior e mais espetacular trunfo. Sua interpretação avassaladora - que lhe rendeu também um BAFTA e um Golden Globe - amortece até mesmo alguns momentos confusos do roteiro parcialmente inspirado na autobiografia da mais famosa cantora francesa de todos os tempos. Deslumbrante na vida real, Cottilard desaparece diante da maquiagem e da personalidade gigantesca da pequena Piaf, em uma das mais impressionantes entregas de uma atriz a um papel na história do cinema.

Optando por contar sua história fora de ordem cronológica, intercalando diferentes fases da vida e da carreira de Piaf, o diretor Dahan dá a sua estrela a oportunidade única de mostrar as várias facetas da protagonista. Da juventude até sua morte precoce aos 48 anos (e extremamente envelhecida para a idade), Piaf teve uma vida repleta de lances dramaticamente interessantes para o cinema. Essa vida, que mesclava festas com a nata da boemia parisiense com dramas pessoais envolvendo assassinatos e ao menos uma trágica história de amor é contada com uma elegância à toda prova, valorizada pela fotografia em cores quentes de Tetsuio Nagata e pela edição de Richard Marizy, repleta de idas e vindas no tempo - e que, ao contrário de ser apenas um artifício narrativo estéril, serve para dar mais consistência à personalidade um tanto controversa da biografada.


Também é preciso ser óbvio e dizer o quanto a trilha sonora é parte fundamental de "Piaf, um hino ao amor". Utilizando-se de um grande número de canções na voz de Edith - apelidada de "La môme" (ou pardalzinho) na infância, devido a seu enorme talento vocal - o filme (que se tornou a terceira maior bilheteria de uma produção francesa nos EUA) tem nelas um apoio excepcional para comentar a ação e mostrar a evolução do mundo em meio a situações extremas, como a Segunda Guerra Mundial. É uma canção das mais famosas de seu repertório, "Non, je ne regrete rian" - que transformou-se na cara da protagonista - que também dá o tom exato do terço final da narrativa, que amplia a melancolia já desenhada em seu princípio. Essa música - que, por coincidência ou não, tem grande importância também no blockbuster "A origem", estrelado por Cottilard em 2010 - é, provavelmente, o melhor resumo da personalidade da biografada por Dahan, que já escreveu o roteiro pensando em sua atriz central.

E, mais uma vez, é preciso aplaudir, louvar e se render ao magnífico trabalho de Marion Cottilard. Fenomenal em todas as fases de Piaf, ela surpreende por, mesmo tão jovem, ser capaz de compreender todas as nuances da personagem, a ponto de transmutar-se nela mesmo com suas diferenças físicas. Seu Oscar é, sem sombra de dúvida, um dos mais justos e merecidos da trajetória do prêmio - e o fato de ter sido lembrada mesmo por um trabalho em língua francesa até torna menos discutível que gente como Sandra Bullock e Hale Berry esteja na lista das homenageadas. E não é à toa, também, que esteja fazendo uma gloriosa carreira tanto em Hollywood quanto em seu país natal. Estrela absoluta e por mérito.

domingo

LUA DE FEL

LUA DE FEL (Lunes de fiel, 1992, Columbia Pictures/Canal +, 139min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Gerard Brach, John Brownjohn, romance de Pascal Bruckner. Fotografia: Tonino Delli Colli. Montagem: Herve de Luze. Música: Vangelis. Figurino: Jackie Burdin. Direção de arte/cenários: Willy Holt, Gerard Viard. Produção executiva: Robert Bernmussa. Produção: Roman Polanski. Elenco: Hugh Grant, Peter Coyote, Kristin Scott-Thomas, Emmanuelle Seigner, Stockard Channing. Estreia: 11/3/94

Talvez tenha a ver com o fato de ele ter passado por alguns horrores quase inacreditáveis - perdeu os pais em um campo de concentração e a esposa grávida de oito meses em um assassinato chocante - mas Roman Polanski não parece ser o mais feliz dos cineastas, nem tampouco acreditar muito na inerente bondade humana. Realizador de obras sufocantes e quase sempre desprovidas do mais simples otimismo, como "Repulsa ao sexo" e "O bebê de Rosemary", Polanski exercita mais uma vez sua peculiar visão de mundo em "Lua de fel", um de seus filmes mais polêmicos, no qual ele concentra sua ironia e seu ceticismo em uma história de amor. Ou quase isso.

Em vias de tornar-se o britânico queridinho de Hollywood, Hugh Grant vive Nigel, um inglês certinho e tenso que tenta salvar seu casamento em crise fazendo um romântico cruzeiro com a esposa, Fiona (Kristin Scott-Thomas). Durante a viagem - que não parece estar ajudando a relação do casal - ele conhece o excêntrico escritor americano Oscar (Peter Coyote), paraplégico, falastrão e sempre com muitas doses de álcool no organismo. Percebendo a atração de Nigel por sua esposa, a silenciosa Mimi (Emmanuele Seigner), Oscar lhe conta, em encontros regados a muito whisky, seu relacionamento com ela - movido principalmente por desejo e entrega absoluta. De seu primeiro encontro em Paris até a tragédia que os uniu inexoravelmente ao mesmo destino, a história de amor/sexo/obsessão entre Oscar e Mimi supreende Nigel, cada vez mais excitado com a possibilidade de consumar sua atração pela dançarina.



Um tanto vulgar e frequentemente à beira do mau-gosto, "Lua de fel" é uma investigação sem maiores rodeios de um relacionamento doentio e obsessivo. Presos a uma fatalidade, Oscar e Mimi são uma espécie de espelho ao contrário de Nigel e Fiona, que não conseguem romper o marasmo e o tédio de um casamento obviamente morno. Polanski não tem medo de ser desagradável e foge da estética convencional das cenas de sexo, aqui bastante cruas e filmadas sem melindres. Ao som de uma trilha sonora que mistura George Michael, o brasileiro Fausto Fawcett e uma música bastante brega composta por Vangelis para o filme, Peter Coyote e Emanuelle Seigner se lambuzam de leite, se vestem de animais e se entregam a um roteiro que, por sua crueza e cinismo, encanta alguns e repugna vários.

Basicamente, "Lua de fel" fala de sexo, pura e simplesmente - do desejo, da repulsa e da obsessão decorrentes dele. Lançado nos EUA dois anos depois de sua estreia mundial, é um filme que, apesar de suas qualidades - um roteiro interessante e um tema forte são as maiores - não alcançou nem perto da quase unanimidade dos trabalhos anteriores de Roman Polanski. E de certa forma não é muito difícil entender certa resistência, tanto da crítica quanto do público, acostumados a obras menos herméticas e corajosas. No entanto, qualquer crítica feita ao desempenho de Seigner (esposa do diretor na vida real) é plenamente compreensível não particularmente bela ou sexy, ela é uma atriz limitadíssima, sem capacidade de interpretar uma personagem tão complexa como Mimi. Por causa dela, muitas sequências perdem sua força, o que logicamente diminui o potencial do filme como um todo.

"Lua de fel" não é um filme para todo tipo de público. Fãs de romances ou filmes de suspense convencionais devem passar-lhe longe. Mas para quem gosta de ser surpreendido com uma história que foge dos padrões - visuais ou morais - é um prato cheio.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...