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quarta-feira

LOUCAMENTE APAIXONADOS


LOUCAMENTE APAIXONADOS (Like crazy, 2011, Paramout Vantage, 89min) Direção: Drake Doremus. Roteiro: Drake Doremus, Ben York Jones. Fotografia: John Guleserian. Montagem: Jonathan Alberts. Música: Dustin O'Halloran. Figurino: Mairi Chisholm. Direção de arte/cenários: Katie Byron/Rachel Ferrara. Produção executiva: Steven Rales, Mark Roybal, Audrey Wilf, Zygi Wilf. Produção: Jonathan Schwartz, Andrea Sperling. Elenco: Anton Yelchin, Felicity Jones, Jennifer Lawrence, Charlie Bewley, Alex Kingston, Oliver Muirhead, Chris Messina. Estreia: 22/01/2011 (Festival de Sundance)

Anna Gardner é uma jovem britânica que está em Los Angeles estudando Jornalismo. Jacob Helm sonha em fazer carreira como desenhista de móveis. Os dois se apaixonam perdidamente e fazem planos de passar o resto da vida juntos. Decidida a permanecer ao lado do namorado por mais tempo que o permitido em seu visto, Anna acaba por ver-se proibida de voltar aos EUA e retomar a relação. Desesperados com a situação, os namorados resolvem manter o relacionamento mesmo à distância, enquanto tentam resolver a questão. Todas as alternativas, no entanto, soam inadequadas: ele está começando uma bem estruturada carreira profissional e não vê sentido mudar de país, e um casamento (que pode dar um green card a ela) parece algo radical demais - e tampouco é garantia de sucesso, uma vez que o processo na imigração não é tão simples. Nesse meio-tempo, depois de uma breve separação, eles se envolvem com outras pessoas, mas não conseguem esquecer a força de seus sentimentos.

Com essa trama simples e direta, que fala direto ao coração do público, o cineasta Drake Doremus fez de "Loucamente apaixonados" um dos maiores sucessos do cinema independente de 2011: de sua estreia, em Sundance (de onde saiu com dois prêmios) até o lançamento comercial, aproximadamente um ano mais tarde, o filme foi exibido em festivais pelo mundo (Toronto, Vancouver, San Diego, Austin, Amsterdam, Montreal, Estocolmo, Oslo) e conquistou a crítica com sua delicadeza e energia juvenil e romântica. Longe de ter se tornado um campeão de bilheteria - ao menos dentro do conceito de lotar salas de exibição e formar filas quilométricas - e ignorado por cerimônias de premiação mais tradicionais (Oscar, Golden Globe, SAG Awards), o filme de Doremus cativa justamente por fugir das receitas mais óbvias de sucesso comercial e abraçar uma estética mais livre de amarras ao mesmo tempo em que permite ao espectador reconhecer nas telas todos os elementos que fazem do gênero um dos mais populares do cinema. Mais próxima do dolorido "Namorados para sempre" do que do alto astral "Questão de tempo" - todos lançados no mesmo ano -, a história de amor e desencontros entre Anna e Jacob se move com desenvoltura entre bons e maus momentos, delícias e tormentos, paixão e saudade, confiança plena e dúvidas angustiantes, sempre amparada no desempenho fascinante de seus dois atores centrais, um trunfo do qual Doremus lança mão sem o menor resquício de vergonha.

 

Donos de uma química palpável que salta das tela, Anton Yelchin e Felicity Jones são a alma de "Loucamente apaixonados". Improvisando boa parte dos diálogos - depois de exaustivos ensaios -, os jovens atores se entregam nitidamente às desventuras do casal de protagonistas, a ponto de não dar espaço algum para qualquer dúvida da plateia de que foram feitos realmente um para o outro. Mesmo quando a realidade dura se impõe à fantasia romântica, ambos são capazes, sem precisar mais do que expressões faciais ou movimentos discretos, de transmitir ao espectador um leque de emoções que resume todo o turbilhão pelo qual passam. Yelchin, primeira escolha do cineasta para viver Jacob, está encantador - e sua morte precoce, em 2016, com apenas 27 anos, parece ainda mais trágica quando se vislumbra o que o futuro poderia lhe oferecer. Felicity - premiada em Sundance e posteriormente alçada à grande promessa de Hollywood graças à sua indicação ao Oscar por "A teoria de tudo" (2014) - conquistou o diretor a ponto de estrelar seu filme seguinte, "Paixão inocente" (2013) e mostra um carisma e uma delicadeza raras. O trabalho dos dois é tão brilhante que até mesmo a sempre ótima Jennifer Lawrence - que seria oscarizada dois anos depois, por "O lado bom da vida" (2013) - consegue ser eclipsada (mesmo que, quando em cena, demonstre todo o seu potencial). 

Ao apresentar vários elementos consagrados pelo cinema independente norte-americano contemporâneo - edição ágil, trilha sonora moderna - e utilizá-los a seu favor, "Loucamente apaixonados" aponta o talento de Drake Doremus, um cineasta ainda restrito a pequenos circuitos, com filmes interessantes mas pouco vistos, como "Quando te conheci" (2015) e "Amor a três" (2019). Conduzindo sua história com sutilezas visuais e dotado de grande senso de ritmo, Doremus evita o sentimentalismo fácil e aposta em uma trama de forte apelo popular sem deixar-se contaminar pelo caminho mais óbvio. Seu filme é simpático até mesmo quando se torna incômodo - afinal, a realidade como mostrada sob suas lentes é amenizada pela fotogenia de seus astros centrais e pela inteligência de um roteiro cuja principal inspiração é a vida como ela é, ainda que vista por um ângulo poético e generoso.

quinta-feira

SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA-NOITE

SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA-NOITE (A monster calls, 2016, Apaches Entertainment, 108min) Direção: J.A. Bayona. Roteiro: Patrick Ness, romance homônimo de sua autoria, ideia de Siobhan Dowd. Fotografia: Oscar Faura. Montagem: Jaume Martí, Bernat Vilaplana. Música: Fernando Velázquez. Figurino: Steven Noble. Direção de arte/cenários: Eugenio Caballero/Pilar Revuelta. Produção executiva: Álvaro Augustin, Ghislain Barrois, Sandra Hermida, Jonathan King, Enrique López Lavigne, Patrick Ness, Bill Pohlad, Jeff Skoll, Patrick Wachsberger. Produção: Belén Atienza. Elenco: Lewis MacDougall, Felicity Jones, Sigourney Weaver, Liam Neeson, Toby Kebell, Geraldine Chaplin. Estreia: 09/9/16 (Festival de Toronto)

Aplaudido pelo mundo já em seu primeiro longa-metragem - o assustador "O orfanato" (2007) - e  posteriormente taxado de "o Steven Spielberg espanhol" por causa do sucesso de "O impossível" (2012), que deu uma indicação ao Oscar de melhor atriz à Naomi Watts, J.A. Bayona volta a mostrar sensibilidade na manipulação das emoções humanas (e principalmente infantis) em "Sete minutos depois da meia-noite", um impressionante e comovente drama de fantasia que, assim como "O labirinto do fauno" (2006), do mexicano Guillermo Del Toro, é uma ode à força da imaginação contra as tragédias do dia-a-dia. Ao contrário do premiado filme de Del Toro, porém, o filme de Bayona não fez tanto barulho nas bilheterias (cobriu seu orçamento apenas com a ajuda da arrecadação mundial) e foi solenemente ignorado pelo Oscar. Tal descaso, no entanto, não reflete nem de longe sua imensa qualidade: "Sete minutos depois da meia-noite" é um dos mais inteligentes e criativos filmes dos últimos anos, um devastador drama sobre amadurecimento disfarçado de aventura juvenil.

Inspirado em um livro infantil iniciado por Siobhan Dowd e finalizado por Patrick Ness após a morte do autor original, "Sete minutos depois da meia-noite" é um espetáculo visual de primeira linha à serviço de uma história fascinante e avassaladora, que trata de assuntos espinhosos com o verniz da fantasia e da imaginação pueril. O protagonista é Connor O'Malley (Lewis MacDougall), um menino irlandês de doze anos que está passando pelo pior período de sua curta existência: sua mãe (Felicity Jones, de "A teoria de tudo") está enfrentando um câncer terminal que a impede de conviver com ele de modo ideal; seu pai (Toby Kebell, de "Black Mirror") mora nos EUA com a nova família e não tem planos de incluí-lo em sua vida; sua avó (Sigourney Weaver), com quem não tem a melhor das relações, quer obrigá-lo a morar com ela; e na escola, ele sofre constante bullying por parte dos colegas mais fortes. Em uma noite, exatamente às 12:07, Connor recebe a visita de um monstro gigantesco em formato de árvore que avisa que irá visitá-lo sempre no mesmo horário para lhe contar três histórias que poderão lhe ajudar nessa fase da vida. O monstro completa o aviso informando-o também de que a última história será de sua autoria - e deverá explicar os motivos de seus pesadelos.


De forma brilhante e surpreendente, Bayona transforma um conto de solidão e trauma em um show de efeitos especiais que, ao invés de eclipsar a força da história, sublinha seu tom lúdico e fantástico. As narrativas do monstro são apresentadas em formato de animação, mas nada de esperar a estética Pixar ou Disney: o cineasta utiliza de cada uma das fábulas da apavorante criatura (com a voz de Liam Neeson e feições que vão se tornando mais humanas conforme a trama avança) para analisar, de maneira poética mas bastante contundente, todos os medos e sentimentos de Connor (e, por conseguinte, de boa parte da plateia, adulta ou não). Ao questionar fundamentos essenciais, como a bondade, a compaixão e a raiva, o roteiro do mesmo Patrick Ness que terminou o livro vai fortalecendo o caráter de seu protagonista e preparando-o para enfrentar o maior desafio de sua vida, que é encarar a morte da mãe e a maturidade precoce. É admirável os meios encontrados por Bayona e sua equipe em equilibrar tão organicamente a vida real de Connor e sua imaginação sem deixar que nenhuma das linhas narrativas sobreponha-se à outra - e mais importante ainda, que consiga fazer com que ambas se conectem tão naturalmente até o final, de uma tristeza profunda, mas dono de uma beleza incontestável.

Contando com um excepcional ator juvenil no papel principal - Lewis McDougall, que também participou do exótico "Peter Pan" (2015), de Joe Wright - e veteranos competentes entre os coadjuvantes - como Sigourney Weaver como sua irascível avó e Geraldine Chaplin, uma espécie de amuleto de sorte do diretor, tendo feito pontas em seus três trabalhos até aqui - "Sete minutos depois da meia-noite" surge como um dos melhores filmes de sua temporada. Com um roteiro de ritmo preciso e equilibrado, um visual acachapante e o tom emocional acertadamente adequado a uma história que mira em vários tipos de plateia, o filme de Bayona é um triunfo em todos os aspectos, capaz de cativar qualquer espectador disposto a mergulhar em uma narrativa repleta de simbolismos e metáforas que, longe de aborrecer ou confundir, apenas valorizam a beleza de suas intenções e de sua realização. Imperdível!

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...