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quinta-feira

A FOGUEIRA DAS VAIDADES

 


A FOGUEIRA DAS VAIDADES (The bonfire of the vanities, 1990, Warner Bros, 125min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: Michael Cristofer, romance de Tom Wolfe. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Bill Pankow, David Ray. Música: Dave Grusin. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Joe Mitchell, Justin Scoppa. Produção executiva: Peter Guber, Christine Peters, Jon Peters. Produção: Brian DePalma. Elenco: Tom Hanks, Bruce Willis, Melanie Griffith, Morgan Freeman, Kim Catrall, Saul Rubinek, John Hancock, Rita Wilson, Kirsten Dunst. Estreia: 21/12/90

Sherman McCoy é um bem-sucedido magnata de Wall Street, bem casado e em franca ascensão profissional e financeira. Peter Fallow é um jornalista quase decadente, quase alcóolatra e quase em vias de abandonar a carreira. Uma noite, depois de um encontro, McCoy vê a amante atropelar um jovem negro em um bairro barra-pesada de Nova York e a incentiva a fugir do local, certo de que jamais serão descobertos. Por acaso, Fallow descobre a identidade do dono do veículo e, com a atenção da imprensa, não hesita em divulgá-lo e contar sua história. Exposto na mídia, McCoy se vê perdendo a a família, o respeito, a posição social e até mesmo a liberdade: bode expiatório de uma série de interesses políticos e advogados corruptos, ele se vê diante da ambição de gente como o demagogo reverendo de uma comunidade negra e um promotor público com ambições pouco louváveis. Enquanto sua descida é cada vez mais veloz, o caminho de Fallow rumo ao topo parece inevitável - e ele parece bastante disposto a pagar o preço do sucesso.

As expectativas a respeito da adaptação cinematográficas do best-seller "A fogueira das vaidades" - primeiro livro de ficção de Tom Wolfe - eram altas. Aplaudido pela imprensa e presença constante nas listas dos mais vendidos por meses, o romance de Wolfe - uma obra repleta de ironia e sarcasmo, sem herois e recheado de personagens dúbios e pouco agradáveis - soava como um desafio a quem quer que assumisse a responsabilidade de levá-lo às telas sem perder sua essência amoral. No entanto, desde sua gênese tudo apontava para um potencial desastre, justamente por seu tom pouco disposto a corroborar  a ideia do american way of life. Entre seguir a trama à risca - apostando na capacidade das plateias de abraçar ousadias temáticas e narrativas - e desfigurar a obra original como forma de alcançar uma bilheteria expressiva, a Warner Bros acabou por decidir-se pela segunda opção - o que resultou em críticas violentas e uma resposta ensurdecedora por parte do público: com pouco mais de 15 milhões de dólares de arrecadação mundial (contra um orçamento estimado em 47 milhões), a obra dirigida por Brian De Palma entrou para a história como um dos maiores fracassos de Hollywood, além de ser considerado um dos piores filmes das carreiras de todos os envolvidos - um grupo que conta com nomes poderosos da indústria, como Tom Hanks e Bruce Willis.

 


Antes de iniciar o processo de tornar-se um dos intérpretes mais respeitados de sua geração - com dois Oscar consecutivos de melhor ator -, Tom Hanks foi uma escolha inusitada e corajosa para viver o protagonista, Sherman McCoy, um bem-sucedido magnata de Wall Street, e só entrou em cena depois que Mike Nichols abandonou o barco e, com ele, levou Steve Martin, cujo perfil combinava bem mais com o personagem - antes ainda de Hanks outros nomes importantes chegaram a ser cotados, como Jon Voigt, Kevin Costner, Christopher Reeve e até John Lithgow (o preferido do diretor Brian De Palma) e Chevy Chase (que teria sido a escolha do próprio Tom Wolfe). A entrada de Hanks - assim como a de outros nomes chave do projeto, cortesia do então produtor Peter Guber  - acabou sendo um fator decisivo para o rumo da produção em direção a uma atmosfera bastante distinta do livro original, enfatizada pelo roteiro de Michael Cristofer (outro contratado por Guber): com sua aura de bom moço, Hanks suavizava a personalidade arrogante e amoral de McCoy e de certo modo equilibrava o cinismo do jornalista Peter Fallow, o segundo personagem central da trama - inglês no romance (assim como John  Cleese, que recusou o papel) e americano no cinema (o que não foi o suficiente para convencer Jack Nicholson a entrar no jogo). Em mais uma cartada para chamar a atenção do público, o estúdio ousou novamente e chamou Bruce Willis (em alta pelo sucesso de "Duro de matar", de 1988, mas sem maiores êxitos fora do cinema de ação). A surpreendente dupla formada por Hanks e Willis (mais o tititi em torno do livro de Wolfe) já seria o bastante para garantir notas de jornais, mas as esperadas filas nos cinemas ficaram apenas na vontade: o fiasco de bilheteria e as críticas impiedosas (cinco indicações ao Framboesa de Ouro, incluindo pior filme, atriz, roteiro e diretor) mostraram que nem grandes cineastas e atores de prestígio são imunes a erros gigantescos. Mas afinal de contas, passadas décadas de sua estreia, fica a pergunta crucial: "A fogueira das vaidades" é assim tão ruim?

Apesar de algumas ideias visuais interessantes - o plano-sequência de abertura, a fotografia pouco convencional - e do esforço de Brian De Palma em traduzir o tom artificial do romance através de atuações não naturalistas do elenco (que beira a histeria), o resultado final é decididamente frustrante. O roteiro de Michael Cristofer jamais consegue seduzir o público - talvez pela falta de um personagem com quem haja qualquer identificação, talvez por sua indecisão entre o drama e a comédia - e a escalação do elenco é flagrante ao menos exigente espectador. Tom Hanks é um ator excelente (como seria provado poucos anos depois), mas não acerta o tom de seu Sherman McCoy - não à toa o próprio ator o considera seu pior filme. Bruce Willis tem pouco a fazer com seu Peter Fallow - e quando o faz parece repetir os mesmos trejeitos de um de seus mais famosos personagens até então, na série de TV "A gata e o rato". E Melanie Griffith - escolha de De Palma, com quem havia trabalhado em "Dublê de corpo" (1984) - até tenta ser mais do que apenas uma mulher sensual, mas não alcança todas as nuances que lhe são exigidas - qualquer uma atriz considerada para o papel (Uma Thurman, Robin Wright, Kyra Sedwick) provavelmente teria se saído melhor. Juntos (ao lado de Morgan Freeman e F. Murray Abraham, também subaproveitados), eles parecem perdidos em cena, soterrados pelos artifícios técnicos do diretor e por suas tentativas infrutíferas de imprimir o tom de farsa da trama de Wolfe - deliciosa no papel, bastante problemática na tela.

Uma comédia farsesca que não atinge nem perto de seu potencial crítico, "A fogueira das vaidades" sofreu também com o erro primário de não ser direcionado para uma plateia mais sofisticada - os leitores da obra original - e tentar atingir um público médio que, via de regra, rejeita produções com conceitos menos maniqueístas. Ao deformar o romance de Wolfe para que coubesse em suas ambições comerciais, a Warner acabou com o que de havia de melhor no livro (a perspicaz leitura das ironias da sociedade) e o transformou em um produto mais "palatável" (leia-se superficial e sem nenhuma personalidade). O pífio resultado financeiro e o massacre da crítica apenas refletiram a profusão de equívocos acumulados desde sua concepção. Uma pena!

sábado

ARTISTA DO DESASTRE

ARTISTA DO DESASTRE (The disaster artist, 2017, Warner Bros/New Line Cinema, 104min) Direção: James Franco. Roteiro: Scott Neustadter, Michael H. Weber, livro "The disaster artist: my life inside 'The room', the greatest bad movie ever made", de Greg Sestero, Tom Bissell. Fotografia: Brandon Trost. Montagem: Stacey Shroeder. Música: Dave Porter. Figurino: Brenda Abbandandolo. Direção de arte/cenários: Chris Spelman/Susan Lynch. Produção executiva: Richard Brener, Michael Disco, Joe Drake, Toby Emmerich, Nathan Kahane, Kelli Konop, Roy Lee, Alexandria McAtee, John Powers Middleton, Dave Neustadter, Scott Neustadter, Hans Ritter, Michael H. Weber, Erin Westerman. Produção: James Franco, Evan Golberg, Vince Jolivette, Seth Rogen, James Weaver. Elenco: James Franco, Dave Franco, Seth Rogen, Allison Brie, Megan Mullally, Melanie Grifith, Sharon Stone, Ari Graynor, Jackie Weaver, Zac Efron, Josh Hutcherson, Bob Odenkirk. Estreia: 11/9/17 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de roteiro adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator em Comédia/Musical: James Franco

Excêntrico no modo de vestir, falar e se comportar, Tommy Wiseau convida o melhor (e talvez único) amigo, Greg Sesteros, para ir com ele a Hollywood e tentar carreira no cinema. Depois de vários meses batalhando por uma chance - que nem mesmo o bem-apessoado Greg consegue -, o misterioso Wiseau (que esconde a verdadeira idade e a fonte de seu dinheiro) resolve arrombar a porta da indústria e fazer seu próprio filme. Dedica-se a escrever um roteiro e, quando ele fica pronto, parte para a ação: com ele e Greg nos papéis principais, "The room" começa a ser filmado - apesar das idiossincrasias de seu criador e de sua absoluta falta de talento em todas as funções (ator, diretor, roteirista e produtor). Depois de meses enervando a equipe do filme - incrédulos quanto à possível qualidade do filme -, a produção finalmente tem sua estreia marcada. Mas como será que os espectadores irão reagir diante de tanto amadorismo?

Tommy Wiseau é um personagem riquíssimo: sempre vestido de forma bizarra, com um sotaque indefinível e absolutamente reservado em relação à sua vida, ele age de maneira errática e se acredita muito mais talentoso do que realmente é - desde suas aulas de teatro até seu estrelato em "The room", um filme muito aquém de trash e hoje um cult movie por excelência. Apesar de ser pouco verossímil, Wiseau existe de verdade - e é sobre a produção de seu filme que trata "Artista do desastre", uma das comédias mais engraçadas e inteligentes dos últimos anos. Com ecos de "Ed Wood" (1994), de Tim Burton - especialmente no carinho com que o protagonista é retratado - e uma série de participações especiais valiosas, o filme agradou em cheio a crítica e poderia ter chegado facilmente às principais categorias do Oscar se não fosse um escândalo de assédio sexual que atingiu seu diretor, produtor e ator principal, James Franco. Vencedor do Golden Globe de melhor ator em comédia/musical e elogiado unanimemente, Franco acabou sendo deixado de lado pela Academia - que reconheceu com uma indicação apenas seu roteiro, adaptado por Scott Neustadter e Michael H. Weber do livro escrito pelo próprio Greg Sesteros, testemunha oficial dos fatos.


A exclusão de Franco da lista de indicações ao Oscar pode até ter sido surpresa, mas ninguém pode negar que seu filme é uma pérola. A segunda metade especialmente, quando começa a produção repleta de momentos bizarros de "The room", é simplesmente impossível não gargalhar. Ao contrário da maioria das comédias produzidas em Hollywood - algumas inclusive estreladas pelo próprio James Franco e seu colega de elenco, Seth Rogen -, "Artista do desastre" extrai seu humor não da escatologia, mas sim do absurdo de suas situações. De sua primeira aparição em cena - em uma interpretação no mínimo sui generis de Stanley Kowalski, de "Uma rua chamada pecado" - até seu final, de certa forma emocionante aos fãs de cinema -, Wiseau é uma figura absolutamente imprevisível, capaz tanto de gestos generosos (como abrigar Sesteros em sua chegada em Los Angeles) quanto de uma mesquinharia inacreditável (como não proporcionar água no set de filmagem, quente a ponto de levar uma atriz ao desmaio). James Franco encarna Wiseau com nítido prazer, entregando uma performance brilhante, que eclipsa até mesmo seu irmão, Dave, que ficou com o papel de Greg Sesteros: enquanto Sesteros é, de um modo, a voz da razão na dupla, Wiseau é um vulcão de sentimentos contraditórios - e pode, inclusive, suscitar a compaixão do público.

E se não fosse tão engraçado quanto é, "Artista do desastre" ainda tem o bônus de contar com inúmeras participações especiais, para deleite do espectador. Melanie Griffith, Sharon Stone, Megan Mullally, Bryan Cranston, Bob Odenkirk, Zac Efron, Josh Hutcherson, Jackie Weaver, Kevin Smith, Adam Scott e outros aparecem em pequenos papéis - ou em depoimentos falsos antes do filme começar (uma referência a "Reds", de Warren Beatty, lançado em 1981). É um prazer a mais identificá-los enquanto se acompanha a trajetória do protagonista em busca do lançamento de seu filme e sua esperada entrada no mercado cinematográfico de Hollywood. Seu filme,"The room", estreou em 2003, e, para não estragar a surpresa de quem ainda não sabe o final da história, basta dizer que, em determinado nível, ele conseguiu projetar-se na indústria e tornar-se famoso - mesmo que não exatamente do jeito que procurava. "The room" pode ser considerado um dos piores filmes da história do cinema, mas seu filho, "Artista do desastre", é um brilhante documento de sua realização.

quinta-feira

TOTALMENTE SELVAGEM

TOTALMENTE SELVAGEM (Something wild, 1986, Orion Pictures, 113min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: E. Max Frye. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Craig McKay. Música: Laurie Anderson, John Cale. Figurino: Norma Moriceau. Direção de arte/cenários: Norma Moriceau/Billy Reynolds. Produção executiva: Edward Saxon. Produção: Jonathan Demme, Kenneth Utt. Elenco: Jeff Daniels, Melanie Griffith, Ray Liotta, Margaret Colin. Estreia: 07/11/86

Menos de uma semana. Em uma indústria onde roteiros podem passar anos (e até décadas) no limbo, à espera de uma chance de chegar às telas, esse foi o tempo que levou para que um estudante de Cinema chamado E. Max Frye visse a amalucada história que havia escrito receber o sinal verde da Orion Pictures. Mais admirável ainda, o cineasta Jonathan Demme - já conhecido pelo oscarizado "Melvin e Howard" (1980) - não demorou mais do 24 horas para comprometer-se com o projeto, que por pouco não contou com Kevin Kline (então já conhecido por filmes como "A escolha de Sofia" e "O reencontro") no papel principal. Uma mistura de comédia romântica, road movie e filme de suspense, "Totalmente selvagem" caiu como uma luva no estilo quase anárquico de Demme, deu espaço a uma iniciante Melanie Griffith (revelada por Brian DePalma em "Dublé de corpo", de 1984) e conquistou a crítica arrebatando três indicações ao Golden Globe: ator e atriz em comédia/musical (para Jeff Daniels e Melanie) e ator coadjuvante (para Ray Liotta). Irreverente, inovador e irresistível, também direcionou o cineasta para um maior reconhecimento do grande público - o que acabaria por levá-lo a "De caso com a máfia" (1988) e ao enorme sucesso de "O silêncio dos inocentes" (1991).

O filme começa com uma canção original de David Byrne e logo leva o espectador a um café, onde é apresentado a Charles Driggs (Jeff Daniels), um executivo certinho cujas maior contravenção é sair sem pagar por suas refeições. Durante uma dessas travessuras, ele é surpreendido por Lulu (Melanie Griffith, de peruca chanel preta que remete à outra Lulu das telas, a Louise Brooks de "A caixa de Pandora", dirigido por G. W. Pabst em 1929). Sensual, bem-humorada e de espírito livre, Lulu oferece carona ao novo amigo - e ele logo se descobre sequestrado pela desconhecida, que o leva para um motel, o acorrenta à cama e o faz descobrir o prazer da irresponsabilidade. Avisando ao chefe que irá faltar ao trabalho, Charles aceita viajar com Lulu para sua cidade natal e ser apresentado à sua mãe como seu marido. Cada vez mais surpreso e encantado pela garota, Charles a acompanha à festa de reunião dos colegas de escola - e é lá que a aventura toma rumos inesperados, quando o ex-presidiário Ray (Ray Liotta), que acaba de sair da prisão, deixa bem claro que quer reconstruir o casamento a qualquer custo.


Subvertendo completamente o tom leve e descompromissado de seus dois primeiros terços - que lembram a premissa inicial do ótimo "Depois de horas" (1984), dirigido por Martin Scorsese e estrelado por Griffin Dunne e Rosana Arquette - a reta final de "Totalmente selvagem" conduz o público por um caminho violento e imprevisível, que oferece a Ray Liotta a chance de criar um vilão memorável - e que lhe rendeu o prêmio de melhor ator coadjuvante do ano pelos críticos de Boston. Seu Ray Sinclair (a princípio amigável e posteriormente um pesadelo em forma de ex-marido) é o ponto de virada no roteiro, revelando ao espectador (e aos demais personagens) verdades até então disfarçadas ou escondidas e empurrando o filme em direção a um perigoso abismo. Com uma segurança ímpar, Jonathan Demme não deixa o ritmo ou a coerência saírem dos trilhos, e substitui a trilha sonora vibrante do começo da narrativa por uma escolha acertada de ritmos mais sombrios, conforme a aventura de Charles e Lulu - já loura, frágil e traumatizada - em uma viagem de montanha-russa, repleta de momentos divertidos e situações arriscadas.

O elenco, além da revelação de Liotta - antes mesmo de seu melhor desempenho, como protagonista de "Os bons companheiros" (1990) -, cumpre com louvor a missão de entreter o público e dar veracidade à armadilhas criadas pelo roteiro. Melanie Griffith está talvez em seu melhor momento na carreira (melhor até do que em sua atuação indicada ao Oscar, por "Uma secretária de futuro", de 1988), convencendo tanto como a despudorada Lulu quanto sua personalidade mais submissa e doce, Audrey. Jeff Daniels, recém saído do sucesso de "A Rosa Púrpura do Cairo" (1985), de Woody Allen, aproveita com unhas e dentes a chance de mostrar seu timing cômico, seu lado galã sexy e seus dotes como herói - e apresenta uma química e tanto com Melanie. Como bônus, Jonathan Demme ainda dá pequenos papéis para cineastas independentes e cultuados, como John Waters e John Sayles, além de uma cena com a banda The Feelies, que anima a festa de reencontro dos amigos de Lulu/Audrey. Uma produção despretensiosa e simpática, "Totalmente selvagem" ainda tem a ousadia (dentro do universo do cinema menos comercial), de apresentar um final feliz à sua maneira - mostrando que, no fundo, Demme era um romântico, ainda que seu romantismo se apresentasse de forma pouco óbvia. Uma pérola dos anos 80

DUBLÉ DE CORPO

DUBLÉ DE CORPO (Body double, 1984, Columbia Pictures, 114min) Direção: Brian De Palma. Roteiro: Brian De Palma, Robert J. Avrecht, estória de Brian De Palma. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Jerry Greenberg, Bill Pankow. Música: Pino Donaggio. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Ida Random/Cloudia. Produção executiva: Howard Gottfried. Produção: Brian De Palma. Elenco: Craig Wasson, Melanie Griffith, Gregg Henry, Dennis Franz, Deborah Shelton. Estreia: 15/10/84

Brian De Palma é um fã confesso de Alfred Hitchcock. Mais do que isso, porém, é um cineasta de grande sensibilidade e talento, capaz de utilizar-se das referências ao mestre do suspense para dar forma a tramas surpreendentes, com um apuro visual impecável e pleno domínio do ritmo e da tensão. Um exemplo claro disso é "Dublê de corpo", um de seus mais famosos (e violentos) filmes: repleto de citações - diretas ou indiretas - à filmografia de Hitch, seu trabalho imediatamente posterior ao polêmico "Scarface" (83), refilmagem sanguinolenta do clássico de Howark Hawks, é uma aula de cinema, tanto tecnicamente quanto em termos de narrativa. Não exatamente reconhecido à época de seu lançamento - chegou a ser indicado a Pior Diretor no Framboesa de Ouro - e posteriormente alçado à categoria de cult, é um filme que resiste bravamente ao teste do tempo por ao menos uma grande razão: mais que uma simples homenagem a um dos mais seminais criadores do suspense no cinema, é, na verdade, um compêndio do que o melhor o gênero pode oferecer a seu público.

A partir de uma ideia surgida durante as filmagens de "Vestida para matar" - quando a atriz Angie Dickinson precisou de uma dublé de corpo para suas cenas no chuveiro - e preenchido com algumas experiências de De Palma nos bastidores de seus filmes anteriores, o roteiro de "Dublé de de corpo"  é repleto de reviravoltas e mudanças de rumo, que prendem o espectador do primeiro ao último minuto. Tudo começa quando o ator Jake Scully (Craig Wasson em papel oferecido a Kurt Russell), sofrendo de claustrofobia, é demitido de um filme B de terror, dirigido por seu amigo Rubin (Dennis Franz), por não conseguir manter-se no caixão onde seu personagem, um vampiro, passa parte de seu dia. Frustrado e humilhado, ele chega em casa e flagra a esposa com outro homem: em poucas horas ele está sem trabalho, sem mulher e sem casa para morar. Buscando um novo emprego, ele conhece o também ator Sam Bouchard (Gregg Henry), que lhe oferece uma solução inesperada: enquanto ele viaja a serviço, Scully pode ficar no fantástico apartamento de um amigo, tendo como única obrigação regar as plantas do lugar. Antes de deixar o novo hóspede sozinho, porém, Bouchard lhe apresenta outro atrativo do lugar: a sexy vizinha da casa em frente, que toda noite faz um sensual striptease diante da janela. Não demora para que Scully - sozinho e deprimido - se sinta completamente atraído pela bela e desinibida moradora, a quem vê também sendo espancada pelo marido (em uma referência clara à "Janela indiscreta", de 1956).


Obcecado pela vizinha, o ator passa a seguí-la, mas não consegue evitar que, em plena luz do dia, ela seja roubada por um sinistro indígena - sua claustrofobia volta a atacá-lo quando está correndo atrás do criminoso em um túnel, quase como James Stewart em "Um corpo que cai" (58) - nem tampouco que, mais tarde, ela seja violentamente assassinada. Testemunha ocular do homicídio, Scully (que chegou a trocar alguns beijos com a vítima) se surpreende, porém, quando, ao assistir um vídeo pornô, descobre que talvez seus olhos tenham lhe pregado uma peça. Penetrando o submundo dos filmes de sexo hardcore, ele conhece Holly Body (Melanie Griffith), uma profissional que será seu passaporte para uma série de descobertas desconcertantes a respeito de tudo aquilo que ele julgava saber - e pelo caminho, perceber que foi usado como um peão em uma conspiração muito mais complicada do que parecia.

Com pleno domínio das ferramentas que o cinema pode oferecer, Brian De Palma mergulha a plateia em um jogo de espelhos cruel e angustiante, sem poupar cenas de violência e um erotismo perturbador. Revelando Melanie Griffith - indicada ao Golden Globe de atriz coadjuvante por um papel recusado por Brooke Shields e oferecido também à Jamie Lee Curtis, Tatum O'Neal e Carrie Fischer - como um símbolo sexual quase inusitado e ousado a ponto de mostrar uma longa sequência sem diálogos (que remete a si mesmo, em um momento clássico de "Vestida para matar"), "Dublé de corpo" é também um fascinante estudo sobre o voyeurismo e a obsessão, retratados com um senso de urgência e paranoia de que somente De Palma é capaz sem soar derivativo ou vazio. Um dos grandes filmes da década de 80, tão marcante hoje quanto há trinta anos.

sexta-feira

UMA SECRETÁRIA DE FUTURO


UMA SECRETÁRIA DE FUTURO (Working girl, 1988, 20th Century Fox, 113min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Kevin Wade. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Sam O'Steen. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/George DeTitta. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Robert Greenhut, Laurence Mark. Produção: Douglas Wick. Elenco: Melanie Griffith, Harrison Ford, Sigourney Weaver, Joan Cusack, Alec Baldwin, Kevin Spacey, Philip Bosco, Oliver Platt, Olympia Dukakis, David Duchovny. Estreia: 20/12/88

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mike Nichols), Atriz (Melanie Griffith), Atriz Coadjuvante (Joan Cusack, Sigourney Weaver), Canção ("Let the river run")
Vencedor do Oscar de Melhor Canção Original ("Let the river run")
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Comédia/Musical (Melanie Griffith), Atriz Coadjuvante (Sigourney Weaver), Canção Original ("Let the river run")


Tess McGill é uma trintona que mora em Nova Jersey e trabalha como secretária na ilha de Manhattan. Com dificuldades de manter-se nos empregos que arruma, ela vive um romance fogo brando com o seu eterno namorado Mick (Alec Baldwin) e passa suas noites frequentando festinhas suburbanas ao lado da melhor amiga, Cyn (Joan Cusack). No entanto, sua sorte muda quando ela começa a trabalhar no escritório de Kathryn Parker (Sigourney Weaver), que divide com ela a ambição de subir na vida. Tess McGill não é um exemplo ético. Tess McGill é a protagonista de "Uma secretária de futuro", a mais bem-sucedida comédia romântica do diretor Mike Nichols desde "A primeira noite de um homem". Cotada para ser vivida por Michelle Pfeiffer, Geena Davis, Carrie Fisher, Kim Basinger, Kathleen Turner, Debra Winger, Diane Lane e Sarah Jessica Parker, ela acabou nas mãos de Melanie Griffith, que aproveitou a chance com tudo e acabou finalista ao Oscar de melhor atriz.

Quando "Uma secretária de futuro" começa, Tess McGill está saindo de um emprego insatisfatório e começando a trabalhar como secretária de Kathryn, uma mulher linda e bem-sucedida que não hesita em roubar descaradamente uma ideia de Tess, envolvendo a compra de uma emissora de rádio. Ao descobrir a traição da chefe - quando ela fica fora da cidade devido a um acidente de esqui - a ambiciosa secretária resolve dar a volta por cima. Passando-se por executiva, ela conta com a ajuda do atraente Jack Trainer(Harrison Ford) para conquistar seu lugar ao sol. Sua farsa, no entanto, corre o risco de ser desmascarada quando ela descobre que justamente que o homem por quem está perdidamente apaixonada é também amante de sua patroa.


"Uma secretária de futuro" não é exatamente um filme brilhante, como alguns dos filmes assinados por Mike Nichols (em especial "A primeira noite" e "Closer, perto demais"). Mas tem um charme oitentista que conquista desde os créditos de abertura (ao som da canção de Carly Simon vencedora do Oscar) até o visual exagerado tanto da protagonista em suas primeiras cenas quanto das coadjuvantes - é engraçado reparar na clara divisão entre o kitsch anos 80 do figurino e dos penteados das suburbanas secretárias e do requinte clean da classe "superior". Sigourney Weaver, em especial, esbanja beleza e classe, metida em vestidos caríssimos e vivendo em um apartamento chique, enquanto Tess e suas amigas habitam um mundo quase escuro - matizado apenas pela maquiagem sempre acima do básico.

"Uma secretária de futuro" é também o auge da carreira de Melanie Griffith, uma atriz sem maiores talentos dramáticos que, depois de uma vida regada a drogas e álcool, se reergueu artisticamente aqui. Depois de algumas escolhas equivocadas posteriores - a saber "A fogueira das vaidades", de Brian de Palma e "Uma luz na escuridão", ao lado de Michael Douglas - ela voltou a seu quase anonimato, sendo notícia quase sempre devido a seu casamento com o ator espanhol Antonio Banderas. Na pele de Tess, no entanto, Griffith - filha da atriz Tippi Hedren, de "Os pássaros" - brilha, em uma atuação discreta, eficiente e envolvente. Por incrível que pareça é ela que dá luz ao filme, mesmo dividindo cenas com as sensacionais Weaver e Joan Cusack - ambas indicadas ao Oscar de coadjuvante.

"Uma secretária de futuro" é a cara de seu tempo, pro bem e pro mal. Lançado em um momento em que as mulheres buscavam desesperadamente seu espaço no mercado de trabalho e o movimento yuppie estava em seu apogeu - é dessa época a famosa frase de Gordon Gekko em "Wall Street" que dizia que "ganância é bom!" -, foi o filme certo no momento certo. Daí talvez sua reputação um tanto exagerada - inclusive como finalista ao Oscar de melhor filme. É uma comédia romântica interessante - ainda que não seja exatamente uma comédia rasgada - e que retrata com ironia e condescendência um importante momento social e econômico americano, sem apelar para lições de moral. Divertido e simpático! O que mais se espera de um filme assim?

PS - E de quebra, "Uma secretária de futuro" conta com uma participação pequena de Kevin Spacey, no início de uma brilhante carreira.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...