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sexta-feira

UMA NOITE FORA DE SÉRIE

 


UMA NOITE FORA DE SÉRIE (Date night, 2010, 20th Century Fox, 88min) Direção: Shawn Levy. Roteiro: Josh Klausner.  Fotografia: Dean Semler. Montagem: Dean Zimmerman. Música: Christophe Beck. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: David Gropman/Jay Hart. Produção executiva: Joe Caraciollo Jr., Josh McLaglen. Produção: Shawn Levy. Elenco: Steve Carell, Tina Fey, Mark Wahlberg, Taraji P. Henson, Mark Ruffalo, Kristen Wiig, Common, James Franco, Mila Kunis, Jimmi Simpson. Estreia: 06/4/2010

A grosso modo, comédias produzidas por Hollywood se dividem entre bobagens calcadas em piadas grosseiras e ofensivas - como os filmes dos irmãos Farrelly - ou um humor sofisticado e frequentemente esnobados por plateias pouco afeita a raciocinar antes de rir - caso do cinema de Woody Allen, por exemplo. Raramente o público adulto tem a possibilidade de divertir-se sem ser tratado como mentalmente incapaz ou alguém necessitado de um vasto repertório cultural. Por isso, filmes como "Uma noite fora de série" surgem e, sem fazer muito alarde, conquistam o espectador. Com uma bilheteria internacional de mais de 150 milhões de dólares - que cobriu com folga seu orçamento -, o filme dirigido pelo experiente Shawn Levy (que já tinha no currículo o bem-sucedido "Uma noite no museu", de 2006, e sua continuação, de 2009) demonstrou-se o veículo perfeito para o encontro de dois dos mais populares nomes da comédia norte-americana da primeira década dos anos 2000, Steve Carell e Tina Fey. Carismáticos, donos de um timing perfeito para o humor e com uma química invejável, eles compensam as eventuais falhas de ritmo e enfatizam cada bom momento do roteiro - bobo, mas adequado a suas principais qualidades.

Carell - cuja trajetória no cinema já apresentava êxitos comerciais como "O virgem de 40 anos" (2005) e sucessos de crítica, como o oscarizado "Pequena Miss Sunshine" (2006) - é excepcional em papéis que exploram sua fisionomia apatetada e seu talento para o humor físico. Fey - roteirista celebrada de programas como "Saturday Night Live" e filmes como "Meninas malvadas" (2004), mas até então subaproveitada no cinema - é dona de uma rara perspicácia cômica, sempre pronta para uma tirada inteligente e sarcástica. Juntos, os dois deitam e rolam em uma história que explora cada um de seus talentos. Eles vivem Phil e Claire Foster, um típico casal de classe média americana cujas maiores preocupações são o trabalho, o lar e os filhos. Com profissões não exatamente glamorosas - ele vende seguros e ela é corretora de imóveis - e uma rotina entediante, eles tem medo de ver seu casamento sucumbir à rotina, e resolvem, em uma noite que prometia apenas um respiro em seu dia-a-dia, buscar algo excitante e divertido. Com um ousadia inesperada, eles mentem os nomes para ficarem com uma reserva em um restaurante da moda em Nova York e acabam sendo confundidos com um casal que está na mira de um misterioso criminoso chamado Joe Miletto. Os capangas de Miletto, acreditando que eles estão de posse de um pen drive com informações perigosas, saem em seu encalço, e resta aos dois uma desenfreada corrida pela noite - que envolve gente influente, o verdadeiro casal de quem roubaram o nome e até um antigo (e tentador) cliente de Claire.

 

Sem apresentar maiores novidades em seu roteiro - na verdade um palco para os talentos de seus protagonistas -, "Uma noite fora de série" acerta em cheio ao assumir os clichês do gênero e brincar com eles sem o menor pudor. Com diálogos espertos e situações absurdas que vão se acumulando de forma rocambolesca, a trama serve quase como apenas um pretexto para Carell e Fey desfilarem sua desenvoltura e talento em fazer rir em qualquer circunstância. Seja fugindo do cruel vilão (interpretado com gosto por Ray Liotta) ou encurralando o casal responsável por seus infortúnios (vividos por James Franco e Mila Kunis em participações especiais), a dupla é responsável por 90% da diversão - e tiram de letra o desafio de segurar noventa minutos de uma produção que equilibra com destreza humor físico e piadas verbais que lhes servem como uma luva. Mesmo que o elenco apresente coadjuvantes de luxo do porte de Mark Ruffalo, Taraji P. Henson e Mark Whalberg, são eles que dão o tom do espetáculo - e o fazem com maestria, comprovando seus cacifes como astros - alguns anos depois, Carell investiria também em sua carreira como ator dramático e seria indicado ao Oscar por "Foxcatcher: a história que chocou o mundo" (2014), enquanto Tina Fey se tornaria roteirista de séries e especiais de TV que lhe dariam espaço para a ironia e o sarcasmo que lhe são característicos.

Uma prova de que o humor não precisa abdicar de inteligência para atingir o grande público, "Uma noite fora de série" é um meio-termo entre o que se espera de uma comédia tipicamente hollywoodiana e um programa de televisão iconoclasta e debochado. Agrada justamente por não tentar revolucionar o gênero e respeitar as regras do jogo, ao mesmo tempo em que não se deixa nivelar por um humor apelativo e adolescente. Pode não ter mudado a história do cinema - e talvez até seja um tanto esquecível -, mas é um passatempo honesto, bem-humorado e inofensivo.

quinta-feira

A BALADA DE BUSTER SCRUGGS

A BALADA DE BUSTER SCRUGGS (The ballad of Buster Scruggs, 2018, Netflix, 133min) Direção: Ethan Coen, Joel Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, contos "All gold canyon", de Jack London, e "The gall who got rattled", de Stewart Edward White. Fotografia: Bruno Delbonnell. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Jillian Longnecker. Produção: Ethan Coen, Joel Coen, Megan Ellison, Robert Graf, Sue Naegle. Elenco: Tim Blake Nelson, James Franco, Liam Neeson, Zoe Kazan, Brendan Gleeson, Harry Melling, Clancy Brown, David Krumholtz, Stephen Root, Tom Waits, Sam Dillon, Grainger Hines, Saul Rubinek. Estreia: 31/8/2018 (Festival de Veneza)

3 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Figurino, Canção Original ("When the cowboy trades his spurs for wings"

Quando foi anunciado que os irmãos Coen estavam desenvolvendo um trabalho para a Netflix, de imediato todos imaginaram uma série - especialmente quando ficou revelado que seu projeto consistia de seis pequenas histórias que tinham em comum a ambientação no Velho Oeste. A ansiedade em relação ao que dois dos cineastas mais festejados de Hollywood apresentariam teve fim no Festival de Veneza de 2018: "A balada de Buster Scruggs" é um filme digno de figurar entre os destaques da carreira da dupla e em nenhum momento parece amarrado a qualquer tipo de limitação que porventura poderia cercear sua criatividade. Mesclando histórias próprias e duas adaptações literárias, os vencedores do Oscar (roteiro por "Fargo", de 1996, e filme, direção e roteiro em 2007, por "Onde os fracos não tem vez") apresentaram a seu fiel público - e a uma extasiada crítica - uma produção caprichadíssima, que consegue equilibrar belas situações dramáticas com seu particular senso de humor. Em "A balada de Buster Scruggs", ironia e delicadeza caminham lado a lado, para deleite do espectador mais exigente.

O filme já começa de forma heterodoxa, em forma de musical: o protagonista da primeira história - e que empresta seu nome para o título da produção - chega a um vilarejo típico do velho oeste cantando e se apresentando como um dos mais procurados pela lei. Consciente de seus talentos como atirador e cantor, ele faz pouco caso do fato de estar sendo caçado e resolve descansar e beber na cantina local. Logo que chega, portanto, ele arruma confusão com um valentão do lugar, o assustador Joe (Clancy Brown) - e, em consequência, transforma o bar no palco de um quebra-quebra generalizado, até ser desafiado em duelo por outro autoconfiante atirador (Willy Watson). O segmento acaba com mais uma canção - a indicada ao Oscar "When the cowboy trades his spurs for wings" - e se destaca pelo inusitado do humor bizarro, pela agilidade e pela atuação impecável de Tim Blake Nelson, que já havia percorrido o musical e a comédia pelas mãos dos Coen no ótimo "E aí, meu irmão, cadê você?", de 2000. A segunda história tem o titulo de "Near algodones" e apresenta um jovem cowboy (James Franco) tentando assaltar a agência bancária do destemido (Stephen Root) e descobrindo, da pior forma possível, que o aparentemente frágil veterano não irá se submeter facilmente à situação. Mais uma vez é o equilibrio entre dois gêneros - faroeste e comédia - que sustenta a ágil narrativa.


O terceiro conto, "Meal ticket", conta as desventuras de um empresário irlandês (Liam Neeson) que percorre as cidades pequenas para apresentar à população o show de Horatio Edwin Harrison (Harry Melling, da série de filmes "Harry Potter", irreconhecível), que, desprovido de pernas e braços, declama uma série de textos célebres. Aos poucos, no entanto, o empresário começa a ver o público rarear - e descobre um outro (e surreal) talento para cuidar. É, sem dúvida, o conto mais tocante, sustentado pelo belo visual e pela interpretação de Melling, que consegue conquistar a plateia mesmo que não fale nenhuma palavra própria - todo o texto declamado por ele vem de outras fontes, como a Bíblia, Shakespeare e Abraham Lincoln, misturados em um monólogo memorável. O quarto segmento, "All gold canyon", é baseado em uma história de Jack London e mostra um experiente garimpeiro, interpretado por Tom Waits, buscando, incansavelmente, o ouro que o deixará rico. Seus esforços, porém, encontram um revés inesperado - e que pode destruir suas chances de entregar-se à aposentadoria. Talvez seja a mais fraca das histórias, mas ainda assim consegue surpreender.

O conto seguinte, "The gal who got rattled", é inspirado na obra de Stewart Edward White, e é a única história protagonizada por uma mulher - no caso, a inocente e tímida Alice Longabaugh (Zoe Kazan), que parte em direção ao Oregon em companhia do irmão, Gilbert (Jefferson Mays) - que lhe arrumou um casamento que também beneficia a seus negócios. O longo trajeto de sua caravana, no entanto, lhes reservas algumas surpresas - capazes de mudar completamente seu destino. Nesse episódio quem se sobressai é a atriz Zoe Kasdan: neta do lendário cineasta Elia Kazan, ela entrega uma performance acima da média, vivendo uma personagem repleta de nuances. O segmento final é o mais, digamos assim, surreal. "The mortal remains" apresenta cinco personagens em uma viagem de diligência em direção a uma cidade do Colorado. No diálogo que sustenta a trama, eles se revelam completamente diferentes um do outro - seja em vivência ou atitudes. E é preciso prestar atenção em cada palavra dita: há uma reviravolta em seus minutos finais, que o deixa ser a conclusão perfeita para o filme. Tal reviravolta é o trunfo da história, assim como seus intérpretes - que incluem os veteranos Brendan Gleeson e Saul Rubinek.

O melhor de "A balada de Buster Scruggs" é que, apesar de ser um filme construído em um formato episódico, ele jamais cai na armadilha da irregularidade. Claro que alguns segmentos chamam mais a atenção que outros - mas isso é de cada espectador. Todas as seis histórias apresentam características da filmografia de seus diretores/roteiristas/produtores e é evidente a qualidade ímpar de cada uma delas. O capricho do filme - independente se visto em uma sala de cinema ou via streaming - chamou a atenção da Academia de Hollywood, que lhe indicou em três categorias do Oscar: roteiro adaptado, figurino e canção original. O preconceito contra plataformas como a Netflix foi maior, entretanto, e essa pequena pérola da carreira de Joel e Ethan Coen acabou ficando de fora da lista de vencedores - sem falar em outras categorias em que ele poderia facilmente ter sido indicado, como direção de arte, fotografia e coadjuvantes: tudo é sensacional em "A balada de Buster Scruggs", que não fica nada a dever aos outros trabalhos da dupla. Um grande pequeno filme!

sábado

ARTISTA DO DESASTRE

ARTISTA DO DESASTRE (The disaster artist, 2017, Warner Bros/New Line Cinema, 104min) Direção: James Franco. Roteiro: Scott Neustadter, Michael H. Weber, livro "The disaster artist: my life inside 'The room', the greatest bad movie ever made", de Greg Sestero, Tom Bissell. Fotografia: Brandon Trost. Montagem: Stacey Shroeder. Música: Dave Porter. Figurino: Brenda Abbandandolo. Direção de arte/cenários: Chris Spelman/Susan Lynch. Produção executiva: Richard Brener, Michael Disco, Joe Drake, Toby Emmerich, Nathan Kahane, Kelli Konop, Roy Lee, Alexandria McAtee, John Powers Middleton, Dave Neustadter, Scott Neustadter, Hans Ritter, Michael H. Weber, Erin Westerman. Produção: James Franco, Evan Golberg, Vince Jolivette, Seth Rogen, James Weaver. Elenco: James Franco, Dave Franco, Seth Rogen, Allison Brie, Megan Mullally, Melanie Grifith, Sharon Stone, Ari Graynor, Jackie Weaver, Zac Efron, Josh Hutcherson, Bob Odenkirk. Estreia: 11/9/17 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de roteiro adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator em Comédia/Musical: James Franco

Excêntrico no modo de vestir, falar e se comportar, Tommy Wiseau convida o melhor (e talvez único) amigo, Greg Sesteros, para ir com ele a Hollywood e tentar carreira no cinema. Depois de vários meses batalhando por uma chance - que nem mesmo o bem-apessoado Greg consegue -, o misterioso Wiseau (que esconde a verdadeira idade e a fonte de seu dinheiro) resolve arrombar a porta da indústria e fazer seu próprio filme. Dedica-se a escrever um roteiro e, quando ele fica pronto, parte para a ação: com ele e Greg nos papéis principais, "The room" começa a ser filmado - apesar das idiossincrasias de seu criador e de sua absoluta falta de talento em todas as funções (ator, diretor, roteirista e produtor). Depois de meses enervando a equipe do filme - incrédulos quanto à possível qualidade do filme -, a produção finalmente tem sua estreia marcada. Mas como será que os espectadores irão reagir diante de tanto amadorismo?

Tommy Wiseau é um personagem riquíssimo: sempre vestido de forma bizarra, com um sotaque indefinível e absolutamente reservado em relação à sua vida, ele age de maneira errática e se acredita muito mais talentoso do que realmente é - desde suas aulas de teatro até seu estrelato em "The room", um filme muito aquém de trash e hoje um cult movie por excelência. Apesar de ser pouco verossímil, Wiseau existe de verdade - e é sobre a produção de seu filme que trata "Artista do desastre", uma das comédias mais engraçadas e inteligentes dos últimos anos. Com ecos de "Ed Wood" (1994), de Tim Burton - especialmente no carinho com que o protagonista é retratado - e uma série de participações especiais valiosas, o filme agradou em cheio a crítica e poderia ter chegado facilmente às principais categorias do Oscar se não fosse um escândalo de assédio sexual que atingiu seu diretor, produtor e ator principal, James Franco. Vencedor do Golden Globe de melhor ator em comédia/musical e elogiado unanimemente, Franco acabou sendo deixado de lado pela Academia - que reconheceu com uma indicação apenas seu roteiro, adaptado por Scott Neustadter e Michael H. Weber do livro escrito pelo próprio Greg Sesteros, testemunha oficial dos fatos.


A exclusão de Franco da lista de indicações ao Oscar pode até ter sido surpresa, mas ninguém pode negar que seu filme é uma pérola. A segunda metade especialmente, quando começa a produção repleta de momentos bizarros de "The room", é simplesmente impossível não gargalhar. Ao contrário da maioria das comédias produzidas em Hollywood - algumas inclusive estreladas pelo próprio James Franco e seu colega de elenco, Seth Rogen -, "Artista do desastre" extrai seu humor não da escatologia, mas sim do absurdo de suas situações. De sua primeira aparição em cena - em uma interpretação no mínimo sui generis de Stanley Kowalski, de "Uma rua chamada pecado" - até seu final, de certa forma emocionante aos fãs de cinema -, Wiseau é uma figura absolutamente imprevisível, capaz tanto de gestos generosos (como abrigar Sesteros em sua chegada em Los Angeles) quanto de uma mesquinharia inacreditável (como não proporcionar água no set de filmagem, quente a ponto de levar uma atriz ao desmaio). James Franco encarna Wiseau com nítido prazer, entregando uma performance brilhante, que eclipsa até mesmo seu irmão, Dave, que ficou com o papel de Greg Sesteros: enquanto Sesteros é, de um modo, a voz da razão na dupla, Wiseau é um vulcão de sentimentos contraditórios - e pode, inclusive, suscitar a compaixão do público.

E se não fosse tão engraçado quanto é, "Artista do desastre" ainda tem o bônus de contar com inúmeras participações especiais, para deleite do espectador. Melanie Griffith, Sharon Stone, Megan Mullally, Bryan Cranston, Bob Odenkirk, Zac Efron, Josh Hutcherson, Jackie Weaver, Kevin Smith, Adam Scott e outros aparecem em pequenos papéis - ou em depoimentos falsos antes do filme começar (uma referência a "Reds", de Warren Beatty, lançado em 1981). É um prazer a mais identificá-los enquanto se acompanha a trajetória do protagonista em busca do lançamento de seu filme e sua esperada entrada no mercado cinematográfico de Hollywood. Seu filme,"The room", estreou em 2003, e, para não estragar a surpresa de quem ainda não sabe o final da história, basta dizer que, em determinado nível, ele conseguiu projetar-se na indústria e tornar-se famoso - mesmo que não exatamente do jeito que procurava. "The room" pode ser considerado um dos piores filmes da história do cinema, mas seu filho, "Artista do desastre", é um brilhante documento de sua realização.

sexta-feira

O HOMEM DE GELO

O HOMEM DE GELO (The iceman, 2012, Millenium Films, 106min) Direção: Ariel Vromen. Roteiro: Ariel Vromen, Morgan Land, livro de Anthony Bruno, documentário "The Iceman Tapes: Conversations with a killer", de Jim Thebaut. Fotografia: Bobby Bukowski. Montagem: Danny Rafic. Música: Haim Mazar. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: Nathan Amondson/Teresa Visinaire. Produção executiva: Rene Besson, Anthony Bruno, Boaz Davidson, Danny Dimbort, Mark Gill, Lati Grobman, Laura Rister, Trevor Short, Jim Thebaut, John Thompson. Produção: Ehud Bleiberg, Avi Lerner, Ariel Vromen. Elenco: Michael Shannon, Winona Ryder, Ray Liotta, Chris Evans, David Schwimmer, James Franco, Stephen Dorff. Estreia: 30/8/12 (Festival de Veneza)

Michael Shannon é um monstro de ator (no bom sentido): intenso, dedicado e frequentemente requisitado para papéis que exigem imponência ou certo grau de ameaça - graças a seu olhar penetrante e sua vaga semelhança física com Christopher Walken, por muito tempo o malucão preferido de Hollywood -, Shannon não poderia ter sido a melhor escolha para interpretar Richard Kuklinski, um dos assassinos mais conhecidos da história dos EUA, que por trás da fachada de homem de família respeitável, foi responsável por cerca de 200 mortes, a maioria delas encomendadas pelas cinco famílias mafiosas de Nova York. Dono do apelido de Homem de Gelo, por seu costume de congelar as vítimas por um tempo antes de desovar o corpo (dificultando assim a definição exata da data de suas mortes), Kuklinski foi tema de um documentário da HBO chamado "America undercover: The iceman tapes - conversations with a killer" e um livro escrito por Anthony Bruno. As duas obras acabaram por ser a base de "O homem de gelo", longa-metragem dirigido por Ariel Vromen que, contando com a atuação gigantesca de Shannon, acompanha a trajetória do protagonista desde seu início na vida do crime até sua prisão, em 1986. Narrado de forma convencional e com um roteiro que não explora a contento todas as possibilidades oferecidas pela história, o filme se vale do talento de seu ator principal e do elenco coadjuvante para manter a atenção do público até o final - ainda que nem mesmo seu clímax chegue a ser empolgante como poderia.

Sem explorar o passado traumático e cercado de violência de seu personagem central, o que certamente explicaria boa parte de sua personalidade calculista e quase apática em relação aos crimes que comete, "O homem de gelo" concentra-se basicamente na transformação de um homem comum em um dos maiores assassinos dos EUA. De dublador de filmes pornográficos a matador de aluguel, Kuklinski praticamente tinha uma vida dupla: de dia, era um respeitável pai de família, casado com a doce Deborah (Winona Ryder substituindo Maggie Gyllenhaal, que saiu do filme devido à gravidez) e pai de duas meninas; em horário comercial, um criminoso frio e implacável que trabalha para o perigoso Roy Demeo (Ray Liotta em papel oferecido a Benicio Del Toro). Sem importar-se muito em detalhar as mortes cometidas por Kuklinski, o roteiro vai contando sua história sem pressa, até chegar o momento em que o protagonista entra em rota de colisão com Demeo: trabalhando por conta própria ao lado do excêntrico Robert Pronge (Chris Evans, ótimo), ele vê a si e a família ameaçados, o que o obriga a entrar em um período de tensão e paranoia crescentes - especialmente porque ninguém de suas relações pessoais sabe a respeito de sua verdadeira profissão.


Dotado de uma estrutura narrativa simples e sem apelar para a violência excessiva - apesar do tema e do personagem central de certa forma exigirem tal opção -, "O homem de gelo" parece mais um telefilme do que uma produção para o cinema. Apesar do elenco talentoso, sua falta de ousadia em contar uma história tão repleta de possibilidades incomoda a um público já acostumado com o gênero e que busca algo mais do que um roteiro quadradinho e que deixa de lado questões importantes - como o fato de Kuklinski ser também violento em casa, frequentemente espancando a esposa. Até mesmo a razão de seu apelido (o congelamento de suas vítimas) é mencionado apenas brevemente, quase como se fosse algo sem importância. A direção de Ariel Vromen - responsável por produções da Netflix, Warner e Lionsgate, entre outros - não empolga em nenhum momento, nem mesmo no terço final, quando finalmente Kuklinski se vê encurralado pelas consequências de seus atos e precisa lidar com a pressão de estar no papel de possível vítima. Michael Shannon brilha em cada cena, mas não consegue escapar das armadilhas de um roteiro pouco inspirado.

No final das contas, "O homem de gelo" é um filme apenas correto, com poucos momentos memoráveis e que deixa a sensação de que poderia ter sido um grande trabalho caso não tivesse optado pelo convencionalismo excessivo. Uma pena que uma história tão rica de possibilidades tenha ficado no meio-termo adotado por seu diretor. Está longe de ser um filme ruim, mas tampouco é um filme que mereça destaque - exceto talvez pelo belo desempenho de Michael Shannon, que consegue ser melhor que o filme em si. Segura bem uma tarde chuvosa, mas não marca a vida de ninguém da plateia - quase uma decepção em se tratando do tema e do elenco.

domingo

UM CRIME AMERICANO

UM CRIME AMERICANO (An american crime, 2007, First Look Entertainment/Killer Films, 98min) Direção: Tommy O'Haver. Roteiro: Tommy O'Haver, Irene Turner. Fotografia: Byron Shah. Montagem: Melissa Kent. Música: Alan Lazar. Figurino: Alix Hester. Direção de arte/cenários: Nathan Amondson/Lisa Alkofer. Produção executiva: Pamela Koffler, Richard Shore, Ruth Vitale, John Wells. Produção: Katie Roumel, Kevin Turen, Christine Vachon, Henry Winterstern. Elenco: Ellen Page, Catherine Keener, James Franco, Bradley Whitford, Hayley McFarland, Nick Searcy, Ari Graynor, Evan Peters. Estreia: 19/01/07 (Festival de Sundance)

No começo dos anos 80 já havia uma movimentação entre os produtores de Hollywood para levar às telas a trágica e inacreditável história da jovem Sylvia Likens - um projeto abortado pela recusa de sua irmã, Jennie, em reviver tal pesadelo. A morte de Jennie em 2004, no entanto, reacendeu o desejo de Hollywood na ideia de transformar em arte um dos mais repugnantes crimes acontecidos nos EUA e, segundo o procurador público do caso, o mais terrível cometido no estado de Indiana. Conduzido com extrema seriedade e o máximo de fidelidade possível por Tommy O'Haver, experiente em tramas mais leves, como a comédia gay "O beijo hollywoodiano de Billy" (98) e o fantasioso "Uma garota encantada", estrelado por Anne Hathaway, mas novato em explorar o lado mais sombrio do ser humano, "Um crime americano" é um filme que choca, causa revolta e indignação e não é facilmente digerível. Mas é, também, um cruel retrato da maldade humana e de até onde pode chegar a falta de compaixão. Tocando ainda em outros temais polêmicos, como alienação parental e hipocrisia religiosa, o roteiro do diretor e de Irene Turner facilmente ultrapassa a definição de drama para adentrar sem hesitação no terreno do suspense psicológico mais perturbador - contando, para isso, com atuações assombrosas de Ellen Page e Catherine Keener.

A trama começa em 1965, quando duas adolescentes, Sylvia (Ellen Page) e Jennie Likens (Hayley McFarland) são deixadas por seus pais, artistas de circo, na casa da praticamente desconhecida Gertrude Baniszewski (Catherine Keener) - mãe de seis filhos que se oferece para cuidar das meninas por um tempo mediante o pagamento de vinte dólares por semana. Aceitando a generosa oferta como forma de viajarem e tentarem consertar um casamento em crise, Lester (Nick Searcy) e Betty (Romy Rosemont) partem, confiando nos talentos de Gertrude como mãe e dona-de-casa. O que eles não sabem, porém, é que ela não é tão perfeita como parece: doente crônica e com uma vida amorosa no mínimo complicada - com romances com homens mais jovens que a exploram financeiramente - a extremosa mãe na verdade é uma mulher à beira de um ataque de nervos - o que fica evidente quando o primeiro pagamento dos Likens chega atrasado e ela surra violentamente as duas hóspedes. A situação vai se complicando quando sua filha mais velha, Paula (Ari Grainor), se descobre grávida do namorado casado e, para desviar a atenção, acusa Sylvia de inventar rumores a seu respeito. Dotada de uma fúria incontrolável, Gertrude inicia uma série de cruéis sessões de tortura com a menina, envolvendo nisso não apenas todos os seus filhos mas também alguns jovens da vizinhança - que passam a visitar Sylvia como se fosse um animal do zoológico e participar dos atos de violência, que incluem abuso sexual, agressões físicas e até uma tatuagem feita com ferro quente.


Não é uma história fácil de contar e muito menos agradável, mas é louvável como o cineasta consegue fugir da morbidez excessiva e dos exageros de uma narrativa gráfica demais. Mesmo sem amenizar o sofrimento de Sylvia - que, segundo consta nos autos do processo, que inspiraram o roteiro, foi ainda mais profundo - O'Haver poupa a plateia o máximo possível, preferindo construir um clima de claustrofobia e injustiça acima da necessidade de explicitar com imagens o tamanho das barbaridades impostas à jovem protagonista. Sugerindo mais do que mostrando, o diretor atinge um nível ainda maior de tensão e desespero, convidando cada um dos espectadores a mergulhar em um mundo repleto de crueldade que só não é completamente inacreditável porque realmente aconteceu. Sem tentar dourar a pílula ou justificar os atos de Gertrude ao culpar seus problemas emocionais e financeiros como principal responsável pela tragédia, o roteiro consegue ainda assim dar um certo ar humano à odiosa personagem, principalmente por contar com a presença de Catherine Keener no papel: evitando a compaixão fácil ou a monstruosidade gratuita, a atriz duas vezes indicada ao Oscar de coadjuvante - por "Quero ser John Malkovich" (99) e "Capote" (2005) - apavora só de aparecer na tela, com seu olhar frio e jeito calmo de falar, que contrastam com o turbilhão de sua mente. Ellen Page não fica atrás: sua Sylvia é de uma fragilidade de porcelana, o que torna tudo ainda mais imperdoável e inexplicável - a não ser quando se leva em conta que a jovem talvez tenha sido vítima justamente por ser jovem, bonita e livre, coisas que sua mãe postiça não mais era capaz de ser.

Contando em um acertado tom de drama familiar que vai se transformando aos poucos em um pesadelo de tons acentuadamente mais fortes a cada cena, "Um crime americano" peca apenas por sua falta de ousadia visual: com uma fotografia discreta quase ao ponto da invisibilidade e uma reconstituição de época cuidadosa mas igualmente simples, o filme de O'Haver parece concentrar seu foco exclusivamente em sua trama, sem preocupar-se muito com a forma. Por vezes, seu filme parece mais uma obra realizada para a televisão do que para o cinema - culpa também da estrutura narrativa, que se utiliza do julgamento de Gertrude como ponto de apoio para uma série de flashbacks que vai, então, elucidando de forma didática os acontecimentos brutais que chocaram o país na década de 60. Amparado no trabalho iluminado de suas atrizes e de seu elenco coadjuvante - em que aparecem também James Franco como um dos namorados exploradores da mãe solteira e Evan Peters (da série "American Horror Story") como um vizinho gorducho e romanticamente interessado em Sylvia até o ponto em que o interesse se transforma em revolta - "Um crime americano" é pesado e denso, mas revela um lado obscuro do ser humano que incomoda e perturba a qualquer espectador. Um belo trabalho!

sexta-feira

KING COBRA

KING COBRA (King Cobra, 2016, Rabbit Bandini Productions, 91min) Direção: Justin Kelly. Roteiro: Justin Kelly, estória de Justin Kelly, D. Madison Savage, livro de Andrew E. Stoner, Peter A. Conway. Fotografia: Benjamin Loeb. Montagem: Joshua Raymond Lee. Música: Tim Kvanosky. Figurino: Matthew Simonelli. Direção de arte/cenários: Anastasia White/Christine Foley. Produção executiva: Brandon Baker, Edward Bass, Marla Lynn Brandon, Pichai Chirathivat, Michael Clofine, Matthew Helderman, Kim Jackson, Katie Leary, Jeffrey C. Leo, Joe Listhaus, Austin Renfroe, Jason Rose, Ron Simons, Luke Dylan Taylor, Jack Warner, Derek Zemrak. Produção: James Franco, Vince Jovilette, Scott Levenson, Jordan Yale Levine, Iris Torres. Elenco: Garrett Clayton, Christian Slater, James Franco, Alicia Silverstone, Keegan Allen, Molly Ringwald. Estreia: 16/4/16 (Tribeca Festival)

 É difícil saber o que os realizadores de "King Cobra" esperavam fazer. Se sua intenção era criar um novo "Boogie nights: prazer sem limites" (97), retratando de forma crua os bastidores da indústria do cinema pornô, deram com os burros n'água, porque seu diretor e roteirista Justin Kelly não tem nem de longe o mesmo talento de Paul Thomas Anderson. Porém, se o objetivo era chegar aos limites do trash com uma produção apelativa e por vezes canhestra que emula o espírito do objeto de seu estudo (os filmes de sexo explícito), pode-se dizer que fez um gol de placa. Produzido por James Franco - que se envolve muitas vezes em produções de gosto muitíssimo duvidoso - e sem medo de chocar ou surpreender o espectador (nem sempre de forma positiva), o filme é no mínimo curioso, mas dificilmente pode ser considerado bom cinema, ainda que sua coragem já lhe dê certa vantagem em uma indústria cada vez menos ousada, especialmente quando se trata de histórias gays.

Baseado em fatos reais contados em um livro de Andrew Stoner e Peter A. Conway, "King Cobra" acompanha os acontecimentos que levaram ao assassinato, em 2007, de Bryan Kocis, dono da Cobra Videos, especializada em filmes pornôs direcionados ao público homossexual masculino. Rebatizado como Stephen no filme dirigido por Justin Kelly, o empresário é vivido por Christian Slater em uma atuação corajosa e desprovida de tiques que pode ser considerada, sem medo, a melhor de sua carreira. Stephen é mostrado no filme como um homem comum, respeitado pela vizinhança e amado pela família mas que esconde de todos a real origem de sua vida confortável: como produtor de vídeos de sexo explícito, ele não apenas ganha dinheiro o suficiente para manter seus luxos mas também conhece rapazes com quem pode saciar seus desejos sexuais. É essa a relação que ele começa com o jovem Sean (Garrett Clayton), que se torna um dos mais populares astros de sua produtora, com o pseudônimo de Brent Corrigan. A relação entre eles - prejudicada pelo fato de Stephen querer dominar o rapaz de todas as formas possíveis - aos poucos começa a ficar complicada, e é aí que entram em cena os elementos catalisadores de toda a tragédia.


Garoto de programa agenciado pelo próprio namorado Joe (James Franco), o ambicioso Harlow (Keegan Allen) logo descobre, através do grande sucesso de Corrigan, que produzir seus próprios vídeos pode ser um meio fácil de sustentar a vida de excessos que a dupla leva. Aproveitando-se da vontade do jovem Corrigan em assumir o controle da sua vida, a dupla resolve tentá-lo com uma proposta tentadora - mas Stephen surge no meio do caminho, atrapalhando seus negócios. Uma reviravolta na história (relacionada ao contrato assinado pelo rapaz com o produtor) encaminha tudo para a violência e o crime. Nessa hora, é preciso dizer, o roteiro de Kelly é particularmente feliz, contando sua história sem apelar para os malabarismos narrativos que destruíram "Crimes em Wonderland" (2003), que falava sobre a decadência do ator pornô John Holmes (Val Kilmer). Mudando o tom chulo de sua primeira metade - que apresenta cenas de sexo filmadas sem glamour e de uma crueza admirável, ainda que questionável do ponto de vista estético - ele passa a apontar de forma simples e direta os motivos que levaram à trágica morte de Stephen/Bryan. É incômodo e desconfortável em muitos momentos, mas de certa forma, sua sinceridade acaba por amenizar seus defeitos visuais e transformá-los em estilo narrativo.

Não é difícil perceber, no entanto, que alguns defeitos de "King Cobra" são duros de engolir. O maior deles é a falta de carisma e talento do protagonista Garrett Clayton, que parece ter assumido o tom canastrão de seu personagem mesmo quando suas cenas não lhe exigem tal desempenho. Sua apatia fica ainda mais nítida quando comparada com a forma quase febril com que seus companheiros de elenco encaram o roteiro, em especial os atores mais conhecidos do elenco, Christian Slater (deixando definitivamente para trás o status de símbolo sexual adolescente dos anos 80) e James Franco (corajosamente brincando com sua imagem de bom moço). Com sequências que beiram o exagero sendo constantemente jogadas na tela (aparentemente sem critério mas que no fundo fazem parte de um conjunto doentiamente coerente), o filme acaba por assumir, quase sem querer, o status de cult - uma obra que, através dos excessos e da crueza visual e temática, pode vir a encontrar seu público junto a espectadores que buscam alternativas à pasteurização hollywoodiana mesmo que (e talvez exatamente por isso) elas quebrem seus paradigmas narrativos e estéticos. Além do mais, quase como um bônus, o elenco de "King Cobra" ainda traz outras surpresas, como Molly Ringwald (a garota de rosa shocking em pessoa) na pele da irmã de Stephen, e Alicia Silverstone como a mãe (?!) de Garrett. Não é um filme para qualquer público - pode chocar aos mais sensíveis - mas merece uma conferida por sua coragem em afrontar tudo que se espera de um filme com pretensões comerciais. Aplausos pela ousadia.

É O FIM

É O FIM (This is the end, 2013, Columbia Pictures, 107min) Direção: Evan Goldberg, Seth Rogen. Roteiro: Evan Goldberg, Seth Rogen, curta-metragem "Jay and Seth vs. The Apocalypse", de Seth Rogen, Jason Stone, Evan Goldberg. Fotografia: Brandon Trost. Montagem: Zene Baker. Música: Henry Jackman. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Chris Spellman/Helen Britten. Produção executiva: Nicole Brown, Barbara A. Hall, Kyle Hunter, Nathan Kahane, Ariel Shaffir, Jason Stone. Produção: Evan Goldberg, Seth Rogen, James Weaver. Elenco: James Franco, Seth Rogen, Jonah Hill, Jay Baruchel, Danny McBride, Craig Robinson, Michael Cera, Emma Watson, Mindy Kaling, David Krumholtz, Christopher Mintz-Plasse, Rihanna. Estreia: 03/6/13

Alguns filmes - comédias em especial - precisam que a plateia compre sua ideia, por mais absurda que seja, e se comprometa a deixar de lado suscetibilidades e ambições intelectuais. Um exemplo vivo dessa afirmação é o anárquico "É o fim", um besteirol de primeira grandeza co-dirigido por Evan Goldberg e pelo ator Seth Rogen. Para se ter uma ideia do nível de esculacho da produção - que custou pouco mais de 30 milhões aos cofres da Columbia e acabou surpreendendo todo mundo com uma arrecadação superior a 100 milhões - basta dizer que os dois diretores também estão por trás de "Segurando as pontas", filme de 2008 que virou cult graças justamente a seu tipo peculiar de humor, que mistura sem cerimônia piadas sobre consumo de drogas, certa dose de escatologia e brincadeiras bem-humoradas a respeito da personalidade dos próprios atores. Porém, enquanto "Segurando as pontas" pendia bem mais para o universo de um público simpático ao uso da maconha, com sua história de ação nonsense, "É o fim" debocha sem dó nem piedade de um quase-gênero hollywoodiano: o filme-catástrofe. Inspirado em um curta-metragem dos próprios Rogen e Goldberg - juntos com Jason Stone - o filme é um festival de besteiras que beiram o ridículo. Mas não é que funciona?

Novamente é preciso deixar claro que é preciso esquecer qualquer resquício de sensibilidade para gostar de tanta palhaçada (e nem sempre elas funcionam a contento), mas uma vez admitindo que quer apenas se divertir, o público não terá do que reclamar - a não ser, obviamente, que considere engraçado apenas as sutilezas de Woody Allen. Sutileza é uma palavra que parece não existir no dicionário de Rogen e Goldberg, dois adultos com cérebro de adolescente nerd que fazem humor com a delicadeza de uma marretada - o que, a julgar pelo sucesso, agrada muito mais do que se pode imaginar. "É o fim" pode até ter como chamariz a participação especial de nomes consagrados popularmente, como a cantora pop Rihanna e a eterna Hermione da série "Harry Potter" Emma Watson, mas é seu humor escrachado e sem papas na língua a sua maior qualidade e o maior responsável pelo êxito financeiro que deixou muita gente de queixo caído dentro de uma indústria muitas vezes imprevisível. E provou também que, ao contrário do que possa parecer, nem sempre é preciso um astro de primeira grandeza ou um personagem idolatrado no mundo dos filmes de ação para que um filme ultrapasse qualquer expectativa.


A trama de "É o fim" - se é que se pode chamar de trama - é bobagem pura e tem como protagonistas atores conhecidos do público interpretando versões exageradas/debochadas/irônicas deles mesmos. O filme começa quando Seth Rogen vai ao aeroporto de Los Angeles recepcionar o amigo Jay Baruchel, que não tem a melhor das relações com a cidade. Depois de uma orgia de drogas e videogame, eles resolvem ir à uma festa na nova mansão de James Franco, repleta de celebridades comemorando a inauguração da propriedade. Tudo seria apenas mais uma noitada comum em Los Angeles não fosse a tragédia que acontece logo em seguida, quando a cidade praticamente inteira é destruída por algo que ninguém consegue explicar a princípio - epidemia de zumbis? ataque alienígena? o Apocalipse citado na Bíblia? - e, depois de testemunhar a morte de seus colegas, Rogen, Franco, Baruchel, Jonah Hill e Craig Robinson (da série "The office") se veem obrigados a permanecer isolados do mundo por tempo indeterminado. Nem mesmo em seu amigo Danny McBride, que chega depois dos acontecimentos, eles podem confiar totalmente, até que descubram a verdade sobre o desastre.

Usando e abusando do improviso - segundo os diretores a maioria dos diálogos foram criados pelos próprios atores no momento das filmagens - e explorando com sarcasmo quase doentio a imagem que os astros de Hollywood passam para os fãs, "É o fim" é uma brincadeira entre amigos que deu muito certo. Sem hesitar em fazer graça a respeito dos boatos sobre a sexualidade de James Franco (talvez o mais à vontade em cena), a simpatia de Jonah Hill (dono de algumas das melhores sequências, inclusive com um exorcismo) e a tendência de Seth Rogen em fazer sempre o mesmo papel, o filme ainda debocha da indústria de cinema e da fogueira das vaidades que é o mundo do entretenimento sem poupar nada nem ninguém - e às vezes até exagerar, com o aval dos "homenageados", como o ator Michael Cera interpretando uma versão junkie de si mesmo. Pode não ser um humor para todos, mas é inegável que é impossível não dar ao menos umas boas gargalhadas com tanta asneira surgindo a cada minuto. E além do mais, como não simpatizar com uma produção que termina com uma apresentação inédita dos Backstreet Boys? É só relaxar, desligar o cérebro e curtir as citações e as piadas de baixo calão. Ser adolescente inconsequente durante duas horas não vai fazer mal a ninguém.

LOVELACE

LOVELACE (Lovelace, 2013, Millenium Films/Eclectic Pictures/Untitled Entertainment, 93min) Direção: Rob Epstein, Jeffrey Friedman. Roteiro: Andy Bellin. Fotografia: Eric Edwards. Montagem: Robert Dalva, Matthew Landon. Música: Stephen Trask. Figurino: Karyn Wagner. Direção de arte/cenários: William Arnold/David Smith. Produção executiva: Boaz Davidson, Danny Dimbort, Mark Gill, Merritt Johnson, Avi Lerner, Peter Sarsgaard, Amanda Seyfried, Trevor Short, John Thompson. Produção: Heidi Jo Markel, Laura Rister, Jason Weinberg, Jim Young. Elenco: Amanda Seyfried, Peter Sarsgaard, Sharon Stone, Robert Patrick, Juno Temple, Chris Noth, Bobby Cannavale, Hanz Azaria, Adam Brody, Chloe Sevigny, James Franco, Debi Mazar, Wes Bentley, Eric Roberts. Estreia: 22/01/13 (Festival de Sundance)

Não é preciso ser um fã do gênero para conhecer "Garganta profunda", um dos mais famosos e celebrados filmes pornográficos da história. Lançado em 1972, tornou-se um fenômeno de proporções inéditas e inspirou até mesmo o apelido do misterioso informante no infame Caso Watergate que derrubou o presidente Richard Nixon. Estrelada pela então desconhecida Linda Lovelace, a história da jovem que descobre ter o clitóris localizado na garganta e passa a conhecer o prazer sexual conforme vai se especializando em sexo oral é, até hoje, o filme adulto mais rentável já realizado (com uma renda estimada em 600 milhões de dólares) mas os bastidores de sua realização, bastante polêmicos, só estavam relegados aos leitores da biografia da atriz - lançada em 1980 - e aos comentários suscitados por seu posicionamento contra a indústria da pornografia que veio em seguida. A real história de Linda, com todos os seus lances dramáticos (anteriores e posteriores à fama), pedia uma versão cinematográfica à altura. Surgiu, então a cinebiografia dirigida pelos cineastas Rob Epstein e Jeffrey Friedman (que juntos, lançaram o sensacional documentário "O outro lado de Hollywood", sobre o tratamento dado pelo cinema à homossexualidade). O problema é que, apesar do tema explosivo, "Lovelace" parece ter medo da ousadia. E isso faz uma enorme diferença no resultado final.

Com uma narrativa quadradinha que enfraquece até mesmo sua segunda metade, quando o ponto de vista da protagonista assume o foco e as revelações sobre seu casamento e sua carreira dão outro viés aos acontecimentos, o filme de Epstein e Friedman perde a chance de revelar, através da história de um longa específico, a podridão dos bastidores da indústria da pornografia, algo que Paul Thomas Anderson atingiu com grande êxito em seu "Boogie nights, prazer sem limites", de 1997. Porém, ao contar uma história calcada basicamente em sexo puro, o roteiro parece ter medo de mergulhar no assunto, passando correndo por qualquer sequência que porventura possa ofender os pruridos cada vez maiores da plateia norte-americana. Mesmo que o foco não seja o sexo em si, não deixa de ser irônico que uma produção que tenta desmascarar a hipocrisia seja tão puritana. E seria injusto debitar isso ao elenco de nomes famosos, já que todos parecem extremamente à vontade em seus papéis, e os dois atores centrais, Amanda Seyfried e Peter Sarsgaard (que também assinam como produtores executivos), já tem no currículo filmes de alto teor erótico e não tem medo de se entregar de corpo e alma a seus personagens. O fato é que, mesmo com algumas louváveis qualidades, "Lovelace" perde pontos por jamais sair de sua zona de conforto.


O filme começa, como se poderia esperar, em 1970, quando a jovem Linda Boreman (Amanda Seyfried em papel herdado de Lindsay Lohan, então já em seu inferno astral pessoal e profissional) conhece o homem que se tornaria sua bênção e seu castigo. Chuck Treynor (Peter Sarsgaard, sempre dedicado e extremamente competente) é quem a tira da casa de seus severos pais (interpretados por Robert Patrick e uma irreconhecível Sharon Stone) e, aparentemente apaixonado e carinhoso, devolve a ela a autoestima perdida devidos a traumas do passado. Acontece que logo ele demonstra um lado pouco agradável e, metido com prostituição e na mira de credores perigosos, acaba por convencê-la a fazer o papel principal de um filme pornográfico que pode salvar suas finanças. O sucesso estrondoso do filme, "Garganta profunda", a torna internacionalmente conhecida, mas não a ajuda a ser feliz. Pouco tempo depois ela decide tornar públicas as humilhações pelas quais passou nas mãos de Treynor - e volta aos holofotes como uma vítima de violência doméstica que não ganhou um centavo com o trabalho que deixou os produtores milionários.

Recheando seu filme de rostos conhecidos do público - além dos já citados desfilam pela tela James Franco, Juno Temple, Chris Noth, Hank Azaria, Eric Roberts, Adam Brody e Bobby Cannavale - os cineastas são felizes em contar sua história de forma fluente e sem sobressaltos. Porém, mesmo quando há a ruptura narrativa que altera a percepção do público em relação à trajetória da protagonista, ela não acontece com o impacto que poderia. A opção dos diretores em manter o ritmo na mesma cadência acaba por ser um golpe fatal para seu filme, que tem a mesma pulsação do início ao fim. Não seria um problema se essa pulsação fosse excitante ou potente - como acontece com a obra de Anderson, que deixa o espectador sem fôlego durante suas duas horas e meia - mas a edição carece de energia e tesão, o que nesse caso específico, é um pecado quase imperdoável. Mesmo com o empenho de Seyfried e Sarsgaard, "Lovelace" fica aquém do que poderia ser. É um "Supercine" de luxo. Uma pena.

sábado

NO VALE DAS SOMBRAS

NO VALE DAS SOMBRAS (In the valley of Elah, 2007, Warner Independent Pictures/Summit Entertainment, 121min) Direção: Paul Haggis. Roteiro: Paul Haggis, estória de Paul Haggis e Mark Boal. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Jo Francis. Música: Mark Isham. Figurino: Lisa Jensen. Direção de arte/cenários: Laurence Bennett/Linda Sutton-Doll. Produção executiva: Emilio Diez Barroso, Erik Feig, David Garrett, Bob Hayward, James Holt, Stan Wlodowski. Produção: Laurence Becsey, Paul Haggis, Steven Samuels, Patrick Wachsberger. Elenco: Tommy Lee Jones, Charlize Theron, Susan Sarandon, Jason Patric, James Franco, Jonathan Tucker, Josh Brolin, Frances Fisher, Zoe Kasdan. Estreia: 01/9/07 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Tommy Lee Jones)

Na metade da primeira década dos anos 2000 poucos nomes eram tão quentes em Hollywood quanto o de Paul Haggis. Roteirista de dois filmes vencedores do Oscar em anos consecutivos - "Menina de ouro" em 2005 e "Crash, no limite", que ele também dirigiu, em 2006 - ele assinou também o script de "Cartas de Iwo Jima", que concorreu à estatueta no ano seguinte e parecia que tinha tudo para marcar presença também na cerimônia de 2008 com "No vale das sombras", que tinha na receita alguns ingredientes aparentemente infalíveis para cair no gosto da Academia: relação entre pai e filho, guerra no Iraque e atores já devidamente consagrados - Tommy Lee Jones, Charlize Theron e Susan Sarandon. Porém, para surpresa de muitos, quando a lista de indicados foi divulgada, o filme mostrou-se praticamente ignorado: apenas Lee Jones foi lembrado, com uma indicação que parecia mais um prêmio de consolação do que merecimento. Nada mais justo: apesar de algumas qualidades óbvias, "No vale das sombras" é mais do mesmo, um misto entre drama, guerra e policial que não consegue empolgar em nenhum dos gêneros. É correto, nunca brilhante.

Tommy Lee Jones - em papel recusado por Clint Eastwood, que o recomendou a Haggis - interpreta, com o mesmo tom de enfado e falta de entusiasmo de sempre, o sargento aposentado Hank Deerfield, que sai de sua pequena cidade do interior do Tennessee para investigar o desaparecimento de seu filho caçula, Mike (Jonathan Tucker), recém-chegado ao Novo México depois de uma missão de 18 meses no Iraque. Lutando contra a burocracia da polícia e dos militares locais, ele tenta descobrir por conta própria o que aconteceu com o rapaz, até que sua investigação muda tragicamente de rumo quando os restos mortais do jovem são localizados, queimados e abandonados em um matagal. Com a ajuda da detetive Emily Sanders (Charlize Theron, sempre competente) - uma mãe solteira que luta contra o machismo e a misoginia dos colegas - Deerfield precisa usar de sua experiência e de sua determinação para romper o bloqueio de mentiras e meias-verdades do quartel e dos colegas do filho e chegar à verdade. Enquanto isso, em casa, sua esposa, Joan (Susan Sarandon, a ponto de roubar a cena em cada momento), lida com a perda do segundo filho - o primeiro morreu em um acidente aéreo quando estava em serviço, também militar.


O maior problema de "No vale das sombras" é sua indecisão: ao optar por uma miscelânea de gêneros, Paul Haggis tenta abarcar todos com a mesma desenvoltura, quando fica óbvio até ao menos atento espectador que tal ambição fica seriamente comprometida quando a trama não tem força suficiente para amparar tanto. O desenrolar da investigação de Deerfield é interessante e seus métodos são igualmente empolgantes, mas o desfecho criado pelo roteiro é anti-climático e seu relacionamento com Emily e seu filho pequeno nunca ultrapassa o superficial e o clichê - a ponto de ele usar uma história para dormir como metáfora para o tema do filme, a luta de Davi contra Golias. O excesso de lugares-comuns do roteiro também é perceptível a qualquer um, especialmente quando chega aquele momento fatídico em que a detetive se rebela contra a mesquinharia de seus colegas e resolve unir-se ao abnegado pai em busca da verdade sobre o filho. Em mãos menos capazes e talentosas, perigava ser intragável. Felizmente Theron é sensacional e Lee Jones, apesar de repetir ad nauseum todos os trejeitos de sempre, consegue convencer como um homem turrão e decidido. Eles salvam o filme da vala comum dos telefilmes semanais e dão um verniz de inteligência até mesmo quando a trama dá sinais de que não tem muito a oferecer.

Longe de ser um filme ruim, "No vale das sombras" acaba se ressentindo das expectativas que criou com a assinatura de Haggis, o elenco de astros e o tema momentoso. Se tivesse escolhido um gênero e se mantido nele, com personagens menos superficiais e uma trama menos previsível, poderia ter se transformado no grande filme que pretendia ser. Como está, é apenas uma produção ok, que entretém, mantém a atenção, mas desaparece da memória do público assim que termina a sessão. Convenhamos, é muito pouco.

domingo

127 HORAS

127 HORAS (127 hours, 2010, Fox Searchlight Pictures, 94min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: Danny Boyle, Simon Beaufoy, livro "Between a rock and a hard place", de Aron Rolston. Fotografia: Enrique Chediak, Anthony Dod Mantle. Montagem: Jon Harris. Música: A.R. Rahman. Figurino: Suttirat Larlarb. Direção de arte/cenários: Suttiral Larlarb/Les M. Boothe. Produção executiva: Bernard Bellew, Lisa Maria Falcone, François Ivernel, John J. Kelly, Cameron McCracken, Tessa Ross. Produção: Danny Boyle, Christian Colson, John Smithson. Elenco: James Franco, Kate Mara, Amber Tamblyn, Treat Williams, Kate Burton. Estreia: 04/9/10 (Festival de Telluride)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (James Franco), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("If I rise")

É preciso dizer, antes de mais nada, que todas as notícias que reportam desmaios, ataques epiléticos e afins durante a cena climática do filme "127 horas" soam a golpe de marketing. Por mais gráfica que seja a sequência - filmada em apenas um take - ela não é mais chocante do que inúmeros momentos de filmes como a série "Jogos mortais". O grande diferencial aqui é que, ao contrário dos sanguinolentos produtos carniceiros que lotam salas de cinema pelo mundo afora, a plateia se importa com o protagonista. Vivido com intensidade por James Franco, o corajoso, apaixonado pela vida e carismático Aron Rolston conquista a audiência já em sua primeira aparição na tela. E é isso que faz toda a diferença e transforma o filme de Danny Boyle em uma experiência tão assustadora quanto emocionante.

Indicado a 6 Oscar - inclusive melhor filme, que perdeu para o insosso "O discurso do rei" - "127 horas" é um programa proibido a claustrofóbicos. Ainda que o roteiro de Boyle e Simon Beaufoy - a mesma dupla oscarizada de "Quem quer ser um milionário?" - seja ágil o bastante para não aborrecer o espectador menos paciente, a maioria absoluta do filme se passa em um único cenário, exíguo e sufocante. Felizmente a edição e a interpretação de Franco conseguem reverter o que poderia ser um cansativo exercício de vaidade de seu diretor em um filmaço de grudar na poltrona. Criativo como nos melhores tempos de "Trainspotting", Danny Boyle comprova que seu Oscar de dois anos antes não foi mero golpe de sorte.


A história de "127 horas" é conhecida e o fato de ter virado filme apenas aumentou sua popularidade. Pra quem não sabe, é a história de Aron Rolston, um rapaz saudável e inteligente que tem como hobby escalar montanhas nos canyons americanos e curtir a natureza descobrindo paraísos escondidos. Em uma de suas viagens, um acidente acontece e ele se vê com o braço direito preso por uma rocha. Depois de passar cinco dias sem conseguir sair do lugar e sem comida e bebida - onde revê momentos importantes de sua vida, tem alucinações e é obrigado a beber a própria urina - ele só se salva quando amputa parte do braço.

Apesar de contar uma história barra-pesada, "127 horas" tem a seu favor um senso de humor muito bem-vindo e um ritmo que jamais cai. Tecnicamente perfeito, é uma história forte, que versa sobre a força do ser humano quando é obrigado a lidar com adversidades. Mas certamente não seria tão bom se não contasse com James Franco como protagonista. Sua indicação ao Oscar foi mais do que merecida - e uma vitória não teria sido injusta: o até então desacreditado galã apresenta um trabalho irretocável, comprovando um talento com o qual acenava no mínimo desde sua atuação em "Milk". Alternando momentos de puro desespero com um humor inesperado e uma tristeza profunda (junto com uma arraigada esperança), Franco carimba gloriosamente seu passaporte rumo ao lugar reservado aos grandes atores.

E quanto à tão falada cena da amputação? Sim, é forte. Sim, é realista. E não, não é supérflua nem tampouco gratuita. É um clímax apropriado filmado com segurança e sem nenhum traço de sadismo. Mantenha os olhos abertos se conseguir, mas não assista o filme apenas por essa cena. "127 horas" tem muitas outras qualidades que merecem sua atenção.

terça-feira

MILK, A VOZ DA IGUALDADE

MILK, A VOZ DA IGUALDADE (Milk, 2008, Focus Features, 128min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Dustin Lance Black. Fotografia: Harris Savides. Montagem: Elliot Graham. Música: Danny Elfman. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Bill Groom/Barbara Munch. Produção executiva: Dustin Lance Black, Barbara A. Hall, William Horberg, Michael London, Bruna Papandrea. Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks. Elenco: Sean Penn, Josh Brolin, James Franco, Emile Hirsh, Diego Luna, Alison Pill, Dennis O'Hare, Victor Garber. Estreia: 28/10/08

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Gus Van Sant), Ator (Sean Penn), Ator Coadjuvante (Josh Brolin), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Sean Penn), Roteiro Original 

Já não era novidade o interesse de Hollywood pela história de Harvey Milk, o primeiro homossexual assumido a se eleger para um cargo público - e isso em plenos anos 70, quando a onda conservadora americana estava no auge com acirradas campanhas que tinham como objetivo acabar com todos os direitos gays. No mínimo desde a estreia de "Os tempos de Harvey Milk", premiado com o Oscar de melhor documentário de 1984 havia projetos para contar a inspiradora trajetória do nova-iorquino que, depois dos 40 anos mudou-se para São Francisco e, munido apenas de carisma e de ideias que desafiavam o preconceito velado (ou não) que grassava no poder público, tornou-se um dos maiores símbolos da luta pelos direitos homossexuais. Depois de várias tentativas frustradas - e de atores como Robin Williams, Richard Gere, Daniel Day-Lewis e James Woods ligados a eles - foi Gus Van Sant (também gay assumido e diretor do polêmico "Garotos de programa" no início dos anos 90) quem finalmente acabou levando às telas seu "Milk, a voz da igualdade", um filme que, elogiado unanimemente pela crítica, chegou à corrida do Oscar com moral bastante para sair da cerimônia com duas importantes estatuetas: roteiro original e ator (o segundo da carreira de Sean Penn).

Segundo consta, quando Penn terminou de filmar sua primeira cena de beijo com James Franco (que vive Scott Smith, o grande amor de Milk, personagem para o qual foram testados Chris Evans e Bradley Cooper), mandou uma mensagem de texto para sua ex-mulher - ninguém menos que Madonna, um dos maiores ícones da cultura gay mundial - contando de sua façanha. A resposta da cantora/atriz/diretora foi lacônica (um mero "Parabéns!"), mas de certa forma não deixa de ser surpreendente que um ator como Penn - que a despeito de seu imenso e já fartamente comprovado talento tem um vasto histórico de violência e agressividade que inclusive o mandou para a cadeia no final dos anos 80 - tenha mergulhado tão fundo em um papel tão diferente de tudo que já fez em sua carreira. Sem medo de críticas ou parecer ridículo, ele entrega uma atuação que equilibra com esplêndida suavidade o lado político do personagem com sua vida particular - especificamente dois relacionamentos marcantes por motivos díspares. Até mesmo a afetação de Milk encontra em Penn um intérprete à altura - às vezes chega a ser inacreditável que ele é o mesmo ator que criou o violento Jimmy Marcus de "Sobre meninos e lobos" (que lhe rendeu sua primeira estatueta) e o  corrupto advogado Weinberg de "O pagamento final" (que deu o pontapé inicial na fase de sua carreira onde seu talento deixou de lado sua controversa personalidade).


Mas nem só de Penn sobrevive "Milk, a voz da igualdade". Com base em um roteiro inteligente do jovem Dustin Lance Black (cuja obsessão pela história do protagonista acabou levando-o a assinar o filme como produtor-executivo), Van Sant deixa de lado qualquer tentativa de ser cult ou estiloso para narrar uma história cuja força já é o suficiente para conquistar o espectador. Mesmo que vez ou outra ele demonstre porque já foi considerado o mais criativo dos cineastas independentes americanos - ao mostrar o resultado de um crime homofóbico através do reflexo do corpo da vítima através de um apito, por exemplo - o diretor de obras notáveis como "Um sonho sem limites" e outras execráveis como a desnecessária refilmagem de "Psicose" nunca tenta chamar mais a atenção do que seus personagens e do contexto histórico e social no qual eles transitam. Essa generosidade com seus atores fica nítida quando entram em cena coadjuvantes essenciais à história, como Dan White, político cuja relação profissional com Milk beirava a esquizofrenia e que é defendido por um impecável Josh Brolin, merecidamente indicado ao Oscar da categoria: Brolin, que engatou uma terceira em sua carreira depois de "Onde os fracos não tem vez" (2008), tem um desempenho exemplar, possibilitando ao público um vislumbre de fragilidade e dubiedade por trás de uma figura séria e impoluta. Seu trabalho faz eco a outras atuações bastante eficazes como a do jovem Emile Hirsh, que foi dirigido por Sean Penn em "Na natureza selvagem". Só quem destoa é Diego Luna, que erra em sua composição como um dos namorados de Milk - e cujo desfecho acentua o tom trágico da trama.

No final das contas, "Milk, a voz da igualdade" é um grande filme, independe da orientação sexual do espectador que se deixar envolver. É emocionante, é historicamente interessante - os créditos de abertura, que mostram cenas reais de homens gays sendo presos nos anos 60 e 70 pelo simples fato de serem gays é quase chocante - e importantíssimo em um momento em que figuras públicas lamentáveis vem destilando sua hipocrisia e preconceito em nome da família e da religião. Coisa que o próprio Milk precisou enfrentar quando bateu de frente com a cantora desaplaudida Anita Bryant - fundamentalista cristã - que tornou-se símbolo da luta contra os direitos dos gays: seu discurso de "eu adoro meus amigos gays" enquanto os trata como marginais soa assustadoramente atual. E é também por isso que o filme de Van Sant é imprescindível.

quarta-feira

COMER, REZAR, AMAR


COMER, REZAR, AMAR (Eat, Pray, Love, 2010, Columbia Pictures, 133min) Direção: Ryan Murphy. Roteiro: Ryan Murphy, Jennifer Salt, livro de Elizabeth Gilbert. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Brad Buecker. Música: Dario Marianelli. Figurino: Michael Dennison. Direção de arte/cenários: Bill Groom. Produção executiva: Jeremy Kleiner, Brad Pitt, Stan Wlodkowski. Produção: Dede Gardner. Elenco: Julia Roberts, Javier Bardem, James Franco, Billy Crudup, Richard Jenkins, Viola Davis. Estreia: 13/8/10

O livro foi um fenômeno de vendas no mundo inteiro, conquistando leitoras com seu jeito despojado de misturar autoajuda com guia de viagem. O filme, que todos esperavam repetir o sucesso – especialmente com a presença da megaestrela Julia Roberts no papel principal – já não foi uma unanimidade tão grande assim. Com a crítica dividida e o público pouco entusiasmado (ao menos em comparação com a bilheteria imensa que se imaginava), a versão para as telas do best-seller “Comer, rezar, amar” pode ter decepcionado aos produtores, mas está longe de ser o desastre que muitos tentaram pintar. Carismática e boa atriz, Roberts foi a escolha perfeita para o papel principal, o da escritora Elizabeth Gilbert, que abandona suas raízes para tentar encontrar a paz de espírito que seus relacionamentos amorosos não lhe trazem. Por pouco não dirigida novamente por Garry Marshall – que lhe deu a chance para o estrelato em “Uma linda mulher” (90) e recusou o projeto pelas dificuldades logísticas que ele abrangia – ela é o corpo e a alma de um filme que tem em seus belos cenários personagens tão importantes quanto a própria Gilbert.

Bem dividido nos três capítulos que dão nome ao livro e ao filme, “Comer, rezar, amar” ainda se utiliza de alguns flashbacks para melhor dar ao espectador a chance de conhecer a protagonista e seus anseios. Tal artifício, que poderia atrapalhar a narrativa, serve, no entanto, como um respiro à jornada de Liz – uma personagem que pode parecer, a princípio, apenas como uma mulher chata e propensa a aumentar a proporção de seus problemas. O desafio do roteiro – escrito pelo próprio diretor Ryan Murphy em parceria com Jennifer Salt – era mergulhar a plateia nos pensamentos da protagonista, justamente para que ela não caísse na armadilha da autocomiseração e da complacência. Nem sempre funciona – a versão estendida, lançada em bluray, teve mais sucesso nesse ponto – mas quem leu o livro sabe que a busca de Gilbert servia mais como uma espécie de descanso sabático do que exatamente uma busca pelo sentido da vida. Rica, bonita e inteligente, ela sai em viagem pelo mundo (o que não é algo que muita gente consegue fazer, convenhamos) não para curar suas feridas, mas sim para encontrar novas perspectivas. E mesmo que o filme não tenha sido exatamente bem-sucedido em deixar isso muito claro – em alguns momentos sua decisão soa um tanto aleatória – não deixa de ser delicioso acompanhar Julia Roberts e seu belo sorriso por algumas das paisagens mais bonitas do mundo.


Escritora infeliz no amor, Liz Gilbert (uma Julia Roberts que batalhou pessoalmente para levar o livro às telas) acaba de terminar o namoro com um jovem ator (James Franco). Seu relacionamento, amoroso mas incompleto, segue um divórcio doloroso, do qual saiu praticamente exaurida emocionalmente. Incentivada pelas tendências religiosas do rapaz e pelas lembranças de uma viagem feita à Bali alguns meses antes, ela resolve, então, colocar os pés na estrada e, por um ano, afastar-se de sua rotina para, em três partes diferentes do planeta, reencontrar sua alma. Na Itália, dedica-se a experimentar os prazeres da culinária, da beleza e do dolce far niente que lhe ensinam os nativos. É a melhor parte do filme, leve, luminosa, engraçada e fotografada com um misto de contemplação e paixão pelo veterano Robert Richardson. Logo em seguida, ela passa por um período bem menos prazeroso, tentando acostumar-se com a rotina de um mosteiro indiano. Entre lavar o chão do local e procurar acertar-se com as rígidas regras de oração e meditação, ela trava contato com outro americano, o sofrido Richard (Richard Jenkins), que tem um motivo bem mais radical para estar buscando a paz espiritual – e é dono da cena mais emocional do filme, principalmente graças ao trabalho excepcional de Jenkins.

O terço final do filme é, talvez, o mais controverso e menos fascinante. Controverso por apresentar um Javier Bardem com tenebroso sotaque português interpretando um brasileiro, Felipe, por quem Liz acaba se apaixonando. Além da escalação de Bardem (um ator extraordinário mas inadequado ao papel), o roteiro inventa características bizarras ao povo brasileiro – segundo a produção, pais e filhos tem o costume de beijar-se na boca – e escolhe, para trilha sonora, a mesma “Samba da bênção”, cantada por Bebel Gilberto, que também esteve presente em “Closer, perto demais” (04), estrelado pela mesma Julia Roberts. No mínimo falta de imaginação. À parte isso, o romance entre Liz e Felipe não chega a encantar ou seduzir o público, até então envolvido com as duas primeiras partes da trajetória da protagonista. Mesmo as belas paisagens que os rodeia são insuficientes para dar liga ao casal e isso acaba por prejudicar seriamente o resultado final e encerrar a viagem com uma sensação de anti-clímax.

Mas, se no conjunto final “Comer, rezar, amar” não é uma obra-prima da sétima arte, é injusto não reconhecer suas qualidades. Ryan Murphy – criador de séries como “Nip/Tuck”, “Glee” e “American Horror Story” e em seu segundo longa-metragem – tem a receita de contar histórias que conquistam sem fazer muito esforço, e contar com Julia Roberts, uma das maiores estrelas de Hollywood no papel principal, não atrapalha em nada. Ainda que sua falta de experiência fique clara em alguns pontos – a edição poderia ser mais ágil e podar alguns momentos menos inspirados – é perceptível seu carinho pelo material e seu esforço em traduzir em imagens as palavras de Elizabeth Gilbert. Bom diretor de atores, extrai boas atuações do elenco masculino – que inclui também Billy Crudup como o primeiro marido de Liz – e consegue fazer com que o carisma de Roberts não fique no caminho da história. Muitas fãs do livro não se deixaram seduzir pela adaptação cinematográfica, mas é inegável que é um filme subestimado e com potencial para ser melhor avaliado no futuro. Nem sua duração excessiva chega a ser um defeito se o espectador se deixar levar pela viagem de Gilbert.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...