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segunda-feira

OBRIGADO POR FUMAR

OBRIGADO POR FUMAR (Thank you for smoking, 2005, Room 9 Entertainment, 92min) Direção: Jason Reitman. Roteiro: Jason Reitman, romance de Christopher Buckley. Fotografia: James Whitaker. Montagem: Dana E. Glauberman. Música: Rolfe Kent. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Steve Saklad/Kurt Meisenbach. Produção executiva: Michael Beugg, Alessandro Camon, Max Levchin, Elon Musk, Edward R. Pressman, John Schmidt, Peter Thiel, Mark Woolway. Produção: David O. Sacks. Elenco: Aaron Eckhart, Katie Holmes, Maria Bello, Cameron Bright, Robert Duvall, Todd Louiso, J.K. Simmons, Kim Dickens, William H. Macy, Sam Elliot, Adam Brody, Rob Lowe, Melora Hardin. Estreia: 09/9/05 (Festival de Toronto)

Em uma época tão ridiculamente apegada a uma risível onda de correção política não deixa de ser um motivo de grandes comemorações que um filme como "Obrigado por fumar" tenha chegado às telas. Cínico, debochado e sardônico, o filme de estreia do cineasta Jason Reitman - filho do diretor Ivan e que se tornaria queridinho da crítica com seu filme seguinte, o hypado e inferior "Juno" - é um tapa na cara das convenções sociais dos EUA do início do século XXI, ao eleger como seu protagonista um anti-herói desprovido de moralidade e ética e que, apesar disso (ou talvez até mesmo por causa disso) é total e absolutamente carismático. Interpretado por um Aaron Eckhart mais à vontade do que nunca, Nick Naylor, lobista da indústria tabagista americana, é provavelmente uma das personagens mais interessantes a surgir na comédia ianque em muito tempo.

Criado pelo escritor Christopher Buckley no livro que deu origem ao filme, Naylor é o vice-presidente da Academia dos Estudos do Tabaco e, como tal, é um aguerrido defensor de seu produto, o que o torna de cara uma persona non grata por uma parcela do Congresso americano, em especial o senador Ortolan Finistirre (William H. Macy, ótimo), que propõe que todo e qualquer maço de cigarro seja vendido com a imagem mundial de veneno (uma caveira com dois ossos cruzados). Sendo constantemente agredido pela patrulha politicamente correta, Naylor ainda precisa lidar com a possibilidade de seu único filho, Joey (Cameron Bright) desprezar seu trabalho. Para evitar isso - e desafiar a ex-mulher - ele resolve então levar o menino em uma viagem a negócios, onde lhe mostrará o outro lado de seu emprego. Nesse meio tempo - que envolve uma viagem a produtores de Hollywood e a um ex-garoto propaganda que está morrendo de câncer de pulmão - ele ainda se envolverá com uma ambiciosa repórter, Heather Holloway (Katie Holmes), cuja maior intenção é fazer com ele uma reportagem pouco amável.



O maior mérito de "Obrigado por fumar" - além da veia cafajeste de Eckhart voltar a aflorar depois do polêmico "Na companhia de homens" - é o roteiro esperto de Reitman, que esbanja sarcasmo e tiradas engraçadíssimas a respeito do american way of life. São particularmente inspirados os diálogos que incluem Naylor e seus melhores amigos - auto-denonimados como os Mercadores da Morte - que representam as indústrias de arma e álcool e ficam disputando quem é o recordista de óbitos no país. A visita do protagonista ao executivo de cinema vivido por Rob Lowe também é hilariante - dando um vislumbre de como são as reuniões que resultam em filmes já originados como bombas - e nem mesmo o que em tese deveria ser levado a sério - a doença do símbolo da masculinidade imposta pelo cigarro (em uma atuação inspirada de Sam Elliott)  - é retratado com sobriedade. E justamente essa coragem em não se deixar contaminar pelo corriqueiro é que eleva o filme de Reitman a um nível superior às comédias que emburrecem o espectador.

No fim das contas, "Obrigado por fumar" é uma comédia das mais inteligentes produzidas no cinema americano em muito tempo. Não arranca gargalhadas histéricas, mas mexe com o cérebro e com a percecpção da audiência a respeito de um assunto que já foi tratado anteriormente com seriedade e contundência no ótimo "O informante". Assistir aos dois na corrida provavelmente seria muito mais útil do que muitos comerciais apelativos transmitidos pela TV.

terça-feira

BATMAN BEGINS

BATMAN BEGINS (Batman begins, 2005, Warner Bros, 140min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, David S. Goyer, estória de David S. Goyer, personagens criadas por Bob Kane. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: James Newton Howard, Hans Zimmer. Figurino: Lindy Hemming. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Paki Smith, Simon Wakefield. Produção executiva: Benjamin Melniker, Michael E. Uslan. Produção: Larry Franco, Charles Roven, Emma Thomas. Elenco: Christian Bale, Katie Holmes, Gary Oldman, Liam Neeson, Morgan Freeman, Michael Caine, Cillian Murphy, Tom Wilkinson, Rutger Hauer, Ken Watanabe, Linus Roache. Estreia: 15/6/05

Indicado ao Oscar de Fotografia

Depois do verdadeiro fiasco de "Batman & Robin", dirigido por Joel Schumacher em 1997 - e que praticamente enterrou as possibilidades do super-heroi - muita gente acreditava que a franquia do homem-morcego (tão rentável nas mãos de Tim Burton) estava acabada de vez. Foi preciso uma recauchutagem geral para que o Cavaleiro das Trevas, criado por Bob Kane nos anos 30 voltasse às boas graças do público e da crítica. Com o criativo e talentoso Christopher Nolan - recém saído do sucesso "Amnésia" e do prestigiado "Insônia" - no comando, "Batman begins" tem a inteligência de ignorar a série cinematográfica lançada em 1989 e partir do princípio da história, das origens do heroi mascarado, que viu seus pais morrerem assassinados quando ainda era uma criança.

Escalar o inglês Christian Bale (lançado por Steven Spielberg em "Império do sol", de 1987) como protagonista foi o acerto primordial de Nolan. Frio nas horas certas e com o físico adequado para o papel, Bale apaga em poucos minutoso trauma deixado por Michael Keaton, Val Kilmer e George Clooney (ainda que este último não tenha sido o responsável pela derrocada da série). Na pele do milionário Bruce Wayne, o jovem ator consegue ser o super-heroi que todos desejavam ver sem apelar para o escapismo tradicional mas bastante fake dos filmes anteriores. Wayne, depois da tragedia que testemunhou, foi embora da mansão de sua família, foi preso, fez um treinamento quase ninja e volta à Gotham City com a missão de salvá-la da sua destruição total pela violência. Contando com a ajuda do Comissário Gordon (um Gary Oldman envelhecido mas ainda brilhante) e da assistente de promotoria que foi sua namorada na infância (a inapropriada Katie Holmes no único erro de escalação do elenco), ele parte para o ataque contra os bandidos que querem transformar sua cidade em ruínas.



Christopher Nolan é um exímio diretor de atores, o que faz toda a diferença na transformação da sombria saga de Batman de um ralo filme de ação em um drama de personagens, mesmo que às vezes eles sejam um tanto superficiais. O romance entre Wayne e sua namorada, por exemplo, nunca empolga (culpa talvez da constante apatia de Katie Holmes). A ideia genial de Batman fazer a sua primeira (e triunfal) aparição somente depois de meia-hora de projeção, no entanto, dá vida nova e inteligente ao roteiro. Michael Caine, Morgan Freeman, Ken Watanabe, Liam Neeson e Tom Wilkinson - todos já indicados ao Oscar - são coadjuvantes de luxo em uma diversão de primeira, que prova que filmes-pipoca podem e devem ser espertos e não tratar o público como crianças. A edição, repleta de idas e voltas - que no começo até atrapalham um pouco - também ajuda o filme a fugir do óbvio, e a bela fotografia de Wally Pfister (dona de sua única indicação ao Oscar) dá o tom exato da bela obra de Nolan.

"Batman begins" pode não ter rendido tanto dinheiro quanto os primeiros filmes do heroi, mas arrebanhou prestígio suficiente para dar o pontapé inicial em uma nova e bem-sucedida série e preparar a audiência para
seu extraordinário segundo capítulo, "Batman, o cavaleiro das trevas", que deixaria o mundo de queixo caído.

POR UM FIO

POR UM FIO (Phone booth, 2002, Fox 2000 Pictures, 81min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Larry Cohen. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Mark Stevens. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Andrew Laws/Don Diers. Produção executiva: Ted Kurdyla. Produção: Gil Netter, David Zucker. Elenco: Colin Farrell, Forest Whitaker, Katie Holmes, Rhada Mitchell, Kiefer Sutherland. Estreia: 10/9/02 (Festival de Toronto)

Em 2001, Joel Schumacher deu ao ator irlandês Colin Farrell sua primeira grande chance no cinema, escolhendo-o para ser o protagonista de "Tigerland, a caminho da guerra", que agradou aos críticos mas foi ignorado pelo público (boa parte devido a sua péssima distribuição nos cinemas americanos). Um ano depois, Farrell retribuiu o favor, estrelando uma produção barata (13 milhões de dólares) dirigida por Schumacher que tornou-se um sucesso inesperado. Depois de ter seu lançamento adiado nos EUA por cinco meses (estreou no Festival de Toronto em setembro de 2002 e só chegou às salas ianques em abril de 2003), "Por um fio" arrecadou quase cem milhões só no mercado americano e, em se tratando de uma obra de Joel Schumacher surpreendeu também por ter uma consistência rara.

Filmado em apenas duas semanas - e em ordem cronológica - "Por um fio" é um one man-show de Farrell, que carrega nas costas todo o suspense e o drama da história criada por Larry Cohen, também autor do roteiro de "Celular", estrelado por Kim Basinger e Chris Evans pouco tempo depois. Substituindo Jim Carrey, Mel Gibson e Will Smith (todos interessados no papel), o jovem ator mostra uma segurança ímpar na pele de Stuart Shepard, um divulgador de entretenimento que mora em Nova York com a esposa Kelly (Radha Mitchell) e que vive de humilhar o assistente, de passar a perna nos clientes e tentar se dar bem sem fazer muito esforço. Sua arrogância e egocentrismo não lhe bastam, porém, quando ele acaba caindo em uma armadilha inesperada: depois de falar com a aspirante a atriz Pam (Katie Holmes) - que ele quer levar para a cama o mais rápido possível com promessas de conseguir-lhe uma chance no cinema - de uma cabine telefônica ele atende o telefone e acaba sendo feito de refém por um misterioso atirador que sabe tudo de sua vida e ameaça matá-lo ou à sua mulher se ele desligar. O que parecia uma brincadeira de péssimo gosto vira um pesadelo quando o atirador (com a voz de Kiefer Sutherland) mata um gigolô na frente de testemunhas e Stu torna-se o principal suspeito do crime. Quando a mídia chega ao local, juntamente com o Capitão Ed Ramey (o sempre competente Forest Whitaker), o circo está armado.



Contado em enxutos 81 minutos - o que elimina cenas supérfluas e dá ao filme um ritmo extremamente ágil mas nunca apressado - "Por um fio" mais uma vez mostra que Joel Schumacher se dá muito melhor quando é menos ambicioso. Assim como em "Tigerland" (que também contava com a mesma equipe técnica), ele foca sua atenção no desempenho dos atores e não em mirabolantes pirotecnias ou marketing excessivo."Por um fio" é tenso na medida certa e surpreende a audiência com uma história que foge do previsível sempre que pode - o que em termos de filme de suspense é um ingrediente cada vez mais difícil de encontrar. O duelo entre Farrell e Sutherland (cuja voz foi acrescentada na pós-produção) é empolgante e muito dessa eletricidade vem do trabalho impecável de Colin, cujo personagem passa da arrogância e da auto-confiança ao desespero e ao medo em um piscar de olhos, sem que seja necessário muito mais do que puro e simples talento.

"Por um fio" não mudou a história do cinema e provavelmente com um ator menos capaz que Farrel seria apenas mais um filme a ser reprisado nas sessões noturnas da TV aberta. Mas graças à força que o ator imprime em sua atuação torna-se um produto acima da média em seu gênero.

quarta-feira

O DOM DA PREMONIÇÃO

O DOM DA PREMONIÇÃO (The gift, 2000, Paramount Classics, 112min) Direção: Sam Raimi. Roteiro: Billy Bob Thornton, Tom Epperson. Fotografia: Jamie Anderson. Montagem: Arthur Coburn, Bob Murawski. Música: Christopher Young. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Marthe Pineau. Produção executiva: Sean Daniel, Gregory Goodman, Ted Tannebaum, Rob Talpert. Produção: James Jacks, Gary Lucchesi, Tom Rosenberg. Elenco: Cate Blanchett, Greg Kinnear, Katie Holmes, Giovanni Ribisi, Keanu Reeves, Hilary Swank, J. K. Simmons, Rosemary Harris, Michael Jeter, Kim Dickens. Estreia: 22/12/00

Certas atrizes têm o dom de transformar o que poderia ser apenas um produto rotineiro de entretenimento em algo acima da média. Uma dessas atrizes é Cate Blanchett. Mesmo em papéis ingratos em filmes menores, a australiana consegue sobressair-se incólume e em alguns casos até mesmo salva produções que sem ela mal seriam lembradas pela maioria dos espectadores. É o caso de “O dom da premonição”, um suspense interessante e bem realizado, mas que, sem sua presença luminosa, seria apenas mais um exemplar de um gênero pouco dado a apresentar obras-primas

À frente de um elenco de astros de grandezas variadas – a oscarizada Hilary Swank em um papel inadequado, o péssimo Keanu Reeves surpreendendo positivamente, o desajeitado Giovanni Ribisi com um personagem carismático, a jovem Katie Holmes em papel ousado e diferente do que fez até então e o simpático canastrão Greg Kinnear tentando dar veracidade a um personagem ingrato – Blanchett sobressai-se sem precisar de muito esforço. No filme de Sam Raimi – às vésperas de encarar sua primeira grande super produção, o blockbuster “Homem-aranha” – ela vive Annie Wilson, uma dona-de-casa, viúva e mãe de três filhos que complementa a renda familiar dando consultas como vidente em uma pequena cidade pantanosa do interior dos EUA. Ajudando seus vizinhos e amigos, principalmente o traumatizado mecânico Buddy (Giovanni Ribisi), ela ainda sofre ameaças de Donnie Barksdeale, um violento marido de uma cliente, Valerie (vividos por Keanu Reeves e Hilary Swank). Sua vida sofre uma reviravolta quando uma jovem da alta classe da cidade, Jessica King (a sempre insossa Katie Holmes) desaparece misteriosamente. Procurada por Wayne Collins, o noivo da moça (papel de Greg Kinnear), que é o diretor da escola onde estudam seus filhos, Annie não consegue negar ajuda, mas acaba colocando sua própria vida em risco.



Co-escrito pelo ator Billy Bob Thornton, o roteiro do filme de Raimi não apresenta grandes novidades, principalmente aos aficcionados do gênero. Nem mesmo a surpresa final chega a ser impactante, apesar do final reservado à personagem de Giovanni Ribisi chegar a ser interessante e emocionante. No entanto, graças à direção criativa de Raimi, que tenta fugir sempre que possível do previsível – apesar de nem sempre conseguir -, ao trabalho superlativo de Blanchett e à trilha sonora de Christopher Young, mantém a atenção até o minuto final, o que não pode ser dito de todos seus congêneres.

segunda-feira

GAROTOS INCRÍVEIS

GAROTOS INCRÍVEIS (Wonder boys, 2000, Paramount Pictures, 107min) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Steve Kloves, romance de Michael Chabon. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Dede Allen. Música: Christopher Young. Figurino: Beatrix Aruna-Pasztor. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Jay R. Hart. Produção executiva: Ned Dowd, Adam Schroeder. Produção: Curtis Hanson, Scott Rudin. Elenco: Michael Douglas, Tobey Maguire, Robert Downey Jr., Frances McDormand, Katie Holmes, Rip Torn, Jane Adams, Philip Bosco. Estreia: 25/02/00

3 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Montagem, Canção ("Things have changed")
Vencedor do Oscar de Melhor Canção Original ("Things have changed")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção Original ("Things have changed")

O termo "wonder boy" do título original é derivativo da palavra alemã "wunderkind", que se refere a determinada pessoa que atinge grande sucesso profissional ou artístico com pouca idade. No primeiro filme de Curtis Hanson após o assombro que foi "Los Angeles, cidade proibida", quem merece o adjetivo é o jovem James Leer (Tobey Maguire), um estudante de literatura com grande talento para a escrita e que acaba sendo o alvo da proteção de seu professor, um antigo "wonder boy" chamado Grady Tripp (Michael Douglas). Autor de um célebre romance, Tripp não consegue terminar seu novo livro (que já tem mais de duas mil páginas) e está passando por uma séria crise pessoal: abandonado pela esposa, ele descobre que a amante Sara (Frances McDormand) - a esposa do reitor - está grávida e ainda tem que se esquivar do assédio de uma aluna, a ambiciosa Hannah Green (Katie Holmes) e da estranha amizade com seu editor, o excêntrico Terry Crabtree (Robert Downey Jr), que se encanta pela delicadeza e pela sensibilidade de James, que cai em lágrimas sentidas em momentos absurdos e tem séria tendência em mentir.


Baseado em um romance de Michael Chabon, "Garotos incríveis" estreou nos EUA em fevereiro de 2000 e caiu nas graças da crítica, em especial a atuação excepcional de Michael Douglas, comprovando seu talento em escolher bons filmes e bons papéis. O fracasso de bilheteria, no entanto, desanimou a Paramount Pictures (que distribuiu o filme), que esperava que a assinatura de Curtis Hanson e o elenco fabuloso - dois vencedores do Oscar, dois jovens em ascensão e um rebelde sem causa carismático - fossem o suficiente para atrair o público. Mesmo assim, no final do ano, o filme voltou às salas de cinema com o objetivo de chamar a atenção para suas qualidades e, quem sabe, conquistar algumas indicações ao Oscar. Funcionou em termos. Com 3 indicações ao prêmio da Academia - incluindo roteiro adaptado - "Garotos incríveis" não atingiu suas expectativas comerciais nem tampouco tornou-se campeão de prêmios. Uma pena. O filme é uma deliciosa comédia dramática com uma inteligência rara no mercado do gênero.



"Garotos incríveis" é uma comédia sem gargalhadas. O humor de Chabon - mantido intacto pelo roteiro de Steve Kloves - é pura ironia, pura delicadeza. É um humor de sorrisos, de assombro. É um humor elegante, sofisticado. E encontrou em Curtis Hanson seu diretor perfeito. Sem utilizar-se de subterfúgios vulgares, Hanson fez de seu filme - o primeiro que assina com o status de "grande diretor" e não apenas "um cineasta competente" - uma homenagem aos gênios incompreendidos, às almas excêntricas, ao surreal que existe no dia-a-dia. "Garotos incríveis" utiliza-se de tramas bizarras e elementos estranhos para contar uma história simples, quase corriqueira. E é essa mistura do comum com o extravagante - uma de suas melhores qualidades - que talvez tenha confundido o público médio.

O roteiro de Kloves - que escreveu as adaptações da série "Harry Potter" para o cinema - mantém a estrutura do livro de Chabon, autor premiado com o Pulitzer em 2001. Toda a trama se passa em 24 horas, com exceção do epílogo, e o público acompanha a trajetória imprevisível de seu protagonista (em uma interpretação antológica de Michael Douglas), que, sem imaginar, se vê em meio a uma confusão que envolve um cachorro morto a tiros, o casaco que Marilyn Monroe utilizou em seu casamento com Joe DiMaggio, seu inacabado romance, as mentiras de James Leer - que jogam o rapaz nos braços do ambicioso Terry - e um gângster violento. Grady Tripp é mais do que um protagonista, ele é também a testemunha das transformações nas vidas das pessoas que o rodeiam, mudanças essas descritas também na canção-tema de Bob Dylan, vencedora do Oscar. Assim como o público, ele acompanha perplexo os acontecimentos, enquanto tenta resolver a confusão que é sua própria existência.

"Garotos incríveis" não é uma comédia tradicional. É pouco provável que agrade aos fãs de humor visual ou de piadas vulgares. Tampouco é um drama no sentido convencional, uma vez que não apresenta momentos lacrimosos ou tragédias pessoais. Mas é um belo filme, realizado com extrema competência e que tem em seu particular jeito de contar uma história a maior de suas qualidades. Merece ser descoberto!

quarta-feira

VAMOS NESSA


VAMOS NESSA (Go, 1999, Columbia Pictures, 102min) Direção: Doug Liman. Roteiro: John August. Fotografia: Doug Liman. Montagem: Stephen Mirrione. Música: BT. Figurino: Genevieve Tyrrell. Direção de arte/cenários: Thomas P. Wilkins/Fontaine Beauchamp Hebb. Produção: Matt Freeman, Mickey Liddell, Paul Rosenberg. Elenco: Sarah Polley, Katie Holmes, Scott Wolf, Jay Mohr, Timothy Olyphant, Desmond Askew, William Fichtner, Jane Krakowski, Taye Diggs, Breckin Meyer, J.E. Freeman. Estreia: 09/4/99

Nada como um filme despretensioso para provar aos descrentes que ainda existe criatividade e energia no mundo hollywoodiano. Feito com parcos 6 milhões e meio de dólares, a comédia “Vamos nessa” é a perfeita prova de que é possível contar uma história com poucos recursos desde que a receita inclua inteligência e talento. Além de tudo, comprova que o sucesso de crítica que o diretor Doug Liman obteve com seu primeiro filme, “Swingers, curtindo a noite” não era apenas sorte de principiante.

“Vamos nessa” é composto de várias histórias que se interligam, a exemplo de inúmeros outros filmes que exploraram o formato. No entanto, ao invés de utilizar a fórmula perigosamente corriqueira como subterfúgio para esconder um roteiro sem consistência, a maneira com que as tramas se desenrolam se completam, como um quebra-cabeças bem-humorado e descolado, contado com ritmo próprio, bom-humor e uma energia contagiante.

        

A trama de “Vamos nessa” se desenrola às vésperas de Natal, quando o inglês Simon (o ótimo estreante Desmond Askew) resolve aproveitar uma oportunidade única e viajar para Las Vegas com um grupo de amigos. Enquanto ele passa por poucas e boas na capital mundial do jogo, nem imagina a confusão que deixou para trás. Sua colega de trabalho, a jovem Ronna (a revelação de “O doce amanhã” Sarah Polley), à beira de uma ação de despejo, aceita vender êcstase para um casal de atores, Zack e Adam (Scott Wolf e Jay Mohr), mas ao descobrir que tudo é uma armadilha armada por um policial muito suspeito (William Fichtner) dá fim à mercadoria. Fazendo isso, ela passa a perna em Todd Gaines (Timothy Olyphant), um traficante pouco afeito a amizades por quem sua melhor amiga Claire (Katie Holmes) sente uma mal-disfarçada atração. Entrando na lista negra do jovem, ela acaba indo parar em uma rave, para onde vários conflitos irão confluir e até mesmo a desgastada relação entre os astros de TV irá se resolver.

O que é melhor, em "Vamos nessa" é sua sinceridade em dialogar com seu público-alvo. É evidente que não existe a intenção de ser denso ou dramaticamente relevante, é apenas uma história contada de maneira a jamais deixar o ritmo cair e, nesse quesito, é memorável. Todas as subtramas são interessantes e repletas de referências pop (a citação a "Barrados no baile" quase passa despercebida, inclusive) e piadas inteligentes, e não sobra nenhum laço solto em seu produto final, nada é esquecido pelo roteirista John August (nem ao menos aquelas personagens que nem mesmo o público lembrava...)  Recheado de delicios diálogos e uma agilidade a toda prova, "Vamos nessa" ainda conquista por sua modernidade nata. Nada no filme, nem o roteiro, nem a edição nem muito menos o elenco - repleto de nomes promissores - parecem forçados e/ou equivocados. Até mesmo Katie Holmes está relativamente bem, ainda que repita os trejeitos de sua personahem mais conhecida, a chatinha Joey Potter da série "Dawson's Creek" e a química entre Jay Mohr e Scott Wolf é impagável. No entanto, é o inglês Desmond Askew quem mais se destaca, na pele do alucinado Simon, dono de algumas das melhores cenas do filme.

E a trilha sonora, aliás, é quase uma personagem à parte: cumpre seu papel com louvor, comentando a ação sem interferir exageradamente nela. De techno a pop - passando por "Macarena" em uma cena bizarra e uma canção inédita da banda No Doubt) - a lista de canções é das mais variadas e enche os ouvidos da plateia, feliz em ser tratada com uma boa dose de humor esperto e descolado. Quando acabam as aventuras do grupo de jovens retratados por August, fica a sensação de que Doug Liman estava no caminho certo em sua habilidade de contar histórias rápidas. Seu filme é o programa perfeito para um sábado à noite antes de uma balada.

sexta-feira

TEMPESTADE DE GELO

TEMPESTADE DE GELO (The ice storm, 1997, Fox Searchlights Pictures, 112min) Direção: Ang Lee. Roteiro: James Schamus, romance de Rick Moody. Fotografia: Frederick Elmes. Montagem: Tim Squyres. Música: Mychael Danna. Figurino: Carol Oditz. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Stephanie Carroll. Produção: Ted Hope, Ang Lee, James Schamus. Elenco: Kevin Kline, Joan Allen, Sigourney Weaver, Tobey Maguire, Christina Ricci, Elijah Wood, Adam Hann-Byrd, Jamey Sheridan, Henry Czerny, Allison Janey, Katie Holmes. Estreia: 27/9/97

Vencedor de Melhor Roteiro no Festival de Cannes

Em 1995, o taiwanês Ang Lee surpreendeu a crítica ao fazer de "Razão e sensibilidade" a melhor adaptação para o cinema de um livro da escritora absolutamente inglesa Jane Austen. Em "Tempestade de gelo", seu projeto seguinte, ele continua a missão de penetrar em culturas diferentes da sua: é difícil acreditar em um filme tão tipicamente americano quanto sua brilhante visão do romance de Rick Moody. Mergulhando sem medo no âmago de duas famílias do interior do país em plena efervescência cultural e sexual dos anos 70, Lee entrega ao público um estudo delicado e cortante sobre as relações familiares. É triste e melancólico, mas é também mais uma obra-prima com sua assinatura.

É véspera do dia de Ação de Graças de 1973. O escândalo Watergate está no auge e os costumes sexuais e comportamentais estão em ebulição, mesmo em uma pequena cidade do interior de Connecticut chama Nova Canaan. É para lá que Paul Hood (Tobey Maguire) está retornando, para passar o feriado com a família. Seus pais, Ben (Kevin Kline) e Elena (Joan Allen) estão passando por uma crise no casamento, agravada pelo tédio e pelo caso secreto dele com Janey Carver (Sigourney Weaver), uma amiga do casal. A irmã de Paul, Wendy (Christina Ricci), por sua vez, experimenta o início de sua sexualidade brincando com os dois filhos de Janey, o tímido Mikey (Elijah Wood) e o desajeitado Sandy (Adam Hann-Byrd). Apesar da proximidade física, porém, existe um enorme distanciamento emocional entre todos eles.

A frieza nas relações interpessoais que Rick Moody criou em seu livro - e que foi retratada com perfeição pelo roteiro de James Schamus - encontra na inteligência e na sutileza de Ang Lee seu diretor ideal. Pródigo em dar tintas leves e discretas a dramas particulares, Lee conta a história das famílias Hood e Carver sem pressa, dando atenção a pequenos detalhes, como olhares tristes, suspiros disfarçados e atos desesperados. Os silêncios entre Elena e Ben dizem muito mais sobre os escombros de seu casamento do que as escapadas sexuais que ele dá com Jayne, uma mulher insatisfeita com a própria vida e que vê no seu caso extra-conjugal uma forma de escapar da monotonia. Jayne mal presta atenção nos filhos, que por sua vez não são capazes nem ao menos de perceber que seu pai saiu em viagem. Wendy é uma jovem um tanto desajustada, com forte visão política mas que é incapaz de lidar saudavelmente com seus instintos. E Paul, como alguém à parte de seu núcleo familiar, busca seu lugar no mundo sem sequer desconfiar do caos que reina em sua casa.



O gelo é uma imagem recorrente no filme de Lee. Volta e meia cubos de gelo invadem a tela, seja nas cozinhas suburbanas das personagens, no formato da casa de Jayne e principalmente na tempestade que dá nome ao filme e que origina uma tragédia que transforma definitivamente a vida de todos. A falta de calor humano entre maridos e mulheres e entre pais e filhos é o ponto central de "Tempestade de gelo", mas sua maior qualidade é justamente evitar cenas lacrimosas ou diálogos clichês. Como já dito, os silêncios na mesa dos Hood ou no relacionamento entre os Carver são mais eloquentes do que catarses emocionais repletas de choro e gritos. E é brilhante, dentro desse universo de coisas não ditas, a cena em que Ben carrega a filha Wendy nos braços, depois de flagrá-la em uma situação comprometedora com Mikey. Mesmo sem muitas falas, Kevin Kline e Christina Ricci transmitem toda a vastidão de sentimentos que a cena exige. Emocionar-se é mandatório!

Aliás, o elenco de "Tempestade de gelo" é dos melhores que Hollywood pode oferecer. Kevin Kline e Joan Allen estão fabulosos como um casal cuja falta de emoção os empurra em direção ao afastamento gradual. Sigourney Weaver, linda e sexy, tem sua melhor atuação como uma enfastiada esposa de classe média que busca em aventuras sexuais um motivo para passar seus dias iguais. E Christina Ricci demonstra que seu talento não ficou restrito às comédias que fez na infância, construindo uma Wendy que lida com sua sexualidade nascente de forma quieta mas agressiva. Somadas à fotografia - também gélida, de Frederick Elmes - e à trilha sonora poderosa de Mychael Danna, as interpretações do elenco elevam "Tempestade de gelo" a um patamar muito acima do corriqueiro. É um filme americano, que atinge a essência das famílias americanas e dos problemas americanos... mas tem cara e qualidade de cinema europeu. Simplesmente ignorado pelo Oscar e outras premiações menos conhecidas, é um filme extraordinariamente forte e emocionante, que merece ser descoberto e louvado.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...