Mostrando postagens com marcador DANNY BOYLE. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador DANNY BOYLE. Mostrar todas as postagens

sábado

EM TRANSE

EM TRANSE (Trance, 2013, 20th Century Fox, 101min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: John Hodge, Joe Ahearne, estória de Joe Ahearne. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Jon Harris. Música: Rick Smith. Figurino: Suttirat Larlab. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Dominic Capon. Produção executiva: Bernard Bellew, François Ivernel, Cameron McCracken, Steven Rales, Tessa Ross, Mark Royball. Produção: Christian Colson. Elenco: James McAvoy, Rosario Dawson, Vincent Cassell, Danny Sapani, Matt Cross. Estreia: 19/3/13

Quem esperava que Danny Boyle fosse escolher um projeto ambicioso logo após a chuva de Oscar de "Quem quer ser um milionário?" (2008) e dos elogios rasgados ao angustiante "127 horas" (2010) levou um susto quando o cineasta escocês lançou "Em transe". Barato - custou apenas 20 milhões de dólares, o que costuma ser o cachê de astros como Julia Roberts e Tom Cruise - e sem o apelo de um livro conhecido ou atores com apelo de arrastar multidões aos cinemas, "Em transe" passou quase em brancas nuvens pelos cinemas americanos e só conseguiu se pagar com a bilheteria do mercado internacional, que comprou com mais entusiasmo a complexa e intrigante trama de suspense urdida pelo diretor a partir de um roteiro de seu habitual colaborador John Hodge (indicado ao Oscar por "Trainspotting:sem limites") e Joe Ahearne. Um filme inteligente e que mergulha o espectador em um universo repleto de meias-verdades e pistas falsas, "Em transe" faz parte do seleto grupo de produções que se divertem em enganar a plateia ao conduzí-la por um caminho específico apenas para, em seu desfecho, revelar uma trama completamente diferente (e igualmente excitante).

Tudo começa como mais um "filme de roubo": em um leilão de obras de arte em um conceituado salão londrino, um grupo de homens armados e liderados pelo ameaçador Franck (Vincent Cassel herdando o papel de Michael Fassbender) tenta se apossar de um raro e famoso quadro de Goya, mas é impedido por um dos leiloeiros, o jovem Simon Newton (James McAvoy), que acaba atingido por uma forte pancada na cabeça que o deixa em coma. Percebendo que o rapaz escondeu a pintura em algum lugar desconhecido, o criminoso o espera deixar o hospital para obrigá-lo a revelar a localização da obra: o problema é que Simon não lembra de nada do que aconteceu no dia do assalto e, para salvar sua pele, concorda em tentar lembrar dos detalhes do caso através de hipnose. É assim que ele chega até Elizabeth Lamb (Rosario Dawson), especialista em ajudar pacientes a superar traumas e recuperar memórias perdidas. Quando médica e paciente se envolvem romanticamente, porém, as coisas saem do controle, e nada mais parece correr conforme o esperado.


Emoldurada pela fotografia instigante de Anthony Dod Mantle, que ajuda a confundir o público com suas elegantes distorções, a trama rocambolesca de "Em transe" viaja através de flashbacks que tanto podem ser verdadeiros quanto falsos, por lembranças escondidas ou plantadas, por relacionamentos sinceros ou interesseiros. A ambiguidade do roteiro - que ousa também por criar um herói falível, de caráter duvidoso e atitudes pouco exemplares - se estende também à criatividade da direção de Boyle, que simplesmente impede o espectador de antecipar as reviravoltas da história ou descobrir, antes dos minutos finais, quem realmente está do lado de quem. Para isso também contribui, e muito, a excelência de seu elenco: Vincent Cassel é insuperável na pele de tipos marginais e perigosos, e Rosario Dawson segura bem a oportunidade de ficar com um papel para o qual foram cotadas Scarlett Johansson, Eva Green e Zoe Saldana, uma mistura de inteligência e sensualidade que serve magistralmente à personagem. Mas é James McAvoy, com seu misto de pureza e coragem, o grande achado do filme.

Um dos atores mais talentosos de sua geração, McAvoy está perfeito como Simon Newton, um personagem que, apesar de servir como os olhos da plateia em uma narrativa recheada de surpresas e reviravoltas, também se permite cair em armadilhas e manipular as regras do jogo, quando necessário. Essa ambiguidade moral - que pode mostrar-se um defeito ou uma qualidade, conforme a trama vai se desenrolando - só é completamente verossímil e aceitável porque o ator transmite, em cada cena, uma variedade de sentimentos e emoções de que somente os grandes intérpretes são capazes. Revelado em dramas densos e potentes, como "O último rei da Escócia" (2006) e "Desejo e reparação" (2007) e posteriormente se provando capaz de sair-se muito bem em produções com intenções bem mais comerciais, a exemplo de "O procurado" (2008) e "X-Men: Primeira Classe" (2011), McAvoy é o protagonista ideal para um filme que equilibra com tanta propriedade a seriedade de um suspense e toques de puro escapismo de uma produção de ação como "Em transe". É ele, com seus angustiados olhos azuis, a alma de uma pequena pérola que merece ser descoberta pelos fãs do gênero - e que confirma Danny Boyle como um diretor nem um pouco disposto a deitar sobre as próprias láureas.

domingo

127 HORAS

127 HORAS (127 hours, 2010, Fox Searchlight Pictures, 94min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: Danny Boyle, Simon Beaufoy, livro "Between a rock and a hard place", de Aron Rolston. Fotografia: Enrique Chediak, Anthony Dod Mantle. Montagem: Jon Harris. Música: A.R. Rahman. Figurino: Suttirat Larlarb. Direção de arte/cenários: Suttiral Larlarb/Les M. Boothe. Produção executiva: Bernard Bellew, Lisa Maria Falcone, François Ivernel, John J. Kelly, Cameron McCracken, Tessa Ross. Produção: Danny Boyle, Christian Colson, John Smithson. Elenco: James Franco, Kate Mara, Amber Tamblyn, Treat Williams, Kate Burton. Estreia: 04/9/10 (Festival de Telluride)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (James Franco), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("If I rise")

É preciso dizer, antes de mais nada, que todas as notícias que reportam desmaios, ataques epiléticos e afins durante a cena climática do filme "127 horas" soam a golpe de marketing. Por mais gráfica que seja a sequência - filmada em apenas um take - ela não é mais chocante do que inúmeros momentos de filmes como a série "Jogos mortais". O grande diferencial aqui é que, ao contrário dos sanguinolentos produtos carniceiros que lotam salas de cinema pelo mundo afora, a plateia se importa com o protagonista. Vivido com intensidade por James Franco, o corajoso, apaixonado pela vida e carismático Aron Rolston conquista a audiência já em sua primeira aparição na tela. E é isso que faz toda a diferença e transforma o filme de Danny Boyle em uma experiência tão assustadora quanto emocionante.

Indicado a 6 Oscar - inclusive melhor filme, que perdeu para o insosso "O discurso do rei" - "127 horas" é um programa proibido a claustrofóbicos. Ainda que o roteiro de Boyle e Simon Beaufoy - a mesma dupla oscarizada de "Quem quer ser um milionário?" - seja ágil o bastante para não aborrecer o espectador menos paciente, a maioria absoluta do filme se passa em um único cenário, exíguo e sufocante. Felizmente a edição e a interpretação de Franco conseguem reverter o que poderia ser um cansativo exercício de vaidade de seu diretor em um filmaço de grudar na poltrona. Criativo como nos melhores tempos de "Trainspotting", Danny Boyle comprova que seu Oscar de dois anos antes não foi mero golpe de sorte.


A história de "127 horas" é conhecida e o fato de ter virado filme apenas aumentou sua popularidade. Pra quem não sabe, é a história de Aron Rolston, um rapaz saudável e inteligente que tem como hobby escalar montanhas nos canyons americanos e curtir a natureza descobrindo paraísos escondidos. Em uma de suas viagens, um acidente acontece e ele se vê com o braço direito preso por uma rocha. Depois de passar cinco dias sem conseguir sair do lugar e sem comida e bebida - onde revê momentos importantes de sua vida, tem alucinações e é obrigado a beber a própria urina - ele só se salva quando amputa parte do braço.

Apesar de contar uma história barra-pesada, "127 horas" tem a seu favor um senso de humor muito bem-vindo e um ritmo que jamais cai. Tecnicamente perfeito, é uma história forte, que versa sobre a força do ser humano quando é obrigado a lidar com adversidades. Mas certamente não seria tão bom se não contasse com James Franco como protagonista. Sua indicação ao Oscar foi mais do que merecida - e uma vitória não teria sido injusta: o até então desacreditado galã apresenta um trabalho irretocável, comprovando um talento com o qual acenava no mínimo desde sua atuação em "Milk". Alternando momentos de puro desespero com um humor inesperado e uma tristeza profunda (junto com uma arraigada esperança), Franco carimba gloriosamente seu passaporte rumo ao lugar reservado aos grandes atores.

E quanto à tão falada cena da amputação? Sim, é forte. Sim, é realista. E não, não é supérflua nem tampouco gratuita. É um clímax apropriado filmado com segurança e sem nenhum traço de sadismo. Mantenha os olhos abertos se conseguir, mas não assista o filme apenas por essa cena. "127 horas" tem muitas outras qualidades que merecem sua atenção.

terça-feira

QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?


QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO? (Slumdog millionaire, 2008, Fox Searchlight Pictures, 120min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: Simon Beaufoy, romance "Q & A", de Vikas Swarup. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Chris Dickens. Música: A.R. Rahman. Figurino: Suttirat Anne Larlarb. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: Tessa Ross, Paul Smith. Produção: Christian Colson. Elenco: Dev Patel, Frieda Pinto, Anil Kapoor. Estreia: 30/8/08 (Festival de Teluride)

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Danny Boyle), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("Jai Ho", "O Saya"), Mixagem de Som, Edição de Som
Vencedor de 8 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Danny Boyle), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("Jai Ho"), Mixagem de Som
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Drama, Diretor (Danny Boyle), Roteiro, Trilha Sonora Original 

Às vezes é bastante difícil entender o que se passa pelas cabeças dos membros da Academia de Hollywood. Frequentemente acusada de premiar obras menores – leia-se filmes que não ameacem o status quo ou provoquem polêmicas – ela, vez ou outra, acaba surpreendendo com suas escolhas. Foi o que aconteceu na cerimônia do Oscar 2009. Enquanto o belo “O curioso caso de Benjamin Button” aparecia como grande favorito, com 13 indicações, um azarão foi, aos poucos, ganhando a preferência dos eleitores. Dirigido por um escocês, filmado na Índia e estrelado por atores locais desconhecidos do grande público ocidental, “Quem quer ser um milionário?” chegou de mansinho e abocanhou oito Oscar – incluindo as cobiçadas estatuetas de melhor filme, diretor e roteiro adaptado – deixando pra trás seu ambicioso, caro e espetacularmente hollywoodiano concorrente estrelado por Brad Pitt. Mas por que será que a saga do jovem Jamal comoveu tanto a Academia a ponto de transpor a barreira da cultura, da língua (20% do filme é falado em hindi, o idioma oficial da Índia) e dos próprios produtores que chegaram a cogitar a hipótese de lançar o filme diretamente em dvd?

Em primeiro lugar é preciso que se saiba que o diretor responsável por essa ousadia comercial é o escocês Danny Boyle, que começou sua carreira da melhor forma possível, com os sucessos “Cova rasa” e “Trainspotting, sem limites” e depois foi perdendo a mão em fracassos críticos e comerciais como “Por uma vida menos ordinária” e “A praia” – no qual trocou seu tradicional protagonista Ewan McGregor pelo hypado Leonardo DiCaprio e deu com os burros n’água – literalmente. Exímio contador de histórias (fato que já não era tão óbvio graças a seus filmes menos felizes), Boyle encontrou no romance de Vikas Swarup, “Q&A”, o material perfeito para que ele pudesse utilizar sua criatividade sem a pressão de um grande estúdio (o filme foi financiado pelo braço independente da Warner) e, melhor ainda, explorar artisticamente uma cultura riquíssima e pouco conhecida pelos frequentadores de cinema que lotam as salas para ver atrocidades como “Transformers”. Livre das amarras que um grande orçamento e grandes astros fatalmente trariam, o cineasta voltou à sua melhor forma e, se não criou um legítimo filme como aqueles que a indústria indiana de cinema, a Bollywood – capaz de lançar centenas de filmes por ano, sempre seguindo a mesma e bem-sucedida fórmula – ao menos fez uma bela e competentíssima homenagem.


A história imaginada por Swarup sofreu consideráveis alterações em seu caminho para as telas graças à imaginação do roteirista inglês Simon Beaufoy, que mudou o nome do protagonista, sua trajetória e incluiu na trama uma história de amor bastante diferente da contada no livro. Aqueles que leram o livro e esperam fidelidade de sua adaptação cinematográficas devem ter espumado de raiva, mas o fato é que, da maneira como é contado por Beaufoy e Danny Boyle, “Quem quer ser um milionário?” consegue a proeza de ser engraçada, romântica e comovente – e também mostrar uma chocante  realidade de diferenças sociais que não difere muito do Brasil.

E qual é essa história que tanto agradou à Academia? Bem, quando o filme começa, o jovem Jamal (interpretado por Dev Patel, que depois chegou a trabalhar em Hollywood, no filme “O excêntrico Hotel Marigold”) está sendo brutalmente espancado e torturado em um escritório. Ele está a um passo de tornar-se milionário ao responder corretamente as perguntas de um programa de tv chamado justamente “Quem quer ser um milionário?” e seus algozes, não acreditando que um rapaz com pouco estudo e de uma classe social tão baixa possa estar chegando tão perto do grande prêmio de um milhão de rúpias. A partir daí, Jamal passa a recordar toda a sua vida, desde a infância passada nas favelas até o momento em que chegou ao programa de tv – dando especial importância a seu relacionamento amoroso com a bela Latika (Frieda Pinto, também roubada por Hollywood, onde fez “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos”, de Woody Allen), que, afinal de contas, é a principal razão pela qual ele está passando por tantos apuros.

Utilizando a narrativa fora de ordem cronológica como uma ferramenta a mais para contar sua história e não como simples artifício de cineastas ansiosos por demonstrar seu talento e criatividade, Boyle embaralha suas cartas de maneira a prender a atenção do espectador até a sequência final – talvez a maior influência do cinema de Bollywood em seu filme – que encerra uma história de amor e superação com um contagiante bom-humor. Não foi à toa que “Quem quer ser um milionário?” seduziu o mundo todo. Com seu perfeito equilíbrio entre ousadia e uma história que (apesar da diferença geográfica) faz sentido em qualquer parte do mundo, é um filme que mostra que nem só de super-produções vive a Academia de Hollywood. O único senão disso tudo é que o extraordinário “O curioso caso de Benjamin Button” teve que contentar-se com apenas 3 Oscar técnicos. Coisas da vida!

quinta-feira

COVA RASA

COVA RASA (Shallow grave, 1994, Channel Four Films, 92min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: John Hodge. Fotografia: Brian Tufano. Montagem: Masahiro Irakubo. Música: Simon Boswell. Figurino: Kate Carin. Direção de arte/cenários: Kave Quinn/Karen Wakefield. Produção executiva: Alan Scott. Produção: Andrew MacDonald. Elenco: Ewan McGregor, Kerry Fox, Christopher Eccleston. Estreia: 22/11/94 (Austrália)

O time que deu ao cinema dos anos 90 um de seus filmes icônicos - o já clássico "Trainspotting, sem limites" - já demonstrava, em seu primeiro trabalho como grupo, o peculiar gosto pelo humor negro e pelo virtuosismo visual. "Cova rasa" é um suspense repleto de diálogos afiados que apresentou ao mundo o diretor Danny Boyle, o roteirista John Hodge e o ator Ewan McGregor. Juntos, eles ainda fariam - além da citada adaptação do romance de Irvine Welsh - a bizarra comédia romântica "Por uma vida menos ordinária", com menos sucesso e menos verve. Em seu primeiro filme, Boyle já deixa claro seu talento em louvar o anti-herói, aqui representado por três amigos divididos pela ganância que tem a sua vida transformada por um acontecimento fortuito e macabro.


Alex (Ewan McGregor), Juliet (Kerry Fox) e David (Christopher Eccleston) dividem um amplo apartamento, mas percebem que precisam de uma quarta pessoa para rachar as despesas. Depois de várias entrevistas com possíveis locatários - que eles dispensam por motivos fúteis e superficiais, como o modo de vestir, falar ou se comunicar - eles finalmente concordam em aceitar o misterioso Hugo (Keith Allen), que se descreve como escritor. O que parecia uma solução satisfatória para a crise financeira dos amigos sofre uma reviravolta logo em seguida, quando Hugo é encontrado morto, aparentemente vítima de overdose. Antes de chamar a polícia, porém, eles descobrem uma maleta abarrotada de dinheiro e resolvem, por unanimidade, mantê-la, como forma de ficar ricos. No entanto, depois de livrar-se do corpo, o trio inicia uma sufocante jornada de desconfiança, paranoia e ambição, que os leva a virar-se uns contra os outros.


Uma das maiores qualidades de "Cova rasa" é a sua forma de saltar de uma comédia despretensiosa e anódina sobre um grupo de amigos quase arrogantes e egocêntricos para um suspense arrebatador e surpreendente, que não se furta a apelar para cenas que, em mãos menos capazes, seriam simplesmente chocantes. Comandada por Boyle - cujo senso estético e artístico é inegável - a sequência em que os amigos esquartejam o cadáver de Hugo, por exemplo, é sutil e impressionante, mais pelo que esconde do que pelo que mostra. E a descida de um dos personagens rumo à loucura é ilustrada com extremo bom gosto, fugindo dos clichês visuais que soterram os filmes do gênero.

E o elenco é um capítulo à parte: Ewan McGregor, que seria consagrado por sua atuação no filme seguinte de Boyle, já revela um carisma que prenunciava seu sucesso futuro. Christopher Eccleston dá o tom exato a seu personagem, o mais complexo do trio. E Kerry Fox faz o possível para despertar a simpatia do espectador, apesar da frieza de Juliet - que encontra eco, aliás, em seus amigos, pouco afeitos a grandes sentimentos. Aliás, uma das críticas feitas ao filme de Boyle dizia respeito à frieza de seus protagonistas, que jamais transmitem qualquer tipo de sentimento que não a ambição. É uma constatação verdadeira, mas que serve para ilustrar com perfeição sua falta de empatia em relação aos outros - principalmente quando dirigida com perceptível gosto.

"Cova rasa" é bizarro, é tenso, é quase desagradável em seu retrato do ser humano. Mas, a seu modo, é divertido, é insanamente engraçado e um extraordinário cartão de visitas para seu diretor, seu ator principal e seu roteirista.

A PRAIA

A PRAIA (The beach, 2000, 20th Century Fox, 119min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: John Hodge, romance de Alex Garland. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Masahiro Irakubo. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Rachael Fleming. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Anna Pinnock. Produção: Andrew McDonald. Elenco: Leonardo DiCaprio, Tilda Swinton, Robert Carlyle, Virginie Ledoyen, Guillaume Canet, Lars Arentz-Hansen. Estreia: 02/02/00

Depois do sucesso inesperado – e merecido – de seu “Trainspotting, sem limites” e o convite recusado para dirigir “Alien, a ressurreição”, o cineasta escocês Danny Boyle deu sua primeira escorregada artística com o fracasso comercial de sua comédia romântica de humor negro “Por uma vida menos ordinária”, que não agradou nem a crítica nem o público. Talvez para minimizar o estrago ele tenha aceitado fazer inúmeras concessões ao estúdio produtor de seu novo projeto. O principal deles, e o que provou-se o mais equivocado, foi limar do papel principal o alter ego do diretor, o ator Ewan McGregor, que rompeu a parceria com o diretor e foi aventurar-se no mainstream cinematográfico como Obi Wan Kenobi na segunda trilogia “Star Wars”.

Na verdade, McGregor até teve sorte de não ter seu nome relacionado a mais uma decepção comercial. Mesmo com Leonardo DiCaprio no papel principal – em seu primeiro filme de verdade desde o mega-sucesso “Titanic” -, o que parecia um tiro certeiro em termos de bilheteria, “A praia”, baseado em um livro de Alex Garland, não conseguiu nem cobrir seu orçamento de 50 milhões de dólares nas bilheterias americanas. O resultado decepcionante é parte culpa do diretor, parte culpa do projeto em si e boa parte da escolha de seu ator central. Mostrando-se não tão infalível assim (tanto em termos financeiros quanto artísticos) DiCaprio prejudica "A praia" em um papel inadequado a seu tipo físico franzino e ainda adolescente apesar de seus 25 anos de idade à época do lançamento.



“A praia” até que começa muito bem. DiCaprio é Richard, um mochileiro que vive viajando pelo mundo em busca do prazer absoluto. Em sua procura hedonista ele encontra, em plena Bangcock, o misterioso e alucinado Daffy (Robert Carlyle, em participação pequena mas marcante), que lhe garante a existência de uma ilha paradisíaca não muito longe dali. Antes de cometer suicídio, o inglês desenha um mapa da tal ilha para Richard, que acompanhado de um jovem casal de franceses (por cuja metade feminina ele imediatamente se sente atraído), parte atrás da realização do seu sonho. Quando ele finalmente torna-se realidade, as coisas parecem ser perfeitas: a ilha existe, e é a casa de uma comunidade alegre, leve e sem grandes preocupações. Liderada pela quase despótica Sal (a excelente Tilda Swinton), a comunidade tem apenas uma regra: manter segredo absoluto de sua existência e localização. Não demora muito e o sonho dourado torna-se um pesadelo depois de envolver-se com sua amiga e com a própria Sal em uma viagem, ele vira um proscrito e tem que lutar pela própria sobrevivência. E é justamente a partir dessa segunda metade, quando o sonho de uma vida alternativa dá lugar a um pesadelo violento, que o filme se perde.

Sem as ousadias visuais que lhe trouxeram glória, Danny Boyle transforma-se, como diretor de “A praia”, em um cineasta mediano, que não lembra quase em nenhum momento o criativo autor de cenas marcantes dos anos 90 como a overdose de Ewan McGregor em “Trainspotting”. Preso a um academicismo quase tedioso, ele ainda tenta agradar os fãs em sequências pretensamente alucinantes, como Leonardo DiCaprio como personagem de vídeo-game e a cena de amor entre DiCaprio e a bela Virginie Ledoyen no oceano (que, justiça seja feita, é visualmente deslumbrante). Enquanto apresenta seus personagens e suas belíssimas locações – fotografadas magnificamente por Darius Khondji – ele conquista e desperta o interesse. Na segunda parte, no entanto, ao entregar a um Leonardo DiCaprio sem maior estofo dramático o papel de herói acossado, ele derrapa em momentos quase constrangedores. Felizmente, as cenas finais, a trilha sonora sensacional e a fotografia esplendorosa conseguem salvar o filme de um desastre. É um entretenimento eficaz. Mas em nenhum momento deixa-se de pensar em como Boyle já foi melhor e como tudo seria muito melhor se Ewan McGregor estivesse em cena.

quarta-feira

POR UMA VIDA MENOS ORDINÁRIA

POR UMA VIDA MENOS ORDINÁRIA (A life less ordinary, 1997, Channel Four Films/Polygram Filmed Entertainment, 103min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: John Hodge. Fotografia: Brian Tufano. Montagem: Masahiro Irakubo. Música: David Arnold. Figurino: Rachael Fleming. Direção de arte/cenários: Kave Quinn/Marcia Calosio. Produção: Andrew Macdonald. Elenco: Cameron Diaz, Ewan McGregor, Ian Holm, Holly Hunter, Delroy Lindo, Dan Hedaya, Stanley Tucci, Tony Shalhoub, Timothy Olyphant. Estreia: 24/10/97

Robert Lewis (Ewan McGregor) é um sujeito de pouca sorte. Desacreditado em suas tentativas de tornar-se escritor de um romance trash, ele, no mesmo dia, é abandonado pela namorada (que o deixa pelo professor de aeróbica) e demitido do emprego de faxineiro de uma empresa (sendo substituído por um robô). Indignado com sua situação desesperadora, ele invade o escritório de seu chefe e, ao perceber que nada fará o frio empresário mudar de ideia a respeito de sua dispensa, faz a única coisa que lhe passa na cabeça: sequestra sua filha, a dondoca Celine Naville (Cameron Diaz). A moça, revoltada com o fato de ser obrigada a trabalhar para pagar por seus luxos, une-se então a Robert para arrancar dinheiro de seu pai. O que os dois jovens nem de longe sonham, porém, é que dois anjos bastante atrapalhados - O'Reilly (Holly Hunter) e Jackson (Delroy Lindo) - tem a difícil missão de fazê-los se apaixonarem um pelo outro, para que não sejam obrigados a viver na Terra pra sempre.

Com essa premissa de novela das sete, a dupla Danny Boyle (diretor) e John Hodge (roteirista) voltou às telas depois do estrondoso sucesso crítico de "Trainspotting", que colocaram seus nomes no mapa da indústria hollywoodiana. Contando ainda com o ator Ewan McGregor (com quem haviam trabalhado ainda em "Cova rasa"), Boyle e Hodge experimentaram, para seu desgosto, o amargo sabor do fracasso. Ignorado pelo público e malhado pela crítica, "Por uma vida menos ordinária" nem de longe causou o mesmo impacto de seus trabalhos anteriores e, pior ainda, foi rechaçado até mesmo pelos fãs mais fiéis do time até então vencedor. Mas afinal de contas, a comédia romântica de Boyle mereceu todo essa vaia generalizada?



É preciso saber se o público - e até mesmo a imprensa - entendeu a proposta do cineasta e seus fiéis asseclas. O que se pode esperar de uma comédia romântica cujos autores deram ao mundo um suspense recheado de humor negro e um drama sobre drogas que foi acusado de glamourizá-las? Obviamente não há, em "Por uma vida menos ordinári"a, cenas daqueles romances melosos que Hollywood costuma empurrar a plateias sedentas por escapismo sentimental. Quando acontece de falarem de amor, logo somos lembrados - pela trilha sonora propositalmente piegas ou pelos absurdos do roteiro - de que estamos diante de um filme que fala de amor, sim, mas da maneira menos convencional possível. Robert e Celine não formam um típico par romântico ele é quase um banana, capaz de desmaiar ao ver sangue, e ela é uma riquinha mimada cujo hobby é brincar de Guilherme Tell (mesmo que corra o risco de ferir o próprio ex-namorado). E o fato de estarem à mercê de dois anjos nada dados a sentimentalismos e capazes de violência física para atingir seus objetivos apenas reitera o tom de brincadeira absoluta. É preciso que se compre a proposta de Por uma vida menos ordinária. E o público, infelizmente, dessa vez não comprou.

Logicamente nem tudo são flores... É necessário admitir que há muitos erros em "Por uma vida menos ordinária", a começar pelo roteiro que, apesar de alguns bons momentos, não chega nem aos pés do brilhantismo de "Trainspotting" e "Cova rasa". As personagens são mal delineadas (talvez de propósito, mas isso não fica exatamente claro) e certas situações não se desenvolvem a contento, dando a impressão de uma colagem de desventuras sem muita conexão. Mas Danny Boyle é visivelmente um diretor muito criativo e isso fica nítido em soluções visuais bastante interessantes, como o céu de um branco absoluto e na sequência musical em que Ewan McGregor e Cameron Diaz parecem se divertir a valer (McGregor inclusive voltaria a demonstrar seus dotes vocais nos filmes "Velvet Goldmine" e "Moulin Rouge"). Somados à atuação delirante de Holly Hunter (de longe a melhor coisa do filme) e à trilha sonora impecável (característica das obras do diretor), esses momentos de criatividade fazem do filme uma agradável experiência. Pode não ser um Danny Boyle dos melhores, mas está longe de ser um dos piores. E tem a simpatia contagiante de Ewan McGregor.

TRAINSPOTTING, SEM LIMITES

TRAINSPOTTING, SEM LIMITES (Trainspotting, 1996, Channel Four Films, 94min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: John Hodge, romance de Irvine Welsh. Fotografia: Brian Tufano. Montagem: Masahiro Irakubo. Figurino: Rachael Fleming. Direção de arte/cenários: Kave Quinn/Tracey Gallacher. Produção: Andrew Macdonald. Elenco: Ewan McGregor, Robert Carlyle, Jonny Lee Miller, Ewen Bremner, Kevin McKidd, Kelly Macdonald. Estreia: 23/02/96

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

Em 1995, o cineasta inglês Danny Boyle lançou "Cova rasa", um suspense recheado de humor negro que empolgou a crítica e revelou o talento do jovem ator Ewan McGregor. Ao respeitar as regras básicas do gênero incutindo nele referências pop e uma modernidade estilística, Boyle tornou-se um "nome a ser guardado e observado". Por mais ferrenhos que fossem seus admiradores de então, nem mesmo eles poderiam prever o que viria a seguir. "Trainspotting, sem limites", o segundo longa do diretor causou enorme furor já em sua estreia, no Festival de Cannes de 1996. Acusado de ser uma apologia às drogas, o filme chegou aos cinemas americanos cercado de uma controvérsia que só fez aumentar sua popularidade. Exageradamente apelidado de "o 'Laranja Mecânica' dos anos 90", reacendeu a polêmica sobre o papel do cinema na sociedade e sua má influência à juventude. Exagerada ou não, a discussão sobre sua ideologia quase ofuscou as qualidades da obra de Boyle como cinema propriamente dito. Felizmente, muita gente descobriu que, por trás de sua aparente subversão, "Trainspotting" é um grande filme.

Até mesmo a sisuda Academia de Hollywood foi obrigada a dar o braço a torcer, indicando o roteiro de John Hodge - adaptado de um romance estranho e difícil de Irvine Welsh - ao Oscar. Mesmo que não tenha tido a menor chance de vitória - perdeu para o hoje esquecido "Na corda bamba", de Billy Bob Thornton - só o fato de ter rompido o preconceito contra um cinema quase marginal - pelo tema, em especial - já atesta a sua força. Ao encontrar uma linha narrativa em um livro de estrutura quase anárquica, que dá vozes a diversas personagens sem seguir um enredo sólido, Hodge realizou um trabalho impecável e, por incrível que pareça, fiel ao espírito transgressor da obra que lhe deu origem. E, obviamente, contar com a criatividade avassaladora de Danny Boyle na direção só ajudou.


À primeira vista, "Trainspotting" acompanha a trajetória de um grupo de jovens escoceses viciados em heroína. Uma análise mais cuidadosa, porém, revela uma poderosa crítica à sociedade de consumo e à hipocrisia reinante não apenas no país, mas de maneira geral. O protagonista, Mark Renton (Ewan McGregor) é um rapaz que tem como principal mote de sua existência o niilismo absoluto: usuário de drogas, ele se vê repentinamente se forçando a abandonar o vício ao ser preso pelo roubo em uma loja. Passando por uma tenebrosa crise de abstinência, ele conta com a ajuda (ou não) de seu grupo de amigos: o galã Sick Boy (Jonny Lee Miller), o psicótico Begbie (Robert Carlyle), o também viciado Spud (Ewen Bremner) e o romântico Tommy (Kevin McKidd). O filme mostra como Renton busca fugir da vida de drogado - e consequentemente mergulhar no capitalismo que tanto despreza - através de uma série de anedotas e acontecimentos engraçados/chocantes/trágicos.

O que talvez tenha incomodado tanto os censores de plantão seja a absoluta falta de vontade de Hodge, Welsh e Boyle de utilizar "Trainspotting" como uma lição de moral. Não é verdade que o filme exalte o uso de drogas, ainda que Renton descreva a sensação de estar chapado como "mil vezes melhor que seu melhor orgasmo". Tampouco é panfletário, mesmo que apresente algumas cenas chocantes e trágicas - algumas embaladas em um visual atraente e criativo, mas mesmo assim bastante fortes. Não existe certo e errado na história de Irvine Welsh, apenas situações que, extremas, obrigam suas personagens a tomar decisões quase definitivas. Mas é inegável que, por trás de bebês mortos e mergulhos em sanitários imundos, existe um fator que desequilibra a balança: ao utilizar uma trilha sonora vibrante, atores atraentes e um irresistível humor negro para contar sua história, Boyle de certa forma reveste de um certo glamour o mundo das drogas. Mas aí a velha questão volta a martelar: o cinema tem a obrigação de educar ou é apenas um espelho da sociedade? Ou ainda: depois de todo esse bafafá... "Trainspotting" é ou não um bom filme?

A resposta é clara: um sonoro SIM. "Trainspotting" tem um roteiro diferente do corriqueiro, um elenco brilhante (liderado por um magérrimo e dedicado Ewan McGregor), uma trilha sonora antenada (que não saiu das pistas de dança por bons meses) e uma edição desenfreada mas nunca confusa ou sufocante. Dirigido com firmeza por um Danny Boyle no auge de seu vigor criativo - que lhe daria um Oscar pelo bom mas menor "Quem quer ser um milionário?" - é um retrato de sua época e de uma juventude que não estava disposta a sentar em frente a uma TV se alimentando de comida enlatada. Se isso incomodou tanto, é porque tocou em uma ferida muito sensível da sociedade dos anos 90. Isso é cinema!

PS: Visitem meu outro blog e leiam uma outra visão minha do filme:

http://lennysmind.blogspot.com/2010/03/filmes-que-mudaram-minha-vida.html

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...