ATRAVÉS DE UM ESPELHO (Sasom i en spegel, 1961, Svensk Filmindustri, 90min) Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Ulla Ryghe. Figurino: Mago. Direção de arte: P. A. Lundgren. Produção: Allan Ekelund. Elenco: Harriet Andersson, Gunnar Bjornstrand, Max Von Sydow, Lars Passgard. Estreia: 16/10/61
2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Fazia pouco tempo que a Academia de Hollywood havia criado oficialmente a categoria de Melhor Filme Estrangeiro quando o sueco Ingmar Bergman levou seu segundo Oscar consecutivo. Não que fosse um acontecimento inédito - o italiano Federico Fellini também já tinha duas estatuetas em casa, por "A estrada da vida" e "Noites de Cabíria", premiados em 1956 e 1957, respectivamente. Acontece que, ao contrário de "A fonte e a donzela" (vencedor do Oscar em 1960), o segundo filme oscarizado de Bergman, "Através de um espelho", não foi exatamente aplaudido pela crítica norte-americana quando foi lançado, e um dos artigos chegava a prever que o auge criativo do cineasta estava em seus últimos momentos. Nem mesmo a aprovação da Academia (e sua indicação ao Oscar de roteiro original no ano seguinte, quando foi exibido nos EUA) ajudou a mudar essa situação. Foi preciso que muitos anos se passassem até que finalmente o filme fosse reconhecido como um clássico - e levando-se em conta que até o próprio diretor, pouco afeito a autoelogios, o considerava um de seus melhores trabalhos, demorou bastante para que assumisse, junto aos críticos, um lugar de destaque em sua elogiada filmografia. Vencedor de um prêmio no Festival de Berlim em 1962, "Através de um espelho" é um dos primeiros passos de Bergman em direção à estrutura consagrada cinco anos mais tarde com uma de suas obras-primas, "Persona" (1966).
Assim como em "Persona" e em boa parte de sua obra, Bergman usa e abusa de longas pausas, diálogos profundos e personagens de uma complexidade ímpar. Através de um roteiro que lembra o teatro de Strindberg - e cuja estrutura mais tarde seria emulada pelos filmes mais sérios de Woody Allen -, "Através de um espelho" se mostra sucinto e com intenções filosóficas. A busca por Deus, crises de fé e a procura incessante por uma paz de espírito que se revela muito mais difícil do que se poderia supor, o filme de Bergman é aparentemente econômico em termos dramáticos, mas emocionalmente devastador. Lógico que, sob a visão quase gélida do cineasta, a emoção parece mais cerebral, e é justamente esse aparente paradoxo (razão vs sentimento) que se revela a base do filme: os personagens são inteligentes e cultos, mas sua tentativa de racionalizar o que os devora por dentro acaba se revelando inútil quando a angústia e o desespero assumem a protagonização.
A trama, desenvolvida no roteiro do próprio Bergman, tem início com o retorno de Karin (Harriet Andersson) ao convívio familiar, depois de uma temporada em um hospital psiquiátrico. Seu relacionamento com o marido, Martin (Max von Sydow), há muito deixou de ser um casamento tradicional, transformando-se, aos poucos, em uma amizade profunda. Martin se dedica a cuidar da esposa, e resolve levá-la à propriedade de verão da família, em uma ilha distante. A eles, juntam-se o pai de Karin, David (Gunnar Bjornstrand) - um célebre escritor que praticamente abandonou os filhos após a morte da esposa - e seu irmão, Minus (Lars Passggard), batalhando a seu próprio modo com os hormônios da adolescência. O que deveria ser uma reunião familiar pacífica aos poucos vai se tornando uma grande sessão de terapia: Karin descobre que sua doença mental, herdada da mãe, é incurável, e David tenta reaproximar-se dos filhos - enquanto cabe a Martin tentar equilibrar as relações e apoiar sua mulher em sua descida rumo à insanidade e a busca por uma resposta de Deus a suas questões mais profundas.
Longe de ser um filme fácil, "Através de um espelho" não deixa de ser, também, uma das obras mais acessíveis de Bergman. Apesar de sua utilização de símbolos e metáforas, seu roteiro é linear e fluido, como uma boa peça de teatro. Para isso, ele conta, logicamente, com um quarteto de atores completamente entregues. Harriet Andersson brilha na pele de Karin, a mais complexa dos personagens, uma mulher constantemente no fio da navalha. Max von Sydow, um dos colaboradores habituais do diretor, mostra, mais uma vez, como a economia de gestos e palavras pode engrandecer um filme. O estreante Lars Passgard também dá conta do recado, com um personagem cujos sentimentos somente aos poucos vão sendo revelados (ao espectador e a ele mesmo), e o veterano Gunnar Bjornstrand transmite, através de uma interpretação discreta, todo o turbilhão de culpa e melancolia de seu David. Um filme para adultos, "Através de um espelho" é quase a antítese do cinema comercial americano - para uns, um bálsamo. Para outros, uma tortura. Ainda assim, é impossível negar seu brilhantismo dramático e sua direção exemplar.
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segunda-feira
sábado
SONATA DE OUTONO
SONATA DE OUTONO (Hostsonaten/Autumn Sonata, 1978, Personafilms, 89min) Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Sylvia Ingmarsdotter. Figurino: Ingher Pehrsson. Direção de arte: Anna Asp. Elenco: Ingrid Bergman, Liv Ullman, Lena Nyman, Halvar Bjork. Estreia: 08/8/78
2 indicações ao Oscar: Atriz (Ingrid Bergman), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro
Apesar de dividirem o mesmo sobrenome e serem dois dos maiores ícones que o cinema sueco fabricou em sua história, o cineasta Ingmar Bergman e a atriz Ingrid Bergman se encontraram apenas uma única vez nos sets de filmagem. O destino quis, porém, que esse encontro fosse mais do que especial: não apenas marcou o último trabalho da estrela, que morreu de câncer em 1982, como também retratava, de forma incômoda, boa parte de seus sentimentos em relação à sua história pessoal. Assim como Ingrid abandonou sua família para viver seu romance com o cineasta italiano Roberto Rossellini, no final dos anos 1940, sua personagem em "Sonata de outono" é uma mãe cujo relacionamento com a filha é marcado por ressentimentos e rancores oriundos de sua opção pela carreira em detrimento da maternidade. Falando sueco nas telas pela primeira vez em onze anos e entregando uma atuação visceral, Bergman arrebatou uma indicação ao Oscar de melhor atriz por seu desempenho e conquistou os prêmios do National Board of Review, da National Society of Film Critics e dos críticos de Nova York. Tão generosa receptividade teve muito a ver com o prestígio do diretor e da atriz, mas o fato é que é impossível ficar incólume às devastadas emoções oferecidas pelo filme em pouco menos de noventa minutos.
Explorando ao máximo a estrutura teatral de seu roteiro, com marcações bem definidas e ênfase nos diálogos, fortes e emocionais, "Sonata de outono" se beneficia ao máximo com o talento de seu elenco - Bergman e Liv Ullman à frente - e a fotografia espetacular de Sven Nykvist, seu habitual colaborador. Nykvist registra com sensibilidade tanto os exteriores bonitos por natureza da Noruega - onde o cineasta se refugiou por um tempo devido a problemas com o fisco sueco - quanto as cores quentes que refletem o estado de espírito de suas protagonistas - em especial o vermelho, que enfatiza a distância entre mãe cosmopolita e filha retraída. Embaladas por uma trilha sonora que inclui Chopin, Bach e Handel, as personagens centrais se enfrentam em embates dolorosos e cruéis, testemunhados apenas pela câmera discreta do diretor e pelo público, agoniado pelas palavras não ditas e pelas verdades dilacerantes que as atingem como chicotadas. Se em seus primeiros minutos o filme passa uma atmosfera de doce reencontro familiar, aos poucos vai deixando claro que, apesar das aparências, há muito a ser resolvido entre todos para que a paz enfim reine (ou não).
Com sua costumeira classe, Ingrid Bergman vive Charlotte Andergast, uma pianista clássica internacionalmente reconhecida que, depois de quase uma década, finalmente aceita ser recebida na casa de sua filha mais velha, Eva (Liv Ullman), que vive com o marido, Viktor (Halvar Bjork), em uma cidadezinha costeira, onde ele é pastor. Recuperando-se da morte do segundo marido, a quem acompanhou em seus últimos dias, Charlotte imagina um período de tranquilidade e descanso de suas excursões e compromissos, mas assim que chega é surpreendida com a presença de sua outra filha, Helena (Lena Nyman), que sofre de uma doença mental grave e que ela julgava estar internada. Seu reencontro com as duas faz com que a pianista seja obrigada a confrontar fantasmas do passado, principalmente quando Eva faz questão de aproveitar a visita da mãe para desabafar a respeito dos traumas originados pela ausência constante da figura materna na infância e adolescência.
O público acostumado à filmografia de Ingmar Bergman sabe de suas inclinações psicanalíticas, e "Sonata de outono" não foge à regra. Os longos e profundos diálogos transbordam sensibilidade e dor, mas a poesia das imagens criadas pelo cineasta transformam a experiência em uma sessão de análise das mais instigantes e incômodas. Eva, a personagem de Liv Ullman vai crescendo a cada cena, acumulando coragem para, no clímax, disparar as verdades que a vem destroçando desde criança - e Charlotte, sua mãe, transita entre sua zona de conforto (enterrar as mágoas e fingir uma felicidade que talvez não exista) e o medo de ver-se como um monstro, responsável pela infelicidade de quem deveria cuidar. Bergman filma o embate entre mãe e filha com delicadeza e plasticidade impecável, jamais apelando para o sentimentalismo mas enfatizando, sempre que possível, a distância (física e emocional) de suas protagonistas. O resultado é um drama psicológico e familiar dos mais impactantes - e um dos filmes mais importantes de um cineasta de valor inestimável à sétima arte.
2 indicações ao Oscar: Atriz (Ingrid Bergman), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro
Apesar de dividirem o mesmo sobrenome e serem dois dos maiores ícones que o cinema sueco fabricou em sua história, o cineasta Ingmar Bergman e a atriz Ingrid Bergman se encontraram apenas uma única vez nos sets de filmagem. O destino quis, porém, que esse encontro fosse mais do que especial: não apenas marcou o último trabalho da estrela, que morreu de câncer em 1982, como também retratava, de forma incômoda, boa parte de seus sentimentos em relação à sua história pessoal. Assim como Ingrid abandonou sua família para viver seu romance com o cineasta italiano Roberto Rossellini, no final dos anos 1940, sua personagem em "Sonata de outono" é uma mãe cujo relacionamento com a filha é marcado por ressentimentos e rancores oriundos de sua opção pela carreira em detrimento da maternidade. Falando sueco nas telas pela primeira vez em onze anos e entregando uma atuação visceral, Bergman arrebatou uma indicação ao Oscar de melhor atriz por seu desempenho e conquistou os prêmios do National Board of Review, da National Society of Film Critics e dos críticos de Nova York. Tão generosa receptividade teve muito a ver com o prestígio do diretor e da atriz, mas o fato é que é impossível ficar incólume às devastadas emoções oferecidas pelo filme em pouco menos de noventa minutos.
Explorando ao máximo a estrutura teatral de seu roteiro, com marcações bem definidas e ênfase nos diálogos, fortes e emocionais, "Sonata de outono" se beneficia ao máximo com o talento de seu elenco - Bergman e Liv Ullman à frente - e a fotografia espetacular de Sven Nykvist, seu habitual colaborador. Nykvist registra com sensibilidade tanto os exteriores bonitos por natureza da Noruega - onde o cineasta se refugiou por um tempo devido a problemas com o fisco sueco - quanto as cores quentes que refletem o estado de espírito de suas protagonistas - em especial o vermelho, que enfatiza a distância entre mãe cosmopolita e filha retraída. Embaladas por uma trilha sonora que inclui Chopin, Bach e Handel, as personagens centrais se enfrentam em embates dolorosos e cruéis, testemunhados apenas pela câmera discreta do diretor e pelo público, agoniado pelas palavras não ditas e pelas verdades dilacerantes que as atingem como chicotadas. Se em seus primeiros minutos o filme passa uma atmosfera de doce reencontro familiar, aos poucos vai deixando claro que, apesar das aparências, há muito a ser resolvido entre todos para que a paz enfim reine (ou não).
Com sua costumeira classe, Ingrid Bergman vive Charlotte Andergast, uma pianista clássica internacionalmente reconhecida que, depois de quase uma década, finalmente aceita ser recebida na casa de sua filha mais velha, Eva (Liv Ullman), que vive com o marido, Viktor (Halvar Bjork), em uma cidadezinha costeira, onde ele é pastor. Recuperando-se da morte do segundo marido, a quem acompanhou em seus últimos dias, Charlotte imagina um período de tranquilidade e descanso de suas excursões e compromissos, mas assim que chega é surpreendida com a presença de sua outra filha, Helena (Lena Nyman), que sofre de uma doença mental grave e que ela julgava estar internada. Seu reencontro com as duas faz com que a pianista seja obrigada a confrontar fantasmas do passado, principalmente quando Eva faz questão de aproveitar a visita da mãe para desabafar a respeito dos traumas originados pela ausência constante da figura materna na infância e adolescência.
O público acostumado à filmografia de Ingmar Bergman sabe de suas inclinações psicanalíticas, e "Sonata de outono" não foge à regra. Os longos e profundos diálogos transbordam sensibilidade e dor, mas a poesia das imagens criadas pelo cineasta transformam a experiência em uma sessão de análise das mais instigantes e incômodas. Eva, a personagem de Liv Ullman vai crescendo a cada cena, acumulando coragem para, no clímax, disparar as verdades que a vem destroçando desde criança - e Charlotte, sua mãe, transita entre sua zona de conforto (enterrar as mágoas e fingir uma felicidade que talvez não exista) e o medo de ver-se como um monstro, responsável pela infelicidade de quem deveria cuidar. Bergman filma o embate entre mãe e filha com delicadeza e plasticidade impecável, jamais apelando para o sentimentalismo mas enfatizando, sempre que possível, a distância (física e emocional) de suas protagonistas. O resultado é um drama psicológico e familiar dos mais impactantes - e um dos filmes mais importantes de um cineasta de valor inestimável à sétima arte.
sexta-feira
O SÉTIMO SELO
O SÉTIMO SELO (Det sjunde inseglet, 1957, Svensk Filmindustri, 96min)
Direção: Ingmar Bergman. Roteiro: Ingmar Bergman, baseado em sua peça
teatral "Pintura sobre madeira". Fotografia: Gunnar Fischer. Montagem: Lennart Wallen.
Música: Erik Nordgren. Figurino: Manne Lindholm. Produção: Allan
Ekelund. Elenco: Max Von Sydow, Gunnar Bjornstrand, Bengt Ekerot, Nils
Poppe, Bibi Andersson. Estreia: 16/02/57
Impactantes imagens em preto-e-branco, reflexões angustiadas e existenciais acerca de Deus e da morte e um clima que equilibra a morbidez da Peste Negra com a vida despreocupada e feliz de um grupo de artistas mambembes cuja maior preocupação é sobreviver a cada dia em contato com a simplicidade da natureza. São esses os elementos que fazem de "O sétimo selo" um dos mais icônicos trabalhos do diretor sueco Ingmar Bergman. Antes mesmo de consagrar-se como um dos cineastas mais influentes da Europa ao tratar de temas complexos e intimistas - normalmente em filmes estrelados por sua esposa Liv Ullman - Bergman fascinou crítica e público com uma trama repleta de simbolismos que reflete algumas de suas obsessões mais caras, como religião, metafísica e altas doses de existencialismo. Não à toa, entrou indelevelmente na lista dos mais importantes realizadores do cinema mundial, iniciando uma jornada frequentemente densa e pessoal - e paradoxalmente, universal.
Dono de uma temática pouco comercial e a princípio um tanto mórbida, "O sétimo selo" só saiu do papel graças ao sucesso de crítica do filme anterior de Bergman, "Sorrisos de uma noite de amor" (55), uma comédia romântica, vejam só, que incentivou os financiadores suecos a apostarem no talento do cineasta então relativamente jovem (tinha menos de 40 anos de idade) e com ideias bem particulares a respeito do mundo que o cercava. Baseado em uma peça de sua autoria chamada "Pintura sobre madeira", transmitida pelo rádio em 1954, Bergman recheou seu filme com imagens buscadas na memória afetiva - seu pai era um rígido pastor luterano e pregava em uma igreja cujos murais inspiraram o futuro cineasta - e em suas próprias questões espiritualistas, que abarcavam não somente a religião, mas a humanidade em si (e o que faz do homem o que ele realmente é). Complexo e belo na exata medida, a obra acabou saindo do Festival de Cannes com o prêmio especial do júri e iniciou uma carreira vitoriosa que faz dela um dos mais adorados, imitados e citados filmes da história do cinema, tendo inspirado desde Woody Allen até Schwarzenegger (em "O último grande herói", de 1993). Nem mesmo o mundo do rock ficou impune à obra, como bem pode confirmar Van Halen, que batizou uma de suas canções em homenagem ao filme.
Aproveitando o filme para lidar com seu medo quase patológico da morte, Bergman utiliza sua trama para fazer desfilar, diante do público, uma série de sequências antológicas, valorizadas pela fotografia expressionista de Gunnar Fischer e pelas atuações inesquecíveis de Max Von Sydow (em seu primeiro trabalho com o diretor, com a exceção de uma ponta em "Morangos silvestres") e Bengt Ekerot (no papel icônico da Morte). Von Sydow vive Antonius Blok, um cavaleiro que, depois de passar anos lutando nas Cruzadas, retorna a seu país e o encontra assolado pela Peste Negra. Testemunhando cenas brutais de execuções à mulheres consideradas bruxas e fiéis de autoflagelando em nome de Deus, Blok vê surgir à sua frente a Morte em pessoa. Sabendo que ela sempre esteve à sua volta, ele aproveita a oportunidade para questioná-la a respeito de suas dúvidas existenciais, propondo que eles joguem uma partida de xadrez enquanto isso. Nesse meio-tempo, ele conhece uma família de artistas mambembes que o faz ver um outro lado da vida, menos sombrio e repleto de esperanças no futuro.
Sem medo de apostar na inteligência e na sensibilidade do público, levantando questões sem a intenção de respondê-las explicitamente, Ingmar Bergman leva seu estilo poético e lúdico até as últimas consequências. Inserindo momentos leves e dotados de um insuspeito senso de humor em meio a divagações existenciais das mais densas, o cineasta mergulha a plateia em uma viagem sensorial e mística que, felizmente, jamais descamba para a religiosidade rala ou piegas. "O sétimo selo" é um filme inteligente e brilhante em seus questionamentos metafísicos e existenciais, além de deslumbrar também por seu visual extraordinário. Um Bergman dos melhores - e por incrível que possa parecer, um dos mais acessíveis.
Impactantes imagens em preto-e-branco, reflexões angustiadas e existenciais acerca de Deus e da morte e um clima que equilibra a morbidez da Peste Negra com a vida despreocupada e feliz de um grupo de artistas mambembes cuja maior preocupação é sobreviver a cada dia em contato com a simplicidade da natureza. São esses os elementos que fazem de "O sétimo selo" um dos mais icônicos trabalhos do diretor sueco Ingmar Bergman. Antes mesmo de consagrar-se como um dos cineastas mais influentes da Europa ao tratar de temas complexos e intimistas - normalmente em filmes estrelados por sua esposa Liv Ullman - Bergman fascinou crítica e público com uma trama repleta de simbolismos que reflete algumas de suas obsessões mais caras, como religião, metafísica e altas doses de existencialismo. Não à toa, entrou indelevelmente na lista dos mais importantes realizadores do cinema mundial, iniciando uma jornada frequentemente densa e pessoal - e paradoxalmente, universal.
Dono de uma temática pouco comercial e a princípio um tanto mórbida, "O sétimo selo" só saiu do papel graças ao sucesso de crítica do filme anterior de Bergman, "Sorrisos de uma noite de amor" (55), uma comédia romântica, vejam só, que incentivou os financiadores suecos a apostarem no talento do cineasta então relativamente jovem (tinha menos de 40 anos de idade) e com ideias bem particulares a respeito do mundo que o cercava. Baseado em uma peça de sua autoria chamada "Pintura sobre madeira", transmitida pelo rádio em 1954, Bergman recheou seu filme com imagens buscadas na memória afetiva - seu pai era um rígido pastor luterano e pregava em uma igreja cujos murais inspiraram o futuro cineasta - e em suas próprias questões espiritualistas, que abarcavam não somente a religião, mas a humanidade em si (e o que faz do homem o que ele realmente é). Complexo e belo na exata medida, a obra acabou saindo do Festival de Cannes com o prêmio especial do júri e iniciou uma carreira vitoriosa que faz dela um dos mais adorados, imitados e citados filmes da história do cinema, tendo inspirado desde Woody Allen até Schwarzenegger (em "O último grande herói", de 1993). Nem mesmo o mundo do rock ficou impune à obra, como bem pode confirmar Van Halen, que batizou uma de suas canções em homenagem ao filme.
Aproveitando o filme para lidar com seu medo quase patológico da morte, Bergman utiliza sua trama para fazer desfilar, diante do público, uma série de sequências antológicas, valorizadas pela fotografia expressionista de Gunnar Fischer e pelas atuações inesquecíveis de Max Von Sydow (em seu primeiro trabalho com o diretor, com a exceção de uma ponta em "Morangos silvestres") e Bengt Ekerot (no papel icônico da Morte). Von Sydow vive Antonius Blok, um cavaleiro que, depois de passar anos lutando nas Cruzadas, retorna a seu país e o encontra assolado pela Peste Negra. Testemunhando cenas brutais de execuções à mulheres consideradas bruxas e fiéis de autoflagelando em nome de Deus, Blok vê surgir à sua frente a Morte em pessoa. Sabendo que ela sempre esteve à sua volta, ele aproveita a oportunidade para questioná-la a respeito de suas dúvidas existenciais, propondo que eles joguem uma partida de xadrez enquanto isso. Nesse meio-tempo, ele conhece uma família de artistas mambembes que o faz ver um outro lado da vida, menos sombrio e repleto de esperanças no futuro.
Sem medo de apostar na inteligência e na sensibilidade do público, levantando questões sem a intenção de respondê-las explicitamente, Ingmar Bergman leva seu estilo poético e lúdico até as últimas consequências. Inserindo momentos leves e dotados de um insuspeito senso de humor em meio a divagações existenciais das mais densas, o cineasta mergulha a plateia em uma viagem sensorial e mística que, felizmente, jamais descamba para a religiosidade rala ou piegas. "O sétimo selo" é um filme inteligente e brilhante em seus questionamentos metafísicos e existenciais, além de deslumbrar também por seu visual extraordinário. Um Bergman dos melhores - e por incrível que possa parecer, um dos mais acessíveis.
sábado
MORANGOS SILVESTRES
MORANGOS SILVESTRES (Smultronstallet, 1957, Svensk Filmindustri, 91min) Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Fotografia: Gunnar Fischer. Montagem: Oscar Rosander. Música: Erik Nordgren. Figurino: Millie Strom. Direção de arte: Gittan Gustaffson. Produção: Allan Ekelund. Elenco: Victor Sjostrom, Bibi Andersson, Ingrid Thulin,Gunnar Bjornstrand, Max Von Sydow. Estreia: 26/12/57
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro
Um dia, enquanto estava viajando de carro pelas estradas da Suécia, o cineasta Ingmar Bergman parou na pequena cidade de Uppsala, onde nasceu e, passando em frente à casa de sua avó, ficou imaginando como seria se ele pudesse entrar na propriedade e vê-la exatamente como era na sua infância. Indo mais além, pensou em fazer um filme sobre essa possibilidade de visitar várias fases de uma mesma existência. O que poderia ser apenas uma ideia estéril, para sorte dos cinéfilos do mundo inteiro transformou-se em uma de suas maiores obras-primas, o melancólico "Morangos silvestres".
Lançado após o fundamental "O sétimo selo", "Morangos silvestres" confirmou Bergman como um dos mais importantes cineastas da história da Suécia, ao lançar uma nova luz sobre uma de suas temáticas preferidas: o sentido da vida. O existencialismo sempre presente na obra do diretor encontra na figura de seu protagonista, o velho professor Isak Borg, um ícone absoluto, que representa, em sua trajetória rumo ao maior entendimento possível de todas as consequências de seus atos, toda a busca presente na filmografia do cineasta sueco. Interpretado por Victor Sjostrom - ele mesmo um antigo diretor que teve larga influência na obra de Bergman - Isak Borg prescinde do carisma de um protagonista clichê para aparecer diante da plateia como um ser humano repleto de falhas que vê, diante de seus olhos, todos os caminhos que o levaram a ser o homem que é: frio e distante, como seu nome sugere.
Borg é um professor octogenário que será homenageado em sua cidade natal pela carreira dedicada à profissão. Decidido a fazer a viagem de carro, ele é acompanhado pela nora, Marianne (Ingrid Thulin), que está em vias de separar-se do marido devido a suas diferenças irreconciliáveis. Durante o caminho, acontecimentos fortuitos o levam a reviver momentos cruciais de sua vida, desde a infância até o fim de seu casamento (que de certa forma reflete também a crise no matrimônio de seu filho). A carona que ele e Marianne dão a um trio de jovens falantes e a um casal em constante agressão revela a Borg facetas de sua própria personalidade que o fazem encarar a dura solidão de sua vida atual.
Iniciando com um pesadelo surreal - fotografado com precisão por Gunnar Fischer - e utilizando-se de artifícios inteligentes de alternância entre presente, passado e alucinações, "Morangos silvestres" proporciona a seu público um espetáculo de sensibilidade, sem apelar para sentimentalismo. A câmera de Bergman não permite, em momento algum, a lágrima fácil ou a emoção barata, preferindo sempre atingir seus objetivos através do cérebro e do visual caprichado. Não é à toa que seu filme inspirou o genial Woody Allen em duas ocasiões distintas: em "Crimes e pecados" (89), quando o personagem de Martin Landau visita sua casa de infância e tem reminiscências sobre o passado e em "Desconstruindo Harry" (97), em que o protagonista também empreende uma viagem de carro a fim de ser homenageado por sua carreira e questiona sua vida. Bergman, com sua personalidade discreta, fez escola.
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro
Um dia, enquanto estava viajando de carro pelas estradas da Suécia, o cineasta Ingmar Bergman parou na pequena cidade de Uppsala, onde nasceu e, passando em frente à casa de sua avó, ficou imaginando como seria se ele pudesse entrar na propriedade e vê-la exatamente como era na sua infância. Indo mais além, pensou em fazer um filme sobre essa possibilidade de visitar várias fases de uma mesma existência. O que poderia ser apenas uma ideia estéril, para sorte dos cinéfilos do mundo inteiro transformou-se em uma de suas maiores obras-primas, o melancólico "Morangos silvestres".
Lançado após o fundamental "O sétimo selo", "Morangos silvestres" confirmou Bergman como um dos mais importantes cineastas da história da Suécia, ao lançar uma nova luz sobre uma de suas temáticas preferidas: o sentido da vida. O existencialismo sempre presente na obra do diretor encontra na figura de seu protagonista, o velho professor Isak Borg, um ícone absoluto, que representa, em sua trajetória rumo ao maior entendimento possível de todas as consequências de seus atos, toda a busca presente na filmografia do cineasta sueco. Interpretado por Victor Sjostrom - ele mesmo um antigo diretor que teve larga influência na obra de Bergman - Isak Borg prescinde do carisma de um protagonista clichê para aparecer diante da plateia como um ser humano repleto de falhas que vê, diante de seus olhos, todos os caminhos que o levaram a ser o homem que é: frio e distante, como seu nome sugere.
Borg é um professor octogenário que será homenageado em sua cidade natal pela carreira dedicada à profissão. Decidido a fazer a viagem de carro, ele é acompanhado pela nora, Marianne (Ingrid Thulin), que está em vias de separar-se do marido devido a suas diferenças irreconciliáveis. Durante o caminho, acontecimentos fortuitos o levam a reviver momentos cruciais de sua vida, desde a infância até o fim de seu casamento (que de certa forma reflete também a crise no matrimônio de seu filho). A carona que ele e Marianne dão a um trio de jovens falantes e a um casal em constante agressão revela a Borg facetas de sua própria personalidade que o fazem encarar a dura solidão de sua vida atual.
Iniciando com um pesadelo surreal - fotografado com precisão por Gunnar Fischer - e utilizando-se de artifícios inteligentes de alternância entre presente, passado e alucinações, "Morangos silvestres" proporciona a seu público um espetáculo de sensibilidade, sem apelar para sentimentalismo. A câmera de Bergman não permite, em momento algum, a lágrima fácil ou a emoção barata, preferindo sempre atingir seus objetivos através do cérebro e do visual caprichado. Não é à toa que seu filme inspirou o genial Woody Allen em duas ocasiões distintas: em "Crimes e pecados" (89), quando o personagem de Martin Landau visita sua casa de infância e tem reminiscências sobre o passado e em "Desconstruindo Harry" (97), em que o protagonista também empreende uma viagem de carro a fim de ser homenageado por sua carreira e questiona sua vida. Bergman, com sua personalidade discreta, fez escola.
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