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quarta-feira

CAPITÃO AMÉRICA: O PRIMEIRO VINGADOR


CAPITÃO AMÉRICA: O PRIMEIRO VINGADOR (Captain America: The first avenger, 2011, Marvel Studios/Paramount Pictures/Marvel Entertainment, 124min) Direção: Joe Johnston. Roteiro:Christopher Markus, Stephen McFeely, personagens criados por Stan Lee, Jack Kirby. Fotografia: Shelly Johnson. Montagem: Robert Dalva, Jeffrey Ford. Música: Alan Silvestri. Figurino: Anna B. Sheppard. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/John Bush. Produção executiva: Louis D'Esposito, Alan Fine, Nigel Gostelow, Joe Johnston, Stan Lee, David Maisel. Produção: Kevin Feige. Elenco: Chris Evans, Hugo Weaving, Sebastian Stan, Tommy Lee Jones, Stanley Tucci, Toby Jones, Dominic Cooper, Hayley Atwell, Richard Armitage, Samuel L. Jackson. Estreia: 19/7/2011

Criado como uma resposta à violência da Alemanha nazista, o Capitão América surgiu, segundo dizem, inspirado em um mito do folclore judeu, o Golem, um protetor contra a violência antissemita. Sua primeira aparição, em março de 1941 - esmurrando Adolf Hitler em pessoa - já causou polêmica e rendeu a seus criadores, Jack Kirby e Joe Simon, ameaças de grupos alinhados à política do chanceler alemão. O mais popular herói dos quadrinhos durante a II Guerra Mundial, porém, foi sendo deixado de lado após o fim do conflito e só voltou a ser aplaudido - dessa vez por uma nova geração - quando Kirby e Stan Lee o reuniu aos Vingadores, em março de 1964. O mais patriota dos heróis da Marvel, chegou perto de ter uma adaptação para os cinemas nos anos 1980 - com Jeff Bridges no papel principal -, mas foi somente com o sucesso dos dois filmes estrelados pelo Homem de Ferro e a definição de um projeto mais amplo da editora - que também originou "Thor" (2010) - que as telas (e o público) finalmente viram uma transposição digna da trajetória do soldado Steve Rogers. Com uma produção caprichada e uma renda internacional de mais de 370 milhões de dólares, "Capitão América" foi mais um passo certeiro da Marvel, e o último capítulo antes do ambicioso "Os Vingadores", lançado um ano mais tarde.

A trama - bastante fiel àquela revelada em um quadrinho lançado em janeiro de 1969 - começa em 1942 e acompanha o idealista e obstinado Steve Rogers (Chris Evans) em seu desejo de alistar-se ao exército americano e ajudar o país e os aliados na II Guerra Mundial. Franzino e pouco saudável, o jovem é repetidamente rejeitado em seus pedidos, ao contrário do que acontece com seu melhor amigo, Bucky Barnes (Sebastian Stan). Sua situação muda, no entanto, quando ele é escolhido pessoalmente pelo renomado cientista alemão Abraham Erskine (Stanley Tucci) para fazer parte de uma experiência secreta que almeja criar super soldados. Colaborando com os EUA depois que suas pesquisas foram roubadas por Johan Schmidt (Hugo Weaving), um nazista de alta patente e de métodos criminosos, Erskine vê no caráter de Rogers uma característica imprescindível para aqueles a quem deseja oferecer o soro que irá mudar os rumos da guerra. Quando o cientista é assassinado, no entanto, o projeto é deixado de lado e Rogers torna-se o Capitão América, uma simples peça de propaganda para o exército americano. Mas quando o pelotão do qual seu melhor amigo faz parte é capturado, Rogers desafia seus superiores e parte para seu resgate - batendo de frente com o perigoso Red Skull, líder da Hydra (organização terrorista ligada à Alemanha nazista). Para isso, ele conta com a tecnologia criada pelo milionário Howard Stark (Dominic Cooper).

Dirigido por Joe Johnston - escolhido graças a seu trabalho em "Rocketeer" (1991) e "O céu de outubro" (1999) -, "Capitão América" encontrou em Chris Evans seu intérprete ideal, mas foi somente depois de várias recusas que o ator (já conhecido do público de quadrinhos por ter vivido o Tocha Humana na adaptação de "Quarteto fantástico" (2005)) finalmente aceitou o desafio de encarnar um dos maiores ícones da cultura pop do século XX. Primeira escolha dos produtores, Evans hesitou por um bom tempo em adentrar o universo da Marvel - e nesse meio-tempo, abriu espaço para inúmeras outras possibilidades, que iam de Brad Pitt e Matthew McConaughey a Will Smith e Leonardo DiCaprio, passando por Sam Worthington e John Krasinski (que chegou a fazer teste de figurino mas desistiu da empreitada na última hora). Bonito e carismático, Evans nem precisa fazer muito esforço para convencer a plateia de seus atos de heroísmo - ao mesmo tempo em que também convence facilmente como o jovem frágil rejeitado por seus (poucos) dotes físicos. O que talvez seja pouco crível apenas é o relacionamento amoroso entre Steve e a agente britânica Peggy Carter (interpretada pela insossa Hayley Atwell) - apesar de ser um respiro em tantas cenas de ação, seu romance soa deslocado e pouco interessante, ao contrário da relação entre o protagonista e Bucky Barnes - personagem que será crucial na segunda aventura do herói.

Como é comum nos filmes da Marvel, a produção de "Capitão América: o primeiro vingador" é caprichada, tecnicamente impecável e milimetricamente calculada para conquistar todo tipo de plateia. Quando se detém a explorar as relações entre os personagens não vai além do básico - apesar de o elenco (que inclui Tommy Lee Jones e Samuel L. Jackson) arrancar o máximo de cada diálogo -, mas é evidente que o foco do roteiro são as sequências de ação (derivativas mas adequadas às expectativas de plateias sempre sedentas por adrenalina). No final das contas, é um filme que entrega o que promete e diverte a seu público-alvo independentemente da falta de criatividade de sua trama e seu desenvolvimento.

 

sexta-feira

O CASAMENTO DE RACHEL

O CASAMENTO DE RACHEL (Rachel getting married, 2008, Sony Pictures Classic, 110min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Jenny Lumet. Fotografia: Declan Quinn. Montagem: Tim Squyres. Música: Donald Harrison Jr., Zafer Tawil. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Ford Wheeler/Chryss Hionis. Produção executiva: Carol Cuddy, Ilona Herzberg. Produção: Neda Armian, Jonathan Demme, Marc Platt. Elenco: Anne Hathaway, Debra Winger, Rosemarie De Witt, Anisa George, Mather Zickel, Tunde Adebimpe, Bill Irwinn, Anna Deavere Smith, Sebastian Stan. Estreia: 01/9/08 (Festival de Veneza)

 Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Anne Hathaway)

Quando Jonathan Demme começou a chamar a atenção do público, na segunda metade da década de 1980, ele se destacava por comédias amalucadas com personagens femininas fortes - "Totalmente selvagem" (1986), com Melanie Griffith, e "De caso com a máfia" (1988), com Michelle Pfeiffer, tornaram-se cult movies principalmente por suas atrizes principais. Depois, em uma nova fase, ele abraçou o cinema comercial (pero no mucho) com filmes vencedores do Oscar - "O silêncio dos inocentes" (1991), vencedor das cinco principais estatuetas da Academia, e "Filadélfia" (1993), que deu o primeiro troféu a Tom Hanks e premiou Bruce Springsteen por sua bela "Streets of Philadelphia". Mais tarde, depois do fracasso do ambicioso "Bem-amada", estrelado por Oprah Winfrey em 1998, dedicou-a remakes: "O segredo de Charlie" (2002), tinha Mark Wahlberg e Thandie Newton, e "Sob o domínio do mal" (2004) foi estrelado por Denzel Washington e Meryl Streep, mas nenhum fez barulho nas bilheterias e junto aos críticos. Foi assim, como um cineasta já acostumado aos altos e baixos da profissão e que buscava conforto dirigindo documentários e videoclipes, que Demme voltou aos holofotes. Realizado de forma independente e emprestando seu visual dos documentários, "O casamento de Rachel" estreou no Festival de Veneza de 2008 - e, de cara, chamou a atenção para a qualidade que seria seu maior trunfo nas cerimônias de premiação da temporada: o desempenho excepcional de sua protagonista, Anne Hathaway.

Uma atriz então em ascensão, com papéis tanto em dramas premiados como "O segredo de Brokeback Mountain" (2005) quanto em sucessos de bilheteria como "O diabo veste Prada" (2006), a jovem Hathaway (que levaria o Oscar de coadjuvante pela versão cinematográfica do musical "Os miseráveis", de 2012) foi a escolha perfeita para viver a conturbada e complexa protagonista do filme de Demme, uma mulher não exatamente admirável, mas tão repleta de nuances que somente uma atriz com seu talento conseguiria segurar sem apelar para os clichês que se poderia esperar. Tudo bem que o roteiro de Jenny Lumet - filha do veterano cineasta Sidney Lumet - foge completamente de qualquer emoção mais fácil, mas é a união da direção de Jonathan e da atuação de Hathaway que dá a estrutura da narrativa. Filmado com uma câmera na mão e contando apenas com uma trilha sonora diagética (originada apenas pelos sons dentro da ação), "O casamento de Rachel" se equilibra com cuidado entre um drama familiar e o registro de uma cerimônia que tem espaço para reconciliações, brigas, lavagem de roupa suja e, para salvação de todos, demonstrações de amor profundo e apaixonado. Tudo regado a vários gêneros musicais (inclusive com a participação de uma escola de samba) e interpretações precisas - e conta-se aí o retorno da ótima Debra Winger, no papel,  secundário mas crucial, da mãe da personagem central.


Kym Buchman, a protagonista, acaba de ser liberada provisoriamente de sua reabilitação para o casamento de sua irmã mais velha, Rachel (Rosemarie De Witt). Ausente de casa há nove meses, e frequentadora habitual da clínica de onde está saindo, Kym não é exatamente uma pessoa confiável, o que fica claro com a constante vigilância de seu pai, Paul (Bill Irwin) e com o clima de tensão que seu retorno ao lar provoca em todos. A relação entre Kym e Rachel é de carinho, mas não demora para que a noiva passe a sentir-se incomodada com a presença de sua irmã mais nova - especialmente quando Kym começa a dar sinais de que pretende aproveitar a festa para tentar remendar alguns de seus erros do passado, o que inclui um acidente fatal que ainda não está superado pela família. Envolvida também em uma relação casual com um dos padrinhos do noivo, Kieran (Mather Zickel), a quem conheceu em uma reunião de Alcóolicos Anônimos, Kym está sempre a um passo de uma recaída - ou, pior ainda, de uma tentativa desesperada de provar-se uma mulher mais segura e confiante para todos os convidados do casamento, incluindo a desconhecida família do noivo.

Ainda que tenha recuperado parte do prestígio do diretor, "O casamento de Rachel" nem de longe chega a lembrar a genialidade demonstrada em seus filmes mais populares - principalmente o inesquecível "O silêncio dos inocentes". Seu filme acerta em não fazer de Kym uma heroína chorosa ou vítima - ainda que isso faça dela um tanto irritante, também a torna muito mais crível. Anne Hathaway deita e rola com as oportunidades do papel (que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz), e enfrenta com segurança a série de desafios que o roteiro lhe apresenta, incluindo um embate violento com sua mãe e uma sessão de lembranças que traz à tona (mais uma vez) a tragédia causada por ela na adolescência. Os personagens de Lumet são realistas, humanos e passíveis de erros, e é exatamente por isso que "O casamento de Rachel" consegue ser tão incômodo e quase desagradável em alguns momentos. A delicadeza com que Demme trata a produção, no entanto, evita o melodrama barato e a aproxima mais da filmografia de Robert Altman - grande referência do diretor durante as filmagens. Simples no visual e complexo nos sentimentos, "O casamento de Rachel" não é recomendado para quem busca entretenimento puro - mas pode conquistar àqueles que procuram uma consistência dramática cada vez mais rara no cinemão norte-americano.

quarta-feira

EU, TONYA

EU, TONYA (I, Tonya, 2017, AI-Film/ClubHouse Pictures, 120min) Direção: Craig Gillespie. Roteiro: Steven Rogers. Fotografia: Nicolas Karakatsanis. Montagem: Tatiana S. Riegel. Música: Peter Nashel. Figurino: Jennifer Johnson. Direção de arte/cenários: Jade Healy/Adam Willis. Produção executiva: Len Blavatnik, Zanne Devine, Aviv Giladi, Ben Giladi, Craig Gillespie, Toby Hill, Vince Holden, Rosanne Korenberg. Produção: Margot Robbie, Steven Rogers, Bryan Unkeless. Elenco: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney, Julianne Nicholson. Estreia: 08/9/2017 (Festival de Toronto)

3 indicações ao Oscar: Atriz (Margot Robbie), Atriz Coadjuvante (Allison Janney), Montagem
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Allison Janney)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Allison Janney) 

O início dos anos 1990 foi pródigo para os tabloides sensacionalistas norte-americanos. Primeiro Lorena Bobbitt arrancou o pênis do marido e jogou pela janela do carro, tornando-se um símbolo do feminismo e da luta contra a violência doméstica. Depois, os irmãos Menendez - filhos de um executivo do entretenimento - foram presos e julgados, acusados do assassinato dos pais, e revelaram um histórico de abusos sexuais, em um julgamento que parou o país. E por fim, o mundo do esporte também apresentava seu escândalo, quando a patinadora artística Nancy Kerrigan foi cruelmente atacada por um homem que, segundo apuraram as investigações, tinha ligações com o marido de sua maior rival, Tonya Harding. A história, que ilustrou páginas e mais páginas de jornais do mundo todo, tornou-se icônica e entrou para os anais do esporte, e parecia estranho que Hollywood tivesse demonstrado pouco interesse por uma trama com todos os ingredientes necessários para capturar a atenção do público. Mais de vinte anos se passaram até que "Eu, Tonya" - uma visão ácida, sarcástica e ainda assim emocionante - finalmente visse a luz dos refletores. Com um roteiro espertíssimo de Steven Rogers (considerado um dos melhores scripts não filmados de 2016) e a direção inspirada do australiano Craig Gillespie (do ótimo e sub-apreciado "A garota ideal", de 2007), o filme, produzido e estrelado por Margot Robbie, tornou-se uma das produções mais premiadas de sua temporada - e pode ser considerado uma das mais criativas cinebiografias já realizadas pelo cinema americano.

Sem desrespeitar sua protagonista, mas extraindo dela todas as suas possibilidades - tanto dramáticas quanto cômicas -, o filme de Gillespie assume a forma de um documentário informal, com os lances trágicos da história sendo mostrados ao público pelos olhos dos próprios personagens (às vezes sendo confirmados pela edição ágil e bem-humorada, às vezes sendo traídos pelas contradições mais óbvias). Buscando inspiração em programas policiais sensacionalistas como "Hard Copy" e ousando na forma de apresentar uma história já devidamente vasculhada e requentada diversas vezes em duas décadas, o roteiro não se furta a investir em um senso de humor macabro ao mesmo tempo em que tenta chegar ao fundo das razões que levaram ao trágico acontecimento. Surpreendendo a plateia ao não se deter no "incidente" em si e sim nas relações doentias de Tonya - com sua mãe amarga e super-protetora e com seu marido violento -, o filme é muito mais psicologicamente profundo do que seu verniz cômico deixa aparentar, e boa parte de seu êxito em transcender os rótulos vem dos brilhantes trabalhos de Robbie e Allison Janney - esta última premiada com praticamente todos os troféus do ano, incluindo o Golden Globe e o Oscar de atriz coadjuvante.


Um dos maiores méritos do roteiro de Steven Rogers é não fixar-se exclusivamente no caso Harding-Kerrigan, mas sim investigar, através da biografia de sua protagonista, os fatos que levaram a tal desfecho. De uma infância reprimida e controlada com mão de ferro por sua mãe, Lavona (Allison Janney em atuação impecável) até o casamento turbulento e agressivo com Jeff Gillooly (Sebastian Stan, muito bem aproveitado pela direção de Gillespie), o filme acompanha uma trajetória repleta de altos e baixos físicos e psicológicos, que forjaram a personalidade complexa de Tonya. Deixando de lado o glamour dos ringues de patinação e se concentrando no dia-a-dia pesado da atleta, o filme rompe com a estrutura convencional do "levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima" e se mostra uma produção ousada em retratar seus personagens sem condescendência ou julgamentos morais. É sintomático que Nancy Kerrigan mal apareça em cena - o roteiro é centrado justamente em Tonya e seu relacionamento com as duas pessoas mais próximas (e por coincidência mais tóxicas). Quando se assiste ao filme, é difícil não imaginar como Harding não sofreu destino ainda pior.

Com uma edição inteligente, que evita o tradicional e acentua o tom sarcástico do roteiro, "Eu, Tonya" também brilha em outros aspectos: a trilha sonora repleta de sucessos da época, a caracterização impecável e a direção segura de Gillespie, porém, não fazem sombra ao desempenho arrebatador de Margot Robbie no papel principal. Saltando de papéis coadjuvantes em filmes elogiados como "O lobo de Wall Street" (2013) para o estrelato em um trabalho difícil e exigente, a bela atriz surpreendeu crítica e público com uma interpretação nunca aquém de brilhante. Mesmo que efeitos visuais a substituam nas cenas em que Harding está no ringue, é Robbie quem dá consistência dramática e irônica à personagem, inserindo um toque de humanidade essencial a uma trama na qual ela poderia facilmente ser acusada de monstro insensível e frio. Desviando das armadilhas sentimentais e evitando o humor fácil, a atriz fez por merecer os elogios unânimes e a indicação ao Oscar - e deu um novo rumo a uma carreira que promete oferecer à plateia muitos outros trabalhos dignos de prêmios. "Eu, Tonya" é um feliz casamento entre um roteiro sagaz, uma direção inspirada, uma trama inacreditavelmente verdadeira e um elenco excepcional. Imperdível!

quinta-feira

RICKI AND THE FLASH: DE VOLTA PARA CASA

RICKI AND THE FLASH: DE VOLTA PARA CASA (Ricki and The Flash, 2015, TriStar Pictures, 101min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Diablo Cody. Fotografia: Declan Quinn. Montagem: Wyatt Smith. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/George De Titta Jr.. Produção executiva: Ron Bozman, Lorene Scafaria, Adam Siegel, Ben Waisbren. Produção: Diablo Cody, Gary Goetzman, Mason Novick, Marc Platt. Elenco: Meryl Streep, Kevin Kline, Mammie Gummer, Rick Springfield, Audra McDoald, Ben Platt, Sebastian Stan, Nick Westrate. Estreia: 03/8/15

O diretor é Jonathan Demme, vencedor do Oscar por "O silêncio dos inocentes" (91). O roteiro é de Diablo Cody, que levou pra casa uma estatueta por "Juno" (2007). O elenco reúne os premiados Meryl Streep (três Oscar e mais de vinte indicações) e Kevin Kline (laureado como coadjuvante por "Um peixe chamado Wanda", de 1988) - ambos do elenco do inesquecível "A escolha de Sofia" (82). A trilha sonora conta com canções de Bruce Springsteen, Tom Petty, Rolling Stones, Pink e Lady Gaga - todas interpretadas por Streep. E, para completar, a veterana atriz estaria em cena no papel de mãe de sua filha na vida real, Mammie Gummer. Com tantos atrativos, por que então "Ricki and The Flash: de volta para casa" deu tão errado? Tido como um forte candidato às cerimônias de premiação das quais Streep é frequentadora assídua, o filme de Demme não apenas naufragou nas bilheterias americanas como foi solenemente ignorado nos tapetes vermelhos de Hollywood. Talvez tenha sido o excesso de expectativas, mas o fato é que o último trabalho do cineasta (que morreu em abril de 2017) decepcionou a crítica e não chamou a atenção do público - o que não é exatamente difícil de entender, uma vez que o filme é um drama familiar apenas mediano, nem de longe inovador e corajoso como seus melhores trabalhos.

Revelado por comédias anárquicas, como "Totalmente selvagem" (87) e "De caso com a máfia" (88), Jonathan Demme acabou rendido ao mainstream depois da surpreendente (e maciça) vitória no Oscar 92, quando seu mórbido "O silêncio dos inocentes" ganhou as cinco principais estatuetas da noite - filme, diretor, roteiro, ator e atriz. Alçado imediatamente a um nome comercialmente viável (o filme de suspense também foi um enorme sucesso financeiro), ele abraçou de vez a comunidade hollywoodiana. Realizou "Filadélfia" (93) - que deu o Oscar de melhor ator a Tom Hanks - e passou a dividir a carreira entre produções caras ("Bem-amada", fracasso de 1998, estrelado e produzido por Oprah Winfrey), remakes ("O segredo de Charlie" em 2002 e "Sob o domínio do mal" em 2004) e documentários e ocasionais episódios de séries de televisão. Em 2008, experimentou uma quase ressurreição crítica quando seu "O casamento de Rachel" proporcionou à Anne Hathaway sua primeira indicação ao Oscar. Experiente e iconoclasta - mas bem mais manso do que no começo de sua trajetória -, Demme não demonstra, em "Ricki and The Flash", a mesma energia de suas obras mais célebres. Mesmo sendo um filme que não chega a ofender a inteligência da plateia, é apenas uma pálida lembrança de seu talento incendiário e pulsante.


Levemente inspirada na história de sua sogra (uma roqueira mãe de família), Diablo Cody criou uma trama frágil, amparada basicamente no carisma de seus protagonistas e na trilha sonora caprichada. Meryl Streep faz o que pode no papel principal - além de cantar e tocar guitarra de verdade -, mas Kevin Kline é subaproveitado, relegado a um segundo plano injusto e pouco interessante. Streep vive a líder de um grupo de rock chamado Ricki and The Flash, que toca em um pequeno bar da Califórnia: é assim, ao lado do marido/colega/namorado Greg (o músico Rick Springfield) e outros músicos de meia-idade que terminou sua busca pelo sucesso artístico, que a levou a abandonar a família quando os filhos ainda eram crianças. Como um chamado do passado, seu ex-marido, Pete (Kevin Kline) lhe pede socorro em uma situação emergencial: abalada com o fim de seu casamento ainda recente, sua filha, Julie (Mamie Gummer), está em depressão profunda e, segundo seu pai, precisa da ajuda materna. Mesmo hesitante quanto à veracidade da carência de Julie, Ricki (cujo nome verdadeiro é Linda) pega um avião para Indianapolis e encontra a jovem realmente em estado deplorável. Porém, como sua saída da vida da família não foi exatamente diplomática, existem muitas arestas a serem aparadas na relação mãe e filha - assim como na dinâmica de seu relacionamento com os outros dois filhos, um deles prestes a casar e o outro assumidamente gay.

A volta inesperada de Ricki (ou Linda) ao seio da família, que foi reconstruída em sua ausência, serve como o catalisador que faltava para uma tormenta de ressentimentos vir à tona. Seus filhos não a consideram tanto como à nova esposa de Peter, a dedicada Maureen (Audra McDonald), e ela passa a questionar se suas escolhas realmente valeram a pena. Nesse meio-tempo, ressurge entre ela e Julie uma tênue, mas ainda existente, ligação, e seu deslocamento em relação a tudo que se refere à vida normal torna-se não mais motivo de orgulho, e sim de certa tensão. O cineasta constrói com delicadeza a reconciliação entre mãe e filhos, mas é inegável que o maior problema do filme é o roteiro superficial de Diablo Cody. Ao contrário de "Juno" - e até mesmo de "Jovens adultos" (2012), seu reencontro com o cineasta Jason Reitman -, a trama de "Ricki and The Flash" nunca soa convincente o bastante para emocionar o espectador. Até mesmo o clímax parece forçado - seguindo uma receita já testada diversas vezes e que pode até divertir, mas nunca ultrapassa o previsível e o inverossímil. É uma pena que a despedida de Demme não tenha feito jus à sua carreira - mas, ao menos, é uma produção simpática que, se não muda a vida de ninguém, também não é uma total perda de tempo. Realmente é só uma questão de baixar as expectativas que seus créditos possam suscitar.

quarta-feira

PERDIDO EM MARTE

PERDIDO EM MARTE (The martian, 2015, 20th Century Fox, 144min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Drew Goddard, romance de Andy Weir. Fotografia: Dariusz Wolski. Montagem: Pietro Scalia. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Celia Bobak, Zoltán Horváth. Produção executiva: Drew Goddard. Produção: Mark Huffman, Simon Kinberg, Michael Schaefer, Ridley Scott, Aditya Sood. Elenco: Matt Damon, Jessica Chastain, Kristen Wiig, Jeff Daniels, Michael Peña, Sean Bean, Kate Mara, Chiwetel Ejiofor, Sebastian Stan, Aksel Hennie. Estreia: 11/9/15 (Festival de Toronto)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Matt Damon), Roteiro Adaptado, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Ator Comédia/Musical (Matt Damon) 

Uma das maiores polêmicas na ocasião de entrega dos Golden Globes 2016 ocorreu com a vitória dupla de "Perdido em Marte", de Ridley Scott, premiado como melhor filme e ator (Matt Damon) na subcategoria comédia ou musical. Não que o filme não tivesse méritos para isso, já que é um dos melhores trabalhos do cineasta inglês desde o megasucesso "Gladiador" (2000): o problema é que a adaptação do romance de Andy Weir NÃO é uma comédia, apesar de alguns momentos menos pesados e um certo tom de ironia no protagonista. Uma ficção científica à moda antiga, mas com todo o requinte visual que a tecnologia moderna pode oferecer, "Perdido em Marte" acabou sendo inscrito para as premiações para não enfrentar uma concorrência maior com os dramas lançados na temporada - e dos quais saiu vencedor o controverso "Spotlight: segredos revelados" - e se deu muito bem. Além das estatuetas do Golden Globe (de resto merecidas), arrebatou sete indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, ator e roteiro adaptado. Ridley Scott, inexplicavelmente, ficou de fora.

Um dos grandes cineastas de sua época a ainda não terem um Oscar em casa, Ridley Scott tem familiaridade com a ficção científica, gênero que deu à sua carreira alguns de seus maiores êxitos (comerciais ou de crítica). São dele filmes essenciais, como "Alien: o oitavo passageiro" (79) e "Blade Runner: o caçador de androides" (82), e nem mesmo seu "Prometheus" (2012), que dividiu opiniões, é um filme menor. Confortável em lidar com os paradigmas do gênero e com as dificuldades de comandar orçamentos generosos - mais de 100 milhões de dólares no caso de "Perdido em Marte" - Scott tirou de letra orquestrar as aventuras e desventuras de Mark Watney, o protagonista de uma história que, apesar de carregar todos os elementos clássicos, conhecidos e amados pelos fãs da ficção científica, agrada também à plateia um tanto avessa a eles. Leve, divertido e emocionante na medida certa, é um filme com tudo de melhor que Hollywood tem a oferecer, embrulhado em um atraente pacote visual e dramático.


O filme não demora a começar, impondo o ritmo desde suas primeiras cenas, que mostram uma equipe de astronautas da NASA sendo obrigada a abortar sua missão em Marte devido a uma violenta e inesperada tempestade que praticamente os expulsa do planeta. Além do fracasso de sua viagem, o grupo liderado pela Comandante Melissa Lewis (Jessica Chastain) ainda precisa lidar com a morte de um de seus integrantes, o botânico Mark Watney (Matt Damon), atingido pelos destroços da tormenta. O que eles não sabem, porém, é que Watney não apenas sobreviveu - graças a um incrível golpe de sorte - como, ciente de sua situação desesperadora, começou a fazer planos para manter-se vivo enquanto não é resgatado. Utilizando-se de sua experiência e seus conhecimentos de física e matemática, ele calcula milimetricamente cada porção de comida, cada fração de oxigênio e cada possibilidade de ser descoberto pelos cientistas na Terra. O que ele não sabe é que, mesmo depois de ter sua sobrevivência descoberta (por acaso), os planos da agência não são tão favoráveis assim em relação a seu resgate. É somente quando as forças do governo, de cientistas estrangeiros e de sua própria equipe são reunidas que um mirabolante e arriscado plano é posto em prática - mesmo sem a certeza de que dará certo.

Com um roteiro surpreendente, que versa sobre teorias complexas mas nunca deixa o público alienado, "Perdido em Marte" tem duas linhas narrativas empolgantes, cada uma com seu próprio ritmo e tom. Enquanto Watney inventa e reinventa modos de comunicação com a Terra e meios de sobreviver com a escassez de comida e oxigênio, membros de diversas agências científicas tentam encontrar soluções para o problema - a essa altura já compartilhado pelo mundo inteiro. Matt Damon dá um show na pele do perseverante protagonista, injetando um senso de humor inesperado a uma espécie de Robinson Crusoé da era moderna. É ele quem comanda o espetáculo - e sua indicação ao Oscar foi extremamente justa, uma vez que ele praticamente atua sozinho por mais de duas horas de sessão. Dividindo a atenção com sua odisseia, as manobras científicas para resgatá-lo igualmente seguram a plateia na poltrona, equilibrando com maestria momentos de pura tensão com cenas brilhantemente executadas, onde se destacam a edição de som e os efeitos visuais (também indicados ao Oscar). É mérito do roteiro e da direção costurar com tanta precisão o drama e a ação, levando o espectador a uma experiência divertida e altamente competente. Com uma trilha sonora onde se destacam sucessos conhecidos do público - "I will survive", de Gloria Gaynor e "Starman", de David Bowie surgem em momentos exatos - e um tom de esperança louvável, "Perdido em Marte" consegue também a façanha de ser o primeiro filme ambientado em Marte a se dar bem na bilheteria e na opinião dos críticos - depois que os execráveis "Planeta Vermelho" e "Missão: Marte", ambos de 2000, praticamente estragaram o planeta por mais de uma década com seus roteiros tenebrosos. É um êxito merecido, de um cineasta ainda não devidamente reconhecido pela Academia.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...