quinta-feira

VAMPIROS DO DESERTO


VAMPIROS DO DESERTO (The forsaken, 2001, Screen Gems/Sandstorm Films, 90min) Direção e roteiro: J. S. Cardone. Fotografia: Steven Bernstein. Montagem: Norman Buckley. Música: Tim Jones, Johnny Lee Schell. Figurino: Ernesto Martinez. Direção de arte/cenários: Martina Buckley/Trevor Murray. Produção: Scott Einbinder, Carol Kottenbrook. Elenco: Kerr Smith, Brendan Fehr, Izabella Misko, Johnathon Schaech, Carrie Snodgress. Estreia: 27/4/2001

Típico produto da geração MTV, com cortes ágeis, visual modernoso e atores fotogênicos, "Vampiros do deserto" chegou às telas com um público-alvo definido. Pode não ter feito um sucesso estrondoso de bilheteria, mas é inegável que, em comparação com uma gama de produções do gênero que abarrotavam as salas de cinema no começo dos anos 2000, tem muito mais a dizer. Mergulhando no universo do vampirismo sem medo de criar uma nova mitologia e apostando na sensualidade e na violência - ainda que moderada pela edição -, o filme de J. S. Cardone (cineasta sem maior expressão e nenhum grande filme no currículo) acerta em se levar a sério mas peca justamente no calcanhar de Aquiles da maioria dos exemplares de terror de sua época: o roteiro superficial, que não permite uma conexão maior entre os personagens e o espectador.

O protagonista do filme é Sean (Kerr Smith), um jovem que trabalha como editor de trailers de cinema enquanto não realiza o sonho de tornar-se diretor. Contratado para dirigir uma Mercedes até a Flórida e entregá-la sem um arranhão à proprietária, ele aproveita a situação para juntar dinheiro para comparecer ao casamento da irmã. No caminho, as coisas não saem exatamente como o previsto e ele se vê quase obrigado a dar carona ao misterioso Nick (Brendan Fehr), que se oferece para pagar a gasolina da viagem. Durante uma parada para comer, a dupla de novos amigos encontra Megan (Izabella Miko), uma garota em nítido sofrimento físico que os aproxima de uma realidade assustadora, revelada por Nick: a presença maligna de um grupo de vampiros, liderados por Kit (Jonathon Schaech) e cuja origem remete às cruzadas religiosas. Há algum tempo na caça de Kit, o corajoso Nick conta com a ajuda de Sean para exterminá-lo e salvar a vida tanto de Megan quanto do próprio motorista - em vias de transformar-se também em morto-vivo.

 

A escolha de Kerr Smith para o papel central de "Vampiros do deserto" tem certa razão de ser: sucesso na série juvenil "Dawson's Creek" - que também revelou Katie Holmes e Michelle Williams -, Smith também fez parte do elenco do bem-sucedido "Premonição" (2000) e parecia uma aposta certeira junto ao público-alvo, com sua imagem de galã e moço de família. Seu colega de elenco, Jonathon Schaech, já tinha um currículo maior, dividindo a carreira entre produções comerciais - como "Colcha de retalhos" (1995) e "The Wonders: o sonho não acabou" (1996) - e incursões ao cinema independente - "Geração maldita" (1995), normalmente enfatizando uma persona sexy e marginal. O encontro dos dois opostos - com o simpático Brendan Fehr no meio de campo - é uma das camadas mais interessantes do filme de Cardone, que foi apontado, anos depois de seu lançamento, como um conto de descoberta da sexualidade homoerotica entre os dois protagonistas. Tal ideia soa um tanto deslocada diante da trama, que não encontra espaço para qualquer romance exceto a atração de Sean por Megan - algo pouco desenvolvido em um roteiro que se concentra em sangue (muito), ação (razoável) e a tentativa de criar um histórico cultural aos sanguessugas. Cardone se sai relativamente bem ao disfarçar um orçamento modesto (cerca de 15 milhões de dólares) com soluções criativas e uma direção que enfatiza os pontos positivos do roteiro.

Sim, o roteiro escrito pelo próprio diretor tem seus méritos. Por mais que falhe em não aprofundar seus personagens centrais e até mesmo sua relação, Cardone oferece ao espectador sequências bastante interessantes, em que explora a sede de sangue das plateias mais jovens da forma mais elegante possível. Mesmo não sendo uma produção inesquecível ou capaz de revitalizar os filmes do gênero, "Vampiros do deserto" não decepciona a quem procura um passatempo digno e que, por incrível que pareça, diverte sua plateia. Não chega a ser um "Garotos perdidos" - que marcou uma geração inteira desde seu lançamento, em 1987 - mas tampouco desrespeita os cânones clássicos, ainda que modernizados e pasteurizados para uma juventude acostumada a banhos de sangue.

quarta-feira

DA MAGIA À SEDUÇÃO


DA MAGIA À SEDUÇÃO (Practical magic, 1998, Warner Bros, 104min) Direção: Griffin Dunne. Roteiro: Robin Swicord, Akiva Goldsman, Adam Brooks, romance de Alice Hoffman. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Elizabeth Kling. Música: Alan Silvestri. Figurino: Judianna Makovksy. Direção de arte/cenários: Robin Standefer/Claire Jenora Bowin. Produção executiva: Bruce Berman. Produção: Denise Di Novi. Elenco: Sandra Bullock, Nicole Kidman, Aidan Quinn, Dianne Wiest, Stockard Channing, Goran Visnjic, Marc Feuerstein, Evan Rachel Wood, Margo Martindale, Chloe Webb. Estreia: 16/10/98

Quando "Da magia à sedução" chegou aos cinemas, Nicole Kidman ainda não era a estrela que viria a se tornar depois do sucesso de "Moulin Rouge: o amor em vermelho" e "Os outros" - ambos lançados em 2001 - nem tampouco tinha o prestígio que o Oscar por "As horas" (2002) lhe traria. Em outubro de 1998, data da estreia, a maior estrela do projeto era Sandra Bullock, em franca ascensão desde que chamou a atenção do público pela primeira vez, em "Velocidade máxima" (1994). A união das duas atrizes, porém, ao contrário do que se poderia esperar, decepcionou. Com menos de 50 milhões de dólares arrecadados nas bilheterias mundiais, o filme dirigido pelo também ator Griffin Dunne - e baseado em um best-seller de Alice Hoffman - ficou em um estranho meio-termo entre uma comédia romântica com tons sobrenaturais e um suspense fantástico com elementos típicos das histórias de amor que enchem os olhos dos fãs do gênero. Escorado no carisma de suas estrelas e com o apoio luxuoso de um elenco coadjuvante impecável, "Da magia à sedução" funciona como um passatempo acima da média - mas inegavelmente sofre com sua atmosfera um tanto indecisa.

De acordo com um dos roteiristas, o premiado Akiva Goldsman - Oscar por "Uma mente brilhante" (2001) - a primeira versão do filme privilegiava o lado mais sombrio da história criada por Hoffman e publicada em 1995. O marketing promovido pela Warner, porém, conduziu a produção a um resultado mais leve, de olho em um público mais amplo. Sendo assim, a saga de duas jovens irmãs lidando com seus dons de feitiçaria encontrou, no filme de Dunne, um viés mais lúdico e menos mórbido. Se por um lado é um acerto, ao explorar o talento cômico de suas atrizes, também deixa no ar a sensação de um resultado final híbrido, que não atinge todo o seu potencial dramático. Tal problema de foco respingou inclusive na trilha sonora original de Michael Nyman, que foi substituída, depois de exibições-teste, por uma música considerada menos "europeia e intrusiva", composta por Alan Silvestri. Com intenções mais comerciais, a versão que finalmente chegou às telas acabou por decepcionar o estúdio - mas tornou-se cult com o passar do tempo, principalmente devido à presença de Kidman e Bullock.

 

As duas atrizes vivem, respectivamente, Gillian e Sally Owens, irmãs que, órfãs, vivem desde a infância em uma pequena ilha na costa de Massachussets, criadas por suas tias, Frances (Stockard Channing) e Jet (Dianne Wiest). Descendentes de uma longa linhagem de bruxas, elas sabem que são amaldiçoadas para o amor e se ressentem de terem passado a vida toda sofrendo o preconceito dos outros moradores locais. Chegando à idade adulta, porém, sua união é posta à prova pelas radicais diferenças entre suas personalidades. Enquanto Sally - introvertida e romântica - desafia sua sina e vive um casamento feliz e realizado com Michael (Mark Feuerstein), Gillian - rebelde e sensual - foge da cidade com o objetivo de viver a vida longe dos olhos maldosos dos conterrâneos. A maldição que as une, no entanto, parece mais forte do que qualquer coisa: Sally fica viúva depois de um trágico acidente, e Gillian se envolve em um relacionamento tóxico e violento com o perigoso Jimmy Angelow (Goran Visjnic) - uma relação cujos desdobramentos trágicos a obriga a retornar ao lar e apresenta as duas irmãs o detetive de polícia Gary Hallet (Aidan Quinn). Sua reunião abala a tranquilidade da pequena cidade - mas pode, paradoxalmente, ajudá-las a superar o preconceito que cerca sua família e suas origens.

O que pode ser dito a respeito de "Da magia à sedução" é que, apesar dos problemas, o produto final é um delicioso programa para os menos exigentes. No auge da beleza, Nicole Kidman rouba a cena como a tresloucada e irresponsável Gillian - um contraponto aos dramas de Sally, interpretada por uma Sandra Bullock competente mas repetindo os trejeitos que fizeram dela uma grande estrela. Stockard Channing e Dianne Wiest brilham a cada aparição e a direção de Griffin Dunne faz o possível para extrair o melhor de um roteiro cuja mudança de tom no terço final prejudica mais do que ajuda. Para os fãs de suas atrizes centrais é imperdível - mas fica no ar a sensação de que poderia ter sido melhor, mais memorável ou até mesmo mais corajoso.

terça-feira

FANTASMAS DO PASSADO

 


FANTASMAS DO PASSADO (Ghosts of Mississippi, 1996, Columbia Pictures, 130min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Lewis Colick. Fotografia: John Seale. Montagem: Robert Leighton. Música: Marc Shaiman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Karen A. O'Hara. Produção executiva: Charles Newirth, Jeffrey Stott. Produção: Nicholas Paleogolos, Rob Reiner, Andrew Schneiman, Frederick Zollo. Elenco: Alec Baldwin, Whoopi Goldberg, James Woods, Craig T. Nelson, Virginia Madsen, Diane Ladd, Susanna Thompson, William H. Macy, Jerry Levine, Terry O'Quinn, James Pickens Jr., Lucas Black, Jerry Hardin. Estreia: 20/12/96

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (James Woods), Maquiagem

Quando "Fantasmas do passado" chegou aos cinemas, em dezembro de 1996, fazia apenas dois anos e meio que sua história havia tido seu desfecho. O  terceiro julgamento de Byron de la Beckwith pelo assassinato do líder negro Medgar Evers em 1963 - depois de dois outros anulados por uma série de circunstâncias que beneficiavam o réu  - tornou-se assunto dominante em Jackson, Mississippi no começo de 1994 e sua versão cinematográfica aproveitou-se da energia de revolta local para tentar transmitir ao espectador toda a força dos acontecimentos que foram um marco na luta pelos direitos civis na sociedade norte-americana. Não conseguiu completamente. A bilheteria pouco expressiva e a receptividade morna da crítica acabaram por relegar o filme a uma espécie de limbo na carreira do diretor Rob Reiner, apenas um meio-termo entre o sucesso de "Conta comigo" (1986), "Harry & Sally: feitos um para o outro" (1989), "Louca obsessão" (1990) e "Questão de honra" (1992) e o fracasso comercial de "O anjo da guarda" (1994) e "Alex & Emma: escrevendo sua história" (2003).  Mesmo assim, chamou a atenção o suficiente para render a James Woods uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante - a segunda de sua carreira.

Woods - na pele do venal Byron de la Beckwith - é o destaque absoluto do filme de Reiner. Mesmo com poucos minutos em cena, seu desempenho consegue eclipsar tanto a potente atuação de Whoopi Goldberg (tentando dar consistência às falas clichês de sua personagem) quanto o esforço de Alec Baldwin, ainda não exatamente reconhecido como o ator de respeito que se tornaria com o passar dos anos. Fugindo da tentação de fazer de Beckwith um vilão humanizado (basta ver entrevistas reais para perceber que isso é impossível), o veterano ator dá o seu melhor para transmitir, em cada aparição, todo o ódio e o desprezo que move o movimento supremacista do sul dos EUA - e do resto do mundo. Sempre que surge na tela, seu olhar maligno e sua expressão de desprezo pela justiça tornam impossível ignorar seu minucioso trabalho - algo que nem mesmo a maquiagem exagerada (inexplicavelmente indicada ao Oscar) consegue atrapalhar. Lamentável que o roteiro não lhe dê mais espaço e se concentre naquele que talvez seja o grande problema do filme: a figura do criticado white savior - termo que caracteriza, normalmente de forma pejorativa, uma pessoa branca que se torna o herói em uma luta racial. Ok, o advogado que levou Beckwith aos tribunais em 1994,Bobby DeLaughter, é branco. Mas fica, mesmo assim, a sensação de um foco inadequado a uma trama tão nitidamente específica.


 

Apesar de dar a Whoopi Goldberg o importante e crucial papel de Myrlie Evers, a viúva do ativista pelos direitos civis Medgar Evers (vivido no filme por James Pickens Jr., de "Grey's Anatomy"), o roteiro de "Fantasmas do passado" se concentra basicamente em Bobby DeLaughter, promotor do Mississipi que entra, quase por acaso, no caso do terceiro julgamento de um racista radical acusado pelo assassinato. Casado, pai de dois filhos e parte de uma família tradicional e respeitada, Bobby se deixa convencer pela persuasiva Myrlie de que trinta anos já é tempo suficiente para tentar novamente a condenação do homem que matou seu marido. Para conquistar sua confiança, o promotor põe em risco seu casamento, sua carreira e até mesmo sua vida. Sem o apoio daqueles que o rodeiam - todos profundamente enraizados nos preconceitos sulistas - e questionado até mesmo por Myrlie, ele descobre, no processo rumo ao tribunal, que condenar um homem tão abertamente preconceituoso e intolerante não é tarefa fácil, especialmente em seu contexto geográfico e social.

Assumindo um papel que foi cogitado para ser de Tom Cruise ou de Tom Hanks - ambos com potencial comercial bem maior -, Alec Baldwin sofre com a direção quase mecânica de Rob Reiner e com o roteiro esquemático e quase frio. Ao tentar evitar o sentimentalismo inerente à história, Reiner nega à plateia o tom emocional que poderia fazer de seu filme uma produção marcante e relevante. Lançado no mesmo ano do sucesso "Tempo de matar" e do fiasco "O segredo" - ambos com temática semelhante, ainda que relatos de ficção baseados em livros de John Grisham -, "Fantasmas do passado" passou praticamente em branco nos cinemas e dificilmente é lembrado mesmo nas filmografias de seus atores principais. Não deixa de ser uma injustiça: mesmo longe de ser um dos melhores filmes do diretor ou até mesmo sobre o tema, é um entretenimento decente - ainda que seu foco seja um tanto problemático.

segunda-feira

BARRY LYNDON


BARRY LYNDON (Barry Lyndon, 1975, Warner Bros,
185min) Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Stanley Kubrick, romance de William Makepeace Thackeray. Fotografia: John Alcott. Montagem: Tony Lawson. Música: Leonard Rosenman. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Ken Adam/Roy Walker. Produção executiva: Jan Harlan. Produção: Stanley Kubrick. Elenco: Ryan O'Neal, Marisa Berenson, Patrick Magee, Gay Hamilton, Frank Middlemass, Leonard Rossiter. Estreia: 11/12/75 (Londres)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stanley Kubrick), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 4 Oscar: Fotografia, Trilha Sonora, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Conhecido por sua obsessão em termos profissionais, Stanley Kubrick dedicou boa parte de sua vida a pesquisar sobre Napoleão Bonaparte, a quem escolheu como tema de um seus filmes. Depois de ler alegadamente uma centena de livros sobre o líder francês e ter explorado o assunto por todos os ângulos, porém, viu seu projeto ser cancelado pela Warner Bros por problemas de orçamento - o que mostrou-se premonitório, haja visto o fracasso de "Waterloo" (1970), produzido por Dino de Laurentiis. Partiu, então, para a produção do controverso "Laranja mecânica" (1971) - que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor diretor - mas jamais abandonou a ideia de dirigir uma história passada no século XVIII e utilizar-se de todo o resultado de seus estudos. Foi então que mirou na obra do escritor William Makepeace Thackeray - mais precisamente em "Feira das vaidades", publicado em 1848. Com o tempo, ciente de que a vasta trama do livro não caberia em apenas três horas de duração, mudou novamente de alvo, mas ainda dentro do universo do autor, nascido na Índia em 1811. Surgia assim "Barry Lyndon", mais um de seus clássicos - e certamente a mais sofisticada de suas produções, premiada com 4 Oscar e celebrada pela crítica como uma obra-prima inquestionável.

Filmado na Inglaterra por longos nove meses - o que empurrou sua estreia para dezembro de 1975, quase dois anos e meio depois do começo da produção -, "Barry Lyndon" custou aos cofres da Warner aproximadamente 11 milhões de dólares, mas não foi um sucesso de bilheteria, para decepção do estúdio e do próprio diretor, que viu-se obrigado pela consciência a fazer de "O iluminado" - um projeto bem mais comercial - seu filme seguinte. Nem a exigência dos engravatados - de escalar um ator popular para o papel central, como forma de garantir seu sucesso financeiro - mostrou-se certeira. O apuro visual, o capricho na direção de atores e o roteiro (irônico e inteligente) não foram suficientes para conquistar a plateia. Sem as elocubrações filosóficas de "2001: uma odisseia no espaço" (1968) e o virtuosismo narrativo de "Laranja mecânica", o filme de Kubrick aposta em uma narrativa linear como forma de contar sua história, uma saga pessoal que satiriza com elegância a aristocracia europeia dos anos 1700. Com uma reconstituição de época impecável e uma fascinante direção de fotografia - que inclui belas sequências filmadas a luz de velas -, "Barry Lyndon" provou que o celebrado cineasta jamais poderia ser chamado de repetitivo.


 

A trama de "Barry Lyndon" começa com a morte do pai do protagonista, que se torna órfão ainda criança e passa a ser o centro das atenções de sua mãe. Vivendo na Irlanda do século XVIII, o rapaz, chamado Redmond Barry (e interpretado por Ryan O'Neal), se apaixona por sua prima, Nora Brady (Gay Hamilton), e tal sentimento é o catalisador de uma série de eventos que irá transformar sua vida pelas próximas décadas. Fugindo de uma acusação de assassinato - forjada por seu rival pelo amor da ambiciosa prima -, Barry acaba se unindo ao exército britânico na Guerra dos Sete Anos. Indolente e pouco honesto, ele deserta mas se vê obrigado a fazer parte do exército prussiano. Depois de salvar a vida de seu capitão, torna-se seu protegido, mas sua lealdade não é exatamente sólida e não demora a associar-se a Chevalier de Balibari (Patrick Magee), um jogador irlandês de quem só se afasta quando resolve dar o golpe do baú na milionária Lady Lindon (Marisa Berenson) - de quem assume também o sobrenome. Seu casamento com a viúva, porém, é destinado à tragédia, graças à rivalidade de Barry com seu enteado.

Talvez a maior ousadia de Stanley Kubrck em "Barry Lyndon" tenha sido a escolha de seu ator central. Um dos dez atores mais populares do cinema em uma pesquisa realizada em 1973 (ano do começo da produção), Ryan O'Neal só perdia, na época, para Clint Eastwood - logicamente velho demais para o papel. Vindo do sucesso de filmes como "Love story: uma história de amor" (1970), "Essa pequena é uma parada" (1972) e "Lua de papel" (1973), O'Neal não era, apesar disso, a primeira opção do cineasta, que preferia Robert Redford, também parte da lista dos grandes astros do momento. Com a recusa de Redford - que logo em seguida voltaria ao topo com "Nosso amor de ontem" e "Golpe de mestre", ambos de 1973 - o futuro marido de Farrah Fawcett entrou no projeto como uma forma de somar prestígio ao sucesso comercial. Por um lado deu certo: mesmo com a direção do perfeccionista Kubrick, o ator que levou multidões aos cinemas com seu drama lacrimoso ao lado de Ali McGraw não teve a mesma sorte com a produção que poderia lhe dar o status de grande intérprete - mas obteve o respeito que tal empreitada oferece. Seu desempenho, porém, acabou eclipsado pela opulência da produção: dotado de um ritmo próprio, cuja lentidão é parte indissociável do tom imposto pelo roteiro e pela direção, "Barry Lyndon" encanta principalmente pela beleza plástica. Suas três horas e cinco minutos de duração - meros doze minutos a menos que "Spartacus" (1960) e com direito a intervalo - passam sem pressa diante dos olhos do espectador, que fascinado com a bela fotografia de John Alcott, o figurino de Milena Canonero e o desenho de produção de Ken Adam, se deixa envolver por uma trama iconoclasta, satírica e quase cínica. Com um protagonista que vive na sociedade do século XVIII com uma mentalidade moderna, "Barry Lyndon" é, a seu modo, também à frente de seu tempo. Pode não ter revolucionado o cinema, mas é mais um filme indispensável na carreira de um dos poucos diretores que podem ser realmente chamados de artista.

 

sexta-feira

O DOCE SABOR DE UM SORRISO

 


O DOCE SABOR DE UM SORRISO (Only when I laugh, 1981, Columbia Pictures, 120min) Direção: Glenn Jordan. Roteiro: Neil Simon, peça teatral "The gingerbread lady", de sua autoria. Fotografia: David M. Walsh. Montagem: John Wright. Música: David Shire. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Marvin March. Produção: Roger M. Rothstein, Neil Simon. Elenco: Marsha Mason, James Coco, Joan Hackett, Kristy McNichol, David Dukes, Peter Coffield. Estreia: 13/9/81 (Festival de Toronto)

3 indicações ao Oscar: Atriz (Marsha Mason), Ator Coadjuvante (James Coco), Atriz Coadjuvante Joan Hackett)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Joan Hackett) 

Um dos mais populares dramaturgos norte-americanos dos anos 1960 e 1970, Neil Simon não apenas consagrou-se nos palcos da Broadway mas também teve uma bem-sucedida carreira em Hollywood, assinando grandes sucessos, que chegaram a lhe render indicações ao Oscar - pelos filmes "Um estranho casal" (1968), "Uma dupla desajustada" (1975), "A garota do adeus" (1977) e "California Suite" (1978). Vencedor de 3 Tony Awards e referência do teatro nos EUA, Simon enfrentou, em 1970, um revés artístico e comercial: sua peça "The gingerbread lady" teve uma decepcionante trajetória e parecia fadada a entrar para a história como um de seus poucos equívocos. Porém, na arte nem sempre um fracasso é definitivo, e onze anos depois, rebatizado de "Only when I laugh", seu texto ressurgiu em forma de roteiro e, posteriormente como um filme. Dirigido por Glenn Jordan e produzido pelo próprio Neil Simon, "O doce sabor de um sorriso" arrebatou três indicações ao Oscar (incluindo na categoria de melhor atriz, para Marsha Mason, então casada com o escritor) e reafirmou sua posição como um roteirista dos mais confiáveis e admiráveis de sua geração. Mesmo com sua história construída dentro de um universo todo particular - o mundo do teatro nova-iorquino, com suas idiossincrasias e dramas -, o filme estrelado por Mason acerta ao dotar sua protagonista de sentimentos universais e facilmente reconhecíveis dentro de qualquer família disfuncional.

A personagem central do filme é Georgia Hines (Marsha Mason), uma atriz de teatro que, depois de uma temporada de de três meses em uma clínica de reabilitação, volta ao convívio de seus amigos e de sua filha adolescente, Polly (Kristy McNichol). Polly, tentando reconectar-se com a mãe com quem tem uma relação delicada, resolve morar com ela em seu pequeno apartamento - e passa a testemunhar sua luta para evitar a recaída no álcool. Tentando retomar a carreira, Georgia aceita o desafio de protagonizar uma peça inédita de seu ex-namorado, David (David Dukes) - um texto que recria no palco sua problemática relação. Em seu dia-a-dia ela conta com o apoio de Toby Landau (Joan Hackett), cujo casamento está por um fio a despeito de seus cuidados com a aparência, e Jimmy Perrino (James Coco), um ator gay em busca de um lugar ao sol.

 


Típico produto de sua época - para o bem e para o mal -, "O doce sabor de um sorriso" não esconde suas origens teatrais, com um roteiro calcado basicamente em diálogos e cenas cuja construção vai crescendo gradualmente. É aí que se destaca a familiaridade de Mason em declamar o texto bem azeitado de Simon - em especial a ótima sequência em que, reunida com seus dois melhores amigos, ambos frustrados com suas vidas, sua Georgia cai na tentação de voltar a beber. Em momentos assim o filme cresce e disfarça a direção sem brilho de Glenn Jordan em seu primeiro filme. Substituindo Herbert Ross - que havia comandado com sucesso o ótimo "A garota do adeus" -, Jordan extrai de seus atores atuações inspiradas, mas falha em dotar o filme de um ritmo ágil que lhe faria muito bem. Uma edição mais enxuta, por exemplo, evitaria a duração excessiva (a trama frágil mal consegue sustentar as duas horas) e deixaria a história menos cansativa. Para sua sorte, porém, a química entre o elenco é das melhores possível. James Coco, inclusive, tem no currículo a dúbia glória de ter sido indicado ao Oscar e ao Framboesa de Ouro pelo mesmo desempenho: na pele do leal Jimmy Perrino, ele é dono de algumas das melhores falas do roteiro - mas perdeu o prêmio da Academia para John Gielgud (de "Arthur, o milionário sedutor") e o Framboesa para Steve Forrest (por "Mamãezinha querida"). E Joan Hackett, que brilha na pele da quase fútil Toby Landau, morreu aos 49 anos, em 1983, vítima de câncer no ovário, encerrando uma carreira promissora ainda incipiente. 

Leve e inteligente, mas pouco lembrado até mesmo pelos fãs de Neil Simon, que o coloca em segundo plano diante de uma série de sucessos, "O doce sabor de um sorriso" é uma produção simpática, dotada de alguns bons e específicos momentos. O resultado final é um tanto morno e carece da força dos melhores trabalhos do autor, além de deixar no ar uma sensação de frustração em relação ao destino de seus personagens. Porém, o carisma de Marsha Mason em um de seus melhores trabalhos e a leveza com que trata de temas pesados como o alcoolismo fazem dele uma bela opção para quem gosta do gênero e da Hollywood do começo da década de 1980 - um meio-termo entre a ousadia dos 70 e o conservadorismo que se avizinhava e tomaria conta dos anos seguintes.

quinta-feira

UM LUGAR NO CORAÇÃO

 


UM LUGAR NO CORAÇÃO (Places in the heart, 1984, TriStar Pictures, 111min) Direção e roteiro: Robert Benton. Fotografia: Néstor Almendros. Montagem: Carol Littleton. Música: John Kander. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Gene Callahan/Derek Hill, Lee Poll. Produção executiva: Michael Hausman. Produção: Arlene Donovan. Elenco: Sally Field, Danny Glover, John Malkovich, Ed Harris, Amy Madigan, Lindsay Crouse. Estreia: 04/10/84

07 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Benton), Atriz (Sally Field), Ator Coadjuvante (John Malkovich), Atriz Coadjuvante (Lindsay Crouse), Roteiro Original, Figurino

Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Sally Field), Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Sally Field)

Na cerimônia do Oscar que premiou os melhores filmes de 1984, uma situação atípica configurou-se na categoria de melhor atriz. Três das candidatas ao prêmio da Academia estavam na briga por papéis quase similares. Tanto Jessica Lange em "Minha terra, minha vida" quanto Sissy Spacek em "O rio do desespero" e Sally Field em "Um lugar no coração" chegaram às finais da disputa interpretando mulheres fortes e determinadas a defender sua propriedades rurais. Field levava vantagem - estava indicada por uma produção que também concorria a estatuetas de filme, direção e roteiro - e acabou saindo vitoriosa pela segunda vez na carreira, mas a a coincidência temática acusava mais do que simples falta de originalidade: no meio da década de 1980, uma espécie de ciclo de filmes situados nos anos pós-Depressão parecia servir como uma luva ao conservadorismo do governo Reagan, então em seu primeiro mandato como presidente. Ao voltar os olhos para o passado, os grandes estúdios de Hollywood recontavam uma parte da história que ninguém desejava repetir - e de quebra davam a cineastas e atores grandes oportunidades dramáticas e artísticas. Tudo bem que "Um lugar no coração" não levou o Oscar de melhor filme, mas sua premiação na categoria de roteiro original - contra três comédias - é sinal inequívoco de que até mesmo a Academia se deixou levar por tal sentimento de melancolia e superação.

Não que o filme de Robert Benton - voltando ao Oscar cinco anos depois do triunfo de seu "Kramer vs Kramer" (1979) - careça de qualidades que justificam seu sucesso junto à crítica. Com uma protagonista com ecos de Scarlett O'Hara e um tom triunfalista capaz de emocionar aos espectadores mais sensíveis, "Um lugar no coração" é um filme à moda antiga, com personagens complexos, uma trama simples mas eficiente e a felicidade de driblar o sentimentalismo e os clichês - quando estes aparecem servem como combustível para a história e não como uma muleta narrativa. Amparado por uma atuação caprichada de Sally Field - que também saiu vitoriosa no Golden Globe - e um elenco coadjuvante brilhante que inclui um jovem John Malkovich e Danny Glover em um de seus primeiros papéis importantes, a produção de Benton conquista desde as primeiras cenas, graças a um roteiro redondo que permite à plateia que se envolva com os dramas de seus personagens - mesmo contando uma história norte-americana em sua raiz mais profunda, é inegável que os sentimentos que inspiram são universais.

 

A protagonista de "Um lugar no coração" é Edna Spalding. Dona de casa, esposa e mãe dedicada de dois filhos pequenos, ela vive em uma pequena fazenda localizada em Waxahachie, Texas, no começo dos anos 1930. Sua vida pacata e sem sobressaltos - apesar do constante perigo que cerca seu marido xerife - sofre uma triste reviravolta quando um acidente a deixa inesperadamente viúva. Cheia de dívidas e sem experiência de trabalho braçal, Edna se recusa a capitular e vender sua propriedade - o que resultaria também em uma separação da família. Dotada de extrema força de vontade e garra, ela resolve então trabalhar exaustivamente para transformar suas terras em uma fazenda de algodão, contando, para isso, com a ajuda de Moses (Danny Glover) - um homem negro que aparece no local pedindo esmola - e Will Denby (John Malkovich), um rapaz cego que aluga um quarto em sua casa. Correndo contra o tempo e as dificuldades da economia frágil da época, a voluntariosa Edna ainda precisa escapar das ameaças da Klu Klux Klan, que não vê com bons olhos sua amizade com Moses.

Cuidadoso na reconstituição de época e no trabalho de direção de seus atores, Robert Benton faz um gol e tanto em "Um lugar no coração". Ao construir um roteiro que trata com carinho tanto seus protagonistas como seus coadjuvantes, o cineasta oferece ao espectador uma viagem ao passado, evocada diretamente de suas próprias lembranças. Nascido na mesma Waxahachie de seus protagonistas, Benton faz das recordações da sua infância a matéria-prima de sua história, ainda que ela seja completamente fictícia. O tom nostálgico que perpassa cada sequência - valorizado pela música de John Kander e a bela fotografia do veterano Néstor Almendros - é responsável direto pelo sucesso de sua narrativa, que foge dos exageros mesmo quando faz de sua personagem central uma mulher quase sem defeitos. Ao dotar Edna Spalding de um caráter firme e brios de guerreira, o diretor parece dizer que não lhe interessa mostrar o que ela tem de errado, e sim sublinhar sua força e dignidade. Saindo dos anos 1970, uma época em que anti-heróis dominavam a indústria, o cinema norte-americano dava sinais de que pretendia voltar a valores mais sólidos e menos cínicos. Dentro dessa premissa, "Um lugar no coração" é exemplar - e de quebra emociona sem fazer muito esforço.

quarta-feira

O SEGREDO


O SEGREDO (The chamber, 1996, Universal Pictures, 11min) Direção: James Foley. Roteiro: William Goldman, Phil Alden Robinson (Chris Reese), romance de John Grisham. Fotografia: Ian Baker. Montagem: Mark Warner. Música: Carter Burwell. Figurino: Tracy Tynan. Direção de arte/cenários: David Brisbin/Lisa Fischer. Produção executiva: David Friendly, Karen Kehela., Ric Kidney. Produção: John Davis, Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Chris O'Donnell, Gene Hackman, Faye Dunaway, Robert Prosky, Raymond J. Barry, Lela Rochon, Bo Jackson, David Marshall Grant. Estreia: 11/10/96

Entre 1993 e 1996, um dos nomes mais quentes em Hollywood não era um astro milionário, um cineasta prestigiado ou um produtor poderoso. Ao transformar em livros seu conhecimento como advogado e sua experiência em tribunais, John Grisham, passou, em poucos anos, de um escritor principiante a um dos autores mais requisitados pelos estúdios, sempre em busca de material para suprir a demanda de um público ávido por boas histórias. Com o apoio nada desprezível de atores como Tom Cruise, Julia Roberts, Denzel Washington e Susan Sarandon - e diretores respeitados como Sydney Pollack, Alan J. Pakula e, vá lá, Joel Schumacher - as adaptações das obras de Grisham se mostravam uma mina de ouro, se não inesgotável ao menos generosa. Assim, "A firma" (1993), "O Dossiê Pelicano" (1993), "O cliente" (1994) e "Tempo de matar" (1996) ultrapassaram a marca de 100 milhões de dólares de arrecadação e firmaram seu nome como um atestado de qualidade. Porém, como não poderia deixar de acontecer, nem todo sucesso dura para sempre - e qualquer falha no processo pode resultar em um inesperado fracasso. Foi o que aconteceu com "O segredo": com uma renda mundial que não chegou a cobrir metade de seu orçamento, estimado em 50 milhões, o filme dirigido por James Foley mostrou que nada - nem ninguém - é infalível.

Lançado poucos meses depois de "Tempo de matar", dirigido por Joel Schumacher e com um elenco que incluía Samuel L. Jackson, Kevin Spacey, Sandra Bullock e um Matthew McConaughey a caminho do estrelato, "O segredo" já estreou em desvantagem: apesar de ser um ator em franca ascensão à época -  no mínimo desde sua parceria com Al Pacino em "Perfume de mulher" (1992) -, Chris O'Donnell ainda não parecia capaz de segurar sozinho (ou quase) uma bilheteria sólida, em especial em comparação com a primeira escolha para o papel principal do filme, Brad Pitt. Mais jovem, com menos experiência e sem nenhum grande sucesso solo no currículo, O'Donnell acabou por se tornar o principal alvo das críticas - mesmo que não seja o responsável pelos problemas de bastidores que, logicamente, respingaram no resultado final, que não agradou nem mesmo ao próprio John Grisham. Desde a saída de Pitt - consequência da opção de Ron Howard em comandar "O preço de um resgate" (1996) -, o projeto de "O segredo" parecia fadado pelo menos a uma produção problemática. O roteirista William Goldman, por exemplo, viu parte de seu trabalho rejeitado por Howard (ainda produtor do filme) e pelo novo diretor, James Foley - e depois testemunhou seu substituto, Phil Alden Robinson, preferir assiná-lo com um pseudônimo por não concordar com a versão final. Além disso, a ideia de oferecer a direção a Foley - que lançou o suspense "Medo" no mesmo ano para a mesma Universal Pictures - não foi das mais felizes: se a trama já não é tão eletrizante quanto a de outros livros de Grisham, o trabalho de Foley pouco faz para acentuar suas qualidades ou amenizar seus defeitos. Quase no piloto automático, o cineasta falha em sua principal missão: conectar o espectador com seu protagonista.

 

Jovem e idealista como quase todos os personagens centrais de Grisham (talvez seus alter-egos), Adam Hall (Chris O'Donnell, esforçado mas nada mais do que isso), acaba de sair da faculdade de Direito e para seu primeiro caso importante escolhe um desafio dos maiores: evitar que um condenado à câmara de gás seja executado. Culpado pelo assassinato de duas crianças judias trinta anos antes, Sam Cayhall (Gene Hackman) assume a autoria do crime, não demonstra nenhum arrependimento e parece se orgulhar de suas ideias racistas - transmitidas a eles através de gerações. Mas Adam tem seus motivos para lutar pela suspensão da pena do irascível presidiário: Sam é seu avô, e apesar das consequências trágicas do crime, como o suicídio de seu pai, o jovem advogado quer, mais do que tudo, investigar as raízes de tanto ódio e tentar extirpá-las do próprio futuro. Para isso, conta com a ajuda hesitante de uma tia, Lee (Faye Dunaway), viciada em álcool e envergonhada do passado da família, ela esconde suas origens, mas vê na chegada do sobrinho uma oportunidade de curar feridas antigas e ainda doloridas.

Visto à luz do tempo, "O segredo" não é o horror que muitos fizeram pensar quando de sua estreia. Mesmo que não tenha o mesmo brilho de outros filmes baseados em obras de Grisham - em especial "O cliente", que deu a Susan Sarandon uma indicação ao Oscar, e "O homem que fazia chover", um dos poucos Francis Ford Coppola da década de 1990 -, o resultado final tem qualidades que foram ignoradas em seu lançamento. A atuação monstruosa de Gene Hackman é um exemplo: mesmo com um personagem quase maniqueísta, o veterano ator oferece ao público um trabalho precioso, repleto de uma energia que falta ao protagonista de Chris O'Donnell. E se Faye Dunaway - em papel oferecido a Sigourney Weaver - foi indicada ao Framboesa de Ouro, isso diz mais sobre a implicância de parte da crítica sobre seu desempenho do que exatamente por justiça: por mais que exagere em alguns momentos, a atriz, vencedora do Oscar por "Rede de intrigas" (1976), constrói uma personagem que reflete com perfeição as consequências do ódio e da intolerância. São os veteranos astros que dão a "O segredo", apesar de suas falhas, motivos para que lhe seja feita justiça: mesmo estando longe de ser um filme marcante, tampouco é a aberração que seu fracasso comercial poderia dar a entender.

 

terça-feira

A ESTRANHA PASSAGEIRA

A ESTRANHA PASSAGEIRA (Now, voyager, 1942, Warner Bros, 117min) Direção: Irving Rapper. Roteiro: Casey Robinson, romance de Olive Higgins Prouty. Fotografia: Sol Polito. Montagem: Warren Low. Música: Max Steiner. Figurino: Orry-Kelly. Direção de arte/cenários: Robert Haas/Fred M. MacLean. Produção: Hal B. Wallis. Elenco: Bette Davis, Paul Henreid, Claude Rains, Gladys Cooper, Bonita Granville, John Loder. Estreia: 22/10/42

3 indicações ao Oscar: Atriz (Bette Davis), Atriz Coadjuvante (Gladys Cooper), Trilha Sonora Original (Drama)

Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Original

Por incrível que pareça, o maior sucesso de bilheteria da carreira de Bette Davis, "A estranha passageira", não teve a mesma sorte junto aos críticos. Recebido com ressalvas pela imprensa que tanto havia alardeado as qualidades de seus trabalhos anteriores - que renderam quatro indicações consecutivas ao Oscar e uma estatueta dourada, por "Jezebel" (1938) -, o filme de Irving Rapper não precisou dos aplausos dos jornalistas para levar multidões às salas de exibição e emocionar milhares de espectadores com sua trama romântica e melodramática. Baseado no terceiro livro de uma saga em cinco partes que conta a história de uma família rica de Boston - entre 1936 e 1942 -, o filme de Rapper voltou a colocar Davis na briga por um prêmio da Academia (que perdeu para Greer Garson, por "Rosa da esperança") e deu a Max Steiner o segundo de seus três troféus.

Apesar da implicância de Davis com a música de Steiner - segundo ela a trilha do compositor era intrusiva demais e atrapalhava o resultado final de sua atuação -, a partitura de "A estranha passageira" é uma das mais celebradas do autor, e uma das mais expressivas de sua brilhante trajetória. Romântica sem cair no sentimentalismo e forte mesmo evitando o exagero dramático, sua composição ilustra com eficiência a história criada pela escritora Olive Higgins Prouty e adaptada com extrema fidelidade por Casey Robinson - que também colaborou, sem crédito, no roteiro oscarizado de "Casablanca" (1942). Mas enquanto a travessia das páginas do livro para sua adaptação cinematográfica foi relativamente simples, a produção do filme, como era de se esperar quando se trata de Bette Davis, teve sua cota de atribulações. Primeiro foi a saída do diretor original, Edmund Goulding, que foi desligado do projeto por problemas de saúde - e levou com ele a ideia de ter Irene Dunne no papel principal. Seu substituto, Michael Curtiz, queria Norma Shearer ou Ginger Rogers como protagonista (e Ginger era uma entusiasta da possibilidade) - mas foi barrado quando Davis, decidida a ser a estrela do filme, convenceu o produtor Hal B. Wallis a contratá-la e demitir Curtiz. O resultado não poderia ter sido melhor: não apenas a atriz teve o sucesso comercial que ela e a Warner Bros desejavam como Curtiz foi alocado para dirigir "Casablanca" - que lhe rendeu um Oscar e a glória de ter comandado um dos maiores clássicos da história do cinema.

 

"A estranha passageira" é um melodrama romântico típico da Hollywood dos anos 1940. A protagonista, Charlotte Vale, é uma solteirona temporã, dominada por sua tirânica mãe (Gladys Cooper, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) e presa em constantes pensamentos negativos a respeito de sua aparência e personalidade. Tida como o patinho feio de uma família de posses, Charlotte é constantemente humilhada e tratada quase como uma empregada, uma enfermeira destinada a abdicar da própria vida. Em vias de um colapso nervoso, ela é enviada, pelo Dr. Jaquith (Claude Rains), a um centro de reabilitação psicológica, de onde sai, meses depois, com a autoestima elevada e a saúde mental equilibrada. Em viagem de navio - onde começa a testar sua nova personalidade, mais centrada e sociável -, ela conhece o galante Jerry Durance (Paul Henreid), por quem acaba se apaixonado mesmo ciente do fato de que ele é casado, embora infeliz e incapaz de uma separação por causa das filhas. O romance impossível é encerrado com o final da viagem, e, para surpresa de todos, Charlotte retorna ao lar disposta a assumir as rédeas do próprio destino - o que inclui um noivado sem amor com o gentil Elliot Livingston (John Loder). 

"A estranha passageira" é longe de ser o melhor filme de Bette Davis, uma das mais fantásticas atrizes da era de ouro de Hollywood. Porém, é um dos mais representativos de sua fase como estrela dos melodramas da Warner, que a ajudaram a estabelecer-se como um mito. Com a ajuda do figurinista Orry-Kelly, do diretor de fotografia Sol Polito e da direção de Rapper - que possibilitou que sua personalidade artística se sobrepusesse a qualquer inovação narrativa -, Davis fez de sua Charlotte Vale um ícone romântico dos mais duradouros. Repleto de momentos dramáticos, frases de efeito ("Oh, Jerry, não peçamos a lua, nós já temos as estrelas!") e até sequências de um humor duvidoso (o chofer brasileiro que atende os protagonistas durante um passeio pelo Rio de Janeiro é provavelmente uma das representações mais estereotipadas da história), o filme mantém intocada sua aura mesmo depois de setenta anos - e é inegável que boa parte de tal perenidade se deve ao carisma e ao fascínio de sua atriz central. É por ela, mais do que por sua trama pouco surpreendente, que "A estranha passageira" vale cada minuto.

segunda-feira

E AGORA, MEU AMOR?

E AGORA, MEU AMOR? (Fools rush in, 1997, Columbia Pictures, 109min) Direção: Andy Tennant. Roteiro: Katherine Reback, estória de Joan Taylor, Katherine Reback. Fotografia: Robbie Greenberg. Montagem: Roger Bondelli. Música: Alan Silvestri. Figurino: Kimberly A. Tillman. Direção de arte/cenários: Edward Pisoni/Leslie Morales. Produção executiva: Michael McDonnell. Produção: Doug Draizin. Elenco: Matthew Perry, Salma Hayek, Jill Claybourgh, Jon Tenney, Carlos Gomez, Siobhan Fallon, John Bennett Perry. Estreia: 14/02/97

No começo de 1997, poucos programas de tv eram tão populares e queridos quanto "Friends" - cujo sucesso só fez aumentar ainda mais nas temporadas seguintes. Nenhuma surpresa, portanto, que seus astros tentassem o caminho natural rumo em direção ao cinema, ainda considerado um veículo mais nobre e com mais status. Enquanto Jennifer Aniston já começava a brilhar em comédias românticas - como "Nosso tipo de mulher" (1996) e "Paixão de ocasião" (1997) -, Courteney Cox ganhava ainda mais fama com o primeiro capítulo de "Pânico" (1996) e Lisa Kudrow apostava na comédia, com "Romy & Michelle" (1997), o elenco masculino buscava arduamente ser reconhecido além de seus personagens mais célebres. Se David Schwimmer havia tentado a sorte no elogiado mas pouco visto "O primeiro amor de um homem" (1996) - ao lado de uma Gwyneth Paltrow pré-Oscar - foi Matthew Perry quem deu o passo mais bem-sucedido. Tudo bem que "E agora, meu amor?" não foi um sucesso avassalador de bilheteria - nem tampouco chegou a fazer barulho nas cerimônias de premiação do ano -, mas o romance dirigido por Andy Tennant conseguiu mostrar, ainda que de forma tímida, que o intérprete do sardônico Chandler Bing tinha mais a oferecer do que piadas ininterruptas. 

Simples e inofensivo, o filme de Tennant - que se especializaria em comédias românticas no decorrer dos anos 2000 - serve como um veículo perfeito para o carisma de Perry, um ator simpático e talentoso, capaz de provocar a identificação do público masculino sem maiores dificuldades. Na trama, ele interpreta Alex Whitman, um homem comum, que trabalha como supervisor no mercado de construção civil enquanto leva uma vida quase tediosa, se envolvendo aqui e ali em relações fugazes e sem profundidade. Uma dessas relações acontece durante uma viagem a Las Vegas, quando ele conhece a mexicana Isabel Fuentes (Salma Hayek) e passa a noite com ela. O que parecia apenas mais um caso passageiro logo se revela algo mais complicado, porém: alguns meses depois do encontro, a bela fotógrafa ressurge em sua vida com a notícia de que está grávida. Atônito com a novidade - e ciente de que a jovem não tem o menor interesse em interromper a gravidez, por motivos religiosos e morais -, Alex a pede em casamento. Mesmo diante do fato de que se conhecem muito pouco e que suas diferenças culturais e sociais podem ser um empecilho para o relacionamento, os dois se casam - e descobrem, com o passar dos meses, que estavam certos quanto às dificuldades de um compromisso tão precoce.

 

Se há alguma diferença entre "E agora, meu amor?" e dezenas de filmes do gênero é em sua tentativa - nem sempre feliz, mas bem intencionada - de retratar o choque cultural que nasce do encontro entre Alex e Isabel, duas pessoas de mundos cuja distância pode ser facilmente subestimada em um primeiro olhar. Alex tem uma relação quase distante com os pais (interpretados por Jill Claybourgh e John Bennett Perry, pai de Matthew também na vida real), enquanto Isabel tem a família - numerosa, ruidosa e onipresente - como base de sua existência. Isabel é católica fervorosa - e seu novo marido não é exatamente um sujeito religioso. Alex tem planos profissionais que pedem que ele more em Nova York; a futura mãe de seu filho não tem a menor intenção de abandonar Las Vegas e seu clamoroso clã. Tais diferenças - administráveis em um namoro, mas pouco remediáveis quando se começa uma família - formam o conflito que é praticamente todo o roteiro do filme. O problema é que, apesar de talentosa, a dupla central falha no principal: não há química entre o casal, e a paixão que surge entre eles soa pouco crível, tornando difícil o principal objetivo de uma comédia romântica, que é torcer pelo casal de protagonistas.

"E agora, meu amor?" é, na verdade, e em seu favor, um entretenimento despretensioso, que cumpre o que promete. Se não consegue ultrapassar os limites do mediano é somente porque o roteiro foge de qualquer ousadia narrativa e/ou profundidade dramática. Salma Hayek é linda - e em papel oferecido à Jennifer Lopez, que o recusou para estar em "Anaconda" (1997) -, mas não é exatamente uma atriz de grandes recursos (levaria ainda quase meia década para concorrer ao Oscar por "Frida" (2002)) e Matthew Perry, simpático e carismático, faz o que pode para extrair substância de um personagem muito aquém de seu talento cômico - e, segundo ele, foi durante as filmagens que um acidente de jetski aprofundou ainda mais seu vício em remédios controlados, problema que o atormentou durante décadas. Leve (até demais), "E agora, meu amor?" é o programa ideal para os fãs dos atores e do gênero. Mas não entrega mais do que se poderia esperar.

sexta-feira

TRÊS SOLTEIRÕES E UM BEBÊ

 


TRÊS SOLTEIRÕES E UM BEBÊ (Three men and a baby, 1987, Touchstone Pictures, 102min) Direção: Leonard Nimoy. Roteiro: James Orr, Jim Cruickshank, original de Coline Serreau. Fotografia: Adam Greenberg. Montagem: Michael A. Stevenson. Música: Marvin Hamlisch. Figurino: Larry Wells. Direção de arte/cenários: Peter Larkin/Jacques M. Bradette, Hilton Rosemarin. Produção executiva: Jean-François Lepetit. Produção: Robert W. Cort, Ted Field. Elenco: Tom Selleck, Steve Guttenberg, Ted Danson, Nancy Travis, Margaret Colin, Alexandra Amini. Estreia: 23/11/87

Em 1985, uma singela comédia francesa sobre um trio de amigos solteiros que tem sua rotina transformada com a chegada inesperada de uma menina recém-nascida pegou o mundo de surpresa e se tornou um dos maiores sucessos da temporada - não apenas em seu país de origem, mas também no mercado norte-americano, normalmente avesso a produções realizadas fora de seu domínio. Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, "Três homens e um bebê", escrito e dirigido por Coline Serreau, não demorou a chamar a atenção dos estúdios de Hollywood, que viram na trama elementos que casavam perfeitamente com a agenda conservadora do governo Reagan. Parte de um ciclo que festejava o casamento e a família e que gerou filmes como "Presente de grego" (1987), "Ela vai ter um bebê" (1989) e "Olha quem está falando" (1989) - além do polêmico "Atração fatal" (1987), um verdadeiro libelo pró-matrimônio, disfarçado sob um verniz de thriller -, o remake do filme de Serreau encontrou na Touchstone Pictures o lugar ideal para ser desenvolvido, depois de passar pela TriStar e pela Universal: nada como uma ramificação da Disney, afinal, para abrigar um projeto tão inofensivo. E, como não poderia deixar de acontecer, "Três solteirões e um bebê" repetiu, nas bilheterias americanas (e mundiais) o sucesso de seu original e foi ainda mais além, terminando a temporada com uma renda superior a 160 milhões de dólares - um êxito incontestável que permitiu, três anos depois, a realização de uma sequência desnecessária e de pouca repercussão, "Três solteirões e uma pequena dama".

O projeto do remake da comédia francesa contava, em seus primeiros momentos, com a presença da própria Coline Serreau - que chegou a participar da escolha dos atores principais (um processo longo que cogitou os nomes de praticamente todo e qualquer astro ou potencial astro da época). Sua saída de cena deu lugar a Leonard Nimoy - cuja experiência como diretor (restrita a dois longas de "Jornada nas estrelas", um telefilme e alguns episódios de telesséries) não foi suficiente para evitar desgastes com o elenco masculino, frequentemente questionando seus métodos de trabalho. E se a direção de Nimoy não chega a ser brilhante ou dotada de uma criatividade capaz de amenizar a fragilidade do roteiro, tampouco compromete o resultado final. Simpático mas superficial, "Três solteirões e um bebê" diverte (ao menos em sua primeira metade), encanta (graças à simpatia das pequenas Lisa e Michelle Blair) e pode até emocionar aos mais sensíveis, mas carece de personalidade e, afora sua premissa interessante, é pouco memorável e até mesmo decepcionante  - principalmente fora do contexto social em que foi lançado.


 

Entre as dez maiores bilheterias de 1987, ano em que "Três solteirões e um bebê" foi lançado, havia espaço para comédias românticas ("Feitiço da lua" e "Dirty dancing: ritmo quente"), filmes de ação ("Predador" e "Máquina mortífera) e sequências de sucessos já previamente testados ("Um tira da pesada 2" e "007: marcado para a morte"). Buscando uma parcela do público que preferia frequentar as salas de exibição para relaxar e se divertir sem maiores exigências, filmes como o remake comandado por Nimoy tentavam driblar a violência que enchia o cofre dos estúdios ao oferecer produções que pudessem agradar à família inteira - ou seja, sem sexo, sem sangue, sem mortes a rodo ou palavrões ofensivos. "Três solteirões" caiu como uma luva em tais intenções, ao explorar uma situação capaz de arrancar sorrisos até do mais cínico espectador. O problema nem era o fato de exagerar na construção quase infantil de seus protagonistas - um trio de heterossexuais metidos a conquistadores e incapazes da tarefa mais simples do dia-a-dia -, mas sim seu fracasso em expandir a piada única no qual todo o roteiro era baseado. Acrescentar à história uma desnecessária subtrama envolvendo tráfico de drogas não apenas truncava o ritmo a partir da metade - também, de certa forma, tornava quase incoerente seu discurso de "filme família (além de não convencer e ser chata). Retomar o rumo em seus minutos finais - um tanto inverossímeis - até conserta um pouco as coisas, mas qualquer um com um mínimo de exigência percebe que, apesar da premissa adorável, o filme é simplesmente bobo.

A trama segue as aventuras de três amigos que dividem um belo e amplo apartamento em Manhattan: o arquiteto Peter Mitchell (Tom Selleck em papel que chegou a ser considerado para Chevy Chase, Steve Martin, Bill Murray, Jack Nicholson, Paul Hogan e, pasmem, Arnold Schwarzenegger), o cartunista Michael Kellan (Steve Guttenberg, que ganhou o papel de nomes como Tom Hanks, Michael Keaton, John Travolta e Bruce Willis) e o ator Jack Holden (Ted Danson no lugar de Michael J. Fox, Tony Danza, Jeff Daniels, Danny Glover, Kevin Kline, Gary Oldman, Bill Pullman e Dennis Quaid) moram juntos e convivem pacificamente com suas rotinas que envolvem muitas mulheres, festas e absolutamente nenhum compromisso amoroso mais sério. As coisas mudam de figura quando, durante uma viagem de Jack a trabalho, seus amigos descobrem, à porta de sua casa, um bebê de poucos meses, deixado no local por uma antiga namorada. Enquanto lidam com as novas responsabilidades, os colegas acabam se apaixonando pela menina - mesmo que isso atrapalhe suas carreiras, seus fugazes relacionamentos e até seus valores. Quando a mãe do bebê ameaça retomar a filha, porém, eles se sentem incapazes de abrir mão de quem já consideram parte da família.

Sim, é agradável. Sim, o bebê é adorável e algumas situações são realmente engraçadas - especialmente no primeiro ato. E sim, a química entre os três atores centrais (no auge de sua popularidade) funciona como um relógio. Mas no final das contas, é pouco. O roteiro é quase preguiçoso, o desenvolvimento dos personagens é raso (nenhum dos protagonistas soa como alguém de verdade) e, como já dito, algumas subtramas atrapalham o ritmo da história. Porém, quem não se importa com tais "detalhes" terá, certamente, quase duas horas de um entretenimento inofensivo e esquecível.

quinta-feira

O GRANDE DITADOR


O GRANDE DITADOR (The great dictator, 1940, Charles Chaplin Productions, 125min) Direção e roteiro: Charles Chaplin. Fotografia: Karl Struss, Roland Totheroh. Montagem: Willard Nico. Música: Charles Chaplin, Meredith Wilson. Direção de arte/cenários: J. Russell Spencer/Edward G. Boyle. Elenco: Charles Chaplin, Paulette Goddard, Jack Oackie, Reginald Gardiner, Henry Daniell, Billy Gilbert, Grace Hayle. Estreia: 15/10/40

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Charles Chaplin), Ator Coadjuvante (Jackie Oackie), Roteiro Original, Trilha Sonora Original

Por um bom tempo Charles Chaplin desejou realizar um filme sobre Napoleão Bonaparte - e em 1936 já tinha inclusive um script em mente para dar vazão à sua ambição. A ascensão política de Adolf Hitler e Benito Mussollini, no entanto, mudou seus planos: ciente da persona dramática e exagerada do ditador alemão e de suas possibilidades cômicas - além de ter sido alertado do fato de dividir com ele algumas características físicas -, Chaplin resolveu desenvolver uma trama que ridicularizasse o nascente nazismo e seu líder. Nascia, assim, "O grande ditador", que se tornaria o maior sucesso de bilheteria de sua carreira e um dos maiores clássicos do cinema. Indicado a cinco Oscar - incluindo melhor filme, ator e roteiro original - e celebrado como uma obra-prima corajosa e visionária, o filme não escapou de polêmicas à época de seu lançamento (e muito tempo depois) e sobrevive, até hoje, como uma das realizações fundamentais de seu criador, um dos ícones do cinema m udo.

Primeiro filme totalmente falado de Chaplin, "O grande ditador" começou a incomodar antes mesmo de iniciar suas filmagens. Com medo das represálias que um tema político poderia acarretar em um momento tão crítico, os estúdios tentavam demover o cineasta da ideia de fazer um filme que tinha como protagonista uma representação pouco disfarçada de um dos líderes mundiais. Incentivado por ninguém menos que Franklin D. Roosevelt, porém - que mandou um representante oficial para lhe dar apoio -, Chaplin foi adiante e financiou sozinho uma produção arriscada, demorada (539 dias de filmagens) e cujo sucesso era completamente imprevisível. Mais adiante, o diretor/ator/produtor declararia que, caso soubesse da extensão das atrocidades cometidas em nome de Hitler, jamais teria feito piada sobre o assunto - uma informação negada por pessoas próximas a ele, que afirmam que o avanço do nazismo não o impediu de manter inalterado seu objetivo de criar uma comédia sobre um assunto tão sério. É fato, porém, que quando a produção começou de verdade, em 1937, a violência nazista ainda estava muito aquém daquela que seria nítida em 1940, quando o filme finalmente viu a luz dos refletores - nove meses depois do lançamento de "You natzy spy!", curta-metragem estrelado pelos Três Patetas que entrou para a história como a primeira sátira anti-nazismo do cinema.

 

Depois de pronto, "O grande ditador" tampouco deixou de gerar controvérsia, por motivos óbvios. Banido da Espanha, onde só pode estrear em 1976, meses depois da morte de Francisco Franco, e de todos os países ocupados pela Alemanha, o filme acabou sendo abraçado pelo governo britânico como uma valiosa peça de propaganda - uma bem-vinda mudança de atitude que só aconteceu com a entrada do país na guerra contra Hitler e seus aliados. Nem o próprio Hitler, aliás, segundo consta, deixou de assistir o trabalho de Chaplin: biografias de Eva Braun afirmam, por exemplo, que o veto da produção em todo o território alemão (que vigorou até 1958) não impediu o chanceler germânico de assistir à comédia no mínimo duas vezes - e se divertir com ela. O mesmo não aconteceu, no entanto, com um grupo de soldados que teve a oportunidade de conferir o resultado em uma sessão nos Balcãs - com uma cópia contrabandeada da Grécia, membros da resistência apresentaram o filme aos fieis seguidores de Hitler (ignorantes do conteúdo até depois do começo da sessão) e testemunharam uma revolta que, conforme relatos, resultou até mesmo em tiros em direção à tela. Um resultado até mesmo previsível - principalmente em vista do enorme sucesso comercial do filme, cuja mensagem final, de paz e liberdade, destoavam completamente da beligerante ideologia nazista. 

Mas nem só de ideologia e crítica social vive um filme, e "O grande ditador" é, acima de tudo, excelente cinema. Sem abrir mão de seu genial talento para o humor físico, Charles Chaplin se aproveitou das vantagens do som para criar uma obra-prima que mescla, de forma magistral, sequências visuais impagáveis - especialmente em sua primeira metade e na célebre cena em que o ditador dança com um globo - com piadas verbais fascinantes - os discursos do histérico Hynkel, completamente nonsense, são inesquecíveis. A declaração final do protagonista (o barbeiro judeu confundido com o ditador) não tornou-se um clássico à toa: insistindo em mantê-la na edição definitiva - apesar de conselhos contrários -, Chaplin deixou clara e indelével sua posição em relação à guerra e ao fascismo. Se hoje seu discurso soa tristemente atual, pode-se dizer que, à época, ajudou a construir a ideia de que o cineasta era simpatizante do comunismo - fato que o levou ao exílio voluntário, anos mais tarde. Indicado ao Oscar de melhor ator, perderia para James Stewart (por "Núpcias de escândalo") e só retornaria à cerimônia da Academia em 1972, para receber um prêmio honorário em homenagem à sua contribuição ao cinema. Em 1973, voltou a concorrer - pela trilha sonora de "Luzes da ribalta", realizado em 1952 mas lançado em Los Angeles somente vinte anos mais tarde - e, no Natal de 1977, morreu tranquilamente em sua casa na Suíça, deixando um legado inestimável a públicos de todas as gerações.

 

quarta-feira

NINOTCHKA


NINOTCHKA (Ninotchka, 1939, MGM, 110min) Direção: Ernst Lubitsch. Roteiro: Charles Brackett, Billy Wilder, Walter Reisch, história original de Melchior Lengyel. Fotografia: William H. Daniels. Montagem: Gene Ruggiero. Música: Werner R. Heymann. Figurino: Adrian. Direção de arte/cenários: Cedric Gibbons/Edwin B. Willis. Elenco: Greta Garbo, Melvyn Douglas, Ina Claire, Bela Lugosi, Sig Ruman, Felix Bressart, Alexander Granach. Estreia: 23/11/39

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Greta Garbo), História Original, Roteiro Original

Quando Greta Garbo lançou seu primeiro filme falado, "Anna Christie", em 1930, o departamento de marketing da MGM não demorou a utilizar-se de tal evento para divulgar a produção - "Garbo fala!", lia-se em todo lugar. Quando, nove anos mais tarde o estúdio a confirmou na primeira comédia de sua carreira em Hollywood, não chegou a ser nenhuma surpresa que a mesma tática bem-sucedida fosse reciclada. Com o novo slogan "Garbo ri!", a campanha publicitária de "Ninotchka" despertou a curiosidade do público, que, seduzido mais uma vez pela bela e misteriosa estrela sueca, transformou o filme de Ernst Lubitsch em um dos grandes sucessos de bilheteria do ano e um dos maiores êxitos comerciais da atriz - que acabou perdendo o Oscar para Vivien Leigh ("... E o vento levou") mas mostrou à sua legião de fãs  e aos severos críticos um inesperado e insuspeito timing cômico. Lançado no mágico ano de 1939, junto com clássicos absolutos, como "O mágico de Oz", "No tempo das diligências", "A mulher faz o homem", "O morro dos ventos uivantes" e "A regra do jogo" - além do já citado "... E o vento levou" - "Ninotchka" é uma deliciosa comédia romântica, com diálogos espirituosos, um elenco impecável e uma direção elegante - que ameniza com folga a visão um tanto estereotipada da Rússia comunista.

A trama começa quando três oficiais russos chegam à Paris dos anos 1930 com o objetivo de vender joias da grã-duquesa Swana (Ina Claire), expropriadas pelo governo. O atrapalhado grupo vê seu objetivo interrompido, no entanto, pela proprietária do tesouro, que deseja ter de volta o que lhe pertence. Para isso, ela pede ajuda ao melífluo Leon D'Algout (Melvyn Douglas), que acaba por seduzir o trio - com visual emprestado de Trotsky, Lenin e Dzerzhinsky - com os luxos e os prazeres do mundo capitalista. A demora dos agentes em retornar à Rússia incomoda seus superiores, que decide então mandar à capital francesa uma oficial rígida e incorruptível, Ninotchka (Greta Garbo). Determinada a cumprir sua missão no menor período de tempo possível, a bela russa acaba por cair, inadvertidamente, nos braços de Leon, que se apaixona por sua personalidade séria e quase inatingível. Sem saber que ele está por trás do atraso na solução de seus problemas profissionais, Ninotchka se deixa conquistar - e quanto mais demora a venda das joias, mais complicada fica a sua situação amorosa.

 

Não é difícil perceber, no roteiro irônico e mordaz de "Ninotchka", a personalidade do futuro cineasta Billy Wilder e de seu habitual parceiro, Charles Brackett. Chamados por Lubitsch para reescrever o texto original - de autoria de Gottfried Reinhardt e S. N. Behrman -, a dupla de roteiristas uniu-se a Walter Reisch e criou uma pequena obra-prima. Com um humor sardônico que não perdoa nada e nem ninguém, a trama de "Ninotchka" nada tem de política, apenas utilizando-se de um pano de fundo sócio-histórico para contar uma história de amor que vence qualquer tipo de idealismo. Se por um lado faz piada dos estereótipos russos, também não poupa a pretensa superioridade capitalista - e enfatiza, com inteligência, o choque cultural entre seus protagonistas. Tal particularidade encontra na direção de Lubitsch a tradução perfeita - o cineasta jamais tenta ser maior que o enredo e seus personagens - e em seu elenco a personificação exata. Se Melvyn Douglas está preciso na sua interpretação do galante D'Algout - a ponto de sua dubiedade ser mais um charme do que um defeito -, é Greta Garbo quem engole tudo à sua volta, com seu magnetismo único a serviço de uma das personagens mais icônicas do cinema americano. A cena em que Ninotchka finalmente vê sua rigidez quebrada e solta uma gargalhada é, sem favor, antológica - não por acaso, ilustra o cartaz do filme e reitera seu slogan publicitário.

Banido na URSS por razões óbvias, "Ninotchka" sobrevive à prova do tempo principalmente por sua narrativa moderna, leve e inteligente. Não deixa de ser irônico saber que a presença de Ernst Lubitsch na cadeira de de diretor foi resultado da saída de George Cukor, que abandonou o projeto para comandar "... E o vento levou" - do qual também saiu para dar lugar a Victor Fleming. Grande responsável pelo tom sofisticado do resultado final de "Ninotchka", Lubitsch, nascido na Alemanha em 1892, se tornou um dos grandes cineastas da era de ouro de Hollywood, conhecido por comédias românticas como "A loja da esquina" (1940) - refilmado em 1998 como "Mensagem para você", estrelado por Tom Hanks e Meg Ryan -, "Ser ou não ser" (1942) e "O diabo disse não" (1943) - que lhe rendeu uma indicação ao Oscar. Conhecido pelo que se convencionou chamar de "o toque Lubitsch", ofereceu a "Ninotchka" uma personalidade rara - algo que faltou em seu remake musical "Meias de seda", estrelado por Cyd Charisse e Fred Astaire em 1957. Nada contra a dupla, mas ninguém melhor que Greta Garbo e sua postura para dar viva à misteriosa Ninotchka.

 

terça-feira

A CAIXA DE PANDORA


A CAIXA DE PANDORA (Die busche der Pandora, 1929, Nero-Film AG, 109min) Direção: Georg Wilhelm Pabst. Roteiro: Ladislaus Vajda, peças teatrais de Frank Wedekind. Fotografia: Gunther Krampf. Montagem: Joseph Fleisler. Figurino: Gottlieb Hesch. Direção de arte/cenários: Andrej Andrejew/Hesh. Produção: Heinz Landsman. Elenco: Louise Brooks, Fritz Kortner, Franz Lederer, Carl Goetz, Krafft-Raschig, Alice Roberts. Estreia: 30/01/29

Ao assumir o papel da amoral Lulu em "A caixa de Pandora" - a adaptação feita por Georg Wilhelm Pabst das peças teatrais de Frank Wedekind - a norte-americana Louise Brooks tornou-se, de imediato, um símbolo sexual duradouro, um marco no erotismo no cinema e uma imagem indelével da cinematografia alemã das primeiras décadas do século XX. Sua presença magnética e sua expressividade fascinante, no entanto, não foram sempre unanimidade, principalmente junto aos conterrâneos de Pabst e Wedekind -  ultrajados pelo fato de uma estrangeira viver uma personagem tão arraigada na cultura germânica, os fãs do texto original demoraram a reconhecer em Brooks a principal característica de Lulu: sua sensualidade latente, sempre à beira da ruína (própria ou alheia). Bastou, porém, a estreia, para que quaisquer detratores reconhecessem o óbvio: ali estava, diante de seus olhos, uma das mais certeiras personificações do que se convencionou chamar de mulher fatal - e o nascimento de um mito que, entre altos e baixos, atravessaria o tempo e povoaria o imaginário popular de inúmeras gerações.

Mesmo com o casamento perfeito entre personagem e atriz, no entanto, "A caixa de Pandora" não foi um sucesso imediato - em parte porque, em seus estertores, o cinema mudo perdia boa parte de público para os filmes falados, já em franca ascensão, e em parte porque a crítica em si não chegou a ser exatamente efusiva a respeito de suas qualidades. Foi somente cinquenta anos depois de sua estreia, em 1979, que uma plateia bem mais entusiasta o redescobriu, graças a uma reportagem do britânico Kenneth Tynan para a revista New Yorker: a matéria "The girl in the black helmet" apresentava Louise Brooks a uma nova geração - com ela surgia um novo interesse por sua carreira, e por conseguinte, por seus trabalhos na Europa. Incentivado pela própria atriz - que comparecia a sessões de relançamento e alimentava o culto à sua personalidade -, o renascimento de seu filme mais famoso revelou uma obra-prima esquecida pelo tempo e abriu as portas para novas manifestações culturais baseadas em seu material original, como a peça teatral "Lulu", de 1997, que misturava, na mesma montagem, os textos de Wedekind, referências ao filme de Pabst e elementos da vida de Brooks.

 

Brooks, aliás, por pouco não ficou de fora de "A caixa de Pandora". Apesar de escolhida por Pabst depois que o cineasta conferiu seu trabalho em "Uma noiva em cada porto" (1928), a atriz viu-se obrigada a declinar do convite por problemas contratuais com a Paramount Pictures, que não concordou em liberá-la para as filmagens fora dos EUA. Sem poder contar com a atriz de sua preferência, o cineasta alemão teve de contentar-se com uma segunda opção, uma conterrânea chamada Marlene Dietrich. Na última hora, porém, o destino interveio: Brooks foi dispensada pela Paramount por problemas de salário e Dietrich acabou indo parar nos sets de "O anjo azul" (1930), de Josef von Sternberg - e ofereceu um desempenho inesquecível que a colocou merecidamente no rol das grandes estrelas do cinema. Brooks, por sua vez, iniciou uma série de três filmes na Europa - onde, segundo ela mesma, tinha mais liberdade e era mais desafiada artisticamente do que em Hollywood - e, apesar de alguns problemas na produção (seu colega de cena Fritz Kortner, por exemplo, não fazia parte de sua lista de admiradores), ditou moda e influenciou o comportamento feminino do final dos anos 1930 com sua exuberante Lulu.

Mas, no final das contas, sobre o que é o filme "A caixa de Pandora"? Apesar do título remeter ao mito grego, a trama se passa em uma Berlim decadente e amoral, onde a bela Lulu (interpretada por Brooks com o equilíbrio certo entre inocência e vulgaridade) faz uso do poder de sua sensualidade para dominar os homens (e até algumas mulheres) à sua volta. É essa sua força destruidora que a aproxima do poderoso Ludwig Schon (Fritz Kortner), um editor milionário que, mesmo apaixonado por ela, se recusa a um compromisso mais sério por causa de sua diferença de classes sociais. Depois de seduzir até mesmo o filho de Schon, o romântico Alwa (Franz Lederer), a sexy dançarina consegue levar seu velho amante ao altar, mas uma tragédia acaba levando-a a empreender uma fuga desesperada. No caminho, ao lado de seu velho protetor Schigolch (Carl Gotz), de Alwa e da Condessa Geschwitz (Alice Roberts) - todos envolvidos por seu poder de sedução -, Lulu se vê obrigada a uma nova vida, ao mesmo tempo excitante e perigosa.

Com uma bela fotografia de Gunther Krampf, um roteiro ousado de Ladislaus Vajda e personagens complexos, que fogem do maniqueísmo e dos clichês, "A caixa de Pandora" não figura à toa na lista dos maiores clássicos do cinema europeu da história. Apostando em uma sensualidade amoral que deixaria os estúdios de Hollywood chocados - em especial com o advento do famigerado Código Hays, que limitou brutalmente os avanços comportamentais nos filmes norte-americanos a partir de 1930 -, Georg Wilhelm Pabst desafiou as regras e marcou um gol de placa, deixando seu nome marcado para sempre na memória do público.

 

segunda-feira

TREM-BALA


TREM-BALA (Bullet train, 2022, Sony Pictures Entertainment, 127min) Direção: David Leitch. Roteiro: Zak Olkewicz, romance de Kôtarô Isaka. Fotografia: Jonathan Sela. Montagem: Elisabet Ronaldsdóttir. Música: Dominic Lewis. Figurino: Sarah Evelyn. Direção de arte/cenários: David Scheunemann/Elizabeth Keenan. Produção executiva: Brent O'Connor, Ryosuke Saegusa, Kat Samick, Yuma Terada. Produção: Antoine Fuqua, David Leitch, Kelly McCormick. Elenco: Brad Pitt, Aaron Taylor-Johnson, Joey King, Brian Tyree-Henry, Andrew Koji, Hiroyuki Sanada, Michael Shannon, Bad Bunny, Logan Lerman, Sandra Bullock. Estreia: 18/7/2022 (Paris)

Publicado no Japão em 2010, o livro "Trem-bala", escrito por Kôtarô Isaka, tornou-se um fenômeno, com mais de 700 mil exemplares vendidos, e acabou, como não poderia deixar de ser, chamando a atenção de Hollywood. Com os direitos adquiridos pela Sony Pictures e produzido com um orçamento de 90 milhões de dólares, a intrincada história de cinco assassinos profissionais cujas missões se cruzam em uma inusitada viagem chegou às telas com um elenco de primeira linha, um diretor acostumado a sequências recheadas de adrenalina e a responsabilidade de devolver ao público o hábito de ir às salas de exibição depois do longo hiato provocado pela Covid-19. Com uma renda acumulada de quase 240 milhões de dólares internacionalmente, é difícil dizer que fracassou em seu intento - mas dividiu a crítica e não fez o barulho que se poderia esperar. Mesmo assim, o resultado final é um delicioso filme de ação, com inspirados momentos de humor e um visual dos mais caprichados dos últimos anos.

Na direção, que ficaria a cargo de Antoine Fuqua, o cineasta David Leitch, cujo currículo apresenta produções extremamente comerciais, como "Deadpool 2" (2018) e "Velozes e furiosos: Hobbs & Shaw (2019) - além do subestimado e estiloso "Atômica" (2017) - deixou de lado o tom mais sério proposto no projeto original para assumir sem medo o caos, o deboche e a ironia. Com diálogos rápidos, idas e vindas no tempo, cenas de luta empolgantes e personagens excêntricos, o roteiro de "Trem-bala" nem sempre é rigorosamente fiel a seu material original, mas até mesmo as alterações feitas na trama do livro servem com perfeição à visão iconoclasta de Leitch, que prescinde das definições levianas de heróis e vilões, algozes e vítimas: durante as pouco mais de duas horas de duração do filme, nada que é dito é completamente confiável e nenhuma verdade é absoluta. Tal opção pelo dúbio e pela diversão ao invés da sobriedade faz de "Trem-bala" um produto raro, um respiro muito bem-vindo a um gênero que normalmente falha em tal equilíbrio. E se a presença de Brad Pitt parece apontar para um filme calcado em um grande astro - e caro, com um cachê milionário de 20 milhões de dólares -, o desenvolvimento do roteiro insiste em sua principal característica: não há um personagem central além do trem que dá nome ao filme. 

A princípio até pode parecer que Pitt é o personagem principal da trama, já que é o maior nome do cartaz e o primeiro a surgir na tela, mas não demora para que fique perceptível que seu Ladybug é apenas uma peça em um tabuleiro repleto delas. Escalado por sua superior (cuja intérprete-surpresa surge apenas nos momentos finais) a recuperar uma maleta em um trem-bala que viaja de Tóquio a Kyoto, Ladybug - que está passando por momentos difíceis na carreira, sendo acusado de não conseguir lidar com a agressividade - embarca no veículo sem ter a menor ideia de que sua missão está longe de ser simples como parece. No mesmo local, estão outros dois assassinos de aluguel, Tangerine (Aaron Taylor-Johnson) e Lemon (Bryan Tyree Henry), e a misteriosa Prince (Joey King) - que apesar do nome, esconde uma identidade feminina e um violento trauma familiar. Contratados pelo infame mafioso White Death (Michael Shannon) para salvar seu jovem filho das mãos de sequestradores, Lemon e Tangerine acabam por cruzar o caminho de outros criminosos beligerantes e cruéis - e, no decorrer do caminho, alianças são feitas e desfeitas, fatos do passado são trazidos à tona, reviravoltas acontecem a cada parada e até uma cobra assassina parece fazer parte de uma trama cujos desdobramentos remetem a coincidências das mais bizarras.

"Trem-bala" é um filme com inúmeras qualidades, mas justamente elas podem incomodar parte dos espectadores. Seu humor - um tanto macabro e violento - não é exatamente convencional. A estrutura do roteiro - repleta de flashbacks e flash forwards -  obriga a uma atenção extra que poucos estão dispostos a conceder diante do cinema quase preguiçoso que vem sendo oferecido pelos grandes estúdios. A falta de um herói - por mais que Ladybug seja uma espécie de fio condutor da trama ele não é o protagonista absoluto - talvez confunda àqueles que buscam uma narrativa mais simples. E o visual elaborado (cortesia da fotografia admirável de Jonathan Sela) pode soar como excessivamente colorido e kitsch. Mas o fato é que, somadas todas as características que fazem dele um filme de ação que tenta fugir da pasteurização do gênero, o resultado é uma produção muito acima da média, que não perde o ritmo em momento algum, que apresenta personagens interessantes interpretados por um elenco impecável e que não hesita em oferecer sequências coreografadas com precisão cirúrgica. É divertido, inteligente e produzido com extrema competência. Quanto ao fato de ser baseado em um livro japonês e contar com atores ocidentais é uma outra discussão, mais séria e mais profunda que em nada atrapalha o prazer de ser envolvido por um filme por 127 minutos de entretenimento puro.

JADE

  JADE (Jade, 1995, Paramount Pictures, 95min) Direção: William Friedkin. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem...