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domingo

REFÉM DA PAIXÃO

REFÉM DA PAIXÃO (Labor day, 2013, Indian Paintbrush, 111min) Direção: Jason Reitman. Roteiro: Jason Reitman, romance de Joyce Maynard. Fotografia: Eric Steelberg. Montagem: Dana E. Glauberman. Música: Rolfe Kent. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Steve Saklad/Tracey A. Doyle. Produção executiva: Michael Beugg, Steven M. Rales, Mark Roybal. Produção: Helen Estabrook, Lianne Halfon, Jason Reitman, Russell Smith. Elenco: Kate Winslet, Josh Brolin, Gattlin Griffith, Tobey Maguire, JK Simmons, Tom Lipinski, James Van Der Beek, Maika Monroe, Clark Gregg, Brooke Smith. Estreia: 30/8/13 (Festival de Telluride)
De um sujeito que assinou filmes como o cínico “Obrigado por fumar” (06), o sarcástico “Juno” (07), o cruel “Amor sem escalas” (09) e o ácido “Jovens adultos” (11) pode-se esperar qualquer coisa menos que escolha dirigir uma história de amor daquelas bem recheadas de clichês românticos e personagens heroicos, certo? Errado. Jason Reitman, talvez justamente para não ficar marcado por filmes que não retratam os seres humanos exatamente com simpatia resolveu fazer de seu quinto longa-metragem a adaptação do livro “Refém da paixão”, de Joyce Maynard, uma história de amor bem recheada de clichês românticos e personagens heroicos. A boa notícia? Ele consegue utilizar todos os lugares-comuns da trama a seu favor, construindo um romance delicado, simples e extremamente eficiente, ainda que nunca brilhante ou genial. Contando com atuações acima da média da sua dupla central – o que não é surpresa quando ela é formada por Kate Winslet e Josh Brolin – e revelando o ótimo Gattlin Griffith em um papel crucial, Reitman acerta mais uma vez e conquista o público com sobriedade e sensibilidade.
Situando sua trama no feriado do Dia do Trabalho de 1987 – um dos mais quentes da história – e em um cenário pouco explorado pelo cinemão americano – New Hampshire – Reitman, também autor da adaptação do romance de Maynard, apresenta um conto que apresenta, sem tentativas de soar original ou surpreendente, temas como solidão, depressão, perda da inocência e o despertar do sexo. São elementos já utilizados à exaustão por Hollywood e filmes de todas as nacionalidades, mas com um certo frescor e uma seriedade que torna impossível ao espectador resistir a eles. Justamente por adotar uma narrativa clássica apropriada à história que quer contar, o filho do também diretor Ivan Reitman conduz com simplicidade e sem sobressaltos um filme que em outras mãos menos talentosas certamente esbarraria na monotonia ou na previsibilidade. “Refém da paixão” é escorado em um ritmo que reflete com precisão a temperatura extrema que circunda os personagens – indolente, sexy e por vezes claustrofóbico.
Vivida por uma bela e intensa Kate Winslet, a protagonista do filme é Adele, uma dona-de-casa oprimida por uma depressão crônica tornada ainda pior com o abandono do marido, que a trocou pela secretária. Vivendo em companhia do filho único, o pré-adolescente Henry (Gattlin Griffith) e quase sem sair de casa, Adele resolve romper sua inércia justamente no dia em que Frank Chambers (Josh Brolin), um homem condenado a 18 anos de prisão por assassinato, foge do Hospital onde foi internado para tratar de uma apendicite. Na loja de departamentos onde vai comprar roupas novas para o início das aulas do filho, Adele é obrigada por Frank – sangrando mas nitidamente ameaçador – a levá-lo para sua casa e escondê-lo até a noite, quando então poderá continuar sua fuga. A princípio temerosa – por motivos mais do que óbvios – Adele aos poucos percebe, assim como Henry, que Frank não tem intenções criminosas em relação a eles e surge, então, uma relação amistosa. Assumindo o papel de homem da casa – consertando o carro, a calha, os degraus – e até enfrentando a cozinha – com uma já antológica cena em que os três, como uma família, assam uma torta de pêssegos – Frank acaba por encantar Adele, uma mulher solitária que vê nele uma figura masculina diferente do marido pouco confiável. Henry não demora a notar o interesse da mãe em Frank – e vice-versa – e luta internamente com a felicidade de ver a mãe reagindo ao mundo depois de muito tempo e o medo em relação ao destino de Frank, afinal de contas um foragido da Justiça.

Logicamente, como se trata de uma história de amor, o passado de Frank também é revolvido pelo roteiro, e conta com uma saudável cota de decepções e injustiças. Com flashbacks rápidos entremeados à trama central – e que apresenta Tom Lipinski, um ator idêntico a Josh Brolin fazendo seu papel na juventude – Reitman mostra à plateia que não há motivo para medo: Frank é um homem bom, e é permitido torcer para um final feliz entre ele e Adele. Esse tom de melodrama do filme, ao contrário do que se poderia esperar, funciona à perfeição. Como um bom contador de histórias, o cineasta quer que o público se afeiçoe a seus personagens e o faz com maestria. Fica difícil à plateia não se deixar envolver pelo romance entre Frank e Adele, especialmente porque a química entre Josh Brolin e Kate Winslet transborda pela tela.

Sem que seja preciso apelar para uma cena sequer de sexo, Jason Reitman inunda todas as sequências entre Winslet e Brolin com uma sensualidade à beira do inflamável. São olhares expressivos, toques delicados de mãos, sessões de cozinha e aulas de dança que orquestram a relação perigosa/apaixonada entre os personagens, e tal condição não escapa aos olhos do introvertido Henry, que justamente nesse momento está passando pela fatídica fase de despertar para o sexo oposto – que surge na figura de uma nova moradora da cidade, rebelde e ousada. O contraponto entre a mãe (redescobrindo o prazer e a paixão) e o filho (caminhando para o primeiro amor) surge como uma interessante subtrama, aprofundando os laços entre os dois e confirmando o talento do jovem Griffith em transmitir muito sem precisar falar quase nada. Intercaladas com alguns momentos de suspense bem dosados – o roteiro nunca deixa de lembrar que Frank é um criminoso – as cenas românticas de “Refém da paixão” buscam o familiar, a normalidade e a paz mesmo quando retrata uma situação muito longe da corriqueira. A família postiça de Henry – com um pai bem mais digno do título do que o verdadeiro – lhe oferece mais amor e exemplos do que a original: um contraste inteligente que eleva o filme acima da média do gênero.
Depois de sua metade, quando Adele e Frank resolvem fugir juntos, “Refém da paixão” perde um pouco o ritmo – que recupera no terço final, onde o suspense assume a protagonização em detrimento do romance. Mesmo assim fica difícil não perceber o cuidado da direção em manter uma coerência narrativa e no desenho dos personagens, construídos de forma a jamais trair suas concepções originais. Por mais que possa parecer a princípio, o amor entre a dupla central convence – como o encontro de duas almas torturadas finalmente vendo diante de si a possibilidade de carinho e compreensão. Essa verdade que transparece graças às atuações calorosas de Kate Winslet e Josh Brolin consegue até mesmo deixar perdoável o final um tanto abrupto em que Tobey Maguire assume o papel de Henry na fase adulta e serve como ponte para o desfecho que todos esperavam. É bonito, é coerente e é romântico até a medula. Mas funciona que é uma beleza.

segunda-feira

JOVENS ADULTOS

JOVENS ADULTOS (Young adult, 2011, Paramount Pictures, 98min) Direção: Jason Reitman. Roteiro: Diablo Cody. Fotografia: Eric Steelberg. Montagem: Dana E. Glauberman. Música: Rolfe Kent. Figurino: David Robinson. Direção de arte/cenários: Michael Ahern/Carrie Stewart. Produção executiva: Helen Estabrook, Nathan Kahane, John Malkovich, Steven Rales. Produção: Diablo Cody, Lianne Halfon, Mason Novick, Jason Reitman, Russell Smith. Elenco: Charlize Theron, Patrick Wilson, Patton Oswalt, Elisabeth Reaser, Mary Beth Hurt, Collette Wolff. Estreia: 09/12/11

Mavis Gary é uma escritora de sucesso. Quer dizer, em termos: ela é a ghost-writer uma série de livros adolescentes (mercado que nos EUA recebe o nome pomposo de “literatura para jovens adultos”) que está com os dias contados. Passa os dias curando ressacas fenomenais à base de litros homéricos de Diet Coke e programas ruins de televisão. É arrogante, egoísta e imatura. Vive em Minneapolis mas não consegue esquecer que saiu de uma pequena cidade do interior, onde ainda moram os pais – com quem mal se comunica. Um dia, curtindo uma depressão rotineira e pressionada pelos editores que cobram o último livro da série, Mavis recebe um email de um antigo namorado, feliz e realizado com a chegada de seu primeiro bebê. É o que basta para acordá-la do marasmo: munida da certeza de que o rapaz é o grande amor de sua vida e que está insatisfeito com a vida medíocre que leva, Mavis pega a estrada na companhia de seu fiel cachorrinho Dolce com o objetivo de declarar-se a ele e juntos recomeçarem sua história de amor interrompida anos antes.
Mavis Gary não é exatamente uma pessoa das mais agradáveis. Mas, apesar de ser perigosamente parecida com muita gente, é apenas uma personagem criada pela mente de Diablo Cody, a ex-stripper que ganhou um Oscar pelo roteiro de “Juno”, em 2008. Dona de características bem pouco afáveis e um caráter não exatamente dos melhores, Mavis só não é francamente repulsiva porque é interpretada com veracidade e inteligência por Charlize Theron, uma atriz tão dotada que consegue o impossível: dar-lhe alma e uma série de nuances que, em mãos outras, jamais seriam tão exploradas. Injustamente esquecida pela Academia por seu desempenho irretocável, Theron carrega nas costas o filme de Jason Reitman, uma comédia amarga, melancólica mas bastante ácida que faz um retrato pouco elogioso do american way of life sem que, para isso, precise apelar para o riso fácil ou a caricatura. Assim como nos trabalhos anteriores de Reitman – em especial “Obrigado por fumar” (06) e “Amor sem escalas” (09) – o humor se faz pela ironia e pelo desenho dos personagens, tão reais que poderiam estar sentados ao lado do espectador.


Quando Mavis chega à sua cidade natal, Mercury, dotada de toda a prepotência de alguém que se considera superior a todo o resto da humanidade, o público ainda não sabe do que ela é capaz para atingir seus objetivos – e talvez nem mesmo ela saiba. É somente quando ela encontra um antigo colega de escola, Matt Freulach (o ótimo Patton Oswaldt) que sua personalidade real começa a aflorar diante da plateia. Vítima de um espancamento na adolescência – que deixou de ser um crime de ódio quando descobriu-se que na verdade ele não era gay como se pensava – Matt vive com a irmã, carrega sequelas pesadas da surra e é o típico nerd que coleciona bonequinhos e faz bebida artesanal na garagem. Por uma certa ironia do destino, é justamente ele quem irá se tornar o confidente e o grilo falante de Mavis quando ela começar sua cruzada romântico/kamikaze pelo amor do pacato Buddy Slade (Patrick Wilson, simpático e apático como sempre). Casado, feliz e sem ter a menor ideia dos planos nefastos de sua ex-namorada, Buddy a recebe de braços abertos – e dá início a um processo que abrirá antigas feridas há muito cicatrizadas.



Apesar de fazer de Mavis uma adorável vilã – com diálogos que de tão ácidos tornam-se muito engraçados – o roteiro de “Jovens adultos” não a trata com condescendência. Mesmo que ela tenha seus motivos para destilar tanta amargura (motivos que são explicados na melhor cena do filme, quando ela toma um porre na festa de batizado do bebê de Buddy), Cody e Reitman fogem da tentação de engendrar um final bonitinho e redentor para sua protagonista, que tampouco aprende, em seu caminho, aquelas lições de vida que tanto agradam aos produtores hollywoodianos. Como a vida das pessoas de Mercury, a existência de Mavis não deixa de ser medíocre como todo mundo pensa, e nem ela é tão famosa quanto gostaria de ser. Sua arrogância – que desfila diante da recepção do hotel em que se hospeda, nos bares pasteurizados onde encontra Buddy e até nas lojas de departamento onde procura roupas “para reconquistar meu namorado” (em uma sequência impagável) – é fruto de um profundo senso de inferioridade, que se revela frequentemente em seu desespero em parecer importante. No fundo, Mavis é a personagem mais digna de pena do filme – mas nem por isso menos passível de críticas. E é aí, nessa complexidade, que reside o brilhantismo de Charlize Theron.
Linda como sempre, Theron deita e rola como Mavis Gary. Sem medo de despertar a antipatia do público, ela entrega uma interpretação desprovida de maneirismos, equilibrando o tom quase surreal de seus objetivos com um naturalismo espantoso que deixa verossímil até mesmo um inesperado encontro sexual que, de certa forma, ilumina o verdadeiro tema do filme de Reitman: a solidão. “Jovens adultos” – um título apropriado e dotado de um duplo sentido bastante feliz – fala sobre o medo de ficar só, sobre a desorientação de uma geração e sobre  falso dourado da fama e da glória sem cair em pregações morais ou sentimentalismo barato. É mordaz e realista dentro de suas limitações de gênero cinematográfico. E mais uma prova do talento de Reitman em fazer o espectador rir de si mesmo e de suas mazelas interiores. Um belo (e subestimado) filme.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...