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segunda-feira

ROCKETMAN

 


ROCKETMAN (Rocketman, 2019, Paramount Pictures/New Republic Pictures/Marv Films, 121min) Direção: Dexter Fletcher. Roteiro: Lee Hall. Fotografia: George Richmond. Montagem: Chris Dickens. Música: Matthew Margeson. Figurino: Julian Day. Direção de arte/cenários: Marcus Rowland/Judy Farr. Produção executiva: Michael Gracey, Elton John, Karine Martin, Tommaso Marzotto, Brian Oliver, Claudia Vaughn, Steve Hamilton Shaw, Danny Zamost. Produção: Adam Bohling, David Furnish, David Reid, Matthew Vaughn. Elenco: Taron Egerton, Jamie Bell, Richard Madden, Bryce Dallas Howard, Gemma Jones, Stephen Graham, Steven Mackintosh, Tom Bennett. Estreia: 16/5/2019 (Festival de Cannes)

Vencedor do Oscar de Canção Original ("I'm gonna love me again")

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Ator Comédia/Musical (Taron Egerton), Canção Original ("I'm gonna love me again")

É inacreditável, mas um ano depois de ter homenageado o sofrível "Bohemian Rhapsody" com quatro (!!!) Oscar - incluindo para o desempenho medonho de Rami Malek -, a Academia de Hollywood simplesmente ignorou aquele que realmente merecia todos os elogios e estatuetas possíveis. Cinebiografia do cantor e compositor Elton John (também um dos produtores executivos do filme e autor de sua canção-tema), "Rocketman" é não apenas a tradução para as telas de sua vida caótica, mas principalmente uma celebração energética, empolgante e emocionante de uma das obras mais importantes da música popular do século XX. Sem medo de tocar em pontos polêmicos de Elton - sua sexualidade, o abuso de drogas e álcool, a relação conflituosa com os pais - e amparada em uma atuação nunca aquém de espetacular de Taron Egerton, a produção dirigida por Dexter Fletcher não cai nas armadilhas tão frequentes em filmes do gênero ao optar por uma visão mais lúdica e não naturalista, que permite a ruptura narrativa tradicional. Em tom ópera-rock (valorizada pelos figurinos excêntricos que recriam o visual do cantor desde a década de 1960), "Rocketman" é absurdamente bom. E, apesar dos Golden Globes (ator e canção original), extremamente subestimado. 

Escrito pelo mesmo Lee Hall do excelente "Billy Elliot" (2000), "Rocketman" já começa quebrando toda e qualquer expectativa de se ver uma cinebiografia tradicional: vestido em um de seus exuberantes e clássicos trajes - recriados com excelência por Julian Day -, o cantor Elton John entra em uma reunião onde anônimos trocam experiências a respeito de seu vício em drogas. Cansado de viver em negação e sofrendo com os problemas inerentes a adicção, o cantor começa a relembrar toda a sua vida, desde sua infância nos anos 1950 em uma pequena cidade do interior da Inglaterra. Ainda com o nome de Reginald Dwight (e interpretado pelo ótimo ator mirim Matthew Illesley), o futuro astro vivia no meio da relação inconstante entre um pai distante, Stanley (Steven Macintosh), e uma mãe pouco afeita a atos de carinho, a quase fria Sheila (Bryce Dallas Howard). Contando com o apoio da avó, Ivy (Gemma Jones), e sentindo-se deslocado, ele encontra um caminho na música e, com o passar do tempo, passa dos estudos na Royal Academy of Music para os palcos de pubs noturnos. Descoberto por um empresário mais dedicado ao dinheiro do que à arte em si, Dick James (Stephen Graham), Elton assume um nome artístico, conhece o jovem compositor Bernie Taupin (Jamie Bell) e inicia uma das carreiras mais longevas e populares da história. Misturando sua vida profissional com a pessoal, se envolve amorosamente com outro empresário, John Reid (Richard Madden) e mergulha nas drogas e no álcool.

 

Assumindo com coragem e quase orgulho todas as nuances que fazem de Elton John um dos mais longevos e influentes ícones pop da história, "Rocketman" abraça o exagero e o camp como forma de traduzir, em duas horas de duração, o consagrado estilo do cantor, famoso por suas roupas, seus óculos, seus sapatos e principalmente por suas atitudes no palco, que incendiava com apresentações nunca menos que antológicas. O roteiro, ágil e informativo na medida certa, se utiliza com perfeição das canções de Elton e Taupin, que ilustram cada momento com humor, emoção e uma energia que ultrapassa a tela. A direção de Dexter Fletcher - que assinou também o subestimado "Voando alto" (2015) - usa e abusa de cores e texturas, aproximando o espectador do universo alucinante e alucinado de seu protagonista, vivido com dedicação e gosto por Taron Egerton. Egerton, aliás, é provavelmente a melhor escolha da produção: carismático e talentoso, o jovem ator britânico tem um desempenho exemplar, funcionando à perfeição como ator, cantor e dançarino, oferecendo um show particular que justifica plenamente seu Golden Globe e deixa ainda mais injusta sua esnobada junto à Academia. Ficando com um papel para o qual estavam cotados James McAvoy, Daniel Radcliffe e Justin Timberlake - preferido de Elton John desde sua participação no videoclipe de "This train don't stop here anymore", de 2001 -, Egerton se transforma no cantor sem deixar-se levar pelo caminho fácil da imitação e/ou caricatura.

Sem querer esconder do público os pontos mais polêmicos da vida e da carreira de Elton John, "Rocketman" mescla os elementos tradicionais das cinebiografias com a irreverência típica do músico. Ao contar sua história através de canções e números musicais - bem coreografados e produzidos com extrema competência -, Dexter Fletcher demonstra uma segurança ímpar em um gênero difícil, em que qualquer excesso (ou carência) pode por tudo a perder. Repleto de canções icônicas em momentos emocionantes e sem pesar a mão mesmo quando se encaminha para uma fase menos colorida na trajetória pessoal do protagonista, o filme de Fletcher é um programa sem contraindicações, ideal para os fãs e para quem ainda não conhece a potência de um ídolo atemporal.

quinta-feira

ENTRE FACAS E SEGREDOS

 


ENTRE FACAS E SEGREDOS (Knives out, 2019, Lionsgate, 130min) Direção e roteiro: Rian Johnson. Fotografia: Steve Yedlin. Montagem: Bob Ducsay. Música: Nathan Johnson. Figurino: Jenny Eagan. Direção de arte/cenários: David Crank/David Schlesinger. Produção executiva: Tom Karnowski. Produção: Ram Bergman, Rian Johnson. Elenco: Daniel Craig, Ana de Armas, Jamie Lee Curtis, Christopher Plummer, Toni Collette, Chris Evans, Don Johnson, LaKeith Stanfield, Katherine Langford, Riki Lindhome, Jaden Martell, Eddi Patterson, K Callan, Frank Oz, Noah Segan. Estreia: 07/9/2019 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

É impossível ser apresentando a Benoit Blanc sem que o personagem mais famoso de Agatha Christie venha à mente. Claramente calcado no belga Hercule Poirot - presença em 33 romances e 54 contos da escritora inglesa -, o detetive criado pelo diretor e roteirista Rian Johnson para seu "Entre facas e segredos" não envergonha sua maior fonte de inspiração: excêntrico, inteligente e sofisticado, Blanc também encontrou em Daniel Craig seu intérprete ideal e teve a suprema sorte de fazer sua primeira aparição nas telas em uma produção que consegue ser uma empolgante história de detetive, uma deliciosa comédia e um belo (ainda que descompromissado) estudo de personagens. Indicado a um merecido Oscar de roteiro original (que perdeu para o impecável "Parasita") e o pontapé inicial do que promete ser uma bem-sucedida série de filmes, "Entre facas e segredos" se beneficia ainda de um elenco impecável, que reúne nomes consagrados (Christopher Plummer, Jamie Lee Curtis), novatos promissores (Ana de Armas, Katherine Langford) e astros populares (Chris Evans, Toni Collette). Lançado no Festival de Toronto, em setembro de 2019, tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria do ano - com mais de 300 milhões de dólares arrecadados internacionalmente - e confirmou Johnson (de "Star Wars: os últimos Jedi") como um dos novos (e originais) talentos de Hollywood.

A trama criada por Johnson começa quando Harlan Thrombey (Christopher Plummer), famoso escritor de romances policiais, é encontrado morto no dia seguinte à festa em comemoração a seus 85 anos de idade. Apesar de todas as evidências levarem a crer que o escritor cometeu suicídio, o detetive Benoit Blanc (Daniel Craig) é misteriosamente contratado para fazer uma investigação mais aprofundada, para surpresa da disfuncional família da vítima - todos com sólidos motivos para ficarem satisfeitos com o desaparecimento do patriarca. Richard (Don Johnson), seu genro, acabara de ter um romance extraconjugal descoberto pelo sogro, que o obrigava a contar a verdade à esposa, Linda (Jamie Lee Curtis); Walt (Michael Shannon), seu filho caçula, fora demitido do cargo de responsável pela editora da família, que ocupava mesmo com conflitos de interesse com o pai; sua nora, Joni (Toni Collette), tivera desmascarado seu esquema de embolsar duas vezes o pagamento da universidade da filha adolescente; e seu neto, Ramson (Chris Evans) fora deserdado depois de um sério desentendimento. Enquanto conversa com os suspeitos e se aproxima da família, Blanc conta com a ajuda da amiga e cuidadora de Harlan, a brasileira Marta Cabrera (Ana de Armas) - que parece saber muito mais do que aparenta, mas teme por sua família de imigrantes.

 


Ao utilizar-se de vários elementos que fizeram a glória das histórias policiais clássicas - uma mansão que é parte integrante da narrativa, uma vítima de índole duvidosa, uma série de suspeitos pouco afeitos à verdade, pistas falsas, reviravoltas constantes e um detetive fascinante - "Entre facas e segredos" conquista a plateia sem muito esforço. Basta poucos minutos para que o público já esteja envolvido na trama e com sua própria versão da verdade definida - o que, logicamente, muda conforme a ação vai se desenvolvendo. A edição inteligente, que usa e abusa de flashbacks intrigantes e reveladores, é um destaque extra, ao enfatizar as várias camadas do belo roteiro. E se Daniel Craig tem a chance de um novo personagem a ser explorado em uma série de filmes - "Glass Onion" estreou em 2022 e outros capítulos devem vir com o tempo -, o elenco de coadjuvantes de peso não fica atrás. Antes de sua indicação ao Oscar pelo polêmico "Blonde" (2022), a cubana Ana de Armas apresenta um misto de carisma e inocência que justifica a atenção de Hollywood a seu nome; Jamie Lee Curtis mostra que a maturidade lhe fez muito bem; Toni Collette mais uma vez rouba a cena sempre que aparece; e Chris Evans surpreende ao explorar com sagacidade sua imagem de galã irônico e mordaz. Mérito da direção firme de Rian Johnson - com um belo timing cômico a serviço de uma boa história -, a química impecável do elenco mostra-se providencial para prender a atenção do espectador, e a direção de arte reflete visualmente as características exuberantes da trama e dos personagens, repletos de idiossincrasias e segredos.

Divertido e sagaz como os melhores livros de Agatha Christie, "Entre facas e segredos" é um presente aos fãs do gênero. Anos-luz à frente das modernas adaptações da obra da escritora dirigidos por Kenneth Branagh - que matam suas maiores qualidades em busca de um público mais afeito a redes sociais do que a telas de cinema -, o filme de Rian Johnson é a prova de que enredos espertos, diretores competentes e atores talentosos são muito mais importantes do que pretensas rupturas narrativas e visuais. Tradicional e clássico na estrutura e no desenvolvimento - mas com a agilidade do bom cinema  norte-americano comercial -, é capaz de conquistar, sem contraindicações, qualquer tipo de público que goste de ser seduzido por uma boa trama de mistério e bom-humor.

sexta-feira

OS TRADUTORES


OS TRADUTORES (Les traducteurs, 2019, Trésor Films/Mars Films/France 2 Cinéma, 105min) Direção: Régis Roinsard. Roteiro: Régis Roinsard, Daniel Presley, Romin Compingt. Fotografia: Guillaume Schiffman. Montagem: Loic Lallemand. Música: Jun Miyake. Figurino: Emmanuelle Youchnovski. Direção de arte/cenários: Sylvie Olivé/Julien Tesseraud, Félix Guittet, Prune Lacroix. Produção: Alain Attal. Elenco: Lambert Wilson, Olga Kurylenko, Riccardo Scamarcio, Eduardo Noriega, Sidse Babett Knudsen, Alex Lawther, Anna Maria Sturm, Frédéric Chau, Maria Leite, Manolis Mavromatakis, Sara Giraudeau, Patrick Bauchau. Estreia:23/11/2019 (Festival de Francouzskych)

Se estivesse viva e fosse roteirista de cinema, certamente Agatha Christie estaria por trás de produções como "Os tradutores". Perceptivelmente calcado no estilo da escritora inglesa em criar seus mistérios, o filme franco-belga do diretor Régis Roinsard apresenta ao espectador uma trama repleta de reviravoltas, meias-verdades e personagens dúbios, em um entretenimento de visual atraente e - por que não?? - um interessante subtexto que questiona o mercado editorial e a prostituição da arte. Com um elenco internacional que conta com nomes conhecidos dos cinéfilos mais antenados - como o italiano Riccardo Scamarcio, o espanhol Eduardo Noriega, a ucraniana Olga Kurylenko e o francês Lambert Wilson - e referências culturais que remetem a obras universalmente reconhecíveis, "Os tradutores" é uma bela surpresa, uma mescla empolgante entre cinema e literatura que jamais se mostra pretensiosa e/ou hermética. De quebra, é uma homenagem aos profissionais da tradução, frequentemente relegados a segundo plano na indústria literária.

Na trama criada pelos roteiristas, o terceiro capítulo de "Dédalus" uma trilogia de vendagem avassaladora escrita por um recluso autor de nome Oscar Brach está para ser publicada. Em uma estratégia de marketing ousada, a editora, comandada pelo ambicioso Eric Angstrom (Lambert Wilson), resolve fazer um lançamento mundial, com tradução simultânea para vários idiomas - e assim evitar a pirataria, que ele considera a maior ameaça ao mercado. Para isso, ele contrata nove tradutores de lugares distintos do mundo para uma missão absolutamente secreta em um bunker localizado em um luxuoso castelo da França. O que poderia parecer o emprego dos sonhos na verdade é quase uma prisão: sem acesso a Internet e celular e sem contato com o mundo exterior, os escolhidos terão um período de trabalho árduo que nem mesmo o conforto é capaz de atenuar. Para piorar, depois de algum tempo de isolamento, as dez primeiras páginas do livro surgem online e um hacker exige uma fortuna para não prosseguir as publicações. Furioso e apavorado com a possibilidade de perder sua galinha dos ovos de ouro, Angstrom inicia então uma caçada ao responsável pelo vazamento - se utilizando de meios nem sempre éticos ou dentro da lei.

 

Servindo-se de idas e vindas no tempo, em uma edição que por vezes soa um tanto confusa mas que se justifica nos momentos finais, "Os tradutores" envolve o espectador em um redemoinho de traições, mentiras e pistas falsas que, conforme o andamento da projeção, vão se demonstrando cruciais para a verdade sobre o caso. Fugindo do clichê dos longos discursos e das revelações catárticas que frequentemente minam a credibilidade das produções hollywoodianas, os roteiristas optam, acertadamente, em resolver gradativamente as questões que levantam - um artifício que mostra sua inteligência quando tais resoluções apontam para outras perguntas talvez ainda mais intrigantes. Aos poucos a pergunta sobre quem é o hacker vai abrindo espaço para outras: quem é Oscar Brach? Qual a relação dele com Angstrom? Quem está na cadeia e por quê? E o que o passado de um determinado personagem tem a ver com a situação do momento - se é que tem? Mais do que simplesmente jogar indagações a esmo, o roteiro tenta organizá-las de forma a prender a atenção do público e buscar uma coerência interna satisfatória. Nem sempre consegue, mas o faz na maioria esmagadora do tempo, e ainda conta com um elenco de excelentes atores.

Mesmo que nem todos sejam explorados como poderiam, os atores que forspensmam o elenco de "Os tradutores" são um capítulo à parte. O italiano Riccardo Scamarcio, considerado um os mais promissores galãs do país, tem no currículo a ótima comédia "O primeiro que disse" (2010) - que deu origem ao execrável remake brasileiro "Quem vai ficar com Mário?"; o espanhol Eduardo Noriega é o protagonista de "Preso na escuridão" (1997), de Alejandro Amenábar, e "Plata quemada" (2000), de Marcelo Pinyero; Lambert Wilson é conhecido como Merovingian  de "Matrix Reloaded" (2003); Olga Kurylenko foi bondgirl em "007: Quantum of Solace" (2008) e o jovem Alex Lawther esteve no elenco de "O último duelo", de Ridley Scott e "A crônica francesa", de Wes Anderson, ambos lançados em 2021. Ao lado de outros intérpretes nem tão conhecidos mas igualmente talentosos, eles oferecem à plateia um quebra-cabeças envolvente que não hesita em homenagear explicitamente sua maior fonte de inspiração (Agatha Christie, quem mais?) em uma referência direta e carinhosa. Um filme sem contraindicações a quem busca diversão inteligente.

quinta-feira

ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD


ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD (Once upon a time in... Hollywood, 2019, Sony Pictures, 161min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Fred Raskin. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Barbara Ling/Nancy Haigh. Produção executiva: Jeffrey Chan, Georgia Kacandes, Yu Dong. Produção: David Heyman, Shannon McIntosh, Quentin Tarantino. Elenco: Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Emile Hirsch, Margaret Qualley, Timothy Olyphant, Dakota Fanning, Bruce Dern, Al Pacino, Luke Perry, Costa Ronin, Lena Dunham, Kurt Russell, Rafal Zawierucha, Damon Herriman. Estreia: 21/5/2019 (Festival de Cannes)

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários. Edição de Som, Mixagem de Som

Vencedor de 2 Oscar: Ator (Brad Pitt), Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 3 Golden Globe Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Roteiro

Foi na madrugada de 6 de agosto de 1969 que um crime - violento e chocante em sua gratuidade - acabou, segundo a escritora Joan Didion, com o movimento hippie, a era do amor livre e a atmosfera dos anos 60 como um todo. Um grupo de seguidores do messiânico Charles Manson invadiu a casa da atriz Sharon Tate, grávida de oito meses do cineasta Roman Polanski (em alta com o sucesso de seu "O bebê de Rosemary", lançado no ano anterior) e a assassinou, juntamente com um grupo de amigos, deixando no local uma série de detalhes macabros que alimentaram as manchetes dos jornais por meses a fio. A investigação do crime, a prisão dos responsáveis e o julgamento midiático ocuparam a mente do mundo - e em especial dos EUA - por anos e ainda permanecem como uma lembrança trágica de uma época encerrada abruptamente com um banho de sangue. O trauma foi tanto que demorou meio século para que um grande estúdio de Hollywood finalmente rompesse o silêncio a respeito do assunto - e mesmo assim somente com o aval de um nome de prestígio, com coragem o suficiente para mexer em um vespeiro mantido sob uma redoma de respeito pelos envolvidos e pelo medo de um fracasso de bilheteria. Foi somente quando Quentin Tarantino anunciou que seu filme seguinte ao western "Os oito odiados" (2016) teria Sharon Tate como uma de suas personagens principais que a história (até então contada mal e porcamente em documentários e telefilmes de pouca repercussão) voltou a povoar o imaginário mundial - e despertar uma curiosidade que só fez aumentar conforme chegava a data de estreia.

Pensando em marcar a estreia de "Era uma vez em... Hollywood" para 6 de agosto de 2019, data em que o crime completaria 50 anos, Tarantino foi voto vencido quando a Sony Pictures - que ganhou os direitos de distribuição em uma disputa acirradíssima com a Warner, a Universal, a Paramount, a Lionsgate e Annapurna Pictures - preferiu adiantar a data para 26 de julho, pouco mais de dois meses depois do lançamento da produção no Festival de Cannes. Até que tal evento acontecesse, porém, muito foi dito, inventado, polemizado e misteriosamente escondido a respeito do filme. Com um roteiro secreto (lido apenas por parte da equipe de filmagem, como forma de evitar os dissabores que quase cancelaram "Os oito odiados" depois do vazamento de seu script) e notícias que chegavam aos poucos, "Era uma vez em... Hollywood" já era, muito antes de chegar às telas, uma das produções mais comentadas e esperadas da temporada - por inúmeras razões. Além do marketing espontâneo que qualquer trabalho de Tarantino gera, não era nada mal ter Brad Pitt e Leonardo DiCaprio nos papéis principais em uma trama que misturava, da forma como apenas o cineasta consegue fazer sem soar prolixo, a trajetória de Sharon Tate, a desilusão de um astro da antiga indústria com os novos tempos, a decadência de um gênero específico (o western), bastidores do cinema pelos olhos de um dublê e diálogos preciosos. Tido por Tarantino como seu filme mais pessoal - algo como "Roma" foi em relação a Alfonso Cuarón - e escrito em um período de cinco anos (nos quais o cineasta também o transformou em um romance, lançado em seguida à estreia), "Era uma vez em... Hollywood" provou que a espera valeu a pena, tanto em termos artísticos quanto comerciais. Com uma renda internacional que ultrapassou os 370 milhões de dólares, dez indicações ao Oscar (e duas categorias no bolso), o filme pode até não ter agradado a todo mundo - algo corriqueiro na filmografia de Tarantino -, mas é, inegavelmente, uma das obras cinematográficas mais importantes de seu tempo.


 Com um título inspirado em Sergio Leone e seus "Era uma vez no Oeste" (1968) e "Era uma vez na América" (1984), o nono filme de Tarantino - se as duas partes de "Kill Bill" forem consideradas apenas um único projeto - quase foi realizado em preto-e-branco e poderia ter estreado com uma duração de 4 horas e 20 minutos. Mas cinema é uma arte de concessões e do jeito que está, o filme é uma pequena obra-prima (mais uma na carreira do Tarantino diretor ). Tudo funciona perfeitamente - até mesmo o que parece gratuito tem ressonâncias bem mais profundas do que aparenta. Por trás dos longos diálogos (característica inconfundível do Tarantino roteirista) e das referências que podem soar como grego ao público médio, a trama é uma pérola de nostalgia, melancolia e pitadas generosas de uma ironia tão fina que pode até passar despercebida - ao menos até o clímax, tão inesperado e surpreendente que foi objeto de um pedido especial dos realizadores para que não fosse comentado pela imprensa ou pela plateia. Justificável: assim como em "Bastardos inglórios" (2009), Tarantino rege seu próprio universo, manda em seus próprios domínios, subverte as próprias regras e a história, se for preciso. Longe de desagradar aos puristas, encontra uma maneira de fazer com que a magia do cinema sempre se sobressaia - e sublinhe seu talento em encantar e decepcionar com a mesma intensidade.

O filme se passa em 1969, quando a Era de Ouro de Hollywood está em seus estertores. Longe de ainda ter a relevância que tinha na década de 1950, quando estrelava populares séries de western na televisão, Rick Dalton (vivido por Leonardo DiCaprio) paira sob uma Los Angeles a que mal reconhece, tentando encontrar uma maneira de manter uma carreira já tida como acabada. Vizinho do cineasta Roman Polanski (praticamente um símbolo de uma nova indústria, moderna e jovem), Dalton luta contra o próprio instinto de autodestruição enquanto relembra seus melhores momentos, ao lado de grandes atores e cercado de respeito e adulação. Invariavelmente acompanhado de seu dublê, Cliff Booth (Brad Pitt, vencedor do Oscar de ator coadjuvante) - bem mais confortável com as novas regras do jogo, a ponto de quase deixar-se envolver com um grupo de hippies bem mais jovens -, o ex-astro vê, aos poucos, uma nova Hollywood surgir diante de seus olhos. Enquanto isso, sua deslumbrante vizinha, Sharon Tate (Margot Robbie), começa a sentir o gostinho da fama e vislumbrar um brilhante futuro, tanto na carreira quanto na vida doméstica. Com visões distintas de sua época e de sua profissão, Dalton e Tate terão suas vidas cruzadas de forma totalmente inesperada e violenta.

Lançado no mesmo Festival de Cannes que 25 anos antes deu a Tarantino a Palma de Ouro e o aval necessário para que se tornasse um dos autores mais prestigiados do cinema norte-americano, "Era uma vez em... Hollywood" não saiu ileso a críticas e polêmicas. Se Debra Tate, irmã de Sharon, viu sua resistência ao projeto ruir ao encontrar Margot Robbie e reconhecer nela qualidades que a faziam lembrar da saudosa atriz, o mesmo não pode ser dito em relação às queixas de Shannon Lee, filha do ator Bruce Lee que não achou graça nenhuma na forma como o roteiro retratou seu pai - bastou uma única sequência para que Shannon considerasse tudo um insulto à memória do ator. Também foi alvo de críticas as liberdades artísticas tomadas pelo cineasta em relação à uma trama crucial para o roteiro: ao criar personagens novos na famigerada Família Manson (ou mesclar personagens reais com fictícios), Tarantino incomodou os puristas que esperavam uma descrição real dos crueis fatos de 6 de agosto de 1969 - que não tiveram interesse em perceber as reais intenções do diretor ao unir a realidade (ainda que alterada) com a fantasia: "Era uma vez em... Hollywood" não é um documentário sobre os assassinatos cometidos naquela fatídica noite - é uma comédia dramática sobre a união de dois mundos, sobre os meandros do destino e sobre a inexorabilidade do tempo até mesmo dentro de um universo que vende fantasia. É um filme com a cara de seu diretor - para o bem ou para o mal - e uma inteligente homenagem a uma atriz cujo futuro foi interrompido pela força do fanatismo. Como qualquer filme de Tarantino, não é para todos os públicos. Mas é sensacional!

quarta-feira

A DESPEDIDA


A DESPEDIDA (Blackbird, 2019, Millenium Media/Busted Shark Productions/Eclectic Pictures, 97min) Direção: Roger Michell. Roteiro: Christian Torpe, roteiro original de sua autoria. Fotografia: Mike Eley. Montagem: Kristina Hetheringon. Música: Peter Gregson. Figurino: Dinah Collin. Direção de arte/cenários: John Paul Kelly/Caroline Smith. Produção executiva: Boaz  Davidson, Andrey Georgiev, Jeffrey Greenstein, Andrew Kotliar, Avi Lerner, Bryan Lord, Heidy Jo Markel, Joshua Sason, Trevor Short, Jonathan Yunger, Elizabeth Zavoyskiy. Produção: David Bernardi, Sherryl Clark, Rob Van Norden. Elenco: Susan Sarandon, Kate Winslet, Mia Wasikowska, Sam Neill, Lindsay Dunca, Rainn Wilson, Bex-Taylo-Klaus, Anson Boon. Estreia: 06/9/2019 (Festival de Toronto)

Portadora de uma doença degenerativa incurável, mulher reúne a família em um último fim-de-semana, com o objetivo de aparar as arestas de suas relações e despedir-se daqueles a quem ama. A sinopse do filme "A despedida" soa tão genérica quanto seu título nacional, mas a boa notícia é que, apesar dos clichês abundantes, o remake do dinamarquês "Coração mudo" (2014), comandado por Roger Michell, é uma produção bastante digna e capaz de comover o público com facilidade - principalmente pela união de um elenco que conta com duas vencedoras do Oscar e atores com prestígio e experiência suficientes para evitar o dramalhão fácil. Nem sempre consegue escapar das armadilhas de uma trama assumidamente emocional, mas dotado de um ritmo agradável e um roteiro que trata de um assunto pesado - a eutanásia - com uma leveza inesperada, o filme é uma bela surpresa, ainda que pouco marcante, o que se refletiu em sua repercussão quase nula desde sua estreia no Festival de Toronto de 2019.

Escrito pelo mesmo Christian Thorpe do filme original, o roteiro de "A despedida" apresenta seus personagens aos poucos - e só expõe a situação principal depois que o espectador já os conhece o bastante para apreciar suas reações diante de um dilema dos mais dilacerantes. Lily (Susan Sarandon, sempre excepcional) e Paul (Sam Neill) formam um casal apaixonado e leal, que criou suas duas filhas com amor e liberdade. A mais velha, Jennifer (Kate Winslet) cresceu uma mulher um tanto controladora, que não abre muito espaço para espontaneidade em sua vida, para incômodo do marido, Michael (Rainn Wilson), e do filho adolescente Jonathan (Anson Boon). A caçula, Anna (Mia Wasikowska), mais rebeldes e desajustada, vive em constantes altos e baixos, o que interfere inclusive no seu relacionamento com a namorada, Chris (Bex Taylor-Klaus). Sofrendo de uma doença que em pouco tempo lhe deixará completamente incapaz de uma vida normal, Lily decide cometer suicídio assistido, contando com a ajuda do marido, que é médico, e para despedir-se adequadamente de todos a quem ama, organiza um fim-de-semana em sua bela casa no litoral - uma espécie de Natal adiantado, que conta também com a presença da sempre fiel e melhor amiga Liz (Lindsay Duncan). Reunido, o grupo tenta ignorar a tensão de uma morte anunciada - o que traz à tona ressentimentos, segredos e sentimentos até então disfarçados sob a aparência de uma família feliz.


 

Não há novidades em "A despedida": o tema, os personagens, os conflitos, tudo parece já ter sido explorado em outras produções mais ou menos bem-sucedidas. Mas é inegável que no filme de Michell - o homem por trás do delicioso "Um lugar chamado Notting Hill" (1999) - as engrenagens funcionam com uma delicadeza ímpar. Por mais que as coisas aconteçam de acordo com os manuais de roteiro (com direito a reviravoltas e um equilíbrio sutil entre drama e algum humor), é difícil não se deixar envolver com o drama proposto, principalmente por jogar luz sob um tema ainda doloroso e polêmico. A produção acerta em não se deixar levar por um tom fúnebre - para o que colabora a luminosa fotografia de Mike Eley, que tira proveito da beleza natural de West Sussex como contraponto à angústia da trama. Também não atrapalha nem um pouco ter em cena atores tão à vontade quanto o elenco escolhido - um time de excelentes intérpretes, que aproveitam cada linha de diálogo para brilhar. Se Susan Sarandon e Kate Winslet não precisam provar mais nada há algum tempo, sobra para Rainn Wilson e Bex Taylor-Klaus chamarem a atenção: ele distante anos-luz de seu mais célebre personagem - o Dwight da série "The office" - e ela oferecendo nuances inesperadas as uma personagem que poderia facilmente cair no estereótipo barato.

"A despedida" não é um filme que fica na memória. Talvez seja sintomático que, apesar do tema, do gênero e do elenco brilhante, tenha sido solenemente ignorado em todas as cerimônias de premiação que tanto apreciam seu estilo. Porém, ao abraçar com sensibilidade e honestidade uma história com tantas possibilidades de cair no grotesco ou no sentimentaloide mais ofensivo, se torna um programa de rara inteligência e sutileza. E claro, contar com um elenco tão fabuloso apenas ajuda a tornar tudo bem mais palatável. É um filme com (grandes) qualidades e (alguns) defeitos - a falta de originalidade sendo o mais óbvio. Mas é, acima de tudo, um filme digno ainda que por vezes um tanto superficial.

terça-feira

ESTAREMOS SEMPRE JUNTOS


ESTAREMOS SEMPRE JUNTOS (Nous finirons ensemble, 2019, Trésor Films/Caneo Films/EuropaCorp, 134min) Direção: Guillaume Canet. Roteiro: Guillaume Canet, Rodolphe Lauga. Fotografia: Christophe Offenstein. Montagem: Hervé de Luze. Direção de arte/cenários: Philippe Chiffre/Fabien Georges. Produção executiva: Xavier Amblard. Produção: Alain Attal. Elenco: François Cluzet, Marion Cottilard, Benoit Magimel, Gilles Lelouche, Laurent Lafitte, Pascale Arbilot, Clémentine Baert. Estreia: 11/4/2019

Em 2010, o ator e cineasta Guillaume Canet lançou "Até a eternidade", uma comédia dramática que tornou-se um dos maiores sucessos do cinema francês daquele ano, com mais de cinco milhões de ingressos vendidos e elogios rasgados. Seu retrato carinhoso e um tanto melancólico de um grupo de amigos obrigados a enfrentar as verdades por trás de suas vidas aparentemente tranquilas tinha no elenco nomes conhecidos do cinema europeu - como o veterano François Cluzet - e vencedores do Oscar - Marion Cottilard e Jean Dujardin, este em uma participação especial - e nítidas influências de "O reencontro", clássico oitentista do norte-americano Lawrence Kasdan. Com personagens bem construídos, excelente senso de ritmo e um equilíbrio invejável de humor e sentimentalismo, seu roteiro deixava margem para uma continuação que, depois de nove anos, finalmente viu a luz dos projetores. "Estaremos sempre juntos", que volta a encontrar o grupo de amigos, dessa vez com suas vidas alteradas pelo tempo e por novos dramas, estreou na França em 2019 e, apesar de não obter a mesma repercussão do original - e não ter sido exatamente aprovado pela crítica -, mantém algumas de suas maiores qualidades e aposta na identificação da plateia com seus personagens, agora mais velhos e desiludidos.

Enquanto o primeiro filme as férias de verão do grupo de amigos protagonistas acontecia sob a sombra do acidente que deixou um deles no hospital, em "Estaremos sempre juntos" o drama principal gira em torno de Max (François Cluzet), o mais bem-sucedido financeiramente do grupo, que está passando por um inferno astral: separado da mulher, Véro (Valerie Bonneton), vê sua fortuna escapar por entre os dedos, sofre de uma grave crise de meia-idade (apesar do relacionamento carinhoso com a nova esposa) e, apesar de esconder de todos, está vendendo a casa de praia onde tantas vezes recebeu (com indisfarçável orgulho) sua turma. Em depressão e ainda mais taciturno e mau-humorado, Max se surpreende quando todos aparecem na propriedade sem avisar, como forma de comemorar seu aniversário com uma festa surpresa. Já faz algum tempo que seu relacionamento com o grupo está estremecido (principalmente depois de uma briga com Eric (Gilles Lellouche)), e o reencontro, como se poderia esperar, irá reviver conflitos e forçar confrontos que todos gostariam de evitar. Sete anos depois da tragédia que os fez repensar a vida, eles novamente são postos diante de situações decisivas.

Marie (Marion Cottilard) talvez seja, dentre todos, a que mais mudou: mãe solteira de um menino, ela não é mais a mulher disposta a mudar o mundo que era em seus dias mais jovens, e não perde a oportunidade de demonstrar sua má-vontade com o mundo em geral. Vincent (Benoit Magimel) também mudou radicalmente de vida, depois de assumir um relacionamento homossexual e separar-se de Isabelle (Pascale Arbillot) - que, por sua vez, redescobriu sua sensualidade a ponto de chamar a atenção de Antoine (Laurent Lafitte), agora trabalhando como assistente de Eric - que também tornou-se pai e tenta equilibrar sua carreira de ator (em ótima fase) com a vida (quase) familiar. Eric é o único que sabe a verdade sobre a nova situação financeira de Max - e o ajuda a fingir que ele é o responsável por alugar uma nova casa para seu reencontro - um reencontro em que ele tentará manter as aparências enquanto luta desesperadamente com sua sensação de fracasso. Nesse meio-tempo, situações dramáticas e cômicas se acumulam: Vincent se sente atraído pela ex-mulher, Eric tenta convencer Marie a abandonar sua nova e autodestrutiva rotina e a onipresença de uma rígida babá deixa tudo em constante tensão - sem falar nos filhos adolescentes de Vincent e Max, buscando atenção e aprovação paternas.

Assim como em "Até a eternidade", Canet equilibra drama e humor, ilustrando seu roteiro com uma trilha sonora caprichadíssima e um ritmo suave. Porém, ao contrário do que acontecia no primeiro filme, ele não consegue evitar uma queda de interesse em seu terço final, com um clímax pouco atraente - envolvendo as crianças - e um desfecho menos potente do que se poderia imaginar. Tais pecados, no entanto, não apagam o que a produção tem de bom: um elenco acima de qualquer crítica (que consegue lidar com a complexidade de seus personagens), uma sensibilidade emocionante e um carinho indisfarçável pelas relações humanas. Que venha um terceiro capítulo!

MEU NOME É DOLEMITE


MEU NOME É DOLEMITE (Dolemite is my name, 2019, Netflix, 118min) Direção: Craig Brewer. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karaszewski. Fotografia: Eric Steelberg. Montagem: Billy Fox. Música: Scott Bomar. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Clay A. Griffith/Lisa K. Sessions. Produção executiva: Michael Beugg, Charisse Hewitt-Webster. Produção: John Davis, John Fox, Eddie Murphy. Elenco: Eddie Murphy, Wesley Snipes, Keegan-Michael Key, Mile Epps, Craig Robinson, Kodi Smit-McPhee, DaVine Joy Randolph, Snoop Dogg. Estreia: 07/9/2019 (Festival de Toronto)

Poucos astros de Hollywood eram tão poderosos na década de 1980 quanto Eddie Murphy. Graças a filmes como "48 horas" (1982), "Trocando as bolas" (1983), "Um tira da pesada" (1984) e "Um príncipe em Nova York" (1988), ele era o ator negro mais respeitado desde que Sidney Poitier conquistou o coração de toda uma geração, nos anos 1960. Porém, mesmo sucessos consecutivos de bilheteria não significam prestígio eterno, e, sob o peso de escolhas equivocadas e um ego inflado, sua queda foi igualmente espetacular. Relegado a um quase ostracismo e mantendo a carreira com espasmos de sucesso - com "O professor aloprado" (1996) fez as pazes, momentaneamente, com o público e com "Dreamgirls: em busca de um sonho" (2006) chegou a ser indicado ao Oscar de ator coadjuvante -, Murphy parecia destinado a repetir ad infinitum a voz do simpático burro de "Shrek" até que a sorte voltou a lhe sorrir. Produzido pela Netflix e aclamado pela crítica, "Meu nome é Dolemite" lhe rendeu uma indicação ao Golden Globe de melhor ator em comédia/musical e ressuscitou mais uma vez uma carreira tantas vezes tida como definitivamente morta. A boa notícia é que o filme, dirigido por Craig Brewer (que comandou Terrence Howard em sua indicação ao Oscar de melhor ator em "Ritmo de um sonho", de 2005) é não apenas um bem-vindo respiro em uma sucessão de trabalhos fracos, mas sim um dos melhores filmes de seu currículo.

"Meu nome é Dolemite" é uma história real, mas isso não faz dele menos divertido. Seu protagonista, Rudy Ray Moore, é um daqueles personagens inacreditáveis, cuja própria existência já é capaz de provocar gargalhadas na plateia. Tentando conquistar um lugar ao sol no showbusiness dos anos 1970, Moore se via repetidamente colecionando fracassos, seja como cantor ou humorista. Sua grande virada acontece quando, por acaso, ele vê nas palavras aparentemente sem sentido de um desabrigado que volta e meia surge na loja de discos em que trabalha, uma mina de ouro: com um personagem chamado Dolemite, que se veste como um cafetão e não economiza na linguagem pesada, ele se torna um sucesso absoluto da boemia negra de Los Angeles. Querendo ainda mais, ele grava um disco com suas piadas - e, para surpresa de muitos, o êxito é ainda maior, apesar do esquema amador de negócio. Para seu deleite, então, uma gravadora lhe oferece um contrato e novos discos são postos no mercado, expandindo o público de Moore/Dolemite. Cada vez mais ambicioso, o comediante resolve abraçar uma nova mídia e, para descrença de muitos, decide fazer um filme com seu personagem - tendo as plateias negras como público-alvo.

 

A partir daí, é impossível não traçar paralelos entre Moore e outro ilustre cineasta amador, o hoje celebrado Ed Wood - tema da obra-prima de Tim Burton e, coincidência ou não, escrito pelos mesmos Scott Alexander e Larry Karaszewski: tanto Wood quanto Moore tinham mais criatividade e energia em transformar seus sonhos em realidade do que noções básicas de como fazer um filme. Enquanto Wood contava com a experiência de um decadente Bela Lugosi, quem ajuda Moore é D'Urville Martin, um nome conhecido no universo da blaxploitation que entra no projeto de má-vontade e acaba não apenas atuando mas dirigindo o filme, escrito por Jerry Jones (Keegan-Michael Key), um dramaturgo de ambições sérias atônito com as sugestões do dono da produção - mesmo que sem muito sentido, Moore quer incluir no filme coisas como kung-fu (mesmo que ele não saiba lutar), mulheres nuas, piadas, perseguições de carro, e tudo mais que puder chamar público ("exorcismo eu deixo para um próximo"). E, assim como no filme estrelado por Johnny Depp e Martin Landau, são os bastidores das filmagens que deixam "Meu nome é Dolemite" deliciosamente trash - e surpreendentemente emocionante.

Acostumados a contar histórias sobre personalidades reais - também assinam os scripts de "O povo contra Larryy Flynt" (1996) e "O mundo de Andy" (1999), ambos dirigidos por Milos Forman -, Larry Alexander e Scott Karaszevski fazem de "Meu nome é Dolemite" um dos pontos altos de sua carreira. Equilibrado com perfeição entre o humor, o drama e um retrato acurado sobre a cultura negra nos EUA dos anos 1970, o filme não apenas lembra o público de como Eddie Murphy pode ser um bom ator quando deixa de lado sua vaidade como dá uma nova chance a outro ator cuja popularidade despencou depois de uma série de sucessos: na pele do afetado D'Urville Martin, o polêmico Wesley Snipes entrega talvez o melhor desempenho de um filme cujos atores coadjuvantes brilham sem fazer muito esforço - a ótima DaVine Joy Randolph é um exemplo claro dessa afirmação, com uma atuação que pode fazer rir e chorar na mesma cena. E se o roteiro é um achado, o mesmo pode ser dito da direção de Craig Brewer. Não é à toa que o próprio Eddie Murphy o tenha escolhido para dirigir a esperada continuação de "Um príncipe em Nova York", com estreia marcada para 2021.

quarta-feira

OPERAÇÃO FRONTEIRA

OPERAÇÃO FRONTEIRA (Triple frontier, 2019, Netflix/Atlas Entertainment, 125min) Direção: J.C. Chandor. Roteiro: Mark Boal, J.C. Chandor, estória de Mark Boal. Fotografia: Roman Vasyanov. Montagem: Ron Patane. Música: Disasterpiece. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Greg Berry/Jay Hart. Produção executiva: Kathryn Bigelow, Mark Boal, Anna Gerb, Thomas Hayslip, Andrés Calderon. Produção: Neal Dodson, Alex Gartner, Andy Horwitz, Charles Roven. Elenco: Ben Affleck, Oscar Isaac, Charlie Hunnam, Garret Hedlund, Pedro Pascal, Adria Arjona. Estreia: 06/3/2019

Em abril de 2017, o projeto de um filme de ação escrito por Mark Boal (vencedor do Oscar por "Guerra ao terror") saiu definitivamente dos planos da Paramount, que, durante o processo de pré-produção, contava com Tom Hardy e Channing Tatum nos papéis principais. A dupla de astros não gostou das mudanças feitas no roteiro e pularam fora do barco, iniciando um processo de deserção que culminou também com a saída da diretora Kathryn Bigelow, que preferiu dedicar seu tempo ao polêmico "Detroit em rebelião" (2017). Um mês depois, a Netflix, empenhada em adquirir prestígio com suas produções próprias, resolveu arriscar e bancar o filme, dessa vez já com os nomes de Ben Affleck e Oscar Isaac garantidos. Com a volta de Charlie Hunnam - que retornou ao projeto depois de uma desistência anterior - ao elenco e à aquisição de Garret Hedlund e Pedro Pascal, os cinco personagens centrais encontraram intérpretes ideais. A grande surpresa, no entanto, ficou com o anúncio do nome do diretor. Conhecido por obras mais cerebrais, como "Margin call: o dia antes do fim" (2011) e "O ano mais violento" (2014), o cineasta J. C. Chandor parecia um tanto inadequado para uma produção calcada mais na adrenalina do que em palavras e sutilezas. Mas como nem só de cartas marcadas vive a indústria, "Operação Fronteira" acabou se saindo melhor que a encomenda: é um filmaço que nada deve às produções dos grandes estúdios - e é, de longe, um dos melhores trabalhos da carreira de Ben Affleck.

Um projeto que já existia desde 2010, quando Johnny Depp e Tom Hanks estavam cotados para seu elenco, "Operação Fronteira" despertou interesse em vários astros de Hollywood, que, por um momento ou outro, tiveram seus nomes ligados a ele. Antes que o elenco estivesse formado em definitivo, atores dos mais variados tipos e gerações estiveram em negociação com os produtores. Quando ainda estava na Columbia, o roteiro foi considerado por veteranos (Denzel Washington, Sean Penn), oscarizados (Leonardo DiCaprio, Mahershala Ali, Casey Affleck) e atores populares (Will Smith, Mark Wahlberg), mas foi somente quando a Netflix entrou na jogada é que, de uma ideia empacada em discussões, o roteiro finalmente saiu do papel. Com Ben Affleck e Oscar Isaac - que já havia trabalhado com Chandor em "O ano mais violento" -, "Operação Fronteira" ganhou prestígio e uma seriedade que talvez não tivesse com atores mais afeitos à bilheteria do que à qualidade. O resultado é um filme de ação com mais inteligência que a média, e que equilibra com precisão momentos de tensão com um desenvolvimento interessante de personagens.


Tudo bem que o roteiro não abre mão de certos clichês e não se aprofunda em nenhum drama pessoal, preferindo apenas delinear rapidamente seus protagonistas para entrar logo na ação, mas abraça sem vergonha alguns lugares-comuns e os insere de forma orgânica na trama. É assim que o público não se importa em ver Ben Affleck como Redfly Davis, um antigo soldado que tenta ganhar a vida vendendo imóveis e com problemas de relacionamento com a ex-mulher e a filha adolescente, ou Garret Hedlund como Ben Miller, que sobrevive às custas de muito sangue perdido em ringues de luta. Redfly e Miller são apenas dois integrantes do grupo que o ambicioso Pope Garcia (Oscar Isaac) reúne com o objetivo de exterminar um famoso traficante e roubar milhares de dólares escondidos em uma casa escondida no meio da Floresta Amazônica. A eles unem-se o irmão de Miller, Ironhead (Charlie Hunnam) - que ganha dinheiro com palestras de autoajuda, desde que saiu do Exército - e o experiente piloto Catfish Morales (Pedro Pascal), cuja licença para pilotar foi cassada quando ele foi flagrado transportando drogas. Pela primeira vez em suas vidas os cinco embarcam em uma missão com objetivos pessoais e não patriotas, mas a preocupação ética logo é substituída por outras muito maiores quando o plano começa a dar errado - e eles precisam improvisar e abrir mão de alguns princípios para chegarem vivos a seu final.

Apesar do nome de Mark Boal no roteiro e da direção do elogiado J.C. Chandor, "Operação Fronteira" nada mais é do que um excelente filme de ação, sem maiores preocupações artísticas. Sua maior qualidade é aliar com sucesso entretenimento popular e qualidade narrativa. Como era de se esperar, as coisas dão muito errado para Pope e seus parceiros, e Chandor aproveita a situação para conduzir o público por uma aventura tão perigosa quanto empolgante, onde a personalidade de cada um se choca com as decisões que precisam ser tomadas em prol da segurança e do cumprimento da missão. Por ser um filme que destaca mais o elenco do que performances individuais, o conjunto é mais interessante do que atuações específicas, mas ainda assim a presença de Oscar Isaac como o líder do grupo consegue se sobressair - especialmente porque seu personagem é o que mais dá margem a dúvidas a respeito de seu caráter. No final das contas, quando o filme apresenta seu desfecho (coerente e satisfatório), resta ao público confirmar que a Netflix se firma cada vez mais no universo dos grandes estúdios - e que sua presença diante dos grandes conglomerados é fato mais que consumado. "Operação Fronteira" é um de seus mais consistentes produtos e, embora não vá sair vitorioso em cerimônias de premiação, agrada plenamente aos fãs do gênero.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...