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quinta-feira

VAMPIROS DO DESERTO


VAMPIROS DO DESERTO (The forsaken, 2001, Screen Gems/Sandstorm Films, 90min) Direção e roteiro: J. S. Cardone. Fotografia: Steven Bernstein. Montagem: Norman Buckley. Música: Tim Jones, Johnny Lee Schell. Figurino: Ernesto Martinez. Direção de arte/cenários: Martina Buckley/Trevor Murray. Produção: Scott Einbinder, Carol Kottenbrook. Elenco: Kerr Smith, Brendan Fehr, Izabella Misko, Johnathon Schaech, Carrie Snodgress. Estreia: 27/4/2001

Típico produto da geração MTV, com cortes ágeis, visual modernoso e atores fotogênicos, "Vampiros do deserto" chegou às telas com um público-alvo definido. Pode não ter feito um sucesso estrondoso de bilheteria, mas é inegável que, em comparação com uma gama de produções do gênero que abarrotavam as salas de cinema no começo dos anos 2000, tem muito mais a dizer. Mergulhando no universo do vampirismo sem medo de criar uma nova mitologia e apostando na sensualidade e na violência - ainda que moderada pela edição -, o filme de J. S. Cardone (cineasta sem maior expressão e nenhum grande filme no currículo) acerta em se levar a sério mas peca justamente no calcanhar de Aquiles da maioria dos exemplares de terror de sua época: o roteiro superficial, que não permite uma conexão maior entre os personagens e o espectador.

O protagonista do filme é Sean (Kerr Smith), um jovem que trabalha como editor de trailers de cinema enquanto não realiza o sonho de tornar-se diretor. Contratado para dirigir uma Mercedes até a Flórida e entregá-la sem um arranhão à proprietária, ele aproveita a situação para juntar dinheiro para comparecer ao casamento da irmã. No caminho, as coisas não saem exatamente como o previsto e ele se vê quase obrigado a dar carona ao misterioso Nick (Brendan Fehr), que se oferece para pagar a gasolina da viagem. Durante uma parada para comer, a dupla de novos amigos encontra Megan (Izabella Miko), uma garota em nítido sofrimento físico que os aproxima de uma realidade assustadora, revelada por Nick: a presença maligna de um grupo de vampiros, liderados por Kit (Jonathon Schaech) e cuja origem remete às cruzadas religiosas. Há algum tempo na caça de Kit, o corajoso Nick conta com a ajuda de Sean para exterminá-lo e salvar a vida tanto de Megan quanto do próprio motorista - em vias de transformar-se também em morto-vivo.

 

A escolha de Kerr Smith para o papel central de "Vampiros do deserto" tem certa razão de ser: sucesso na série juvenil "Dawson's Creek" - que também revelou Katie Holmes e Michelle Williams -, Smith também fez parte do elenco do bem-sucedido "Premonição" (2000) e parecia uma aposta certeira junto ao público-alvo, com sua imagem de galã e moço de família. Seu colega de elenco, Jonathon Schaech, já tinha um currículo maior, dividindo a carreira entre produções comerciais - como "Colcha de retalhos" (1995) e "The Wonders: o sonho não acabou" (1996) - e incursões ao cinema independente - "Geração maldita" (1995), normalmente enfatizando uma persona sexy e marginal. O encontro dos dois opostos - com o simpático Brendan Fehr no meio de campo - é uma das camadas mais interessantes do filme de Cardone, que foi apontado, anos depois de seu lançamento, como um conto de descoberta da sexualidade homoerotica entre os dois protagonistas. Tal ideia soa um tanto deslocada diante da trama, que não encontra espaço para qualquer romance exceto a atração de Sean por Megan - algo pouco desenvolvido em um roteiro que se concentra em sangue (muito), ação (razoável) e a tentativa de criar um histórico cultural aos sanguessugas. Cardone se sai relativamente bem ao disfarçar um orçamento modesto (cerca de 15 milhões de dólares) com soluções criativas e uma direção que enfatiza os pontos positivos do roteiro.

Sim, o roteiro escrito pelo próprio diretor tem seus méritos. Por mais que falhe em não aprofundar seus personagens centrais e até mesmo sua relação, Cardone oferece ao espectador sequências bastante interessantes, em que explora a sede de sangue das plateias mais jovens da forma mais elegante possível. Mesmo não sendo uma produção inesquecível ou capaz de revitalizar os filmes do gênero, "Vampiros do deserto" não decepciona a quem procura um passatempo digno e que, por incrível que pareça, diverte sua plateia. Não chega a ser um "Garotos perdidos" - que marcou uma geração inteira desde seu lançamento, em 1987 - mas tampouco desrespeita os cânones clássicos, ainda que modernizados e pasteurizados para uma juventude acostumada a banhos de sangue.

segunda-feira

PEARL

 

PEARL (Pearl, 2022, A24, 103min) Direção: Ti West. Roteiro: Ti West, Mia Goth, personagens criados por Ti West. Fotografia: Elliot Rockett. Montagem: Ti West. Música: Tyler Bates, Tim Williams. Figurino: Malgosia Turzanska. Direção de arte/cenários: Tom Hammock/Thomas Salpietro. Produção executiva: Kim Cudi, Dennis Cummings, Mia Goth, Ashley Levinson, Sam Levinson, Karina Manashil, Peter Phok. Produção: Jacob Jaffke, Kevin Turen, Ti West. Elenco: Mia Goth, David Corenswet, Tandi Wright, Matthew Sutherland, Emma Jenkins-Purro, Alistair Sewell. Estreia: 03/9/2022 (Festival de Veneza)

Não é nenhuma novidade o fato de filmes de sucesso darem origem a continuações - mesmo quando a fonte aparentemente secou. O caso de "Pearl" é diferente. Não apenas é uma prequel - tendência que vem se firmando há alguns anos como forma de expandir o universo de deterrminadas produções  -, mas é, também, uma prequel realizada concomitantemente com seu filme original - o terror "X: A marca da morte" - e uma aposta arriscada da produtora A24, que deu sinal verde ao projeto antes mesmo de saber do resultado comercial e crítico do primeiro filme. Filmado em segredo enquanto o diretor Ti West também conduzia "X" (com a mesma atriz, Mia Goth, em papel duplo), "Pearl" foi lançado seis meses depois da estreia de seu original e, para surpresa de todos, agradou ainda mais ao evitar o rótulo de slasher e, aprofundando a personalidade doentia de sua protagonista, atingir bons momentos de um suspense psicológico, valorizado pela presença da excepcional Goth , que não apenas coassinou o roteiro com West mas também descolou um crédito como produtora executiva. Neta da atriz brasileira Maria Gladys, Goth é uma revelação, que faz do filme uma gratíssima surpresa no gênero justamente no momento em que ele começa a se reinventar - em boa parte graças a produções da mesma A24.

Se "X já demonstrava acima de qualquer dúvida o talento de Ti West em manipular as regras dos filmes de terror a seu favor - enfatizando suas qualidades e disfarçando seus pecados com um visual atraente e referências que soam orgânicas e não apenas exibicionismo barato -, "Pearl" consegue ir ainda mais longe, ao oferecer requintes de produção surpreendentes em relação ao orçamento e um roteiro que dribla os clichês, fundamenta boa parte dos acontecimentos do primeiro filme (que ocorre décadas mais tarde) e ainda por cima homenageia o cinema em si. Com citações (óbvias ou nem tanto) a produções como "O que terá acontecido a Baby Jane?" (1962), "O mágico de Oz" (1939), musicais clássicos e até ao quase obscuro "A free ride" (1915) - considerado uma das primeiras produções pornográficas da história e cuja autoria ainda causa polêmicas -, West constrói, de maneira gradual e inteligente, uma das personalidades mais sombrias dos últimos anos, a da aparentemente doce Pearl - que, por trás da aparência dócil e submissa, esconde um monstro prestes a destroçar qualquer vestígio de civilidade.


 

A trama se passa em 1918, em uma fazenda no interior do Texas - a mesma fazenda que irá servir de cenário para os atores que a alugam em "X": é nessa fazenda, afastada da civilização, que mora a jovem Pearl (Mia Goth) e seus pais, imigrantes alemães com quem mantém uma relação conturbada. Seu pai vive em uma cadeira de rodas e sua mãe, rígida e pouco afeita a carinhos, tampouco lhe oferece qualquer tipo de apoio emocional. Casada com Howard, um soldado que está no front da I Guerra, Pearl esconde da família o seu sonho de tornar-se uma estrela de cinema - desejo que se torna ainda maior quando ela conhece o jovem projecionista do cinema local, que a apresenta ainda a filmes eróticos e à possibilidade de tentar uma carreira na Europa. O renascimento de tal sonho, no entanto, acaba se tornado um problema quando Pearl esbarra em sua triste realidade doméstica. Sua solução para isso acaba por levá-la a atos de violência, que fogem totalmente de controle quando ela percebe que talvez não tenha talento suficiente para fugir de sua massacrante rotina familiar.

Sem abrir mão da violência que se poderia esperar de um filme do gênero, Ti West fez de "Pearl" uma joia rara dentro do universo do cinema de terror. Suas inovações não se limitam apenas à concepção visual - cores fortes, reconstituição de época cuidadosa -, mas principalmente a sua opção em fazer de sua protagonista não apenas uma potencial assassina, mas uma mulher mentalmente torturada por sonhos impossíveis, uma rotina massacrante e, logicamente, distúrbios psicológicos à espera de uma catarse. Nesse ponto é a atuação avassaladora de Mia Goth o grande trunfo do filme: com expressões faciais marcantes - que poderiam facilmente descambar para a caricatura, em mãos menos competentes - e uma construção fascinante de corpo, Goth simplesmente engole tudo a seu redor e é responsável por fazer com que "Pearl" escape facilmente das limitações de seu gênero e se inscreva como um dos grandes pequenos filmes dos últimos anos. Fazendo jus a seu título, "Pearl" é, sem favor, uma pérola a ser apreciada por qualquer fã de bom cinema.

X: A MARCA DA MORTE


X: A MARCA DA MORTE (X, 2022, A24, 105min) Direção e roteiro: Ti West. Fotografia: Eliot Rockett. Montagem: David Kasheravoff, Ti West. Música: Tyler Bates, Chelsea Wolfe. Figurino: Malgosia Turzanska. Direção de arte/cenários: Tom Hammock/Tom Salpietro. Produção executiva: Scott Mescudi, Dennis Cummings, Ashley Levinson, Sam Levinson, Karina Manashil, Peter Phok. Produção: Jacob Jaffke, Harrison Kreiss, Kevin Turen, Ti West. Elenco: Martin Henderson, Mia Goth, Jenna Ortega, Brittany Snow, Kim Cudy, Owen Campbell, Stephen Ure, James Gaylyn. Estreia: 13/3/2022 (South by Southwest Film Festival)

Quem perceber, logo nos primeiros minutos de "X: A marca da morte" um tom que lembra filmes como a série "Sexta-feira 13" não estará completamente enganado. Bebendo diretamente na fonte dos slasher movies que fizeram a alegria dos fãs do cinema de terror a partir dos anos 1980, o diretor e roteirista Ti West brinda o público com uma produção que, apesar de referências bastante claras, imprime uma identidade própria, o apontando como um dos nomes mais promissores da nova geração de diretores de filmes de terror - ainda que já tenha tentado a sorte também no western, com "Terra violenta", de 2016. Usando e abusando de ângulos criativos e subvertendo algumas das regras essenciais do gênero, West agradou em cheio os aficcionados e pegou de surpresa a crítica - especialmente quando, poucos meses depois, lançou um prequel filmado quase concomitantemente, o perturbador "Pérola", que mostra a juventude de uma de suas protagonistas.

Violento como todo bom filme do gênero, "X" deve seu nome à classificação dos censores norte-americanos a filmes pornográficos - estilo da produção que o ambicioso produtor Wayne (o sumido Martin Henderson, de "O chamado") tenciona realizar em uma fazenda no interior do Texas no ano de 1979. Para reinventar os filmes eróticos produzidos até então, ele leva até o local uma equipe que compartilha com ele o desejo de fazer parte de um projeto vencedor e revolucionário chamado "A filha do fazendeiro": o roteirista e diretor R.J. (Owen Campbell), sua namorada e operadora de som, Lorraine (Jenna Ortega, a dupla de astros, Bobby-Lynne (Brittany Snow) e Jackson (Kid Cudi), e a estreante Maxine Minx (Mia Goth) - namorada do produtor. A chegada da trupe incomoda o proprietário da fazenda, Howard (Stephen Ure), que não esperava tanta gente em sua fazenda, especialmente para a realização de um filme pornô. A situação também não é do agrado da velha esposa de Howard, Pearl (também Mia Goth), que mantém ideias conservadoras o suficiente para rechaçar, com o máximo de truculência, o trabalho do grupo. Da tortura psicológica a um banho de sangue não demora muito para que as filmagens se transformem em uma carnificina.

 

Com um roteiro cuidadosamente elaborado - todas as mortes são insinuadas em sequências prévias que dão pistas sobre o destino de cada um dos personagens - e um visual que remete imediatamente aos anos 1970, "X" é um filme de terror acima da média, dotado de uma inteligência que não atrapalha seu principal objetivo: entregar ao público uma série de assassinatos cruéis e sanguinolentos. Em alguns momentos lembrando o cinema cult de Quentin Tarantino - longos diálogos, referências pop, closes em partes específicas do corpo feminino - e bem-sucedido em criar uma atmosfera de suspense antes do começo da violência, o filme de West apresenta ainda uma sacada das mais criativas, oferecendo à ótima Mia Goth um papel duplo que muito contribui para o clima de estranheza do resultado final: na pele da ainda ingênua e sonhadora Maxine e vivendo a sinistra Pearl (sob pesada maquiagem), Goth - que é neta da atriz brasileira Maria Gladys - está nitidamente dentro do espírito quase independente do filme, produzido pela A24 (marca das mais criativas e transgressores produções do terror dos últimos anos) e recebido com entusiasmo por seu público-alvo, que, apesar de alguns bons títulos recentes, que buscam redefinir o gênero, nunca abre mão de um bom banho de sangue nas telas.

Enquanto produções dirigidas por Robert Eggers - "A bruxa" e "O homem do norte" - e Jordan Peele - "Corra!", "Nós" e "Não! Não olhe!" - procuram renovar os filmes de terror, acrescentando camadas de crítica social e elementos de arte em tramas mais rebuscadas, "X: A marca da morte" acerta em cheio ao não tentar fugir dos cânones mais consagrados do gênero. Por mais que capriche no roteiro, no visual e até mesmo encontre espaço para discussões interessantes a respeito do cinema pornográfico como representação cultural, Ti West não tem vergonha em apresentar um trabalho que se resume, em poucas palavras, em um filme de terror à moda antiga, onde jovens são caçados até a morte por um assassino pouco afeito a sutilezas e movido por recalques sexuais. Tais ingredientes, somados a um elenco que abraça com carinho todas as idiossincrasias de um gênero tratado como menor pela indústria, fazem de "X" um marco interessante e bem-vindo. E a melhor notícia? Seu prequel, "Pérola", lançado seis meses depois, é ainda mais perturbador.

 

quinta-feira

AS CRIATURAS ATRÁS DAS PAREDES


AS CRIATURAS ATRÁS DAS PAREDES (The people under the stairs, 1991, Universal Pictures, 102min) Direção e roteiro: Wes Craven. Fotografia: Sandi Sissel. Montagem: James Coblentz. Música: Don Peake. Figurino: Ileane Meltzer. Direção de arte/cenários: Bryan Jones/Molly Flanegin. Produção executiva: Wes Craven, Shep Gordon. Produção: Stuart M. Besser, Marianne Maddalena. Elenco: Brandon Adams, Ving Rhames, Everett McGill, Wendy Robie, A. J. Langer, Sean Whalen. Estreia: 01/11/91

Tudo começou no final dos anos 1970, quando Wes Craven ainda não era o cineasta consagrado por "A hora do pesadelo" (1984) mas já tinha no currículo "Aniversário maldito" (1972) e "Quadrilha de sádicos" (1977): uma matéria publicada em um jornal da Califórnia falava sobre o caso bizarro e assustador de vários adolescentes mantidos em cativeiro por seus pais, que nunca permitiram que eles tivessem acesso ao mundo exterior. Seus pais, considerados cidadãos normais da classe média de Los Angeles, nunca haviam despertado qualquer tipo de suspeita entre sua vizinhança até que, chamada para atender uma ocorrência de possível invasão, a polícia descobriu um assustador caso de cárcere privado. Impressionado com a história, Craven imediatamente dedicou-se a escrever um argumento de 80 páginas. Mais de dez anos depois, já navegando nos louros do merecido sucesso de seu Freddy Krueger, Craven transformou tal sinopse em um filme que, apesar de não compartilhar da mesma popularidade de seus trabalhos anteriores - e os posteriores exemplares da série "Pânico" - conquistou seus fãs com uma narrativa surpreendente e ousada, com um protagonista inusitado e momentos de legítimo suspense.

O personagem principal de "As criaturas atrás das paredes" é Fool (Brandon Adams), um garoto negro de 13 anos de idade passando pelo pior período de sua curta vida: a mãe está seriamente doente a ponto de não conseguir sequer levantar da cama e sua família tem os dias contados para pagar os alugueis atrasados caso não queiram ser despejados pelo cruel proprietário de seu apartamento (Everett McGill). Sem encontrar saída para resolver ao menos o problema financeiro que o assombra, Fool se deixa levar pela conversa de LeRoy (Ving Rhames), namorado de sua irmã. Segundo ele, o proprietário de seu apartamento tem escondido, em sua casa, um grande tesouro em moedas de ouro, o que poderia ser muito útil em sua difícil situação. Certo de que ajudar LeRoy a invadir a propriedade de seu insensível senhorio é o melhor a fazer, o menino concorda em participar de um ousado plano que os colocará diante da solução de seus problemas. Logo depois de entrar na casa, porém, Fool percebe que está muito encrencado. Além de maltratarem sua filha adolescente, Alice (A. J. Langer), o senhorio e sua cruel esposa (Wendy Robie), mantém presos, dentro das paredes da propriedade, um grupo de adolescentes, crianças e jovens - todos aprisionados depois de não seguirem os desejos doentios de seus raptores.

 

Realizado em 1991, quando Craven já praticamente não tinha mais o controle criativo de seu personagem mais famoso, "As criaturas atrás das paredes" mostrou que seu talento em surpreender a audiência se mantinha absolutamente intocado: sem abrir mão de sustos e personagens bizarros, o cineasta conduz o espectador em uma experiência das mais satisfatórias no gênero. Tudo graças a um roteiro que vai introduzindo seus elementos aos poucos, com uma atmosfera claustrofóbica cada vez mais densa e um par de vilões dos mais empolgantes, interpretados por Everett McGill e Wendy Robie, também casados na série "Twin Peaks". Ainda que ocasionalmente caricata - em uma escolha artística acertada -, a dupla de criminosos (cujos nomes jamais são citados em cena, já que se chamam por Pai e Mãe) é um dos trunfos do filme: cruéis e desumanos, sim, mas dotados de uma quase inabilidade em lidar com oponentes inesperados, como Fool e seus comparsas. Aliás, não deixa de ser irônico que todos os adultos do filme sejam facilmente suplantados pelas crianças e adolescentes que os confrontam: não é LeRoy nem seu comparsa que ameaçam a rotina de crimes da mansão, mas sim o pequeno Fool, a sofrida Alice e as tais criaturas atrás das paredes - bem caracterizadas mas nunca excessivamente assustadoras, já que se tornam, no decorrer da sessão, os heróis da história.

É surpreendente como Wes Craven consegue, em "As criaturas atrás das paredes", manter a atenção do espectador mesmo depois de um pretenso clímax no meio do filme - ao invés de perder o ritmo, a produção parece iniciar um novo e ainda mais violento capítulo. Sem apelar para sangue aos borbotões - ainda que não fuja de sequências bem gráficas - e confiando na empatia da plateia em relação a Fool e seus aliados, o diretor comprova que nem sempre é preciso ter grandes astros estampando os cartazes para levar público às salas de exibição. Sem nenhum ator conhecido no elenco, seu filme, que custou exíguos 6 milhões de dólares, recuperou o orçamento em poucos dias de exibição e ultrapassou a marca de 30 milhões de arrecadação mundial. Apostando em protagonistas negros (o jovem Brandon Adams fez parte do musical "Moonwalker", de Michael Jackson, e Ving Rhames poucos anos depois ganharia o mundo como o vilão Marcellus Wallace, de "Pulp fiction: tempo de violência") e em uma trama que poderia facilmente descambar para o grotesco, Craven acabou por abrir caminho para, em 1994, retomar as rédeas de sua mais famosa criação, em "O novo pesadelo: o retorno de Freddy Krueger". 

Tornado cult movie por excelência, "As criaturas atrás das paredes" parecia morar no coração de Craven: antes de sua morte, em 2015, ele estava por trás da produção de um remake televisivo do filme, a ser transmitido pelo SyFy Channel e dirigido por F. Javier Gutiérrez, projeto que não parece ter ido para a frente depois de sua partida.

terça-feira

A BRUXA DE BLAIR


A BRUXA DE BLAIR (The Blair Witch Project, 1999, Haxan Films, 81min) Direção, roteiro e montagem: Daniel Myrick, Eduardo Sánchez. Fotografia: Neal Fredericks. Música: Tony Cora. Direção de arte: Ben Rock. Produção executiva: Bob Eick, Kevin J. Foxe. Produção: Robin Cowie, Gregg Hale. Elenco: Heather Donahue, Joshua Leonard, Michael C. Williams. Estreia: 25/01/99 (Festival de Sundance)

Mesmo parte de um gênero acostumado a produzir fenômenos culturais e de bilheteria, o independente "A bruxa de Blair"garantiu, desde seu lançamento no Festival de Sundance de 1999, um lugar todo especial na história do cinema de terror. Produzido com irrisórios 60 mil dólares, sem atores conhecidos no elenco e calcado quase que completamente em uma bem engendrada campanha de marketing, o filme de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez tornou-se um dos filmes essenciais da década de 1990 principalmente ao mostrar aos grandes estúdios que orçamentos gigantescos, efeitos visuais de última geração e astros milionários nem sempre são fundamentais para chamar a atenção a uma produção. Usando e abusando de câmera na mão (o que se convencionou chamar de found footage e virou febre desde então), os cineastas conseguiram transformar uma ideia simples em uma máquina de dinheiro - e mesmo que o resultado artístico tenha deixado a desejar para muitos, sua importância enquanto marco cultural é inquestionável.

Eternizado no Guinness como a maior receita de um filme na história - com uma renda de mais de 248 milhões de dólares ao redor do mundo - e filmado em parcos oito dias, "A bruxa de Blair" se aproveita de sua quase indigência para fazer dela um charme extra e talvez um de seus maiores chamarizes. Ao eleger como astros um trio de atores desconhecidos - o que deu margem a especulações de que tudo que acontece na tela era verdade -, Myrick e Sánchez aproximaram o espectador comum da ação, evitaram o distanciamento que uma produção com grandes estrelas de Hollywood fatalmente acarreta e romperam o paradigma do heroi solitário (ou heroína, no caso, já que o gênero terror é pródigo em moldar mulheres fortes, como bem provam Jamie Lee Curtis em "Halloween" e Neve Campbell em "Pânico") para criarem uma atmosfera sombria onde tudo pode acontecer - inclusive uma carnificina sem sobreviventes ou incidentes sobrenaturais com graus variados de sutileza.

E sutileza é a palavra de ordem em "A bruxa de Blair": apesar de ser um filme de terror com o objetivo de fazer o público roer as unhas de tensão, a produção dos jovens cineastas (Myrick tinha 35  anos à época da estreia, e Sánchez tinha feito apenas 30) evita a sanguinolência explícita e os sustos em ritmo de montanha-russa. Fazendo uso inteligente de seu orçamento restrito, a dupla prefere inserir a plateia em seu universo aflitivo, obrigando-a a testemunhar, de forma crescente, o desespero de seus personagens conforme vão duvidando, a cada passo dentro da floresta, de suas próprias certezas a respeito de uma lenda que até então julgavam apenas parte de um mito popular. Escorando-se na fascinação do público pelo mistério e no medo quase irracional do desconhecido, o filme faz um gol de placa ao sugerir muito mais do que mostrar - o poder da imaginação, como bem sabe Steven Spielberg desde seu "Tubarão" (1975) é muito maior do que qualquer punhalada ou decapitação, e nesse ponto Myrick e Sánchez são absolutamente felizes.

Também é admirável a forma com que os diretores conduziram a produção de seu primeiro filme. Primeiro, eles criaram a lenda da Bruxa de Blair - uma história que remete ao século XVIII, na pequena cidade de Burkittsville, Maryland e que fala sobre sacrifícios infantis, uma mulher vista por nativos locais em forma semi-animal, assassinatos em série e mutilações. Depois, convenceram os atores Heather Donahue, Joshua Leonard e Michael C. Williams a tomarem parte de um documentário que versaria sobre a tal lenda - e que seria filmado na própria cidade que foi palco dos acontecimentos e na floresta onde aconteceram tais crimes. As filmagens foram um pesadelo para os inexperientes intérpretes: os diretores não lhes avisaram que iriam forjar acontecimentos inesperados durante as noites em que estariam acampados e tudo que está no filme é absolutamente real. Tudo, menos a lenda da bruxa - e tudo é tão crível que muita gente levou a sério o tom documental da produção, a ponto de fazer de Burkittisville um ponto turístico e dar origem a um falatório que só aumentava as filas nas salas de cinema. "A bruxa de Blair" é, sem dúvida, o falso documentário mais bem-sucedido da história - ao menos em termos comerciais.

Os espectadores que lotaram os cinemas, curiosos em assistir ao fenômeno de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, se dividiam ao final das sessões. Para cada um aterrorizado e tenso que saía da sala com os nervos à flor da pele, havia pelo menos um contrariado com o que se poderia chamar de falta de ação. Ambos tem razão: realmente uma edição mais caprichada poderia ter limado alguns momentos mais aborrecidos do filme, que demora demais para engrenar (com exceção dos primeiros minutos, onde a lenda da bruxa é estabelecida com entrevistas bastante interessantes - e falsas, logicamente). Porém, quando os protagonistas se perdem na floresta, tem início alguns dos minutos mais tensos do cinema de horror contemporâneo: obviamente é preciso ter paciência e saber que o que vem pela frente é o poder da sugestão em estado bruto, onde pequenos ruídos, choros distantes e objetos aparentemente inofensivos podem catalisar o medo mais absoluto - em especial àqueles mais sensíveis. Longe de ser uma unanimidade, mas inequivocamente histórico, "A bruxa de Blair" jamais pode ter seu poder de fogo subestimado - ao menos em termos de reconfigurar a maneira como o marketing era visto pelos engravatados de Hollywood.

domingo

O MISTÉRIO DE CANDYMAN


O MISTÉRIO DE CANDYMAN (Candyman, 1992, TriStar Pictures, 99min) Direção: Bernard Rose. Roteiro: Bernard Rose, conto "The forbidden", de Clive Barker. Fotografia: Anthony B. Richmond. Montagem: Dan Rae. Música: Philip Glass. Figurino: Leonard Pollack. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Kathryn Peters. Produção executiva: Clive Barker. Produção: Steve Golin, Alan Poul, Sigurjon Sighvatsson. Elenco: Virginia Madsen, Tony Todd, Xander Berkeley, Vanessa Williams, Kasi Lemmons, DeJuan Guy. Estreia: 11/9/92 (Festival de Toronto)

Quando surgiu, no conto "The forbidden", do britânico Clive Barker, o personagem Candyman tinha características físicas bastante específicas: tinha uma cor amarela sobrenatural e uma barba ruiva. Quando chegou às telas de cinema, em 1992, pelas mãos do cineasta Bernard Rose, porém, não apenas a localização de sua lenda era distinta do original, mas também seu visual: transferido de Liverpool, na Inglaterra, para uma Chicago distante dos pontos turísticos, Candyman transmutou-se em um homem negro, alto e com um passado trágico que afetava diretamente sua mitologia. Com um aspecto quase romântico que remetia a vilões sedutores como Drácula, o protagonista de "O mistério de Candyman" acabou por fazer história também por motivos polêmicos: enquanto muitos louvavam o fato de um ator negro (Tony Todd) assumir um papel até então inédito para afrodescendentes (o protagonista de um slasher movie), muitos outros reclamavam da possibilidade da ideia reforçar estereótipos negativos a respeito de uma minoria frequentemente vista como ameaça. Controvérsias à parte - algumas até mesmo risíveis -, o filme de Rose não fez feio: rendeu quatro vezes o seu custo, entrou na invejada relação de cult movies, rendeu duas continuações (e um reboot lançado em 2021) e aferrou-se no inconsciente coletivo dos fãs do gênero.

Tratado com uma seriedade rara de se encontrar nos filmes de terror dos anos 1990, "O mistério de Candyman" é, na verdade, o encontro de duas ideias que, juntas, acabaram por ser a base de um roteiro que consegue, ao mesmo tempo, fortalecer os cânones do gênero e despertar discussões sociais - bem mais aprofundadas no filme de 2021 mas já com suas sementes lançadas no primeiro capítulo. Ao enredo de Barker, que versava sobre a luta de classes na Inglaterra da década de 1970 por trás de uma história de horror, foram acrescentados, com a mudança geográfica, elementos que davam foco a questões raciais e violência urbana, temas prementes nos EUA à época: vale lembrar que o espancamento de Rodney King, em Los Angeles - o estopim de uma série de distúrbios que sacudiram o país - aconteceu apenas um ano e meio antes da estreia do filme de Rose. Ao transferir a ação da narrativa de Liverpool para um conjunto habitacional nos subúrbios de Chicago, o roteiro não apenas optou por aproximá-la de um cenário mais familiar a este tipo de tensão como também utilizou-se da locação real de um homicídio que abalou a cidade em 1987: uma mulher chamada Ruthie Mae McCoy foi violentamente assassinada em seu apartamento por um homem que entrou em seu banheiro por um buraco atrás do espelho - um crime verdadeiro que não apenas serviu de inspiração como foi incorporado à trama de forma orgânica.

 

Apesar de Candyman ser o protagonista do filme de Rose, ele não aparece em cena antes de 40 minutos de projeção. Quem assume o posto de personagem central até então é Helen Lyle (Virginia Madsen no papel mais popular de sua carreira), uma estudante que, debruçada em suas pesquisas sobre folclore urbano, passa a dedicar-se a investigar a lenda de um homem que, tendo seu nome citado cinco vezes diante do espelho, o atravessa e mata suas vítimas com um gancho que tem no lugar de uma das mãos. A origem de Candyman vem da época da escravidão - mas Helen quer provar, sem espaço para dúvidas, de que tudo não passa mesmo de uma história para ser contada em rodas de acampamento. Com a ajuda de sua amiga, Bernardette (Kasi Lemmons), ela chega até Cabrini-Green, o conjunto habitacional que foi local de um suposto ataque da violenta entidade mística. Ao penetrar em um universo onde a violência e o descaso das autoridades são moedas correntes, Helen se vê envolvida em uma série de assassinatos que aparentemente tem ligação com a lenda que ela pretende desacreditar.

A maior qualidade do filme de Bernard Rose - um cineasta britânico que poucos anos depois assinaria uma biografia romanceada de Beethoven, chamada "Minha amada imortal" (1995) - é se levar a sério. Em uma época em que o cinema de terror frequentemente apostava no humor como elemento indispensável para conquistar plateias cada vez mais jovens, "O mistério de Candyman" aposta em um tom sóbrio, valorizado pela trilha sonora de Philip Glass e pela fotografia de Anthony B. Richmond. A escolha de Tony Todd para viver o personagem central - que quase ficou nas mãos de Eddie Murphy - é outro acerto admirável, a ponto de tornar o ator um dos rostos mais conhecidos do gênero. Também é louvável a intenção do roteiro em discutir (ainda que timidamente) questões raciais - a própria Helen se revolta ao perceber que somente o ataque a uma mulher branca que obriga a polícia a agir positivamente no gueto. Violento e tenso - com sequências bastante sangrentas e um final surpreendente -, "O mistério de Candyman" é uma produção rara, feita com capricho e com intenções de afirmar seu anti-herói no rol dos maiores vilões do gênero. Mesmo sofrendo críticas pesadas à sua opção de transformá-lo em negro - o cineasta Carl Franklin chegou a afirmar que o filme "joga com o medo que a classe média branca sente dos negros" -, Bernard Rose tem o mérito nada desprezível de fazer de um filme de terror um motivo de discussão. Poucos filmes - de quaisquer gêneros - podem se gabar disso.

quinta-feira

UM LUGAR SILENCIOSO


UM LUGAR SILENCIOSO (A quiet place, 2018, Paramount Pictures, 90min) Direção: John Krasinski. Roteiro: John Krasinski, Bryan Woods, Scott Beck, história de Bryan Woods, Scott Beck. Fotografia: Charlotte Bruus Christensen. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Marco Beltrami. Figurino: Kasia Walicka-Maimone. Direção de arte/cenários: Jeffrey Beecroft/Heather Loeffler. Produção executiva: Scott Beck, Celia Costas, Aaron Janus, John Krasinski, Allyson Seeger, Bryan Woods. Produção: Michael Bay, Andrew Form, Brad Fuller. Elenco: Emily Blunt, John Krasinski, Millicent Simmonds, Noah Jupe, Cade Woodward, Leon Russom. Estreia: 09/3/2018 (South by Southwest Film Festival)

Indicado ao Oscar de Edição de Som

Depois de penar por um bom tempo resumido a produções direcionadas a um público menos exigente e formado em grande parte por adolescentes que se satisfaziam em assistir a assassinos mascarados chacinando suas vítimas sem a menor sutileza, o cinema de terror em Hollywood parece ter encontrado um caminho para atingir os espectadores mais maduros. Cineastas como Jordan Peele - de "Corra" (2017) e "Nós" (2019) - e Ari Aster - de "Hereditário" (2018) e "Midsommar" (2019) - se tornaram os principais nomes de uma espécie de renascimento do gênero, que passou a atingir então as críticas positivas que raramente conquistava - Peele chegou até mesmo a levar um Oscar de roteiro original por "Corra!", que também foi indicado aos prêmios de filme, ator e direção. Respeitados como há muito não conseguiam ser, os novos filmes de terror norte-americanos não deixaram de ser, no entanto, bastante bem-sucedidos. Um exemplo claro desse novo painel é "Um lugar silencioso", uma produção barata (custou cerca de 17 milhões de dólares, o que não paga sequer o cachê de uma grande estrela) que rendeu surpreendentes 340 milhões ao redor do mundo - e imediatamente tornou-se um dos filmes mais populares da temporada, com direito a duas sequências ainda inéditas. Tudo graças à união certeira de um bom roteiro, atuações acima da média, uma tensão palpável e uma direção inspirada do também ator (e corroteirista) John Krasinski.

Sim, Krasinski é mais conhecido do público como o adorável Jim Halpert da versão ianque da série "The office", e como o agente Jack Ryan da adaptação televisiva dos livros de John LeCarré, mas "Um lugar silencioso" não é seu primeiro trabalho na direção. Seus dois primeiros filmes, a comédia dramática "A família Hollar" (2016) e ""Brief interviews with hideous men" (2009), ficaram inéditos no Brasil e tampouco fizeram barulho nos EUA. Seu contato com o material que se tornaria "Um lugar silencioso" começou com um convite feito pelos produtores para que ele assumisse o papel principal do filme, depois que o roteiro de Scott Beck e Bryan Woods livrou-se da possibilidade de ser incorporado a um capítulo da série "Cloverfield": animado com a trama, Krasinski mudou de ideia e acabou não apenas aceitando trabalhar como ator, mas também como diretor e corroteirista. Além disso, escalou para o papel da protagonista feminina, sua mulher, a excelente Emily Blunt, também encantada com o roteiro - e, ao contrário de simples nepotismo, foi uma escolha mais do que acertada: Blunt entrega uma atuação visceral, premiada com uma estatueta do SAG Awards.


A trama de "Um lugar silencioso" é daquelas fáceis de resumir em uma única frase: família tenta sobreviver ao ataque de monstros violentos que encontram suas vítimas através do sons que elas fazem. Porém, por trás desse enredo aparentemente simples, o filme é uma pérola do gênero. Calcada basicamente na química do elenco, do desenho de som inteligente (única indicação ao Oscar do filme) e da direção firme de Krasinski, que mantém o ritmo até os minutos finais, a produção envolve o espectador desde seu começo, dando a ele a chance de ir descobrindo aos poucos todos os detalhes da situação em que estão os Abbott. Vagando por uma cidade fantasma e impedidos de fazer qualquer tipo de ruído, eles são apresentados sem passado: o que interessa ao roteiro é como eles estão e como farão para manter-se salvos de uma situação para a qual não tinham nenhuma experiência. Imersivo ao máximo - o primeiro (e rápido) diálogo falado acontece aos 38 minutos -, o filme mergulha o público em uma viagem de tensão e suspense como poucas produções recentes de terror. Evitando a violência gráfica ou o excesso de clichês, a trama é conduzida com sutileza ímpar, que não deixa de infligir medo na plateia - especialmente quando demonstra, desde seu princípio, que ninguém está completamente a salvo.

Krasinski demonstra que, mesmo sem experiência em filmes de terror, compreende perfeitamente as engrenagens do gênero, entregando cenas que deixam o público em um silêncio tão completo quanto o dos personagens da tela. Elementos simples, como um prego na escada e um brinquedo eletrônico, colaboram para sublinhar o tom nervoso e arrebatador da produção que tem ao menos uma cena já antológica, em que Evelyn (vivida com intensidade por Blunt) é obrigada a dar à luz, sozinha, sem emitir um único gemido: é muito provável que a plateia, completamente seduzida pela proposta do filme, esteja também em silêncio absoluto - fato que, em exibições-teste, assustou os exibidores que não entendiam que também os espectadores, hipnotizados pela história, deixavam a pipoca e o refrigerante de lado para não fazer o barulho que poderia acabar com a vida dos personagens. Nada mais apropriado para um filme de terror que, sem apelar para a violência explícita, encontrou de cara seu lugar no coração dos fãs do gênero - e que já tem duas continuações confirmadas (uma delas, já pronta, teve o lançamento adiado por causa da pandemia de Coronavírus). É esperar para ver se os próximos capítulos serão tão gratificantes.

sábado

MONSTROS

MONSTROS (Freaks, 1932, MGM Pictures, 70min) Direção: Tod Browning. Roteiro: Willis Goldbeck, Leon Gordon, inspirado na estória "Spurs", de Tod Robbins. Fotografia: Meritt B. Gerstad. Montagem: Basil Wrangell. Direção de arte: Cedric Gibbons, Merryll Pye. Produção: Tod Browning, Harry Rapf, Irving Thalberg. Elenco: Olga Baclanova, Henry Victor, Harry Earles, Daisy Earles, Wallace Ford, Leila Hyams, Roscoe Ates, Rose Dione, Daisy Hilton, Violet Hilton. Estreia: 12/02/32

Um filme que foi proibido por mais de trinta anos na Inglaterra, que foi banido na Austrália e nunca chegou a ser exibido em alguns estados norte-americanos devido a seu conteúdo dito "ofensivo". Um filme que quase fez seu estúdio, a MGM, sofrer um processo de uma espectadora que alegava ter sofrido um aborto espontâneo durante uma sessão. Um filme que teve sua metragem original de 90 minutos mutilada por imposição dos produtores depois de desastrosas pré-estreias. Uma filme que surgiu do desafio de se realizar uma produção ainda mais assustadora que um dos grandes sucessos do ano anterior, "Frankenstein", dirigida por James Whale para a Universal Pictures. Um filme que, mesmo quase cem anos depois do seu lançamento ainda consegue ser perturbador e incômodo mesmo diante de outras produções bem mais caras e recheadas de efeitos pirotécnicos. Este é "Monstros", o primeiro filme dirigido por Tod Browning após seu inesquecível "Drácula" (estrelado por Bela Lugosi em 1931) - e aquele responsável por apressar o final de sua carreira, encerrada precocemente em 1939. É, também, um dos filmes mais corajosos já realizados em Hollywood (mesmo que quase por acidente).

Não há uma versão definitiva para explicar como o livro "Spurs", escrito por Tod Robbins, foi parar nas mãos do cineasta Tod Browning. Uma teoria diz que foi o então diretor de arte do estúdio, o premiadíssimo Cedric Gibbons, amigo de infância do escritor, quem convenceu a MGM a comprar os direitos do romance (pelo valor de oito mil dólares). Já outra história afirma que foi o ator Harry Earles que o mostrou a Browning durante as filmagens de "A trindade maldita" (1925), com o interesse de participar do projeto. Seja qual for a verdade, o fato é que Earles acabou por entrar na adaptação, na pele de um dos protagonistas, e o produtor Irving Thalberg teve que reconhecer, ao ler o roteiro de Willis Goldbeck, que realmente o filme tinha tudo para superar, em termos de horror, o bem-sucedido "Frankenstein". Logicamente, ele nem de longe poderia supor os problemas que viriam pela frente, já durante as filmagens e na ocasião da estreia de seu novo projeto. Ao optar por realizar uma obra com o máximo de realismo possível, Tod Browning - voltando à MGM depois de ser emprestado à Universal e assinar "Drácula" - resolveu que não mediria esforços para tal. Impossibilitado de contar com Myrna Loy, sua primeira opção para o papel central (assim como outras escolhas, como Victor McLaglen e Jean Harlow, todos assustados com o teor da trama), o diretor escolheu a russa Olga Baclanova como protagonista. Quando foi apresentada a seus colegas de cena, porém, até mesmo a atriz teve dúvidas sobre o que estava em vias de começar: na sua frente estavam anões, uma mulher barbada, gêmeas siamesas, um grupo de atores com microcefalia, um homem sem braços e pernas, mulheres que comiam com os pés porque não tinham braços e toda sorte do que se poderia chamar de "aberrações". Quando Browning assumiu o projeto, ele falava realmente sério quando afirmava que buscaria o realismo: todo o elenco de apoio vinha de circos e shows que exploravam tais pessoas - daí a gritaria em torno de sua estreia.


Quando "Monstros" finalmente ficou pronto, foi impossível cancelar uma pré-estreia, marcada para o final de janeiro de 1932, mas Irving Thalberg não estava nada feliz com o resultado da ousadia de Browning e prometeu reeditar o filme antes de uma estreia oficial. O resultado de tal ameaça surtiu efeito contrário, e filas imensas se formaram diante do cinema em San Diego, com o público ansioso por assistir à produção antes que ela fosse mutilada. Parecia que esses espectadores sabiam o que viria pela frente: não apenas o filme perdeu quase vinte minutos em sua nova versão como  teve um final feliz acrescentado na marra e nunca mais seria exibido de acordo com os desejos de seu diretor. Isso não o impediu, no entanto, de transformar-se, com o passar do tempo, em um cult movie. Tido como um dos mais bizarros filmes já realizados dentro do sistema de estúdios de Hollywood, "Monstros" é, ao mesmo tempo, uma severa crítica à forma como os tais freaks do título original são vistos e tratados pela sociedade. É nítida a visão mais simpática a eles do que aos "normais", retratados no filme como preconceituosos, gananciosos e sem caráter. Browning imprime uma aura mais melancólica do que assustadora a seus personagens - mas é compreensível que, em plenos anos 1930, quando o cinema tinha astros como Clark Gable e Greta Garbo brilhando nas telas, uma produção que tivesse como protagonista um casal de anões e seus amigos "diferentes" só pudesse mesmo causar escândalo e polêmica.

A controvérsia em torno de "Monstros" foi tanta que sobrou até mesmo para Tod Browning: antes considerado um trunfo para o estúdio (que o viu realizar seu "Drácula" sob empréstimo para a Universal), o cineasta acabou prejudicado por seu entusiasmo em fazer a diferença. Com medo de suas ousadias criativas, a MGM nunca mais lhe concedeu a liberdade artística necessária para que fizesse um filme à sua maneira, até que ele aposentou-se, em 1939. Por essa época, "Monstros" ainda era considerado um filme maldito - e seus atores, que escandalizavam os funcionários do estúdio durante as filmagens e deixaram o sucesso subir às cabeças, voltaram ao ostracismo. Foi somente na década de 1960 que ele acabou sendo redescoberto (e finalmente exibido na Inglaterra) e elevado à categoria de clássico do horror (apesar das tentativas de Louis B. Mayer, dono da MGM, em cancelar o projeto antes mesmo do começo das filmagens). Hoje em dia o que menos importa é sua trama - um grupo de aberrações circenses tramando uma vingança contra uma trapezista que os humilhou e tentou envenenar um deles por dinheiro - e mais seu status como uma das produções mais inacreditáveis e ousadas da velha Hollywood. Um filme imprescindível e inesquecível!

sexta-feira

INVOCAÇÃO DO MAL 2

INVOCAÇÃO DO MAL 2 (The conjuring, 2016, New Line Cinema, 134min) Direção: James Wan. Roteiro: Chad Hayes, Carey W. Hayes, James Wan, David Leslie Johnson, estória de Chad Hayes, Carey W. Hayes, James Wan, personagens criados por Chad Hayes, Carey W. Hayes. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Kirk Morri. Música: Joseph Bishara. Figurino: Kristin M. Burke. Direção de arte/cenários: Julie Berghoff/Liz Griffiths, Sophie Neudorfer. Produção executiva: Richard Brener, Toby Emmerich, Walter Hamada, Steven Mnuchin, Dave Neustadter. Produção: Rob Cowan, Peter Safran, James Wan. Elenco: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Frances O'Connor, Madison Wolfe, Lauren Sposito, Benjamin Haigh, Patrick McCauley. Estreia: 13/5/16

Não foi surpresa para ninguém quando surgiu o anúncio de uma sequência para "Invocação do mal", afinal de contas o filme de James Wan, que custou meros 20 milhões de dólares, tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria de 2013, rendendo mais de 300 milhões pelo mundo todo e devolvendo ao gênero um respeito há muito perdido e poucas vezes retomado pela crítica e pelo público. Com um orçamento duplicado e as expectativas nas alturas, "Invocação do mal 2" repetiu o êxito do primeiro filme ao manter a receita que havia dado tão certo: um roteiro sério (e baseado em uma história real), personagens densos e a preferência por um clima de suspense contra um festival de sustos vazios. Contando novamente com Patrick Wilson e Vera Farmiga como o casal Ed e Lorraine Warren e o diretor Wan no comando (depois de sua recusa em dirigir "Velozes e furiosos 8"), "Invocação do mal 2" não decepciona os fãs do gênero ou do primeiro capítulo da série: é elegante, convincente e, mais importante que tudo, respeita o espectador e a história que está contando.

Tudo bem que algumas alterações foram feitas para melhor aproveitar a dupla de protagonistas conhecida do público, que na verdade não foram os principais investigadores do caso narrado no filme, mas o roteiro faz o possível para manter a essência dos acontecimentos que aterrorizaram uma família londrina em 1977. Considerado até hoje como o caso mais longo de atividade poltergeist registrado na história, o fenômeno que tomou conta da residência de Peggy Hogdson (Frances O'Connor) e seus quatro filhos chamou a atenção da mídia e rendeu livros, polêmicas e outros filmes, como "The Einfield Haunting", de 2015. Para cada estudioso do caso que o levava a sério e comprovava os fenômenos, havia outro que levantava questões bem racionais - para o que colaborava o fato de que a filha mais envolvida nos ataques, Janet, tenha confessado ter forjado alguns dos assustadores sons gravados pelos investigadores no percurso do caso. Para maior impacto nas bilheterias, a New Line espertamente deslocou os maiores responsáveis pelas investigações para a ala dos coadjuvantes e colocou Ed e Lorraine - já devidamente testados no primeiro filme - como centro da narrativa. Funcionou muito bem: não apenas reafirmou o êxito da franquia como deu à plateia alguém com quem identificar-se, um ponto de vista externo que a leva pelas mãos rumo ao pesadelo que se desenrola na tela.


A primeira sequência do filme já demonstra sua vocação de tratar a plateia com respeito ao mesmo tempo em que faz referência a outra história clássica do gênero - "Terror em Amityville", filmado por Hollywood em duas ocasiões, em 1979 e 2005. Traumatizada com visões que anunciam uma tragédia em sua vida pessoal, Lorraine abandona a casa assombrada pelos crimes cometidos no local disposta a afastar-se por tempo indeterminado de sua desgastante rotina como estudiosa de fenômenos paranormais. Sua decisão, no entanto, é frustrada quando, algum tempo depois, ela e seu marido são procurados por um padre, preocupado com acontecimentos inexplicáveis que vem atormentando uma família londrina. Mesmo relutante, o casal aceita visitá-la e ao menos tentar ajudar a afastar o que quer que seja que esteja causando tanto terror. Para sua surpresa, eles descobrem que o responsável é o espírito de um antigo morador da casa, que se aproveita da sensibilidade de uma das meninas da família para marcar sua presença e sua recusa em abandonar seu lar.

O diretor James Wan mantém o tom do primeiro filme, equilibrando momentos de aparente calma com terror puro na reta final - quando, compreensivelmente, alguns exageros tomam conta da narrativa. Ironicamente, no entanto, são as cenas menos tensas que acabam por destacar-se, especialmente devido às atuações de Vera Farmiga e Patrick Wilson, que transmitem com extrema competência a serenidade de seus personagens, que mesmo diante de situações apavorantes conseguem manter a calma e a fé. Mesmo que o roteiro faça algumas alterações no rumo dos acontecimentos conforme eles surgiram na vida real - incluindo até o fantasma de uma freira com o objetivo único de criar uma personagem para um novo filme - e não haja nenhuma novidade na forma de contar sua história, "Invocação do mal 2" cumpre muito bem seu papel de entreter aos espectadores que procuram por um bom par de horas de tensão. É elegante e adulto, duas qualidades redentoras que o elevam acima da média, mas está longe de ser uma obra-prima inesquecível.

quarta-feira

O DESPERTAR

O DESPERTAR (The awakening, 2011, StudioCanal/BBC Films, 102min) Direção: Nick Murphy. Roteiro: Stephen Volk, Nick Murphy. Fotografia: Eduard Grau. Montagem: Victoria Boydell. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Caroline Harris. Direção de arte/cenários: Jon Henson/Robert Wischhusen-Hayes. Produção executiva: Jenny Borgars, Will Clarke, Olivier Courson, Robin Guise, Peter Hampden, Norman Merry, Joe Oppenheimer, Peter Raven, Carole Sheridan. Produção: Sarah Curtis, Julia Stannard, David M. Thompson. Elenco: Rebecca Hall, Dominic West, Imelda Staunton, Isaac Hempstead Wright, Shaun Dooley. Estreia: 16/9/11 (Festival de Toronto)

Via de regra, um bom filme de fantasmas conta sempre com uma ambientação apropriada, uma história interessante, um final surpreendente e um bom elenco. Funcionou muito bem, por exemplo, em "O sexto sentido" (99), em "Os outros" (2001) e em "O orfanato" (2007). Funciona apenas em parte em "O despertar". Co-produzido pela BBC Films, o filme de Nick Murphy - oriundo da televisão - tem como seus maiores trunfos as presenças das ótimas Rebecca Hall e Imelda Staunton, mas esbarra em problemas de ritmo e foco, que acabam por diluir as boas ideias do roteiro e dar a impressão de que é mais longo do que deveria. Ainda assim, por levar-se a sério e não cair na tentação de pregar sustos aleatórios, é uma produção acima da média, capaz de conquistar os fãs do gênero, principalmente graças a algumas surpresas em seu final - mesmo que ele se arraste mais do que o necessário depois de seu clímax.

A trama tem início na Inglaterra de 1921, ainda se recuperando do final da I Guerra Mundial. Esse ambiente, ainda traumatizado pela perda de milhares de vidas, é fértil para Florence Cathcart, que trabalha ajudando a polícia a desmascarar fraudes que envolvem falsos médiuns e comunicações com os mortos. Escritora relativamente famosa, ela é procurada por Robert Mallory (Dominic West), o diretor de uma escola para meninos que vem, segundo ele, sendo assombrado por fantasmas que provavelmente tem relação com uma tragédia ocorrida na mansão alguns anos antes. Mesmo pouco interessada, Florence aceita o desafio de provar que tudo não passa de imaginação ou armação, e assim que chega na escola sente-se aceita pela governanta, Maud (Imelda Staunton), e procura se informar a respeito de tudo que acontece no local - ainda chocado com a recente morte de um aluno. Quando percebe que talvez haja realmente algo de estranho na história, Florence pede que todos os alunos sejam mandados para casa. Ficam na imensa propriedade apenas ela, Mallory, Maud, um empregado e um aluno, Thomas Hill (Isaac Hempstead Wright) - e revelações irão testar a coragem e o ceticismo da experiente caçadora de mentiras.


O roteiro de Stephen Volck e do diretor Nick Murphy usa e abusa de todos os clichês do gênero, mas felizmente o fazem de forma inteligente, inserindo aos poucos todos os elementos de sua trama e sem exagerar nos sustos. Sua opção acertada em apostar na atmosfera lúgubre e nos personagens - interessantes e bem desenvolvidos - faz toda a diferença: mesmo que a história seja quase derivativa em seus desdobramentos, ela prende a atenção por se levar a sério e realmente envolver o espectador. Rebecca Hall é a atriz ideal para o papel principal, com seu rosto quase frio e postura pétrea; seus embates com Imelda Staunton - uma atriz gigantesca quando tem a oportunidade de mostrar seu talento - são hipnotizantes e compensam alguns momentos mortos. Já a química entre Hall e Dominic West não é tão eletrizante: ambos são bons atores mas falta algo para que o relacionamento entre Florence e Mallory convença a plateia (talvez o fato de ambos transmitirem uma aura pouco expansiva e/ou carismática). Ainda assim, o roteiro leva a trama até o final sem maiores tropeços, oferecendo um bom espetáculo aos fãs de um filme de terror elegante e sutil.

Fugindo dos sustos óbvios e seguindo um caminho de mais sugestão e menos terror - que muito deu certo nos filmes de Shyamalan, Amenábar e Bayona citados no primeiro parágrafo -, "O despertar" faz parte de uma linhagem de produções que tentam resgatar o clima nostálgico de clássicos do gênero. Acerta em boa parte do tempo (a ambientação, a direção cuidadosa, o elenco bem escalado), mas não é um filme perfeito: se estende sem necessidade, falha em criar uma empatia entre a protagonista e o público e não assusta tanto quanto deveria. Porém, diante da enxurrada de filmes baratos de terror que chegam ao consumo do espectador sem oferecer mais do que roteiros pífios e atuações canhestras, é um bálsamo. Merece ser descoberto e recomendado!

domingo

A MULHER DE PRETO

A MULHER DE PRETO (The woman in black, 2012, Hammer Films/Cross Creek Pictures, 95min) Direção: James Watkins. Roteiro: Jane Goldman, romance de Susan Hill. Fotografia: Tim Maurice-Jones. Montagem: Jon Harris. Música: Marco Beltrami. Figurino: Keith Madden. Direção de arte/cenários: Kave Quinn/Niamh Coulter. Produção executiva: Tobin Armbrust, Neil Dunn, Guy East, Roy Lee, Xavier Marchand, Marc Schipper, Nigel Sinclair, Tyler Thompson. Produção: Richard Jackson, Simon Oakes, Brian Oliver. Elenco: Daniel Radcliffe, Ciarán Hinds, Janet McTeer, Shaun Dooley, Mary Stockley. Estreia: 03/02/12

Vultos assustadores. Ruídos inesperados. Mansões abandonadas. Brinquedos que funcionam sozinhos. Trágicas e inexplicáveis mortes de crianças. E uma atmosfera arrepiante. Com esses elementos tão caros aos clássicos filmes de terror, "A mulher de preto" chegou aos cinemas como uma bela homenagem às antigas produções inglesas da produtora Hammer (não por acaso uma das responsáveis por seu lançamento). Primeiro filme do ator Daniel Radcliffe depois do fim de seu compromisso com a série "Harry Potter", a adaptação do romance de Susan Hill - que já havia dado origem a um telefilme de 1989 - tem todos os ingredientes necessários para uma experiência inesquecível, mas acaba esbarrando justamente na sua falta de ousadia em fugir do óbvio e dos clichês. É uma produção que segue à risca todas as regras há muito estabelecidas - e consagradas junto aos fãs do gênero -, mas que carece de um sabor a mais, que o faça ultrapassar a média. Mesmo assim, não deixa de ser um entretenimento de extrema qualidade técnica e, o que é mais importante, que se leva a sério.

Nadando contra a corrente do cinema de terror contemporâneo, que não resiste a apelar para a autoironia ou a piadas sem graça, "A mulher de preto" convida a plateia em visitar um universo que fez a glória de estúdios como a própria Hammer e a Universal. Com um cuidadoso trabalho de reconstituição de época e ambientação - para o que colaboram muito a fotografia acinzentada de Tim Maurice-Jones e a trilha sonora caprichada de Marco Beltrami -, o segundo longa do diretor James Watkins tem a elegância de um horror vitoriano somado com a sofisticação de um orçamento relativamente generoso de 17 milhões de dólares (muito bem recompensado com uma renda mundial de mais de 125 milhões, em grande parte graças à presença de Radcliffe no elenco). Milimetricamente calculado para impressionar o espectador com seu visual e fisgá-lo com sustos nas horas certas - além de jamais descuidar da trama e mantê-la coerente dentro de seu contexto - o filme dificilmente irá decepcionar aos admiradores de histórias de fantasmas, por respeitar suas regras e tratá-las com inteligência e sobriedade.


Um talvez jovem demais Daniel Radcliffe vive o personagem principal, o advogado Arthur Kipps, traumatizado pela morte precoce da esposa no parto de seu único filho. Escalado por seu patrão para realizar um trabalho fora de Londres, ele vai, a contragosto, até o pequeno vilarejo de Cryphon Grifford para cuidar da papelada referente ao inventário de uma cliente recém falecida. Logo que chega no lugar, o rapaz percebe que há algo de estranho, uma vez que todos os moradores parecem desgostar profundamente da mansão da morta, chamada Eel Marsh. Nem mesmo os receptivos anfitriões de Arthur, Sam e Elizabeth Daily (Ciarán Hinds e Janet McTeer), demonstram entusiasmo por sua visita - perturbados pela morte trágica do único filho, ainda criança, eles sabem mais do que aparentam a respeito de perturbadoras visões que o advogado passa a ter dentro da vasta e escura propriedade onde começa a trabalhar. Quebrando com frequência o silêncio e a aparente calma do local, uma mulher de preto misteriosa e fantasmagórica leva Kipps a investigar mais a fundo a história da cidade, o que o leva a descobrir uma lenda aterrorizante que envolve a morte de uma série de crianças - que não parece dar sinal de querer parar.

 Tentando deixar para trás a imagem do doce bruxinho Harry Potter, que tanto foi uma bênção quanto um problema para sua carreira, tamanho o impacto nela, Daniel Radcliffe mostra-se um ator esforçado, mesmo que seu personagem talvez exigisse alguém com mais idade e mais peso dramático. Para sua sorte, ele é amparado pelos trabalhos delicados dos veteranos Ciarán Hinds e Janet McTeer - ela, em especial, apesar de poucas cenas, dá um show a cada aparição, na pele de uma mulher traumatizada pela perda trágica do filho. O clímax do filme - em que Kipps tenta resolver de vez a questão da personagem-título - carece de um pouco de força, mas o desfecho da trama (que deve contrariar alguns espectadores e empolgar outros) não deixa de ser corajoso, ainda que deixe aberta uma porta para a desnecessária continuação, lançada em 2014 sem seu astro principal como chamariz de bilheteria. No fim das contas, "A mulher de preto" é um filme de terror à moda antiga, bem realizado, honesto e elegante - mas que não se torna inesquecível exatamente por não buscar novidades dentro de um gênero já há muito necessitado de sangue novo. Um bom passatempo e a prova de que Daniel Radcliffe ainda pode oferecer muito.

quinta-feira

A BRUXA

A BRUXA (The witch: A New-England Folktale, 2015, Parts and Labor/RT Features/Rooks Nest Entertainment, 92min) Direção e roteiro: Robert Eggers. Fotografia: Jarin Blaschke. Montagem: Louise Ford. Música: Mark Korven. Figurino: Linda Muir. Direção de arte/cenários: Craig Lathrop/Mary Kirkland. Produção executiva: Thomas Benski, Jonathan Bronfman, Chris Columbus, Eleanor Columbus, Julia Godzinskaya, Alexandra Johnes, Sophie Mas, Lucas Ochoa, Michael Sackler, Alex Sagalchik, Lourenço Sant'Anna. Produção: Daniel Bekerman, Lars Knudsen, Jodi Redmond, Rodrigo Teixeira, Jay Van Hoy. Elenco: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie.  Estreia: 23/01/15 (Festival de Sundance)

Com exceção daqueles fãs de cinema que não se contentam apenas em assistir a um filme, mas também conhecem os nomes daquelas pessoas que estão por trás das câmeras, pouca gente pode ter percebido, nos créditos do aterrador "A bruxa", a presença de dois brasileiros. Lourenço Sant'Anna - que tem no currículo títulos como o aclamado independente "Frances Ha" (2012) e o polêmico "Love" (2015) - e Rodrigo Teixeira - que começou no cinema nacional, com filmes como "O cheiro do ralo" (2006) e "Heleno" (2011) antes de associar-se ao parceiro Sant'Anna em produções internacionais - são creditados, respectivamente, como produtor executivo e produtor do filme de estreia do cineasta Robert Eggers. Prova de seu prestígio junto ao cinema alternativo, os dois brasileiros também estiveram juntos em "Indignação" (2016), adaptação do romance de Philip Roth e "Melhores amigos" (2016), estrelado por Greg Kinnear, obras que agradaram aos críticos e receberam indicações e prêmios mundo afora - além de terem solidificado mais uma vez a criatividade e o talento dos realizadores independentes. Por mais que os filmes citados tenham suas qualidades, porém, é "A bruxa" que mostra, sem espaço para questionamentos, a força e o sucesso da dupla. Um filme de terror adulto e inteligente, o primeiro longa de Eggers perturba justamente por sugerir muito mais do que mostrar - uma receita infalível quando aplicada de forma correta.

Inspirado em uma série de contos, relatos e registros jurídicos feitos no século XVII, "A bruxa" tem, dentre seus inúmeros trunfos, a seriedade com que é conduzido pelo roteiro acurado e elegante de Eggers, que jamais ultrapassa os limites do bom-gosto e da sensibilidade. Por mais que sua trama seja angustiante e se utilize fartamente de elementos clássicos do gênero, Eggers constroi sua narrativa apoiado basicamente na atmosfera de paranoia e religiosidade obsessiva da época, evitando o horror explícito em nome da sutileza e do desconforto que provoca na plateia. Com uma fotografia esplêndida de Jarin Blaschke - que contribui para a sensação de claustrofobia de maior parte da ação - e atores despidos de qualquer vaidade ou artifícios, o filme vai envolvendo o espectador aos poucos, confirmando a estranheza das primeiras cenas conforme a trama vai se desenrolando (e se mostrando gradualmente agoniante). Elogiado publicamente até mesmo pelo mestre do horror, o escritor Stephen King, "A bruxa" não é, definitivamente, um filme convencional e nem tampouco busca públicos que procuram entretenimento ligeiro: é uma pequena obra-prima, capaz de ficar na memória por um bom tempo após seu término - o que é sempre sinal definitivo de que apertou os botões certos.


A história se passa na Nova Inglaterra do ano 1630: a família do fazendeiro William (Ralph Ineson) é banida de sua cidade, devido a questões a respeito de sua forma de enxergar a religião. Isolado com a esposa Katherine (Kate Dickie) e os quatro filhos em uma pequena propriedade perto de uma tétrica floresta, William tenta seguir sua vida dentro dos parâmetros que considera corretos aos olhos de Deus, mas o desaparecimento de seu caçula, um bebê de poucos meses, vira tudo de pernas para o ar. De repente, sua filha mais velha, Thomasin (Anya Taylor-Joy) é acusada por sua própria mãe de praticar atos de bruxaria e condenar a todos com seus rituais. Acuada pela própria família, Thomasin tenta convencê-los de que é inocente, mas outros acontecimentos (cada vez mais violentos e bizarros) a empurram diretamente para o confronto com seu casal de irmãos gêmeos - que podem ou não ter inventado um pacto com Black Philip, o bode preto da família. Quando Caleb (Harvey Scrimshaw), seu outro irmão, desaparece e retorna às portas da morte, Thomasin percebe nitidamente que precisa provar sua inocência, sob pena de ser abandonada pelos pais. Mas o que é, afinal, a verdade?

Manipulando com extrema segurança todos os clichês do terror mas nunca os exagerando, Robert Eggers entrega ao público uma produção fascinante, que exercita os músculos do cérebro com a mesma precisão com que busca o susto e a tensão constante. Em seu primeiro papel principal, Anta Taylor-Joy transmite a exata sensação de desamparo e medo que a plateia, embora sua interpretação também deixe margem, durante todo o tempo, para a dubiedade em relação a seu real papel nos acontecimentos que a circundam. Sob seu ponto de vista, a plateia é convidada a penetrar em um universo sombrio e sufocante, valorizado pelo visual cuidadoso e pela reconstituição de época detalhista. Não à toa, Eggers saiu da cerimônia de entrega dos Independent Spirit Awards com dois prêmios na bagagem, ambos na subcategoria de estreia: melhor filme e roteiro. Difícil discordar dos votantes quando o filme chega ao fim: poucas vezes uma obra de terror conseguiu, nos últimos anos,  um resultado tão certeiro quanto "A bruxa". É apavorante, é realista e é um filmaço! Nada de assassinos mascarados ou sangue esguichando: é apenas uma aula de narrativa visual e dramática. Imperdível!

domingo

A PROFECIA

A PROFECIA (The omen, 1976, 20th Century Fox, 111min) Direção: Richard Donner. Roteiro: David Seltzer. Fotografia: Gilbert Taylor. Montagem: Stuard Baird. Música: Jerry Goldsmith. Direção de arte: Carmen Dillon. Produção executiva: Mace Neufeld. Produção: Harvey Bernhard. Elenco: Gregory Peck, Lee Remick, David Warner, Billie Whitelaw, Harvey Stephens, Patrick Thoughton, Martin Benson. Estreia: 06/6/76 (Inglaterra)

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Canção ("Ave Satani")
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Original

Em 1976, filmes de terror não eram mais objetos de desprezo pelos produtores de Hollywood, especialmente se envolvessem a eterna discussão sobre a existência ou não do demônio. Com o sucesso de bilheteria e crítica de "O bebê de Rosemary" (68) e "O exorcista" (73) - que chegaram até a ganhar Oscar - qualquer estúdio que prezasse por sua conta bancária passou a ver o gênero como uma galinha dos ovos de ouro. A 20th Century Fox, no entanto, quase deixou a sua escapar: o roteiro de "A profecia", escrito por David Seltzer (unica e exclusivamente por motivos financeiros, como ele mesmo assume), havia sido rejeitado pelo estúdio e estava nas mãos da Warner Bros quando Richard Donner - então um diretor apenas de filmes para a televisão - decidiu que tinha total condição de fazer dele a sua estreia como cineasta. Empolgado com a história, convenceu o chefão Alan Ladd Jr. (filho do eterno Shane, de "Os brutos também amam") a recuperar os direitos de filmagem - aproveitando que a Warner optou por uma sequência de "O exorcista" - e, com um ator do porte de Gregory Peck como protagonista, criou aquele que seria seu primeiro grande sucesso comercial, em uma carreira que inclui "Superman, o filme" (78), "Os goonies" (85) e a cinessérie "Máquina mortífera" (que começou em 1987). Mas até que o filme finalmente estreasse, na estratégica data de 6 de junho de 1976 (666), ninguém poderia ter a certeza de que a empreitada daria certo - ou se ao menos chegaria às telas.

Como acontece frequentemente quando se trata de filmes de terror icônicos - caso de "O exorcista", principalmente - acontecimentos nos bastidores de "A profecia" deixaram muita gente com os nervos à flor da pele. O fato de Gregory Peck ter aceito o papel principal - de um embaixador que perdeu o filho recém-nascido e anos mais tarde se vê obrigado a tomar uma decisão que pai nenhum gostaria de tomar - foi o primeiro sinal de que um filme diferente estava por vir: o filho do ator havia cometido suicídio em 1975, e muitos não imaginavam que ele pudesse querer viver na tela uma história tão forte em termos emocionais. Foi o "sim" de Peck, no entanto, que avalizou o projeto junto aos produtores e a nomes como o de Lee Remick - indicada ao Oscar por "Vício maldito" (62). Com o prestigiado ator no elenco - com o salário diminuído, mas com um contrato que lhe renderia 10% da bilheteria do filme - Donner mostrava a todos que seu primeiro trabalho para o cinema não seria um filme de terror qualquer. E então começaram os tétricos incidentes.

Coincidência ou não, uma série de eventos estranhos tomou conta dos bastidores das filmagens. Aviões diferentes que levavam Gregory Peck e o roteirista David Seltzer para Londres foram atingidos por raios com poucas horas de diferença; o produtor Harvey Bernhard escapou por pouco de ser atingido por outro raio, quando estava em Roma; cães escalados para o filme atacaram seus treinadores sem razão aparente; o diretor Richard Donner foi atropelado e o hotel onde estava hospedado na capital inglesa foi alvo de um atentado à bomba praticado pelo IRA; um avião que deveria estar levando Peck de Israel para Los Angeles caiu, matando os cinco passageiros japoneses que estavam a bordo; e a namorada do técnico em efeitos visuais John Richardson foi decapitada em um acidente automobilístico em uma estrada da Holanda, perto de uma cidade chamada Ommen. Não foi por acaso que o Vaticano declarou-se francamente contra a produção e muitos roteiristas anteriores a Seltzer se recusaram a tomar parte no projeto. Mal sabiam que, apesar de tudo, "A profecia" se tornaria um dos maiores sucessos de bilheteria de 1976, daria origem a sequências e daria o único Oscar da carreira do músico Jerry Goldsmith - além de um desnecessário remake em 2006.


Acertadamente assumindo um tom sério e realista "A profecia" começa com uma tragédia familiar: Robert Thorn (Gregory Peck), embaixador dos EUA em Roma, descobre que seu filho recém-nascido morreu logo após o parto e, para impedir que sua esposa, Katherine (Lee Remick), saiba do acontecido, aceita assumir a paternidade de um bebê órfão, oferecido pelo dedicado padre que cuida da maternidade. Alguns anos depois, já alocados em Londres, estranhos acontecimentos começam a cercar a família, a partir do suicídio da jovem babá do pequeno Damien (Harvey Stephens) e da chegada do perturbado Padre Brennan (Patrick Troughton), que procura o político para alertá-lo sobre as reais origens do menino - que estaria ligado a uma profecia a respeito da chegada do anticristo. A princípio cético, aos poucos Thorn passa a desconfiar de que a verdade pode ser muito mais aterradora do que ele poderia supor, e, com a ajuda do fotógrafo (David Warner), parte em busca de uma solução menos trágica do que gostaria.

Pontuado pela oscarizada trilha sonora de Jerry Goldsmith e cercado de uma atmosfera sinistra que enfatiza o tom cru da narrativa, "A profecia" é um perfeito exemplar dos melhores filmes de terror já realizados em Hollywood. Sem apelar para alívios cômicos ou para sangue em excesso, Richard Donner acaba por construir um conto macabro e tenso, em que o público é conduzido por um caminho repleto de sustos e revelações macabras, que se aproveitam de uma base religiosa bastante conhecida - o Livro do Apocalipse - para atingir um nível perturbador e realista. Com interpretações seguras e inspiradas de Gregory Peck (em papel recusado por Charlton Heston, Roy Scheider e William Holden) e Lee Remick - além do estreante Harvey Stephens no papel do demoníaco Damien - e uma edição concisa e eficiente, é um clássico absoluto do gênero, capaz de causar tensão mesmo nesses tempos em que efeitos visuais e orçamentos milionários parecem mais importantes do que boas histórias. Um filme de terror que se leva a sério, o que faz uma imensa diferença!

quarta-feira

DESAFIO DO ALÉM

DESAFIO DO ALÉM (The haunting, 1963, Argyle Enterprises, 112min) Direção: Robert Wise. Roteiro: Nelson Gidding, romance "The haunting of Hill House", de Shirley Jackson. Fotografia: Davis Boulton. Montagem: Ernest Walter. Música: Humphrey Searle. Direção de arte/cenários: Elliot Scott/John Jarvis. Produção: Robert Wise. Elenco: Julie Harris, Claire Bloom, Richard Johnson, Russ Tamblyn, Fay Compton. Estreia: 18/9/63

Em 1999, acreditando que a tecnologia que tornava qualquer efeito visual imaginado possível de ser mostrado nas telas de cinema, os produtores de Hollywood resolveram que era uma boa ideia realizar um remake do clássico "Desafio do além", um dos mais assustadores filmes de terror da década de 60 e um dos preferidos de ninguém menos que Martin Scorsese. Com o título alterado para "A casa amaldiçoada", um elenco que incluía Liam Neeson, Catherine Zeta-Jones e Lily Taylor e a direção de Jan De Bont - vindo dos sucessos "Velocidade máxima" (94) e "Twister" (96) e do fracasso de "Velocidade máxima 2" (97) - o filme acabou naufragando nas bilheterias e foi massacrado pela crítica. Merecido! Ao substituir o poder de sugestão do original, que buscava o medo através de ruídos fora de lugar e ameaças invisíveis, a refilmagem acabou por perder em inteligência e sobriedade - elementos que fizeram do primeiro filme uma obra obrigatória aos fãs de filmes de terror.

A trajetória de "Desafio do além" até transformar-se em um clássico indiscutível do gênero começou quando o cineasta Robert Wise, ainda na fase de pós-produção de seu "Amor, sublime amor" (que lhe daria o Oscar de melhor direção), leu, na revista Time, a resenha de um livro escrito por Shirley Jackson, chamado "The haunting of Hill House". Intrigado com a trama criada pela autora, Wise imediatamente recomendou-a para o roteirista Nelson Gidding - com quem já havia trabalhado em "Quero viver" (58) - e decidiu que sua adaptação seria o filme que ele ainda devia, por contrato, à MGM. O estúdio concordou com a ideia, mas foi na Inglaterra que Wise obteve melhor receptividade ao projeto - leia-se um orçamento um pouquinho maior - e tal situação acabou levando a produção para Londres e para a escalação de dois de seus atores, Claire Bloom e Richard Johnson. A eles uniram-se Julie Harris (que aceitou o papel principal, a da atormentada Eleanor Lance, por ter interesse em parapsicologia) e Russ Tamblyng (obrigado pelo estúdio a cumprir contrato) e, surpreendendo a quem esperava dele algo mais ambicioso depois de sua versão musical e moderna de "Romeu e Julieta" - um dos filmes mais premiados da história da Academia - Wise entregou uma produção simples e intimista, mais preocupada com a construção delicada do suspense do que com os efeitos mirabolantes que fariam a desgraça do filme de três décadas depois.


A história de "Desafio do além" segue à risca os elementos mais clássicos das tramas de casas mal-assombradas e fantasmas mal-intencionados: para buscar provas para seus experimentos sobre paranormalidade, o dr. Markway (Richard Johnson) decide reunir, em uma mansão dita assombrada, um grupo de pessoas estranhas entre si e que podem lhe ajudar em seus objetivos. Sobrinho de um dos herdeiros da propriedade, o jovem Luke Sanderson (Russ Tamblyn) serve como a voz da razão; modernosa, médium e lésbica, Theodora (Claire Bloom) é a mais favorável a acreditar na força do além; e Eleanor (Julie Harris, que usou a própria depressão como elemento em sua interpretação) é uma mulher sem rumo na vida desde a morte da mãe e que aceita o desafio como forma de encontrar uma razão para a vida. Aos poucos, enquanto Theodora tenta aproximar-se de Eleanor - que se mantém violentamente afetada pelo passado trágico da casa, que já fez quatro vítimas mulheres em oitenta anos de existência - fatos inexplicáveis começam a tomar conta do ambiente, levando todos à certeza de que há uma forte conexão entre Eleanor e o local (ou seus fantasmas).

Fugindo do óbvio e apostando na sutileza da trama, Robert Wise criou um espetáculo que sugere muito mais do que mostra, para sorte de todos que preferem o medo oriundo da mente mais do que de sangue escorrendo pela tela - e até mesmo a opção do diretor em filmar em preto-e-branco colabora para tal sensação de claustrofobia. A direção de arte primorosa, que faz da casa um personagem a mais, é um dos pontos altos do filme, em especial uma tétrica escada em caracol que serve de cenário para o clímax. Abrindo mão de sua ideia inicial - a de localizar a narrativa inteira dentro da cabeça de Eleanor - o roteiro de Nelson Gidding se ampara basicamente na força da história, na direção firme de Wise e na atuação de seu elenco, levando a sério uma trama para a qual é imprescindível uma dose generosa de imaginação e dedicação - justamente o que faltou em sua versão moderna, que apoiou-se no visual e deixou de lado o que há de humano e mais assustador no enredo: o que existe além do que os olhos podem ver.

sexta-feira

O MONSTRO DA LAGOA NEGRA

O MONSTRO DA LAGOA NEGRA (Creature from the Black Lagoon, 1954, Universal Pictures, 79min) Direção: Jack Arnold. Roteiro: Harry Essex, Arthur Ross, estória de Maurice Zimm. Fotografia: William E. Snyder. Montagem: Ted J. Kent. Direção de arte/cenários: Hiylard Brown, Bernard Herzbrun/ Russell A. Gausman, Ray Jeffers. Produção: William Alland. Elenco: Richard Carlson, Julie Adams, Richard Denning, Antonio Moreno, Nestor Paiva, Whit Bissell. Estreia: 12/02/54


Se não fosse uma história real, até pareceria uma daquelas lendas tão caras à Hollywood: mexendo nas lixeiras da Universal, um faxineiro encontrou uma fantasia estranha que serviria como uma luva para que seu filho pequeno brincasse no feriado de Halloween. Anos mais tarde, o tal menino, já crescido para se entregar à clássica tradição norte-americana, vendeu tal fantasia para um escritor de ficção científica, que reconheceu naquela bizarra figura mais um dos famosos “monstros da Universal” – pacote que incluía, desde os anos 40, nomes como Drácula, Frankenstein, O Homem Invisível e Dr. Jekyll & Mr. Hyde. Sem gozar do mesmo prestígio de seus colegas, nascidos nas páginas de romances consagrados, “O Monstro da Lagoa Negra” acabou sendo relegado a segundo plano com o passar dos anos, mesmo que tenha feito sucesso suficiente para render duas continuações. Rodado em 3D – cinquenta anos antes que tal artifício virasse moda – o filme surpreende, ainda hoje, pelo cuidado com as imagens subaquáticas, que suplanta, por muitos momentos, uma história sem maiores surpresas.

Surgido de uma lenda a respeito de uma criatura humanoide que supostamente vivia na América do Sul – e que chegou até o produtor William Alland através do fotógrafo mexicano Gabriel Figueroa – o roteiro de “O Monstro da Lagoa Negra” parte de uma premissa muito explorada pelos filmes de ficção científica e não tem medo de apelar para os clichês mais deslavados, ainda que, à época, muita coisa ainda fosse relativamente novidade. As cenas iniciais lembram “Jurassic Park, parque dos dinossauros”, mostrando o experiente cientista Carl Maia (Antonio Moreno) descobrindo, em uma expedição ao Amazonas, a pata fossilizada de uma criatura desconhecida. Com o objetivo de descobrir do que se trata e se há mais resquícios de antiga civilização no local, ele contrata um grupo de outros cientistas, liderado por David Reed (Richard Carlson) e sua namorada, Kay Lawrence (Julie Adams). Depois de um bom tempo à procura de algo empolgante, eles estão prestes a desistir da empreitada quando finalmente descobrem um ser meio humano/meio réptil que vive debaixo d'água e que começa a fazer vítimas entre os membros do grupo. Estranhamente, porém, ele evita atacar Kay, por quem parece nutrir sentimentos humanos.


Mesmo que o visual da criatura seja muitas vezes um tanto tosco, “O Monstro da Lagoa Negra” se destaca principalmente pela excelência de suas tomadas subaquáticas, cortesia do diretor de fotografia William E. Snyder, que antecipa em duas décadas o famoso “ponto de vista do monstro” tornado célebre por Steven Spielberg em “Tubarão” (75). Ambicioso em seu desejo de conquistar o público através dos efeitos em 3D, o cineasta Jack Arnold sabia ter em mãos a possibilidade de uma rentável série, a ponto de deixar em aberto o destino do temível protagonista para prováveis continuações – que obviamente chegaram às telas poucos anos mais tarde. Localizando sua trama em um Amazonas verossímil, com placas sinalizadoras escritas em português e nativos com nomes críveis como Tomás e Luís – coisas que cineastas modernos simplesmente ignoraram, como mostram filmes como “Anaconda”, rodado no Brasil em 1996 – o diretor muitas vezes escorrega em sequências dignas de Ed Wood, mas seu respeito com a história e os personagens acaba por ser maior que os “defeitos especiais”.

A criatura – que ficou a cargo de Milicent Patrick, embora o responsável pelo departamento de maquiagem da Universal da época, Bud Westmore, tenha levado o crédito – é, perceptivelmente, pouco requintada. Sempre que o monstro surge em cena e parte para o ataque (fatalmente vitimando os pobres coadjuvantes que estão em cena apenas para morrer) é difícil segurar o riso, especialmente em vista os progressos dos efeitos visuais conquistados pelo cinema durante as cinco décadas que separam sua estreia dos dias de hoje. Mas “O Monstro da Lagoa Negra” tem, a seu favor, uma inocência encantadora e a entrega absoluta de seu elenco, que compra sem reservas uma premissa um tanto absurda mas que pode divertir a todos que procuram entretenimento despretensioso. Para quem tem preconceito, uma dica: um dos fãs de “O Monstro da Lagoa Negra”, e que o assistia todos os anos no dia de seu aniversário era o respeitado, sério e aparentemente melancólico Ingmar Bergman. Quem diria que o homem por trás de petardos emocionais como “Persona” e “Morangos silvestres” também tinha seu lado trash?

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...