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sábado

CHOCOLATE


CHOCOLATE (Chocolate, 2000, Miramax, 121min) Direção: Lasse Halstrom. Roteiro: Robert Nelson Jacobs, romance de Joanne Harris. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Andrew Mondshein. Música: Rachel Portman. Figurino: Renée Ehrlich Kalfus. Direção de arte/cenários: David Gropman/Stephenie McMillan. Produção executiva: Alan C. Blomquist, Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: David Brown, Kit Golden, Leslie Holleran. Elenco: Juliette Binoche, Judi Dench, Johnny Depp, Lena Olin, Alfred Molina, Carrie-Anne Moss, Peter Stormare, Leslie Caron, Victoire Thivisol. Estreia: 15/12/2000

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Juliette Binoche), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original

 Dentre os indicados ao Oscar de melhor filme do ano de 2000 - com produções aplaudidas pela crítica ("Traffic" e "O tigre e o dragão") e sucessos de bilheteria ("Erin Brockovich: uma mulher de talento" e o grande vencedor, "Gladiador") -, a presença do apenas correto "Chocolate", dirigido pelo sueco Lasse Halstrom, pegou muita gente de surpresa. Porém, não era preciso pensar muito para descobrir os motivos de sua lembrança pelos membros da Academia: com uma campanha agressiva que caracterizava sua produtora, a Miramax (responsável pelo sucesso de "Shakespeare apaixonado" contra o superior "O resgate do soldado Ryan", da temporada 1998), os então todo-poderosos Bob e Harvey Weinstein fizeram de um drama convencional e simpático o candidato da temporada preferido dos mais românticos - e de quebra arrancou ainda indicações importantes, como atriz (Juliette Binoche), atriz coadjuvante (Judi Dench) e roteiro adaptado. Porém, a verdade é que, se não fosse o belo empurrão dos irmãos Weinstein, o filme adaptado do romance de Joanne Harris até poderia encantar o público, mas dificilmente chegaria ao páreo final. Isso não significa, no entanto, que o filme de Halstrom seja medíocre - ele é apenas pouco memorável, apesar da união de enormes talentos.

A trama se passa em uma pequena cidade francesa, em 1959. É lá que chega a misteriosa e sedutora Vianne Rocher (Juliette Binoche), acompanhada de sua pequena filha, Anouk (Victoire Thivisol). As duas chegam às vésperas da Semana Santa com o objetivo de abrir uma chocolateria - e o fato de desafiarem - ainda que inconscientemente - os dogmas religiosos da cidade, esmagadoramente católica e liderada com mão de ferro pelo prefeito, Conde de Reynaud (Alfred Molina), um homem de preceitos morais rígidos e que é assombrado pelo desaparecimento da esposa, anos antes. Espontânea e independente, Vianne divide opiniões na pequena cidade: enquanto boa parte da população segue a opinião equivocada de Reynaud, outros habitantes se deixam seduzir por seus belos e deliciosos chocolates e por seus conselhos - que abalam o até então pacato local. É Vianne, por exemplo, que aproxima sua locatária, Amande Voizin (Judi Dench), de seu neto, mantido afastado por obra de sua filha, Caroline (Carrie-Anne Moss), e incentiva a submissa Josephine Muscat (Lena Olin) a dar um basta em casamento com o abusivo Serge (Peter Stormare). Como se não bastasse tantos problemas, a situação fica ainda pior com a chegada de um grupo de nômades, que reacendem os preconceitos dos moradores. Quando seu líder, Roux (Johnny Depp) se envolve romanticamente com Vianne não é apenas a magia de seus doces que passa a perturbar Reynaud e a parcela conservadora do local: tratados com rispidez e intolerância, resta a eles lutarem por seus direitos ou partir para outra cidade.


 

A atmosfera romântica e lúdica de "Chocolate" é seu maior trunfo: a fotografia suave de Roger Pratt e a trilha sonora de Rachel Portman conduzem o espectador a um universo quase de contos-de-fada, valorizado pela cuidadosa reconstituição de época. A presença de Juliette Binoche - em papel recusado por Gwyneth Paltrow (queridinha dos irmãos Weinstein) - é outro achado do filme: mesmo que não tenha necessitado utilizar-se de todo seu potencial, a atriz francesa oferece ao espectador o carisma necessário para envolver o público em uma trama que, se não apresenta maiores novidades, tampouco decepciona aos fãs do gênero. Explorando com delicadeza o clichê da forasteira misteriosa que altera a dinâmica de uma sociedade conservadora, a trama de Joanne Harris - adaptada por Robert Nelson Jacobs, indicado ao Oscar da categoria - brinda o público com personagens fascinantes (ainda que não devidamente aprofundados) interpretados por atores acima de qualquer crítica. Lena Olin (casada com o diretor Lasse Halstrom) brilha na pele de uma mulher descobrindo sua própria força, soterrada em um casamento tóxico. Alfred Molina exercita sua persona de vilão com um Conde Reynaud com sentimentos escondidos sob uma carcaça insensível. E Judi Dench, excelente como sempre, mereceu sua indicação ao Oscar de atriz coadjuvante como a aparentemente ríspida Amande - que se revela uma mulher ansiando pelo reencontro com a família que lhe foi tirada pela própria filha.

Acertando em colocar o romance entre Vienna e Roux como trama secundária - preferindo focar a relação da doceira com os preconceitos locais em primeiro plano -, "Chocolate" é um filme que, assim como o doce que lhe dá título, oferece conforto e satisfação, ao menos durante as duas horas de sua duração. Mas é inegável que, apesar de ser vendido como uma produção ao estilo europeu, não consegue disfarçar certa superficialidade em seu roteiro e até mesmo na direção quase mecânica de Halstrom - que pouco antes havia brindado os cinéfilos com o doce "Regras da vida" (1999). Esteticamente caprichado e com um elenco de sonhos, "Chocolate" é o filme ideal para quem procura um drama mais leve e com um pé na fantasia - elemento sublinhado pela narração em off, que lhe empresta um tom de fábula apropriado e delicado. Talvez não tenha merecido um lugar entre os melhores filmes de um ano que deu ao mundo "Billy Elliot", "Quase famosos" e "Réquiem para um sonho", mas é difícil não se deixar seduzir pelo menos enquanto dura a sessão.

sexta-feira

O AMOR NÃO TEM SEXO

O AMOR NÃO TEM SEXO (Prick up your ears, 1987, Zenith Entertainment, 105min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Alan Bennett, biografia por John Lahr. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Mick Audsley. Música: Stanley Myers. Figurino: Bob Ringwood. Direção de arte/cenários: Hugo Luczyk Wyhowski/Philip Elton. Produção: Andrew Born. Elenco: Gary Oldman, Alfred Molina, Vanessa Redgrave, Wallace Shawn, Lindsay Duncan, Julie Walters, Frances Barber. Estreia: 17/4/87

Vencedor no Festival de Cannes: Melhor Trilha Sonora

Quem começar a assistir à "O amor não tem sexo" pensando tratar-se de mais um filme de temática gay com uma mensagem edificante certamente vai levar um choque ao final da sessão: o título em português de "Prick up your ears" (algo intraduzível mas pouco romântico ou formal) esconde a verdadeira e chocante história de amor, sexo, ciúme, violência e literatura do dramaturgo britânico Joe Orton e seu amante, Kenneth Halliwell, também escritor, mas sem o mesmo prestígio. Baseado em uma biografia de Orton escrita por John Larh, o filme de Stephen Frears (pouco antes de conquistar Hollywood com seu excepcional "Ligações perigosas", lançado em 1988) é seco, frio e um tanto irônico em sua tentativa de retratar não apenas um casal vivendo quase à margem da sociedade, mas também a própria sociedade hipócrita e falsamente liberal dos anos 1960.

Conhecido na Inglaterra como o autor de peças teatrais repletas de humor negro e críticas à sociedade, como "Entertaining Mr. Sloane" e "Loot", Orton chegou a ser chamado para escrever o roteiro de um filme dos Beatles e conhecer pessoalmente Paul McCartney. Enquanto ascendia profissionalmente, porém, sua relação com Halliwell entrava cada vez mais em uma crise sem fim: sete anos mais velho que Orton e sem seu charme, Halliwell sofria com as traições do parceiro - ainda que por vezes fosse chamado por ele para participar - e via sua carreira ser eclipsada pelo sucesso de Orton. A relação, desequilibrada sob todos os aspectos, parece atrair uma atmosfera de urgência e melancolia. Sob a visão de Frears, quase documental, os protagonistas parecem vislumbrar a tragédia, mas, ao mesmo tempo, sabem que não há como evitá-la. O tom de decadência impresso pelo cineasta nas aventuras sexuais de Orton transmitem uma sensação de incômodo e angústia - ainda que justamente essas jornadas pelo lado sombrio do sexo tenham feito dele o dramaturgo visceral que foi.


Um dos grandes trunfos de "O amor não tem sexo" é o elenco escolhido por Stephen Frears - notoriamente conhecido como um excelente diretor de atores. Antes de começar sua bem-sucedida carreira em Hollywood, Gary Oldman assume com perfeição o sotaque e os trejeitos de Joe Orton - um ano antes ele havia encarnado o roqueiro Sid Vicious e cinco anos mais tarde ele faria um Lee Harvey Oswald brilhante em "JFK: a pergunta que não quer calar", de Oliver Stone. Oldman, um ator dedicado e capaz de transformar-se fisicamente de um filme para outro encontra o par ideal em Alfred Molina. No papel, recusado por Ian McKellen (que anos mais tarde assumiu o arrependimento por isso), Molina brilha como o introvertido e apaixonado Halliwell, com um trabalho impressionante que vai se avolumando até o desfecho trágico. Não bastasse o par central, a excelente Vanessa Redgrave faz uma participação especial como a editora de Orton, Peggy Ramsay, em uma interpretação que lhe rendeu um prêmio de coadjuvante pela associação de críticos de Nova York e indicações ao Golden Globe e ao Bafta. É Redgrave quem surge como a voz da razão em um filme que mergulha sem medo no retrato de uma história de amor, sexo, inveja e literatura.

"O amor não tem sexo" não é, definitivamente, um filme que glamoriza a homossexualidade, mas tampouco a condena: é um desenho o mais fiel possível de uma tragédia, contado com imparcialidade e sem artifícios visuais ou melodramáticos. A fotografia crua de Oliver Stapleton e a edição ágil (mas nunca apressada) de Mick Ausdley são fatores cruciais para o sucesso do filme, mas é a direção incisiva de Stephen Frears quem reúne todos os elementos para formarem um único e chocante painel sobre um dos relacionamentos mais doídos da arte britânica dos anos 1960. É um filme desconfortável, mas, ao mesmo tempo, imprescindível!

domingo

OLHOS DA JUSTIÇA

OLHOS DA JUSTIÇA (Secret in their eyes, 2015, IM Global, 111min) Direção: Billy Ray. Roteiro: Billy Ray, roteiro original de Juan José Campanella, Eduardo Sacheri, romance de Eduardo Sacheri. Fotografia: Danny Moder. Montagem: Jim Page. Música: Emilio Kauderer. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Nelson Coates/Andrea Joel. Produção executiva: Matt Berenson, Juan José Campanella, Stuart Ford, Russell Levine, Jeremiah Samuels, Robert Simonds, Lee Jea Woo, DEborah Zipser. Produção: Matt Jackson, Mark Johnson. Elenco: Chiwetel Ejiofor, Nicole Kidman, Julia Roberts, Michael Kelly, Dean Norris, Alfred Molina, Joe Cole. Estreia: 12/11/15 (Itália)

Ao menos dois motivos podem justificar o remake de uma produção estrangeira dentro dos moldes de Hollywood. Primeiro: por mais sucesso que o original possa fazer no mercado norte-americano, seu alcance ainda é muito limitado, principalmente pela barreira do idioma (não é segredo para ninguém a aversão do público médio a legendas). E segundo: poucos produtores conseguiriam resistir à ideia de ganhar uma bela grana ao copiar um êxito já comprovado - chancelado, preferencialmente, por nomes e rostos conhecidos da plateia. Isso explica "Olhos da justiça", refilmagem (bastante) livre do excepcional "O segredo dos seus olhos", vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009. Baseado em um romance de Eduardo Sacheri, o filme de Juan José Campanella derrotou produções badaladas, como "A fita branca", de Michael Haneke, e "O profeta", de Jacques Audiard, e se tornou um dos filmes mais elogiados da temporada, com uma mistura perfeita de romance, drama e policial, além de uma atuação quase mágica de Ricardo Darín. Sua releitura hollywoodiana, porém, não teve a mesma sorte: recebida com frieza pela crítica, também falhou em conquistar o público, e, apesar da presença de Julia Roberts e Nicole Kidman (dois chamarizes fortes), mal conseguiu arrecadar 20 milhões de dólares no mercado doméstico (EUA e Canadá). De uma certa forma esse resultado foi até previsível.


Sua bilheteria tímida (leia-se fracasso monumental, em linguagem de Hollywood) deixou claro para todo mundo que nem sempre grandes estrelas são garantia de sucesso, especialmente quando elas não estão a função de uma franquia que pode caminhar por si mesma (caso dos filmes de super-heróis) ou em busca de um Oscar, com uma campanha milionária de marketing na retaguarda. Bancado por uma companhia independente, a IM Global (depois que a Warner abandonou o projeto a meio caminho) e dirigido por Billy Ray (um cineasta competente mas sem grandes êxitos comerciais no currículo), "Olhos da justiça" talvez tenha confiado demais no interesse do público por uma história já consagrada e no poder de fogo de seu elenco. Mais um exemplo de como refilmagens não são exatamente o caminho das pedras para o sucesso financeiro (raras vezes a ideia dá certo, como no caso de "A gaiola das loucas", dirigida por Mike Nichols em 1996), o filme de Ray amargou uma esnobada geral - e no fim das contas nem merecia tamanho descaso. Visto como um filme independente (o que é especialmente difícil, principalmente para os fãs do original), "Os olhos da justiça" até tem suas qualidades e pode ser digerido facilmente pelo público que procura um drama policial. Visto sem expectativas irreais, é uma produção competente - mesmo que tenha momentos que lembrem mais telefilmes do que grande cinema.


A principal mudança na estrutura da trama - em relação ao filme argentino - é a alteração do gênero de um dos personagens principais (e sua relação com os demais protagonistas). Enquanto na produção de Campanella a vítima do crime brutal que dá início à ação era uma jovem recém-casada cuja morte transforma a busca pelo culpado uma obsessão do marido, na versão americana quem morre é uma adolescente que vem a ser filha de uma investigadora policial, especializada em contra-terrorismo - uma mudança que também serve para definir de forma decisiva o tempo e o local da primeira parte do enredo, saindo da Argentina da ditadura militar dos anos 70 para a Los Angeles pós-11/9. Jess Cobb, a policial que sofre a traumática perda, é vivida por uma Julia Roberts despida de qualquer glamour e escondendo seu famoso sorriso - o personagem, masculino no livro de Eduardo Sacheri, no roteiro de Campanella e até no primeiro tratamento de Billy Ray, foi reescrito especialmente para ela, que se sai bastante bem apesar de dividir o foco da narrativa com o drama romântico que se desenrola a seu lado - este sim, bem menos potente do que aquele apresentado pelo material original.

No filme de Campanella, o romance entre os protagonistas interpretados por Ricardo Darín e Soledad Villamil é intenso, repleto de silêncios, olhares e uma química palpável, que conduz a trama com a mesma força do enredo policial. Em "Olhos da justiça" a mágica não se repete. Por mais talentosos que sejam, Nicole Kidman (substituindo Gwyneth Paltrow) e Chiwetel Ejiofor não conseguem reproduzir a tensão sexual entre seus personagens. Enquanto Kidman interpreta a promotora Claire Sloane, que se divide entre a carreira e sentimentos mais pessoais (a atração que sente pelo colega, o desejo de quebrar as regras para vingar a amiga), Ejiofor faz o possível para dar consistência a um personagem que o próprio roteiro não desenvolve a contento - o dedicado Ray Kasten, que passa dez anos preso a duas obsessões: encontrar o assassino da filha de Jess e conquistar o amor de Claire, por quem se apaixonou à primeira vista e a quem jamais esqueceu. As duas tramas paralelas (o romance e o policial) caminham juntas em uma edição repleta de flashbacks pouco inventivos e atuações em registro quase automático: com exceção de alguns momentos inspirados de Julia Roberts, o filme não chega a empolgar (e até a famosa sequência em um estádio de futebol, aqui devidamente alterado para beisebol, é muito mais intensa no filme original, ainda que Ray faça esforço para criar a tensão necessária). Um filme apenas mediano, "Olhos da justiça" se beneficia do elenco (ainda que não em dias excelentes), uma trama forte (ainda que diluída por mudanças um tanto desnecessárias e um final diferente) e pela produção bem cuidada. Serve como entretenimento, mas não passará ao status de cult de seu material original.

sábado

MELHORES AMIGOS

MELHORES AMIGOS (Little men, 2016, Charlie Guidance Productions, 85min) Direção: Ira Sachs. Roteiro: Ira Sachs, Mauricio Zacharias. Fotografia: Óscar Durán. Montagem: Mollie Goldstein, Affonso Gonçalves. Música: Dickon Hinchliffe. Figurino: Eden Miller. Direção de arte/cenários: Alexandra Schaller/Emily Deason. Produção executiva: Tom Dolby, Dom Genest, Matthew Helderman, Daniella Kahane, Lars Knudsen, David Kyle, Sophie Mas, Melissa Pinsly, Blythe Robertson, Lourenço Sant'Anna, Hugh Schulze, Luke Dylan Taylor, Rodrigo Teixeira, Jay Van Hoy, Franklin S. Zitter. Produção: Lucas Joaquin, Christos V. Konstantakopoulos, Jim Lande, Ira Sachs, L.A. Teodosio. Elenco: Greg Kinnear, Paulina García, Jennifer Ehle, Alfred Molina, Theo Taplitz, Michael Barbieri, Talia Balsam. Estreia: 25/01/16 (Festival de Sundance)

Em 2014, o cineasta Ira Sachs conquistou a crítica com "O amor é estranho", uma agridoce história de amor homossexual na terceira idade, estrelada por John Lithgow e Alfred Molina. Três anos depois, ele volta a falar de pessoas comuns em momentos extraordinários da vida em "Melhores amigos", indicado ao Independent Spirit Award de melhor roteiro e atriz coadjuvante. Ao contrário de seu filme anterior, porém, ele foca seu olhar em outra direção etária, ao examinar, com delicadeza e sensibilidade, o despertar da amizade entre dois pré-adolescentes que se descobrem no meio do fogo cruzado entre suas famílias, surgido por dificuldades financeiras e profissionais. Sem maiores lances dramáticos e com um tom discreto e minimalista, Sachs consegue contar uma história simples e humana centrando-se basicamente em personagens críveis e uma narrativa honesta, que jamais ambiciona ir além do que promete. Com dois promissores atores jovens nos papéis centrais e um elenco coadjuvante generoso, "Melhores amigos" é o tipo de filme capaz de encantar aos espectadores que procuram produções simples e emocionantes.

Tudo começa quando o pai de Brian Jardine (Greg Kinnear) morre e lhe deixa de herança um pequeno prédio no Brooklyn nova-iorquino. Não exatamente bem-sucedido na profissão de ator e vivendo de pequenas produções teatrais que não pagam o sustento da família - o que acaba sendo função da esposa, Kathy (Jennifer Ehle), uma psicoterapeuta tanto compreensiva quanto dedicada - o rapaz se muda para o novo bairro com a mulher e o filho pré-adolescente, Jake (Theo Taplitz), e não demora para se adaptar à nova vida, facilitada também com o apoio de Leonor Calvelli (Paulina García), inquilina do andar de baixo do prédio de seu pai e amiga do falecido. Dona de uma loja de roupas costuradas à mão e de origem latina, Leonor também tem um filho, Tony (Michael Barbieri), que imediatamente se torna amigo de Jake. Os dois jovens tem sonhos em comum - Jake quer ser artista plástico, Tony ambiciona ser ator - e passam a conviver como irmãos. Acontece que a vida adulta nem sempre reflete a inocência da juventude e problemas de dinheiro acabam por intrometer-se na relação entre as duas famílias. Pagando um aluguel irrisório graças à sua amizade com o proprietário, Leonor se vê repentinamente cobrada a pagar um preço muito maior por sua loja - afinal, Brian não apenas precisa de dinheiro como também se vê cobrado por sua irmã, que também tem direito ao valor do aluguel. Vendo tudo do lado de fora, os dois meninos tentam impedir que o conflito os atinja e à sua amizade.


Assim como já havia feito em "O amor é estranho", Ira Sachs utiliza como principal matéria-prima de seu filme o dia-a-dia de pessoas normais, lutando para manter uma vida digna e harmoniosa, mesmo que para isso seja preciso que se faça alguns sacrifícios ou que conflitos se façam inevitáveis. Sem marcar nenhum de seus personagens com definições fáceis ou maniqueístas, o roteiro flui com a delicadeza de uma crônica, valorizado pelos desempenhos ricos em nuances de Greg Kinnear e Paulina García. O primeiro mostra-se um ator cada vez mais engajado no universo do cinema independente - dentro do qual saiu um de seus maiores sucessos de bilheteria e crítica, o merecidamente incensado "Pequena Miss Sunshine" (2006) - e García, aplaudida mundialmente por seu trabalho em "Gloria" (2013), mais uma vez surpreende, com uma atuação rica em pequenos gestos e subtextos. Mesmo que boa parte do foco esteja nos meninos que tentam isentar-se da batalha travada pelos pais, são os adultos que refletem a dura realidade que os cerca e dão o peso necessário à narrativa e à trama, e os atores veteranos conquistam justamente por equilibrar com tanta destreza todos os desvãos da história sem apelar para o sentimentalismo ou a crueza pura e simples.

E, logicamente, é preciso louvar a escalação dos dois jovens atores que interpretam os melhores amigos do título nacional - ou os pequenos homens do batismo original. Se Theo Taplitz encontra o meio-tom ideal para seu Jake (um menino tímido e quase deslocado que encontra na arte e na amizade do novo vizinho um canal para desenvolver-se como adulto), é Michael Barbieri quem se destaca mais, na pele do corajoso e questionador Tony. Sem medo de contracenar com atores mais experientes e encarando de frente o desafio de liderar o elenco de um filme tão centrado em diálogos e cenas de emoções complexas, os dois iniciantes demonstram também uma química que se mostra imprescindível para o desenvolvimento da trama - e que conduz ao final melancólico e realista. Ainda não são grandes intérpretes, mas dão uma boa pista de que, bem dirigidos, podem se tornar nomes respeitados em um futuro breve. Seu primeiro filme, ao menos, aponta para esse caminho. "Melhores amigos" pode não surpreender ou ser inesquecível, mas é honesto e bem-intencionado.

quarta-feira

O FEITIÇO DE ÁQUILA

O FEITIÇO DE ÁQUILA (Ladyhawke, 1985, 20th Century Fox, 121min) Direção: Richard Donner. Roteiro: Edward Khmara, Michael Thomas, Tom Mankiewicz, estória de Edward Khmara. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Stuart Baird. Música: Andrew Powell. Figurino: Nanà Cecchi. Direção de arte/cenários: Wolf Kroeger. Produção executiva: Harvey Bernhard. Produção: Richard Donner, Lauren Schuller. Elenco: Rutger Hauer, Michelle Pfeiffer, Matthew Broderick, Leo McKern, John Wood, Alfred Molina. Estreia: 12/4/85

2 indicações ao Oscar: Som, Efeitos Sonoros

Quando Richard Donner resolveu assumir a batuta de "O feitiço de Áquila", fábula medieval com toques de romance, aventura e humor, ele já era um diretor conhecido e com no mínimo dois enormes sucessos comerciais no currículo, "A profecia" (76) e "Superman, o filme" (78). Cineasta competente, capaz de transitar com tranquilidade por vários gêneros - em 1987 começou a série "Máquina mortífera", que catapultou a carreira de Mel Gibson - Donner não viu nenhuma espécie de problema em comandar uma trama que pudesse exigir do espectador uma dose extra de boa-vontade, por fugir do tradicional esquema dos grandes estúdios e apostar na fantasia como principal ingrediente. Talvez devesse ter pensado melhor: seu filme acabou ignorado pelo público e desprezado pela crítica, arrecadando pouco mais de 18 milhões de dólares e lhe deixando em uma situação nada invejável, já que seu trabalho anterior, a comédia "O brinquedo" (82) - feito para capitalizar em cima da popularidade do ator Richard Pryor - também não havia sido exatamente um êxito financeiro. Foi somente com o tempo - esse fator tantas vezes cruel com a arte - que o público foi descobrindo as qualidades de seu filme, que tornou-se cult depois de seu lançamento em vídeo e de diversas apresentações na televisão. Hoje, "O feitiço de Áquila" é, sem dúvida, um dos filmes mais famosos de Donner - e um clássico dos anos 80.

Passada na Itália do século XIV, a trama de "O feitiço de Áquila" gira em torno do amor proibido e da maldição que envolve o Capitão Etienne Navarre (Rutger Hauer) e a bela Isabeau (Michelle Pfeiffer, deslumbrante e antes de virar estrela de primeira grandeza em Hollywood): por artes do invejoso e vil Bispo de Áquila (John Wood, em papel pensado para o roqueiro Mick Jagger), o par de amantes está condenado a jamais consumar seu romance de forma plena. Em um ato de vingança contra a rejeição de Isabeau, o Bispo fez um pacto com as trevas que transforma a jovem em um falcão durante o dia e o soldado em lobo durante a noite. Sempre juntos mas nunca em forma humana ao mesmo tempo, os dois tentam encontrar uma maneira de reverter a maldição: enquanto Navarre acredita que somente matando o Bispo com a espada de sua família isso pode acontecer, porém, um velho monge chamado Imperius (Leo McKern) - responsável por parte da tragédia - surge com uma alternativa, que só pode acontecer em uma data específica, quando um eclipse solar impedirá o sol de transformar Isabeau e pássaro. Para chegarem ao castelo, no entanto, eles irão precisar da ajuda de Phllipe Gaston, o Rato (Matthew Broderick), ladrão de galinhas que foi o único a conseguir escapar da masmorra do palácio.





Realizado antes que os efeitos digitais tomassem conta da indústria de cinema - o que fica bastante claro nas sequências em que os protagonistas sofrem suas metamorfoses - e com uma trilha sonora bastante inadequada de Andrew Powell, "O feitiço de Áquila" encontra redenção na verdade com que os atores se entregam à trama, oferecendo um tom de realismo a uma história cujo tom de fantasia é o principal elemento. Matthew Broderick é quem sai-se melhor, na pele do esperto Rato - uma espécie de ensaio para seu inesquecível Ferris Bueller de "Curtindo a vida adoidado" (86) - e é difícil imaginar que nomes tão díspares quanto Sean Penn e Dustin Hoffman tenham sito cotados para o papel. Aliás, o elenco parece tão coeso que soa estranho imaginar como seria se os atores inicialmente imaginados por Donner realmente tivessem assinado seus contratos: além de Penn e Hoffman, outros absurdos foram cogitados, como escalar Sean Connery para interpretar o galã - que, antes da decisão do diretor de escalar Hauer (ator holandês mais conhecido então por "Blade Runner, o caçador de androides" (82), estava nas mãos de Kurt Russell, que desistiu do filme poucos dias antes do começo das filmagens na Itália - em três castelos de propriedade da família do cineasta Luchino Visconti.


Para quem é fã de produções fantásticas, com histórias que equilibram romance e aventura, "O feitiço de Áquila", com todos os seus "defeitos" especiais, é uma pequena obra-prima. A fotografia do veterano Vittorio Storaro é deslumbrante e capta com perfeição o visual exuberante exigido pelo roteiro, que usa e abusa de todos os clichês do gênero sem soar reverente ou debochado. O respeito de Donner pelo material e a seriedade com que ele se dedica a criar um universo plausível mesmo diante de um enredo fantasioso é um dos grandes méritos do filme, que é valorizado também pelos atores e pelo ar de nostalgia que permite ao espectador deixar passar seus pecados nem tão imperceptíveis assim. Enfim, é uma sessão da tarde clássica, com tudo que isso tem de bom e de ruim.

sexta-feira

THE NORMAL HEART

THE NORMAL HEART (The normal heart, 2014, HBO Films, 132min ) Direção: Ryan Murphy. Roteiro: Larry Kramer, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Danny Moder. Montagem: Adam Penn. Música: Cliff Martinez. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Shane Valentino/Andrew Basemann, Amanda Carroll. Produção executiva: Jason Blum, Dante Di Loreto, Dede Gardner, Ryan Murphy, Brad Pitt. Produção: Scott Ferguson, Alexis Martin Woodall. Elenco: Mark Ruffalo, Julia Roberts, Matt Bomer, Taylor Kitsch, Jim Parsons, Alfred Molina, Jonathan Groff, Dennis O'Hare, BD Wong, Corey Stoll. Estreia: 25/5/14

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Coadjuvante em Minissérie ou Filme Para a TV (Matt Bomer)

Em 2014, Matthew McConaughey e Jared Leto levaram os Oscar de melhor ator e ator coadjuvante respectivamente por seus elogiados desempenhos em "Clube de Compras Dallas", um filme no máximo razoável que, graças à força de suas interpretações chegou a concorrer à cobiçada estatueta de melhor filme. Se tivesse tido a sorte de ter sido produzido para o cinema e não para a televisão - através da HBO - a adaptação da premiada peça teatral de Larry Kramer "The normal heart" poderia ter tido um destino ainda mais feliz. Dirigido por Ryan Murphy - criador de várias séries televisivas de sucesso, como "Glee" e "American Horror Story" - o filme, que estreou nos EUA poucos meses depois da cerimônia que consagrou Leto e McConaughey, compartilha com o filme de Jean-Marc Vallé (que também ganhou o Oscar de maquiagem) o mesmo tema - o início da epidemia da AIDS, no princípio da década de 80 - mas acaba se revelando muito mais satisfatório, tanto em termos emocionais quanto informativos. Com um excelente elenco liderado por Mark Ruffalo e Julia Roberts (casada com o diretor de fotografia do filme, Danny Moder), "The normal heart" segue a tradição de grandes obras sobre o tema, como "E a vida continua", "Meu querido companheiro" e "Angels in America", mas vai além deles ao ser o primeiro a explicitar sem medo a sexualidade de seus personagens centrais.

Baseado em personagens e histórias reais - alterados para efeito de maior liberdade dramática pelo autor Larry Kramer - "The normal heart" não tem medo de deixar bem claro ao espectador que seus protagonistas são gays com vida sexual ativa e despreocupada, ao contrário de obras criticadas pela comunidade homossexual (como "Filadélfia") em que os personagens transmitem a impressão de viver em quase celibato. A trama se concentra principalmente em Ned Weeks (Mark Ruffalo), escritor abertamente gay que se torna um determinado ativista na busca por informações e tratamentos para a então iniciante epidemia da AIDS nos EUA. Ainda chamada de "câncer gay" por médicos desconhecedores de detalhes sobre suas formas de transmissão e metabolismo, a doença chama a atenção da infectologista Emma Brookner (Julia Roberts), que se une a Weeks na tentativa de formar uma equipe de cidadãos interessados em ajudar novos pacientes. Cada vez mais apavorado com o crescente número de vítimas - boa parte deles seus conhecidos - o escritor incorre na ira do governo ao acusá-lo de ignorar os números e impedir o controle da doença. A seu lado, fica seu incansável namorado, o jornalista Felix Turner (Matt Bomer), a estoica médica (que precisa mover-se em uma cadeira de rodas em consequência de uma poliomielite) e alguns poucos amigos que relevam seus métodos raivosos de atacar as autoridades. Nem mesmo seu irmão mais velho, o influente advogado Ben (Alfred Molina) escapa de suas violentas acusações - e tudo fica ainda pior quando Felix se revela portador do vírus.


Começando sua história em 1981 e atravessando uma década inteira de desesperadoras tentativas do protagonista em se fazer ouvir ou acreditar - nem mesmo a própria comunidade gay aceitava suas ideias "absurdas" de diminuir a promiscuidade para evitar o contágio nos primeiros estágios da epidemia - o roteiro de Larry Kramer se equilibra com sucesso entre os dramas pessoais de Ned e Felix (um romance verossímil e que não prescinde de algumas tórridas cenas de amor) e sua exaustiva trajetória em direção à atenção da população em relação a uma das maiores epidemias da história da humanidade. Com uma edição precisa e uma trilha sonora acertada - nunca acima do tom, mas sempre presente quando necessária - "The normal heart" mostra um Ryan Murphy surpreendentemente sóbrio na condução da trama, sem os exageros habituais de suas séries e sem a insegurança que era o maior pecado de "Comer, rezar, amar", sua estreia no cinema. As cenas dramáticas surgem na hora certa e sem excessos, apenas como ilustração dramática de todo o trágico cenário que o roteiro desenha através dos acontecimentos e dos diálogos inteligentes que não hesitam em apontar o dedo para o governo norte-americano e a hipocrisia e o conservadorismo assassino do período Reagan. Assustador e por vezes revoltante, o filme também se beneficia da garra de seus atores.

Se Julia Roberts surge como um chamariz para o grande público - desprovida de glamour e de seu largo sorriso - é o elenco masculino quem acaba por destacar-se, em especial Mark Ruffalo e Matt Bomer, ambos premiados por suas interpretações. Ruffalo foi eleito o melhor ator de televisão no Satelitte Awards e Bomer levou pra casa um Golden Globe de melhor ator coadjuvante em minissérie ou filme televisivo, e fica difícil dizer qual dos dois está melhor em cena. Enquanto Ruffalo surpreende em uma atuação que equilibra fúria e delicadeza, Bomer se revela um ator de primeira linha ao dar vida a um homem que vê sua rotina radicalmente alterada por uma doença devastadora - sua transformação física é impressionante e, ao contrário do que acontece muitas vezes, trabalha a favor da profundidade de seu personagem, e não contra. É quase impossível segurar as lágrimas com seu desempenho - uma prova inconteste de sua imensa qualidade.

Tendo como um dos produtores executivos o ator Brad Pitt, e contando ainda no elenco com rostos conhecidos do público cativo da televisão, como Jim Parsons (de "Big Bang Theory"), Jonathan Groff (de "Looking"), Taylor Kitsch (da segunda temporada de "True detective") e Dennis O'Hare (de "American Horror Story"), "The normal heart" é um dos melhores filmes de 2014 - e pouco importa que não tenha sido feito diretamente para o cinema. No final das contas, isso é o que menos irá contar para todos que se permitirem um pouco de emoção real e honesta.

terça-feira

O AMOR É ESTRANHO

O AMOR É ESTRANHO (Love is strange, 2014, Parts and Labor, 94min) Direção: Ira Sachs. Roteiro: Ira Sachs, Mauricio Zacharias. Fotografia: Christos Voudouris. Montagem: Affonso Gonçalves, Michael Taylor. Figurino: Arjhun Basin. Direção de arte/cenários: Amy Williams/Kendall Anderson. Produção executiva: Ali Betil, Mayank Bhatter, Abraham Brown, Marcy Feller, Gabby Hanna, Christos V. Konstantakapoulos, Jim Lande, Sophie Mas, Elika Portnoy, Blythe Robertson, Lourenço Sant'Anna, Jim Stephens, Rodrigo Teixeira, L.A. Teodosio. Produção: Lucas Joaquin, Lars Knudsen, Ira Sachs, Jayne Baron Sherman, Jay Van Hoy. Elenco: Alfred Molina, John Lithgow, Marisa Tomei, Darren Burrows, Charlie Tahan, Cheynne Jackson, Christina Kirk, Manny Perez, Eric Tabach. Estreia: 18/01/14 (Festival de Sundance)

Com os direitos dos homossexuais a cada dia mais garantidos nos EUA, um pequeno fenômeno começou a tomar conta da dramaturgia norte-americana: filmes e seriados que voltam seu olhar para a terceira idade, uma parcela da população gay normalmente relegada a notas de rodapé do gênero. Na televisão, "Transparent" mostra a reação de uma família quando o patriarca assume seu lado crossdresser (homens que se vestem de mulher sem necessariamente sentir-se atraídos por outros homens) e "Grace & Frankie" (com Jane Fonda e Lily Tomlin) conta a história de duas mulheres de setenta anos que precisam lidar com o fato de seus maridos serem amantes há anos. No cinema, um belo exemplo da vertente é "O amor é estranho", uma produção independente que estreou no Festival de Sundance de 2014 e conquistou elogios calorosos da crítica apesar de ter passado quase em brancas nuvens nos cinemas ianques quando estreou pra valer, no segundo semestre. Lembrado por premiações relativamente importantes - o Independent Spirit Awards o indicou em quatro categorias e o Satellite Awards em duas - o filme de Ira Sachs merece ser descoberto por inúmeras razões, mas a principal delas é, sem dúvida, a escolha certeira dos protagonistas.

Dois atores geniais e subestimados, Alfred Molina e John Lithgow são os principais nomes do elenco escalado por Sachs. O primeiro interpreta George Garea, um professor de música adorado pelos alunos e admirado pela comunidade acadêmica. Lithgow vive Ben Hull, um pintor talentoso mas pouco valorizado pelo mercado nova-iorquino. Os dois vivem juntos e apaixonadamente há quase quarenta anos e finalmente decidem se casar, amparados pelos novos ares libeirais que lhes permite a oficialização do relacionamento. A felicidade, porém, dura pouco. George é demitido da escola católica onde lecionava (culpa dos rígidos princípios morais da instituição) e, sem conseguir manter o apartamento onde moravam, os dois são obrigados a viver separadamente até que a situação se ajeite. George vai morar com um casal de amigos policiais, Ted (Cheynne Jackson) e Roberto (Manny Perez), e Ben passa a dividir o quarto com o adolescente rebelde Joey (Charlie Tahan), filho de seu sobrinho Elliott (Darren Burrows) e da escritora Kate (Marisa Tomei). Mesmo com a boa-vontade dos anfitriões, porém, eles não conseguem deixar de sentir falta de sua antiga vida, especialmente quando Ben passa a desconfiar que sua presença na casa do sobrinho pode estar causando uma crise em seu casamento.


Emocionante sem ser piegas e com senso de humor sem apelar para piadas previsíveis ou bobas, o roteiro de "O amor é estranho" conquista o espectador por ser o mais perto possível da realidade. Seus personagens centrais não são galãs assépticos tampouco símbolos sexuais desejáveis. As pessoas que os rodeiam não são vilões cruéis nem exemplos de bondade e altruísmo. Seus problemas são verossímeis - aluguel excessivo, preconceito, idade avançada - e seus momentos de felicidade soam extremamente genuínos, como se fossem de pessoas da família. Os diálogos são frescos, diretos, de uma simplicidade comovente e inteligente. E a forma como Sachs - que tem no currículo outro filme de temática gay, chamado "Deixe a luze acesa", de 2012, mais pesado e menos simpático - conduz sua narrativa tem uma suavidade que cativa a audiência e permite que ela chegue às cenas finais torcendo por um final feliz mais que merecido. Em cenas românticas nunca exageradas ou caricatas, Lithgow e Molina vivem momentos especialíssimos na carreira, construindo personagens que poderiam facilmente cair na armadilha do exagero de forma sutil e discreta. Juntos, eles formam um casal contra o qual é impossível não torcer.

Um drama romântico leve, sensível e repleto de boas intenções, "O amor é estranho" brinda o espectador com uma história que emociona e faz refletir, que faz questionar a forma como a vida é vivida e a importância de cada momento. É um trabalho simples e eficiente, capaz de arrancar lágrimas e sorrisos com a mesma facilidade. Merece ser descoberto.

quinta-feira

ANTES E DEPOIS

ANTES E DEPOIS (Before and after, 1996, Caravan Pictures/Hollywood Pictures, 108min) Direção: Barbet Schroeder. Roteiro: Ted Tally, romance de Rosellen Brown. Fotografia: Luciano Tovoli. Montagem: Lee Percy. Música: Howard Shore. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Gretchen Rau. Produção executiva: Roger Birnbaum, Joe Roth. Produção: Susan Hoffman, Barbet Schroeder. Elenco: Meryl Streep, Liam Neeson, Edward Furlong, Julia Weldon, Alfred Molina, Daniel von Bargen, John Heard. Estreia: 23/02/96

Nem sempre é possível confiar plenamente nos créditos iniciais de um filme. É isso que prova o drama "Antes e depois", lançado sem muito alarde em 1996 - talvez porque nem mesmo seus produtores acreditassem que o filme pudesse angariar mais do que indiferença apesar de sua equipe. Na abertura do filme, baseado em um romance inédito no Brasil, desfilam nomes capazes de impressionar qualquer cinéfilo: Meryl Streep e Liam Neeson liderando o elenco, Ted Tally - oscarizado por "O silêncio dos inocentes" - no roteiro, e Barbet Schroeder - diretor indicado à estatueta da Academia por "O reverso da fortuna" - no comando de todos. Acontece que, apesar de tantos talentos individuais, o resultado final é pálido e quase apático. Um drama com elementos policiais que nem comove nem sustenta seu suspense. E que vale a pena somente pelo prazer que sempre é assistir a uma atuação de Streep.

Aliás, nem mesmo ela, com seu talento excepcional, consegue dar muita consistência à uma trama que começa instigante e vai se esvaziando no decorrer dos minutos. Mesmo levantando discussões interessantes - até onde você iria para proteger seus filhos? até que ponto a verdade é tão importante a ponto de comprometer um futuro? - o filme de Schroeder acaba resvalando na superficialidade, ficando na indecisão entre uma boa trama policial e um potente drama familiar. Enquanto sua primeira metade promete uma boa dose de adrenalina e tensão, a segunda cai na banalidade, quase na preguiça. Difícil é crer que um roteirista como Tally e um diretor como Schroeder tenham conseguido realizar um obra tão desprovida de personalidade. Com um visual de telefilme - e uma trama igualmente morna - "Antes e depois" até segura uma sessão descompromissada, mas fica devendo ao espectador tudo aquilo que promete em seu primeiro ato.


A trama começa mostrando a rotina diária de um casal da classe média de uma pequena cidade do interior americano. Lá, o artista plástico Ben Ryan (Liam Neeson) e a pediatra Carolyn (Meryl Streep) criaram os dois filhos como um exemplo para a comunidade. Tal perfeição é abruptamente destroçada quando uma jovem adolescente é encontrada morta - com sinais de uma violenta agressão - e o filho mais velho dos dois, Jacob (Edward Furlong), passa a ser considerado suspeito do crime: namorado da vítima, ele foi visto com ela pouco antes de sua morte e, não sendo o bastante, está desaparecido da cidade. Em pânico, Ben encontra manchas de sangue no carro do filho e destrói algumas pistas que podem levar à polícia até ele. Hostilizados pelos moradores, Ben e Carolyn ainda são obrigados a encarar um julgamento quando o rapaz retorna, trazendo com ele uma versão da história que pode ou não ser a verdadeira.

O maior problema de "Antes e depois" é justamente sua indecisão - ou mudança de foco na segunda metade, o que no final das contas dá no mesmo. Enquanto a primeira hora do filme mantém o interesse do espectador com as investigações do caso, provocando nele uma curiosidade natural, sua segunda metade não apenas destrói o suspense com uma sequência anticlimática que elucida o crime da maneira menos excitante possível como inicia um drama ao estilo "Você decide" que nem mesmo a presença de Alfred Molina como um advogado de sucesso consegue salvar. Quando Ben e Carolyn substituem seu primeiro conflito - a busca pelo filho e a dúvida acerca de sua inocência - pelo segundo - o que deve ser revelado à justiça - o filme perde seu encanto e seu ritmo (já pouco empolgante). Resta ao público apenas o trabalho sempre intenso de Meryl Streep e Liam Neeson - já que a Edward Furlong pouco cabe mais do que manter o olhar chapado e metido a perigoso que ele utilizou anteriormente em "Cemitério maldito 2". Poderia - e deveria - ser bem melhor.

quarta-feira

O CÓDIGO DA VINCI


O CÓDIGO DA VINCI (The Da Vinci Code, 2006, Columbia Pictures, 149min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Akiva Goldsman, romance de Dan Brown. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Dan Henley, Mike Hill. Música: Hans Zimmer. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Allan Cameron/Richard Roberts. Produção executiva: Dan Brown, Todd Hallowell. Produção: John Calley, Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Tom Hanks, Audrey Tautou, Jean Reno, Ian McKellen, Paul Bettany, Alfred Molina, Jurgen Prochnow. Estreia: 19/5/06

E alguém duvidava que o décimo-primeiro livro mais vendido do mundo (ao toque de 80 milhões de cópias contabilizadas) chegaria às telas de cinema? É claro que não. A grande questão, respondida na abertura do Festival de Cannes de 2006 era bem outra: conseguiria o roteiro do oscarizado Akiva Goldsman fazer justiça ao romance do americano Dan Brown e repetir junto aos ávidos frequentadores de cinema o interesse do livro? Afinal de contas, o que fazia do thriller de Brown um produto acima da média em termos de literatura de ficção era justamente a mistura bem azeitada entre suspense, história, arte e religião que fazia com que os consumidores simplesmente devorassem a obra vorazmente. Porém, esse equilíbrio, que consistia em páginas e mais páginas de explanações sobre segredos do Vaticano divididos com momentos de ação e mistério e funcionava à perfeição nas páginas, tropeça nas telas. A versão para o cinema de "O código Da Vinci" é tecnicamente perfeita, mas não cumpre tudo que promete.

Tudo começa já na escolha do ator principal. Por mais talentoso que seja, Tom Hanks talvez não seja a opção mais adequada para viver Robert Langdon, o simbologista que é jogado de uma hora pra outra em uma arriscada aventura que põe sua própria vida em jogo: a apatia do ator é perceptível em cada cena, tirando muito do entusiasmo que a trama poderia suscitar e nem mesmo as inspiradas atuações de Ian McKellen, Paul Bettany e Jean Reno conseguem apagar a má impressão. Somado a um roteiro que para a ação em momentos cruciais para a inserção de longos monólogos explicativos - fato que não chega a ser exatamente culpa de Goldsman, uma vez que tais cenas são imprescindíveis para a compreensão da história - o trabalho quase medíocre de Hanks tira muito o brilho do filme.



Filmado com locações dentro do Museu do Louvre, em Paris - onde a trama tem início de forma violenta - "O código Da Vinci" é uma produção caprichada, como se espera de um filme com o orçamento gigantesco de 125 milhões de dólares. Fotografado e editado com cuidado e precisão, ele não consegue, no entanto, deixar a impressão de que é mais longo do que seus demorados 149 minutos de duração. Enquanto o livro passava rapidamente diante dos olhos dos leitores, que viravam suas páginas enlouquecidamente para saber o que viria a seguir, a versão live-action dirigida quase no piloto automático por Ron Howard (vindo do Oscar por "Uma mente brilhante") nunca chega a empolgar, conduzindo o público a uma intriga bastante interessante revelada de forma preguiçosa. É surpreendente que um roteirista tarimbado como Akiva Goldsman não saiba transformar o livro em um produto cinematográfico adequado, ficando preso em demasia à sua estrutura em detrimento a dotá-lo de um ritmo próprio.

Por outro lado, nem tudo são pedras. Quem não leu o romance de Dan Brown - cuja continuação "Anjos e demônios", que se passa antes deste também virou filme nas mãos da mesma equipe - provavelmente irá se surpreender com a história criada pelo escritor, que causou polêmica junto à Igreja católica graças às teorias que levantou. Segundo o livro, o artista plástico Leonardo Da Vinci deixou, escondidas em suas obras, inúmeras pistas relativas a um ancestral segredo que diz respeito à linhagem sagrada de Jesus Cristo e Maria Madalena. São essas pistas que levam o simbologista vivido por Hanks - em papel disputado quase a tapa pelos maiores astros de Hollywood - a correr atrás do assassino de um velho amigo, assassinado no Museu do Louvre e que lhe deixou mensagens criptografadas. Ao lado da neta da vítima, Sophie Neveu (Audrey Tautou), ele parte em busca de respostas a questões que nem sabia existir e encontra pelo caminho o assustador monge Silas (Paul Bettany).

É inegável que a história engendrada por Dan Brown é inteligente, intrigante e bastante relevante. Mas é visível também que sua adaptação para o cinema não chegou nem perto de suas imensas possibilidades. Mesmo assim, é acima da média no gênero e, assistido com paciência e boa vontade, pode render uma bela sessão, principalmente pela história e pelas atuações de Ian McKellen e Paul Bettany.

EDUCAÇÃO


EDUCAÇÃO (An education, 2009, BBC Films, 100min) Direção: Lone Scherfig. Roteiro: Nick Hornby, livro de Lynn Barber. Fotografia: John de Borman. Montagem: Barney Pilling. Música: Paul Englishby. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Anna Lynch Robinson. Produção executiva: Douglas E. Hansen, Nick Hornby, Wendy Japhet, Jamie Laurenson, James D. Stern, David M. Thompson. Produção: Fiona Dwyer, Amanda Posey. Elenco: Carey Mulligan, Peter Sarsgaard, Alfred Molina, Cara Seymour, Dominic Cooper, Olivia Williams, Rosamund Pike, Emma Thompson. Estreia: 18/01/09 (Sundance)

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Carey Mulligan), Roteiro Adaptado

Existem inúmeras maneiras de um filme conquistar seu público. Astros com cachês milionários, efeitos visuais de ponta, orçamentos estratosféricos, campanhas de marketing enlouquecedoras... Mas nada disso é suficiente se falta o essencial: gente. Pessoas, com sentimentos dúbios e por essa razão mesmo verdadeiros são ainda o principal motivo que faz com que duas horas no escurinho do cinema não sejam apenas 120 minutos de uma vida jogados fora. E é justamente esse senso de "humanismo" que gera filmes como "Educação", que, mesmo sem nenhum dos ingredientes citados acima conquistou seu lugar ao sol em várias listas de melhores filmes de 2009. Glória suprema? Indicações ao Oscar de melhor filme, melhor atriz (Carey Mulligan) e roteiro adaptado (trabalho a cargo do escritor Nick Hornby). Merecia mais.


"Educação" é baseado no livro de memórias de Lynn Barber e se passa na Inglaterra do início dos anos 60, tempo do existencialismo francês e da explosão do jazz. A protagonista é Jenny Mellor (vivida por uma Carey Mulligan impecável), uma adolescente de 16 anos, filha única, extremamente cobrada pelos pais (Alfred Molina e Cara Seymour), que a querem vê-la estudando em Oxford, como maneira de melhorar de vida. Seus objetivos, no entanto, começam a sofrer alterações quando ela conhece David Goldman (Peter Sarsgaard), um homem duas décadas mais velho, que, sedutoramente, a apresenta a um mundo totalmente novo. Ao lado dele e de um casal de amigos da mesma idade, Jenny passa a frequentar clubes noturnos, concertos de jazz, leilões de arte e até mesmo conhecer a Paris de seus sonhos. A princípio contra a vontade de seus pais e posteriormente incentivada por eles, a jovem inicia seu próprio processo de educação, chegando a questionar a formação acadêmica da escola onde estuda (e batendo de frente com algumas professoras, vividas pelas ótimas Olivia Williams e Emma Thompson).


Contar mais sobre "Educação" é tirar o grande prazer que é surpreender-se com sua elegância, sua classe, seu humor sutil e britânico, pontuado por uma cálida trilha sonora e uma reconstituição de época acima de qualquer crítica. A história de amor entre Jenny e David se desenrola em seu próprio ritmo, imposto pelas convenções sociais do período e pela decisão da protagonista em manter sua pureza até os 17 anos. É uma história sem maiores sobressaltos (com exceção do último e chocante) contada com delicadeza pela estreante Lone Scherfing e interpretada com talento de gente grande por Carey Mulligan (que merecia bem mais o Oscar do que a vencedora Sandra Bullock). Ao lado de veteranos das telas, a jovem Carey irradia frescor, inteligência e abre seu caminho para futuros e maiores voos.

terça-feira

HOMEM-ARANHA 2


HOMEM-ARANHA 2 (Spider Man 2, 2004, Columbia Pictures/Marvel Entertainment, 127min) Direção: Sam Raimi. Roteiro: Alvin Sargent, história de Alfred Gough, Miles Millar, Michael Chabon, personagens criados por Stan Lee, Steve Ditko. Fotografia: Bill Pope. Montagem: Bob Murawski. Música: Danny Elfman. Figurino: James Acheson, Gary Jones. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Jay Hart. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo, Kevin Feige, Stan Lee. Produção: Avi Arad, Laura Ziskin. Elenco: Tobey Maguire, Kirsten Dunst, James Franco, Alfred Molina, Rosemary Harris, J. K. Simmons, Dylan Baker. Estreia: 30/6/04

3 indicações ao Oscar: Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais

Uma das maiores dúvidas quanto a “Homem-aranha 2” era se a sequência do mais bem-sucedido filme baseado em personagens de quadrinhos daria continuidade ao sucesso do primeiro capítulo. Depois da estreia, no entanto, essa dúvida não mais existia. A segunda parte das aventuras do jovem Peter Parker (mais uma vez vivido por Tobey Maguire, no papel de sua carreira) não só rendeu mais dinheiro como ainda por cima empolgou muito mais a crítica e os fãs. Não é pra menos: se no filme de 2002 o diretor Sam Raimi não errou a mão em apresentar suas personagens dessa vez ele caprichou mais em tudo. Das cenas de ação – com efeitos especiais mais bem elaborados – aos diálogos, mais engraçados e verdadeiros, tudo funciona ainda melhor em “Homem-aranha 2”.
    
Quando o segundo filme começa já faz algum tempo que Peter Parker abdicou do amor de sua vida, a bela Mary Jane (Kirsten Dunst), que está dando os primeiros passos em uma vitoriosa carreira de atriz da Broadway. Ainda escondendo de todos que é o Homem-aranha, ele tem que lidar com seus problemas mundanos – aluguel atrasado, sub-emprego, a falta de Mary Jane, a obsessão de seu melhor amigo Harry (James Franco) em descobrir quem matou seu pai – enquanto tenta manter a cidade longe da criminalidade. As coisas se complicam quando um talentoso cientista (Alfred Molina) mais uma vez erra em seus cálculos e transforma-se no temível Dr. Octopus, ameaçando Nova York com uma nova onda de crimes. Cansado e estressado, Parker desiste de seu alter-ego, com a intenção de viver uma vida normal e reconquistar a amada. Mas como ele bem sabe, grandes poderes trazem grandes responsabilidades e ele se vê obrigado a voltar a seu lado heróico.

        

Uma perfeita tradução de quadrinhos para as telas de cinema, “Homem-aranha 2” não decepciona em nenhum quesito, dando espaço exato para as piadas – que funcionam à perfeição, desde as mais simples até as feitas sob encomenda para os aficionados – para as cenas dramáticas e principalmente para as cenas de ação. Nada nesse segundo filme é dispensável, empurrando a história para um terceiro capítulo e amadurecendo suas personagens, obrigadas que são a lidar com suas dúvidas e certezas. Muito mais do que se pode esperar de um programa sem maiores objetivos que não divertir sua plateia, que agradeceu lotando as salas de cinema por semanas a fio - para alívio dos produtores, ansiosos em recuperar os exagerados 200 milhões de dólares gastos.

Empatando com "Titanic" como o mais caro filme feito até então - "King Kong", de Peter Jackson, lhes tirou essa duvidosa honra - "Homem-aranha 2" gastou cerca de 54 milhões de dólares somente em efeitos visuais, mas a despesa valeu a pena, não apenas pelo Oscar da categoria: no primeiro filme os efeitos ainda deixavam a desejar, enquanto aqui tudo parece (e é!) muito mais cuidado e mais caro. Felizmente Sam Raimi não deixou que o visual relegasse a trama a um segundo plano e os dilemas pessoais das personagens são explorados a contento, fazendo desse segundo capítulo das aventuras do aracnídeo uma empolgante aventura para ver e rever.

MINHA VIDA SEM MIM

MINHA VIDA SEM MIM (My life without me, 2003, El Deseo S/A, 106min) Direção: Isabel Coixet. Roteiro: Isabel Coixet, romance "Pretending the bed is a raft", de Nanci Kincaid. Fotografia: Jean-Claude Larrieu. Montagem: Lisa Robison. Música: Alfonso Vilallonga. Figurino: Katia Stano. Direção de arte/cenários: Carol Lavallee/Shelley Bolton. Produção executiva: Agustin Almodovar, Pedro Almodovar, Ogden Gavanski. Produção: Esther García, Gordon McLennan. Elenco: Sarah Polley, Scott Speedman, Mark Ruffalo, Amanda Plummer, Maria de Medeiros, Alfred Molina, Leonor Watling, Deborah Harry. Estreia: 10/02/03 (Festival de Berlim)

Se você fosse uma jovem de 23 anos com um sub-emprego, um marido amoroso mas sem maiores ambições, duas filhas pequenas, morasse em um trailer e descobrisse que tem uma doença que a matará em poucos meses, o que você faria? Contar à família e aproveitar os últimos momentos com as pessoas que ama? Entregar-se ao destino com uma boa dose de auto-indulgência? Não se seu nome for Ann e você for a protagonista de “Minha vida sem mim”, belo drama dirigido pela espanhola Isabel Coixet e produzido pela El Deseo, dos irmãos Almodovar. Vivida por Sarah Polley, a personagem central do filme, baseado em um conto de Nanci Kincaid não apenas esconde sua doença da famíllia como decide resolver as vidas das pessoas a sua volta antes do fim da sua própria. No meio do caminho, claro, também tem como objetivos experimentar o que nunca teve a oportunidade de viver.

Além de fravar fitas para serem entregues a suas filhas até que completem 18 anos, Ann ainda quer reencontrar o pai presidiário (Alfred Molina em participação pequena mas importante), resolver seu problemático relacionamento com a mãe (a ótima Deborah Harris, vocalista da banda oitentista Blonde), consertar a autoestima de sua colega de trabalho (Amanda Plummer fantástica) e arrumar uma subsituta para as filhas e o marido, o esforçado Don (Scott Speedman) - tarefa que lhe parece simples quando conhece a enfermeira que vai morar ao lado de seu trailer (Leonor Watling, de "Fale com ela", dona de uma cena avassaladora). No meio tempo em que vai trabalhando para alcançar seus objetivos, ela se envolve com o romântico Lee (Mark Ruffalo, em um trabalho doce e delicado), mesmo sabendo que seu caso de amor tem data marcada para acabar.

 

Se “Minha vida sem mim” foge do padrão lacrimoso dos filmes sobre doença deve muito à direção segura e criativa de Isabel Coixet. Ao intercalar cenas do mais absoluto nonsense em meio a outras de partir o coração, Coixet dá tempo ao espectador para que ele se recupere das lágrimas enquanto se envolve e entende os sentimentos da protagonista, que teve a juventude interrompida por um casamento precoce e a criação de uma família feliz mas longe da idealizada. Nem mesmo o seu questionável romance extra-conjugal consegue atrapalhar a empatia do público, principalmente porque a atuação sensível da canadense Sarah Polley - revelando-se uma atriz de grande alcance – torna seus atos aceitáveis e compreensíveis.

Não dá para fugir das inevitáveis lágrimas ao final de "Minha vida sem mim". Mas ao menos elas são provocadas por sentimentos realmente humanos e viscerais, sem o apelo de uma trilha sonora exagerada ou um roteiro forçado. O choro que o filme de Isabel Coixet desperta é devido à beleza da história e de suas personagens, tão reais quanto a vida. 

IDENTIDADE

IDENTIDADE (Identity, 2003, Columbia Pictures, 90min) Direção: James Mangold. Roteiro: Michael Cooney. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: David Brenner. Música: Alan Silvestri. Figurino: Ariane Phillips. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Cindy Carr. Produção executiva: Stuart Besser. Produção: Cathy Konrad. Elenco: John Cusack, Ray Liotta, Amanda Peet, Rebecca de Mornay, John Hawkes, Alfred Molina, Clea DuVall, John C. McGinley, William Lee Scott, Jake Busey. Estreia: 25/4/03

Como fazer para transformar o que potencialmente seria mais um filme de terror ao estilo da série “Pânico”, em que pessoas morrem violentamente atacadas por um assassino misterioso, em um produto com alcance mais amplo – ou seja, um público acima de 16 anos, que normalmente lota esse tipo de produção? A resposta parece vir em “Identidade”, que, a mortes bem encenadas e um clima de puro suspense, acrescenta um elenco interessante e um roteiro que foge das resoluções fáceis que são o tiro de misericórdia do gênero.

As escolhas não óbvias de “Identidade” já começam pela escalação de seus atores. Liderando uma equipe de bons atores – ao contrário do pastiches de terror recheado de adolescentes sarados e sem conteúdo dramático – está o sempre confiável John Cusack. Na pele de Edward, o chofer de Caroline Suzanne (Rebecca de Mornay, em uma atuação auto-paródica), uma atriz decadente atrás de um novo sucesso, ele mantém a discrição, deixando que a trama, forte e assutadora o bastante, seja o principal elemento de atenção do filme. No roteiro bem orquestrado de Michael Cooney, ele e sua patroa são obrigados a parar em um hotel de beira de estrada durante uma tempestade que não arrefece. No hotel, eles travam conhecimento com um grupo de pessoas bastante diferentes em si: estão lá um jovem casal recém-casado, Giny e Louis (Cléa Duvall e William Lee Scott), a prostituta Paris (Amanda Peet), o gerente falastrão Larry (John Hawkes), um policial escoltando um criminoso (Ray Liotta e Gary Busey) e uma família cuja mãe está ferida devido a um acidente automobilístico na estrada (John C. McGinley, Leila Kenzle e o garoto Bret Loher). Presos no hotel por causa do mau tempo, eles começam a morrer misteriosamente, enquanto passam a descobrir que na verdade podem não estar ali reunidos por coincidência.

 

A atmosfera de “Identidade”, que busca surpreender a plateia não com mortes criativas e sim com viradas realmente empolgantes, é em boa parte cortesia de um visual úmido criado com cuidado pelo diretor James Mangold, que a julgar por seu currículo – ele dirigiu também o drama “Garota, interrompida” e o romance “Kate & Leopold” – transita facilmente entre os mais variados gêneros. E a criação de uma misteriosa trama paralela – onde um assassino condenado à morte (vivido pelo sempre assustador Pruitt Taylor Vince) tenta provar sua insanidade para escapar da execução – apenas soma ainda mais à tensão já existente, uma vez que tentar adivinhar como essa história aparentemente desconexa tem ligação à principal é outro exercício a que a complexa narrativa obriga a plateia, que chega aos créditos finais agradecida por ter sido tratada com um mínimo de inteligência sem que os padrões estéticos do gênero tenham sido agredidos.

Aliás, o respeito com que Mangold trata o gênero suspense é uma das maiores qualidades de "Identidade". Mesmo que seja mais inteligente do que a média, o filme não tem medo de abusar dos clichês, mas sempre tratando-os com cuidado e prendendo a atenção do público. Se a presença de John Cusack no elenco pode sugerir que ele é o herói da trama (o que não é exatamente verdade, uma vez que não há personagens 100% puros na história), o roteiro consegue surpreender com uma reviravolta bastante surpreendente (e que dá espaço para um final impactante mas um tanto forçado). Em "Identidade" nada é exatamente o que parece. E isso é que faz dele um produto capaz de agradar aos fãs do gênero e a quem gosta de um bom entretenimento.

quinta-feira

MAGNÓLIA

MAGNÓLIA (Magnolia, 1999, New Line Cinema, 188min) Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Música: Jon Brion. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: William Arnold, Mark Bridges/Chris Spellman. Produção executiva: Michael De Luca, Lynn Harris. Produção: Paul Thomas Anderson, JoAnne Sellar. Elenco: Jason Robards, Julianne Moore, Philip Seymour Hoffman, Tom Cruise, John C. Reilly, Melora Walters, William H. Macy, Philip Baker Hall, Melinda Dillon, Alfred Molina, Luiz Guszman, Jeremy Blackman. Estreia: 17/12/99

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Tom Cruise), Roteiro Original, Canção Original ("Save me")
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Tom Cruise)

Quando trata-se de cinema, normalmente o adjetivo "épico" vem acompanhado de cenários grandiosos, fotografia esplendorosa cobrindo vastas paisagens, uma trilha sonora grandiloqunte e personagens heroicos lutando por causas nobres e altruístas em espetáculos longos de ritmo alucinante. Por isso não deixa de ser um choque assistir-se à "Magnólia", de Paul Thomas Anderson, descrito por seu criador como um "épico sobre pessoas comuns". Épico? Os cenários são apartamentos à meia-luz, auditórios de programas de TV, bares frequentados por perdedores. A fotografia é sutil, discreta, tenuamente iluminada. A trilha sonora é composta por canções que falam de dor, rejeição e insegurança interpretadas por uma cantora folk de voz delicada. E as personagens podem ser consideradas quaisquer coisas, menos nobres e altruístas, porque lutam pela própria felicidade e contra a solidão e o arrependimento. Excetuando-se a longa duração (quase três horas), nada em "Magnólia" corresponde ao conceito de "filme épico". E talvez justamente por isso, por essa distorção, o trabalho de Anderson seja um dos melhores filmes da década de 90.
Anderson, também diretor do ótimo “Boogie nights, prazer sem limites” não tem medo de ousar em sua nova obra. Nada em “Magnólia” acontece da maneira que acontece em outros filmes e sim da maneira como ocorre na vida real. A história de amor contada no decorrer de sua duração - entre o policial  Jim (John C. Reilly) e a viciada em cocaína Claudia (Melora Walters, a grande revelação do filme) -  não ocorre entre dois exemplos de beleza em busca de uma felicidade de comercial de margarina e sim entre duas pessoas adultas e inseguras, com um belo histórico de problemas e personalidades conflitantes de verdade. Donnie Smith, o gênio mirim do passado (o ótimo William H. Macy) não quer ganhar dinheiro para viajar para Aspen e sim para colocar um aparelho nos dentes e assim conquistar a atenção e quem sabe o amor de um garçom mais jovem e atraente. Stanley Spector (Jeremy Blackman), o gênio mirim do presente, quer conquistar o amor do ambicioso pai e ter o direito de ir ao banheiro no momento em que precisar. O empresário moribundo Earl Partridge (o veterano Jason Robards em seu último e grande trabalho) não quer morrer em paz e sim obter o perdão do filho que abandonou, o guru de autoajuda sexual Frank T. Mackey(Tom Cruise em seu melhor trabalho, indicado ao Oscar de ator coadjuvante) e sua mulher, Linda (Julianne Moore nunca aquém de espetacular), que casou-se com ele por dinheiro, descobre, na iminência de sua morte, que o ama de verdade.



Cada cena em “Magnólia” surpreende por sua capacidade de emocionar sem apelar para o trivial e em buscar sempre a solução menos convencional, fato que fica evidente em seu clímax – uma chuva de sapos aparentemente sem qualquer explicação racional – e em uma das cenas mais comentadas de seu tempo – uma bela seqüência onde todos os personagens entoam a bela “Wise up”, da cantora Aimée Mann. A edição ágil de Dylan Tichenor colabora com a intenção do diretor em demonstrar o estado de excitação e angústia de seu grande número de personagens, todos envolvidos em momentos de total e dolorida verdade, seja ela o reencontro com um pai cuja imagem nunca foi positiva ou a revelação de um passado pouco agradável.

Contando com um elenco impecável (onde até mesmo Tom Cruise se sai bem, apesar da personagem irritante) e com uma trilha sonora que dificilmente pode ser excluída do rol de personagens devido à sua importância capital no desenrolar das cenas - mais do que simplesmente comentá-las, a trilha surge quase como uma espécie de consciência - "Magnólia" talvez seja o melhor exemplo de como um filme pode ser denso sem ser petulante e triste sem ser piegas. Envolvente desde sua fascinante sequência de abertura, é também a prova viva de quem nem sempre a palavra "épico" precisa estar necessariamente ligada a vastas paisagens (ainda que a alma humana muitas vezes seja tão seca e árida quanto o maior deserto).

segunda-feira

BOOGIE NIGHTS, PRAZER SEM LIMITES

BOOGIE NIGHTS, PRAZER SEM LIMITES (Boogie nights, 1997, New Line Cinema, 155min) Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Música: Michael Penn. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: Bob Ziembicki/Sandy Struth. Produção executiva: Lawrence Gordon. Produção: Paul Thomas Anderson, Lloyd Levin, John Lyons, Joanne Sellar. Elenco: Mark Wahlberg, Burt Reynolds, Julianne Moore, John C. Reilly, Heather Graham, Phillip Seymour Hoffman, William H. Macy, Don Cheadle, Joanna Gleason, Thomas Jane, Alfred Molina, Luis Guzman, Melora Walters, Philip Baker Hall. Estreia: 10/10/97

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Burt Reynolds), Atriz Coadjuvante (Julianne Moore), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Burt Reynolds)

Em 1988 um ainda adolescente Paul Thomas Anderson escreveu e dirigiu um falso documentário em curta-metragem chamado "The Dirk Diggler story", que narrava a ascensão e a queda de um ator pornô. Menos de dez anos depois, Anderson já era um cineasta - seu primeiro filme "Jogada de risco" havia sido lançado em ... - mas a história de seu curta ainda martelava em sua cabeça. Assim, com um orçamento um pouco mais generoso (mas ainda irrisório em comparação com outras produções da época) ele dirigiu seu segundo longa, que expandia - e muito - a história de Diggler. "Boogie Nights, prazer sem limites" acabou deslumbrando a crítica especializada e mostrou que Anderson era um cineasta já pronto antes mesmo dos 30 anos de idade.

A história começa em 1977, quando o adolescente Eddie Adams (Mark Wahlberg) é convidado pelo diretor de filmes "para adultos" Jack Horner (Burt Reynolds) a juntar-se à sua já consagrada equipe. Trabalhando como auxiliar de cozinha de uma casa noturna e em constante atrito com a família, Eddie identifica na relação de Horner e seus empregados um núcleo familiar mais saudável do que o seu e, com a ambição de ficar rico e famoso, assume o nome de Dirk Diggler e torna-se o maior astro pornô da época. Dotado de um instrumento de trabalho invejável, ele ganha todos os prêmios da indústria, cria personagens históricos e se envolve no mundo das drogas, iniciando então uma decadência física e moral.

Utilizando a meteórica ascensão de Diggler, o diretor/roteirista/produtor Anderson faz um inventário de uma das épocas mais queridas do imaginário americano e mundial. Os anos 70, com seus excessos, glamour e liberdade sexual, é uma personagem a mais na trama de "Boogie nights", tendo papel de fundamental importância para o desenvolvimento do roteiro - cujas 300 páginas iniciais foram diminuídas para 180 no produto final. A trilha sonora escolhida pelo diretor, por exemplo, jamais chama a atenção para si: é orgânica, parte essencial da narrativa, como um papel de parede (ou um dos pôsters do quarto do jovem Eddie). Da mesma forma, a direção de arte kitsch e o figurino espalhafatoso ajudam a contar a história, situando cada momento de forma inconfundível. É brilhante a maneira com que todos os elementos de "Boogie nights" estão absolutamente conectados, como peças interdependentes que se unem para formar um painel gigante. E para isso, além do visual, Paul Thomas Anderson conta com um elenco de causar inveja a Quentin Tarantino.



Assim como na filmografia de Tarantino, não há, em "Boogie nights", um protagonista absoluto. Ainda que Dirk Diggler seja o objeto da trama e seu catalisador, a narrativa do filme se estende além de sua trajetória. Anderson é um roteirista inspirado e inteligente, que dá a seus coadjuvantes histórias próprias que os elevam acima da condição de meras escadas. Julianne Moore está em uma de suas melhores atuações como Amber Waves, a estrela da companhia de Jack Horner, uma mulher madura, delicada e intensa que luta pela guarda do filho pequeno ao mesmo tempo em que, em sua vida paralela, pratique cenas de sexo explícito e consuma quilos e mais quilos de cocaína. Burt Reynolds - no papel de sua vida - dá a Jack Horner um intenso senso de desejo artístico (sua personagem quer mais do que simplesmente ganhar dinheiro com cinema pornô, ele quer ser reconhecido como um artista...) Heather Graham faz de sua Rollergirl (papel recusado por Gwyneth Paltrow) uma jovem tentando encontrar seu caminho na vida e até mesmo o produtor dos filmes de Horner, Coronel James, do alto de sua pedofilia, é capaz de despertar uma certa compaixão no espectador. Esse talento de Anderson em dar uma aura humana a qualquer personagem faz de "Boogie nights" um dos melhores dramas intimistas da década de 90 (a despeito de não ser tratado como tal). Melhor que ele, somente "Magnólia", lançado dois anos depois e também assinado por ele.

Mas falar de "Boogie nights" sem falar de seu tema central seria absurdo. Mesmo que suas personagens secundárias sejam tão interessantes quanto a trama principal, é sobre a indústria pornô dos anos 70 que versa "Boogie nights". A era disco - retratada de maneira carinhosa mas ainda assim com um certo ar de decadência depressiva - é a espinha dorsal do filme, o cenário sobre o qual se desenvolvem todos os dramas criados por Anderson: a entrega de Dirk às drogas, a luta de Amber pelo filho, a tragédia envolvendo Little Bill (William H. Macy) - que mata a mulher adúltera em plena festa de Reveillon - e a substituição do filme por videotape no início da década de 90 são narrados com maestria por um jovem cineasta no auge de sua energia. A primeira cena - um plano-sequência de cerca de 3 minutos que apresenta as principais personagens em um clube noturno - já demonstra, de cara, que Paul Thomas Anderson não é um cineasta qualquer.

E boa parte da energia que "Boogie nights" transmite ao espectador se deve à presença de Mark Wahlberg. Desacreditado como ator e vindo de uma carreira como modelo de cuecas Calvin Klein e como o rapper Marky Mark, o quase estreante ficou com o papel oferecido a Leonardo DiCaprio e não poderia ter se saído melhor. Não é um grande ator, mas tem uma presença cênica forte o bastante para jamais comprometer - além de ter uma estampa bagaceira que casa perfeitamente com o protagonista que interpreta. É ele o rosto (e o corpo) de "Boogie nights" e, se o filme é tão bom muito da responsabilidade é de sua entrega ao papel e da direção nervosa de Paul Thomas Anderson.

"Boogie nights" é um dos melhores filmes dos anos 90 e ponto final. É forte, é audacioso, é inteligente e tem um senso de humor dos mais macabros. Obra de gênio!

quinta-feira

MAVERICK


MAVERICK (Maverick, 1994, Warner Bros/Icon Entertainment, 127min) Direção: Richard Donner. Roteiro: William Goldman, personagens criados por Roy Huggins. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Stuart Baird, Mike Kelly. Música: Thomas Newman. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Tom Sanders/Lisa Dean. Produção: Bruce Davey, Richard Donner. Elenco: Mel Gibson, Jodie Foster, James Garner, Alfred Molina, James Coburn, Graham Greene, Dan Hedaya. Estreia: 20/5/94

Indicado ao Oscar de Figurino

"Maverick", dirigido pelo mesmo Richard Donner da série "Máquina mortífera" se beneficiou de duas tendências comerciais que estavam em voga no início dos anos 90: os faroestes e as adaptações de séries de TV para o cinema. Tanto "Os imperdoáveis" - western de Clint Eastwood - e "O fugitivo" - estrelado por Harrison Ford - haviam sido grandes sucessos de bilheteria e o primeiro chegou a faturar o Oscar de melhor filme. Aproveitando a onda, Donner juntou-se ao amigo Mel Gibson e correu pro abraço. Com uma renda de mais de 100 milhões de dólares somente no mercado americano, "Maverick"  fechou as contas com um belo saldo, e de quebra, apesar de não ter chegado nem perto das cerimônias de premiação, parece ter divertido tanto o elenco quanto a plateia.

Criado por Roy Huggins na década de 50 e interpretado na TV por James Garner, Bret Maverick chegou às telas na pele de Mel Gibson, em vias de tornar-se um diretor respeitado e oscarizado pelo épico "Coração valente". No roteiro de William Goldman - que ecoa, guardadas as devidas proporções, seu trabalho em "Golpe de mestre" - Maverick é um conceituado jogador de pôquer que precisa juntar dinheiro suficiente para participar de um torneio milionário que acontecerá em um barco. Disposto a arrecadar a grana necessária, ele vai em busca de alguns credores, encontrando em seu caminho o xerife Cooper (o próprio Garner em participação afetiva) e a trapaceira Annabelle Bransford (Jodie Foster pela primeira vez em um papel menos sério dos que costuma interpretar). Juntos, eles passarão por situações inacreditáveis - diligências desgovernadas, ataques indígenas (em uma participação hilária de Graham Greene), roubos e trapaças, além de um violento rival (Alfred Molina) que, a mando de alguém cuja identidade ninguém conhece, tenta impedí-lo de inscrever-se no torneio.

 

"Maverick" é quase um "Máquina mortífera" no velho-oeste. É impossível dissociar Bret Maverick de Martin Riggs, vivido por Gibson na série do mesmo Richard Donner - e a impagável participação especial de Danny Glover reitera a afirmação. O senso de humor familiar, o talento em dirigir cenas de ação e o controle do ritmo identificam claramente o estilo do cineasta, que iniciou uma brilhante carreira no final dos anos 70 com "Superman, o filme" e depois do quarto capítulo de "Máquina mortífera", em 1998, entrou em uma curva descendente que ainda se mantém. Em "Maverick", Donner brinca com os clichês do velho oeste com um carinho evidente - até mesmo a direção de arte soa um tanto fake, o que lhe dá um certo charme retrô que encontra no elenco escolhido acertadamente um complemento extremamente feliz.

Se Gibson já estava estabelecido como um ator de filmes de ação quando interpretou Bret Maverick o mesmo não pode ser dito de Jodie Foster. Atriz séria, respeitada e especializada em papéis fortes e densos, a vencedora de dois Oscar apresenta, como Annabelle Bransford, uma faceta até então desconhecida para seus inúmeros fãs. Com um perfeito timing cômico e uma feminilidade poucas vezes explorada em seus trabalhos, Foster rouba a cena, principalmente quando atua com Mel Gibson - a química do casal é hilariante e eles aproveitam os diálogos de Goldman com inteligência e frescor. Ver Jodie tão à vontade - na época em que estava em vias de estrear mais um de seus dramas pesados, "Nell", que lhe deu mais uma indicação ao Oscar - é mais um motivo forte para que se assista a Maverick.

Divertido do começo ao fim, "Maverick" é uma sessão da tarde com todas as qualidades que fazem dos filmes de Richard Donner tão agradáveis. Com um humor que não ofende ninguém, um grupo de atores em dias inspirados e um roteiro que nunca cai no marasmo, é uma pedida perfeita para momentos de tédio. Não muda a vida de ninguém, mas diverte.

segunda-feira

OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA


OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA (Raiders of the lost ark, 1981, Paramount Pictures, 115min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Lawrence Kasdan, história de George Lucas e Philip Kaufman. Fotografia: Douglas Slocombe. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Deborah Nadoolman. Direção de arte/cenários: Norman Reynolds/Michael Ford. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Mary Selway. Produção executiva: Howard Kazanjian, George Lucas. Produção: Frank Marshall. Elenco: Harrison Ford, Karen Allen, Paul Freeman, Ronald Lacey, John Rhys-Davies, Denholm Elliot, Alfred Molina. Estreia: 12/6/81

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte, Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 4 Oscar: Montagem, Direção de arte, Som, Efeitos Visuais

Quando criança, Steven Spielberg adorava aqueles filmes de ação em capítulos que passavam nos cinemas e que tinha como mocinho um herói imbatível e corajoso que vivia se metendo em situações impossíveis de contornar, mas dos quais, como personagem de cinema escapista que era, conseguia sair-se são e salvo. Foi pensando nesses super-heróis humanos e quase verdadeiros que Spielberg criou Indiana Jones, o protagonista de “Os caçadores da Arca Perdida”, filme que pode ser descrito sem medo como o melhor filme de ação de todos os tempos.

Indiana Jones, vivido com propriedade e estilo por um Harrison Ford que ficou com o papel depois que Tom Selleck viu-se obrigado a declinar do mesmo por causa da série de TV “Magnum”, é um arqueólogo que complementa sua renda como professor universitário. Em 1936, conceituado em sua profissão, ele é procurado para encontrar a Arca da Aliança, que, segundo reza a lenda, abriga as Tábuas da Lei, ou seja, os Dez Mandamentos da lei de Deus. Tudo seria razoavelmente fácil se a Arca também não fosse cobiçada pelos nazistas, uma vez que o artefato religioso dá poderes totais a quem a possui. Contando com a ajuda de sua ex-namorada Marion (Karen Allen), que ainda nutre por ele um amor disfarçado de desprezo e raiva, Jones parte para o deserto da África em busca de sua missão. Na sua cola, seu maior rival, o ganancioso Belloq (Paul Freeman).

Alucinante desde sua primeira seqüência, onde Spielberg apresenta o personagem de Jones e com um ritmo impecável, “Os caçadores da Arca Perdida” é o exemplo perfeito de um filme de aventura para toda a família. Sem deixar de preocupar-se com a qualidade do roteiro e com a história que é contada, o diretor mal dá tempo para o público respirar entre uma correria e outra e ainda entrega diálogos engraçados e bem escritos, cortesia de Lawrence Kasdan (diretor do noir “Corpos ardentes”). Contando ainda com efeitos visuais eficientes e utilizados nos momentos certos, Spielberg dá uma aula de como fazer entretenimento de qualidade sem deixar de lado inteligência e personalidade.

É impressionante como Kasdan (que contou com uma pequena ajuda de George Lucas) e Spielberg conseguem captar a essência de um estilo próprio (os filmes seriados dos primórdios do cinema) e fazê-lo tornar-se de uma atemporalidade inquestionável. Dificilmente algum espectador de "Caçadores..." poderá reclamar de seu ritmo (uma vez que a ação não para em momento algum), de sua inteligência (a trama se sustentaria até mesmo como um filme de espionagem), de seu senso de humor (há piadas sutis realmente engraçadas e não forçadas) ou de seu visual (a produção é caprichada e de extremo bom-gosto). Até mesmo a violência da história é velada, o que o faz também indicado a um público bastante jovem (para o que o carisma de Ford, no papel mais marcante de sua carreira apenas colabora com uma felicidade ímpar).

Indicado para o Oscar de melhor filme, “Caçadores da Arca Perdida” perdeu a estatueta para o inglês “Carruagens de fogo”, mas saiu da cerimônia com cinco prêmios, todos amplamente merecidos: direção de arte, montagem, som, efeitos sonoros e efeitos visuais. Cinema escapista de primeira linha, a aventura de Indiana Jones merece o sucesso que fez. Pena que nem todos filmes de ação são assim

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...