SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE (Sex, lies and videotape, 1989, Outlaw Productions, 100min) Direção e roteiro: Steven Soderbergh. Fotografia: Walt Lloyd. Montagem: Steven Soderbergh. Música: Cliff Martinez. Direção de arte/cenários: Joanne Schmidt/Victoria Spader. Produção executiva: Morgan Mason, Nancy Tenenbaum, Nick Wechsler. Produção: John Hardy, Robert Newmyer. Elenco: James Spader, Andie MacDowell, Peter Gallagher, Laura San Giacomo, Ron Vawter. Estreia: 20/01/89 (Festival de Sundance)
Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Festival de Cannes: Melhor Diretor (Steven Soderbergh), Ator (James Spader)
Quando ganhou a Palma de Ouro de Melhor Diretor no Festival de Cannes 1989, o cineasta Steven Soderbergh tinha apenas 26 anos de idade e, de cara, tornou-se o vencedor mais jovem da categoria na história do prêmio. Mais impressionante ainda: escrito em oito dias, filmado em trinta e com um custo estimado de pouco mais de um milhão de dólares, seu filme "Sexo, mentiras e videotape" ainda saiu da Riviera Francesa com o prêmio de melhor ator (James Spader) e revolucionou o modo como os espectadores encaravam os filmes independentes. Não foi um sucesso de bilheteria, mas mostrou que, além dos espetáculos pirotécnicos de que Hollywood é pródiga, existia vida inteligente no cinema norte-americano. Sem efeitos especiais, astros milionários e campanhas de marketing massivas, tornou-se queridinho da crítica e do público, concorreu ao Oscar de roteiro original e impôs um dilema dos grandes a seu criador: tido como gênio já em seu filme de estreia, o que poderia Soderbergh fazer em seguida? A resposta veio dois anos depois com o pretensioso "Kafka" - estrelado por Jeremy Irons - mas demorou quase uma década até que a promessa de seu filme de estreia se cumprisse, com o sucesso de "Irresistível paixão" (98) e o Oscar de melhor direção por "Traffic" (2000), que ele disputou consigo mesmo por "Erin Brockovich: uma mulher de talento".
Mas até que se visse vítima do próprio sucesso repentino, Soderbergh colheu elogios rasgados com seu primeiro filme, que também conquistou prêmios importantes no Festival de Sundance (onde foi lançado, meses antes de Cannes), pelos críticos de Los Angeles e na cerimônia dos Independent Spirit Awards (o Oscar para filmes independentes, de onde saiu com quatro estatuetas, incluindo filme e diretor). Seu êxito em conquistar de forma tão ampla a boa vontade dos críticos e a simpatia dos espectadores dispostos a fugir dos blockbusters não é difícil de entender: inteligente, profundo e dotado de grande compreensão da natureza humana, "Sexo, mentiras e videotape" estreou no momento certo e refletia, como poucos filmes de então, o espírito de sua época, aprisionada pela hipocrisia que vinha à reboque do governo Reagan, recém encerrado. Falando abertamente sobre sexo em diálogos francos e diretos e com personagens tão falíveis quanto ambíguos, seu roteiro nadava contra a corrente do cinema americano dos anos 80, centrado basicamente no visual e na edição histérica: com movimentos de câmera suaves e eficientes, Soderbergh consegue extrair o máximo tanto da palavra quanto da imagem, fugindo da verborragia excessiva e evitando com maestria a tentação de fazer malabarismos estéticos. Usando a câmera como parte integrante da narrativa - dentro da história e fora dela, como instrumento para enfatizar a sensação de sufocamento - o filme mergulha o espectador em um jogo perigoso, onde traições, meias-verdades e luxúria estão em vias de implodir relacionamentos pouco saudáveis.
Um desses relacionamentos é o do casal Ann e John Mullany. Ela - interpretada por Andie MacDowell, que ficou com o papel oferecido a Elizabeth McGovern e Brooke Shields e levou pra casa o prêmio de melhor atriz pelos críticos de Los Angeles - é uma dona de casa introvertida, calada e aparentemente frígida, que se utiliza de terapia para tentar lidar com um casamento frio e sem amor. Ele (vivido por Peter Gallagher) é um advogado ambicioso e egoísta, que não apenas trata a esposa com quase desdém como também tem um caso com a própria irmã dela, Cynthia (Laura San Giacomo), uma garçonete expansiva e sensual, que não hesita em usar o corpo e o charme para conquistar o que quer. O triângulo amoroso secreto torna-se explosivo com a chegada de Graham (James Spader), antigo colega de John, um homem quieto e misterioso que não demora em atrair a atenção de Ann - que vê nele alguém em quem pode confiar seus segredos - e de Cynthia - que chega até ele depois de descobrir sua maior particularidade: impotente, o rapaz se satisfaz sexualmente assistindo às fitas de vídeo que gravou com mulheres contando suas intimidades para a câmera. O que deveria ser apenas uma espécie de hobby para Graham acaba se tornando o pivô de uma revolução na vida de todos, especialmente na de Ann, que se percebe no centro de um furacão pessoal que a levará a repensar toda sua vida sentimental.
Arrancando interpretações fascinantes do seu quarteto de atores - todos em total imersão em seus papéis - e manipulando com inteligência os desvios da trama, Steven Soderbergh aposta no minimalismo como forma de enfatizar o que realmente importa em seu roteiro: os personagens. Do lar quase asséptico de Ann à frugalidade da casa de Graham - quase desprovida de móveis - e passando pelo apartamento modernoso de Cynthia, tudo é milimetricamente planejado para transmitir, sem esforço, as características fundamentais de cada um, o que cada um carrega em sua personalidade para empurrar a trama adiante. Sem pressa de contar sua história, Soderbergh filma longos e esclarecedores diálogos com uma câmera discreta, que só se faz notar em momentos cruciais - especificamente quando os personagens são acuados pelas verdades incômodas que subitamente se tornam explícitas. Sem precisar apelar para discursos moralistas ou cenas catárticas, o roteiro do diretor (que perdeu o Oscar para o belo "Sociedade dos poetas mortos") é admirável também por falar muito até mesmo em silêncio: ao optar em não subestimar a inteligência do público, "Sexo, mentiras e videotape" mostra que é possível dialogar com o espectador sem tratá-lo como criança. É um filme adulto, elegante e que resiste ao tempo justamente por fugir do óbvio ao tratar de assuntos quase sempre tratados com superficialidade e/ou deboche pelo cinemão americano. Uma bela estreia de um cineasta de carreira irregular mas ocasionalmente fascinante.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade.
Mostrando postagens com marcador STEVEN SODERBERGH. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador STEVEN SODERBERGH. Mostrar todas as postagens
quinta-feira
segunda-feira
MINHA VIDA COM LIBERACE
MINHA VIDA COM LIBERACE (Behind the candelabra, 2013, HBO Films, 118min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Richard LaGravenese, livro de Scott Thorson, Alex Thorleifson. Fotografia: Peter Andrews (Steven Soderbergh). Montagem: Mary Ann Bernard (Steven Soderbergh). Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Barbara Munch Cameron. Produção executiva: Jerry Weintraub. Produção: Susan Ekins, Gregory Jacobs, Michael Polaire. Elenco: Michael Douglas, Matt Damon, Scott Bakula, Rob Lowe, Debbie Reynolds, Cheyenne Jackson, Dan Ayckroyd, Paul Reiser. Estreia: 21/5/13 (Festival de Cannes)
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme ou Minissérie para TV; Melhor Ator de Filme ou Minissérie para TV (Michael Douglas)
Quando o projeto de "Minha vida com Liberace" foi anunciado, em 2008, houve uma surpresa generalizada com o fato de, mesmo com a direção do consagrado Steven Soderbergh e com a presença de astros do calibre de Michael Douglas e Matt Damon - todos os três já premiados com o Oscar - o filme fosse ser produzido pela HBO e lançado como filme para a televisão. Foi o próprio cineasta quem explicou o motivo da recusa de todos os grandes estúdios de Hollywood: considerada gay demais até mesmo para o público que havia feito de "O segredo de Brokeback Mountain" um inesperado sucesso de bilheteria, a história real do mais famoso e extravagante pianista americano do século XX e de seus segredos mais bem escondidos (ao menos para a maioria de fãs femininas que lotavam seus concertos em Las Vegas) estava ameaçada de não sair das páginas do livro de seu ex-amante Scott Thorson e do roteiro do igualmente respeitado Richard LaGravenese (indicado ao Oscar por "O pescador de ilusões"). A decisão da HBO - conhecida pela alta qualidade de seus filmes, séries e minisséries - porém, não foi capaz de solucionar outro problema surgido logo à frente, mais grave e preocupante: a saúde debilitada de Michael Douglas, diagnosticado com câncer assim que o projeto foi anunciado. Filmagens adiadas, mas não canceladas. Felizmente recuperado, Douglas encarnou com maestria um de seus mais desafiadores papéis - e o filme, depois de uma estreia com pompa e circunstância no Festival de Cannes, tornou-se uma das produções mais elogiadas da temporada, com direito a lançamento internacional com o tratamento de uma produção para as telonas. Nada mais justo, já que é um dos melhores filmes de Soderbergh.
Vindo de um período ultra-prolífico mas pouco interessante - em que intercalava filmes medianos como "Terapia de risco" e outros simplesmente ruins, como "Magic Mike" - Soderbergh parecia ter perdido a mão, entregando ao público filmes que, mesmo quando faziam sucesso de bilheteria, jamais traíam a inteligência e o talento de obras como "Irresistível paixão" e "Traffic", que chegou a lhe render um Oscar de melhor diretor. Desacreditado junto à crítica e aos cinéfilos mais exigentes, ele acabou surpreendendo justamente onde ninguém levava muita fé: em um projeto para a televisão, um veículo que, a despeito do preconceito de que sempre foi vítima na comunidade cinematográfica, tornou-se, aos poucos, refúgio de muitos talentos e laboratório para as ousadias narrativas que a busca desesperada pela bilheteria da indústria sepultou sem dó nem piedade. Sem demonstrar qualquer tipo de descaso pelo novo veículo, Soderbergh acabou por voltar à sua melhor forma: "Minha vida com Liberace" é um belo trabalho: sério mas dotado de senso de humor, ousado na temática mas discreto na realização, respeitoso com o protagonista mas nunca condescendente e, mais do que tudo, com uma direção de atores que explica porque Julia Roberts e Benicio Del Toro foram premiados com o Oscar sob o comando do cineasta.
Mais velho do que o próprio artista estava quando morreu - vítima de complicações ligadas ao vírus da AIDS - mas totalmente convincente no papel que lhe rendeu o Golden Globe e o Emmy, Michael Douglas deita e rola: não apenas cria um Liberace egocêntrico a ponto de obrigar o amante a fazer uma plástica facial para ficar parecido com ele como mostra à plateia seu lado carente e generoso (ainda que tal generosidade seja discutível, como mostra o desfecho da história). Quando retrata o Liberace ídolo - adorado por fãs e admirado pela indústria do entretenimento - fica ainda melhor: suas apresentações abarrotadas de casacos de pele, candelabros e brilhos dos mais diversos são o ponto alto do filme, quando Douglas deixa de lado a persona viril que vinha imprimindo à sua carreira até então para se jogar em uma atuação divertida e leve - mas que jamais escorrega para a caricatura, o que seria o caminho mais fácil quando se trata de um personagem tão excêntrico. O respeito de Douglas pelo material é perceptível (até porque seu pai, Kirk Douglas, era amigo de Liberace) e a falta de vaidade com que se entrega a cenas difíceis e delicadas é admirável. Felizmente ele tem a seu lado um Matt Damon igualmente dedicado, em um duelo de gerações que só faz aumentar a qualidade geral da produção.
Na verdade, Damon é o real protagonista de "Minha vida com Liberace": ele vive Scott Thorson, o rapaz tímido e com problemas com os pais que vê sua vida totalmente transformada quando se torna amante e companheiro de Liberace, um dos maiores ídolos do país e que o insere em um universo repleto de luxos e competições internas. Ingênuo até certo ponto, ele demora a perceber que seu valor dentro da mansão do músico está intimamente ligado à sua juventude e sua beleza e, quando isso acontece, entra em rota de colisão com toda a equipe do artista, acostumada com as oscilações dos afetos do patrão. Até que ponto as lembranças de Scott são verdadeiras ou fruto do final amargo de seu relacionamento com Liberace é uma questão que o filme não tenta responder, apesar de seu roteiro jamais por em dúvida as declarações do rapaz. O que o filme mostra é seu ponto de vista, mas, a julgar pelo silêncio que se fez em relação aos fatos (não houve nenhum tipo de desmentido desde a estreia), se não é tudo verdade, boa parte é.
O que importa, no fim das contas, é que "Minha vida com Liberace" devolveu o crédito a Steven Soderbergh, proporcionou a Michael Douglas um retorno triunfal com direito a prêmios e elogios entusiasmados, recolocou Debbie Reynolds na mídia - irreconhecível como a mãe do pianista - e mostrou que não é mais preciso que os grandes estúdios invistam para que filmes de qualidade cheguem aos fãs. É o futuro mostrando seu rosto.
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme ou Minissérie para TV; Melhor Ator de Filme ou Minissérie para TV (Michael Douglas)
Quando o projeto de "Minha vida com Liberace" foi anunciado, em 2008, houve uma surpresa generalizada com o fato de, mesmo com a direção do consagrado Steven Soderbergh e com a presença de astros do calibre de Michael Douglas e Matt Damon - todos os três já premiados com o Oscar - o filme fosse ser produzido pela HBO e lançado como filme para a televisão. Foi o próprio cineasta quem explicou o motivo da recusa de todos os grandes estúdios de Hollywood: considerada gay demais até mesmo para o público que havia feito de "O segredo de Brokeback Mountain" um inesperado sucesso de bilheteria, a história real do mais famoso e extravagante pianista americano do século XX e de seus segredos mais bem escondidos (ao menos para a maioria de fãs femininas que lotavam seus concertos em Las Vegas) estava ameaçada de não sair das páginas do livro de seu ex-amante Scott Thorson e do roteiro do igualmente respeitado Richard LaGravenese (indicado ao Oscar por "O pescador de ilusões"). A decisão da HBO - conhecida pela alta qualidade de seus filmes, séries e minisséries - porém, não foi capaz de solucionar outro problema surgido logo à frente, mais grave e preocupante: a saúde debilitada de Michael Douglas, diagnosticado com câncer assim que o projeto foi anunciado. Filmagens adiadas, mas não canceladas. Felizmente recuperado, Douglas encarnou com maestria um de seus mais desafiadores papéis - e o filme, depois de uma estreia com pompa e circunstância no Festival de Cannes, tornou-se uma das produções mais elogiadas da temporada, com direito a lançamento internacional com o tratamento de uma produção para as telonas. Nada mais justo, já que é um dos melhores filmes de Soderbergh.
Vindo de um período ultra-prolífico mas pouco interessante - em que intercalava filmes medianos como "Terapia de risco" e outros simplesmente ruins, como "Magic Mike" - Soderbergh parecia ter perdido a mão, entregando ao público filmes que, mesmo quando faziam sucesso de bilheteria, jamais traíam a inteligência e o talento de obras como "Irresistível paixão" e "Traffic", que chegou a lhe render um Oscar de melhor diretor. Desacreditado junto à crítica e aos cinéfilos mais exigentes, ele acabou surpreendendo justamente onde ninguém levava muita fé: em um projeto para a televisão, um veículo que, a despeito do preconceito de que sempre foi vítima na comunidade cinematográfica, tornou-se, aos poucos, refúgio de muitos talentos e laboratório para as ousadias narrativas que a busca desesperada pela bilheteria da indústria sepultou sem dó nem piedade. Sem demonstrar qualquer tipo de descaso pelo novo veículo, Soderbergh acabou por voltar à sua melhor forma: "Minha vida com Liberace" é um belo trabalho: sério mas dotado de senso de humor, ousado na temática mas discreto na realização, respeitoso com o protagonista mas nunca condescendente e, mais do que tudo, com uma direção de atores que explica porque Julia Roberts e Benicio Del Toro foram premiados com o Oscar sob o comando do cineasta.
Mais velho do que o próprio artista estava quando morreu - vítima de complicações ligadas ao vírus da AIDS - mas totalmente convincente no papel que lhe rendeu o Golden Globe e o Emmy, Michael Douglas deita e rola: não apenas cria um Liberace egocêntrico a ponto de obrigar o amante a fazer uma plástica facial para ficar parecido com ele como mostra à plateia seu lado carente e generoso (ainda que tal generosidade seja discutível, como mostra o desfecho da história). Quando retrata o Liberace ídolo - adorado por fãs e admirado pela indústria do entretenimento - fica ainda melhor: suas apresentações abarrotadas de casacos de pele, candelabros e brilhos dos mais diversos são o ponto alto do filme, quando Douglas deixa de lado a persona viril que vinha imprimindo à sua carreira até então para se jogar em uma atuação divertida e leve - mas que jamais escorrega para a caricatura, o que seria o caminho mais fácil quando se trata de um personagem tão excêntrico. O respeito de Douglas pelo material é perceptível (até porque seu pai, Kirk Douglas, era amigo de Liberace) e a falta de vaidade com que se entrega a cenas difíceis e delicadas é admirável. Felizmente ele tem a seu lado um Matt Damon igualmente dedicado, em um duelo de gerações que só faz aumentar a qualidade geral da produção.
Na verdade, Damon é o real protagonista de "Minha vida com Liberace": ele vive Scott Thorson, o rapaz tímido e com problemas com os pais que vê sua vida totalmente transformada quando se torna amante e companheiro de Liberace, um dos maiores ídolos do país e que o insere em um universo repleto de luxos e competições internas. Ingênuo até certo ponto, ele demora a perceber que seu valor dentro da mansão do músico está intimamente ligado à sua juventude e sua beleza e, quando isso acontece, entra em rota de colisão com toda a equipe do artista, acostumada com as oscilações dos afetos do patrão. Até que ponto as lembranças de Scott são verdadeiras ou fruto do final amargo de seu relacionamento com Liberace é uma questão que o filme não tenta responder, apesar de seu roteiro jamais por em dúvida as declarações do rapaz. O que o filme mostra é seu ponto de vista, mas, a julgar pelo silêncio que se fez em relação aos fatos (não houve nenhum tipo de desmentido desde a estreia), se não é tudo verdade, boa parte é.
O que importa, no fim das contas, é que "Minha vida com Liberace" devolveu o crédito a Steven Soderbergh, proporcionou a Michael Douglas um retorno triunfal com direito a prêmios e elogios entusiasmados, recolocou Debbie Reynolds na mídia - irreconhecível como a mãe do pianista - e mostrou que não é mais preciso que os grandes estúdios invistam para que filmes de qualidade cheguem aos fãs. É o futuro mostrando seu rosto.
TERAPIA DE RISCO
TERAPIA DE RISCO (Side effects, 2013, Endgame Entertainment/FilmNation Entertainment/Di Bonaventura Pictures, 106min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Scott Z. Burns. Fotografia: Peter Andrews (Steven Soderbergh). Montagem: Mary Ann Bernard (Steven Soderbergh). Música: Thomas Newman. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Rena DeAngelo. Produção executiva: Douglas E. Hansen, Michael Polaire, James D. Stern. Produção: Scott Z. Burns, Lorenzo di Bonaventura, Gregory Jacobs. Elenco: Rooney Mara, Jude Law, Catherine Zeta-Jones, Channing Tatum, Ann Dowd, Mamie Gummer. Estreia: 08/02/13
Em “Contágio” (11), Steven
Soderbergh já havia, de leve, provocado uma discussão a respeito da ganância da
indústria farmacêutica, mas deu à trama a mesma importância que aos outros
focos do filme – irresponsabilidade da mídia, o pânico diante de uma epidemia,
o avanço da barbárie diante do imprevisto. Em seu trabalho seguinte, “Terapia
de risco”, ele volta a esbarrar no assunto – dessa vez enfatizando os remédios
antidepressivos – mas novamente desvia de uma discussão relevante e instigante
para abraçar um gênero específico (no caso o suspense) e contar uma história
que, a despeito de seu começo promissor, descamba para uma série de
reviravoltas forçadas e inverossímeis. Mais uma vez o Soderbergh comercial –
que assinou coisas terríveis como “Magic Mike” e alguns bons entretenimentos,
como “Onze homens e um segredo” – ganhou do Soderbergh artista criativo e
socialmente ativo – que ganhou a Palma de Ouro em Cannes por “sexo, mentiras e
videotape” e o Oscar de melhor diretor por “Traffic”. Quem acabou perdendo foi
o público.
Não que o grande público se incomode
com o fato de o roteiro abandonar a chance de discutir um problema sério como o
abuso de remédios controlados e a forma como a indústria que os fabrica conduz
sua comercialização. O problema é que os dois primeiros terços do filme
conduzem a narrativa por um caminho específico para, de uma hora para outra –
com o objetivo de espantar a plateia – distorcer a trama de forma a fazê-la
caber em um final-surpresa que enfraquece todo o tom sério e excitante que
vinha sendo mostrado até então. Em resumo, “Terapia de risco” tem um começo
promissor e um final decepcionante que não faz jus à carreira de seu diretor.
A trama tem início quando o jovem
Martin Taylor (Channing Tatum) sai da cadeia, depois de quatro anos preso pelo
crime de tráfico de informações financeiras. Quem o espera do lado de fora do
presídio é sua esposa, Emily (Rooney Mara, de “Os homens que não amavam as
mulheres, irreconhecível e sempre ótima atriz), que teve sua vida completamente
desestruturada com a condenação do marido. Depois de perder o bebê que esperava
e ter tido seu estilo de vida radicalmente transformado, a jovem acabou por
tornar-se dependente de antidepressivos e, mesmo com a volta do marido, parece
não dar sinais de melhora. Pelo contrário, duas tentativas de suicídio a levam
até o doutor Jonathan Banks (Jude Law), que depois de algumas consultas propõe
a ela que tome parte nos experimentos de uma nova droga que está sendo testada
em pacientes em avançado estado de depressão. Emily aceita fazer parte do
teste, mas um dos efeitos colaterais – sonambulismo – acaba por fazê-la cometer
um homicídio. No banco dos réus, ela acaba por tornar-se alvo de uma polêmica:
quem é, afinal, o responsável pelo crime? Ela, a indústria farmacêutica ou seu
médico?
Esse ponto de partida – que toma boa
parte dos dois terços iniciais do filme – é empolgante, inteligente e prende a
atenção do público sem fazer esforço, graças em boa parte às interpretações do
elenco e da direção segura e sóbria de Soderbergh. As coisas começam a
degringolar quando Banks, sentindo-se acuado diante das acusações de
irresponsabilidade e negligência médica, passa a investigar o passado de Emily
e chega até sua médica anterior, Victoria Seibert (Catherine Zeta-Jones), uma
mulher bem-sucedida que parece ter muito mais a esconder do que mostra em um
primeiro olhar. A real ligação entre Emily e Victoria – o grande segredo do
filme – vem à tona perto do final, e é aí que o roteiro põe tudo a perder. Sem
querer estragar a surpresa dos que se arriscarem a uma sessão (e no final das
contas até vale uma espiada, em especial pelo elenco), é um desfecho que parece
jogado na tela, sem a preocupação básica de parecer realista.
Ok, Steven Soderbergh já fez coisas
muito piores – “Magic Mike” à frente – mas é sempre triste ver um cineasta
capaz de pequenas obras-primas como “Irresistível paixão” e “Traffic” se deixar
cair na vala dos diretores puramente comerciais, optando pela mediocridade em
detrimento da criatividade e da ousadia. “Terapia de risco” é um filme de
gênero e logicamente deve seguir diretrizes já estabelecidas e consagradas, mas
isso não justifica o golpe baixo que é dado nas expectativas do espectador que
espera mais do que ser simplesmente pego de surpresa por um roteiro quase
preguiçoso. Felizmente o elenco faz o que pode para manter o interesse. E
consegue. Porém, Soderbergh poderia voltar a ser o diretor inteligente que um
dia se propôs a ser.
domingo
MAGIC MIKE
MAGIC MIKE (Magic Mike, 2012, Iron Horse Entertainment, 110min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Reid Carolin. Fotografia: Peter Andrews (Steven Soderbergh). Montagem: Mary Ann Bernard (Steven Soderbergh). Figurino: Christopher Peterson. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Barbara Munch Cameron. Produção: Reid Carolin, Gregory Jacobs, Channing Tatum, Nick Wechsler. Elenco: Matthew McConaughey, Channing Tatum, Olivia Munn, Alex Pettyfer, Matt Bomer, Adam Rodriguez. Estreia: 24/6/12
Quando surgiu, no final da década de 90, Steven Soderbergh chamou a atenção por ter feito seu "sexo, mentiras e videotape" com uma ideia na cabeça, uma câmera na mão, um roteiro forte e inteligente e alguns trocados. Aos poucos foi se tornando mainstream - com filmes bem-sucedidos comercialmente como a trilogia "Onze homens e um segredo" e um Oscar por "Traffic" - e volta e meia desafia seus fãs a encontrarem alguma qualidade em filmes fraquíssimos como "Full frontal" ou apenas corretos, como "Contágio". Mas justamente em um de seus trabalhos mais populares, até mesmo os mais entusiastas membros de seu fã-clube não conseguiram encontrar muito o que elogiar. A despeito de sua bilheteria generosa nos EUA - mais de 100 milhões de dólares de arrecadação, o que mais do que justificou em termos financeiros uma continuação tão fraca quanto - "Magic Mike" chega a ser quase constrangedor.
Segundo a lenda de bastidores, a ideia do filme surgiu do fato do ator Channing Tatum - que também tem crédito de produtor - ter sido um dançarino de strip-tease antes de tornar-se famoso. Suas histórias a respeito dessa fase de sua vida deram origem, então, a uma sinopse que, a despeito da falta de originalidade, poderia ao menos render um entretenimento razoável. Falta, no entanto, um roteiro que consiga dar um pouco mais de substância a uma sucessão de cenas de um bando de homens sarados dançando seminus em cima de um palco (ainda que provavelmente esse seja o motivo pelo qual o público acorreu aos cinemas). Carregado dos clichês mais batidos da história do cinema e contando com um elenco que nem mesmo Soderbergh consegue fazer soar convincente - e isso que ele arrancou até de Jennifer Lopez uma atuação decente, no ótimo "Irresistível paixão", de 1998 - o filme é um desfile de erros em um belo embrulho (mas que mesmo assim é capaz de agradar somente a um público feminino ou gay).
A história - se é que se pode chamar assim - é centrada no jovem Adam (Alex Pettyfer), que, sem rumo profissional na vida, encontra um bico consertando telhados e conhece Mike (Channing Tatum, sem o timing cômico demonstrado em "Anjos da lei"), que junta dinheiro dançando em um clube de mulheres de propriedade de um ex-performer chamado Dallas (Matthew McConaughey), que ainda faz seus shows ocasionais. Aos poucos Mike vai ensinando Adam a melhorar suas apresentações, assim como apresenta a ele o glamour de um modo de vida calcado no prazer e na sensualidade. Enquanto Adam começa a aproveitar os bons momentos - e também a sofrer a pressão de Dallas, que o escolhe para trabalhos ilegais - Mike tenta conquistar o amor de sua irmã, Joanna (a péssima Olivia Munn). No meio disso tudo, coreografias pouco inspiradas e diálogos de fazer corar os roteiristas de "Malhação". Nem mesmo Matthew McConaughey - rumo ao Oscar por "Clube de Compras Dallas", que lhe daria respeitabilidade como ator - está particularmente bem, apesar de algumas críticas terem destacado sua interpretação.
Fosse um filme dirigido por um cineasta sem talento - ou alguém precisando pagar a hipoteca - "Magic Mike" seria apenas mais um lixo cinematográfico a aportar nas salas de exibição. O problema é tentar descobrir como um nome como Soderbergh pode entrar em uma barca tão furada. Nada no resultado final lembra a criatividade e a inteligência de seus melhores filmes. O roteiro fraco, a edição preguiçosa (que nem torna as cenas musicais tão atraentes quanto poderia) e o elenco no piloto automático só sublinham a incompetência da realização como um todo. Só vai agradar a quem for procurar unica e exclusivamente belos corpos masculinos em danças sensuais. E mesmo assim pode ser que decepcione, já que não há nada que não tenha sido mostrado antes. Sorte de Channing Tatum que, entre coisas assim, ele ainda consiga destacar-se como ator em filmes de maior prestígio, como "Foxcatcher, o crime que chocou o mundo", ou mais divertidos, como a continuação de "Anjos da lei". Apesar da bilheteria, "Magic Mike" é sofrível.
Quando surgiu, no final da década de 90, Steven Soderbergh chamou a atenção por ter feito seu "sexo, mentiras e videotape" com uma ideia na cabeça, uma câmera na mão, um roteiro forte e inteligente e alguns trocados. Aos poucos foi se tornando mainstream - com filmes bem-sucedidos comercialmente como a trilogia "Onze homens e um segredo" e um Oscar por "Traffic" - e volta e meia desafia seus fãs a encontrarem alguma qualidade em filmes fraquíssimos como "Full frontal" ou apenas corretos, como "Contágio". Mas justamente em um de seus trabalhos mais populares, até mesmo os mais entusiastas membros de seu fã-clube não conseguiram encontrar muito o que elogiar. A despeito de sua bilheteria generosa nos EUA - mais de 100 milhões de dólares de arrecadação, o que mais do que justificou em termos financeiros uma continuação tão fraca quanto - "Magic Mike" chega a ser quase constrangedor.
Segundo a lenda de bastidores, a ideia do filme surgiu do fato do ator Channing Tatum - que também tem crédito de produtor - ter sido um dançarino de strip-tease antes de tornar-se famoso. Suas histórias a respeito dessa fase de sua vida deram origem, então, a uma sinopse que, a despeito da falta de originalidade, poderia ao menos render um entretenimento razoável. Falta, no entanto, um roteiro que consiga dar um pouco mais de substância a uma sucessão de cenas de um bando de homens sarados dançando seminus em cima de um palco (ainda que provavelmente esse seja o motivo pelo qual o público acorreu aos cinemas). Carregado dos clichês mais batidos da história do cinema e contando com um elenco que nem mesmo Soderbergh consegue fazer soar convincente - e isso que ele arrancou até de Jennifer Lopez uma atuação decente, no ótimo "Irresistível paixão", de 1998 - o filme é um desfile de erros em um belo embrulho (mas que mesmo assim é capaz de agradar somente a um público feminino ou gay).
A história - se é que se pode chamar assim - é centrada no jovem Adam (Alex Pettyfer), que, sem rumo profissional na vida, encontra um bico consertando telhados e conhece Mike (Channing Tatum, sem o timing cômico demonstrado em "Anjos da lei"), que junta dinheiro dançando em um clube de mulheres de propriedade de um ex-performer chamado Dallas (Matthew McConaughey), que ainda faz seus shows ocasionais. Aos poucos Mike vai ensinando Adam a melhorar suas apresentações, assim como apresenta a ele o glamour de um modo de vida calcado no prazer e na sensualidade. Enquanto Adam começa a aproveitar os bons momentos - e também a sofrer a pressão de Dallas, que o escolhe para trabalhos ilegais - Mike tenta conquistar o amor de sua irmã, Joanna (a péssima Olivia Munn). No meio disso tudo, coreografias pouco inspiradas e diálogos de fazer corar os roteiristas de "Malhação". Nem mesmo Matthew McConaughey - rumo ao Oscar por "Clube de Compras Dallas", que lhe daria respeitabilidade como ator - está particularmente bem, apesar de algumas críticas terem destacado sua interpretação.
Fosse um filme dirigido por um cineasta sem talento - ou alguém precisando pagar a hipoteca - "Magic Mike" seria apenas mais um lixo cinematográfico a aportar nas salas de exibição. O problema é tentar descobrir como um nome como Soderbergh pode entrar em uma barca tão furada. Nada no resultado final lembra a criatividade e a inteligência de seus melhores filmes. O roteiro fraco, a edição preguiçosa (que nem torna as cenas musicais tão atraentes quanto poderia) e o elenco no piloto automático só sublinham a incompetência da realização como um todo. Só vai agradar a quem for procurar unica e exclusivamente belos corpos masculinos em danças sensuais. E mesmo assim pode ser que decepcione, já que não há nada que não tenha sido mostrado antes. Sorte de Channing Tatum que, entre coisas assim, ele ainda consiga destacar-se como ator em filmes de maior prestígio, como "Foxcatcher, o crime que chocou o mundo", ou mais divertidos, como a continuação de "Anjos da lei". Apesar da bilheteria, "Magic Mike" é sofrível.
terça-feira
CONTÁGIO
CONTÁGIO (Contagion, 2011, Warner Bros, 106min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Scott Z. Burns. Fotografia: Peter Andrews (Steven Soderbergh). Montagem: Stephen Mirrione. Música: Cliff Martinez. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Cindy Carr. Produção executiva: Jonathan King, Michael Polaire, Jeff Skoll, Ricky Strauss. Produção: Gregory Jacobs, Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: Matt Damon, Jude Law, Kate Winslet, Marion Cottilard, Gwyneth Paltrow, Laurence Fishburne, Jennifer Ehle, John Hawkes. Estreia: 03/9/11 (Festival de Veneza)
Quando surgiu no mundo do cinema, em
1989, com seu independente “sexo, mentiras e videotape” – que ganhou a Palma de
Ouro em Cannes e foi indicado ao Oscar de roteiro original – o cineasta Steven
Soderbergh foi louvado como um gênio que poderia renovar o sangue do cinema
americano. Com o tempo, ele tanto deu com os burros n’água com produções
pretensiosas – “Kafka” (91), por exemplo – como assinou sucessos de bilheteria
apenas divertidos – “Onze homens e um segredo” (01) e suas continuações, “Erin
Brockovich: uma mulher de talento” (00), que deu o Oscar à Julia Roberts e
“Magic Mike” (02), que apesar do êxito comercial é indigno de seu talento. No
meio do caminho, filmes muito bons, como “Irresistível paixão” (98) e “Traffic”
(00), que lhe rendeu uma estatueta de melhor diretor. Em uma carreira de altos
e baixos constantes, “Contágio” fica no meio-termo: não é um filme marcante ou
memorável nem tampouco um desastre completo. É um competente thriller médico
cuja eficiência se escora mais no elenco multi-estelar do que exatamente em
suas qualidades narrativas.
Na tradição de filmes que se
utilizam de alguma epidemia para retratar o pânico da população, a ganância da
indústria farmacêutica, o descaso das autoridades e o suspense inerente a tantos
elementos, Soderbergh criou um produto que mantém a atenção da plateia do
primeiro ao último minuto – quando enfim completa o quebra-cabeças cuja
primeira peça é lançada na cena inicial – fazendo a intersecção de diversas
histórias paralelas ao redor do mundo. Mal comparando, é um “Babel”, de
Alejandro González Iñarrítu, mas com viés científico e um elenco tão repleto de
estrelas que faz lembrar os filmes-catástrofes dos anos 70, como “Inferno na
torre” (74) e “O destino do Poseidon” (75). A vantagem é que Soderbergh, apesar
dos tropeços, é um diretor bem mais competente que a média mesmo em produções
mais comerciais e menos autorais. Assim como fez em “Traffic” – que também
levou as estatuetas de roteiro adaptado, montagem e ator coadjuvante (Benicio Del
Toro) – ele demonstra um soberbo senso de ritmo e grande segurança na condução
de seus atores, o que faz da missão de se assistir à “Contágio” um prazer mesmo
que a história não seja das mais animadoras.
A trama começa em Hong Kong,
mostrando os últimos momentos da executiva norte-americana Beth Emhoff (Gwyneth
Paltrow) antes de sua volta para casa, depois de uma viagem profissional que
lhe deu a oportunidade inclusive de reencontrar um antigo romance. Antes mesmo
que ela chegue em Minneapolis, sua cidade natal, o filme já mostra o que vem
pela frente: um grupo de pessoas, em países diferentes (Inglaterra, Japão, EUA,
China), se torna vítima de uma doença desconhecida, com sintomas de gripe
comum, que leva à morte em poucas horas. Não demora para que a própria Beth –
assim como seu filho de seis anos de idade - entre para as estatísticas, para
desespero de seu marido, Mitch (Matt Damon). Sem querer alarmar a população,
organizações médicas começam a investigar a origem da doença, com profissionais
de várias partes do mundo buscando encontrar formas de prevenção e respostas
imediatas, como modos de contágio e tempo de encubação. Enquanto correm contra
o relógio, o blogueiro Alan Krumwiede (Jude Law), de São Francisco alerta seus
leitores para uma provável conspiração do governo para impedir que a população
saiba do que realmente está por trás da trágica epidemia.
O tema principal de “Contágio” é a
busca desesperada da comunidade médica pelas respostas cada vez mais fugidias a
respeito do vírus – o que não impede o roteiro de tocar em temas como a
irresponsabilidade da mídia, o declínio da civilidade diante de uma crise e a
desigualdade social e econômica. Porém, peca por não desenvolver a contento
nenhum desses pontos da trama, preferindo ater-se a um suspense que nem sempre
funciona, ainda que disfarçado por uma fotografia inteligente (em tons
amarelados na trama médica e em tonalidades frias quando retrata as
consequências cada vez mais tenebrosas da doença). A edição do veterano Stephen
Mirrione – premiado por “Traffic”, também um filme calcado em tramas paralelas
– dá espaço igual a todos os personagens, mas mesmo assim por vezes é
impossível à plateia realmente se conectar com eles devido à agilidade um tanto
exagerada da narrativa. Assim, o drama de Mitch e sua filha adolescente –
surpreendentemente imunes ao vírus, mas impedidos de travar qualquer tipo de
contato normal com o restante da população – acaba por se tornar, em muitos
momentos, muito mais interessante do que as investigações promovidas pelas
médicas Leonora Orantes (Marion Cottilard) – que viaja à Ásia representando a
OMS e acaba pega como refém por um grupo popular desesperado por uma vacina – e
Erin Mears (Kate Winslet) – que segue os passos de Beth Emhoff em busca da origem
de tudo. Cottilard e Winslet são atrizes espetaculares e quando entram em cena
engolem tudo à sua volta, mas não são capazes de desenvolver a contento seus
papéis, graças principalmente ao roteiro superficial.
O roteiro é culpado, também, de não
dar a Jude Law e seu personagem um espaço maior: a trama do blogueiro que tenta
alertar a população a respeito do descaso do governo em relação às vacinas
experimentais e sobre a ganância das indústrias farmacêuticas é empolgante, mas
intercalada com as demais ramificações da história, perde o pique e o ritmo,
tornando-se apenas uma série de conversas e discussões éticas e morais – seja
com o médico Ellis Cheever (Laurence Fishburne) ou com o cientista Ian Sussman
(Elliot Gould), que ignora ordens superiores para abandonar as pesquisas e se
torna, juntamente com a dra. Ally Hextall (Jennifer Ehle), um dos principais
responsáveis pelos avanços rumo à cura. Enquanto Law surge como o olhar
questionador do caos, Matt Damon representa o público comum, jogado no meio de
um tornado sem ter respostas ou orientações. Fatalista como os bons filmes do
gênero, “Contágio” ainda arruma espaço, em seus minutos finais, para culpar o
ser humano por toda a situação – um recado que não apenas faz sentido em um
período tão ecologicamente alerta quanto imprime ao filme um tom ainda mais
dramático e assustador, apropriado ao tema e coerente com o discurso
desenvolvido pelo roteiro – que, sem diálogos, encerra o filme deixando o
espectador com uma sensação desconfortável. Um tiro certeiro que torna perdoáveis
seus pequenos pecados narrativos.
No final das contas, “Contágio”
cumpre o que promete: é um suspense médico eficiente na tensão e apresenta um
elenco de cair o queixo, que inclui também os indicados ao Oscar John Hawkes e
Bryan Cranston (de “Breaking bad”). É um filme de primeira linha, realizado por
um cineasta de comprovada competência e com uma história aterrorizante que,
apesar do tema pouco atraente, cativa a plateia até o seu desfecho. Soderbergh
já fez melhor, mas não deixa de ser um programa acima da média.
Assinar:
Postagens (Atom)
OS AGENTES DO DESTINO
OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...
-
SOMMERSBY, O RETORNO DE UM ESTRANHO (Sommersby, 1993, Warner Bros, 114min) Direção: Jon Amiel. Roteiro: Nicholas Meyer, Sarah Kernochan, h...
-
EVIL: RAÍZES DO MAL (Ondskan, 2003, Moviola Film, 113min) Direção: Mikael Hafstrom. Roteiro: Hans Gunnarsson, Mikael Hafstrom, Klas Osterg...
-
O SILÊNCIO DOS INOCENTES (The silence of the lambs, 1991, Orion Pictures, 118min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Ted Tally, romance de ...








