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segunda-feira

DUELO AO SOL

DUELO AO SOL (Duel in the sun, 1946, Selznick International Pictures, 129min) Direção: King Vidor. Roteiro: David O. Selznick, inspirado no romance de Niven Busch, adaptado por Oliver H. P. Garrett. Fotografia: Lee Garmes, Ray Rennahan, Hal Rosson. Música: Dimitri Tiomkin. Figurino: Walter Plunkett. Direção de arte/cenários: J. McMillan Johnson/James Basevi. Produção: David O. Selznick. Elenco: Jennifer Jones, Gregory Peck, Joseph Cotten, John Huston, Lillian Gish, Lionel Barrymore, Herbert Marshall. Estreia: 29/12/46

2 indicações ao Oscar: Atriz (Jennifer Jones), Atriz Coadjuvante (Lillian Gish)

Dinheiro não era problema: os constantes atrasos nas filmagens, a contratação (e demissão de sete diferentes diretores), as interferências diretas do produtor e o marketing agressivo ao custo então assombroso de dois milhões de dólares deixavam isso bem claro. A qualidade dramática também não parecia incomodar: cenas eram escritas e reescritas constantemente, e até mesmo refilmadas, mesmo que isso distanciasse a trama do romance original, escrito por Niven Busch. E as ambições eram bem exageradas: repetir o sucesso internacional (de crítica e público) de "... E o vento levou", lançado sete anos antes e imediatamente alçado à condição de clássico. Porém, nem sempre as coisas saem como o previsto, especialmente em Hollywood, e "Duelo ao sol" acabou se tornando mais lembrado por seus excessos (inúmeros) do que por suas qualidades (poucas, e nem sempre redentoras). Produzido por David O. Selznick no ápice de seu vício em anfetaminas e sofrendo de um sério problema dramático (a falta de carisma dos personagens centrais), o filme marcou época - foi um relevante êxito comercial, principalmente como resultado de sua farta campanha promocional e influenciou cineastas como Martin Scorsese e Pedro Almodóvar -, mas, visto sob uma ótica contemporânea, tem contornos escandalosamente machistas e racistas que nem mesmo a espetacular fotografia em Technicolor consegue amenizar.

Na verdade, o filme, oficialmente dirigido por King Vidor, sofre de uma séria tendência ao melodrama, com um enredo que poderia facilmente ser confundido com o de uma telenovela mexicana (não fosse tão eivado de preconceito racial): logo nas primeiras cenas, a protagonista, Pearl Chavez (Jennifer Jones em uma caracterização equivocada e excessivamente "étnica") praticamente testemunha o assassinato de sua mãe, morta por seu próprio pai quando flagrada com um amante. Depois da execução de seu pai, Pearl é mandada aos cuidados de uma prima distante, Laura Belle (a veterana Lillian Gish em seu único desempenho indicado ao Oscar). Laura vive em uma fazenda com o marido, o senador Jackson McCanles (Lionel Barrymore), e os dois filhos, de personalidades totalmente opostas: o caçula, Jesse (Joseph Cotten), acaba de terminar a faculdade de Direito, é educado, gentil e cavalheiresco; por sua vez, o mais velho, Lewton (Gregory Peck), é violento, bruto e pouco afeito a regras sociais. Ambos se sentem atraídos pela beleza selvagem de Pearl, mas, apesar de prezar a amizade de Jesse, ela acaba não resistindo a Lewton, com quem inicia uma relação baseada em sexo e quase obsessão - um relacionamento que não apenas irá contrapor os dois irmãos, mas também abalar todo o alicerce familiar.


Na pele de Pearl Chavez, a esposa de Selznick, Jennifer Jones, tem uma atuação que beira o exagero, apesar de ter sido indicada ao Oscar de melhor atriz. Assumindo o papel que seria de Teresa Wright - que saiu do projeto por estar grávida -, Jones acabou virando um dos focos do produtor, que via no filme a chance de oferecer a ela o mais emblemático trabalho de sua carreira (a despeito de Jones já ter uma estatueta em casa, por "A canção de Bernadette", de 1943). Para torná-la ainda mais atraente, Selznick chegou ao extremo de contratar o veterano diretor Joseph von Sternberg apenas para cuidar do visual da produção (leia-se da própria Jennifer). Não ajudou muito. Apesar de algumas sequências fotografadas com um Technicolor de ferir os olhos - especialmente crepúsculos e vastas paisagens -, "Duelo ao sol" não consegue deixar de ser extremamente cafona a maior parte do tempo, desde a concepção dos personagens até a plasticidade perceptivelmente kitsch dos cenários e figurinos. Gregory Peck, no auge da juventude, faz o que pode com um personagem francamente detestável, e só mesmo a ótima Butterfly McQueen (a Prissy de "... E o vento levou") para conseguir arrancar um pouco de humor do roteiro - ainda que faça praticamente o mesmo papel que fez no clássico de 1939.

Mas o pior de tudo é perceber como o roteiro trata de temas polêmicos sem a menor preocupação com o politicamente correto - termo longe de ser conhecido nos anos 1940. Não é que "Duelo ao sol" ignore todas as convenções: ele simplesmente faz questão de apresentá-las sob uma ótica de normalidade (o que, à época, poderia até não chocar ninguém, mas hoje em dia é absolutamente desprezível). No roteiro não faltam menções preconceituosas a respeito de indígenas (a protagonista é frequentemente tratada como "mestiça", em tom pejorativo) e imigrantes; a forma como Lewt trata Pearl é agressiva - a primeira noite de sexo entre eles é claramente um estupro - e, o que é pior, a trama é conduzida de modo a fazer o público torcer pelo romance abusivo (a ponto de Pearl apaixonar-se por ele justamente pelo jeito que ele a trata). Os atos de Lewt não são os atos de um homem apaixonado defendendo a mulher que ama, e sim o de um proprietário cuidando do que possui, uma mercadoria que precisa estar sempre a sua disposição. Sem disfarçar tais elementos francamente absurdos, o roteiro ainda peca por ser superficial e desnecessariamente longo, em mais uma tentativa de criar uma embalagem de épico para um filme que, apesar de ter seus fãs, é um dos mais discutíveis clássicos da velha Hollywood.

MENINOS DO BRASIL

MENINOS DO BRASIL (The boys from Brazil, 1978, Paramount Pictures, 125min) Direção: Franklin J. Schaffner. Roteiro: Heywood Gould, romance de Ira Levin. Fotografa: Henri Decae. Montagem: Robert E. Swink. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Anthony Mendleson. Direção de arte/cenários: Gil Parrondo/Vernon Dixon. Produção executiva: Robert Fryer. Produção: Stanley O'Toole, Martin Richards. Elenco: Gregory Peck, Laurence Olivier, James Mason, Lilli Palmer, Rosemary Harris, Steve Guttenberg, Bruno Ganz, Uta Hagen, Denholm Elliott. Estreia: 04/10/78

3 indicações ao Oscar: Ator (Laurence Olivier), Montagem, Trilha Sonora Original

Hoje em dia, com o cinema de posse de um dos temas mais fascinantes da ciência - e que algumas décadas atrás soava apenas como uma delirante trama de ficção científica - a clonagem humana já não tem o mesmo impacto junto às plateias que se acostumaram a efeitos visuais acachapantes e uma realidade ainda mais assustadora. Nos anos 70, porém, a ideia de criar um ser humano idêntico a outro através de experiências genéticas era um assunto novo e praticamente inexplorado pela sétima arte. Lançado em 1976, o romance "Meninos do Brasil", do escritor Ira Levin - autor também de "O bebê de Rosemary", que Roman Polanski levou às telas em 1968 - não apenas lançava mão de tal artifício quase inédito, mas o ligava a outro argumento igualmente atraente ao público de cinema: os crimes de guerra cometidos pelo nazismo durante e após a II Guerra Mundial. Usando como protagonista o temível e infame Josef Mengele - conhecido também como "Anjo da Morte" - a trama de seu livro logo interessou à Hollywood, que em cerca de um ano estreava sua adaptação com uma equipe de tirar o chapéu.

Na direção, Franklin J. Schaffner, já premiado com um Oscar pelo comando de "Patton - rebelde ou herói?" (70). Na trilha sonora, o também já oscarizado - por "A profecia" (76) - Jerry Goldsmith. No elenco, Gregory Peck e Laurence Olivier - homenageados pela Academia por "A luz é para todos" (47) e "Hamlet" (48), respectivamente. E como coadjuvantes, o sempre preciso James Mason (indicado três vezes ao Oscar) e os futuramente respeitados Denholm Elliot e Rosemary Harris. Com tanta gente boa em cena e uma história intrigante em mãos, não tinha como dar errado. E não deu. Bem recebido pela crítica, "Meninos do Brasil" acabou por ser indicado em três categorias do Oscar, incluindo melhor ator para Laurence Olivier - que também concorreu ao Golden Globe e foi eleito o melhor ator do ano pelo National Board of Review, empatado com Jon Voight, por "Amargo regresso". Um suspense adulto e sem medo de ir até as últimas consequências em seu desejo de alertar para os perigos da ciência quando em mãos erradas, o filme de Schaffner cria uma atmosfera sombria e um tom de thriller para conquistar a plateia desde seus minutos iniciais e, ao contrário de "Maratona da morte" (76) - que também tinha um nazista foragido e Laurence Olivier na receita  - não exige da plateia a paciência de esperar até o ato final para esclarecer todas as questões levantadas pelo roteiro bem amarrado de Heywood Gould.



Se em "Maratona da morte" o veterano Laurence Olivier vivia um criminoso de guerra atrás de um tesouro roubado dos judeus mortos nos campos de concentração, em "Meninos do Brasil" ele muda de lado, na pele de Ezra Lieberman, um conhecido caçador de nazistas que é procurado pelo jovem Barry Kohler (Steve Guttenberg em início de carreira) com a informação de que um grupo de oficiais da SS está mantendo reuniões em uma cidade do Paraguai, com objetivos ainda não descobertos. Colocando escutas em tais reuniões, Kohler descobre que os criminosos - liderados pelo infame Josef Mengele (Gregory Peck) - tem planos de assassinar 94 homens com a idade de 65 anos, moradores de diferentes países do planeta. Intrigado com o projeto, Lieberman assume a investigação do caso e passa a visitar os familiares das primeiras vítimas. Para sua surpresa e choque, ele descobre que todos os mortos tinham em comum filhos adotivos da mesma idade e impressionante semelhança física e de personalidade. Quando a extensão dos planos nazistas ficam claros - para seu choque e desespero - resta a ele tentar impedir sua realização, que pode mergulhar a humanidade novamente em um pesadelo genocida.

A princípio um filme alarmista e pouco verossímil, "Meninos do Brasil" conquista principalmente por não ter medo em assumir seu lado sensacionalista, mas o cobrindo com uma bem-vinda dose de seriedade. A interpretação de Gregory Peck como Mengele pode não ser a melhor de sua carreira - apesar dele mesmo considerá-la um de seus pontos altos - mas Laurence Olivier mostra, com seu Ezra Lieberman, porque era um dos grandes atores de sua geração. Com a saúde frágil durante as filmagens, ele entrega mais uma performance memorável, oferecendo sua credibilidade à uma trama que, em mãos menos competentes, poderia facilmente descambar para uma produção B. O cuidado de Schaffner em tratar a história com um suspense que não subestima a inteligência da plateia é louvável, assim como sua opção em revelar os desdobramentos da trama de forma a encaminhar tudo para um clímax envolvente e digno, que não decepciona nem apela a incoerências patéticas. Os "meninos do Brasil" do título são realmente apavorantes - e seu objetivo é de arrepiar, mesmo que tudo não passe de uma (brilhante) ficção. Inteligente, sério, assustador. "Meninos do Brasil" é um filme que se mantém atual apesar da idade - especialmente em um mundo tão chocantemente fascista que começa a se (re)desenhar.

domingo

A PROFECIA

A PROFECIA (The omen, 1976, 20th Century Fox, 111min) Direção: Richard Donner. Roteiro: David Seltzer. Fotografia: Gilbert Taylor. Montagem: Stuard Baird. Música: Jerry Goldsmith. Direção de arte: Carmen Dillon. Produção executiva: Mace Neufeld. Produção: Harvey Bernhard. Elenco: Gregory Peck, Lee Remick, David Warner, Billie Whitelaw, Harvey Stephens, Patrick Thoughton, Martin Benson. Estreia: 06/6/76 (Inglaterra)

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Canção ("Ave Satani")
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Original

Em 1976, filmes de terror não eram mais objetos de desprezo pelos produtores de Hollywood, especialmente se envolvessem a eterna discussão sobre a existência ou não do demônio. Com o sucesso de bilheteria e crítica de "O bebê de Rosemary" (68) e "O exorcista" (73) - que chegaram até a ganhar Oscar - qualquer estúdio que prezasse por sua conta bancária passou a ver o gênero como uma galinha dos ovos de ouro. A 20th Century Fox, no entanto, quase deixou a sua escapar: o roteiro de "A profecia", escrito por David Seltzer (unica e exclusivamente por motivos financeiros, como ele mesmo assume), havia sido rejeitado pelo estúdio e estava nas mãos da Warner Bros quando Richard Donner - então um diretor apenas de filmes para a televisão - decidiu que tinha total condição de fazer dele a sua estreia como cineasta. Empolgado com a história, convenceu o chefão Alan Ladd Jr. (filho do eterno Shane, de "Os brutos também amam") a recuperar os direitos de filmagem - aproveitando que a Warner optou por uma sequência de "O exorcista" - e, com um ator do porte de Gregory Peck como protagonista, criou aquele que seria seu primeiro grande sucesso comercial, em uma carreira que inclui "Superman, o filme" (78), "Os goonies" (85) e a cinessérie "Máquina mortífera" (que começou em 1987). Mas até que o filme finalmente estreasse, na estratégica data de 6 de junho de 1976 (666), ninguém poderia ter a certeza de que a empreitada daria certo - ou se ao menos chegaria às telas.

Como acontece frequentemente quando se trata de filmes de terror icônicos - caso de "O exorcista", principalmente - acontecimentos nos bastidores de "A profecia" deixaram muita gente com os nervos à flor da pele. O fato de Gregory Peck ter aceito o papel principal - de um embaixador que perdeu o filho recém-nascido e anos mais tarde se vê obrigado a tomar uma decisão que pai nenhum gostaria de tomar - foi o primeiro sinal de que um filme diferente estava por vir: o filho do ator havia cometido suicídio em 1975, e muitos não imaginavam que ele pudesse querer viver na tela uma história tão forte em termos emocionais. Foi o "sim" de Peck, no entanto, que avalizou o projeto junto aos produtores e a nomes como o de Lee Remick - indicada ao Oscar por "Vício maldito" (62). Com o prestigiado ator no elenco - com o salário diminuído, mas com um contrato que lhe renderia 10% da bilheteria do filme - Donner mostrava a todos que seu primeiro trabalho para o cinema não seria um filme de terror qualquer. E então começaram os tétricos incidentes.

Coincidência ou não, uma série de eventos estranhos tomou conta dos bastidores das filmagens. Aviões diferentes que levavam Gregory Peck e o roteirista David Seltzer para Londres foram atingidos por raios com poucas horas de diferença; o produtor Harvey Bernhard escapou por pouco de ser atingido por outro raio, quando estava em Roma; cães escalados para o filme atacaram seus treinadores sem razão aparente; o diretor Richard Donner foi atropelado e o hotel onde estava hospedado na capital inglesa foi alvo de um atentado à bomba praticado pelo IRA; um avião que deveria estar levando Peck de Israel para Los Angeles caiu, matando os cinco passageiros japoneses que estavam a bordo; e a namorada do técnico em efeitos visuais John Richardson foi decapitada em um acidente automobilístico em uma estrada da Holanda, perto de uma cidade chamada Ommen. Não foi por acaso que o Vaticano declarou-se francamente contra a produção e muitos roteiristas anteriores a Seltzer se recusaram a tomar parte no projeto. Mal sabiam que, apesar de tudo, "A profecia" se tornaria um dos maiores sucessos de bilheteria de 1976, daria origem a sequências e daria o único Oscar da carreira do músico Jerry Goldsmith - além de um desnecessário remake em 2006.


Acertadamente assumindo um tom sério e realista "A profecia" começa com uma tragédia familiar: Robert Thorn (Gregory Peck), embaixador dos EUA em Roma, descobre que seu filho recém-nascido morreu logo após o parto e, para impedir que sua esposa, Katherine (Lee Remick), saiba do acontecido, aceita assumir a paternidade de um bebê órfão, oferecido pelo dedicado padre que cuida da maternidade. Alguns anos depois, já alocados em Londres, estranhos acontecimentos começam a cercar a família, a partir do suicídio da jovem babá do pequeno Damien (Harvey Stephens) e da chegada do perturbado Padre Brennan (Patrick Troughton), que procura o político para alertá-lo sobre as reais origens do menino - que estaria ligado a uma profecia a respeito da chegada do anticristo. A princípio cético, aos poucos Thorn passa a desconfiar de que a verdade pode ser muito mais aterradora do que ele poderia supor, e, com a ajuda do fotógrafo (David Warner), parte em busca de uma solução menos trágica do que gostaria.

Pontuado pela oscarizada trilha sonora de Jerry Goldsmith e cercado de uma atmosfera sinistra que enfatiza o tom cru da narrativa, "A profecia" é um perfeito exemplar dos melhores filmes de terror já realizados em Hollywood. Sem apelar para alívios cômicos ou para sangue em excesso, Richard Donner acaba por construir um conto macabro e tenso, em que o público é conduzido por um caminho repleto de sustos e revelações macabras, que se aproveitam de uma base religiosa bastante conhecida - o Livro do Apocalipse - para atingir um nível perturbador e realista. Com interpretações seguras e inspiradas de Gregory Peck (em papel recusado por Charlton Heston, Roy Scheider e William Holden) e Lee Remick - além do estreante Harvey Stephens no papel do demoníaco Damien - e uma edição concisa e eficiente, é um clássico absoluto do gênero, capaz de causar tensão mesmo nesses tempos em que efeitos visuais e orçamentos milionários parecem mais importantes do que boas histórias. Um filme de terror que se leva a sério, o que faz uma imensa diferença!

quarta-feira

A PRINCESA E O PLEBEU

A PRINCESA E O PLEBEU (Roman holiday, 1953, Paramount Pictures, 118min) Direção: William Wyler. Roteiro: Ian McLellan Hunter, John Dighton (Dalton Trumbo). Fotografia: Henri Alekan, Frank F. Planer. Montagem: Robert Swink. Música: Georges Auric. Figurino: Edith Head. Direção de Arte: Hal Pereira, Walter Tyler. Produção: William Wyler. Elenco: Audrey Hepburn, Gregory Peck, Eddie Albert, Hartley Power, Harcourt Williams. Estreia: 21/8/53 (Londres)

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (William Wyler), Atriz (Audrey Hepburn), Ator Coadjuvante (Eddie Albert), Roteiro Original, Fotografia em P&B, Montagem, Figurino em P&B, Direção de Arte/Cenários em P&B, História Original
Vencedor de 3 Oscar: Atriz (Audrey Hepburn), Roteiro Original, Figurino em P&B
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Audrey Hepburn)


À primeira vista, a trama central de “A princesa e o plebeu” pode fazer lembrar – e muito – o enredo de “Aconteceu naquela noite”, vencedora comédia romântica dirigida por Frank Capra em 1934. Não é por acaso: o próprio Capra tinha intenções de comandar a história de amor entre um jornalista americano e uma jovem herdeira do trono de um país qualquer da Europa, jamais identificado no roteiro. Tinha, inclusive, escolhido seu par romântico, a ser formado por Cary Grant e Elizabeth Taylor e queria filmar em locação, ou seja, levar equipe inteira para Roma e acompanhar as aventuras de seus protagonistas com tudo a que tinha direito. Lógico que as coisas não aconteceram como o previsto: a companhia independente que o cineasta havia fundado com William Wyler e George Stevens andava mal das pernas em 1949 e o projeto – caro especialmente devido à sua logística internacional – acabou na mesa da Paramount. E foi então que tudo começou a mudar.

Capra foi o primeiro a pular fora da produção – um dos motivos de sua deserção foi o envolvimento do roteirista Dalton Trumbo, então investigado pela infame Comissão de Atividades Antiamericanas que caçava comunistas na comunidade hollywoodiana – e, com ele e com o ajuste do orçamento, a possibilidade de contar com Elizabeth Taylor, já uma estrela de primeira grandeza. Seu sócio, William Wyler – que já contava no currículo com o belo “Tarde demais”, que havia dado o Oscar de melhor atriz à Olivia de Havilland – não teve problemas em trabalhar com Trumbo, mas manteve pé na ideia inicial de Capra de realizar as filmagens na capital italiana. A Paramount acabou aceitando, mas com duas condições: nada do espetacular Technicolor desejado pelo diretor e tampouco uma atriz de cachê exorbitante no papel principal. Entra Audrey Hepburn.


Descoberta pela escritora francesa Colette para viver sua personagem Gigi na peça teatral homônima, Hepburn não tinha nenhum filme no currículo quando foi escolhida para viver a ingênua e travessa princesa Ann – que Wyler preferia ter entregue à Jean Simmons, cuja negativa quase cancelou o projeto. Seu olhar expressivo e seus modos delicados, porém, lhe garantiram a chance de protagonizar um dos maiores sucessos de bilheteria de 1953 – e que acabou por lhe render um Oscar e a admiração mundial de crítica e público, encantados por seu desempenho natural e sua beleza clássica e frágil. A seu lado, um Gregory Peck poucas vezes tão à vontade em um papel – ele também uma espécie de estreante, já que nunca havia feito uma comédia, entrou no elenco graças à desistência de Cary Grant (que, dependendo da fonte, recusou o papel por considerar-se velho demais para contracenar com Hepburn ou por achar que seu personagem seria eclipsado pela princesa voluntariosa interpretada por ela) e, por uma dessas artimanhas do destino, chegou à Itália em depressão pelo iminente fim de seu casamento e conheceu a francesa Veronique – com quem casou-se logo em seguida, para o resto da vida.

Romance na vida real, romance nas telas. Mesmo que a impossibilidade de filmar a capital italiana em cores – o que realçaria seu glamour e sua luminosidade – seja algo a se lamentar no resultado final, o equilíbrio mais que perfeito entre amor e humor do roteiro e a química excepcional entre os atores compensam suficientemente. Dalton Trumbo – que ganhou o Oscar mas só foi reconhecido oficialmente como tal décadas mais tarde, quando finalmente pode assumir a autoria do roteiro, assinado à época por Ian McLellan Hunter e John Dighton – construiu uma pequena pérola de comédia romântica, que usa e abusa dos elementos do gênero com inteligência e a devida dose de ironia. Hepburn vive Ann, uma jovem princesa que, em visita a várias capitais da Europa, resolve desaparecer da vista de seus protetores para experimentar os prazeres da vida de uma pessoa comum. Cansada dos enfadonhos compromissos oficiais que lhe ocupam os dias incessantemente, ela foge durante a noite e, assumindo outro nome e com o cabelo mais curto (que virou moda no Japão, o que é mais uma prova do alcance do sucesso do filme) dá de cara com o simpático americano Joe Bradley (Gregory Peck). Assim como o personagem de Clark Gable em “Aconteceu naquela noite”, Bradley é um jornalista com o emprego em risco e que, reconhecendo na jovem à sua frente a monarca que os jornais dizem estar levemente adoentada, resolve aproveitar-se da situação para ganhar uma bela grana. Com a ajuda de um amigo fotógrafo (Eddie Albert), ele assume o cargo de cicerone da garota pelas ruas de Roma enquanto ela aproveita as delícias do anonimato. Lógico que, também como no premiado filme de Frank Capra, ele se apaixona pela bela princesa e passa a questionar sua decisão de expor a verdade.

Sem pudor de utilizar de todos os elementos clássicos do gênero, o roteiro de Dalton Trumbo encontrou na direção de William Wyler a leveza e o frescor ideais, comprovando de vez o talento do cineasta em adaptar-se aos mais variados estilos de narrativa – ele ganharia seu próprio Oscar seis anos depois, pelo épico “Ben-hur” – e deixar seus atores brilharem com performances muito acima da média. Sua vontade de afastar-se de Hollywood (leia-se o governo americano e sua paranoia vermelha) por um tempo acabou por render a seu currículo uma das comédias românticas mais fascinantes e brilhantes de todos os tempos e o mérito de ter descoberto uma das maiores estrelas da sétima arte, eternizada para sempre sorridente pelas ruas romanas em uma motocicleta alugada. Coisa de mestre!

sexta-feira

QUANDO FALA O CORAÇÃO

QUANDO FALA O CORAÇÃO (Spellbound, 1945, Selznick International Pictures, 111min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Ben Hecht, adaptação de Angus MacPhall, romance "The house of Dr. Edwardes", de Frances Beeding. Fotografia: George Barnes. Música: Miklós Rozsa. Direção de arte: James Basevi. Produção: David O. Selznick. Elenco: Ingrid Bergman, Gregory Peck, Michael Chekhov, Leo G. Carroll, Rhonda Fleming. Estreia: 31/10/45

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alfred Hitchcock), Ator Coadjuvante (Michael Chekhov), Fotografia em P&B, Trilha Sonora Original (Drama ou Comédia), Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original (Drama ou Comédia) 

Poderia esperar-se tudo de um filme que reunisse a maestria técnica de Alfred Hitchcock, o surrealismo consagrado de Salvador Dali e as ainda revolucionárias ideias de Sigmund Freud. Mas "Quando fala o coração", o projeto que conseguiu tal proeza acabou por não assumir a importância devida na filmografia do mestre do suspense. Soterrado sob obras-primas incontestáveis como "Um corpo que cai", "Janela indiscreta" e "Psicose" - entre vários outros, ao gosto do freguês - o longa que misturou no mesmo pacote suspense, psicanálise e Ingrid Bergman acabou ficando marcado principalmente pela breve sequência imaginada por Dali, uma ideia de Hitchcock acatada pelo produtor David O. Selznick mais pelas possibilidades comerciais de tal encontro do que exatamente pela coragem de experimentação.

Levemente inspirado no romance "The house of Dr. Edwardes", de Frances Beeding - uma obra muito mais radical em termos de mergulho na loucura - "Quando fala o coração" surgiu basicamente da ideia de Hitchcock em flertar com a psicanálise, um assunto ainda pouco abordado pelo cinema. Com os direitos do livro comprados por 40 mil dólares e um elenco formado por escolhas que não eram as originais - Gregory Peck no lugar de Joseph Cotten e Cary Grant, e Ingrid Bergman substituindo Dorothy McGuire e até uma Greta Garbo não convencida pelo cineasta a abandonar sua precoce aposentadoria - o filme acabou por decepcionar muita gente. Hitchcock o considerava apenas "mais uma história sobre a caçada a um homem, mas dessa vez envolvida em psicanálise". O fotógrafo William Cameron Menzies, responsável pelas cenas criadas por Salvador Dali, pediu que seu nome fosse retirado dos créditos por não ter ficado satisfeito com o resultado final. O diretor não se contentou com a atuação de Gregory Peck - que por sua vez não se enquadrava com os métodos do cineasta, que ia de encontro à sua forma de construção de cada cena. E, não bastasse tudo isso, até mesmo o produtor Selznick teve sua cota de desgosto, implicando com a trilha sonora de Miklós Rozsa - que, por ironia, ganhou o Oscar da categoria, batendo a si mesmo pela partitura de "Farrapo humano" (que ele preferia).


Abrindo seu filme com uma citação de Shakespeare - "A culpa não está em nossas estrelas, mas em nós mesmos", de "Júlio César" - Hitchcock volta a utilizar uma história de amor como base para uma trama de suspense. É o amor que move a dra. Constance Peters (Ingrid Bergman) - psicanalista dedicada - quando ela descobre que o novo diretor do hospital psiquiátrico no qual trabalha, o misterioso dr. Edwardes (Gregory Peck), não é quem diz ser. Amnésico, ele assumiu a identidade do médico e passa a acreditar que o matou. Apaixonada, Constance junta-se a ele na busca pela verdade, e para isso, faz uso de seu conhecimento de psicanálise, assim como da ajuda de um antigo professor (Michael Chekhov, indicado ao Oscar de ator coadjuvante). Seu objetivo, além de descobrir quem é de verdade o homem que ama e os motivos de seu trauma, é desvendar o desaparecimento e a morte do verdadeiro diretor do hospital.

Longe do brilhantismo de seus melhores trabalhos, Hitchcock parece ter se apaixonado tanto pelas teorias psicanalíticas do roteiro de Ben Hetch que muitas vezes deixa que longos diálogos substituam a ação que tanto marcou sua trajetória. Mesmo que algumas sequências sejam uma amostra do melhor do cineasta - quando Constance encara o verdadeiro criminoso e a câmera mostra a arma que ele porta através de seu ponto de vista, por exemplo - é inegável que o resultado é aquém de seus grandes filmes. Centrando suas forças na atuação sempre forte de Ingrid Bergman e nas reviravoltas do roteiro, Hitch acaba por abdicar das maiores qualidades de seu cinema. Mas é claro que, em se tratando de quem é, ele jamais decepciona totalmente - qualquer filme seu, por menor que seja, sempre é uma aula de narrativa e técnica. É impossível não se envolver com seus personagens ou suas histórias - e contar com a ajuda luxuosa de Dali e Freud não tem como atrapalhar.

terça-feira

CABO DO MEDO

CABO DO MEDO (Cape fear, 1991, Amblin Entertainment, 128min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Wesley Strick, roteiro original de James E. Webb, romance de John D. MacDonald. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Henry Bumstead/Alan Hicks. Casting: Ellen Lewis. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Frank Marshall. Produção: Barbara De Fina. Elenco: Robert DeNiro, Nick Nolte, Jessica Lange, Juliette Lewis, Joe Don Baker, Robert Mitchum, Gregory Peck, Martin Balsam, Ileana Douglas. Estreia: 13/11/91

2 indicações ao Oscar: Ator (Robert DeNiro), Atriz Coadjuvante (Juliette Lewis)

Martin Scorsese é o cara! Quando lança um projeto pessoal - como "Taxi driver", "Touro indomável" ou "Os bons companheiros" - se supera em técnica e paixão. E até mesmo quando trabalha praticamente sob encomenda, deixa no chinelo qualquer um que se considere cineasta. "Círculo do medo", realizado em 1962, e dirigido por J. Lee Thompson é um belo suspense. Mas empalidece consideravelmente em comparação à refilmagem comandada por Scorsese. "Cabo do medo", a reinvenção produzida pela Amblin Entertainment de Steven Spielberg, é uma das experiências mais angustiantes dos anos 90, amparada por um assustador Robert DeNiro.

Na verdade o próprio Spielberg é quem tinha interesse em refilmar "Círculo do medo" e, depois que ele deixou o filme de lado para realizar "Hook, a volta do Capitão Gancho", teve que praticamente implorar a Scorsese que comprasse a ideia. Contando com a valiosa ajuda de DeNiro, o diretor de "ET" finalmente foi feliz - mas só depois que o roteiro inicial de Wesley Strick sofreu profundas transformações. Nas mãos de Scorsese a banal luta entre advogado e cliente vingativo tornou-se um claustrofóbico embate entre dois homens dispostos a qualquer coisa para atingir seus objetivos. Com elementos novos adicionados à mistura - como sexualidade reprimida, adultério e uma personalidade bem menos unidimensional a seus protagonistas - o filme tornou-se a maior bilheteria da carreira do cineasta até "Os infiltrados", de 2006.

Quando "Cabo do medo" começa, Max Cady (Robert DeNiro, indicado a mais um Oscar por uma atuação apavorante) está saindo da cadeia, depois de passar 14 anos preso por estupro. Analfabeto à época de sua condenação, o violento agressor utilizou seu período de condenação para aprender a ler e estudar, descobrindo, nesse meio-tempo, que seu advogado de defesa, Sam Bowden (Nick Nolte em papel oferecido a Harrison Ford e Robert Redford) escondeu documentos que poderiam ter lhe amenizado o veredicto - ou até mesmo absolvê-lo. No momento de sua libertação, então, só o que lhe passa pela doentia mente é vingar-se de Bowden e, para isso, ele inicia um processo de violência psicológica contra ele e sua família, formada pela esposa, Leigh (Jessica Lange) e pela filha adolescente Danielle (Juliette Lewis). Passando por uma crise - despertada pela infidelidade conjugal de Sam - a estrutura familiar aparentemente sólida começa a ruir diante da fúria de Cady, que não mede esforços em direção a realizar sua missão.

A diferença entre "Cabo do medo" e dezenas de outros suspenses que fazem a festa dos programadores dos sábados televisivos é justamente o comando certeiro de Martin Scorsese. Dono de uma sensibilidade ímpar e de uma inteligência acima da média - além de uma cultura cinematográfica de cair o queixo - Scorsese imprime em seu filme uma personalidade inconfundível. Além de assustar o espectador em diversos momentos - afinal, um filme de suspense pede por isso - ele acrescenta à história uma densidade quase palpável. A trilha sonora tonitruante de Elmer Bernstein - que utiliza trechos da obra que Bernard Herrmann criou para o filme original - é tensa, forte e marcante, surgindo sempre como uma ameaça, um comentário ou um aviso de que Max Cady, com todo o seu ódio, está à espreita. A fotografia quente de Freddie Francis localiza com perfeição a trama no sul dos EUA - um lugar onde o medo já é costume, como bem diz uma personagem acostumada a sua terra natal. E o fato da família Bowden dessa nova versão não compartilhar da mesma felicidade de margarina do primeiro filme proporciona ao espetáculo um senso de realidade e modernidade que, ao contrário de distorcer a ideia inicial do romance de John D. MacDonald, apenas colabora em lhe dar mais profundidade.


E a profundidade do roteiro de Strick encontra no elenco escolhido por Scorsese um amparo espetacular. Enquanto DeNiro dispensa qualquer tipo de comentário, com uma atuação que supera qualquer expectativa - apesar de algumas críticas terem-no considerado um pouco exagerado. Nick Nolte transmite a angústia e a perplexidade de Sam Bowden com a segurança que seus vários anos de carreira lhe garantem e Jessica Lange vive uma Leigh equilibrada entre a fragilidade feminina e a força absoluta da maternidade. Gregory Peck e Robert Mitchum, atores da primeira versão do filme, participam em pequenas cenas, em uma homenagem carinhosa dos produtores. Mas é Juliette Lewis quem se destaca mesmo diante de seus consagrados colegas de cena. Indicada ao Oscar de coadjuvante aos 17 anos, ela abiscoitou o papel para o qual foram testados nomes como Reese Witherspoon, Jennifer Connelly e Winona Ryder e se revelou uma das grandes promessas do início da década de 90. A cena em que sua Danielle Bowden é praticamente seduzida por Cady em um cenário de peça de teatro infantil é um primor de sutileza, tensão e erotismo, uma ambivalência que perpassa todo o filme.

"Cabo do medo" pode ser assistido como um filme de suspense dos bons - com uma força crescente a cada sequência. Mas psicologicamente ele vai anda mais longe, discorrendo, ainda que discretamente, sobre complexo de Édipo, taras sexuais, frustrações eróticas e o suave equilíbrio entre o certo e o errado. É uma experiência única, como somente um diretor do porte de Scorsese é capaz de proporcionar.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...