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quarta-feira

FILHOS DA GUERRA

FILHOS DA GUERRA (Europa, Europa, 1990, Bayerischer Rundfunk/Filmforderungsantalt, 112min) Direção: Agnieszka Holland. Roteiro: Agnieszka Holland, livro de Salomon Perel. Fotografia: Jacek Petrycki. Montagem: Ewa Smal, Isabelle Lorente. Música: Zbigniew Priesner. Figurino: Wieslawa Starska, Malgorzata Stefaniek. Direção de arte/cenários: Allan Starski/Ewa Braun, Anna Kowarska. Produção: Artur Brauner, Margaret Ménégoz. Elenco: Marco Hofschneider, Julie Delpy, Hanns Zischler, André Wilms, Ashley Wanninger. Estreia: 14/11/90

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro 

Em algumas ocasiões, por mais qualidades que um filme tenha, são situações alheias a ela que acabam por ficar marcadas em sua trajetória. É o caso de "Filhos da guerra", uma produção alemã dirigida pela polonesa Agniezska Holland que enfrentou o descaso das autoridades germânicas em seu lançamento e acabou não apenas por tornar-se uma das maiores bilheterias de filmes internacionais nos EUA, mas também por arrebatar uma série de prêmios da crítica - incluindo o Golden Globe de melhor filme estrangeiro e uma indicação ao Oscar de roteiro adaptado. Elogiado por onde passou e com respeitáveis 3,5 milhões de dólares de renda no mercado norte-americano - normalmente hermético a filmes legendados -, "Filhos da guerra" volta seu olhar a uma inacreditável história real ocorrida em meio à II Guerra Mundial, e trata, com sensibilidade, a capacidade humana de adaptar-se a situações adversas quando confrontado com a possibilidade da morte.


Com base no livro autobiográfico de Salomon Perel, o roteiro, escrito pela diretora, atravessa o período entre 1938 e 1945, quando seu protagonista, ainda adolescente, se vê diante dos horrores da II Guerra Mundial. Filho de judeus poloneses, ele e seu irmão mais velho saem da Alemanha temendo os horrores do antissemitismo, mas acabam separados no caminho rumo à Rússia. Sozinho e torturado pelas lembranças da invasão de seu apartamento, Salomon é internado em um orfanato comunista, onde torna-se parte de uma doutrina que acredita que "religião é o ópio do povo". Em seguida, confundido com um nazista, aceita se passar por ariano e torna-se parte do exército, como intérprete. Sempre à beira do pânico de ser descoberto, Salomon esconde sua circuncisão a todo preço - mesmo quando é assediado por um superior e se apaixona por Leni (Julie Delpy), uma jovem alemã com quem ele evita intimidades sexuais.


Vencedor de melhor filme estrangeiro pelos críticos de Kansas, Los Angeles e Nova York e pelo National Board of Review (que também o incluiu em sua lista dos de melhores do ano), "Filhos da guerra" segue o caminho inverso da maioria dos filmes do gênero, ao concentrar-se mais nos bastidores do conflito entre judeus e nazistas do que às batalhas em si. Mesmo as cenas mais violentas acontecem sob o ponto de vista do protagonista, interpretado pelo competente (mas nunca excelente) Marco Hofschneider. O foco do roteiro de Holland são as relações de Salomon com as situações que se apresentam e a forma com que ele lida com elas: ao moldar-se a cada uma, o personagem vai perdendo a própria identidade, ainda que ela nunca seja esquecida. O filme se utiliza da circuncisão do jovem como ponto de retorno a suas origens, como algo que ele não consegue esconder sem muita dor e sofrimento - e que pode afastá-lo de uma vida plena e sincera. Suas tentativas de sobreviver à perseguição aos judeus são cercadas de paranoia, desconfiança e uma constante sensação de não pertencimento, tudo conduzido com extrema sensibilidade pela cineasta que se tornaria famosa pela direção de uma nova versão do clássico "O jardim secreto" (lançada em 1993) e pelo irregular "Eclipse de uma paixão" (1995), estrelado pelo então ascendente Leonardo DiCaprio.

É fácil compreender o sucesso de "Filhos da guerra", tanto em termos comerciais quanto de crítica. Além do assunto ser caro às plateias, a direção de Agnieszka Holland insiste em um registro universal, questionando até que ponto uma pessoa é capaz de ir para garantir a própria sobrevivência. Ainda que soe um tanto superficial em vários momentos - opção da diretora em deixar a violência apenas como pano de fundo -, o filme conquista principalmente devido à atuação de Hofschneider, cujo carisma compensa a inexperiência. Seu olhar desesperado quando posto diante de situações diz muito mais do que diálogos longos, e Holland explora ao máximo a sutileza, como que a sublinhar a delicadeza ainda viva dentro do rapaz mesmo depois de tanta desgraça. Seu final abrupto pode incomodar, mas no balanço final, "Filhos da guerra" é um filme de suma importância, apesar das palavras do governo alemão, que recusou-se a inscrevê-lo para uma disputa no Oscar porque "não representava mais a nação germânica". Haja visto o enorme êxito do filme junto aos críticos - e ao extremo interesse da Academia em seu fundo histórico - pode-se apenas lamentar a visão de pouco alcance das autoridades locais, que traduziu a pouca bilheteria do filme na Alemanha em rejeição absoluta. Sorte das plateias que desafiaram sua percepção e encontraram um filme delicado e emocionante.

domingo

DUNKIRK

DUNKIRK (Dunkirk, 2017, Warner Bros, 106min) Direção e roteiro: Christopher Nolan. Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Emmanuel Delis. Produção executiva: Jake Myers. Produção: Christopher Nolan, Emma Thomas. Elenco: Tom Hardy, Mark Rylance, Kenneth Branagh, Cillian Murphy, James D'Arcy, Barry Keoghan, Tom Glynn-Carney, Jack Lowden, Harry Stiles. Estreia: 13/7/17

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Christopher Nolan), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Edição de Som, Mixagem de Som, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Oscar: Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som 

Quando chamou a atenção do público pela primeira vez, ele lançou "Amnésia" (2001), que se tornou um dos maiores sucessos do cinema independente da década. Quando quis fazer um filme de super-herói, assinou a trilogia "O Cavaleiro das Trevas", que rendeu milhares de dólares e elevou o patamar dos filmes baseados em quadrinhos. Quando brincou de ficção científica, arrasou com "A origem" (2010) e "Interestelar" (2014), dois filmes muito acima da média do cinema mainstream feito em Hollywood. Por isso, não foi surpresa para ninguém quando Christopher Nolan anunciou que faria um filme sobre um dos episódios mais famosos da II Guerra Mundial e chegou com "Dunkirk": realizado com estimados 100 milhões de dólares (um custo razoável para uma produção de grande porte) e sem nenhum astro de primeira grandeza para garantir o retorno do investimento, o filme de Nolan tornou-se mais um fenômeno em sua carreira, ultrapassando a marca dos 500 milhões de dólares em arrecadação mundial - e, de quebra, arrebatou oito indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e direção. Foi a consagração definitiva de uma obra que dosa, com habilidade de mestre, arte e entretenimento, diversão e inteligência, emoção com técnica. Lançado em pleno verão americano - período em que o público notoriamente prefere produções menos sérias e mais populares -, "Dunkirk" mostrou que, às vezes, não subestimar o cérebro da plateia pode dar muito certo.

Fugindo do tradicional formato narrativo, que acompanha um protagonista através de uma trajetória na qual se identificam claramente princípio, meio e fim, o roteiro de Nolan abraça uma outra forma de contar sua história - e que exige muito mais de sua plateia do que simplesmente sentar diante da tela e seguir uma trama. Estruturando o filme em três frentes distintas - ar, mar e terra - e dividindo seu enredo em personagens e tempos diferentes, "Dunkirk" é uma viagem sem trégua, um mergulho radical na sensação mais absoluta de estar em uma guerra. Se em "O resgate do soldado Ryan" (1998) o diretor Steven Spielberg jogava o espectador no meio do desembarque na Normandia (o famoso Dia D) sem maiores preliminares, em seu filme Nolan parece querer expandir ainda mais a experiência, atingindo níveis brutais de realismo, sublinhado pelo formato 70mm (raramente utilizado desde o surgimento de câmeras digitais), pela forte trilha sonora de Hans Zimmer e pelo desenho de som, que intercala momentos milimetricamente concebidos para causar impacto com outros de um silêncio avassalador. Tecnicamente impecável - saiu vitorioso da festa do Oscar nas categorias de edição, edição de som e mixagem de som, estatuetas merecidíssimas - e apresentado sem apelos emocionais, "Dunkirk" é um filme de guerra à moda antiga, mas realizado com todos os recursos que um orçamento generoso e efeitos de última geração podem comprar.



Ainda que não seja mandatório, é bom que se saiba um mínimo de História - mais especificamente sobre a II Guerra Mundial - para melhor se deixar seduzir pela trama de Nolan. O roteiro trata da retirada estratégica (para uns considerada derrota, para outros uma vitória moral) dos exércitos britânico e francês da cidade de Dunkirk, como forma de escapar dos cada vez maiores e mais frequentes ataques alemães, em 1940. A única saída disponível para o soldados era pelo mar, e, em situação de total desvantagem, os ingleses apelaram até mesmo para embarcações civis que pudessem colaborar na evacuação de centenas de homens. É nesse ponto que a trama se concentra em Dawson (Mark Rylance), que, contrariando as ordens superiores, resolve ele mesmo comandar seu barco, ao lado do filho adolescente, Peter (Tom Glyne-Carney), e do amigo deste, George (Barry Keoghan). No trajeto em direção à praia, eles resgatam um misterioso e traumatizado soldado (Cillian Murphy) que entra em pânico ao descobrir que a embarcação está se dirigindo justamente de onde ele fugiu. E se no mar os problemas são uns, por terra eles também não são poucos. Tentando salvar-se de uma morte certa e juntar-se aos demais soldados que aguardam ajuda, o jovem Tommy (Fionn Whitehead) une-se a outros dois colegas, Gisbson (Aneurin Barnard) e Alex (Harry Stiles), e os três passam por uma série de dificuldades inesperadas, que surgem sempre que eles acreditam estar a salvo - e sob a proteção do Comandante Bolton (Kenneth Branagh).

E por fim, também no ar as coisas estão complicadas: depois de perder seu líder, abatido por aviões inimigos, os pilotos Farrier (Tom Hardy) e Collins (Jack Lowden) enfrentam sérios problemas em defender seus aliados - e desviar de um destino semelhante a seu superior. Quando o avião de Collins cai no mar, ele acaba se tornando parte ainda maior do problema - e o ponto de intersecção entre as três linhas narrativas criadas pelo cineasta. Confiando plenamente no material que tem em mãos, Christopher Nolan apresenta ao público um espetáculo de violência sem que, para isso, seja necessário explicitá-la com vísceras e sangue em excesso. É um filme de imersão, no qual a plateia simplesmente embarca, como em uma montanha-russa das mais emocionantes. Talvez seu único defeito seja justamente optar por um viés menos pessoal e mais amplo do evento - o que diminui o impacto humano que um filme de guerra normalmente abraça e sublinha o barulho, o visual (graças à bela fotografia de Hoyte Van Hoytema) e a falta de noção temporal que um conflito provoca. Nesse ponto, é uma obra-prima incontestável que confirma (mais uma vez) o talento absurdo de seu criador.

segunda-feira

A GUERRA DE HART

A GUERRA DE HART (Hart's war, 2002, MGM Pictures, 125min) Direção: Gregory Hoblit. Roteiro: Billy Ray, Terry George, romance de John Katzenbach. Fotografia: Alar Kivilo. Montagem: David Rosenbloom. Música: Rachel Portman. Figurino: Elisabetta Beraldo. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Patrick Cassidy. Produção executiva: Wolfgang Glattes. Produção: David Foster, Gregory Hoblit, David Ladd, Arnold Rifkin. Elenco: Bruce Willis, Colin Farrell, Terrence Howard, Cole Hauser, Linus Roache, Marcel Iures, Vicellous Shannon, Sam Jaeger, Rory Cochrane, Sam Worthington, Adrian Grenier. Estreia: 15/02/02

Parecia que tudo estava no caminho certo: um ator veterano (Bruce Willis) com a carreira ressuscitada por um imenso sucesso comercial ("O sexto sentido", de 1999), um jovem astro em ascensão (Colin Farrell, revelado por Joel Schumacher em "Tigerland: a caminho da guerra", de 2000), um assunto sempre fascinante e capaz de despertar a atenção do público (a II Guerra Mundial) e um gênero querido pela plateia desde sempre (filmes de tribunal) - dirigido por um cineasta que já tinha experiência no ramo (Gregory Hoblit, que assinou o ótimo "As duas faces de um crime", de 1996). Alguma coisa, porém, não correu como o esperado para "A guerra de Hart": com um custo estimado de 70 milhões de dólares, o filme simplesmente se espatifou nas bilheterias americanas (rendeu menos de 20 milhões em toda a sua carreira comercial) e não cativou nem mesmo o público internacional (arrecadou pouco mais de 13 milhões em todo o mundo). Não bastasse o fracasso financeiro, a crítica igualmente não ficou entusiasmada com o resultado final - e a produção acabou sendo relegada a um tímido segundo plano nas trajetórias de seus dois atores principais. O pior é que, ao contrário de muitos fracassos injustos que volta e meia assombram Hollywood, "A guerra de Hart" mereceu seu destino: apesar dos valores de produção caprichados, é um filme preguiçoso e sonolento, que não acrescenta nada ao gênero.

Baseado em um romance de John Katzenbach - livro, aliás, que um dos roteiristas, Billy Ray, admite não ter lido, uma vez que embarcou no projeto quando várias versões da trama já existiam, escritas pelo veterano Terry George - e inspirado pelo tempo em que o pai do escritor, Nicholas Katzenbach, passou como prisioneiro durante a II Guerra Mundial, "A guerra de Hart" se ressente, também, de um foco narrativo mais claro. Ao misturar vários gêneros, acaba se perdendo em um emaranhado de reviravoltas e tentativas de clímax que, ao contrário de surpreender o espectador, apenas deixam a estória ainda mais confusa e sem sentido. Começa como um drama de guerra, transforma-se em um filme de tribunal e acaba com uma mistura muito estranha dos dois estilos - com um desfecho morno que desperdiça até mesmo o talento de coadjuvantes excelentes, como Terrence Howard e Marcel Iures, perdidos em um texto quase esquizofrênico.


A trama se passa no final da II Guerra, quando o jovem Tenente Tommy Hart (Colin Farrell) é capturado por soldados alemães e, depois de alguns dias preso e interrogado, é enviado a um campo de prisioneiros, onde trava contato com o Coronel William McNamara (Bruce Willis) - o oficial superior que ainda mantém sua autoridade sobre os soldados norte-americanos aprisionados. Não demora muito para que Hart, um burocrata da guerra, perceba a realidade do conflito mesmo dentro de sua estalagem - onde colegas não são exatamente exemplos de solidariedade e companheirismo. As coisas ficam ainda mais explosivas quando chegam ao local dois pilotos negros, Lincoln Scott (Terrence Howard) e Lamar Archer (Vicellous Reon Shannon), uma presença inesperada que deixa bem claro o tom racista dos soldados e oficiais. A morte injusta de Archer e a prisão de Scott - acusado de assassinar um colega - acentuam a tensão, especialmente quando McNamara convoca Hart (um estudante de Direito) a ser o advogado de defesa de Scott em uma corte marcial. O julgamento começa, sob a supervisão do comandante alemão Oberts Werner Visser (Marcel Iures) - mas nem tudo é exatamente o que parece, e Hart irá precisar de todo o seu código de ética para desviar-se de um veredicto já facilmente previsível.

A princípio um projeto de Alfonso Cuarón, "A guerra de Hart" acabou nas mãos de Gregory Hoblit quando o cineasta mexicano optou por uma produção mais pessoal, o elogiado "E sua mãe também" - que lhe valeu uma indicação ao Oscar de roteiro original. A entrada de Hoblit, porém, parecia um tiro certo - logo que entrou em cena, nomes como Edward Norton e Tobey Maguire foram cotados para integrar o elenco, no papel que mais tarde ficaria com Colin Farrell, um nome que começava a tornar-se conhecido do público, principalmente por dividir a tela com Tom Cruise em "Minority report: a nova lei", dirigido por ninguém menos que Steven Spielberg. Farrell, no entanto, não poderia imaginar que seria tão subaproveitado: sofrendo ao tentar dar dignidade e coerência a um roteiro indeciso, o ator irlandês não consegue nem ao menos demonstrar o carisma revelado em seus trabalhos anteriores, preso a uma direção frouxa e um personagem incapaz de conquistar a torcida do espectador - e também não ajuda ter Bruce Willis no piloto automático e um final decepcionante. No fim das contas, "A guerra de Hart" é um filme que tinha tudo para marcar época mas que terminou vítima de uma grave crise de identidade. Só recomendado para os fãs incondicionais dos atores!

sábado

OS GRITOS DO SILÊNCIO

OS GRITOS DO SILÊNCIO (The killing fields, 1984, Goldcrest Films International, 141min) Direção: Roland Joffé. Roteiro: Bruce Robinson. Fotografia: Chris Menges. Montagem: Jim Clark. Música: Mike Oldfield. Figurino: Judy Moorcroft. Direção de arte/cenários: Roy Walker. Produção: David Puttnam. Elenco: Sam Waterston, Haing S. Ngor, John Malkovich, Julian Sands, Craig T. Nelson. Estreia: 02/11/84

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Roland Joffé), Ator (Sam Waterston), Ator Coadjuvante (Haing S. Ngor), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem
Vencedor de 3 Oscar: Ator Coadjuvante (Haing S. Ngor), Fotografia, Montagem
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Haing S. Ngor) 

Alguns críticos reclamaram de sentimentalismo, mas é inegável que a utilização da bela "Imagine", do cantor John Lennon na cena final de "Os gritos do silêncio" é um choque dos mais bem-vindos: sua letra utópica e sua melodia delicada fazem um contraste sublime com a violência, a dor e o desespero mostrados pelo cineasta Roland Joffé em quase duas horas e meia de duração. Um comentário otimista à dureza da história contada, a música do ex-beatle encerra uma jornada das mais intensas do cinema da década de 80, um grito contra a guerra e suas consequências nefastas e um filme que justificou plenamente - em termos cinematográficos - todos os elogios e prêmios que conquistou, incluindo as sete indicações ao Oscar e suas três merecidas estatuetas. Uma história real escrita pelo jornalista Sydney Schanberg e adaptada para as telas por Bruce Robinon, "Os gritos do silêncio" ainda mantém sua força de denúncia e sua grande capacidade de emocionar - em especial graças à honestidade que emana de cada uma de suas sequências.

Nitidamente apaixonado pela história de seu primeiro longa-metragem - e que já havia sido cobiçada por ninguém menos que Stanley Kubrick -, Roland Joffé mergulha sem reservas em um pesadelo claustrofóbico, adiantando em alguns anos o que Oliver Stone faria com seus filmes sobre a Guerra do Vietnã (e, sem dourar a pílula, escancarando um dos mais sangrentos e dolorosos episódios do século XX). Com uma narrativa crua e direta, Joffé abandona o lirismo de Francis Ford Coppola e seu "Apocalypse now" (79) para criar, com a ajuda da oscarizada fotografia de Chris Menges, um filme que trai seu passado de documentarista e suas preocupações político-sociais através de um visual sujo, realista e sem retoques. O público até pode demorar a embarcar na viagem - seu primeiro ato não deixa de ser um tanto confuso, justamente para dar a sensação de urgência e desespero dos personagens -, mas depois que isso acontece é impossível ficar indiferente. "Os gritos do silêncio" é uma obra repleta de grandes acertos - e os maiores estão diante do espectador, nas figuras inesquecíveis de seus atores principais, Sam Waterston e Haing S. Ngor.


Praticamente desconhecido à época do lançamento, Waterston foi uma aposta ousada e corajosa do diretor e seu produtor, David Puttnam, que desafiaram o desejo do estúdio de ter um astro de maior popularidade encabeçando o elenco. Nomes dispostos a encarar o desafio não faltavam: Dustin Hoffman, Roy Scheider e Alan Arkin foram alguns dos atores interessados, mas todos eles acabavam desistindo diante dos perigos que poderiam correr durante as filmagens na Tailândia - na verdade, perigos devidamente ampliados por Joffé e Puttnam como forma de desencorajar os intérpretes que poderiam ameaçar sua escolha por Waterston. No final das contas, a aposta deu muito certo - em um trabalho discreto mas extremamente eficaz, Waterston é capaz de transmitir toda a vasta gama de emoções de seu personagem (coragem, medo, indignação, remorso, orgulho, saudade) sem precisar apelar para excessos de qualquer tipo. Sua atuação lhe rendeu uma indicação ao Oscar e ao Golden Globe - e um dos papéis mais consistentes de sua carreira. Na pele do jornalista Sydney Schanberg, correspondente do New York Times na Guerra do Camboja do começo dos anos 70, ele serve como reflexo do espectador, tomando contato com um mundo de violência extrema e regras arbitrárias que põem a sua vida e de seus colegas em risco - especialmente a de seu intérprete local, Dith Pran, que se separa da própria família para ficar ao lado do repórter no pior momento do conflito. Pran, um homem íntegro e corajoso, é a segunda metade de um par inesquecível das telas... principalmente quando se sabe a história por trás do ator que lhe dá vida, Haing S. Ngor.

Formado em Medicina no Camboja, Ngor se viu obrigado a esconder sua condição por saber que os soldados do Khmer Vermelho - que invadiram o país em 1975 - estavam assassinando pessoas de nível intelectual superior contrários à sua ideologia. Isso não impediu, no entanto, que ele fosse preso e torturado, além de ter perdido a mulher e o filho recém-nascido na hora do parto (a esposa não quis chamá-lo para não denunciar sua profissão). Depois de fugir para a Tailândia e os EUA, foi escolhido por Joffé para interpretar Dith Pran - e só aceitou o papel que lhe trazia tantas más recordações porque o cineasta estava com imensas dificuldades em encontrar um ator cambojano para o filme, uma vez que a política do Khmer também perseguia artistas. O resultado não poderia ter sido mais satisfatório, porém: unanimemente elogiado pela crítica, Ngor levou pra casa o Golden Globe e o Oscar de ator coadjuvante (segunda vez na história do prêmio em que a estatueta ficava com um ator não-profissional).

O fato é que a mistura de narrativa semidocumental com um elenco afiado - que conta com um jovem John Malkovich em papel coadjuvante - faz de "Os gritos do silêncio" um filme obrigatório. Forte, doloroso e pungente, mas igualmente imprescindível como retrato da desumanidade da guerra. Um enorme acerto de Roland Joffé já em seu primeiro trabalho em longa-metragens.

quarta-feira

ATÉ O ÚLTIMO HOMEM

ATÉ O ÚLTIMO HOMEM (Hacksaw Ridge, 2016, Summit Entertainment/Cross Creek Pictures, 139min) Direção: Mel Gibson. Roteiro: Robert Schenkkan, Andrew Knight. Fotografia: Simon Duggan. Montagem: John Gilbert. Música: Rupert Gregson-Williams. Figurino: Lizzy Gardiner. Direção de arte/cenários: Barry Robison/Rebecca Cohen. Produção executiva: Michael Bassick, Lawrence Bender, Len Blavatnik, Stuart Ford, David Greathouse, Eric Greenfeld, Lenny Kornberg, Mark C. Manuel, Rick Nicita, Ted O'Neal, Buddy Patrick, Lauren Selig, Tyler Thompson, James M. Vernon, Suzanne Warren, Christopher Woodrow. Produção: Terry Benedict, Paul Currie, Bruce Davey, William D. Johnson, Bill Mechanic, Brian Oliver, David Permut. Elenco: Andrew Garfield, Sam Worthington, Hugo Weaving, Rachel Griffiths, Vince Vaughn, Richard Roxburgh. Estreia: 04/9/16 (Festival de Veneza)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mel Gibson), Ator (Andrew Garfield), Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 2 Oscar: Montagem, Mixagem de Som

Quando surgiu para o grande público, no final dos anos 70, como o protagonista de "Mad Max" (79) e suas duas sequências, o australiano Mel Gibson tornou-se, instantaneamente, no astro de filmes de ação que os produtores pediram a Deus: bonito a ponto de ser vendido também como símbolo sexual (ao contrário de Stallone e Schwarzenegger), talentoso e carismático. Na década de 80, confirmou o status de ídolo com a trilogia "Máquina mortífera" e, nos anos 90, mostrou o lado sensível de diretor de filmes como "O homem sem face" (93) e "Coração valente" (95) - que lhe rendeu os Oscar de filme e direção. Nesse meio-tempo, em que arriscou até mesmo um Shakespeare dirigido por Franco Zefirelli - "Hamlet", de 1990 -, Gibson foi construindo uma carreira invejável, repleta de sucessos de bilheteria e um prestígio que poucos poderiam prever quando de sua chegada em Hollywood. Se havia alguém que poderia estragar sua ascensão, esse alguém era ele mesmo - e ele não hesitou em tomar providências a esse respeito. Se na década de 90 já havia criado polêmica com declarações homofóbicas (que mesmo assim não chegaram a arranhar seu sucesso), ele teve que lidar, nos primeiros anos do novo século, tanto com um surpreendente e imenso êxito profissional quanto com o quase fim de sua carreira - uma situação criada por ele mesmo.

O êxito veio com a bilheteria monstruosa e inesperada de "A paixão de Cristo" (2004) - um projeto ambicioso, violento, visceral e arriscado que arrecadou mais de 600 milhões de dólares mundo afora, a despeito de seu tom antissemita. E foi antissemitismo também que ajudou a cavar o buraco no qual Gibson cairia em seguida: somadas a acusações de violência doméstica e brigas com autoridades policiais, declarações controversas do ator/diretor o empurraram diretamente para um ostracismo que parecia definitivo - em poucos anos Gibson passou de um dos mais quentes nomes de Hollywood a um pária cujos filmes fracassavam em todos os níveis. Mas, assim como sabe destruir uma carreira, a indústria de cinema também sabe perdoar quando quer - e eis que, dez anos depois de seu último trabalho como diretor, o ousado "Apocalypto", Mel Gibson se viu finalmente digno de uma segunda chance entre seus colegas. Indicado a 6 Oscar - incluindo melhor filme e diretor - o drama de guerra "Até o último homem" não apenas conquistou a Academia (que lhe premiou com as estatuetas de montagem e mixagem de som) como marcou seu reencontro com o público - com uma renda mundial estimada em mais de 175 milhões de dólares, seu filme parece ter sido a melhor maneira de acenar por uma trégua. O melhor da história toda? O filme merece.



Inspirado em uma quase inacreditável história real, "Até o último homem" volta a mostrar o lado religioso de Gibson - que novamente equilibra um tom espiritual e sequências de extrema violência, ainda que menos gráficas do que as mostradas em "A paixão de Cristo". Ao contrapor a crueldade da guerra à religiosidade de seu protagonista, o diretor ameniza a truculência de algumas imagens e entrega ao espectador um conto empolgante a respeito da força da fé e do idealismo. Mesmo sem soar excessivamente messiânico, o roteiro deixa explícitas as razões que movem seu personagem central e, graças a uma interpretação absolutamente impecável de Andrew Garfield (merecidamente indicado ao Oscar de melhor ator), faz com que a plateia compactue com elas e se envolva na trama sem reservas. Um filme de guerra onde a guerra em si só dá as caras no terceiro ato - e como cenário para um desfecho emocionante -, "Até o último homem" é um triunfo como cinema: pode-se dizer até mesmo que é o melhor e mais maduro trabalho de Gibson como cineasta, unindo no mesmo pacote uma história bem contada, sequências de guerra orquestradas com capricho, uma técnica invejável e um elenco inspirado.

Garfield - que no mesmo ano esteve em "Silêncio", de Martin Scorsese, provando sua versatilidade - é o corpo e a alma de "Até o último homem". Ele interpreta o protagonista, Desmond Doss, com uma garra e uma paixão que salta da tela direto ao coração da plateia. Desmond é um dos dois filhos de Tom Doss (Hugo Weaving), veterano da I Guerra Mundial traumatizado pela perda dos colegas e entregue ao álcool e à violência doméstica contra a esposa, Bertha (Rachel Griffiths). Criado como adventista do sétimo dia e profundamente religioso, Desmond vê nos mandamentos de Deus sua régua moral absoluta mas, mesmo assim, ao lado do irmão, se alista como voluntário para lutar na II Guerra. Sua intenção é servir como médico e não atacar os inimigos: tal regra acaba sendo motivo para que ele bata de frente com seus superiores e seus colegas, que não veem com bons olhos um soldado não disposto a pegar em armas nem mesmo para sua defesa. Aos poucos, no entanto, Desmond vai conquistando o respeito de todos - até que em uma missão específica, em Okinawa, ele se torna um improvável herói... sem disparar sequer um único tiro.

Emocionante e brilhantemente executado, "Até o último homem" não foge dos clichês dos filmes do gênero, quando se rende a algumas de suas mais antigas regras - o treinamento, as dificuldades de relacionamento dentro do pelotão, os personagens quase estereotipados -, mas faz deles um uso inteligente e adequado, como forma de prender a atenção da plateia até seu último (e empolgante) ato, quando Desmond se torna um herói não através da violência, mas sim da compaixão e do amor pelos companheiros. Pode parecer um discurso estranho para alguém que estrelou e/ou dirigiu alguns dos filmes mais violentos das últimas décadas, mas não deixa de ser um respiro de humanidade em um gênero tão repleto de sangue e tristeza. Mel Gibson merece o perdão... ao menos até o próximo escândalo!

sábado

TEMPO DE GLÓRIA

TEMPO DE GLÓRIA (Glory, 1989, TriStar Pictures, 122min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Kevin Jarre, livros de Lincoln Kirstein e Peter Burchard, cartas de Robert Gould Shaw. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Horner. Figurino: Francine Jamison-Tanchuck. Direção de arte/cenários: Norman Garwood/Garrett Lewis. Produção: Freddie Fields. Elenco: Matthew Broderick, Denzel Washington, Cary Elwes, Morgan Freeman, Andre Braugher, Bob Gunton, Jay O. Sanders. Estreia: 15/12/89

5 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Denzel Washington), Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Oscar: Ator Coadjuvante (Denzel Washington), Fotografia, Som 
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Denzel Washington) 

Segundo palavras dele mesmo, Edward Zwick estava apreensivo quando começou as filmagens de "Tempo de glória": o cineasta não sabia como o elenco de seu filme se sentia a respeito de ter um diretor branco, judeu e jovem (36 anos à época) contando a história do primeiro regimento de soldados negros da Guerra de Secessão americana, que contrapôs o Norte abolicionista contra o Sul escravagista. Sabendo que o evento tinha uma importância crucial no sentimento de autoestima dos afro-americanos (ainda que fosse pouco conhecido do público em geral), Zwick temia não ser capaz de honrá-lo. Por fim, todos os seus temores se mostraram infundados: não apenas os atores receberam com simpatia e profissionalismo seu trabalho, como a Academia de Hollywood também se rendeu ao resultado final: indicado a 5 Oscar, "Tempo de glória" recebeu 3 estatuetas (ator coadjuvante, fotografia e som) e se tornou o segundo filme mais premiado da temporada 1989, perdendo em números apenas para o grande vencedor, "Conduzindo Miss Daisy" (que saiu da cerimônia com um troféu a mais). Nem mesmo o grande favorito do ano, "Nascido de 4 de julho", de Oliver Stone, foi tão bem-sucedido.

Não é difícil entender os motivos que levaram o filme de Zwick a agradar tanto aos conservadores membros da Academia. Mais até que o tom épico - acentuado pela bela trilha sonora de James Horner, inexplicavelmente deixada de fora das indicações - e a produção caprichada, é a forma sincera e carinhosa do olhar do cineasta que fazem de "Tempo de glória" um filme de guerra que foge da estrutura óbvia de treinamento/batalha climática/final apoteótico. Justamente pelo background que o fazia temer por sua capacidade em comandar o filme, Zwick acabou por ser a escolha mais apropriada: com distanciamento emocional para equilibrar cenas grandiosas e momentos intimistas, ele criou uma pequena obra-prima, uma homenagem justa e sóbria não apenas a um homem - o Coronel Robert Gould Shaw, líder do pelotão -, mas também a um grupo de soldados que, contrariando um destino de subserviência, honrou o exército de seu país apesar do preconceito profundamente enraizado que os considerava indignos da luta.


Fisicamente semelhante ao verdadeiro Shaw, o ator Matthew Broderick encara pela primeira vez um protagonista adulto, com responsabilidades e angústias que vão além dos personagens que o fizeram conhecido do grande público. Nem sempre convence, especialmente em cenas dramaticamente mais potentes, mas não compromete o filme com um todo e tem carisma o bastante para disfarçar suas limitações. Seu personagem é um jovem de 25 anos, filho de uma influente família de Boston, a quem é dado, mesmo sem experiência sólida, o comando do primeiro batalhão formado exclusivamente formado por negros na Guerra de Secessão. O ano é 1863, e acompanhado do velho amigo Cabot Forbes (Cary Elwes), Shaw aceita o desafio, mesmo sabendo que seu sucesso na empreitada dependerá quase exclusivamente da relação que criará com seus subordinados. Vendo seu batalhão desacreditado e frequentemente tratado com desprezo por seus superiores - que enxergam neles apenas o talento para a mão-de-obra e não para batalhas reais -, o jovem coronel passa a comprar brigas com quem for preciso para exigir tratamento justo e provisões básicas (como sapatos, uniformes e pagamento igualitário). A princípio bastante imponente como forma de impor respeito, aos poucos ele vai se deixando conquistar pelos soldados - em especial o veterano John Rawlins (Morgan Freeman), a quem confia um cargo de confiança, e o rebelde Trip (Denzel Washington).

Se Broderick não vai muito além do básico, com uma interpretação contida e pouco inspirada (talvez culpa de um personagem que não se permite demonstrar muita emoção), o elenco coadjuvante de "Tempo de glória" é um de seus maiores trunfos. Denzel Washington levou seu primeiro Oscar para casa (como coadjuvante, batendo nomes como Marlon Brando e Martin Landau) por seu desempenho exemplar como o petulante Trip, dono de algumas das cenas mais memoráveis do filme. Morgan Freeman empresta seu semblante sereno ao equilibrado John Rawlins, ponto de acesso entre Shaw e seus subordinados, e tem pelo menos um grande momento (junto a Washington). E Andre Braugher, como Thomas Searles, amigo de infância do coronel, e Jihmi Kennedy, como o gago e inseguro Jupiter Sharts, completam o elenco de apoio impecável selecionado por Zwick. Um filme que fala ao mesmo tempo aos fãs do gênero e àqueles que procuram histórias humanistas, "Tempo de glória" precisa ser redescoberto como um dos melhores filmes do final da década de 80 - e um dos mais importantes quando se trata de combate ao preconceito.

terça-feira

DR. FANTÁSTICO: OU COMO APRENDI A PARAR DE ME PREOCUPAR E AMAR A BOMBA

DR. FANTÁSTICO: OU COMO APRENDI A PARAR DE ME PREOCUPAR E AMAR A BOMBA (Dr. Strangelove or: How I learned to stop worrying and love the bomb, 1964, Columbia Pictures Corporation, 95min) Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Stanley Kubrick, Terry Southern, Peter George, romance "Red alert", de Peter George. Fotografia: Gilbert Taylor. Montagem: Anthony Harvey. Música: Laurie Johnson. Direção de arte: Ken Adam. Produção: Stanley Kubrick. Elenco: Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, Keenan Wynn, Slim Pickens, James Earl Jones. Estreia: 29/01/64

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stanley Kubrick), Ator (Peter Sellers), Roteiro Adaptado

No início dos anos 60, a II Guerra Mundial já era passado para os estúdios de Hollywood, que demorariam algumas décadas até voltarem a utilizá-la como matéria-prima para suas produções mais ambiciosas. A bola da vez no começo da década do flower power era a possibilidade cada vez menos remota de um conflito nuclear, especialmente com o assassinato de John F. Kennedy, em novembro de 1963 e a Rússia se tornando uma potência mundial. Com esse panorama político à frente, a Columbia Pictures não hesitou em lançar, em 1964, não apenas um, mas dois filmes com temática similar - mas com pontos de vista bastante distintos. Quando "Limite de segurança", dirigido por Sidney Lumet e estrelado por Henry Fonda - um thriller sufocante e tenso - chegou às telas, em setembro, o público e a crítica já haviam visitado o assunto por um viés satírico, exagerado e surreal, dirigido por um cineasta pouco afeito ao convencional: o inglês Stanley Kubrick. Com base no livro "Alerta vermelho", de Peter George, um romance sério a respeito da iminência de uma nova guerra entre americanos e soviéticos, Kubrick virou a trama de pernas para o ar, alterando substancialmente o tom alarmista do original para criar uma comédia alucinada e quase nonsense. O resultado, "Dr. Fantástico: ou Como aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba" acabou por transformar-se em um grande sucesso crítico e comercial, a ponto de ser indicado aos Oscar de melhor filme, diretor, ator (Peter Sellers) e roteiro adaptado e passar a ser considerado uma das melhores comédias da história do cinema, graças ao American Film Institute - que o colocou em terceiro lugar entre as maiores do gênero.

A ideia de Kubrick em transformar o livro de Peter George em uma sátira não agradou muito ao autor do original, que, no entanto, não se recusou ao crédito de corroteirista, ao lado do diretor e de Terry Southern, que só entrou no projeto quando o cineasta inglês percebeu o potencial humorístico do material que tinha em mãos. Com um roteiro repleto de humor negro e críticas nada veladas ao governo americano - e às paranoias relacionadas à incipiente Guerra Fria - a Columbia viu que o melhor a fazer seria escalar alguém que pudesse fazer jus a todas as possibilidades da história. Surgia então o nome de Peter Sellers, com quem Kubrick já havia trabalhado - e com grande êxito - na versão cinematográfica de "Lolita" (62), de Vladimir Nabokov. Como já havia acontecido no filme anterior, Sellers voltaria a interpretar múltiplos personagens - mais precisamente três, o que de certa forma contrariava os interesses do estúdio, que sonhava com um quarteto de caracterizações - e, para isso, recebeu um polpudo pagamento de 1 milhão de dólares, o que representava mais da metade do orçamento do filme inteiro. O investimento valeu a pena: não apenas Sellers roubou a cena como recebeu uma merecida indicação ao Oscar de melhor ator - prêmio que perdeu para Rex Harrison, no ultrapremiado "My fair lady".





As ironias de "Dr. Fantástico" já começam na escalação do elenco. Na pele do paranoico General Jack D. Ripper, obcecado por fantasias de uma possível invasão "vermelha" e responsável por enviar um avião norte-americano em direção à Rússia com o objetivo de bombardear o país, está o ator Sterling Hayden, notório militante do Partido Comunista à época das filmagens. É seu personagem que dá início à história, mantendo o oficial da Força Aérea Britânica Lionel Mandrake (Peter Sellers) em seu poder enquanto espera o desfecho de seu ato de rebeldia. Atônito com a situação, o presidente dos EUA, Merkin Muffley (também vivido por Sellers), resolve tentar, de todas as maneiras possíveis, impedir que tal desgraça aconteça, o que poderia causar o início de uma III Guerra Mundial. Para isso, chama à Sala de Guerra do Pentágono - reconstruída em estúdio na Inglaterra, de onde Peter Sellers não poderia sair devido a problemas com seu divórcio - o General Buck Turgidson (George C. Scott), o embaixador soviético Sadesky (Peter Bull) e o exótico cientista Dr. Strangelove (o terceiro personagem de Sellers), que tem ideias próprias a respeito de como resolver o problema. Em uma terceira linha narrativa, a tripulação do avião mandado por Ripper em direção à Rússia encontra dificuldade em comunicar-se tanto com seu comandante quanto com a sala de controle que pode lhe impedir de dar continuidade à missão.


Ao optar pelo exagero em todos os setores da produção - desde a direção de arte claustrofóbica e com tons de pesadelo até a interpretação de seus atores, o que causou estranheza ao veterano George C. Scott, que não compreendia as intenções do diretor até ver o filme finalizado - Stanley Kubrick acabou por criar um dos filmes de guerra mais contundentes da história. Retratando os detentores do poder de criar ou acabar com um conflito mundial não como heróis, mas como poltrões dominados por suas amantes, suas paranoias e seus interesses pessoais, o roteiro joga por terra o patriotismo americano que tanto serviu de base para produções hollywoodianas nas décadas seguintes e, de quebra, ridiculariza os dois lados da questão, com diálogos absurdos e situações visuais que beiram o patético - tombos, brigas, um cientista sem controle da própria mão mecânica. Em uma filmografia que não tinha muito espaço para o humor, Kubrick fez de "Dr. Fantástico" uma obra única e que, de uma forma tortuosa, serviu de alerta para um período de grande tensão política - por uma coincidência macabra, sua exibição-teste estava marcada justamente para o dia da morte de Kennedy, um dos mais importantes eventos na história ocidental do século XX e que muito interferiu no desenrolar da Guerra Fria. Mais uma vez, por obra do acaso, o cinema de Kubrick nunca pareceu tão antenado com sua realidade.

quarta-feira

CORAÇÕES DE FERRO

CORAÇÕES DE FERRO (Fury, 2014, Columbia Pictures, 134min) Direção e roteiro: David Ayer. Fotografia: Roman Vasyanov. Montagem: Jay Cassidy, Dody Dorn. Música: Steven Price. Figurino: Maja Meschede, Anna B. Sheppard. Direção de arte/cenários: Andrew Menzies/Lee Gordon, Malcolm Stone. Produção executiva: Anton Lessine, Alex Ott, Brad Pitt, Sasha Shapiro, Ben Waisbren. Produção: David Ayer, Bill Block, John Lesher, Ethan Smith. Elenco: Brad Pitt, Logan Lerman, Shia LaBeouf, Michael Peña, Jon Bernthal, Jim Parrack, Jason Isaacs. Estreia: 15/10/14

Sim, esse é mais um daqueles filmes que retratam a II Guerra Mundial sob a ótica dos aliados - leia-se norte-americanos - e que fazem a alegria dos pseudointelectuais que adoram reclamar da forma com que Hollywood romantiza o conflito a favor dos EUA. E sim, não foge muito da tradicional receita das produções do gênero, lembrando principalmente o excepcional "O resgate do soldado Ryan", obra-prima de Steven Spielberg lançada em 1998. Escrito e dirigido por David Ayer - autor do roteiro do premiado "Dia de treinamento" (2000) e da vergonhosa adaptação para as telas do seriado televisivo "SWAT" (2003) - "Corações de ferro" tem a seu favor, porém, a despeito de sua quase previsibilidade, um elenco impecável e um tom que se equilibra com sucesso entre a violência e a poesia. Com uma renda abaixo do esperado nas bilheterias - pouco mais de 80 milhões, pouco se considerada a presença de um astro do calibre de Brad Pitt encabeçando os créditos - o filme falhou também em ser lembrado pelas cerimônias de premiação da temporada 2014, sendo ignorado até mesmo nas categorias técnicas, onde normalmente filmes do estilo encontram espaço.

Brad Pitt - que também é um dos produtores executivos do filme - lidera o elenco de "Corações de ferro", mas generosamente divide seu espaço em cena com outros cinco atores mais jovens, que interpretam os subordinados de seu Sargento Collier na missão de enfrentar os nazistas em plenas linhas inimigas, já nos meses finais da guerra. Experiente e quase cínico, Collier se torna o mentor e protetor do introvertido Norman Ellison (Logan Lerman), que entra na batalha por acaso, sendo escalado para ser um dos pilotos do tanque "Fury" - um dos pouco veículos ainda em funcionamento quando a trama tem início. Extremamente jovem e sem histórico em batalhas campais, Norman a princípio é hostilizado e desprezado pelos colegas (como convém a uma boa história do gênero), mas com a amizade do sargento e o desenrolar dos acontecimentos (quando é obrigado a tomar parte de momentos sangrentos e chocantes), aos poucos torna-se ciente de seu papel no jogo. No meio do caminho, descobre - da pior maneira possível - que a guerra não escolhe vítimas.


O roteiro de David Ayer não chega a ser um primor de criatividade, mas ao menos tem o mérito de proporcionar a seus atores alguns bons diálogos e algumas cenas bastante interessantes, principalmente quando dá um tempo em suas sequências de guerra - bem filmadas, mas nada excepcionais - e concentra-se na forma como cada um dos soldados lida com a trágica situação em que se encontram. Como dita o clichê, existe o soldado cristão Bible (vivido por um discreto e eficiente Shia LaBeouf), o latino Gordo (Michael Peña), o fanfarrão violento Coon-Ass (Jon Bernthal, da série "The walking dead") e o boa-gente Binkowski (Jim Parrack). Ayer não se dá muito ao trabalho de desenvolver com profundidade nenhum deles e nem dar-lhes um passado, mas ainda assim fica difícil não se deixar envolver com eles e seus medos diante de um inimigo real e imediato. Ao contar (mais) uma história de perda de inocência, o diretor disfarça a quase burocracia do roteiro com sua segurança em comandar sequências bem orquestradas de batalha, valorizadas pela fotografia e pelo trabalho de som, que mergulham o espectador no meio do conflito, como é mandatório em um filme de guerra que se preze.

Mesmo que não seja um triunfo completo e não esteja destinado a tornar-se um clássico do gênero, "Corações de ferro" não decepciona aos fãs nem de obras sobre a II Guerra Mundial nem de Brad Pitt. Apesar de contida e discreta, a atuação do ator é um dos maiores destaques do filme de Ayer, mesclando com sutileza sentimentos díspares como fúria, desespero, ternura e firmeza sem nunca deixar de convencer a plateia de que é realmente um homem comum tornado herói diante de circunstâncias extremas. Suas cenas com Logan Lerman - cujo personagem dócil e encantador ele acaba por adotar informalmente, apesar de saber que tais características estão com as horas contadas - são as melhores do filme. Apesar da abundância de lugares-comuns, "Corações de ferro" é um filme de guerra com alma, o que lhe dá um diferencial muito bem-vindo em relação a seus semelhantes. Impossível ficar insensível a suas intenções.

domingo

INVENCÍVEL

INVENCÍVEL (Unbroken, 2014, Legendary Pictures, 137min) Direção: Angelina Jolie. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, Richard LaGravenese, William Nicholson, livro de Laura Hillebrand. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: William Goldenberg, Tim Squyres. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Jon Huttman/Lisa Thompson. Produção executiva: Mick Garris, Jon Jashni, Thomas Tull. Produção: Matthew Baer, Angelina Jolie, Erwin Stoff, Clayton Townsend. Elenco: Jack O'Connell, Domhnall Gleeson, Garrett Hedlund, Miyavi, Finn Witrock, Jai Courtney. Estreia: 17/11/14 (Sydney)

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Edição de Som, Mixagem de Som

Quando se sabe dos detalhes da vida do norte-americano Louis Zamperini – contada na biografia escrita por Laura Hildebrand – uma das primeiras histórias que veem à mente é a do sofredor Jó, que, testado pelo inclemente Deus do Velho Testamento, pagou seus pecados com juros altíssimos, sentindo na pele a ira (ou o sadismo) do Criador. Porém, “Invencível” – segunda incursão da atriz Angelina Jolie como cineasta e a versão para as telas do livro de Hildebrand – não tem a intenção de fazer um paralelo religioso entre as agruras do jovem atleta feito prisioneiro de um campo de trabalhos forçados no Japão da II Guerra Mundial e qualquer personagem bíblico. Ainda que algumas imagens do filme remetam à ícones cristãos – Zamperini erguendo um pesado corte de madeira sob a supervisão cruel de um comandante inimigo, por exemplo – e sua mensagem final glorifique o perdão como um dos mais nobres sentimentos, “Invencível” é apenas, em uma visão mais direta e óbvia, um grande drama de guerra, com todos os elementos necessários para conquistar os fãs do gênero.
Emolduradas pela impecável fotografia do veterano Roger Deakins (indicado ao Oscar pelo trabalho) e embaladas pela trilha sonora discreta e eficiente de Alexandre Desplat, as desventuras de Zamperini servem de matéria-prima para um filme que é um passo à frente na carreira da bela Jolie como diretora. Depois do pouco visto “Na terra do amor e do ódio”, falado em bósnio e relativamente bem-sucedido junto à crítica - já que até uma indicação ao Golden Globe de melhor filme em língua estrangeira arrebatou – Jolie demonstra uma segurança ímpar ao contar uma história tão recheada de lances dramáticos que até parece mentira. Sem ousadias narrativas ou lapsos de brilhantismo, a atriz vencedora do Oscar de coadjuvante por “Garota, interrompida” (99) constrói um filme de estrutura clássica e linear, explorando mais a via-crúcis de seu protagonista do que artifícios técnicos e/ou sentimentalistas. Apesar de sua tendência em enfatizar talvez em excesso a força do espírito humano diante das adversidades – que parece ser o tema subjacente de toda a trama – Jolie consegue se manter à margem do piegas na maior parte do tempo, contando para isso com a ajuda de um roteiro enxuto e direto escrito pelos experientes irmãos Coen (Joel e Ethan) e William Goldenberg.
Muito criticado por não acrescentar nada de novo a um gênero já apinhado de clássicos considerados além do bem e do mal, “Invencível” decepcionou àqueles que viam nele um forte candidato ao Oscar 2015 – a Academia, que adora histórias de superação pessoal e filmes passados durante os duros anos da II Guerra, praticamente ignorou a produção, indicando-a apenas a alguns prêmios técnicos não convertidos em estatuetas. A recepção bem menos calorosa do que o esperado não faz jus à beleza do filme, no entanto. Cercada por uma equipe de profissionais de primeira linha, Angelina Jolie conta sua história com delicadeza feminina, suavizando até mesmo momentos de extrema violência com enquadramentos que buscam a beleza como forma de atenuar a dor e a crueldade. Longe da crueza de filmes que retratam o mesmo período, “Invencível” se destaca por ver a torpeza aflorada em homens no seu limite envernizada por uma beleza plástica irretocável e quase poética. Mesmo sem poupar a plateia de cenas decididamente fortes, a sra. Brad Pitt o faz com elegância e uma sinceridade de que só cineastas ainda não tornados cínicos pela indústria de Hollywood conseguem manter.

E talvez essa visão ainda romântica e generosa de Jolie é que tenha lhe aproximado da história de Louis Zamperini, um homem que, apesar de todas as provações pelas quais passou, ainda manteve a fé em Deus e na bondade humana. Criança problema tornada um promissor jovem atleta – chegou a correr nas Olimpíadas de 1940 – Zamperini foi convocado para defender os EUA na II Guerra. Seu primeiro revés foi ver seu avião abatido pelas forças inimigas e passar mais de 45 dias em mar aberto, ao lado de dois companheiros, passando fome e sede, lutando contra o medo de tubarões e sofrendo de constantes insolações. O segundo talvez tenha sido ainda pior: resgatado por uma embarcação japonesa, viu-se, ao lado de outros soldados, prisioneiro em um campo de trabalhos forçados: vítima constante de espancamentos e humilhações por parte do comandante Watanabe (o astro pop japonês Miyavi, cuja androginia torna seus confrontos com o protagonista ainda mais interessantes), Zamperini agarra-se à sua crença religiosa para manter-se de pé e vivo até o fim do conflito. Corajoso e íntegro, ele chega a recusar, por lealdade a seu país, a oportunidade de deixar o campo e aliar-se aos inimigos.
Interpretado pelo ótimo Jack O’Connell – ator irlandês desconhecido do grande público mas dono de um talento que lhe aponta um futuro alvissareiro – Louis Zamperini é um personagem de proporções épicas, um herói moderno que luta pela vida e pela dignidade sem precisar usar de superpoderes além da fé e da resiliência quase inacreditável. O’Connell transmite a sensação exata de dor e força do personagem com a segurança de um veterano, carregando nas costas toda a responsabilidade de convencer o público de sua garra inabalável. Sua transformação de promessa do esporte à prisioneiro de guerra é crível e impressionante – ajudada pela maquiagem discreta e eficaz – e é inegável que boa parte da credibilidade da história passa por suas mãos. Mais um crédito para Jolie, que escolheu acertadamente seu ator central e soube dirigí-lo com a firmeza necessária para impedir exageros grotescos ou minimalismos enfadonhos. Diante de O’Connell fica difícil ao espectador não se deixar envolver e torcer por um final feliz.
Mesmo não sendo um filme perfeito – o ritmo em determinados momentos cai um pouco e os flashbacks iniciais soam deslocados da narrativa, uma vez que não voltam a acontecer no decorrer da história – “Invencível” é uma obra digna de figurar entre os melhores dramas de guerra já realizados em Hollywood. Tecnicamente impecável (até mesmo nas cenas de ação aérea a atriz demonstra habilidade e competência) e dramaticamente eficiente, conquista pela força da trama, pela inteligência na escolha de seus profissionais e principalmente pela mensagem de tolerância e paz em um mundo tão necessitado de tais sentimentos. Não se poderia esperar menos de uma atriz tão militante em relação à paz mundial. “Invencível” é um belo drama de guerra que termina deixando o espectador pensando somente na paz. Um belo exemplo.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...