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segunda-feira

WALL STREET: PODER E COBIÇA

 


WALL STREET: PODER E COBIÇA (Wall Street, 1987, 20th Century Fox, 126min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Stanley Weiser. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Claire Simpson. Música: Stewart Copeland. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Stephen Hendrickson/Leslie Bloom, Susan Bode. Produção: Edward R. Pressman. Elenco: Michael Douglas, Charlie Sheen, Daryl Hannah, Martin Sheen, Hal Holbrook, Sean Young. Estreia: 11/12/87

Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Michael Douglas)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Michael Douglas)

Logo depois de ter feito a festa na cerimônia do Oscar 1987 com seu "Platoon", que recebeu as estatuetas de melhor filme e diretor - além de outros prêmios técnicos -, Oliver Stone resolveu voltar suas lentes para um outro tipo de batalha, menos sangrento mas igualmente nocivo. Das selvas do Vietnã ao centro nervoso do mercado financeiro dos EUA, o polêmico cineasta fez uma longa viagem, mas não abandonou seu olhar aguçado e crítico. "Wall Street: poder e cobiça" pode não ter causado o mesmo impacto popular do filme anterior de Stone, mas mostrou a seus detratores que nem só de controvérsias era feita sua carreira, deu a Michael Douglas o Oscar de melhor ator e rendeu um personagem icônico (que voltou às telas em 2010, em uma sequência inesperada), dono de uma das frases mais memoráveis do cinema (a famigerada "greed is good"). Dedicado ao pai de Stone, corretor na bolsa de valores durante a Depressão, e inspirado em escândalos com títulos de alto risco e informações privilegiadas dos anos 1980, "Wall Street" estreou no auge do conservador governo Reagan, e com sua feroz crítica ao capitalismo e à ganância desenfreada, tornou-se um dos retratos mais fiéis de um período centrado no hedonismo e nos excessos de todos os tipos. Filmado às pressas para escapar de uma então iminente greve de diretores e - segundo o cineasta - lançado com pouco caso por seu estúdio (a 20th Century Fox), que preferiu apostar suas fichas em "Nos bastidores da notícia", "Wall Street" acabou rindo por último: enquanto a comédia dramática de James L. Brooks não conseguiu converter nenhuma de suas sete indicações ao Oscar, o filme de Oliver Stone saiu da cerimônia com a única estatueta a que havia sido indicada.

"Wall Street" se passa na primeira metade da década de 1980 e acompanha o caminho do jovem Bud Fox (Charlie Sheen), que trabalha como corretor na bolsa de valores de Nova York e tem como principal objetivo na vida chegar ao topo da pirâmide financeira e social. Disposto a qualquer artimanha para alcançar suas metas pessoais, ele trabalha incansavelmente para conquistar a atenção de um dos maiores especuladores do país, o ganancioso Gordon Gekko (Michael Douglas). Conhecido no mercado por seus métodos pouco ortodoxos (quando não criminosos), Gekko acaba por colocar Fox sob suas asas e, com o tempo, a explorar suas informações privilegiadas para obter vantagens. Mergulhado em um mundo sofisticado que contrasta com sua vida até então de poucos recursos, Fox passa a conviver com gente como a decoradora Darien (Daryl Hannah) - com quem se envolve romanticamente - e uma série de outros tubarões pouco afeitos à ética. Conforme vai subindo na vida, porém, o jovem vai se distanciando do universo classe média de seu pai, Carl (Martin Sheen), funcionário de uma empresa de aviação comercial que, devido às maquinações de Gekko, entra no caminho da falência.

Apesar de hoje em dia Michael Douglas ser considerado o intérprete ideal de Gordon Gekko - com uma atuação antológico que marcou definitivamente sua carreira -, seu nome não foi o primeiro a ser pensado para o papel (inclusive havia o temor, que mostrou-se infundado, de que ele poderia, devido a sua experiência como produtor premiado, tentar interferir nos bastidores). Antes que Douglas assumisse o desafio, astros consagrados como Al Pacino, Jack Nicholson, Robert DeNiro e Warren Beatty estiveram na mira de Stone (que pensou até mesmo em Richard Gere, conhecido mais como galã do que por seus dotes de ator sério). A escolha de Douglas, no entanto, foi o tiro mais certo da produção: até então mais respeitado como produtor (vencedor do Oscar por "Um estranho no ninho", de 1975), astro de produções comerciais como "Tudo por uma esmeralda" (1984) e "A joia do Nilo" (1985) e filho de Kirk Douglas, Michael aproveita cada momento em cena para demonstrar uma persona radicalmente oposta àquela que, no mesmo ano, havia oferecido às plateias como o adúltero atormentado pela ex-amante no sucesso "Atração fatal" - filmado concomitantemente e indicado a seis Oscar: cínico, amoral e por vezes cruel, Gordon Gekko encontrou nele sua mais perfeita tradução, a ponto de eclipsar o verdadeiro protagonista do filme, o jovem Bud Fox, cujo pacto mefistofélico é a base da narrativa e a fonte da moral da história - interpretado por um jovem Charlie Sheen, que ficou com um papel ambicionado por um então ascendente Tom Cruise.

Antes de consagrar-se com o papel principal de "Nascido em 4 de julho" (1989), também dirigido por Oliver Stone, Cruise demonstrou interesse em interpretar Bud Fox, mas acabou preterido por Charlie Sheen, cuja rigidez juvenil serviu como uma luva para as intenções do roteiro em retratar o personagem como alguém preso entre a ambição de tornar-se um milionário do mundo das finanças e os valores ensinados por seu pai sindicalista e de rígida moral (vivido pelo pai de Charlie, o veterano Martin Sheen). Mas se Charlie foi capaz de utilizar-se de sua quase inexperiência para atingir o objetivo de Stone o mesmo não pode ser dito de parte do elenco escolhido pelo cineasta (e que deu origem a dores de cabeça nos bastidores): tanto Daryl Hannah quanto Sean Young foram alvos de severas (e justas) críticas por parte da imprensa, que percebeu em ambas uma sensação de insegurança e deslocamento a ponto de terem suas cenas diminuídas na montagem final. Young - conhecida por ser de difícil convivência e pouco respeitada como atriz - queria o papel de Hannah e nunca fez questão de esconder seu desejo, tornando as filmagens um campo de batalha silencioso e tenso: sua relação difícil com Charlie Sheen não deixou as coisas melhores e seu comportamento pouco profissional acabou por eliminar uma trama paralela que ampliaria a importância de sua personagem. Não é de admirar, portanto, o quão pouco desenvolvidos são os papéis femininos na trama.

Um dos filmes mais representativos da sociedade dos EUA da era Reagan, "Wall Street: poder e cobiça" não foi exatamente um sucesso popular, mas revelou em Oliver Stone um cineasta atento à sua época e inteligente na forma de explorar as ferramentas narrativas a seu dispor - é brilhante, por exemplo, o modo como utiliza a fotografia para estabelecer a diferença de ritmo e intenções quando retrata a quase violência da bolsa de valores (na pele de Fox e seus colegas) e a serenidade do caráter incorruptível de Carl. Parte de um período prolífico e elogiado na carreira do diretor, o filme rendeu a única continuação em seu currículo - e apesar do tema difícil e pouco atraente, é um ponto alto em sua filmografia.

O PIANO


O PIANO (The piano, 1993, CiBy 2000/Jan Chapman Productions/The Australian Film Comnission, 121min) Direção e roteiro: Jane Campion. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Veronika Jenet. Música: Michael Nyman. Figurino: Janet Patterson. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Meryl Cronin. Produção: Jan Chapman. Elenco: Holly Hunter, Harvey Keitel, Sam Neill, Anna Paquin, Kerry Walker. Estreia: 15/5/93 (Festival de Cannes)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Direção (Jane Campion), Atriz (Holly Hunter), Atriz Coadjuvante (Anna Paquin), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino

Vencedor de  3 Oscar: Atriz (Holly Hunter), Atriz Coadjuvante (Anna Paquin), Roteiro Original

Vencedor de 2 Palmas de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Filme, Atriz (Holly Hunter)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Holly Hunter)

Quando estava procurando uma atriz para viver Ada McGrath, a protagonista de seu próximo filme, a neozelandesa Jane Campion entrou em contato com o agente Steve Dontanville oferecendo o papel a uma de suas clientes, Sigourney Weaver. Sabendo que Weaver estava disposta a um período de descanso na carreira, para cuidar da filha pequena, Dontanville nem chegou a ela, sugerindo à Campion outra de suas agenciadas, Holly Hunter. - isso depois de uma série de possibilidades, que incluía Anjelica Huston, Jennifer Jason Leigh, Isabelle Huppert, Juliette Binoche e Madeleine Stowe. Meses mais tarde, quando "O piano" já havia se transformado em fenômeno - com duas vitórias no Festival de Cannes, três Oscar e dezenas de outros prêmios - a cineasta declarou, em uma entrevista, que Weaver era o tipo ideal para interpretar Ada, e surpreendeu a heroína da série "Alien", abismada com a ideia de não ter sido sequer consultada por seu agente. O fato é, que, a despeito do grande talento de Weaver, é praticamente impossível imaginar outra atriz no lugar de Hunter: avassaladora em seus silêncios expressivos e em seu trabalho físico, a então queridinha dos cineastas independentes americanos entrou com louvor no rol das maiores atrizes de seu tempo. E em um filme que, com uma visão feminina sobre o amor e o sexo, deixou desconfortável a parcela mais puritana das plateias internacionais.

Tratando a nudez, o sexo e a violência como partes indissociáveis das relações interpessoais, "O piano" se passa nos confins da Nova Zelândia do século XIX. É lá, em um cenário tão fascinante quanto inóspito, que chega a sensível Ada (Holly Hunter, avassaladora) para casar-se com Alistar Srewart (Sam Neill), a quem jamais conheceu pessoalmente e foi prometida por sua família. Junto com Ada estão sua filha pequena, Flora (Anna Paquin) e seu inestimável piano, que lhe serve como meio de comunicação e refúgio. Muda, Ada leva um choque de realidade quando se vê diante de um lugar que contrasta violentamente com seu espírito culto e delicado. Para piorar as coisas, seu marido, bruto e pouco afeito a sutilezas, vende seu piano para um vizinho, o exótico e misterioso George Baines (Harvey Keitel), que adotou o modo de viver dos nativos locais. Sentindo-se irremediavelmente atraído por Ada, ele propõe a Stewart que sua mulher lhe dê aulas de música em troca de terras desejadas pelo empresário. As lições de piano, no entanto, servem para que o surpreendentemente romântico Baines se aproxime do objeto de seu desejo, a quem ele deseja conquistar aos poucos, demonstrando um lado vulnerável e inesperado. Porém, o nascente romance entre os dois acende uma faísca que pode levar a uma tragédia.


 

Primeiro filme dirigido por uma mulher a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes - que dividiu com o chinês "Adeus, minha concubina", de Chen Kaige - e vencedor do Oscar de roteiro original, "O piano" foi também um inesperado sucesso popular, conquistando principalmente o público feminino, que viu na história de Ada um reflexo sofisticado da sexualidade através do olhar de uma mulher (Campion foi, à época, recém a segunda diretora a ser indicada na categoria, pela Academia). Ao apresentar cenas de nudez frontal de Holly Hunter e Harvey Keitel - nenhum deles dentro do padrão de beleza hollywoodiana - e sequências de sexo pouco discretas, o filme desafia a mesmice do cinema comercial, exibindo a sexualidade de forma madura e sem filtros. Pontuados pela belíssima trilha sonora de Michael Nyman, os momentos de intimidade entre os protagonistas soam como um sopro de verdade diante dos malabarismos eróticos da maioria da produção americana dos anos 1990. O despertar do amor entre Ada e Baines, visto pelas lentes do diretor de fotografia Stuart Dryburgh, surge como um oásis no meio da vastidão neozelandesa, quase hostil à sensibilidade, e consegue inclusive disfarçar o incômodo de ser fruto de um começo - e aqui há espaço para a polêmica - abusivo. Antes de entregar-se ao amor de Baines, a silenciosa pianista se vê obrigada a abrir mão do próprio corpo para recuperar seu instrumento musical, e nem mesmo a paixão quase cega de seu futuro amante justifica seus atos, por mais que se tente romantizar a situação. É uma questão desconfortável que o roteiro de Campion prefere ignorar.

Porém, se o desenvolvimento do romance entre os protagonistas é passível de discussão, não o são as maiores qualidades do filme. Holly Hunter está simplesmente devastadora como Ada, e seu Oscar é, provavelmente, um dos mais justos da história (no mesmo ano ela concorreu à estatueta de coadjuvante por seu trabalho em "A firma"), e Harvey Keitel surpreende em um papel a anos-luz de distância daqueles durões a que estão todos acostumados. A pequena Anna Paquin, que bateu nada menos que cinco mil candidatas ao papel da imprevisível Flora e levou um surpreendente Oscar, está igualmente fascinante, não se deixando intimidar pela presença gigantesca de Hunter. Dono de cenas de grande potência dramática - enfatizadas pela melancólica música e pelo desolador e cruel cenário, "O piano" é, sem dúvida, um dos filmes fundamentais de sua época, mesmo que hoje em dia soe um tanto questionável em termos morais. Apesar do viés distorcido do amor - ou talvez por causa disso, vai saber -, é uma história forte, contada com paixão e sensibilidade.

ROCKETMAN

 


ROCKETMAN (Rocketman, 2019, Paramount Pictures/New Republic Pictures/Marv Films, 121min) Direção: Dexter Fletcher. Roteiro: Lee Hall. Fotografia: George Richmond. Montagem: Chris Dickens. Música: Matthew Margeson. Figurino: Julian Day. Direção de arte/cenários: Marcus Rowland/Judy Farr. Produção executiva: Michael Gracey, Elton John, Karine Martin, Tommaso Marzotto, Brian Oliver, Claudia Vaughn, Steve Hamilton Shaw, Danny Zamost. Produção: Adam Bohling, David Furnish, David Reid, Matthew Vaughn. Elenco: Taron Egerton, Jamie Bell, Richard Madden, Bryce Dallas Howard, Gemma Jones, Stephen Graham, Steven Mackintosh, Tom Bennett. Estreia: 16/5/2019 (Festival de Cannes)

Vencedor do Oscar de Canção Original ("I'm gonna love me again")

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Ator Comédia/Musical (Taron Egerton), Canção Original ("I'm gonna love me again")

É inacreditável, mas um ano depois de ter homenageado o sofrível "Bohemian Rhapsody" com quatro (!!!) Oscar - incluindo para o desempenho medonho de Rami Malek -, a Academia de Hollywood simplesmente ignorou aquele que realmente merecia todos os elogios e estatuetas possíveis. Cinebiografia do cantor e compositor Elton John (também um dos produtores executivos do filme e autor de sua canção-tema), "Rocketman" é não apenas a tradução para as telas de sua vida caótica, mas principalmente uma celebração energética, empolgante e emocionante de uma das obras mais importantes da música popular do século XX. Sem medo de tocar em pontos polêmicos de Elton - sua sexualidade, o abuso de drogas e álcool, a relação conflituosa com os pais - e amparada em uma atuação nunca aquém de espetacular de Taron Egerton, a produção dirigida por Dexter Fletcher não cai nas armadilhas tão frequentes em filmes do gênero ao optar por uma visão mais lúdica e não naturalista, que permite a ruptura narrativa tradicional. Em tom ópera-rock (valorizada pelos figurinos excêntricos que recriam o visual do cantor desde a década de 1960), "Rocketman" é absurdamente bom. E, apesar dos Golden Globes (ator e canção original), extremamente subestimado. 

Escrito pelo mesmo Lee Hall do excelente "Billy Elliot" (2000), "Rocketman" já começa quebrando toda e qualquer expectativa de se ver uma cinebiografia tradicional: vestido em um de seus exuberantes e clássicos trajes - recriados com excelência por Julian Day -, o cantor Elton John entra em uma reunião onde anônimos trocam experiências a respeito de seu vício em drogas. Cansado de viver em negação e sofrendo com os problemas inerentes a adicção, o cantor começa a relembrar toda a sua vida, desde sua infância nos anos 1950 em uma pequena cidade do interior da Inglaterra. Ainda com o nome de Reginald Dwight (e interpretado pelo ótimo ator mirim Matthew Illesley), o futuro astro vivia no meio da relação inconstante entre um pai distante, Stanley (Steven Macintosh), e uma mãe pouco afeita a atos de carinho, a quase fria Sheila (Bryce Dallas Howard). Contando com o apoio da avó, Ivy (Gemma Jones), e sentindo-se deslocado, ele encontra um caminho na música e, com o passar do tempo, passa dos estudos na Royal Academy of Music para os palcos de pubs noturnos. Descoberto por um empresário mais dedicado ao dinheiro do que à arte em si, Dick James (Stephen Graham), Elton assume um nome artístico, conhece o jovem compositor Bernie Taupin (Jamie Bell) e inicia uma das carreiras mais longevas e populares da história. Misturando sua vida profissional com a pessoal, se envolve amorosamente com outro empresário, John Reid (Richard Madden) e mergulha nas drogas e no álcool.

 

Assumindo com coragem e quase orgulho todas as nuances que fazem de Elton John um dos mais longevos e influentes ícones pop da história, "Rocketman" abraça o exagero e o camp como forma de traduzir, em duas horas de duração, o consagrado estilo do cantor, famoso por suas roupas, seus óculos, seus sapatos e principalmente por suas atitudes no palco, que incendiava com apresentações nunca menos que antológicas. O roteiro, ágil e informativo na medida certa, se utiliza com perfeição das canções de Elton e Taupin, que ilustram cada momento com humor, emoção e uma energia que ultrapassa a tela. A direção de Dexter Fletcher - que assinou também o subestimado "Voando alto" (2015) - usa e abusa de cores e texturas, aproximando o espectador do universo alucinante e alucinado de seu protagonista, vivido com dedicação e gosto por Taron Egerton. Egerton, aliás, é provavelmente a melhor escolha da produção: carismático e talentoso, o jovem ator britânico tem um desempenho exemplar, funcionando à perfeição como ator, cantor e dançarino, oferecendo um show particular que justifica plenamente seu Golden Globe e deixa ainda mais injusta sua esnobada junto à Academia. Ficando com um papel para o qual estavam cotados James McAvoy, Daniel Radcliffe e Justin Timberlake - preferido de Elton John desde sua participação no videoclipe de "This train don't stop here anymore", de 2001 -, Egerton se transforma no cantor sem deixar-se levar pelo caminho fácil da imitação e/ou caricatura.

Sem querer esconder do público os pontos mais polêmicos da vida e da carreira de Elton John, "Rocketman" mescla os elementos tradicionais das cinebiografias com a irreverência típica do músico. Ao contar sua história através de canções e números musicais - bem coreografados e produzidos com extrema competência -, Dexter Fletcher demonstra uma segurança ímpar em um gênero difícil, em que qualquer excesso (ou carência) pode por tudo a perder. Repleto de canções icônicas em momentos emocionantes e sem pesar a mão mesmo quando se encaminha para uma fase menos colorida na trajetória pessoal do protagonista, o filme de Fletcher é um programa sem contraindicações, ideal para os fãs e para quem ainda não conhece a potência de um ídolo atemporal.

quarta-feira

O DESPERTAR DE UMA PAIXÃO

 


O DESPERTAR DE UMA PAIXÃO (The painted veil, 2006, Warner Independent Pictures/Bob Yari Productions, 125min) Direção: John Curran. Roteiro: Ron Nyswaner, romance de W. Somerset Maughan. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Alexandre de Franceschi. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Juhua Tu/Peta Lawson. Produção executiva: John Curran, Mark Gordon, Robert Katz, Ron Nyswaner. Produção: Sara Colleton, Jean-François Fonlupt, Edward Norton, Naomi Watts, Bob Yari. Elenco: Edward Norton, Naomi Watts, Liev Schreiber, Toby Jones, Juliet Howland. Estreia: 13/12/2006

Vencedor do Golden Globe de Trilha Sonora Original

Publicado em forma de folhetim na revista Cosmopolitan, entre novembro de 1924 e março de 1925, o o romance "The painted veil", de W. Somerset Maughan, deu origem a duas adaptações cinematográficas antes de 2006. A primeira, lançada em 1934 como "O véu pintado",  tinha Greta Garbo como estrela mas não chega a ser um grande destaque na carreira da icônica atriz. A segunda, batizada como "O sétimo pecado", estreou em 1957e apresentava Eleanor Parker no principal papel feminino - e é igualmente pouco lembrada em seu currículo. Por isso, quando uma terceira versão do filme chegou às telas, no final de 2006, não houve a gritaria sempre tão comum quando se trata de refilmagens de clássicos. Dirigido por John Curran (cineasta sem um grande sucesso para chamar de seu) e estrelado por dois atores de grande prestígio, Edward Norton e Naomi Watts, "O despertar de uma paixão" é uma adaptação fiel e elegante de uma história sobre amor, traição e perda - e se não alcançou o sucesso merecido, isso diz mais sobre o mau costume do público de consumir produtos rasos do que sobre suas várias qualidades.

A história se passa na década de 1920 e começa com o casamento da bela e frívola Kitty Garstin (Naomi Watts em papel oferecido a Nicole Kidman) com o jovem bacteriologista Walter Fane (Edward Norton). Ansiando por fugir dos domínios da mãe possessiva, Kitty aceita o pedido do introvertido Fane e se muda com ele para Shangai. Lá, sentindo-se solitária e deslocada, ela se apaixona por um conterrâneo, o vice-cônsul Charles Townsend (Liev Schreiber), e inicia um tórrido romance que, pouco discreto, acaba descoberto por seu marido. Ofendido em seus brios e disposto a punir a esposa, Fane planeja, então, uma vingança das mais cruéis: cabe a Kitty passar por um divórcio escandaloso e, por consequência, ser rejeitada pela sociedade, ou acompanhá-lo a um distante vilarejo acometido por um violento surto de cólera. Decepcionada com a atitude de Townsend em não ampará-la, Kitty embarca com o marido para uma viagem da qual não sabe se voltará. Longe da cidade, porém, ela acaba por encontrar um sentido para a própria vida - ajudar as freiras a cuidar de um orfanato - e ver com outros olhos o homem com quem se casou. A dúvida que surge, no entanto, é uma só: será que as provações poderão reaproximar o casal, ou o relacionamento já está definitivamente condenado?

 

Embalado pela bela trilha sonora de Alexandre Desplat, premiada com o Golden Globe, "O despertar de uma paixão" acerta o tom ao optar por uma narrativa clássica e suave, sem atropelos de ritmo ou excessos melodramáticos. O roteiro de Ron Nyswaner - autor de "Filadélfia" (1993) - conta sua história de forma a envolver o espectador gradualmente, dando tempo aos personagens (e ao público) de compreender todas as suas implicações, sejam elas românticas ou sociais. Mesmo que a direção de Curran seja pouco inventiva e até trivial visualmente, é difícil não se deixar impactar pelo belo trabalho de Edward Norton e Naomi Watts, também produtores do filme: em um registro minimalista que evita a grandiloquência, os dois atores mergulham em um universo de dor e sofrimento que se revela através de gestos simples e olhares angustiados. É interessante a maneira com que Curran transita entre o sublime dos momentos românticos e o terror das sequências que mostram as consequências da epidemia, como se mostrasse dois filmes que se cruzam em um mesmo e melancólico clímax. Para isso colabora a atmosfera claustrofóbica imposta pela fotografia quente de Stuart Dryburgh, que transmite com precisão o desespero da situação imposta pela história e os personagens.

Injustamente pouco lembrado dentro da filmografia de seus astros, "O despertar de uma paixão" passou praticamente em branco pelas cerimônias de premiação e tampouco fez barulho nas bilheterias. Filmado na China e coproduzido por uma companhia local que exigiu controle sobre o roteiro e o corte definitivo - felizmente sem maiores ônus ao resultado final -, talvez tenha sido prejudicado pelo tema pesado e pela campanha pouco esforçada do estúdio. Mas é uma produção caprichada, feita para adultos que procuram mais do que simplesmente finais felizes anódinos e artificiais. Pode-se dizer, sem medo, que é a versão definitiva do romance de Maughan.

terça-feira

NASCE UMA ESTRELA

 


NASCE UMA ESTRELA (A star is born, 2018, Warner Bros, 136min) Direção: Bradley Cooper. Roteiro: Bradley Cooper, Eric Roth, Will Fetters, estória de William Wellman, Robert Carson, roteiros de Moss Hart (1954), John Gregory Dunne, Joan Didion, Frank Pierson (1976). Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Jay Cassidy. Figurino: Erin Benach. Direção de arte/cenários: Karen Murphy/Ryan Watson. Produção executiva: Basil Iwanyk, Sue Kroll, Niija Kuykendall, Ravi Mehta, Heather Parry, Michael Rapino. Produção: Bradley Cooper, Bill Gerber, Lynette Howell Taylor, Jon Peters, Todd Phillips. Elenco: Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliott, Rafi Gavron, Anthony Ramos, Ron Rifkin. Estreia: 31/8/201 (Festival de Veneza)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Bradley Cooper), Atriz (Lady Gaga), Ator Coadjuvante (Sam Elliott), Roteiro Adaptado, Fotografia, Canção Original ("Shallow"), Mixagem de Som

Vencedor do Oscar de Canção Original ("Shallow")

Vencedor do Golden Globe de Canção Original ("Shallow")

A trama de "Nasce uma estrela" fascina Hollywood - e o público - desde 1937, quando o filme estrelado por Janet Gaynor e Fredric March estreou (e ganhou o Oscar de melhor roteiro). De lá pra cá, outras  versões da trágica história de amor entre dois artistas  - ele decadente; ela em plena ascensão - povoaram a mente e o coração de diferentes gerações, sempre com sucesso de crítica e bilheteria. E levando-se em conta de que era praticamente tradicional que surgisse um novo remake a cada duas décadas, até que demorou para que o século XXI apresentasse a sua própria visão do tema. Tudo bem que projetos já existiam há tempos - e até nomes como Steven Spielberg e Clint Eastwood estiveram ligados a ele em determinados momentos -, mas foi somente em 2018 que finalmente o quarto "Nasce uma estrela" chegou às telas. A demora, no entanto, revelou-se uma bênção: tivesse sido realizado antes, o filme não teria contado com seu maior trunfo - a presença luminosa e potente de Lady Gaga. Uma das maiores estrelas pop surgidas nos anos 2000, Gaga foi, provavelmente, o maior chamariz da produção, e não apenas foi a principal responsável pelos mais de 400 milhões de dólares coletados pelo filme nas bilheterias: premiada com o Golden Globe e indicada ao Oscar de melhor atriz, ela tornou-se a imagem mais potente do filme, que lhe rendeu a estatueta de melhor canção original (situação que espelha o que aconteceu com Barbra Streisand em 1976).

A presença de Gaga no papel central de "Nasce uma estrela" deve-se muito aos esforços do ator/diretor/roteirista/produtor Bradley Cooper, que insistiu em sua escalação a despeito da resistência da Paramount Pictures, pouco confiante no talento e no poder de fogo da cantora - conhecida por suas apresentações excêntricas que flertavam abertamente com o bizarro e a ruptura do status quo. Para o papel, que exigia dotes musicais além do corriqueiro, o estúdio preferia nomes menos polêmicos, como Beyoncé, Jennifer Lopez, Shakira, Rihanna e até Selena Gomez, mas Cooper, certo de que a escolha de Gaga era a mais certeira, lançou mão do mais velho dos truques, filmando a si mesmo e à cantora em cenas escritas por ele mesmo e o corroteirista Will Fetters: diante do resultado final, com o sucesso estrondoso do filme e o arrastão de prêmios da temporada (com oito indicações ao Oscar, incluindo melhor filme), dificilmente os executivos se arrependeram da decisão. Mesclando inocência, garra, paixão e força, Lady Gaga engole o filme toda vez que está em cena, mesmo ao lado de um Bradley Cooper no melhor momento de sua carreira.

 

Gaga interpreta (com segurança de veterana) a garçonete Ally Campana, que sonha em ver reconhecido seus talentos de cantora e compositora. Recém saída de um relacionamento tóxico, ela vê sua vida mudar radicalmente quando conhece Jackson Maine (Bradley Cooper), astro da música country que a descobre em um bar de drag queens e lhe oferece a chance de cantar com ele em um show. Maine está passando por um longo período de batalha contra as drogas e o álcool, mas isso não o impede de encantar-se com a jovem e convidá-la a juntar-se a ele em uma turnê. Aos poucos o relacionamento profissional evolui para um apaixonado romance, mas enquanto Ally começa a tornar-se mais e mais reconhecida por seus dotes musicais - a ponto de suplantá-lo em sucesso comercial e prestígio -, Maine se afunda progressivamente em sua doença. Brigado com o irmão mais velho, Bobby (Sam Elliott), e com a carreira ameaçada, o outrora celebrado cantor tenta sobreviver à ideia de ficar à sombra da mulher que ama, mas seus demônios interiores crescem à medida em que ela atinge o ápice de sua carreira.

Sem abrir mão de momentos clássicos das versões anteriores da trama - como o clássico momento em que Jackson invade, bêbado, a cerimônia de consagração de Ally -, o remake 2018 de "Nasce uma estrela" consegue o feito raro de modernizar o enredo original sem precisar desrespeitar seus antecessores. Em seu primeiro trabalho como diretor, Bradley Cooper equilibra com destreza as sequências musicais (dentre as quais destaca-se a bela "Shallow", premiada com o Oscar) e os dramas pessoais de seus protagonistas, com uma embalagem visual atraente e um ritmo adequado às plateias de seu tempo. Se Judy Garland estava no auge de sua carreira quando estrelou a versão de 1954 e Barbra Streisand já era uma atriz e cantora de prestígio em 1976, Lady Gaga surpreende ao demonstrar uma segurança ímpar na construção de sua Ally Campana mesmo em sua estreia no cinema. Dona de um carisma irresistível, Gaga bate de frente com o experiente Cooper em cenas de alta carga dramática e, se o público não consegue resistir às lágrimas em seu final, muito se deve à sua dedicação ao papel e ao apelo universal (e atemporal) da história, adaptada (felizmente) sem muitas invenções. Com uma produção caprichada - fotografia deslumbrante, a trilha sonora marcante, edição ágil - e uma direção precisa, "Nasce uma estrela" não decepciona frente a seus irmãos mais velhos e se apresenta como um dos filmes essenciais do gênero.

segunda-feira

ELVIS

 


ELVIS (Elvis, 2022, Warner Bros/Bazmark Films/Roadshow Entertainment, 159min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce, Sam Bromell, Jeremy Doner, estória de Baz Luhrmann, Jeremy Doner. Fotografia: Mandy Walker. Montagem: Jonathan Redmond, Matt Villa. Música: Elliott Wheeler. Figurino: Catherine Martin. Direção de arte/cenários: Catherine Martin, Karen Murphy/Shaun Barry, Beverly Dunn. Produção executiva: Toby Emmerich, Kevin McCormick, Andrew Mittman, Courtenay Valenti. Produção: Gail Berman, Baz Luhrmann, Catherine Martin, Patrick McCormick, Schuyler Weiss. Elenco: Austin Butler, Tom Hanks, Olivia DeJonge, Richard Roxburg, Kelvin Harrison Jr., Kodi Smith-McPhee, Chaydon Jay. Estreia: 25/5/2022 (Festival de Cannes)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Austin Butler), Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som, Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator (Comédia/Musical): Austin Butler

Quem conhece a filmografia do cineasta australiano Baz Luhrmann sabe que não se poderia esperar que "Elvis", seu longa-metragem sobre o rei do rock, fosse uma cinebiografia convencional e quadradinha. Rejeitando (pero no mucho) quase todas as regras de um gênero que raramente se arrisca a inovações, Luhrmann não se restringe a encapsular, em pouco mais de duas horas e meia de projeção, os 42 anos do célebre cantor: embaralhando todas as cartas à sua disposição - graças a uma edição magistral e a um roteiro que não se prende a cronologias -, o homem que deu ao mundo o visceral "Moulin Rouge: o amor em vermelho" (2001) faz a sua homenagem não apenas ao artista Presley, mas também ao homem Elvis, à força transformadora e rebelde da música e - por que não? - a um período crucial da história sócio-política dos EUA, quando figuras seminais como Martin Luther King e Robert Kennedy dividiam espaço com personalidades infames como Charles Manson. Além disso, foge do previsível ao centrar seu foco na relação entre o cantor e seu empresário/mentor/amigo/algoz, Coronel Tom Parker - interpretado com a garra de sempre por um irreconhecível Tom Hanks (vítima de críticas pouco simpáticas por parte da imprensa).

Narrado por Parker - o que oferece uma dose a mais de ironia e cinismo à trajetória do rockstar -, "Elvis" percorre o caminho de Presley desde o começo de seu sucesso até sua trágica morte, em agosto de 1977. No entanto, o roteiro passa ao largo de momentos cruciais à carreira do protagonista - como sua carreira em Hollywood -, para concentrar-se em suas relações interpessoais (com os pais, com o empresário, com Priscilla) e em suas tentativas de fugir das regras morais de uma sociedade conservadora e racista. Isso não quer dizer, no entanto, que Luhrmann prive a plateia de números musicais: eles existem e são avassaladores, especialmente graças ao trabalho impecável de Austin Butler no papel-título. Praticamente desconhecido do grande público - apesar de ter o cultuado "Era uma vez.... em Hollywood" (2019) no currículo -, Butler foi a escolha perfeita do diretor: seu desempenho evita as armadilhas que uma mera imitação poderia trazer e envolve o espectador (e os fãs) ao iluminar um ser humano palpável e com sentimentos reais, a anos-luz de qualquer caricatura. Seja no palco, recriando as polêmicas coreografias que tanto incomodavam os puritanos, ou nos bastidores, em momentos mais intimistas, o jovem ator faz esquecer que, a princípio, pouco lembra fisicamente o verdadeiro Elvis. Sua entrega - que lhe rendeu um Golden Globe e uma merecida indicação ao Oscar de melhor ator - é o maior trunfo de um filme que tem muitos deles.
 
 
É inegável que "Elvis" peca na maneira de informar ou detalhar situações importantes da vida e da carreira de seu protagonista - a impressão é que muita coisa passa correndo na tela, mal dando tempo ao público de entender tudo de forma consistente. Porém, levando-se em conta o estilo festivo e espalhafatoso de Baz Luhrmann, tudo faz sentido. Um celebrante do kitsch desde seu primeiro trabalho para as telas - o cult "Vem dançar comigo" (1992) -, o cineasta encontrou no universo feérico das apresentações do cantor um terreno fértil para exercitar suas obsessões visuais. Não para menos, conta com sua fiel escudeira, Catherine Martin, na concepção artística do projeto - casada com o diretor desde 1997 e com quatro Oscar na prateleira (por "Moulin Rouge" e "O grande Gatsby", de 2013). Juntos, eles imprimem em seus filmes um estilo único, facilmente reconhecível e controverso: a cada fã deslumbrado com seus exageros estéticos, há um detrator insatisfeito com tamanha opulência. Tal divisão está, inclusive, no cerne de "Elvis": tudo que faz da filmografia de Luhrmann uma exceção dentro da indústria hollywoodiana está presente em seu sexto longa, para o bem ou para o mal. Em sua obra não há espaço para elocubrações psicológicas ou aprofundamentos dramáticos - o que importa é o que está diante dos olhos do espectador e como isso pode lhe afetar emocionalmente. Em "Elvis" isso está patente em cada escolha estética, em cada ângulo de câmera, em cada corte de edição. Interessa a Luhrmann soterrar a plateia de informações visuais e sonoras, para conduzí-la a uma viagem sinestésica. Quem iniciar o filme procurando uma narrativa comum certamente irá levar um choque. Quem sabe com quem está lidando vai se confrontar com uma produção caprichada, tecnicamente irrepreensível, emocional e reverente - à obra de Presley, à sua figura como ser humano e, aplausos a isso, à importância da cultura negra para sua música e seu sucesso.

"Elvis" é um grande filme. Tem defeitos claros - quem não conhece direito a história do roqueiro provavelmente ainda ficará com uma série de perguntas ao final da sessão -, mas tem qualidades o bastante para amenizar qualquer pecadilho. E, como bom produto cultural, despertou uma nova geração de fãs e reconquistou aqueles que o tempo havia espalhado pelo caminho. Merecidamente indicado a oito Oscar (incluindo melhor filme), acabou atropelado por uma alucinação coletiva chamada "Tudo em todo lugar ao mesmo tempo", mas qualquer fã de cinema é obrigado a reconhecer que é muito superior em todos os quesitos. Mais uma vez Baz Luhrmann foi roubado - e assim como aconteceu com "Moulin Rouge", ficou de fora dos candidatos à estatueta de melhor diretor. Coisas da Academia!

sexta-feira

ATAQUE DOS CÃES


ATAQUE DOS CÃES (The power of the dog, 2021, Netflix/BBC Films, 126min) Direção: Jane Campion. Roteiro: Jane Campion, romance de Thomas Savage. Fotografia: Ari Wegner. Montagem: Peter Sciberras. Música: Jonny Greenwood. Figurino: Kirsty Cameron. Direção de arte/cenários: Grant Major/Amber Richards. Produção executiva: Rose Garnett, Simon Gillis, John Woodward. Produção: Jane Campion, Iain Canning, Roger Frappier, Tanya Seghatchian, Emile Sherman. Elenco: Benedict Cumberbatch, Kirsten Dunst, Jesse Plemmons, Kodi Smith-McPhee. Estreia: 02/9/2021 (Festival de Veneza)

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Direção (Jane Campion), Ator (Benedict Cumberbatch), Ator Coadjuvante (Jesse Plemons/Kodi Smith-McPhee), Atriz Coadjuvante (Kirsten Dunst), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Som

Vencedor do Oscar de Direção (Jane Campion)

Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Direção (Jane Campion), Ator Coadjuvante (Kodi Smith-McPhee)

Quem conhece o cinema da neozelandesa Jane Campion sabe que o que lhe interessa é o turbilhão interno de seus personagens. Mesmo quando o sexo está ameaçando romper o verniz de civilidade que revestem seus protagonistas é o que se passa além de seus desejos carnais que chama a sua atenção. Foi assim, por exemplo, com a pianista muda que redescobre o prazer e o amor no mais inesperado momento, no premiado "O piano" (1993) e com a dama da sociedade que se vê alvo de uma armadilha engendrada por seu marido e sua melhor amiga, em "Retrato de uma mulher" (1996). E é assim também em "Ataque dos cães", que estreou no Festival de Veneza de 2021 e imediatamente despertou comentários entusiasmados que o levaram a merecidas doze indicações ao Oscar: a despeito de parecer, a princípio, apenas uma desconstrução dos cânones do western, a história da relação doentia/intrigante/imprevisível entre dois irmãos e a mulher que surge entre eles é um estudo sombrio sobre ciúme, vingança e intolerância, contado com o estilo quase contemplativo de Campion - desta vez centrando sua trama em um protagonista masculino.

Afastada do cinema desde "O brilho de uma paixão" (2009) - como diretora esteve envolvida apenas com a minissérie "Top of the lake", entre 2013 e 2017 -, Jane Campion voltou à cena no auge de sua força narrativa. Explorando o romance de Thomas Savage como ponto de partida, a cineasta/roteirista nada contra a corrente do cinema de fácil digestão ao criar uma teia de sentimentos escondidos, sensações recalcadas e meias-verdades que vão se avolumando até o final - um clímax poderoso, mas de uma sutileza tal que deixa no espectador a dúvida sobre seus reais desdobramentos. O roteiro de Campion é repleto de silêncios avassaladores, sublinhados pela bela trilha sonora de Jonny Greenwood e, enfeitado pelas deslumbrantes paisagens da Nova Zelândia (fazendo as vezes do estado de Montana, cenário da trama), conduz o público a um labirinto de intenções escusas e atrações dúbias: seus personagens não são unidimensionais, seus desejos quase nunca se revelam facilmente e muitas das aparências enganam - essa é "a força do Cão" do título original, a capacidade que o demônio tem de disfarçar sua real face até que seja tarde demais. O teor fatalista do enredo - que pode até soar como uma tragédia grega - encontra na direção suave de Campion (premiada com uma estatueta da Academia) a tradução ideal: mesmo que imprima um ritmo bem mais lento do que a média do cinema contemporâneo, a realizadora acerta em cheio em não apressar o desenvolvimento de seus personagens e de suas ações, oferecendo a eles (e a seus intérpretes fabulosos) espaço suficiente para que jamais pareçam gratuitos ou incoerentes.

 

O personagem principal do filme é Phil Burbank (Benedict Cumberbatch em mais um desempenho memorável): fazendeiro bruto, quase irascível e pouco dado a sutilezas, ele desperta a antipatia imediata da independente Rose (Kirsten Dunst), proprietária de um restaurante de beira de estrada, ao implicar com os modos delicados e sensíveis de seu filho único, Peter (o ótimo Kodi Smith-McPhee). A relação pouco amistosa entre eles não impede, porém, que Rose aceite o pedido de casamento de George (Jesse Plemons), irmão de Phil, e se mude com ele para a fazenda que ambos dividem. A aparente falta de educação de Phil contrasta radicalmente com a delicadeza de Rose e Peter - e logo um clima de constante tensão se instala na propriedade. A dinâmica entre o quarteto só começa a mudar quando Phil inicia uma aproximação com Peter - um caminho sem volta que leva a uma tragédia inesperada, com raízes ocultas em um passado infeliz e (mal) enterrado.

O elenco escolhido por Campion é abismal - não por acaso seus quatro atores centrais chegaram a indicações da Academia. Mesmo sem precisar de longos diálogos, todos eles são capazes de expressar uma vasta gama de emoções - seus olhos, seus gestos e seus silêncios transmitem toda a angústia que circunda a existência de seus personagens. Kirsten Dunst surge como a peça inicialmente frágil em uma disputa de poder e testosterona que só pode acabar mal, mas são Benedict Cumberbatch e Kodi Smith-McPhee que roubam a cena. Seus embates são fascinantes e carregados de uma tensão cujo tamanho vai crescendo até o ponto de explodir - uma explosão que, inteligente e sutil, Campion impede que contradiga o tom delicado do filme até então. Pode até decepcionar a quem espera algo mais radical, mas não trai a essência tanto da produção em si quanto da filmografia de sua criadora. "Ataque dos cães" é um filme para poucos - como o são todos os filmes anteriores de Jane Campion - que recebeu um merecido Oscar por seu meticuloso trabalho. Mas é, também, uma pérola, que se sobressai diante da mesmice de boa parte do cinema contemporâneo hollywoodiano - e uma senhora bola dentro da Netflix, cada vez mais se firmando como espaço para grandes diretores (como Martin Scorsese, Alfonso Cuarón e David Fincher) que buscam liberdade artística.

O DOCE SABOR DE UM SORRISO

 


O DOCE SABOR DE UM SORRISO (Only when I laugh, 1981, Columbia Pictures, 120min) Direção: Glenn Jordan. Roteiro: Neil Simon, peça teatral "The gingerbread lady", de sua autoria. Fotografia: David M. Walsh. Montagem: John Wright. Música: David Shire. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Marvin March. Produção: Roger M. Rothstein, Neil Simon. Elenco: Marsha Mason, James Coco, Joan Hackett, Kristy McNichol, David Dukes, Peter Coffield. Estreia: 13/9/81 (Festival de Toronto)

3 indicações ao Oscar: Atriz (Marsha Mason), Ator Coadjuvante (James Coco), Atriz Coadjuvante Joan Hackett)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Joan Hackett) 

Um dos mais populares dramaturgos norte-americanos dos anos 1960 e 1970, Neil Simon não apenas consagrou-se nos palcos da Broadway mas também teve uma bem-sucedida carreira em Hollywood, assinando grandes sucessos, que chegaram a lhe render indicações ao Oscar - pelos filmes "Um estranho casal" (1968), "Uma dupla desajustada" (1975), "A garota do adeus" (1977) e "California Suite" (1978). Vencedor de 3 Tony Awards e referência do teatro nos EUA, Simon enfrentou, em 1970, um revés artístico e comercial: sua peça "The gingerbread lady" teve uma decepcionante trajetória e parecia fadada a entrar para a história como um de seus poucos equívocos. Porém, na arte nem sempre um fracasso é definitivo, e onze anos depois, rebatizado de "Only when I laugh", seu texto ressurgiu em forma de roteiro e, posteriormente como um filme. Dirigido por Glenn Jordan e produzido pelo próprio Neil Simon, "O doce sabor de um sorriso" arrebatou três indicações ao Oscar (incluindo na categoria de melhor atriz, para Marsha Mason, então casada com o escritor) e reafirmou sua posição como um roteirista dos mais confiáveis e admiráveis de sua geração. Mesmo com sua história construída dentro de um universo todo particular - o mundo do teatro nova-iorquino, com suas idiossincrasias e dramas -, o filme estrelado por Mason acerta ao dotar sua protagonista de sentimentos universais e facilmente reconhecíveis dentro de qualquer família disfuncional.

A personagem central do filme é Georgia Hines (Marsha Mason), uma atriz de teatro que, depois de uma temporada de de três meses em uma clínica de reabilitação, volta ao convívio de seus amigos e de sua filha adolescente, Polly (Kristy McNichol). Polly, tentando reconectar-se com a mãe com quem tem uma relação delicada, resolve morar com ela em seu pequeno apartamento - e passa a testemunhar sua luta para evitar a recaída no álcool. Tentando retomar a carreira, Georgia aceita o desafio de protagonizar uma peça inédita de seu ex-namorado, David (David Dukes) - um texto que recria no palco sua problemática relação. Em seu dia-a-dia ela conta com o apoio de Toby Landau (Joan Hackett), cujo casamento está por um fio a despeito de seus cuidados com a aparência, e Jimmy Perrino (James Coco), um ator gay em busca de um lugar ao sol.

 


Típico produto de sua época - para o bem e para o mal -, "O doce sabor de um sorriso" não esconde suas origens teatrais, com um roteiro calcado basicamente em diálogos e cenas cuja construção vai crescendo gradualmente. É aí que se destaca a familiaridade de Mason em declamar o texto bem azeitado de Simon - em especial a ótima sequência em que, reunida com seus dois melhores amigos, ambos frustrados com suas vidas, sua Georgia cai na tentação de voltar a beber. Em momentos assim o filme cresce e disfarça a direção sem brilho de Glenn Jordan em seu primeiro filme. Substituindo Herbert Ross - que havia comandado com sucesso o ótimo "A garota do adeus" -, Jordan extrai de seus atores atuações inspiradas, mas falha em dotar o filme de um ritmo ágil que lhe faria muito bem. Uma edição mais enxuta, por exemplo, evitaria a duração excessiva (a trama frágil mal consegue sustentar as duas horas) e deixaria a história menos cansativa. Para sua sorte, porém, a química entre o elenco é das melhores possível. James Coco, inclusive, tem no currículo a dúbia glória de ter sido indicado ao Oscar e ao Framboesa de Ouro pelo mesmo desempenho: na pele do leal Jimmy Perrino, ele é dono de algumas das melhores falas do roteiro - mas perdeu o prêmio da Academia para John Gielgud (de "Arthur, o milionário sedutor") e o Framboesa para Steve Forrest (por "Mamãezinha querida"). E Joan Hackett, que brilha na pele da quase fútil Toby Landau, morreu aos 49 anos, em 1983, vítima de câncer no ovário, encerrando uma carreira promissora ainda incipiente. 

Leve e inteligente, mas pouco lembrado até mesmo pelos fãs de Neil Simon, que o coloca em segundo plano diante de uma série de sucessos, "O doce sabor de um sorriso" é uma produção simpática, dotada de alguns bons e específicos momentos. O resultado final é um tanto morno e carece da força dos melhores trabalhos do autor, além de deixar no ar uma sensação de frustração em relação ao destino de seus personagens. Porém, o carisma de Marsha Mason em um de seus melhores trabalhos e a leveza com que trata de temas pesados como o alcoolismo fazem dele uma bela opção para quem gosta do gênero e da Hollywood do começo da década de 1980 - um meio-termo entre a ousadia dos 70 e o conservadorismo que se avizinhava e tomaria conta dos anos seguintes.

quinta-feira

UM LUGAR NO CORAÇÃO

 


UM LUGAR NO CORAÇÃO (Places in the heart, 1984, TriStar Pictures, 111min) Direção e roteiro: Robert Benton. Fotografia: Néstor Almendros. Montagem: Carol Littleton. Música: John Kander. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Gene Callahan/Derek Hill, Lee Poll. Produção executiva: Michael Hausman. Produção: Arlene Donovan. Elenco: Sally Field, Danny Glover, John Malkovich, Ed Harris, Amy Madigan, Lindsay Crouse. Estreia: 04/10/84

07 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Benton), Atriz (Sally Field), Ator Coadjuvante (John Malkovich), Atriz Coadjuvante (Lindsay Crouse), Roteiro Original, Figurino

Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Sally Field), Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Sally Field)

Na cerimônia do Oscar que premiou os melhores filmes de 1984, uma situação atípica configurou-se na categoria de melhor atriz. Três das candidatas ao prêmio da Academia estavam na briga por papéis quase similares. Tanto Jessica Lange em "Minha terra, minha vida" quanto Sissy Spacek em "O rio do desespero" e Sally Field em "Um lugar no coração" chegaram às finais da disputa interpretando mulheres fortes e determinadas a defender sua propriedades rurais. Field levava vantagem - estava indicada por uma produção que também concorria a estatuetas de filme, direção e roteiro - e acabou saindo vitoriosa pela segunda vez na carreira, mas a a coincidência temática acusava mais do que simples falta de originalidade: no meio da década de 1980, uma espécie de ciclo de filmes situados nos anos pós-Depressão parecia servir como uma luva ao conservadorismo do governo Reagan, então em seu primeiro mandato como presidente. Ao voltar os olhos para o passado, os grandes estúdios de Hollywood recontavam uma parte da história que ninguém desejava repetir - e de quebra davam a cineastas e atores grandes oportunidades dramáticas e artísticas. Tudo bem que "Um lugar no coração" não levou o Oscar de melhor filme, mas sua premiação na categoria de roteiro original - contra três comédias - é sinal inequívoco de que até mesmo a Academia se deixou levar por tal sentimento de melancolia e superação.

Não que o filme de Robert Benton - voltando ao Oscar cinco anos depois do triunfo de seu "Kramer vs Kramer" (1979) - careça de qualidades que justificam seu sucesso junto à crítica. Com uma protagonista com ecos de Scarlett O'Hara e um tom triunfalista capaz de emocionar aos espectadores mais sensíveis, "Um lugar no coração" é um filme à moda antiga, com personagens complexos, uma trama simples mas eficiente e a felicidade de driblar o sentimentalismo e os clichês - quando estes aparecem servem como combustível para a história e não como uma muleta narrativa. Amparado por uma atuação caprichada de Sally Field - que também saiu vitoriosa no Golden Globe - e um elenco coadjuvante brilhante que inclui um jovem John Malkovich e Danny Glover em um de seus primeiros papéis importantes, a produção de Benton conquista desde as primeiras cenas, graças a um roteiro redondo que permite à plateia que se envolva com os dramas de seus personagens - mesmo contando uma história norte-americana em sua raiz mais profunda, é inegável que os sentimentos que inspiram são universais.

 

A protagonista de "Um lugar no coração" é Edna Spalding. Dona de casa, esposa e mãe dedicada de dois filhos pequenos, ela vive em uma pequena fazenda localizada em Waxahachie, Texas, no começo dos anos 1930. Sua vida pacata e sem sobressaltos - apesar do constante perigo que cerca seu marido xerife - sofre uma triste reviravolta quando um acidente a deixa inesperadamente viúva. Cheia de dívidas e sem experiência de trabalho braçal, Edna se recusa a capitular e vender sua propriedade - o que resultaria também em uma separação da família. Dotada de extrema força de vontade e garra, ela resolve então trabalhar exaustivamente para transformar suas terras em uma fazenda de algodão, contando, para isso, com a ajuda de Moses (Danny Glover) - um homem negro que aparece no local pedindo esmola - e Will Denby (John Malkovich), um rapaz cego que aluga um quarto em sua casa. Correndo contra o tempo e as dificuldades da economia frágil da época, a voluntariosa Edna ainda precisa escapar das ameaças da Klu Klux Klan, que não vê com bons olhos sua amizade com Moses.

Cuidadoso na reconstituição de época e no trabalho de direção de seus atores, Robert Benton faz um gol e tanto em "Um lugar no coração". Ao construir um roteiro que trata com carinho tanto seus protagonistas como seus coadjuvantes, o cineasta oferece ao espectador uma viagem ao passado, evocada diretamente de suas próprias lembranças. Nascido na mesma Waxahachie de seus protagonistas, Benton faz das recordações da sua infância a matéria-prima de sua história, ainda que ela seja completamente fictícia. O tom nostálgico que perpassa cada sequência - valorizado pela música de John Kander e a bela fotografia do veterano Néstor Almendros - é responsável direto pelo sucesso de sua narrativa, que foge dos exageros mesmo quando faz de sua personagem central uma mulher quase sem defeitos. Ao dotar Edna Spalding de um caráter firme e brios de guerreira, o diretor parece dizer que não lhe interessa mostrar o que ela tem de errado, e sim sublinhar sua força e dignidade. Saindo dos anos 1970, uma época em que anti-heróis dominavam a indústria, o cinema norte-americano dava sinais de que pretendia voltar a valores mais sólidos e menos cínicos. Dentro dessa premissa, "Um lugar no coração" é exemplar - e de quebra emociona sem fazer muito esforço.

quarta-feira

ARGENTINA, 1985

 


ARGENTINA, 1985 (Argentina, 1985, 2022, La Unión de los Ríos/Kenya Films/Infinity Hills, 140min) Direção: Santiago Mitre. Roteiro: Santiago Mitre, Mariano Llinás, Martín Mauregui (colaborador). Fotografia: Javier Julia. Montagem: Andrés Pepe Estrada. Música: Pedro Osuna. Figurino: Mônica Toschi. Direção de arte/cenários: Micaela Saiegh. Produção executiva: Phin Glynn, Cindy Teperman. Produção: Victoria Alonso, Santiago Carabante, Chino Darín, Ricardo Darín, Axel Kuschevatzky, Agustina Llambi Campbell, Santiago Mitre, Federico Posternak, Ana Taleb. Elenco: Ricardo Darín, Peter Lanzani, Alejandra Fletchner, Paula Ransenberg. Estreia: 03/9/2021 (Festival de Veneza)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Internacional

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional 


As cicatrizes que a ditadura militar deixou na sociedade argentina ainda se fazem sentir no país, mesmo depois de quatro décadas após seu final. Pelo menos é que dizem filmes como "A história oficial" (1985), de Luis Puenzo - que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro - e o novo "Argentina, 1985", o fascinante petardo do diretor Santiago Mitre que concorreu ao Oscar 2023 na mesma categoria. Porém, enquanto a obra-prima de Puenzo direcionava suas câmeras a um olhar mais particular sobre o trágico período político encerrado em 1983 (com a história de uma professora descobrindo as origens de sua pequena filha adotiva), a produção de Mitre se debruça explicitamente sobre os crimes cometidos pelos militares - estupros, assassinatos, torturas - para fazer uma espécie de inventário de suas atrocidades e, por consequência, alertar sobre os perigos de que voltem a acontecer. Momentoso, sóbrio e inteligente, o filme, estrelado pelo sempre ótimo Ricardo Darín, surge na hora apropriada, mas seu sucesso não deve ser creditado somente à sua importância política: "Argentina, 1985" é cinema de primeira linha, um filmaço que consegue unir, em duas horas e meia de projeção, entretenimento e relevância histórica.

O filme de Mitre elege como protagonista o promotor público Julio Strassera (Ricardo Darín), escalado para ser o responsável pelo julgamento dos militares de alta patente acusados da violenta repressão  contra os críticos ao governo ditatorial que dominou o país entre 1963 e 1983. Contando com o apoio do jovem advogado Luis Moreno Ocampo (Juan Pedro Lanzani) - que entra em rota de colisão com a família, formada por apoiadores do regime - e um grupo de estagiários cuja vontade de ganhar a causa é inversamente proporcional a sua pouca idade, Strassera aceita a missão contra a vontade, ciente das consequências de um julgamento tão polêmico. Porém, conforme as sessões avançam e as ameaças contra ele, sua mulher e seus filhos aumentam, ele vê aumentar cada vez mais sua sede de justiça - especialmente diante de depoimentos contundentes das vítimas, que estabelecem um grau de crueldade e violência impossíveis de ignorar. Strassera sabe que a condenação dos réus é a única forma de evitar que tal atrocidade venha a repetir-se.

 

Fugindo do tom semi-documental que fatalmente acomete produções de teor político, "Argentina, 1985" não abre mão, no entanto, de deixar bem clara as suas intenções de desenterrar o passado sombrio do país. O roteiro, perfeitamente equilibrado entre dramas pessoais e questões jurídicas que jamais descambam para a verborragia técnica que poderia afastar o espectador, não hesita em explicitar, através de testemunhas e documentos, toda a fúria sanguinária de homens que tentavam, através da força física e psicológica, destruir seus inimigos políticos da forma mais vil. São momentos como esses, em que vítimas narram suas dores, que fazem do filme de Santiago Mitre um petardo histórico e emocional, em contraponto à frieza de todas as sequências em que são discutidos detalhes de bastidores. Em especial no terço final da produção, o cineasta parece abraçar definitivamente o desejo de comover a plateia, encaminhando-a para um clímax arrepiante e, melhor ainda, perfeitamente acurado e fiel aos fatos.

É admirável que o roteiro de "Argentina, 1985" - escrito por Mitre e Mariano Llinás - consiga a façanha de ser, ao mesmo tempo, informativo e dramaticamente consistente. Apesar de dedicar boa parte de sua narrativa a um estudo fidedigno dos processos jurídicos retratados e dos documentos oficiais, a trama encontra espaço suficiente para humanizar seus protagonistas e aproximá-los do espectador mais comum. Enquanto Strassera precisa lidar com as ameaças que sofre para abandonar o julgamento - em sequências tensas e editadas com precisão -, Ocampo sente na pele as consequências de enfrentar um sistema de violência ao tornar-se um pária dentro da própria família. Para isso, o diretor recebe o auxílio impecável de um elenco exemplar, liderado por Ricardo Darín, mais uma vez brilhante: um dos produtores do filme (ao lado do filho, o também ator Chino Darín), o astro mais popular do cinema argentino faz mais um gol de placa - e com o Golden Globe em mãos, voltou com prestígio à cerimônia da Academia, que em 2010 premiou o hoje quase clássico "O segredo dos seus olhos". Forte e tocante, "Argentina, 1985" é nada menos que obrigatório.

quinta-feira

ARTHUR: O MILIONÁRIO SEDUTOR


ARTHUR: O MILIONÁRIO SEDUTOR (Arthur, 1981, Orion Pictures, 97min) Direção e roteiro: Steve Gordon. Fotografia: Fred Schuler. Montagem: Susan E. Morse. Música: Burt Bacharach. Figurino: Jane Greenwood. Direção de Arte/Cenários: Stephen Hendrickson/Carol Joffe, Steven J. Jordan. Produção executiva: Charles H. Joffe. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Dudley Moore, Liza Minelli, John Gielgud, Geraldine Fitzgerald, Jill Eikenberry. Estreia: 17/7/81

4 indicações ao Oscar: Ator (Dudley Moore), Ator Coadjuvante (John Gielgud), Roteiro Original, Canção Original ("Arthur's Theme (Best you can do")

Vencedor do Oscar de Canção Original: "Arthur's Theme (Best you can do)"

Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Dudley Moore), Ator Coadjuvante (John Gielgud), Canção Original ("Arthur's Theme (Best you can do)")

Nem só de dramas lacrimosos e épicos históricos vive a cerimônia do Oscar. Em 1981, mesmo ano em que "Carruagens de fogo" surgiu como o grande vencedor da festa da Academia, contra pesos-pesados como "Num lago dourado", "Reds" e "Caçadores da arca perdida", uma comédia romântica de grande sucesso popular demonstrou um poder de fogo inesperado, arrebatando duas das quatro estatuetas douradas a que estava indicada. "Arthur, o milionário sedutor", único filme escrito e dirigido por Steve Gordon (que morreu precocemente, aos 44 anos, em novembro de 1982) não apenas acabou a temporada como a quarta maior bilheteria do ano (com quase 100 milhões de dólares arrecadados pelo mundo) como conquistou a crítica a ponto de ganhar quatro Golden Globes (incluindo melhor filme e ator em comédia/musical) e chegar ao Oscar com moral suficiente para colocar Dudley Moore na disputa com nomes fortes como Paul Newman, Burt Lancaster e Henry Fonda - que acabou prevalecendo depois de uma carreira longa e vitoriosa. Estrelado ainda por uma Liza Minelli no auge da graça e da popularidade e por um John Gielgud brilhante em sua elegância britânica, "Arthur" se tornou, com o tempo, um incontestável clássico contemporâneo que nem mesmo a refilmagem desnecessária e sofrível estrelada por Russell Brand e Helen Mirren em 2011 conseguiu estragar.

Excêntrico, alcóolatra contumaz, mulherengo e de língua ferina, Arthur Bach não é apenas o personagem-título do longa de Gordon, mas seu centro absoluto - assim como suas relações com o fiel mordomo Hobson (John Gielgud) e a espevitada Linda Marolla (Liza Minnelli). Mas se é impensável imaginar ator mais apropriado do que o impagável Dudley Moore para vivê-lo, é preciso saber que o britânico estava bem longe de ser a primeira escolha do diretor. E nem apenas George Segal foi substituído por ele, como já havia acontecido em "Mulher nota dez" (1979): na lista de possíveis intérpretes para Arthur figuraram Al Pacino, James Caan, John Travolta, John Belushi, Robert Redford, Jeff Bridges, Chevy Chase, Steve Martin, Bill Murray, Jack Nicholson, Sylvester Stallone, Robin Williams, Burt Reynolds e Tom Selleck - um verdadeiro quem é quem na indústria no começo dos anos 1980. O êxito absoluto de Moore no papel não deixa de ser mérito do cineasta, que admitiu depois do lançamento, que suas dúvidas a respeito do ator central não eram as únicas a lhe atormentar: nada menos que quatro finais diferentes foram filmados e somente no processo de edição as coisas finalmente entraram nos eixos - detalhe que não impediu que o roteiro original fosse indicado ao Oscar e de certa forma servisse de influência a todas as comédias românticas que viriam a seguir.


A trama de "Arthur" não é exatamente inovadora - e nem o era à época de seu lançamento: o protagonista é um milionário irresponsável mas de bom coração que passa seus dias (ou melhor, noites) bebendo e dando em cima de toda bela mulher que passa em seu caminho. Seu fiel escudeiro, o mordomo Hobson, está sempre à espreita, consertando seus erros e tentando amenizar as consequências de seus atos tresloucados causados pelo excesso de bebida. Por trás da existência errática de Arthur, no entanto, existe um grande problema: a pressão para que se case com outra milionária, a deslumbrada Susan Johnson (Jill Eikenberry), única condição para que não tenha todo o seu dinheiro bloqueado por seu pai e sua avó. Pouco tempo antes de tomar a decisão mais importante de sua vida, porém, Arthur esbarra em Linda Marolla (Liza Minnelli), uma garçonete espevitada e de bem com a vida, que mora com o pai, Ralph (Barney Martin), e lhe mostra uma existência mais leve e distante do luxo a que está acostumado. Apaixonado por ela, o milionário precisa decidir entre o dinheiro e o amor - e descobrirá que a decisão não é tão fácil quanto poderia parecer.

"Arthur" é uma comédia deliciosa, que faz rir de forma orgânica e conquista pela simpatia dos atores principais - uma química preciosa que por pouco não aconteceu. Além da dificuldade de escalar um ator apropriado para viver o protagonista masculino, a produção também sofreu para encontrar uma atriz capaz de dividir a cena com Dudley Moore de forma a não ser eclipsada. Antes que Liza Minnelli entrasse no jogo, Carrie Fisher e Debra Winger já haviam recusado o papel, e na lista de possíveis intérpretes para a carismática Linda Marolla constavam Mia Farrow, Goldie Hawn, Farrah Fawcett, Barbara Hershey, Diane Keaton, Jessica Lange, Bette Midler, Susan Sarandon, Cybill Sheperd e Meryl Streep. A entrada de Minnelli no projeto se aproveitava do sucesso pós-Oscar por "Cabaret" (1977), mas é impossível não perceber que, apesar de seu talento incontestável, sua personagem é pouco desenvolvida, praticamente vivendo em função de seu relacionamento com Arthur. Quando juntos, ela e Dudley Moore brilham cintilantes - mas é uma pena a trama muitas vezes se desloque para as desventuras familiares do ricaço, em detrimento de seu nascente e divertido romance. Isso não impede, no entanto, que o filme de Steve Gordon seja um passatempo dos mais agradáveis e felizes de sua época

terça-feira

A FORMA DA ÁGUA


A FORMA DA ÁGUA (The shape of water, 2017, Fox Searchlights, 123min) Direção: Guillermo Del Toro. Roteiro: Guillermo Del Toro, Vanessa Taylor. Fotografia: Dan Laustsen. Montagem: Sidney Wolinsky. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Luis Sequeira. Direção de arte/cenários: Paul D. Austerberry/Jeffrey A. Melvin, Shane Vieau. Produção: J. Miles Dale, Guillermo Del Toro. Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Octavia Spencer, Michael Stuhlbarg, Doug Jones. Estreia: 31/8/2017 (Festival de Veneza)

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Guillermo Del Toro), Atriz (Sally Hawkins), Ator Coadjuvante (Richard Jenkins), Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Mixagem de Som, Edição de Som

Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Guillermo Del Toro), Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Trilha Sonora Original

Quando tinha apenas seis anos de idade, o cineasta Guillermo Del Toro assistiu ao clássico "O monstro da lagoa negra" (1954) e não se conformou com o fato da mocinha do filme, interpretada por Julie Adams, não ter tido um final feliz com a criatura do título. Mais de quarenta anos depois, já consagrado como o diretor de filmes mundialmente aclamados -  "A espinha do diabo" (2001) e "O labirinto do fauno" (2006) - Del Toro pode finalmente contar a história a seu modo. Disfarçadamente, é claro - mas nem tanto - e com um toque de fantasia que dialoga diretamente com suas obras mais admiradas., "A forma da água" transformou-se, em pouco tempo, do projeto dos sonhos do realizador (e um de seus filmes mais pessoais) em um grande êxito de bilheteria e crítica. Vencedora do Leão de Ouro do Festival de Veneza e de quatro Oscar (incluindo melhor filme e diretor), a romântica história da relação entre uma tímida e sonhadora faxineira e uma criatura anfíbia tida como prisioneira em um laboratório do governo norte-americano durante a Guerra Fria, subverte as convenções de heroísmo, beleza e amor e entrega à plateia uma das mais deslumbrantes produções de seu tempo - calcada no capricho visual característico de Del Toro, em um roteiro que funciona como um passe de mágica e, principalmente, em um elenco escolhido a dedo, no qual se destaca a impecável Sally Hawking.

Primeira e única escolha do diretor para viver a delicada Elisa Esposito - "Eu queria que Elisa fosse bonita a seu próprio modo, não do modo de um comercial de perfume. Que você acreditasse que essa personagem, essa mulher poderia estar sentada a seu lado no ônibus. Mas que ao mesmo tempo tivesse uma luminosidade, uma beleza quase mágica, etérea...-, Sally Hawking entrega uma atuação fascinante, em que mescla inocência, inteligência e uma inusitada sensualidade. Indicada ao Oscar de melhor atriz, perdeu a estatueta para Frances McDormand em "Três anúncios para um crime", mas alcança, em seu trabalho, notas de uma sutileza ímpar. Interpretando uma personagem muda sem que se utilize dessa característica para forçar a simpatia do público, ela faz cada espectador acreditar não apenas na força que demonstra quando é obrigada a isso, mas também - e aí o mérito é dela e da direção delicada de Del Toro - de que seu amor redentor por um ser aparentemente inalcançável é passível de um final feliz. Tal ousadia do roteiro - a de eleger como herói romântico alguém que em outros tempos não seria mais do que o principal antagonista (ou até mesmo um vilão cujo destino esperado e desejado era a morte mais trágica possível) - faz de "A forma da água" uma história de amor e fantasia que embaralha as cartas dos gêneros para criar uma realidade alternativa doce e comovente.


Enquanto nos filmes clássicos de horror dos anos 1950 - época em que a Universal Pictures reinou absoluta com seus vampiros, lobisomens e cientistas lunáticos - a fórmula mandava que o monstro jamais fosse capaz de conquistar o amor da mocinha por quem se apaixonava perdidamente ("King Kong", "A bela e a fera") e preferencialmente encontrasse um desfecho que comprovasse a superioridade dos humanos em relação às bestas, no mundo invertido de Del Toro os pretensamente seres racionais é que sofrem de desvios graves de caráter (especialmente o detestável Richard Strickland interpretado com gosto por Michael Shannon) e são as minorias que não só demonstram uma humanidade à toda prova como são capazes de alterar destinos tidos como definitivos (o homossexual enrustido vivido pelo excelente Richard Jenkins, a faxineira negra criada por Octavia Spencer e a protagonista quase invisível de Hawking). O universo de Del Toro é um mundo à parte, desenhado com precisão - a vitória da equipe de direção de arte no Oscar não foi à toa: perdidos em um período da década de 1960, os cenários retratam uma visão particular e afetiva do diretor, um espaço no tempo em que o passado conservador estava em vias de se encontrar com um futuro que apontava a Lua e o espaço sideral. A paleta de cores - em que tons mais vivos vão surgindo conforme Elisa descobre a capacidade do amor em transformar a forma como ela vê o mundo até então cinzento - serve como comentário visual às ideias românticas da trama e deslumbra pela força com que envolve a audiência em sua espiral de fantasia e emoção.

E seria injusto não citar o trabalho de Doug Jones como um dos pontos fundamentais do sucesso de "A forma da água": na pele da criatura anfíbia que desperta a curiosidade, o carinho e posteriormente o amor de Elisa - e no caminho conquista seus amigos e mostra que a devoção que despertava "nos selvagens da América do Sul, que o idolatravam como a um deus" não era algo desproporcional -, Jones oferece um desempenho poucas vezes visto no cinema. Debaixo das claustrofóbicas roupas do ser anfíbio - um processo que lhe custava horas -, o ator impressiona com uma interpretação silenciosa mas extremamente expressiva. São comoventes todas as sequências em que ele e Elisa descobrem um ao outro sem trocar uma única palavra - cenas sublinhadas pela genialidade de Del Toro em utilizar-se do cinema como pano de fundo para o despertar do amor. Com um ritmo invejável - são duas horas que passam voando - e um dos finais mais poéticos que o cinema já proporcionou (ao menos nas últimas décadas), "A forma da água" é uma obra-prima indelével, o tipo de filme que já nasceu clássico e que provavelmente irá resistir bravamente à prova do tempo. É um filme para sonhadores - de todos os tipos, raças e espécies.

quinta-feira

ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD


ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD (Once upon a time in... Hollywood, 2019, Sony Pictures, 161min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Fred Raskin. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Barbara Ling/Nancy Haigh. Produção executiva: Jeffrey Chan, Georgia Kacandes, Yu Dong. Produção: David Heyman, Shannon McIntosh, Quentin Tarantino. Elenco: Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Emile Hirsch, Margaret Qualley, Timothy Olyphant, Dakota Fanning, Bruce Dern, Al Pacino, Luke Perry, Costa Ronin, Lena Dunham, Kurt Russell, Rafal Zawierucha, Damon Herriman. Estreia: 21/5/2019 (Festival de Cannes)

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários. Edição de Som, Mixagem de Som

Vencedor de 2 Oscar: Ator (Brad Pitt), Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 3 Golden Globe Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Roteiro

Foi na madrugada de 6 de agosto de 1969 que um crime - violento e chocante em sua gratuidade - acabou, segundo a escritora Joan Didion, com o movimento hippie, a era do amor livre e a atmosfera dos anos 60 como um todo. Um grupo de seguidores do messiânico Charles Manson invadiu a casa da atriz Sharon Tate, grávida de oito meses do cineasta Roman Polanski (em alta com o sucesso de seu "O bebê de Rosemary", lançado no ano anterior) e a assassinou, juntamente com um grupo de amigos, deixando no local uma série de detalhes macabros que alimentaram as manchetes dos jornais por meses a fio. A investigação do crime, a prisão dos responsáveis e o julgamento midiático ocuparam a mente do mundo - e em especial dos EUA - por anos e ainda permanecem como uma lembrança trágica de uma época encerrada abruptamente com um banho de sangue. O trauma foi tanto que demorou meio século para que um grande estúdio de Hollywood finalmente rompesse o silêncio a respeito do assunto - e mesmo assim somente com o aval de um nome de prestígio, com coragem o suficiente para mexer em um vespeiro mantido sob uma redoma de respeito pelos envolvidos e pelo medo de um fracasso de bilheteria. Foi somente quando Quentin Tarantino anunciou que seu filme seguinte ao western "Os oito odiados" (2016) teria Sharon Tate como uma de suas personagens principais que a história (até então contada mal e porcamente em documentários e telefilmes de pouca repercussão) voltou a povoar o imaginário mundial - e despertar uma curiosidade que só fez aumentar conforme chegava a data de estreia.

Pensando em marcar a estreia de "Era uma vez em... Hollywood" para 6 de agosto de 2019, data em que o crime completaria 50 anos, Tarantino foi voto vencido quando a Sony Pictures - que ganhou os direitos de distribuição em uma disputa acirradíssima com a Warner, a Universal, a Paramount, a Lionsgate e Annapurna Pictures - preferiu adiantar a data para 26 de julho, pouco mais de dois meses depois do lançamento da produção no Festival de Cannes. Até que tal evento acontecesse, porém, muito foi dito, inventado, polemizado e misteriosamente escondido a respeito do filme. Com um roteiro secreto (lido apenas por parte da equipe de filmagem, como forma de evitar os dissabores que quase cancelaram "Os oito odiados" depois do vazamento de seu script) e notícias que chegavam aos poucos, "Era uma vez em... Hollywood" já era, muito antes de chegar às telas, uma das produções mais comentadas e esperadas da temporada - por inúmeras razões. Além do marketing espontâneo que qualquer trabalho de Tarantino gera, não era nada mal ter Brad Pitt e Leonardo DiCaprio nos papéis principais em uma trama que misturava, da forma como apenas o cineasta consegue fazer sem soar prolixo, a trajetória de Sharon Tate, a desilusão de um astro da antiga indústria com os novos tempos, a decadência de um gênero específico (o western), bastidores do cinema pelos olhos de um dublê e diálogos preciosos. Tido por Tarantino como seu filme mais pessoal - algo como "Roma" foi em relação a Alfonso Cuarón - e escrito em um período de cinco anos (nos quais o cineasta também o transformou em um romance, lançado em seguida à estreia), "Era uma vez em... Hollywood" provou que a espera valeu a pena, tanto em termos artísticos quanto comerciais. Com uma renda internacional que ultrapassou os 370 milhões de dólares, dez indicações ao Oscar (e duas categorias no bolso), o filme pode até não ter agradado a todo mundo - algo corriqueiro na filmografia de Tarantino -, mas é, inegavelmente, uma das obras cinematográficas mais importantes de seu tempo.


 Com um título inspirado em Sergio Leone e seus "Era uma vez no Oeste" (1968) e "Era uma vez na América" (1984), o nono filme de Tarantino - se as duas partes de "Kill Bill" forem consideradas apenas um único projeto - quase foi realizado em preto-e-branco e poderia ter estreado com uma duração de 4 horas e 20 minutos. Mas cinema é uma arte de concessões e do jeito que está, o filme é uma pequena obra-prima (mais uma na carreira do Tarantino diretor ). Tudo funciona perfeitamente - até mesmo o que parece gratuito tem ressonâncias bem mais profundas do que aparenta. Por trás dos longos diálogos (característica inconfundível do Tarantino roteirista) e das referências que podem soar como grego ao público médio, a trama é uma pérola de nostalgia, melancolia e pitadas generosas de uma ironia tão fina que pode até passar despercebida - ao menos até o clímax, tão inesperado e surpreendente que foi objeto de um pedido especial dos realizadores para que não fosse comentado pela imprensa ou pela plateia. Justificável: assim como em "Bastardos inglórios" (2009), Tarantino rege seu próprio universo, manda em seus próprios domínios, subverte as próprias regras e a história, se for preciso. Longe de desagradar aos puristas, encontra uma maneira de fazer com que a magia do cinema sempre se sobressaia - e sublinhe seu talento em encantar e decepcionar com a mesma intensidade.

O filme se passa em 1969, quando a Era de Ouro de Hollywood está em seus estertores. Longe de ainda ter a relevância que tinha na década de 1950, quando estrelava populares séries de western na televisão, Rick Dalton (vivido por Leonardo DiCaprio) paira sob uma Los Angeles a que mal reconhece, tentando encontrar uma maneira de manter uma carreira já tida como acabada. Vizinho do cineasta Roman Polanski (praticamente um símbolo de uma nova indústria, moderna e jovem), Dalton luta contra o próprio instinto de autodestruição enquanto relembra seus melhores momentos, ao lado de grandes atores e cercado de respeito e adulação. Invariavelmente acompanhado de seu dublê, Cliff Booth (Brad Pitt, vencedor do Oscar de ator coadjuvante) - bem mais confortável com as novas regras do jogo, a ponto de quase deixar-se envolver com um grupo de hippies bem mais jovens -, o ex-astro vê, aos poucos, uma nova Hollywood surgir diante de seus olhos. Enquanto isso, sua deslumbrante vizinha, Sharon Tate (Margot Robbie), começa a sentir o gostinho da fama e vislumbrar um brilhante futuro, tanto na carreira quanto na vida doméstica. Com visões distintas de sua época e de sua profissão, Dalton e Tate terão suas vidas cruzadas de forma totalmente inesperada e violenta.

Lançado no mesmo Festival de Cannes que 25 anos antes deu a Tarantino a Palma de Ouro e o aval necessário para que se tornasse um dos autores mais prestigiados do cinema norte-americano, "Era uma vez em... Hollywood" não saiu ileso a críticas e polêmicas. Se Debra Tate, irmã de Sharon, viu sua resistência ao projeto ruir ao encontrar Margot Robbie e reconhecer nela qualidades que a faziam lembrar da saudosa atriz, o mesmo não pode ser dito em relação às queixas de Shannon Lee, filha do ator Bruce Lee que não achou graça nenhuma na forma como o roteiro retratou seu pai - bastou uma única sequência para que Shannon considerasse tudo um insulto à memória do ator. Também foi alvo de críticas as liberdades artísticas tomadas pelo cineasta em relação à uma trama crucial para o roteiro: ao criar personagens novos na famigerada Família Manson (ou mesclar personagens reais com fictícios), Tarantino incomodou os puristas que esperavam uma descrição real dos crueis fatos de 6 de agosto de 1969 - que não tiveram interesse em perceber as reais intenções do diretor ao unir a realidade (ainda que alterada) com a fantasia: "Era uma vez em... Hollywood" não é um documentário sobre os assassinatos cometidos naquela fatídica noite - é uma comédia dramática sobre a união de dois mundos, sobre os meandros do destino e sobre a inexorabilidade do tempo até mesmo dentro de um universo que vende fantasia. É um filme com a cara de seu diretor - para o bem ou para o mal - e uma inteligente homenagem a uma atriz cujo futuro foi interrompido pela força do fanatismo. Como qualquer filme de Tarantino, não é para todos os públicos. Mas é sensacional!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...