COISAS
BELAS E SUJAS (Pretty dirty things, 2002, BBC Films, 97min) Direção:
Stephen Frears. Roteiro: Steven Knight. Fotografia: Chris Menges.
Montagem: Mick Audsley. Música: Nathan Larson. Figurino: Odile
Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: Hugo Luczyc-Wyhowski/Linda
Wilson. Produção executiva: Julie Goldstein, Teresa Moneo, Allon Reich,
Tracey Scoffield, Paul Smith, David M. Thompson. Produção: Robert Jones,
Tracey Seaward. Elenco: Chiwetel Ejiofor, Audrey Tautou, Sergi Lopez,
Sophie Okonedo, Benedict Wong, Zlatko Buric. Estreia: 05/09/02 (Festival
de Veneza)
Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Duas
chagas da sociedade europeia estão retratadas em "Coisas belas e
sujas", primeiro filme em língua inglesa da atriz Audrey Tautou, a
eterna Amélie Poulain: a imigração ilegal e o mercado negro de órgãos.
Com base em um roteiro esperto e enxuto que acabou sendo indicado ao
Oscar mais de um ano depois de sua estreia no Festival de Veneza de
2002, o diretor inglês Stephen Frears - autor de obras tão diversas como
"Ligações perigosas", "Os imorais", "Herói por acidente" e "O segredo
de Mary Reilly" - construiu um filme instigante, austero e sensível que
equilibra os elementos de um bom thriller com aspectos de denúncia
social, além de uma comovente e discreta história de amor. Equilibrando
sua história entre hotéis de luxo e as sarjetas do submundo ilícito dos
estrangeiros que lutam por uma vida digna longe de seus países de
origem, Frears conta com um fabuloso elenco internacional para dar vida a
um conto muitas vezes cruel, mas dotado de uma ponta de esperança que o
salva de tornar-se mais um petardo doloroso e cínico sobre as mazelas
humanas. Para isso, nada colabora mais do que o rosto angelical de
Tautou, que imprime delicadeza mesmo aos mais pútridos atos.
No
entanto, apesar de ser o rosto de Tautou que enfeita o cartaz, o real
protagonista de "Coisas belas e sujas" é Chiwetel Ejiofor - que
alcançaria fama com sua indicação ao Oscar por "12 anos de escravidão",
mais de uma década depois. Ele interpreta Okwe, um imigrante nigeriano
que trabalha em Londres dirigindo um táxi durante o dia e como
recepcionista de um hotel à noite. No meio-tempo ele dorme (ou tenta
descansar, já que faz uso de ervas medicinais para manter-se acordado
durante o horário comercial) no sofá do apartamento de uma colega, a
turca Senay (Audrey Tautou), que sonha em viajar para Nova York mas
precisa trabalhar sem visto tanto no hotel quanto em uma fábrica de
roupas cujo dono a obriga a favores sexuais a despeito de sua
virgindade. Senay é apaixonada por Okwe, que não percebe tal sentimento e
esconde uma tragédia pessoal em seu passado - além do fato de ser
formado em Medicina em seu país de origem. E é justamente esse detalhe
profissional que irá empurrar o dedicado nigeriano em um pesadelo
kafkiano: ao desentupir o vaso do banheiro de um dos quartos do hotel
onde trabalha, ele encontra um coração humano. Intrigado com tal
acontecimento bizarro - e com a indiferença com que tal é tratado por
seu superior, Juan (Sergi Lopez) - o rapaz passa a investigar e
descobre, para seu choque, um esquema de tráfico de órgãos do qual o
próprio Juan faz parte.
Fotografado
pelo veterano Chris Menges em tons pastel que reforçam o sentimento de
claustrofobia, "Coisas belas e sujas" passa, com elegância, de um drama
sobre os problemas dos imigrantes ilegais, sujeitos a humilhações e
inseguranças constantes, a um suspense concebido com inteligência e
altas doses de melancolia - um detalhe que o distancia de seus
congêneres e o destaca como um dos melhores trabalhos da carreira de
Frears. Substituindo o herói intocável e incorruptível por um ser humano
passível de erros e dilemas éticos, o filme aproxima o espectador de
seus personagens, se esgueirando por seus apartamentos minúsculos, seus
subempregos, seus dramas pessoais e suas soluções frequentemente
equivocadas sem fazer nenhum tipo de julgamento de juízo. Comovendo com a
história de amor delicada entre Okwe e Senay - um romance casto,
ingênuo e repleto de dores e decepções - e surpreendendo com os devios
da trama de suspense - que envolve uma sequência perto do final de
deixar qualquer um tenso na poltrona - o roteiro jamais escorrega na
esquizofrenia, equilibrando com maestria os dois fios narrativos a fim
de encerrá-los com coerência e delicadeza.
Intenso e
bem dirigido, emocionante e interpretado com extrema força, "Coisas
belas e sujas" é um filme subestimado ao extremo. Sua indicação ao Oscar
- perdeu para o sensível "Encontros e desencontros", de Sofia Coppola -
apenas destacou uma de suas inúmeras qualidades, mas a Academia errou
em deixar de fora a direção precisa de Stephen Frears, a fotografia
excelente de Menges, a edição impecável e a atuação de Chiwetel Ejiofor,
que transmite com um único olhar uma variedade insana de sentimentos.
Merece ser descoberto e aplaudido.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade.
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segunda-feira
quarta-feira
O CÓDIGO DA VINCI
E alguém duvidava que o décimo-primeiro livro mais vendido do mundo (ao toque de 80 milhões de cópias contabilizadas) chegaria às telas de cinema? É claro que não. A grande questão, respondida na abertura do Festival de Cannes de 2006 era bem outra: conseguiria o roteiro do oscarizado Akiva Goldsman fazer justiça ao romance do americano Dan Brown e repetir junto aos ávidos frequentadores de cinema o interesse do livro? Afinal de contas, o que fazia do thriller de Brown um produto acima da média em termos de literatura de ficção era justamente a mistura bem azeitada entre suspense, história, arte e religião que fazia com que os consumidores simplesmente devorassem a obra vorazmente. Porém, esse equilíbrio, que consistia em páginas e mais páginas de explanações sobre segredos do Vaticano divididos com momentos de ação e mistério e funcionava à perfeição nas páginas, tropeça nas telas. A versão para o cinema de "O código Da Vinci" é tecnicamente perfeita, mas não cumpre tudo que promete.
Tudo começa já na escolha do ator principal. Por mais talentoso que seja, Tom Hanks talvez não seja a opção mais adequada para viver Robert Langdon, o simbologista que é jogado de uma hora pra outra em uma arriscada aventura que põe sua própria vida em jogo: a apatia do ator é perceptível em cada cena, tirando muito do entusiasmo que a trama poderia suscitar e nem mesmo as inspiradas atuações de Ian McKellen, Paul Bettany e Jean Reno conseguem apagar a má impressão. Somado a um roteiro que para a ação em momentos cruciais para a inserção de longos monólogos explicativos - fato que não chega a ser exatamente culpa de Goldsman, uma vez que tais cenas são imprescindíveis para a compreensão da história - o trabalho quase medíocre de Hanks tira muito o brilho do filme.
Filmado com locações dentro do Museu do Louvre, em Paris - onde a trama tem início de forma violenta - "O código Da Vinci" é uma produção caprichada, como se espera de um filme com o orçamento gigantesco de 125 milhões de dólares. Fotografado e editado com cuidado e precisão, ele não consegue, no entanto, deixar a impressão de que é mais longo do que seus demorados 149 minutos de duração. Enquanto o livro passava rapidamente diante dos olhos dos leitores, que viravam suas páginas enlouquecidamente para saber o que viria a seguir, a versão live-action dirigida quase no piloto automático por Ron Howard (vindo do Oscar por "Uma mente brilhante") nunca chega a empolgar, conduzindo o público a uma intriga bastante interessante revelada de forma preguiçosa. É surpreendente que um roteirista tarimbado como Akiva Goldsman não saiba transformar o livro em um produto cinematográfico adequado, ficando preso em demasia à sua estrutura em detrimento a dotá-lo de um ritmo próprio.
Por outro lado, nem tudo são pedras. Quem não leu o romance de Dan Brown - cuja continuação "Anjos e demônios", que se passa antes deste também virou filme nas mãos da mesma equipe - provavelmente irá se surpreender com a história criada pelo escritor, que causou polêmica junto à Igreja católica graças às teorias que levantou. Segundo o livro, o artista plástico Leonardo Da Vinci deixou, escondidas em suas obras, inúmeras pistas relativas a um ancestral segredo que diz respeito à linhagem sagrada de Jesus Cristo e Maria Madalena. São essas pistas que levam o simbologista vivido por Hanks - em papel disputado quase a tapa pelos maiores astros de Hollywood - a correr atrás do assassino de um velho amigo, assassinado no Museu do Louvre e que lhe deixou mensagens criptografadas. Ao lado da neta da vítima, Sophie Neveu (Audrey Tautou), ele parte em busca de respostas a questões que nem sabia existir e encontra pelo caminho o assustador monge Silas (Paul Bettany).
É inegável que a história engendrada por Dan Brown é inteligente, intrigante e bastante relevante. Mas é visível também que sua adaptação para o cinema não chegou nem perto de suas imensas possibilidades. Mesmo assim, é acima da média no gênero e, assistido com paciência e boa vontade, pode render uma bela sessão, principalmente pela história e pelas atuações de Ian McKellen e Paul Bettany.
sexta-feira
ETERNO AMOR
ETERNO AMOR (Un long dimanche de fiançailles, Warner Bros, 133min) Direção: Jean-Pierre Jeunet. Roteiro: Jean-Pierre Jeunet, Guillaume Laurant, romance de Sebastién Japrisot. Fotografia: Bruno Delbonnel. Montagem: Hervé Schneid. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Madeline Fontaine. Direção de arte/cenários: Aline Bonetto/Véronique Melery. Produção executiva: Bill Gerber, Jean-Louis Monthieux. Produção: Jean-Pierre Jeunet. Elenco: Audrey Tautou, Gaspard Ulliel, Marion Cottilard, Jodie Foster, Tcheky Karyo, Denis Levant, Dominique Pinon. Estreia: 27/10/04
2 indicações ao Oscar: Fotografia, Direção de arte/cenários
Depois do empolgante - e merecidíssimo - sucesso financeiro e de crítica de "O fabuloso destino de Amélie Poulain", o time reuniu-se novamente: o diretor Jean-Pierre Jeunet, o roteirista Guillaume Laurant, a estrela Audrey Tautou e a equipe técnica da inesquecível comédia romântica realizada em 2001 são os responsáveis por "Eterno amor", em que o visual acachapante, o roteiro repleto de camadas e o senso de humor sutil mas eficaz voltam a marcar presença. No entanto, dessa vez o público não abraçou com tanto entusiasmo essa nova empreitada do grupo. Injustamente, sem dúvida, mas plenamente compreensível: se em "Amelie" o clima era de constante alto-astral e bom humor, com um final feliz apontando em cada minuto de celulóide, a adaptação do livro de Sebastien Japrisot aposta em uma melancolia e uma tristeza palpáveis, misturadas com uma violência que, ainda que belissimamente fotografada, ainda é violência. E a plateia, que delirou com as aventuras românticas de Amelie Poulain não se encantou tanto assim com a nova personagem de Tautou, a esperançosa Mathilde.
"Eterno amor" começa depois da I Guerra Mundial. Há anos separada do seu grande amor - o jovem Manech (Gaspard Ulliel, que depois faria o protagonista de "Hannibal"), dado como morto em uma batalha - a romântica Mathilde não deixa de ter esperanças de que ele na verdade ainda está vivo. Utilizando todo o dinheiro que possui graças à herança deixada por seus pais, ela contrata detetives, põe a própria mão na massa e vai à luta em sua busca quase obsessiva. Devido a suas investigações, ela toma contato com diversas histórias quase insanas do conflito mundial, que envolvem desde prostitutas vingativas (a excelente Marion Cottilard antes da fama) até militares egoístas e um trágico triângulo amoroso (cujo vértice é uma surpreendente Jodie Foster falando um fluente francês).

Ficar indiferente a "Eterno amor" é missão quase impossível. A espetacular fotografia de Bruno Delbonnell faz de cada quadro uma obra de arte de tirar o fôlego e a reconstituição de época é um trabalho impecável. O roteiro, que utiliza elementos quase idênticos aos de "Amelie" - a saber: a visualização de todos os detalhes citados pelos diálogos - nunca deixa de ser extremamente interessante, ainda que por vezes chegue a ser confuso, devido ao número quase excessivo de personagens importantes à narrativa. Aliás, são esses coadjuvantes que acabam roubando a cena: em seu caminho em direção à verdade sobre o destino de Manech, Mathilde cruza com pessoas bem mais interessantes do que ela, que vivem histórias mais comoventes, irônicas ou trágicas. Essa importância dada às personagens secundárias - vividas por um elenco extraordinário com seus rostos expressivos - empalidece a protagonista, que não tem o mesmo carisma de Amélie, ainda que tenha motivações bem mais nobres.
2 indicações ao Oscar: Fotografia, Direção de arte/cenários
Depois do empolgante - e merecidíssimo - sucesso financeiro e de crítica de "O fabuloso destino de Amélie Poulain", o time reuniu-se novamente: o diretor Jean-Pierre Jeunet, o roteirista Guillaume Laurant, a estrela Audrey Tautou e a equipe técnica da inesquecível comédia romântica realizada em 2001 são os responsáveis por "Eterno amor", em que o visual acachapante, o roteiro repleto de camadas e o senso de humor sutil mas eficaz voltam a marcar presença. No entanto, dessa vez o público não abraçou com tanto entusiasmo essa nova empreitada do grupo. Injustamente, sem dúvida, mas plenamente compreensível: se em "Amelie" o clima era de constante alto-astral e bom humor, com um final feliz apontando em cada minuto de celulóide, a adaptação do livro de Sebastien Japrisot aposta em uma melancolia e uma tristeza palpáveis, misturadas com uma violência que, ainda que belissimamente fotografada, ainda é violência. E a plateia, que delirou com as aventuras românticas de Amelie Poulain não se encantou tanto assim com a nova personagem de Tautou, a esperançosa Mathilde.
"Eterno amor" começa depois da I Guerra Mundial. Há anos separada do seu grande amor - o jovem Manech (Gaspard Ulliel, que depois faria o protagonista de "Hannibal"), dado como morto em uma batalha - a romântica Mathilde não deixa de ter esperanças de que ele na verdade ainda está vivo. Utilizando todo o dinheiro que possui graças à herança deixada por seus pais, ela contrata detetives, põe a própria mão na massa e vai à luta em sua busca quase obsessiva. Devido a suas investigações, ela toma contato com diversas histórias quase insanas do conflito mundial, que envolvem desde prostitutas vingativas (a excelente Marion Cottilard antes da fama) até militares egoístas e um trágico triângulo amoroso (cujo vértice é uma surpreendente Jodie Foster falando um fluente francês).
Ficar indiferente a "Eterno amor" é missão quase impossível. A espetacular fotografia de Bruno Delbonnell faz de cada quadro uma obra de arte de tirar o fôlego e a reconstituição de época é um trabalho impecável. O roteiro, que utiliza elementos quase idênticos aos de "Amelie" - a saber: a visualização de todos os detalhes citados pelos diálogos - nunca deixa de ser extremamente interessante, ainda que por vezes chegue a ser confuso, devido ao número quase excessivo de personagens importantes à narrativa. Aliás, são esses coadjuvantes que acabam roubando a cena: em seu caminho em direção à verdade sobre o destino de Manech, Mathilde cruza com pessoas bem mais interessantes do que ela, que vivem histórias mais comoventes, irônicas ou trágicas. Essa importância dada às personagens secundárias - vividas por um elenco extraordinário com seus rostos expressivos - empalidece a protagonista, que não tem o mesmo carisma de Amélie, ainda que tenha motivações bem mais nobres.
O fato é que "Eterno amor" é um filme que cresce a cada revisão, tamanho é o número de informações impressas pelo diretor Jean-Pierre Jeunet em cada cena. Capaz de emocionar e encantar um público mais adulto e sofisticado do que seu antecessor, o novo trabalho da equipe de "Amelie" mantém o mesmo nível de qualidade, acrescentando-lhe profundidade e uma bem-vinda dose de beleza e tristeza.
segunda-feira
BEM-ME-QUER, MAL-ME-QUER
BEM-ME-QUER, MAL-ME-QUER (À la folie...pas du tout, 2002, 92 min) Direção: Laetitia Colombani. Roteiro: Laetitia Colombani, Caroline Thivel. Fotografia: Pierre Aim. Montagem: Véronique Parnet. Música: Jérôme Coullet. Figurino: Jacqueline Bouchard. Direção de arte/cenários: Jean-Marc Kerdelhue/Odile Hubert. Produção executiva: Dominique Brunner. Produção: Charles Gassot. Elenco: Audrey Tautou, Samuel Le Bihan, Isabelle Carré, Sophie Guillemin, Clément Sibony. Estreia: 27/03/02
A bela Audrey Tautou teve a sorte e o azar de estrelar o sensacional "O fabuloso destino de Amélie Poulain". Sorte porque o filme de Jean-Pierre Jeunet tornou-se um clássico instantâneo. E azar porque, a partir dele, poderia ficar para sempre presa na imagem icônica da personagem. Uma das primeiras tentativas de fugir dessa armadilha é esse drama que, à primeira vista, é mais um romance água-com-açúcar, mas que aos poucos revela-se bem mais inteligente e surpreendente.
Em "Bem-me-quer, mal-me-quer" Tautou vive Angélique, uma jovem romântica e sonhadora que é apaixonada pelo bem-sucedido cardiologista Luic (Samuel Le Biehn), um homem casado, mais velho e às vésperas de ser pai. Seu amor incondicional a leva a rejeitar as constantes investidas de um pretendente de sua idade e estudante de Medicina. Apesar das evidências que lhe são mostradas dia-a-dia por seus amigos, Angélique acredita piamente que sua paciência será recompensada com a separação de Luic. Quando as coisas começam a demorar a acontecer, no entanto, ela resolve que é hora de agir e apressar os acontecimentos.
A partir daí, o roteiro co-escrito pela diretora Laetitia Colombini mostra que boas ideias são capazes de operar milagres. De uma hora pra outra, o drama romântico vivido por Angélique se torna um suspense imprevisível, valorizada pela competente edição. E é aí, principalmente, que Tautou demonstra que não é atriz de um papel só. Sem estragar nenhuma surpresa, basta dizer que a jovem francesa acaba fazendo praticamente dois papéis distintos e que o final, apesar de um tanto pessimista, deixa o público bastante satisfeito. O uso inteligente de repetições e cortes aparentemente bruscos faz todo o sentido quando finalmente a plateia consegue visualizar o quadro todo e não apenas um pedaço. E, apesar de soar um tanto superficial no estudo da personalidade de sua protagonista, Colombini oferece mais do que simplesmente um drama boboca e corriqueiro.
"Bem-me-quer, mal-me-quer" não é um típico produto francês - e sua própria estrutura fragmentada deve muito ao cinema americano pós-Tarantino (ainda que o estilo exista desde sempre no cinema). Mas é uma alternativa saudável para um público que gosta de sair de vez em quando da dieta tradicional de entretenimento ianque.
sexta-feira
O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN
O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN (Le fabuleux destin d'Amelie Poulain, França, 2001, 122min) Direção: Jean-Pierre Jeunet. Roteiro: Jean-Pierre Jeunet, Guillaume Laurant. Fotografia: Bruno Delbonnel. Montagem: Hervé Schneid. Música: Yann Tiersen. Figurino: Madeline Fontaine, Emma Lebail. Direção de arte/cenários: Aline Bonetto/Marie-Laure Valla. Produção executiva: Claudie Ossard. Produção: Jean-Marc Deschamps, Claudie Ossard. Elenco: Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz, Jamel Debbouze, Dominique Pinon, Yolande Moreau. Estreia: 25/4/01
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Roteiro Original, Fotografia, Direção de Arte/Cenários, Som
O mundo seria um lugar muito melhor se fosse como é retratado em "O fabuloso destino de Amélie Poulain", um dos mais felizes produtos cinematográficos jamais concebidos em seus mais de cem anos de história. Feliz em sua essência, em sua realização e em seu resultado final, o filme de Jean-Pierre Jeunet (em seu primeiro trabalho após sua experiência hollywoodiana com "Alien: a ressurreição") é uma obra-prima em todos os sentidos, um verdadeiro e sólido argumento a favor da paixão que o cinema desperta em milhares de fãs. Exagero? Não é o que acham os mais de 15 milhões de espectadores que correram aos cinemas para assistí-lo e transformá-lo no maior sucesso de bilheteria da história do cinema francês, além de um dos mais influentes produtos cinematográficos de todos os tempos.
Tendo como cenário uma Paris estilizada e esplendidamente fotografada por Bruno Delbonnel (cuja predominância das cores verde, amarelo e vermelho tem como inspiração o trabalho do artista plástico catarinense Juarez Machado), Jeunet conta a história da jovem garçonete Amélie Poulain (vivida com graça e carisma pela ótima Audrey Tautou), que descobre o prazer de ajudar as pessoas a ser felizes ao localizar, por acidente, uma caixa de relíquias infantis perdida em seu apartamento por um antigo morador que vive afastado da família. Incentivada pela mudança positiva que provoca no desconhecido ao devolver-lhe o antigo brinquedo, ela passa a vingar oprimidos, unir solitários, levar a vida exterior a um vizinho doente e até mesmo a resgatar o amor-próprio de uma viúva infeliz. A única pessoa a quem ela não consegue ajudar é ela mesma: tímida e introvertida, ela não tem coragem de declarar-se ao excêntrico Nino Quincampoix (o cineasta Matthieu Kassovitz), mesmo sabendo que ele é o amor de sua vida.

Apontar um único defeito no filme de Jean-Pierre Jeunet é tarefa das mais difíceis que se pode imaginar. Tecnicamente perfeito, com uma trilha sonora deliciosa de Yann Tiersen, com um elenco de atores com rostos marcantes (uma das mais fortes características do diretor, que lembra o cuidado de um Fellini) vivendo personagens interessantes e verossímeis apesar de suas excentricidades e com um roteiro impecável, equilibrado entre o romance idílico e uma auto-ironia irresistível, "O fabuloso destino de Amélie Poulain" ainda consegue o feito raro de conquistar a audiência sem jamais tocar em assuntos polêmicos, ignorar qualquer tipo de violência física e contar uma história de amor sem cair nas armadilhas das comédias românticas americanas - além, é claro, de nunca apelar para o erotismo. Não foi à toa que até mesmo a Academia de Hollywood, normalmente avessa a produções que saem de seus domínios, lhe deu cinco indicações ao Oscar (ainda que, na hora H tenha escolhido o politizado "Terra de ninguém" como vencedor). E se o papel principal foi escrito especialmente para Emily Watson (que pulou fora do projeto na última hora), não há público que consiga imaginar outra Amélie Poulain que não Audrey Tautou.
Dona de um rosto impressionante e de um carisma inegável, Tautou tornou-se a imagem perfeita do filme, uma das mais emblemáticas faces do cinema do início do século XXI. Seus olhos levemente arregalados, assim como seu sorriso meigo enfeitam um dos filmes mais alto-astral que se pode ter notícia. Uma obra-prima capaz de derrubar qualquer mau-humor. Seu único problema? Fazer com que, em comparação com o mundo colorido e onírico mostrado por Jeunet, o mundo real soe tão cinzento...
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Roteiro Original, Fotografia, Direção de Arte/Cenários, Som
O mundo seria um lugar muito melhor se fosse como é retratado em "O fabuloso destino de Amélie Poulain", um dos mais felizes produtos cinematográficos jamais concebidos em seus mais de cem anos de história. Feliz em sua essência, em sua realização e em seu resultado final, o filme de Jean-Pierre Jeunet (em seu primeiro trabalho após sua experiência hollywoodiana com "Alien: a ressurreição") é uma obra-prima em todos os sentidos, um verdadeiro e sólido argumento a favor da paixão que o cinema desperta em milhares de fãs. Exagero? Não é o que acham os mais de 15 milhões de espectadores que correram aos cinemas para assistí-lo e transformá-lo no maior sucesso de bilheteria da história do cinema francês, além de um dos mais influentes produtos cinematográficos de todos os tempos.
Tendo como cenário uma Paris estilizada e esplendidamente fotografada por Bruno Delbonnel (cuja predominância das cores verde, amarelo e vermelho tem como inspiração o trabalho do artista plástico catarinense Juarez Machado), Jeunet conta a história da jovem garçonete Amélie Poulain (vivida com graça e carisma pela ótima Audrey Tautou), que descobre o prazer de ajudar as pessoas a ser felizes ao localizar, por acidente, uma caixa de relíquias infantis perdida em seu apartamento por um antigo morador que vive afastado da família. Incentivada pela mudança positiva que provoca no desconhecido ao devolver-lhe o antigo brinquedo, ela passa a vingar oprimidos, unir solitários, levar a vida exterior a um vizinho doente e até mesmo a resgatar o amor-próprio de uma viúva infeliz. A única pessoa a quem ela não consegue ajudar é ela mesma: tímida e introvertida, ela não tem coragem de declarar-se ao excêntrico Nino Quincampoix (o cineasta Matthieu Kassovitz), mesmo sabendo que ele é o amor de sua vida.

Apontar um único defeito no filme de Jean-Pierre Jeunet é tarefa das mais difíceis que se pode imaginar. Tecnicamente perfeito, com uma trilha sonora deliciosa de Yann Tiersen, com um elenco de atores com rostos marcantes (uma das mais fortes características do diretor, que lembra o cuidado de um Fellini) vivendo personagens interessantes e verossímeis apesar de suas excentricidades e com um roteiro impecável, equilibrado entre o romance idílico e uma auto-ironia irresistível, "O fabuloso destino de Amélie Poulain" ainda consegue o feito raro de conquistar a audiência sem jamais tocar em assuntos polêmicos, ignorar qualquer tipo de violência física e contar uma história de amor sem cair nas armadilhas das comédias românticas americanas - além, é claro, de nunca apelar para o erotismo. Não foi à toa que até mesmo a Academia de Hollywood, normalmente avessa a produções que saem de seus domínios, lhe deu cinco indicações ao Oscar (ainda que, na hora H tenha escolhido o politizado "Terra de ninguém" como vencedor). E se o papel principal foi escrito especialmente para Emily Watson (que pulou fora do projeto na última hora), não há público que consiga imaginar outra Amélie Poulain que não Audrey Tautou.
Dona de um rosto impressionante e de um carisma inegável, Tautou tornou-se a imagem perfeita do filme, uma das mais emblemáticas faces do cinema do início do século XXI. Seus olhos levemente arregalados, assim como seu sorriso meigo enfeitam um dos filmes mais alto-astral que se pode ter notícia. Uma obra-prima capaz de derrubar qualquer mau-humor. Seu único problema? Fazer com que, em comparação com o mundo colorido e onírico mostrado por Jeunet, o mundo real soe tão cinzento...
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