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quinta-feira

A GAIOLA DAS LOUCAS

 


A GAIOLA DAS LOUCAS (The Birdcage, 1996, United Artists, 117min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Elaine May, original de Francis Veber, Édouard Molinaro, Marcello Danon, Jean Poiret, peça teatral "La cage aux folles", de Jean Poiret. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Arthur Schmidt. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Cheryl Carasik. Produção executiva: Marcello Danon, Nil Machlis. Produção: Mike Nichols. Elenco: Robin Williams, Nathan Lane, Gene Hackman, Dianne Wiest, Hank Azaria, Christine Baranski, Dan Futterman, Calista Flockhart. Estreia: 08/3/96

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários

Um dos filmes franceses de maior sucesso dentro no normalmente hermético mercado norte-americano, "A gaiola das loucas", lançado em 1978, não apenas conquistou a plateia e a crítica, mas também chegou a ser indicado a três Oscar - incluindo melhor roteiro adaptado e direção (Édouard Molinaro). Não demorou, portanto, para que Hollywood pensasse em uma versão doméstica, sem legendas que afugentassem o público médio e que apresentasse a trama (baseada em uma peça teatral de Jean Poiret) para uma nova audiência. Porém, depois de uma tentativa frustrada ainda nos anos 1980 - que poderia ter sido estrelada pela inusitada dupla Dudley Moore e Frank Sinatra (!!) -, o projeto ficou no limbo até a década seguinte, quando finalmente encontrou o caminho para as telas com um elenco sob medida e um tom moderno que, para surpresa de muitos, corrigiu alguns erros do original (amenizando alguns estereótipos exagerados) e revelou o talento de Nathan Lane, até então relegado a pequenos papéis em filmes nem sempre memoráveis. Indicado ao Golden Globe de melhor ator, Lane consegue o quase impensável: roubar a cena em uma comédia contracenando com o furacão Robin Williams.

Já consagrado no teatro mas sem um grande sucesso para chamar de seu, Nathan Lane agarrou com unhas e dentes a chance oferecida pelo veterano Mike Nichols (incentivado pelo sempre generoso Robin Williams), e só não engole tudo a sua volta porque a seu lado estão nomes como Williams, Gene Hackman e Dianne Wiest, todos conhecidos por seu talento em brilhar não importa o tamanho de seus papéis. Nichols - respeitado por sua capacidade de transitar entre diversos gêneros - dirige a todos com a elegância habitual e extrai o melhor de cada um, criando uma estrutura cômica irresistível, com piadas que fazem rir não apenas o público gay (com referências ao universo homossexual) mas também plateias mais tradicionais. Não à toa, o filme arrecadou mais de 180 milhões de dólares no mercado internacional - um feito e tanto quando se sabe o quão hermético ao tema é o público médio. Em parte devido à presença de Williams, em parte devido ao êxito do filme francês, "A gaiola das loucas" surpreendeu até mesmo o estúdio (a United Artists) - e provou que, nas mãos certas e com respeito ao material original, um remake pode acrescentar camadas antes não percebidas (e eliminar problemas, especialmente para audiências mais suscetíveis).



A trama do filme quase todo mundo já conhece, de uma forma ou outra: Gaiola das Loucas é uma boate de drag queens localizada em South Beach. Seu proprietário é Armand Goldman (Robin Williams), que é casado com a principal atração do local, o transformista Albert (Nathan Lane) - que se apresenta com o nome artístico de Starina e é admirado por todos os frequentadores. A rotina relativamente tranquila do casal (que inclui crises nervosas de Albert a qualquer contrariedade) é abalada quando Val (Dan Futterman) - filho de uma aventura casual de Armand na juventude - surge com a notícia de que irá se casar com a delicada Barbara (Calista Flockhart), filha de um senador cujas posições extremamente conservadoras batem de frente com o estilo de vida de seus futuros sogros. A notícia cai como uma bomba no pouco tradicional lar, mas as coisas ficam ainda piores quando Val pede aos pais que aceitem fingir uma falsa normalidade em um jantar para o encontro das duas famílias. Para isso, Albert precisa sair de cena - e ser substituído pela mãe do rapaz, Katherine (Christine Baranski) - e todos os detalhes da casa considerados "gay demais" (ou seja, todos) precisam ser escondidos, incluindo o empregado, Agador Spartacus (Hank Azaria), que sonha com sua chance na boate dos patrões. A situação, caótica por si própria, se complica quando o Senador Kevin Keeley (Gene Hackman) se vê envolvido involuntariamente em uma polêmica relacionada ao partido e passa a ser perseguido pela imprensa. O jantar - que já prometia ser um desastre - se completa quando, na ausência de Katherine, Albert assume o papel de matriarca da família.

Uma comédia de erros das mais felizes, "A gaiola das loucas" versão americana se beneficia do calor das praias de South Beach para acrescentar uma energia solar que talvez falte no original francês. Se Nathan Lane dá seu show particular em cada aparição - a sequência em que tenta caminhar de modo viril, como John Wayne, é um primor -, seu parceiro de cena também não decepciona: ao optar por viver o menos espalhafatoso Armand (que a princípio seria interpretado por Steve Martin), um dos atores mais populares de sua geração (e também dos mais ocupados na metade da década de 1990) abre espaço para o brilho de seus colegas de cena e mesmo assim chama a atenção com um desempenho que explora seu dom para o humor popular. Gene Hackman, por sua vez, surpreende ao entregar uma atuação que rompe com sua persona sisuda e consagrada junto ao grande público - sua última cena é, sem dúvida, um dos grandes momentos da comédia americana moderna. Ao atualizar e melhorar um clássico contemporâneo (sem perder sua essência e seu senso de humor sagaz e irônico), o filme de Mike Nichols mereceu o enorme sucesso de bilheteria - e, caso raro em se tratando de remakes, conquistou inclusive a crítica, sendo indicado aos Golden Globes de melhor comédia e melhor ator e saindo vencedor de melhor elenco na cerimônia do Screen Actors Guild, batendo nada menos que "O paciente inglês", grande vencedor do Oscar em sua temporada. Não é pouca coisa!

terça-feira

DESEJO PROIBIDO


DESEJO PROIBIDO (If these walls could talk 2, 2000, HBO Films/Team Todd, 96min) Direção: Jane Snderson ("1961"), Martha Coolidge ("1972"), Anne Heche ("2000"). Roteiro: Jane Anderson ("1961"), Sylvia Sichel, estória de Sylvia Sichel e Alex Sichel ("1972"), Anne Heche ("2000"). Fotografia: Peter Deming, Paul Elliott, Robbie Greenberg. Montagem: Margaret Goodspeed. Música: Basil Poledouris. Figurino: Julia Caston. Direção de arte/cenários: Nina Ruscio/Susan Mina Eschelnach, K. C. Fox, Mary E. Gullickson. Produção executiva: Ellen DeGeneres, Jennifer Todd, Suzanne Todd. Produção: Mary Kane. Elenco: Vanessa Redgrave, Michelle Williams, Chloe Sevigny, Sharon Stone, Ellen DeGeneres, Paul Giamatti, Elizabeth Perkins, Marian Seldes, Nia Long, Natasha Lyonne, Heathe McComb, Rashida Jones, Regina King, Kathy Najimy. Estreia: 05/3/2000

Em 1996, a HBO lançou, com enorme sucesso de público e crítica, o polêmico "O preço de uma escolha", que trata, em três histórias distintas, de um assunto bastante controverso na sociedade norte-americana: o aborto. Com um elenco que contava com Demi Moore, Catherine Keener e Cher - também uma das diretoras -, o filme chegou a ser indicado a três Golden Globes e estabeleceu um alto parâmetro para as produções do canal. Quatro anos mais tarde, "Desejo proibido" tentou repetir o êxito, voltando a discutir uma questão delicada (ao menos para a audiência mais conservadora) e seguindo a mesma estrutura do original. Ao retratar a homossexualidade feminina - e a forma como ela é vista - em três tempos e enfoques distintos, a produção manteve o tom sério e respeitoso do primeiro filme, mas como normalmente acontece com antologias, não conseguiu escapar da irregularidade. Potente em sua primeira parte, interessante em sua segunda e leve em seu encerramento, "Desejo proibido" revela um panorama abrangente de seu tema, mas nem sempre consegue atingir todo o seu potencial.

O primeiro (e melhor) capítulo se passa em 1961 e apresenta a triste história de Edith Tree (Vanessa Redgrave), que vê sua vida desmoronar com a morte de Abby Hedley (Marian Seldes), sua parceira há mais de cinquenta anos. A tragédia fica ainda maior quando um sobrinho distante de Abby, o pouco afetivo Ted (Paul Giamatti) surge para reivindicar a propriedade onde elas moravam: sem o amparo legal que poderia lhe dar o direito de ficar com a casa que ajudou a pagar, Edith precisa lidar com questões práticas ao mesmo tempo em que experimenta a impensável dor da perda. A diretora e roteirista Jane Anderson é extremamente feliz em imprimir o tom de melancolia e amor maduro, valorizado pela atuação monstruosa de Vanessa Redgrave. Começando sua história já em grande estilo - com uma citação direta do clássico "Infâmia" (1961), em que Shirley MacLaine e Audrey Hepburn tinham sua escola atacada por insinuações de homossexualidade -, Anderson é elegante e romântica, ao mesmo tempo em que desperta no espectador toda a indignação possível diante da situação absurda. Destaca-se também o belo trabalho de Elizabeth Perkins, na pele de Alice, a fútil e insensível esposa de Ted, e a sutileza do roteiro, que vai apresentando camadas ao tema conforme a trama vai se desenhando: do medo de andar próximas na rua às burocracias médicas, tudo é tratado com delicadeza extrema, que eleva o primeiro episódio do filme ao status de pequena obra-prima.

 

Já o segundo segmento, dirigido por Martha Coolidge, peca por sua incapacidade (ou opção) de aprofundar um questionamento bastante relevante - inclusive dentro da comunidade gay. Em 1972, quando os movimentos feministas e homossexuais estavam em alta dentro da sociedade dos EUA, a jovem Linda (Michelle Williams), um tanto decepcionada com o preconceito que presencia junto às pretensamente liberadas e modernas ativistas, se envolve com Amy (Chloe Sevigny), a quem conhece em um bar frequentado por lésbicas. Apesar de morar com um amigas também gays, ela passa a conhecer a discriminação dentro da própria casa, já que Amy, ao contrário delas, se veste como homem e age de forma masculinizada. Sem saber como lidar com a diferença entre elas - e pressionada pelas colegas, pouco à vontade com sua nova namorada -, Linda passa a questionar até que ponto as aparências podem influir na saúde de seu relacionamento. Coolidge (que assinou o delicado "As noites de Rose", que indicou Laura Dern e Diane Ladd ao Oscar, em 1992) constrói uma obra de textura visual quase palpável, que mergulha o espectador no universo de suas personagens, mas tropeça na superficialidade do roteiro, que não sabe desenvolver a contento todas as possibilidades do tema e ainda surge com um desfecho artificialmente feliz e fácil. Michelle Williams - começando sua trajetória em interpretar mulheres sofridas e atormentadas - está bem, mas Chloe Sevigny - recém vinda de uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante por "Meninos não choram" (1999) - já apresenta alguns trejeitos e expressões que seriam comuns à toda a sua carreira posterior.

 

O ato final da produção, por sua vez, aposta na leveza, no bom humor e até no otimismo - como um aceno aos novos tempos que (todos esperavam) estavam por surgir. No ano 2000, um casal bem resolvido, feliz e apaixonado, resolve ter um filho e completar sua família não convencional. A princípio, Fran (Sharon Stone) e Kal (Ellen DeGeneres) querem que um amigo seja o pai biológico de seu bebê, mas ao ver sua proposta recusada por Arnold (Mitchell Anderson) e Tom (George Newbern), passam a tentar outros modos de concepção. Para isso, buscam um doador anônimo de esperma (em um site especializado), inseminação artificial (em uma clínica conceituada) e meses de tensão enquanto esperam um resultado positivo. Enquanto isso, questionam (mas não muito) a ideia de por um filho em um mundo preconceituoso, violento e super povoado. Escrito e dirigido por Anne Heche (esposa de Ellen DeGeneres à época), o episódio é bem menos denso do que os primeiros, preferindo um tom positivo que encontra eco no desempenho solar de Sharon Stone e no sarcasmo de DeGeneres. Novamente faz falta um aprofundamento do tema, mas sua opção em seguir um caminho oposto ao drama dos dois primeiros segmentos não deixa de ser acertado, principalmente ao contrapor a dor do preconceito à esperança de um novo e mais tolerante mundo.

No cômputo final, "Desejo proibido" tem mais acertos do que erros. Em uma época em que a televisão ainda engatinhava em tratar de temas polêmicos - ao menos de forma tão explícita -, o filme tem a coragem não apenas de falar sobre a homossexualidade feminina em algumas de suas diversas formas, mas também de não esconder o amor das protagonistas em cenas veladas e/ou falsamente pudicas. Com sequências de sexo dirigidas com bom gosto e delicadeza (mesmo que limitadas pelo veículo) e sem medo de se posicionar ao lado contrário a qualquer tipo de intolerância, a produção posicionou a HBO como um importante aliado na causa gay e deu um passo à frente na caminhada da emissora pelo prestígio de que viria a desfrutar logo em seguida.

 

quarta-feira

O DIREITO DO MAIS FORTE É A LIBERDADE

 


O DIREITO DO MAIS FORTE É A LIBERDADE (Faustrecht der Freiheit/Fox and his friends, 1975, City Film/Tango Film, 124min) Direção e roteiro: Rainer Werner Fassbinder. Fotografia: Michael Balhaus. Montagem: Thea Eymesz. Música: Peer Raben. Figurino: Helga Kempke. Direção de arte: Kurt Raab. Produção: Rainer Werner Fassbinder. Elenco: Rainer Werner Fassbinder, Karlheinz Bohm, Peter Chatel, Adrian Hoven, Christiane Maybach. Estreia: 15/5/75 (Festival de Cannes)

Um dos mais importantes representantes do Novo Cinema Alemão - surgido na influência da Nouvelle Vague e de grande importância cultural nas décadas de 1960 e 1970 -, Rainer Werner Fassbinder sempre recusou-se a rótulos. Com mais de 40 obras no currículo, transitou entre filmes de gângsteres, épicos sobre as consequências da II Guerra, adaptações teatrais e melodramas, sempre ressaltando nelas o aspecto humano das relações e suas fissuras. Polêmico na frente e atrás das câmeras - com uma legião de detratores que rivalizam com o amplo número de admiradores -, o diretor/ator/produtor/roteirista morreu em 1982, aos 37 anos de idade, deixando para trás algumas produções cruciais para a filmografia de seu país, mesmo que controversas e incômodas. Uma delas, "O direito do mais forte é a liberdade" é sintomática: uma história forte e contundente sobre a futilidade e a fragilidade dos vínculos emocionais no mundo homossexual que critica, ao mesmo tempo, a sociedade em geral e o mundo gay em particular. Amargo, pessimista e sem firulas estéticas e/ou narrativas, o filme que levou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cinema de Chicago de 1975 mantém uma dolorosa atualidade que apenas comprova a visão incisiva do diretor sobre o mundo que o rodeava.

O próprio Fassbinder assume o papel principal do filme, Fox Biberkopf, um jovem homossexual que, depois da prisão do amante, vê sua vida transformada com uma vitória na loteria. Oriundo da classe operária e sem qualquer tipo de sofisticação (social ou cultural), ele se envolve com Eugen (Peter Chatel), o herdeiro de uma empresa em constante crises financeiras. Sentindo-se deslocado com a vida de luxo do novo namorado, Fox se deixa manipular por ele, aceitando suas aulas de etiqueta e se afastando, mesmo contra a vontade, de sua antiga vida operária - o que inclui sua vulgar irmã, Hedwig (Christiane Maybach). Tentando encaixar-se em uma vida que não é sua, Fox sente dificuldade em equilibrar seus desejos de ascensão e sua real personalidade - e conforme sua relação com Eugen vai se aprofundando, mais explorado ele passa a ser (pelos sogros, pelos supostos amigos e até pelo namorado).

 

Com uma estética crua que foge do sentimentalismo e se dedica a contar sua história com o mínimo de recursos artificiais, Fassbinder constrói, aos poucos, uma fábula melancólica que examina, sem meio-termos, a mediocridade da classe burguesa alemã e a futilidade do universo gay masculino, perdido em um mundo de aparências e promiscuidade. Não é uma imagem agradável, e sendo o diretor homossexual assumido - ainda que repleto de incoerências em sua vida pessoal -, não deixa de ser também um retrato bastante acurado e negativo. A coragem de Fassbinder reside em escolher como algozes não uma sociedade homofóbica e preconceituosa (apesar de haver, subrepticiamente, uma crítica a ela), mas sim os próprios homossexuais: enquanto Fox serve como a vítima ingênua e quase romântica - cuja generosidade acaba por ser sua maior tragédia -, Eugen e seus amigos (em níveis diversos de frivolidade e apatia) se mostram parte integrante de um sistema cruel e impiedoso. Se os gays mostrados no cinema dos anos 1970 se dividiam entre a caricatura e a violência - quando não eram apenas sacos de pancada ou condenados a desgraças variadas -, no filme de Fassbinder eles assumem papel de domínio e livre arbítrio, com tudo que isso tem de bom e de ruim. Fox não deixa de ser um anti-herói - apesar de sua generosidade, ele nunca abandona seu desejo quase patológico de ascender social e culturalmente, o que acaba por vir a ser sua tragédia -, mas o roteiro jamais cai na armadilha de fazer dele um mártir inocente. O final (em imagens secas, mas dolorosas em sua realidade) apenas enfatiza o tom cruel imposto desde suas primeiras cenas, e deixa um gosto amargo na boca do espectador - mas em hipótese alguma busca a emoção fácil.

"O direito do mais forte é a liberdade" não é, nem de longe, o filme mais famoso e celebrado de Fassbinder - "As lágrimas amargas de Petra Von Kant" (1972), "O casamento de Maria Braun" (1979), "Lili Marlene" (1981) e "Querelle" (1982) são facilmente suas obras mais conhecidas. Porém, é inegável que encapsula boa parte de suas obsessões como cineasta. Se não se sai exatamente bem como ator - e nem tem um carisma forte o bastante para angariar a simpatia incondicional do público -, ao menos como diretor ele atinge seu objetivo de incomodar e questionar o status quo. É uma característica marcante de sua filmografia - e justifica a importância de seu nome dentro do cinema alemão.

sexta-feira

ATAQUE DOS CÃES


ATAQUE DOS CÃES (The power of the dog, 2021, Netflix/BBC Films, 126min) Direção: Jane Campion. Roteiro: Jane Campion, romance de Thomas Savage. Fotografia: Ari Wegner. Montagem: Peter Sciberras. Música: Jonny Greenwood. Figurino: Kirsty Cameron. Direção de arte/cenários: Grant Major/Amber Richards. Produção executiva: Rose Garnett, Simon Gillis, John Woodward. Produção: Jane Campion, Iain Canning, Roger Frappier, Tanya Seghatchian, Emile Sherman. Elenco: Benedict Cumberbatch, Kirsten Dunst, Jesse Plemmons, Kodi Smith-McPhee. Estreia: 02/9/2021 (Festival de Veneza)

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Direção (Jane Campion), Ator (Benedict Cumberbatch), Ator Coadjuvante (Jesse Plemons/Kodi Smith-McPhee), Atriz Coadjuvante (Kirsten Dunst), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Som

Vencedor do Oscar de Direção (Jane Campion)

Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Direção (Jane Campion), Ator Coadjuvante (Kodi Smith-McPhee)

Quem conhece o cinema da neozelandesa Jane Campion sabe que o que lhe interessa é o turbilhão interno de seus personagens. Mesmo quando o sexo está ameaçando romper o verniz de civilidade que revestem seus protagonistas é o que se passa além de seus desejos carnais que chama a sua atenção. Foi assim, por exemplo, com a pianista muda que redescobre o prazer e o amor no mais inesperado momento, no premiado "O piano" (1993) e com a dama da sociedade que se vê alvo de uma armadilha engendrada por seu marido e sua melhor amiga, em "Retrato de uma mulher" (1996). E é assim também em "Ataque dos cães", que estreou no Festival de Veneza de 2021 e imediatamente despertou comentários entusiasmados que o levaram a merecidas doze indicações ao Oscar: a despeito de parecer, a princípio, apenas uma desconstrução dos cânones do western, a história da relação doentia/intrigante/imprevisível entre dois irmãos e a mulher que surge entre eles é um estudo sombrio sobre ciúme, vingança e intolerância, contado com o estilo quase contemplativo de Campion - desta vez centrando sua trama em um protagonista masculino.

Afastada do cinema desde "O brilho de uma paixão" (2009) - como diretora esteve envolvida apenas com a minissérie "Top of the lake", entre 2013 e 2017 -, Jane Campion voltou à cena no auge de sua força narrativa. Explorando o romance de Thomas Savage como ponto de partida, a cineasta/roteirista nada contra a corrente do cinema de fácil digestão ao criar uma teia de sentimentos escondidos, sensações recalcadas e meias-verdades que vão se avolumando até o final - um clímax poderoso, mas de uma sutileza tal que deixa no espectador a dúvida sobre seus reais desdobramentos. O roteiro de Campion é repleto de silêncios avassaladores, sublinhados pela bela trilha sonora de Jonny Greenwood e, enfeitado pelas deslumbrantes paisagens da Nova Zelândia (fazendo as vezes do estado de Montana, cenário da trama), conduz o público a um labirinto de intenções escusas e atrações dúbias: seus personagens não são unidimensionais, seus desejos quase nunca se revelam facilmente e muitas das aparências enganam - essa é "a força do Cão" do título original, a capacidade que o demônio tem de disfarçar sua real face até que seja tarde demais. O teor fatalista do enredo - que pode até soar como uma tragédia grega - encontra na direção suave de Campion (premiada com uma estatueta da Academia) a tradução ideal: mesmo que imprima um ritmo bem mais lento do que a média do cinema contemporâneo, a realizadora acerta em cheio em não apressar o desenvolvimento de seus personagens e de suas ações, oferecendo a eles (e a seus intérpretes fabulosos) espaço suficiente para que jamais pareçam gratuitos ou incoerentes.

 

O personagem principal do filme é Phil Burbank (Benedict Cumberbatch em mais um desempenho memorável): fazendeiro bruto, quase irascível e pouco dado a sutilezas, ele desperta a antipatia imediata da independente Rose (Kirsten Dunst), proprietária de um restaurante de beira de estrada, ao implicar com os modos delicados e sensíveis de seu filho único, Peter (o ótimo Kodi Smith-McPhee). A relação pouco amistosa entre eles não impede, porém, que Rose aceite o pedido de casamento de George (Jesse Plemons), irmão de Phil, e se mude com ele para a fazenda que ambos dividem. A aparente falta de educação de Phil contrasta radicalmente com a delicadeza de Rose e Peter - e logo um clima de constante tensão se instala na propriedade. A dinâmica entre o quarteto só começa a mudar quando Phil inicia uma aproximação com Peter - um caminho sem volta que leva a uma tragédia inesperada, com raízes ocultas em um passado infeliz e (mal) enterrado.

O elenco escolhido por Campion é abismal - não por acaso seus quatro atores centrais chegaram a indicações da Academia. Mesmo sem precisar de longos diálogos, todos eles são capazes de expressar uma vasta gama de emoções - seus olhos, seus gestos e seus silêncios transmitem toda a angústia que circunda a existência de seus personagens. Kirsten Dunst surge como a peça inicialmente frágil em uma disputa de poder e testosterona que só pode acabar mal, mas são Benedict Cumberbatch e Kodi Smith-McPhee que roubam a cena. Seus embates são fascinantes e carregados de uma tensão cujo tamanho vai crescendo até o ponto de explodir - uma explosão que, inteligente e sutil, Campion impede que contradiga o tom delicado do filme até então. Pode até decepcionar a quem espera algo mais radical, mas não trai a essência tanto da produção em si quanto da filmografia de sua criadora. "Ataque dos cães" é um filme para poucos - como o são todos os filmes anteriores de Jane Campion - que recebeu um merecido Oscar por seu meticuloso trabalho. Mas é, também, uma pérola, que se sobressai diante da mesmice de boa parte do cinema contemporâneo hollywoodiano - e uma senhora bola dentro da Netflix, cada vez mais se firmando como espaço para grandes diretores (como Martin Scorsese, Alfonso Cuarón e David Fincher) que buscam liberdade artística.

terça-feira

DOIS TIRAS MEIO SUSPEITOS

 


DOIS TIRAS MEIO SUSPEITOS (Partners, 1982, Paramount Pictures, 93min) Direção: James Burrows. Roteiro: Francis Veber. Fotografia: Victor J. Kemper. Montagem: Danford B. Greene, Stephen Lovejoy. Música: Georger Delerue. Figurino: Wayne Finkleman. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/George Gaines. Produção executiva: Francis Veber. Produção: Aaron Russo. Elenco: Ryan O'Neal, John Hurt, Kenneth McMillan, Robyn Douglas, Jay Robinson, Denise Galik. Estreia: 30/4/82

Para que se goste de "Dois tiras meio suspeitos" é preciso que se leve em conta que seu humor - como o título nacional deixa bem claro - se baseia basicamente em clichês e estereótipos homossexuais, o que, à época de seu lançamento (1982) não era uma questão que chegava a incomodar o público médio que havia ignorado de forma ostensiva o policial "Parceiros da noite" (1980) e lotado as salas de exibição para rir do casal gay de "A gaiola das loucas" (1978) - não por acaso escrito pelo mesmo Francis Veber dessa produção de baixo orçamento da Paramount que não era do agrado dos executivos do estúdio e naufragou nas bilheterias. Descrito pela crítica como um cruzamento entre o filme estrelado por Al Pacino - que narrava as desventuras de um detetive inserido no submundo gay nova-iorquino para encontrar um serial killer - e "Um estranho casal", protagonizado por Jack Lemmon e Walter Matthau em 1968, "Dois tias meio suspeitos" é um típico exemplar dos chamados buddy movies, mas acrescido de uma temática gay que o coloca em uma seleta lista de produções que ousaram desafiar o conservadorismo que ditava as regras do cinema norte-americano na virada da década de 1980. É possível inclusive afirmar que seu pífio desempenho comercial tem mais a ver com a mentalidade das plateias do que por sua falta de qualidade. Mesmo que não seja uma comédia memorável, a única incursão de James Burrows no cinema merece créditos por, de uma forma ou outra, colocar nas telas um protagonista gay simpático que não sofre de problemas familiares ou morre vitimado pela AIDS.

Kerwin (John Hurt) é um sargento da polícia de Los Angeles que não consegue disfarçar sua orientação sexual - o que lhe dá enorme dificuldade em encontrar um parceiro profissional. Para sua surpresa, no entanto, ele é chamado por seus superiores e descobre que foi escalado para investigar uma série de assassinatos de homossexuais, aparentemente pelo mesmo criminoso. Se a missão não é exatamente novidade, a forma encontrada pelo departamento para atingir seu objetivo é bastante peculiar: infiltrar dois policiais na comunidade gay local e, apresentando-os como um casal, fazê-los chegar à identidade do serial killer. Rejeitado por seus colegas no dia-a-dia, Kerwin vê no caso a possibilidade de adquirir respeito e prestígio com a solução dos crimes, mas não poderia imaginar a dificuldade que surge da ideia. Seu novo parceiro, o sargento Benson (Ryan O'Neal), além de heterossexual convicto, é mulherengo, pouco afeito a sutilezas e não exatamente fã das consequências que podem advir desse capítulo de sua carreira. Missão dada e missão aceita: Kerwin e Benson precisam não apenas investigar mortes violentas, mas aprender a conviver com suas diferenças - especialmente Benson, cujo medo de ser realmente confundido com um homem gay é tão grande quanto o de ser morto no cumprimento do dever.

 

James Burrows, o diretor de "Dois tiras meio suspeitos", tornou-se, décadas depois do lançamento do filme, o responsável pela condução de mais de 240 episódios da série "Will & Grace" - além de ter, no currículo, trabalhos em "Friends", "Mike & Molly", "Cheers", "Frasier" e da série que originou-se de seu único trabalho no cinema (apresentada entre 2012 e 2013). Seu timing para comédia é inegável, buscando sempre o melhor efeito para arrancar gargalhadas do público - algo não muito difícil com a presença sempre certeira de John Hurt, capaz de fazer rir com o mínimo gesto ou entonação. Voltando ao universo gay que já havia lhe rendido um Emmy e outros prêmios por sua atuação como Quentin Crisp em "Vida nua" (1975) - papel ao qual retornou em "An Englishman in New York" (2009) -, Hurt se destaca principalmente em comparação com Ryan O'Neal: depois de uma década de 1970 repleta de êxitos (e uma festejada colaboração artística com Stanley Kubrick), O'Neal entrava em um período problemático na carreira, enfileirando um fracasso atrás do outro e colecionando críticas negativas. Em "Dois tiras meio suspeitos" ele desfila seu charme quase ingênuo em situações constrangedoras das quais se desincumbe com relativa eficácia. Sua dupla com Hurt funciona essencialmente graças ao contraste avassalador não apenas em termos visuais, mas também - e principalmente - em estilos de vida. Mais do que uma trama policial razoavelmente interessante, o roteiro de Francis Veber trata da relação conflituosa entre seus personagens centrais - e do poder miraculoso da tolerância.

Apesar de apelar para algumas sequências que podem incomodar ao público mais suscetível ao politicamente correto, "Dois tiras meio suspeitos" cumpre o que promete desde seu cartaz: fazer rir. Não atinge os níveis de sofisticação de "A gaiola das loucas" - cuja ironia enfatizava a hipocrisia da sociedade francesa -, mas brinca com os elementos típicos da comédia com o objetivo de atingir plateias pouco afeitas ao universo gay. Não deu muito certo em termos financeiros - apesar do orçamento modesto a produção entrou para a lista dos fracassos comerciais da Paramount na década de 1980 -, mas é divertido o bastante para que seus problemas sejam relevados pelo espectador menos exigente. Em um mundo mais atento às diferenças e à tolerância pode soar quase ofensivo. Mas, diante do conservadorismo norte-americano de sua época, não deixa de ser um filme bastante ousado.

quinta-feira

MAIS QUE AMIGOS


MAIS QUE AMIGOS (Bros, 2022, Universal Pictures, 115min) Direção: Nicholas Stoller. Roteiro: Billy Eichner, Nicholas Stoller. Fotografia: Brandon Trost. Montagem: Daniel Gabbe. Música: Marc Shaiman. Figurino: Tom Broecker. Direção de arte/cenários: Lisa Myers/Nicki Ritchie. Produção executiva: Billy Eichner, Karl Frankenfield. Produção: Judd Apatow, Josh Church, Nicholas Stoller. Elenco: Billy Eichner, Luke Macfarlane, Guy Branum, Harvey Fierstein, Miss Lawrence, Debra Messing. Estreia: 09/9/2022 (Festival de Toronto)

Primeiro, uma opinião polêmica: filmes de temática LGBTQIA+ que fogem do tradicional drama feito para ganhar Oscar dificilmente encontrarão, em um futuro próximo, público suficiente para fazer deles campeões de bilheteria. Por se tratar de um nicho (ainda) marginalizado dentro da indústria, produções que tentam desviar das tragédias e/ou biografias históricas gays fatalmente fracassam comercialmente. É difícil imaginar, por exemplo, heterossexuais saindo de casa e pagando um ingresso para assistir à comédia romântica "Mais que amigos" - primeiro filme do gênero com elenco principal formado por atores homossexuais a ser lançado por um grande estúdio de Hollywood (no caso, a Universal Pictures). Apesar dos elogios entusiasmados da crítica e de suas inegáveis qualidades, a produção dirigida por Nicholas Stoller ficou bem aquém das expectativas, em termos financeiros - o que provavelmente irá desencorajar outros estúdios a tentar a sorte nesta seara (ainda) espinhosa. A boa notícia é que, apesar da bilheteria decepcionante, o filme de Stoller é divertido para qualquer um que se proponha a deixar o preconceito de lado.

Logicamente, o público LGBTQIA+ encontrará muito mais razões para rir, uma vez que boa parte das referências pop que permeiam o roteiro diz respeito a seu universo todo próprio. Mas, ao contrário do que se poderia supor, a trama criada pelo diretor e pelo ator principal, Billy Eichner, sobrevive muito bem sem as piadas sobre "Queer eye for the straight guy" ou "Will & Grace", por exemplo. Na verdade, é uma comédia romântica simples, sobre um par aparentemente incompatível que descobre que, para viver um grande amor, é preciso aceitar as diferenças e as pressões sociais - nada de muito diferente de produções estreladas por Meg Ryan nos anos 1990, Katherine Heigl nos anos 2000 e Jennifer Aniston nos anos 2010, mas dessa vez com dois homens estampando o cartaz e buscando a torcida da plateia.



Billy Eichner dá vida a Bobby, um homossexual de trinta e poucos anos, conhecido por um podcast ácido e que está correndo atrás de um patrocínio para o lançamento do primeiro museu de história queer dos EUA - que, entre suas ousadias, quer provar a bissexualidade de Abraham Lincoln. Solteiro, ele deve boa parte de sua solidão à sua própria dificuldade de aprofundar-se em relações amorosas. Cansado de buscar parceiros em aplicativos de relacionamentos, ele conhece, em uma balada, o advogado Aaron (Luke Macfarlane), que considera além de suas possibilidades de conquista: sarado, popular, bonito e afeito a transas casuais, Aaron se aproxima de Bobby como amigo, mas não demora a  perceber que entre eles existe algo mais do que uma simples amizade. Avesso a compromissos, porém, propões ao escolado novo amigo uma relação aberta. Bobby aceita, a princípio, mas logo passa a ver que está (ao menos em sua perspectiva) em grande desvantagem. O conflito nasce - e aumenta até proporções que os impede de (ainda) ficarem juntos.

Repleto de diálogos espirituosos e inteligentes, "Mais que amigos" brinca com todos os clichês das comédias românticas e os estereótipos do mundo gay, sem medo de ofender suscetibilidades ou afugentar plateias mais puritanas. Não se priva de cenas de sexo (ousadas, mas ainda muito aquém do que é mostrado no cinema comercial heterossexual), não foge do sentimentalismo, quando necessário, e tampouco evita tocar em assuntos que povoam o universo LGBTQIA+ - a apologia ao corpo perfeito, o amor incondicional por divas pop, o preconceito dentro da própria bolha, o sexo casual como subterfúgio à solidão. Mas faz tudo com tanta leveza, tanto bom humor, tanta propriedade, que é difícil não se deixar levar e dar boas risadas. Billy Eichner brilha como o azedo e desiludido Bobby, que esconde, por trás de uma fachada cáustica, sérios problemas de autoestima, e Luke Macfarlane (conhecido pela série "Brothers & Sisters") é o contraponto perfeito a seu mau-humor quase encantador. Contando ainda com uma participação impagável de Debra Messing (de "Will & Grace") como ela mesma, "Mais que amigos" é um programa ideal para quem procura um passatempo inofensivo - e, apesar do fracasso comercial, tem tudo para virar cult. Basta mergulhar sem medo e se preparar para torcer para um casal (ainda) atípico.

terça-feira

DESERTO PARTICULAR


DESERTO PARTICULAR (Deserto particular, 2021, Fado Filmes/Anacoluto/Grafo Audiovisual, 121min) Direção: Aly Muritiba. Roteiro: Aly Muritiba, Henrique dos Santos. Fotografia: Luis Armando Arteaga. Montagem: Patricia Saramago. Música: Felipe Ayres. Figurino: Isbella Brasileiro. Direção de arte/cenários: Fabiola Bonofiglio, Marcos Pedroso. Produção executiva: Vasco Esteves, João Fonseca, Raiane Rodrigues, Chris Spode. Produção: Gonçalo Galvão Teles, Luis Galvão Teles, Antonio Gonçalves Júnior, Aly Muritiba. Elenco: Antonio Saboia, Pedro Fasanaro, Thomas Aquino, Laila Garin, Zezita Matos, Flávio Bauraqui. Estreia: 02/9/2021 (Festival de Veneza)

É difícil falar sobre "Deserto particular" sem tropeçar em spoilers. Por mais que o filme se sustente independentemente da reviravolta que acontece em sua metade - o que fica nítido em uma revisão - e se mantenha como um dos exemplares mais empolgantes do cinema brasileiro das últimas décadas, é crucial que se mantenha em segredo um dos pontos vitais de seu roteiro, sob pena não de estragar a experiência, mas de privar o espectador do prazer de descoberta que tanto nos emociona quanto eletriza.

É difícil falar de "Deserto particular" sem elogiar o roteiro enxuto, por vezes claustrofóbico, de Aly Muritiba e Henrique dos Santos, que mergulha o público em uma narrativa quase seca, que vai se expandindo até quase irromper em uma enxurrada de sensações conflitantes. Ao contrapor masculino/feminino, sudeste/nordeste, força/fragilidade, os autores - merecidamente premiados com o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de 2022 - abraçam sem medo as dicotomias que regem o país, retratando-as em relações interpessoais jamais previsíveis e calcadas em um suspense psicológico dos mais admiráveis. Criando personagens verossímeis e nada óbvios, Muritiba e Henrique fogem do maniqueísmo ao dotar seus protagonistas tanto de qualidades quanto de defeitos e aproximá-los da plateia mesmo quando cometem erros quase imperdoáveis.

 


É difícil falar de "Deserto particular" sem aplaudir seu elenco. Se o estreante Pedro Fasanaro quase rouba a cena com uma atuação corajosa que escapa com louvor das armadilhas a que poderia ser submetido com seu surpreendente Robson, seu entorno é igualmente impecável - desde Thomas Aquino como seu fiel escudeiro Fernando, dono de alguns diálogos impagáveis, até a ótima Zezita Matos como sua imprevisível avó. E qualquer elogio que se faça a Antonio Saboia por seu desempenho como o protagonista Daniel provavelmente será insuficiente para dimensionar a extensão de sua façanha. Em duas horas de duração, Saboia transita - muitas vezes sem qualquer aviso prévio - por uma vasta gama de sentimentos, intercalando momentos de fúria, dor, amor, solidão, frustração e tesão com a segurança de um grande (e ainda subestimado) ator. Sua construção de Daniel -um policial afastado da corporação depois de um episódio de violência - envolve desde a expressão corporal exemplar (não apenas sua musculatura, mas também sua postura fala mais do que qualquer monólogo) até a atenção a seu semblante (normalmente sisudo mas capaz do mais apaixonado sorriso quando necessário).

É difícil falar de "Deserto particular" sem admirar a direção inteligente de Aly Muritiba. Ao equilibrar seu cuidado com os atores com o senso estético que remete a road movies célebres como "Paris, Texas" (1984), o cineasta, responsável pelos premiados "Ferrugem" (2018) e "Jesus Kid" (2021) constrói uma atmosfera repleta de sensualidade e tensão, onde cada cena, cada sequência, cada linha de diálogo levam a um estado de completo envolvimento da plateia, a quem não resta alternativa senão entregar-se completamente a uma história de amor, obsessão e tolerância contada com, acima de tudo, respeito por seus protagonistas: como uma testemunha neutra dos acontecimentos, sua câmera praticamente lê a alma dos personagens, atormentados por suas paixões irreparáveis e medos irreprimíveis. Não bastasse tudo isso, Muritiba ainda encerra seu filme com um hino pop capaz de entusiasmar o mais renitente espectador:é impossível ficar incólume a "Total eclipse of the heart", que, na voz rouca de Bonnie Tyler, ilustra com perfeição os meandros da história de amor entre Daniel e Sara.

Por fim, é impossível falar de "Deserto particular" sem lamentar que não tenha chegado a figurar entre os indicados ao Oscar de melhor filme internacional, vaga que tentou depois de selecionado pelo comitê responsável. Ao falar sobre amor e tolerância em um período tão lúgubre na cultura nacional, teria sido um alento - e um justo reconhecimento a suas qualidades - vê-lo disputando a estatueta da Academia. Como nem só de prêmios e reconhecimentos internacionais, porém, "Deserto particular" se mantém como uma obra fundamental da arte brasileira. Bravo!

quinta-feira

CAFÉ DA MANHÃ EM PLUTÃO


CAFÉ DA MANHÃ EM PLUTÃO (Breakfast on Pluto, 2005, Pathé Pictures International, 128min) Direção: Neil Jordan. Roteiro: Neil Jordan, Pat McCabe, romance de Patrick McCabe. Fotografia: Declan Quinn. Montagem: Tony Lawson. Música: Anna Jordan. Figurino: Elmer Ní Mhaoldomhnaigh. Direção de arte/cenários: Tom Conroy/Crispian Sallis, Sara Wan. Produção executiva: François Ivernel, Brendan McCarthy, Cameron McCracken, Mark Woods. Produção: Neil Jordan, Alan Moloney, Stephen Wooley. Elenco: Cillian Murphy, Liam Neeson, Ruth Negga, Stephen Rea, Brendan Gleeson. Estreia: 03/9/2005 (Festival de Telluride)

Em 1993, o cineasta Neil Jordan ganhou o Oscar de roteiro original por "Traídos pelo desejo", uma história de amor fora do comum que surpreendeu plateias pelo mundo todo. Quatro anos mais tarde, viu seu "Michael Collins: o preço da liberdade" dar a Liam Neeson o prêmio de melhor ator no Festival de Berlim - por interpretar ninguém menos que o fundador do IRA, o famigerado Exército Republicano Irlandês que por décadas se manteve nas manchetes internacionais devido a seus atos contra o domínio britânico na ilha. Sendo assim, o espectador que estranhar a união desses dois fatores - o político e o sexual - em "Café da manhã em Plutão", está no mínimo desavisado. Mestre em mesclar temas polêmicos com personagens excêntricos, Jordan encontrou no livro de Patrick McCabe o material ideal para seguir-se ao pouco visto (e pouco lembrado) "Lance de sorte", lançado em 2002: sem pesar a mão no tom político da obra e concentrando seu foco na trajetória de um protagonista sui generis, o diretor/roteirista/produtor comprova seu talento em transitar por diferentes gêneros sem jamais abdicar de suas características artísticas. Sim, "Café da manhã em Plutão" não é apenas um drama político, nem tampouco somente uma produção destinada ao público LGBTQ+: apresenta também elementos de musical, comédia e romance, sempre amparado em uma atuação primorosa de Cillian Murphy.

Indicado ao Golden Globe de melhor ator em comédia/musical e aplaudido unanimemente pela crítica internacional, Murphy encontrou em Patrick Braden o personagem de uma carreira. Adotando um ar ingênuo e doce que contrasta violentamente com os incidentes que atravessam o caminho de seu protagonista, o ator-amuleto de Christopher Nolan foge radicalmente dos clichês que poderiam transformá-lo em caricatura e entrega um desempenho memorável. Desviando habilmente das armadilhas do roteiro, Murphy evita o sentimentalismo (sem evitar mergulhar nos momentos mais comoventes), o exagero (apesar da natureza inerentemente festiva de parte de sua ambientação) e o humor fácil (mesmo nas situações surreais  e personagens bizarras criadas por McCabe, ). Comandando um elenco coadjuvante que conta com nomes fortes como Liam Neeson, Stephen Rea, Brendan Gleeson, Ruth Negga (mais de uma década antes de concorrer ao Oscar por "Loving: uma história de amor", de 2016) e Dominic Cooper (em participação não creditada), o protagonista da série "Peaky Blinders" assume sem medo um lado não apenas queer - Patrick Braden, também conhecido como Patricia, não se limita a rótulos simples de gênero e sexualidade, mas jamais deixa de ser crível e apaixonante.


Dividido em 26 capítulos curtos que tornam a narrativa quase episódica, o roteiro de "Café da manhã em Plutão" segue com extrema fidelidade o romance de Patrick McCabe - autor também do livro "Nó na garganta", adaptado pelo mesmo Neil Jordan em 1997. Narrado em primeira pessoa por Patrick, o filme apresenta seu protagonista desde seu nascimento - abandonado na porta de uma igreja sem saber a identidade de seus pais - e segue seu caminho rumo à auto-aceitação ou, na pior das hipóteses, às suas raízes. Rejeitado pela família adotiva que não aceita seus trejeitos e interesses femininos, Patrick encontra abrigo, como era de se esperar, junto aos párias ao seu redor, às pessoas que, assim como ele, se escoram em semelhantes para manter a dignidade e o amor-próprio. Fortalecido pela compreensão de seu novo grupo, ele resolve partir em busca de seus pais e, enquanto acaba se envolvendo em ações do IRA, bandas de rock, prisões inglesas e shows eróticos, descobre sua real identidade: Patricia. Logicamente, enquanto não finaliza sua missão, vai acumulando decepções e encontros fortuitos que desafiam seu otimismo e ingenuidade.

Neil Jordan é um cineasta que sabe explorar dramas humanos - ou nem tão humanos assim, haja visto sua bem-sucedida adaptação do best-seller "Entrevista com o vampiro" (1995) - com elegância e sensibilidade. Aproveitando com maestria o tom irônico e iconoclasta do livro de McCabe, constrói, em "Café da manhã em Plutão", uma obra que flerta ao mesmo tempo com a melancolia e o bom-humor. Trata de temas densos - transexualidade, política, igreja - sem pesar a mão e se imprime à narrativa um ritmo ágil que envolve o espectador sem maiores esforços. Utilizando-se de uma trilha sonora pop de primeira qualidade e elementos lúdicos que surpreendentemente não destoam da atmosfera pretensamente séria (mas nunca aborrecida), Jordan cria uma pequena obra-prima, uma pérola delicada e dotada de um humanismo raro, que conquista pela sinceridade que escorre de cada fotograma e pela interpretação precisa de um Cillian Murphy em dias de inspiração absoluta!

BOY ERASED: UMA VERDADE ANULADA


BOY ERASED: UMA VERDADE ANULADA (Boy erased, 2018, Focus Features/Anonymous Content/Perfect World Pictures, 115min) Direção: Joel Edgerton. Roteiro: Joel Edgerton, livro de Garrard Conley. Fotografia: Eduard Grau. Montagem: Jay Rabinowitz. Música: Danny Bensi, Saunder Jurriaans. Figurino: Trish Summerville. Direção de arte/cenários: Chad Keith/Mallorie Coleman, Adam Willis. Produção executiva: Nash Edgerton, Kim Hodgert, Tony Lipp, Ann Ruark, Rebecca Yeldham. Produção: Joel Edgerton, Steve Golin, Kerry Kohansky-Roberts. Elenco: Lucas Hedges, Nicole Kidman, Russell Crowe, Joel Edgerton, Xavier Dolan, Madelyn Cline, Victor McKay, Flea, Cherry Jones. Estreia: 01/9/2018 (Festival de Telluride)

Em 2016, quando o livro "Boy erased" foi lançado, boa parte dos EUA ainda considerava legais as terapias de conversão sexual - conhecidas vulgarmente como "cura gay". Sem qualquer fundamento psicológico ou médico, setores ligados principalmente à religião praticamente torturavam jovens com pensamentos homossexuais (muitas vezes nem era necessário que tivessem passado à prática) com sessões de humilhação, rígidas regras de comportamento e tormento psicológico. Em seu livro de memórias, Garrard Conley narrava, mesmo que de forma quase poética, os tormentos pelos quais passou em seu período em um desses tratamentos. De seus escritos (pessoais e emotivos) nasceu um filme sensível e sóbrio, assinado por um ator/roteirista/diretor que promete grandes voos futuros e estrelado por um elenco nunca aquém de excepcional: apesar do fracasso comercial e de não ter chamado tanta atenção quanto se poderia esperar nas cerimônias de premiação, "Boy erased: uma verdade anulada" é uma pérola, um filme que já nasceu destinado a suscitar discussões e se tornar cult - além de ser um instrumento essencial na luta contra os abusos do conservadorismo criminoso que vem se alastrando perigosamente pelo Ocidente.

Dirigido pelo ator Joel Edgerton, que também escreveu o roteiro - depois que o próprio Conley declinou da oportunidade - e assumiu um dos papéis mais importantes da trama, "Boy erased" é um filme de emoções contidas, que raramente apela para o melodrama fácil. Graças à atuação discreta e introspectiva de Lucas Hedges (que vem se mostrando um dos melhores atores de sua geração) e ao tom suave imposto pela edição que não abusa dos flashbacks (mas os usa de forma eficiente), a produção escapa de ser apenas mais um filme-denúncia e se destaca como uma história de amor, respeito e tolerância - mesmo que, para que isso seja alcançado, tenha-se que se passar por pesadelos inimagináveis. Mesmo que não poupe o espectador de um constante desconforto (em especial quando mostra as sessões da malfadada busca pela "cura"), Edgerton evita pesar a mão em excesso: a fotografia de Eduard Grau (que cuidou do belo visual de "Direito de amar", de 2009) é luminosa em boa parte da narrativa (em contraste com o tema sombrio) e a trilha sonora (jamais invasiva) sublinha a ação de forma delicada, quase como um oásis diante da aridez do tema. E se por vezes o roteiro pode soar um tanto superficial (especialmente no desenho de alguns personagens), a falha é compensada pelo empenho de cada um dos atores selecionados pelo diretor (ele próprio incluído).

Lucas Hedges - já indicado ao Oscar de coadjuvante por "Manchester à beira-mar", de 2006 - encontra o tom ideal para seu Jared Eamons, um adolescente de 18 anos, filho de um pastor batista, aluno dedicado e responsável, que se vê obrigado pelos pais a participar do tal programa de "reabilitação", comandado pelo prepotente Victor Sykes (Joel Edgerton em pessoa, em uma caracterização precisa, que se equilibra com exatidão no limite do desprezível). Enquanto testemunha atrocidades no período em que fica isolado de qualquer contato com seu mundo anterior (como celulares, diários e afins), Jared é obrigado a revisitar seu passado e confrontar sua conflituosa sexualidade (oprimida pelos preceitos familiares, pela religião e pela culpa). A única pessoa que lhe dá apoio durante o processo - e mesmo assim sem saber exatamente como agir, dividida entre o amor pelo filho, a fé em Deus e o respeito pelas crenças do marido - é sua mãe, Nancy (Nicole Kidman, brilhante), que tenta servir como porto seguro às turbulências do rapaz. Kidman é dona de alguns dos melhores momentos do filme - como o clímax, inexistente no livro mas eficaz como cinema - e divide com Russell Crowe a difícil missão de oferecer consistência a personagens que poderiam ter sido melhor desenvolvidos pelo roteiro: Marshall e Nancy Eamons surgem apenas como os pais repressores (ainda que amorosos), sem maiores nuances dramáticas ou camadas extras. O mesmo acontece com Sykes, o teatral líder da clínica Love in Action, cujo desfecho - revelado apenas nos letreiros finais - é a irônica pá de cal nas ideias absurdas que servem de base à todo o conceito de reorientação sexual.

Prestes a ser lançado no Brasil no final de janeiro de 2019, "Boy erased" acabou tendo sua estreia cancelada - a distribuidora alegou como motivos para tal decisão o fraco desempenho do filme nas bilheterias internacionais e a falta das esperadas indicações ao Oscar, mas ficou no ar o cheiro de censura que chegava com o novo governo (para dizer o mínimo) conservador. Tal situação não deixa de ser uma demonstração clara da importância do filme, com suas discussões e seu tema se tornando cada vez mais urgentes e fundamentais. Pode não ser uma obra-prima, mas serve como base para longos e sérios debates - e, como cinema, confirma Joel Edgerton (cuja estreia como diretor, o suspense "O presente", de 2015, já tinha indiscutíveis qualidades) como um cineasta promissor e relevante, capaz de surpreender em um futuro próximo.

terça-feira

BERENICE PROCURA

 


BERENICE PROCURA (Berenice procura, 2017, EH Filmes, 90min) Direção: Allan Fiterman. Roteiro: Flávia Guimarães, romance de Luiz Alfredo Garcia-Roza. Fotografia: Azul Serra. Montagem: Fábio Jordão. Música: João Paulo Mendonça. Figurino: Tatiana Rodrigues. Produção: Elisa Tolomelli. Elenco: Cláudia Abreu, Eduardo Moscovis, Emílio Dantas, Vera Holtz, Caio Manhente, Valentina Sampaio. Estreia: 07/10/2017

O psicanalista Luiz Alfredo Garcia-Roza só estreou na literatura aos 60 anos de idade, quando seu "O silêncio da chuva" foi lançado, em 2006. A partir de então, tornou-se um dos nomes mais populares entre os leitores de romances policiais - um gênero que, no Brasil, consagrou Rubem Fonseca e Patrícia Melo. Dez anos depois, outro livro seu, "Achados e perdidos", foi adaptado para o cinema por José Joffily, com Antonio Fagundes no papel principal - e encontrou outro público, disposto a acompanhar audiovisualmente um gênero clássico da sétima arte mesclado com elementos de identidade nacional. Tal característica da obra do escritor - utilizar os cânones das histórias policiais em um universo tipicamente brasileiro (carioca, mais exatamente) - está nítida e assumida em "Berenice procura", segundo livro seu a fazer a transposição das páginas para as telas. Assinado por Allan Fiterman - conhecido diretor de telenovelas globais fazendo sua estreia como cineasta - e estrelado pela sempre competente Cláudia Abreu, o filme acerta em cheio ao jogar luz em um tema controverso e relevante (a violência contra os LGBTQ+) mas escorrega em um quesito que volta e meia atormenta o cinema nacional: o roteiro.

A trama criada por Garcia-Roza é repleta de personagens dúbios, pistas falsas, hipocrisias morais e meandros da vida noturna de Copacabana. São elementos que, em um romance, podem ser desenvolvidos sem pressa. Em um roteiro cinematográfico, porém, é crucial que tais ingredientes sejam inseridos de maneira orgânica, como forma de envolver o espectador sem que as engrenagens da trama soem óbvias. Não é o que acontece em "Berenice procura": a roteirista Flávia Guimarães peca em simplesmente jogar as informações diante do público, sem aprofundá-las ou dar a elas a devida importância. É preciso fazer um exercício mental para descobrir as relações entre alguns personagens - e até mesmo para compreender algumas subtramas de extrema importância para o desenvolvimento da história. A intenção pode até ser confundir (afinal, trata-se de um jogo de detetive), mas somado à edição irregular de Fábio Jordão, o roteiro peca por não oferecer à plateia (e até mesmo aos atores envolvidos no projeto) uma base mais sólida: cenas fortes são diluídas em um excesso de cortes e um distanciamento estilístico que impede uma maior empatia pelos personagens - um erro fatal em um enredo cuja maior força é justamente a emoção primordial.

O filme começa muito bem, com uma sequência belamente fotografada e que emula os melhores momentos do cinema de David Lynch: a câmera passeia pelo amanhecer na praia de Copacabana até dar de cara com o cadáver de uma bela mulher, encostado em uma árvore. Quem descobre o corpo é um menino acompanhado da babá, e logo o crime é notícia nacional - a cobertura local é feita pelo repórter Domingos (Eduardo Moscovis), misógino, preconceituoso e casado com Berenice (Cláudia Abreu), que dirige um táxi para ganhar o próprio dinheiro e não depender do marido, com quem vive uma relação apenas formal. O casal tem um filho adolescente, Thiago (Caio Manhente), que vive em seu mundo particular, longe dos olhos dos pais - e perto demais do universo da vítima do crime, a transexual Isabelle (a bela Valentina Sampaio, atriz trans que demonstra grande potencial). Em flashback, o filme mostra os últimos dias de Isabelle, desejada pelos clientes da boate dirigida pela rígida Greta (Vera Holtz), e que sonha em abandonar a prostituição - no que é apoiada pela mãe adotiva, Brigitte (Brigitte de Búzios) e pelo irmão, Russo (Emílio Dantas), um contraventor envolvido em uma série de pequenos roubos e que passa a ser acusado pelo homicídio. Através de Thiago, inconsolável pela morte da amiga, Berenice acaba se envolvendo na investigação do crime - uma decisão que a conduz a um mundo diametralmente oposto à sua rotina doméstica de classe média.

Muita coisa em "Berenice procura" parece capenga: o envolvimento da protagonista na investigação soa gratuito demais, a relação entre Thiago e Isabelle nunca fica exatamente clara, o desfecho é abrupto e anticlimático, alguns personagens coadjuvantes são simplesmente subaproveitados e o romance entre Berenice e Russo não convence (mais por problemas de roteiro do que pelo talento de Cláudia Abreu e Emílio Dantas). Porém, esses equívocos - que comprometem bastante a narrativa - são amenizados por algumas qualidades redentoras. Allan Fiterman acerta em boa parte das sequências na boate, com shows produzidos com bom gosto e com uma atmosfera bastante realista; o tratamento dado à transexualidade é respeitoso (todo preconceito vem de personagens de caráter duvidoso) e o elenco é um espetáculo à parte - principalmente Vera Holtz (tirando o máximo de uma personagem unidimensional) e Eduardo Moscovis (sempre ótimo em papéis duros). Mas o destaque é mesmo a bela Valentina Sampaio, que estreia no cinema com o pé direito - a cena com a avassaladora "Amor marginal", de Johnny Hooker, é deslumbrante e coloca o filme definitivamente no rol das mais importantes produções LGBTQ+ da história do cinema nacional. É um marco - mas que poderia estar em um filme menos apressado e genérico.

quinta-feira

O BEIJO DA MULHER-ARANHA


O BEIJO DA MULHER-ARANHA (Kiss of the Spider Woman, 1985, HB Filmes/FilmDallas Pictures, 120min) Direção: Hector Babenco. Roteiro: Leonard Schrader, romance de Manuel Puig. Fotografia: Rodolfo Sanchez. Montagem: Mauro Alice. Música: John Neschling, Nando Carneiro. Figurino: Patrício Bisso. Direção de arte/cenários: Clovis Bueno. Produção executiva: Francisco Ramalho Jr.. Produção: David Weisman. Elenco: William Hurt, Raul Julia, Sonia Braga, José Lewgoy, Milton Gonçalves, Miriam Pires, Herson Capri, Nuno Leal Maia, Denise Dummont, Antonio Petrin, Wilson Grey, Miguel Falabella, Patrício Bisso. Estreia: 13/5/85 (Festival de Cannes)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Hector Babenco), Ator (William Hurt), Roteiro Adaptado

Vencedor do Oscar de Melhor Ator (William Hurt)

Melhor Ator (William Hurt) no Festival de Cannes

Levando-se em consideração a profusão de problemas em sua produção, não deixa de ser admirável o grande sucesso de crítica alcançado por "O beijo da mulher-aranha", até hoje o único filme brasileiro a ser indicado ao Oscar de melhor filme. Adaptado do célebre romance do argentino Manuel Puig - que também foi adaptado para os palcos como peça de teatro e posteriormente como musical - e dirigido por Hector Babenco (nascido na Argentina e naturalizado brasileiro), o filme tornou-se também a primeira produção independente a concorrer ao prêmio máximo da Academia - e deu a William Hurt sua merecida estatueta de melhor ator (que foi parar em sua prateleira ao lado das láureas do Festival de Cannes, do BAFTA, do David de Donatello - o Oscar italiano -, e dos críticos de Los Angeles e Londres). Filmado em São Paulo entre outubro de 1983 e março de 1984 - contrariando o cronograma previsto em mais de um mês - e preso a problemas de pós-produção que atrasaram seu lançamento em mais de um ano (o Festival de Nova York chegou a recusá-lo, assim como várias distribuidoras, antes que Cannes finalmente o aceitasse), o filme de Babenco foi, também, responsável pelo estabelecimento de Sônia Braga como estrela internacional - ela foi indicada ao Golden Globe de melhor atriz coadjuvante e foi uma das apresentadoras do Oscar 1986.

Mesmo falando inglês foneticamente - ainda não dominava o idioma à época das filmagens -, Sonia é uma das maiores qualidades do filme de Babenco: linda, sexy e dotada de um ar misterioso que sublinha o tom onírico do roteiro, ela transita pela história criada por Puig (e adaptada por Leonard Schrader, irmão do cineasta Paul) na pele de três personagens distintas, e serve como unidade dramática a uma trama que se utiliza da fantasia como forma de sobreviver à dureza da realidade. Com fortes tons políticos - bem-vindos em um período em que o Brasil saía de uma ditadura militar, que também corroeu vários países da América do Sul, como a própria Argentina - e a coragem de ter como protagonistas um homossexual assumido e um preso político, "O beijo da mulher-aranha" é um marco inquestionável do cinema nacional, mesmo com seus defeitos (perdoáveis quando postos em perspectiva).

Com um orçamento restrito a ponto de William Hurt e Raul Julia concordarem em trabalhar pelas passagens aéreas e hospedagem em São Paulo, a produção de "O beijo da mulher-aranha" se viu sem dinheiro para a pós-produção, tão logo as filmagens (atrasadas) acabaram. Em nada ajudava o fato de Babenco e o produtor David Weisman brigarem constantemente durante a fase de edição - a ponto de obrigar o roteirista, Leonard Schrader, a viajar ao Brasil para impedir maiores estragos. A maior dificuldade enfrentada pelo editor, Mauro Alice, era conectar a história principal com as sequências que materializavam os filmes narrados por um dos protagonistas - um problema que explodiu logo depois do término do processo, quando tanto Hurt quanto Julia desgostaram profundamente do resultado. Hurt - não exatamente um ator de personalidade fácil - chegou a cogitar a ideia de comprar os negativos para queimá-los e impedir seu lançamento. Para sorte de todos, porém, as coisas se acalmaram com o tempo, e a estreia, no Festival de Cannes, começou a mostrar que o filme estava no caminho certo: Hurt levou seu primeiro prêmio e pavimentou sua trajetória rumo ao Oscar. Nada mal para um intérprete que não era exatamente a escolha ideal do diretor.

Hector Babenco não considerava Hurt a opção ideal para viver Luis Molina, um homossexual condenado por corrupção de menores e que divide a cela com Valentin Aguerri (Raul Julia), um preso político com quem tem uma relação a princípio distante e posteriormente de admiração, respeito e amor. Burt Lancaster, a escolha original, porém, já não tinha mais idade para o papel, e Hurt, já devidamente considerado um grande ator, soava norte-americano e saudável demais para ser convincente. Na primeira leitura, no entanto, o cineasta mudou de ideia - e, apesar do sucesso de sua escolha, teve bons motivos para quase arrepender-se da decisão: em determinado ponto das filmagens, ator e astro não se falavam diretamente, com seus gênios fortes impedindo a tranquilidade da relação. Além disso, constantes mudanças no roteiro incomodavam o ator - que, no entanto, era considerado um exemplo de dedicação ao trabalho, ao lado de seu colega de cena. Tanto empenho fica claro quando se assiste ao produto final: apesar do ótimo trabalho de Raul Julia, é Hurt quem rouba a cena e engole tudo à sua volta, em uma interpretação antológica e inesquecível. Molina é um personagem complexo, difícil e, em mãos erradas, bastante propensa à caricatura e ao exagero: com extrema sensibilidade, Hurt entrega uma performance jamais previsível.

É difícil não perceber alguns problemas sérios em "O beijo da mulher-aranha", uma produção nitidamente modesta, tanto em termos visuais quanto técnicos. Porém, a inteligência do roteiro - que dá pistas sobre a relação entre os dois protagonistas através das histórias contadas pelo romântico Molina, lindamente fotografadas por Rodolfo Sanchez - e o talento superlativo de seus intérpretes principais (Sonia Braga incluída) fazem dele um capítulo indispensável na história do cinema brasileiro, que, a despeito de seu crescimento artístico, ainda não voltou a figurar entre os escolhidos da Academia na disputa por seu prêmio máximo.

sábado

ME CHAME PELO SEU NOME


ME CHAME PELO SEU NOME (Call me by your name, 2017, Frenesy Film Company/RT Features, 12min) Direção: Luca Guadagnino. Roteiro: James Ivory, romance de André Aciman. Fotografia: Sayombhu Mukdeeprom. Montagem: Walter Fasano. Figurino: Giulia Piersanti. Direção de arte/cenários: Samuel Deshors/Sandro Piccarozzi. Produção executiva: Naima Abed, Margharete Baillou, Tom Dolby, Nicholas Kaiser, Sophie Mas, Francesco Melzi d'Eril, Lourenço Sant'Anna, Derek Simonds. Produção: Emilie Georges, Luca Guadagnino, James Ivory, Marco Morabito, Howard Rosenman, Peter Spears, Rodrigo Teixeira. Elenco: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel. Estreia: 22/01/2017 (Festival de Sundance)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Timothée Chalamet), Roteiro Adaptado, Canção Original ("Mystery of love")

Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado

A Itália, com suas belas paisagens naturais, é cenário frequente para histórias de amor made in Hollywood. Desde clássicos absolutos, como "A princesa e o plebeu" (1954) e "Quando floresce o coração" até produções contemporâneas, como "Beleza roubada" (1996) e "Sob o sol da Toscana" (2003), o cinema sempre buscou o clima sensual da região para servir como um personagem a mais, capaz de, com seu ar romântico, ser o catalisador de paixões avassaladoras. "Me chame pelo seu nome" é um dos exemplos mais recentes dessa tendência já consagrada. Baseado em um livro de André Aciman publicado em 2007, o filme do italiano Luca Guadagnino conta um história arrebatadora, que ultrapassa o estigma de romance gay para se tornar uma das produções mais elogiadas e premiadas de sua temporada: de sua estreia no Festival de Sundance, em janeiro de 2017, até a cerimônia do Oscar, em fevereiro do ano seguinte - e passando pelo New York Film Festival, de onde saiu ovacionado pelo público -, "Me chame pelo seu nome" passou por diversos festivais de cinema, sempre aplaudido pela crítica e querido pelo público. Adaptado para as telas por James Ivory, o filme - que tem o brasileiro Rodrigo Teixeira entre seus produtores - deu ao veterano cineasta sua primeira estatueta da Academia, e foi generosamente indicado em outras três categorias, incluindo melhor filme e ator (o jovem Timothée Chalamet).

O caminho do livro de Aciman até sua estreia em Sundance - de onde foi comprado pela Sony Pictures antes mesmo de sua primeira exibição pública - não chegou a ser problemática como se poderia esperar de uma história de amor homossexual, não exatamente um chamariz de bilheteria (o próprio Armie Hammer, que vive um dos protagonistas sabe muito bem sobre o assunto, depois do fracasso financeiro de "J. Edgar", de 2011, no qual vivia o amante do protagonista, interpretado por Leonardo DiCaprio). Em setembro de 2015, James Ivory, um diretor respeitado e de bastante prestígio junto à crítica, anunciou que estava em vias de dirigir uma adaptação do romance - e chegou a dizer que Shia LaBeouf e Greta Scacchi estariam no elenco da produção. Oito meses depois, no entanto, as coisas tinham mudado: Ivory continuava a bordo, mas como produtor e roteirista; Luca Guadagnino assumiu o posto de diretor e LaBeouf foi substituído pelo novato Chalamet - a quem já conhecia há alguns anos e que lhe parecia a escolha certa para o papel. Hammer entrou no projeto também pelas mãos do diretor, impressionado com seu desempenho em "A rede social" (2010). Filmado praticamente em ordem cronológica em pouco mais de um mês na pequena cidade italiana de Crema, "Me chame pelo seu nome" emana, em suas imagens e clima, a sensação perfeita de um verão inesquecível - um clima que, segundo o elenco, refletia a tranquilidade das filmagens e a intimidade entre a equipe. 

 

A trama de "Me chame pelo seu nome" se passa no verão europeu de 1983, em uma pequena vila italiana, onde a família de Elio (Timothée Chalamet) passa a temporada. Seu pai (Michael Stuhlbarg) é um renomado professor de cultura greco-romana, e sua mãe, Annella (Amira Casar), uma tradutora. Elio é rodeado de pessoas cultas, inteligentes e sensíveis, mas nem mesmo ele poderia imaginar que ficaria tão impressionado com Oliver (Armie Hammer), um estudante que chega para ajudar o veterano professor em suas tarefas universitárias. Charmoso e educado, Oliver imediatamente desperta sentimentos até então desconhecidos para o adolescente - que tenta escondê-los iniciando um romance passageiro com uma amiga de sua idade. Elio, apesar de toda a sofisticação intelectual à sua volta, ainda é um adolescente inexperiente em matérias do coração, e se deixa seduzir pelo brilhantismo de Oliver, com quem não simpatiza em seus primeiros dias. Igualmente atraído por Elio, que desperta nele sentimentos contraditórios, Oliver se deixa levar pela sensualidade do cenário que o cerca, e surge um violento romance entre os dois. Um romance que, logicamente, tem data certa para acabar, já que Oliver deve ir embora em poucas semanas.

O que mais chama atenção em "Me chame pelo seu nome", além da adaptação bastante fiel de James Ivory - que, aos 89 anos, tornou-se a pessoa de mais idade a ganhar um Oscar competitivo -, é a direção fluida de Luca Guadagnino. Com filmes bastante elegantes no curriculo - como "Um sonho de amor" (2009) e "Um mergulho no passado" (2015) -, Guadagnino conduz a trama sem pressa, concentrando-se em detalhes, em sutilezas, em pequenos gestos que se tornam gigantescos no contexto em que são apresentados. A química entre Chalamet e Hammer é preciosa, especialmente quando sublinhada pelas belas canções de Surfjan Stevens - uma delas, "Mysteries of love", também chegou a ser indicada ao Oscar - e suas cenas mais quentes são dirigidas com bom gosto e delicadeza, utilizando o sexo mais como forma de comunhão entre os personagens do que como um meio de chamar a atenção do público. E se não bastasse toda a elegância promovida por Guadagnino, seus momentos finais são simplesmente devastadores: um pequeno monólogo do pai de Elio (que oferece uma atuação brilhante de Michael Sthulbarg) sobre entregar-se ao amor e a bela cena em que o adolescente relembra seu primeiro amor (sem diálogos, apenas com o talento de Chalamet em se fazer compreender sem precisar de palavras) fazem com que "Me chame pelo seu nome" fique marcado no coração do espectador. É uma pequena obra-prima, antológica desde seu nascimento.

segunda-feira

A GAROTA DINAMARQUESA


A GAROTA DINAMARQUESA (The Danish girl, 2015, Working Title Films/Focus Features, 119min) Direção: Tom Hooper. Roteiro: Lucinda Coxon, livro de David Ebershoff. Fotografia: Danny Cohen. Montagem: Melanie Ann Oliver. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Paco Delgado. Direção de arte/cenários: Eve Stewart/Michael Standish, Thierry Van Cappelen. Produção executiva: Liza Chasin, Ulf Israel, Kathy Morgan, Linda Reisman. Produção: Tim Bevan, Anne Harrison, Tom Hooper, Gail Mutrux. Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Ben Whishaw, Mathias Schonaerts, Amber Head. Estreia: 05/9/15 (Festival de Veneza)


4 indicações ao Oscar: Ator (Eddie Redmayne), Atriz Coadjuvante (Alicia Vikander), Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Alicia Vikander) 

Praticamente um século antes que discussões a respeito de gênero se tornassem corriqueiras - e que a palavra "transsexual" passasse a fazer parte do vocabulário comum, um artista de Copenhague ousou desafiar as regras e buscar sua realização pessoal mesmo diante de uma sociedade para quem qualquer diferença era o mesmo que um crime. Mesmo não tendo sido a primeira pessoa transgênero da história - e tampouco a primeira a passar por uma cirurgia -, Einar Wegener foi um dos pioneiros na questão e inspirou o livro "The danish girl", de David Ebershoff, que contou, de forma ficcionalizada, sua trajetória rumo à transformação física. Ao alterar elementos cruciais da vida de sua protagonista, o autor contou com mais liberdade criativa - e foi seu livro, mais do que a história real, a inspiração para "A garota dinamarquesa", sua adaptação para o cinema, comandada por Tom Hooper - o mesmo cineasta injustamente premiado com o Oscar por "O discurso do rei" (2010) e que assassinou a versão musical de "Os miseráveis" (2012), que premiou Anne Hathaway como a melhor atriz coadjuvante do ano. Seu terceiro filme, porém, para alívio de todos, é bem superior a suas duas obras anteriores - e, em uma prova de que nem sempre a Academia é coerente, seu filme com menos indicações à estatueta dourada: concorreu a quatro, inclusive melhor ator (Eddie Redmayne), mas ficou de fora da lista dos candidatos a melhor filme.

A batalha para transformar "A garota dinamarquesa" em filme começou quando Nicole Kidman, uma atriz de grande prestígio e já bastante respeitada pela crítica e pela indústria, se apaixonou pelo roteiro. Disposta a produzir, estrelar e até dirigir o filme caso fosse necessário, Kidman pensava em viver a protagonista, com alguma outra grande estrela no papel de Gerda, a esposa de Einar - que, na versão romantizada da história, ficava a seu lado incondicionalmente. Durante o tempo em que o projeto esteve nas mãos de Kidman, atrizes de primeira linha se revezavam ao lado da estrela de "Moulin Rouge: o amor em vermelho" (2001): Charlize Theron, Gwyneth Paltrow, Uma Thurman, Marion Cottilard e Rachel Weisz estiveram, em maior ou menor grau, comprometidas com a produção. As dificuldades, no entanto, fizeram com que Kidman abrisse mão de seus planos, e o roteiro, que Hooper já havia lido em 2008, finalmente encontrou um caminho para as telas quando, em 2012, o cineasta ofereceu o papel principal para Eddie Redmayne, com quem trabalhava em "Os miseráveis". Redmayne, subitamente alçado à condição de astro graças a seu Oscar de melhor ator por seu desempenho como o físico Stephen Hawking em "A teoria de tudo" (2014), assumiu a protagonização do filme ao lado da ascendente Alicia Vikander. Juntos, eles são o corpo e a alma de "A garota dinamarquesa", dois atores cujo trabalho deixam os pequenos defeitos ainda menores.


A trama de "A garota dinamarquesa" se passa na década de 1920 e começa em Copenhagen, onde vive o casal de artistas Einar e Gerda Weigener. Buscando reconhecimento a seu trabalho, frequentam o mundo artístico da cidade enquanto lidam com a frustração de não conseguirem ter um filho. Einar ainda tem um certo sucesso entre os críticos, e, na tentativa de ajudar a esposa com seus retratos, aceita substituir sua modelo e posar para uma tela. Vestido de mulher, o jovem sente que seu espírito é, na verdade, feminino. Assumindo uma nova personalidade chamada Lili, ele conta com o apoio de Gerda para fazer a transição de gênero e buscar auxílio médico para tal, mesmo que tal condição ainda fosse nova até mesmo para a medicina - que em muitos casos julga tratar-se de um problema psicológico.  Nessa trajetória, o casal se muda para a França e conta também com a ajuda de Hans (Mathias Schonaerts), amigo de infância de Einar, e Henrik (Ben Whishaw), que sente uma grande atração por Lili. Parte do universo artístico da Dinamarca, Einar/Lili e Gerda ousam desafiar a sociedade e lutar por sua verdade.

O roteiro de Lucinda Coxon - assim como o livro no qual foi inspirado - alterou substancialmente a verdadeira história de Einar e Gerda, ocultando principalmente a homossexualidade de Gerda, que, segundo consta, preferia o lado feminino do marido e que, depois da anulação do casamento, afastou-se dele e passou a viver em Paris, assumindo sua condição de lésbica. O romance - e consequentemente o roteiro - também inventou os personagens Hans e Henrik, assim como simplificou o tratamento físico de Einar, cujo destino no filme é ligeiramente diferente da história original. Tais liberdades artísticas não prejudicam o resultado final - exceto, é claro, se o espectador esperar uma cinebiografia convencional. Tom Hooper - que deixou para trás outros cineastas de renome, como Neil Labute e Lasse Halstrom - acerta em deixar o trabalho mais árduo para seus atores, e possibilita tanto a Redmayne quanto Vikander (premiada com o Oscar de atriz coadjuvante ainda que seja tão protagonista quanto seu parceiro de cena) apresentarem interpretações sutis e emocionantes. Logicamente houve polêmica na escolha de Redmayne, um ator cisgênero, para o papel central, mas a equipe de produção, como uma espécie de redenção, contou, segundo Hooper, com 40 transgêneros, a maioria como extras. Mas, controvérsias à parte, "A garota dinamarquesa" é um filme que homenageia seu protagonista e sua batalha com um olhar sensível e sério, sem apelar para qualquer tipo de humor ou julgamento. Redmayne está perfeito - ainda melhor do que em "A teoria de tudo" - e Alicia Vikander justifica sua estatueta com uma atuação profundamente comovente. A direção de Hooper não atrapalha - como o fez em seus primeiros filmes - e a reconstituição de época é preciosa, refletindo nos cenários e figurinos (também indicados ao Oscar) tanto o espírito dos personagens quanto seu universo artístico. "A garota dinamarquesa" é um filme importante e, a despeito de sua opção em seguir as regras de Hollywood e deixar a sexualidade de lado, uma produção bastante corajosa.

quinta-feira

FLORES RARAS

FLORES RARAS (Flores raras, 2013, LC Barreto Productions/Globo Filmes, 118min) Direção: Bruno Barreto. Roteiro: Matthew Chapman, Julie Sayres, livro "Flores raras e banalíssimas", de Carmem L. Oliveira, roteiro de Carolina Kotscho. Fotografia: Mauro Pinheiro Jr.. Montagem: Letícia Giffoni. Música: Marcelo Zarvos. Figurino: Marcelo Pies. Direção de arte/cenários: José Joaquim Salles/Clara Rocha. Produção executiva: Rômulo Marinho Jr., Penny Wolf. Produção: Lucy Barreto, Paula Barreto. Elenco: Glória Pires, Miranda Otto, Tracy Middendorf, Marcelo Airoldi, Treat Williams. Estreia: 09/02/2013 (Festival de Berlim)

Em dezembro de 1951, em meio a um bloqueio criativo, a poetista norte-americana Elizabeth Bishop aportou no Brasil, disposta a uma curta temporada para rever uma amiga de faculdade. Seus planos de ficar pouco tempo no país foram alterados graças a uma internação hospitalar - era alérgica a castanhas de caju - e à paixão avassaladora justamente pela companheira de sua colega. Lota Macedo de Soares, uma bem-sucedida arquiteta, encantada pela fragilidade de Bishop - que contrastava com sua personalidade forte e decidida -, não pensou duas vezes antes de assumir sua nova parceira. Começava então uma história de amor que atravessaria, aos trancos e barrancos, mais de uma década, e testemunharia momentos de dor e glória nas trajetórias de ambas. Embora tenham vivido um período auspicioso profissionalmente - Bishop ganhou um Pulitzer e Lota criou o ambicioso projeto do Aterro do Flamengo -, nem tudo era felicidade nos bastidores. O alcoolismo da escritora e a tendência da arquiteta em dominar a relação (além de problemas relacionados a seu trabalho no Rio) transformaram o idílio dos primeiros anos em uma constante guerra de nervos - e levaram o relacionamento a um final doloroso. Contada no livro "Flores raras e banalíssimas", de Carmem L. de Oliveira, a história de Bishop e Lota serviu como complemento ideal à redescoberta da poetisa pelo público brasileiro, na década de 1990 - e desde então lutou para ser adaptada para o cinema.

O preconceito a respeito do tema "delicado" do projeto afastou possíveis financiadores de "Flores raras", e o processo de realização do filme - já normalmente ampliado quando se trata de produções brasileiras - estendeu-se por quase uma década. Nem o compromisso de Bruno Barreto - diretor de um dos maiores sucessos do cinema nacional, "Dona Flor e seus dois maridos", de 1976 - em assumir a direção e o interesse de Glória Pires em interpretar Lota foram argumentos fortes o bastante para facilitar a batalha das produtoras Lucy (mãe de Bruno) e Paula Barreto. Nesses oito anos entre o lançamento do livro e a estreia do filme, pode-se dizer que o projeto amadureceu. Quando chegou ao Festival de Berlim de 2013, "Flores raras" já tinha a elegância e a delicadeza que a história pedia, somadas à experiência de Bruno, dono de uma respeitável carreira internacional, iniciada no final dos anos 1980. Lançado para o público brasileiro em agosto do mesmo ano de sua apresentação na Alemanha, o filme agradou mais aos críticos do que à plateia média, mais afeita a comédias despretensiosas do que a romances homossexuais de mulheres na meia-idade. No entanto, apesar da relação entre Lota e Bishop ser o centro da trama, "Flores raras" caminha na direção oposta a histórias de amor lacrimosas quando opta - acertadamente - em explorar também o mundo que as rodeia, repleto de armadilhas profissionais que as afastam fisicamente e, ao mesmo tempo, as aproximam emocionalmente.


Foi durante o período em que Lota e Bishop estiveram juntas, por exemplo, que Carlos Lacerda foi eleito o primeiro governador do então Estado da Guanabara (em 1961) e deu à Lota a missão (absurdamente absorvente) de projetar o Aterro do Flamengo, fato que obrigou as duas mulheres a deixarem o idílio de Petrópolis pela agitação do Rio de Janeiro. Bishop não era fã da cidade, e enquanto Lota trabalhava quase sem folga, a poeta saía a beber em botequins - e ser, quase sempre, carregada para casa. Antes disso, em 1956, foi premiada com o Pulitzer, uma honra que deve a seus momentos no Brasil, quando finalmente retornou à criação de suas obras - e ganhou de presente da companheira um estúdio com vista para o verde de sua propriedade. Sua relação com o Brasil era dúbia: ao mesmo tempo em que amava o espírito nacional, não deixava de perceber as mazelas da sociedade, o que, logicamente, não a tornava exatamente popular entre os nativos. Seu romance com Lota também tinha altos e baixos: planejavam longas viagens que nunca fizeram e frequentemente se desentendiam, principalmente por causa dos ciúmes da arquiteta. Em uma dessas crises, a escritora aceitou o convite para lecionar por uma temporada nos EUA, uma forma de afastar-se terapeuticamente de Lota, severamente deprimida pelos problemas de seu trabalho no Aterro. Era o começo do fim. E elas certamente perceberam isso, apesar das tentativas de ignorarem tal destino.

O filme de Bruno Barreto é, sem dúvida, um recorte caprichado e bastante abrangente do relacionamento entre Lota e Bishop. Boa parte dos acontecimentos mais importantes de seu período como amantes está retratado no roteiro de Matthew Chapman e Julie Sayres, adaptado tanto do livro de Carmem L. de Oliveira quanto de um primeiro tratamento escrito por Carolina Kotscho, e a direção de Barreto é contemplativa, sem chamar a atenção para si. O que realmente dá suporte a "Flores raras" - assim como dava à relação entre as protagonistas - é a combinação entre a força de Glória Pires (premiada como melhor atriz no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, de onde a produção saiu também com as estatuetas de direção, figurino e direção de arte) e a fragilidade física de Miranda Otto, que empresta à Elizabeth Shop um misto de elegância e inteligência. A atriz australiana (conhecida por sua participação na trilogia "O Senhor dos Anéis" e na série de TV "Homeland") é o contraponto ideal ao desempenho (como sempre) sólido de Glória, que não permite que a barreira do idioma atrapalhe uma bela interpretação. Se "Flores raras" fosse um filme medíocre, somente a dupla de atrizes centrais já bastaria para que fosse altamente recomendável. Como absolutamente não o é, o encontro entre dois talentos à prova de qualquer crítica o torna imperdível para qualquer fã de bom cinema.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...