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terça-feira

BAR DOCE LAR


BAR DOCE LAR (The tender bar, 2021, Amazon Studios, 106min) Direção: George Clooney. Roteiro: William Monahan, livro de J.R. Moehringer. Fotografia: Martin Ruhe. Montagem: Tanya M. Swerling. Música: Dara Taylor. Figurino: Jenny Eagan. Direção de arte/cenários: Kalina Ivanov/Melissa M. Levander. Produção executiva: Barbara A. Hall, Ibrahim Hamdan, J. R. Moehringer. Produção: George Clooney, Grant Heslov, Ted Hope. Elenco: Tye Sheridan, Ben Affleck, Lily Rabe, Christopher Lloyd, Daniel Ranieri, Briana Middleton. Estreia: 10/10/2021 (BFI London Festival)

Não deixa de ser triste perceber que George Clooney, anteriormente conhecido por escolher projetos de interesses político e social para sua carreira como cineasta, tenha entrado em um período pouco relevante. Filmes como "Confissões de uma mente perigosa" (2002), "Boa noite, e boa sorte" (2005) e "Tudo pelo poder" (2011) parecem ter ficado para trás, diante de produções esquecíveis ou simplesmente medíocres, como "Caçadores de obras-primas" (2014) e "Suburbicon: bem-vindos ao paraíso" (2017). Infelizmente seu projeto mais recente, "Bar doce lar", volta a não entusiasmar, apesar de algumas qualidades perceptíveis. Baseado em um livro de memórias de J.R. Moehringer, o filme é apenas mais uma história pouco original de amadurecimento, prejudicada por personagens pouco interessantes e por um roteiro irritantemente convencional - uma surpresa quando se sabe que seu autor é William Monahan, vencedor do Oscar por "Os infiltrados" (2006), uma obra-prima de estrutura e concisão.

O filme de Clooney conta a história de J.R., desde sua infância (quando é interpretado pelo encantador Daniel Ranieri) até a juventude (quando passa a ser vivido pelo promissor Tye Sheridan). Filho de uma batalhadora mãe solteira (Lily Rabe) e um pai radialista que só dá as caras esporadicamente e não faz a menor questão de um relacionamento mais profundo com ele, o menino não demora a estabelecer um vínculo emocional com o tio, Charlie (Ben Affleck), dono de um bar que assume, sem hesitar, a figura paterna para o sobrinho. É com Charlie que o pequeno J.R. aprende valores, dicas de sobrevivência emocional, macetes sociais e é a partir de suas conversas que surge nele o amor pelos livros e o desejo de tornar-se escritor. Sobrevivendo em meio a um quase caos - a casa do avô é frequentemente povoada por inúmeros tios e primos barulhentos -, J.R. cresce e, em busca de realizar seu sonho de escrever - e o de sua mãe, de que ele faça uma faculdade -, descobre um mundo que nem sempre é hospitaleiro e gentil. Apaixonado por uma colega, Sidney (Briana Middleton), ele entra também no mundo dos amores complicados.

 

Sem apresentar nada do que já tenha sido visto em vários outros filmes do gênero, "Bar doce lar" peca por sua narrativa morna e sem grandes momentos memoráveis. A cada cena um pouco mais interessante - o avô do menino salvando a comemoração de Dia dos Pais na escola do neto, o confronto de J.R. com os esnobes pais de Sidney, a melancólica espera do menino por um pai que nunca chega para levá-lo a um jogo - segue-se inúmeras outras repetitivas e que não despertam no espectador nada além de uma sensação de dèjà-vu constante. Para isso contribui muito o fato de que a história de Moheringer não é, a rigor, nem um pouco empolgante, e seu personagem principal tampouco cativa por uma personalidade marcante, apresentando, na maior parte do tempo, uma passividade que torna quase impossível ao público importar-se de verdade com seu destino. Nem mesmo o talento do jovem Tye Sheridan consegue dar profundidade suficiente para disfarçar a fragilidade da estrutura do roteiro de Monahan e a direção mecânica de Clooney. Quem de certa forma se destaca é Ben Affleck, que mesmo sem apresentar nada de novo em sua atuação, recebeu indicações ao Golden Globe e ao SAG Awards na categoria de ator coadjuvante - apesar de ser o primeiro nome nos créditos.

Dizer que "Bar doce lar" é um filme ruim é exagerar, já que tem uma produção cuidadosa, uma trilha sonora deliciosa e um elenco que se esforça ao máximo para extrair o melhor de cada momento. Porém, com o currículo acumulado por George Clooney atrás das câmeras, era de se esperar algo menos óbvio e tão pouco ambicioso. Falta de ambição nem sempre é defeito - muitas vezes, inclusive, pode ser uma grande qualidade -, mas dessa vez tal característica deixa no ar a sensação de oportunidade perdida: o cineasta poderia ter assinado uma produção emocional e nostálgica mas ficou muito aquém de suas expectativas. O resultado é uma produção correta mas passa longe de atingir o mesmo nível dos melhores filmes do diretor. Uma pena!

sexta-feira

INGRESSO PARA O PARAÍSO

 


INGRESSO PARA O PARAÍSO (Ticket to paradise, 2022, Universal Pictures/Working Title Films, 104min) Direção: Ol Parker. Roteiro: Ol Parker, Daniel Pipski. Fotografia: Ole Bratt Birkeland. Montagem: Peter Lambert. Música: Lorne Balfe. Figurino: Lizzy Gardiner. Direção de arte/cenários: Owen Patterson/Nikki Barrett. Produção executiva: George Clooney, Jennifer Cornwell, Marisa Yeres Gill, Lisa Gillan, Amelia Granger, Grant Heslov, Rebecca Miller, Julia Roberts, Sarah-Jane Robinson, Nicholas Simpson, Sam Thompson. Produção: Deborah Balderstone, Tim Bevan, Eric Fellner, Sarah Harvey. Elenco: George Clooney, Julia Roberts, Kaitlyn Dever, Billie Lourd, Maxime Bouttier. Estreia: 08/9/2022

Poucas pessoas no mundo perderiam a chance de viajar a uma praia paradisíaca em companhia de um dos melhores amigos e ainda ganhar uma fortuna para isso. E dentre essas pessoas não se incluem Julia Roberts e George Clooney: dois dos maiores astros de Hollywood, ricos, bonitos, famosos e bem-sucedidos (além de amigos e parceiros profissionais), eles voltam a se encontrar na frente das câmeras (e atrás também, já que assinam como produtores executivos) na comédia romântica "Ingresso para o paraíso" uma bobagem simpática e fotogênica que pouco faz por suas carreiras. Longe de ser um desastre completo mas tampouco memorável, o filme de Ol Parker - cujo currículo ainda pequeno inclui "Mamma Mia! Lá vamos nós de novo" (2018) e outras produções menores - usa e abusa do carisma de seus protagonistas e das belas paisagens naturais da Austrália (posando de Bali) para contar uma história sem maiores novidades, mas que pode agradar aos menos exigentes e os cinéfilos que nao vivem sem um romance  fictício.

Previsível sucesso de bilheteria - mais de 160 milhões de dólares arrecadados no mercado internacional -, "Ingresso para o paraíso" foi disputado por várias plataformas de streaming ainda em sua fase de pré-produção: entusiasmadas com a reunião de Roberts e Clooney, todas elas desejavam a chance de adicionar mais um êxito em seu catálogo, mas, acertadamente, a Working Title Films preferiu um lançamento em salas de exibição, tentando uma retomada pós-Covid-19, e a distribuição nos cinemas ficou a cargo da Universal Pictures. Deu certo: atingindo em cheio seu público-alvo, o filme não decepcionou em termos comerciais, ainda que não tenha feito o barulho esperado junto às demais plateias. Justificável. Apesar de seus protagonistas exalarem o charme que lhes é característico e de uma ou outra boa piada, o trabalho de Parker soa como mais do mesmo - mas, no final das contas, isso não chega a ser novidade quando se trata de comédias românticas, que parece ter, entre suas regras de ouro, nunca mexer em time que está ganhando. Em outras palavras, "Ingresso para o paraíso" é um filme ideal para quem procura uma produção da qual se é possível adivinhar o final desde a primeira cena - ou até mesmo desde o cartaz.

 

Casados graças aos arroubos da juventude, David (George Clooney) e Georgia Cotton (Julia Roberts) ficaram juntos apenas cinco anos, tempo suficiente para descobrirem uma imensa incompatibilidade de gênios e porem no mundo uma única filha, Lily (Kaitlyn Denver). Adulta, Lily é a responsável por reunir seus pais em ocasiões especiais, como sua formatura - e por impedir que a animosidade do ex-casal atrapalhe qualquer evento em que se encontrem juntos. Depois de um período de férias antes de iniciar uma carreira de advogada, porém, Lily surpreende os pais ao anunciar que está perdidamente apaixonada e irá se casar. Se a notícia já seria um choque normalmente, os detalhes são ainda mais perturbadores: sua jovem e bela filha irá abandonar tudo para ficar em Bali com o marido nativo, Gede (Maxime Bouttier). Temerosos que a filha repita o maior erro de suas vidas, os ex-casados deixam de lado suas diferenças e partem para a Indonésia com o objetivo de impedir o casamento - mas a magia da beleza local resolve agir e fazê-los rever seus sentimentos.

Avesso a comédias românticas desde que fez "Um dia especial" (1996) - ao lado de Michelle Pfeiffer -, George Clooney voltou ao gênero com a certeza de que seu carisma (somado ao sorriso radiante de Julia Roberts) seria o suficiente para garantir um belo retorno. Acertou em termos. "Ingresso para o paraíso" insiste em piadas sobre diferenças culturais, desencontros amorosos, diálogos sarcásticos e um visual de tirar o fôlego, como forma de disfarçar a fragilidade de seu roteiro. Algumas vezes tais artifícios funcionam, principalmente pelo talento dos dois astros, mas frequentemente fica a impressão de que o elenco se divertiu mais fazendo o filme do que a plateia quando o assiste. Talvez um pouco longo demais - uma edição mais enxuta provavelmente deixaria o ritmo menos truncado e a trama menos repetitiva -, o filme de Ol Parker segura bem uma sessão da tarde em um dia chuvoso, mas dificilmente será lembrado como um destaque na carreira de seus atores - ambos em momentos da carreira em que não precisam mais provar nada a ninguém. Divertido mas sem o brilhantismo das melhores comédias do gênero, "Ingresso para o paraíso" é um filme para fãs e ocasionais cinéfilos românticos.

sábado

JOGO DO DINHEIRO

JOGO DO DINHEIRO (Money monster, 2016, TriStar Pictures, 98min) Direção: Jodie Foster. Roteiro: Jamie Linden, Alan DiFiore, Jim Kouf, estória de Alan DiFiore, Jim Kouf. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Matt Chesse. Música: Dominic Lewis. Figurino: Susan Lydall. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Lydia Marks. Produção executiva: Tim Crane, Kerry Orent, Regina K. Scully, Ben Waisbren. Produção: Lara Alameddine, George Clooney, Daniel Dubiecki, Grant Heslov. Elenco: George Clooney, Julia Roberts, Jack O'Connell, Dominic West, Caitriona Balfe, Giancarlo Esposito, Christopher Denham. Estreia: 12/5/16

Atriz consagrada com dois Oscar e cineasta bissexta, Jodie Foster gosta de retratar, em ambas as funções, personagens em situações-limite, à beira (ou durante) um ataque de nervos. Foi assim com a mãe solteira, vivida por ela mesma, que tentava lidar com a pressão de ter um filho superdotado, em "Mentes que brilham" (1991), com a recém desempregada (Holly Hunter) que se reencontrava com todas os problemas de seu clã, em "Feriados em família" (1995), e com o pai de família (Mel Gibson) que luta contra a depressão ao iniciar uma inusitada amizade com um bicho de pelúcia, em "Um novo despertar" (2011). E é assim também com o personagem central de seu quarto longa-metragem, "Jogo do dinheiro": em estado de absoluto desespero (por razões plenamente compreensíveis), o jovem Kyle Budwell é o mais novo membro da galeria de angustiados protagonistas da filmografia de Foster. Interpretado com energia e dedicação por Jack O'Connell, ator revelado por Angelina Jolie em "Invencível" (2014), Kyle é, certamente, o mais trágico dentre todos, e também o mais crítico: com base em um roteiro sem medo de remexer em uma das maiores feridas americanas (a especulação financeira responsável pela imensa crise econômica enfrentada pelo país). Uma interessante mistura entre "Wall Street: poder e cobiça" (1987) e "Rede de intrigas" (1976), "Jogo do dinheiro" não alcançou muita repercussão nos EUA (talvez seja inteligente e adulto demais para isso), mas merece ser descoberto - se não é o melhor filme da diretora, ao menos é bastante superior à média e apresenta um elenco que dispensa comentários.

George Clooney - um dos produtores do filme, o que o confirma como um astro de cinema com uma agenda política atuante e questionadora - surge em cena como Lee Gates, o exibicionista e um tanto arrogante consultor financeiro que apresenta um programa de televisão chamado "Money Monster", no qual comenta os altos e baixos da bolsa de valores e aconselha os telespectadores a respeito de investimentos em ações. Uma de suas dicas, no entanto, acaba por surpreender até mesmo aos mais experientes analistas do mercado, e uma empresa aparentemente sólida, perde milhões e milhões de dólares de uma hora para outra. O que parecia apenas uma situação comum em um meio tão instável, porém, acaba com consequências imprevisíveis: durante a apresentação de um programa ao vivo, o cenário é invadido por Kyle Budwell (Jack O'Connell), um zelador que perdeu todo o dinheiro que tinha ao seguir a orientação de Gates e exige, em rede nacional, que sua história seja contada e que os reais motivos da queda das ações seja explicado. Enquanto o prédio é evacuado - além de uma arma de mão o rapaz também obriga Gates a vestir um colete acoplado a uma bomba - a diretora do programa, Patty Fenn (Julia Roberts), tenta ganhar tempo e encontrar uma maneira de convencer Kyle a desistir de seus planos. Com ajuda externa, ela tenta descobrir a verdade por trás da empresa de Walt Camby (Dominic West) - que parece ter muito mais a esconder do que aparentava a princípio.


Ao tentar equilibrar a tensão da relação entre Kyle e Gates - claustrofóbica, opressiva e muitas vezes perigosa - com a investigação comandada por Patty através da cabine de onde mantém o programa no ar, o roteiro não chega a encontrar um meio-termo ideal, mantendo um ritmo irregular que nem mesmo o carisma de seus atores é capaz de esconder. Competente em arrancar atuações memoráveis de seus atores e experiente em lidar com intrigas de bastidores - um dos episódios da segunda temporada de "House of Cards" tem a sua assinatura -, Jodie Foster imprime um tom de urgência e relevância à trama, mas nem sempre consegue conexão com o espectador. Talvez o tema e os personagens pouco simpáticos sejam os maiores responsáveis, mas é somente no terço final do filme, quando finalmente os três protagonistas parecem estar no mesmo time - e lutando contra as injustiças e a corrupção do sistema financeiro - é que "Jogo do dinheiro" deslancha. Gradualmente aumentando a pressão sobre Kyle e revelando ao público que por trás de sua ingenuidade há também um esquema de interesses escusos e putrefatos, Foster vai aos poucos ganhando terreno para um final explosivo - alterado a seu próprio pedido e talvez menos climático do que o desfecho original, mais cínico e irônico.

Mesmo sem traduzir o roteiro, considerado como um dos melhores inéditos de 2014, em um filme capaz de mudar a percepção da audiência sobre o assunto tratado - e nem mesmo transformá-lo em uma produção de grande impacto, Jodie Foster consegue sair de sua zona de conforto como diretora, deixando de lado os dramas familiares para explorar um terreno mais pantanoso. Demonstra segurança - em especial na direção de atores, provavelmente herança de seus trabalhos com gente do naipe de Scorsese, Jonathan Demme e Robert Zemeckis - e evita, felizmente, estragar a tensão crescente com piadinhas infundadas ou inapropriadas. "Jogo do dinheiro" é um filme sério - o que não significa chato ou pedante - e adulto, realizado para aquele tipo de audiência que procura outras opções além de super-heróis e efeitos especiais mirabolantes. Fala de pessoas e de como atos trazem consequências - previsíveis ou não, passíveis ou não de conserto. É um filme quase amargo, mas com um sabor de verdade, o que muito falta no cinema norte-americano atual. Pode tornar-se um clássico ou um filme injustiçado de uma diretora muito inteligente: só o tempo dirá.

sexta-feira

AVE, CÉSAR

AVE, CÉSAR! (Hail, Caesar!, 2016, Working Title Films, 106min) Direção e roteiro: Ethan Coen, Joel Coen. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Robert Graf. Produção: Tim Bevan, Ethan Coen, Joel Coen, Eric Fellner. Elenco: George Clooney, Josh Brolin, Channing Tatum, Ralph Fiennes, Scarlett Johansson, Alden Ehreinreich, Tilda Swinton, Frances McDormand, Jonah Hill, Alison Pill, David Krumholtz. Estreia: 01/02/16

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários

Não é a primeira vez que os irmãos Coen brincam com os bastidores do cinema: em 1992 eles realizaram "Barton Fink: delírios de Hollywood", onde o dramaturgo interpretado por John Turturro (melhor ator no Festival de Cannes) se via diante de um inédito bloqueio criativo justamente quando é contratado para escrever o roteiro de um filme. Em "Ave, César", porém, eles vão ainda mais longe em seu retrato do mundo de ilusões construído pela capital do entretenimento - mais especificamente aquele erguido dentro do sistema dos grandes estúdios na década de 50. Sem deixar de lado seu humor cáustico e a preferência por personagens à margem do sistema (mesmo quando inserido nele), a dupla de cineastas faz uma das mais consistentes homenagens à indústria realizadas nos últimos anos, repleta de citações a astros e gêneros de um dos períodos mais ricos de Hollywood. Injustamente esquecido pelo Oscar e demais cerimônias de premiação da temporada (concorreu a uma única estatueta, por sua impecável direção de arte), "Ave, César" pode até ser considerado por muitos críticos como uma obra menor da dupla de diretores e roteiristas, mas jamais deixa de ser uma excelente opção para quem procura diversão inteligente.

Apesar de George Clooney ser o maior astro do elenco - e parceiro frequente dos cineastas, tendo trabalhado em "E aí, meu irmão, cadê você?" (2001), "O amor custa caro" (2003) e "Queime depois de ler" (2008) - o protagonista da história é interpretado por Josh Brolin, em mais uma atuação inspiradíssima. Ele interpreta Eddie Mannix, que vive de resolver crises nos bastidores de um grande estúdio da Hollywood dos anos 50, a Capitol Pictures. A trama se passa em um único dia, em que Mannix parece sobrecarregado de problemas alheios: o maior nome do estúdio, Baird Whitlock (George Clooney) - que está no final das filmagens de um milionário épico religioso - acaba de ser sequestrado por um grupo chamado "Nós somos o futuro" (na verdade, um grupo de roteiristas comunistas frustrados com o pagamento pífio que recebem por seu trabalho); a atriz DeeAnna Moran (Scarlett Johansson) está grávida e precisa esconder a situação dos fãs e da imprensa (que também não podem saber de sua vasta coleção de ex-maridos); o jovem astros de westerns Hobie Doyle (Alden Ehrenreich) está com dificuldades em fazer a transição para filmes dramáticos, para desespero do diretor Laurence Laurentz (Ralph Fiennes); e a dupla de irmãs colunistas de fofocas Thora e Thessaly Thacker (Tilda Swinton) ameaça por a boca no trombone e publicar uma história que em nada beneficia Whitlock. Sua única forma de escapar é aceitar a proposta de investir em uma companhia aérea que lhe oferece uma tentadora opção de vida.


Sem uma trama forte o bastante para sustentar seus 106 minutos, "Ave, César" (título do filme religioso estrelado por Baird Whitlock) constrói sua narrativa através da jornada de Mannix em busca da solução para os problemas que lhe são apresentados. Costura-se, assim, de forma orgânica e ágil, uma seleção de sequências fascinantes que vão formando um rico e empolgante panorama do cinema americano dos anos 50, com suas estrelas cintilantes e suas produções gigantescas. Nitidamente apaixonados por sua arte, os irmãos Coen conduzem o espectador por cenas que remetem diretamente aos espetáculos aquáticos de Esther Williams - através da personagem de Scarlett Johansson - e aos musicais de Gene Kelly - Channing Tatum mostra todo o seu dom de dançarino em uma bela sequência que em nada fica a dever aos clássicos do período. Até mesmo o épico produzido pelo estúdio fictício tem ecos de "Ben-hur"- e é hilariante a cena em que Mannix se reune com lideranças de várias religiões tentando encontrar um denominador comum que não ofenda a ninguém. Josh Brolin brilha com uma performance ao mesmo tempo irônica e desesperada, encontrando o tom exato de um personagem típico da dupla de diretores, que cutucam desde o poder dos estúdios sobre seus contratados até a histeria comunista que tomava conta do país no período. Contando ainda com participações especiais de Frances McDormand e Jonah Hill e uma reconstituição de época primorosa, "Ave, César" é uma comédia que substitui as gargalhadas pelo sorriso, mas é difícil não considerá-la uma das melhores produções do gênero na temporada.

Repleto de uma ironia deliciosa que se mistura com naturalidade à sincera homenagem à era de ouro de Hollywood, "Ave, César" conquista os fãs de cinema justamente por oferecer-lhes uma visão tanto romântica quanto satírica de suas entranhas. Enquanto o protagonista caminha pelos desvãos da indústria, o público acompanha, fascinado, os bastidores de um mundo à parte, construído por trás das câmeras e que move milhares de pessoas, muitas vezes anônimas. Ao virar sua câmera para o lado menos glamouroso do showbizz, o filme desmascara, com bom humor e sarcasmo, as aparências de um universo milimetricamente forjado para agradar um público ainda muito conservador, que rejeitava mães solteiras e galãs homossexuais mas consumia vorazmente qualquer fofoca a seu respeito. A força irresistível de tanto poder fica clara nas cenas finais, que parecem dizer que, apesar dos pesares, a arte sempre vale a pena. Uma comédia iluminada e sofisticada, "Ave, César" é um dos trabalhos mais fascinantes dos irmãos Coen. E, de quebra, um dos mais divertidos relatos sobre os bastidores do cinema.

quarta-feira

TUDO PELO PODER

TUDO PELO PODER (The ides of March, 2011, Cross Creek Pictures, 101min) Direção: George Clooney. Roteiro: George Clooney, Grant Heslov, Beau Willimon, peça teatral "Farragut North", de Beau Willimon. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Maggie Martin. Produção executiva: Leonardo DiCaprio, Guy East, Barbara A. Hall, Jennifer Kiloran, Stephen Pevner, Nigel Sinclair, Todd Thompson, Nina Wolarsky. Produção: George Clooney, Grant Heslov, Brian Oliver. Elenco: Ryan Gosling, George Clooney, Evan Rachel Wood, Paul Giamatti, Philip Seymour Hoffman. Estreia: 31/8/11 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado
Filmes sobre política, via de regra, são veneno de bilheteria. Mais afeitas a efeitos visuais, heróis mascarados e comédias óbvias de humor rasteiro, as plateias geralmente ignoram produções que tentam falar de assuntos mais sérios. Mesmo assim, tem gente que insiste. George Clooney é um integrante contumaz desse grupo de inconformados. Com o prestígio e o sucesso acumulado por anos de serviço à comunidade hollywoodiana – que perdoou até mesmo o fiasco que foi “Batman & Robin” (97) – Clooney conseguiu levar seu segundo longa-metragem atrás das câmeras, “Boa noite, e boa sorte” (05), às indicações ao Oscar de filme e diretor, sem falar em outras produções de notável teor sócio-político que, sem sua presença, provavelmente nem teriam visto a luz dos projetores – desde a comédia de guerra “Três reis” (00) até o altamente combustível “Syriana” (05), que lhe rendeu a estatueta de ator coadjuvante. Por isso, não é de surpreender que: a) ele tenha voltado ao tema político em seu quarto filme, e b) tal filme, “Tudo pelo poder”, tenha naufragado solenemente nas bilheterias americanas a despeito de seu nome e do grande elenco que o acompanha. Não deixa de ser uma injustiça: baseado na peça de teatro “Farraguth North”, escrita por Beau Willimon – que também co-assina o roteiro, ao lado de Clooney e de seu habitual colaborador e produtor Grant Heslov – “Tudo pelo poder” é um filmaço sobre os bastidores da luta partidária e as desilusões que inevitavelmente vem à reboque de sua podridão.
Em um ano particularmente espetacular em sua carreira, o canadense Ryan Gosling supera toda e qualquer expectativa na pele de Stephen Meyers, um jovem idealista que faz parte do comitê de campanha de Mike Morris (George Clooney em pessoa), pré-candidato do Partido Democrata à Presidência dos EUA. Morris, já aprovado como governador, é uma figura carismática, intensa e cuja plataforma eleitoral abarca os direitos civis, a ecologia e a pretensão de encerrar a sequência de guerras em que o país se viu envolvido. É também bem casado com uma mulher respeitável (Jennifer Ehle) e, mesmo não escondendo de ninguém seu ateísmo (um potencial problema em uma nação bastante religiosa), vê suas chances de ganhar a eleição aumentarem a cada dia. Convivendo diretamente com o chefe de campanha de Morris, o experiente Paul Zara (Philip Seymour Hoffman), Stephen vai tomando consciência de todos os meandros do mundo político, especialmente quando relacionados ao jogo sujo proporcionado pelo rival direto de Zara, o pouco confiável Tom Duffy (Paul Giamatti), que lhe acena com a possibilidade de mudar de time e passar a fazer parte da equipe rival. Trabalhando incansavelmente, Stephen encontra tempo para iniciar um romance com a estagiária Molly Stearns (Evan-Rachel Wood), despistar a onipresente repórter Ida Horowicz (Marisa Tomei) e descobrir, da pior forma possível, que até mesmo os mais impolutos ídolos tem pés de barro.


Sabendo da força da trama criada por Willimon – direta, simples, sem afetações e perigosamente realista – Clooney abriu mão de virtuosismos técnicos para concentrar seu foco no caminho de seu protagonista rumo à desilusão total e a consequente transformação de seu caráter diante do inesperado. O herói da história, Stephen Meyers – que Ryan Gosling vive com uma intensidade que se reflete em cada olhar, em cada expressão de angústia e desespero – serve como alter-ego do espectador, saltando de choque em choque em direção a trevas que ele jamais imaginou existir. Gosling executa com perfeição a transição de um jovem inocente e leal a uma raposa capaz dos atos mais baixos, como chantagem e mentira. É mérito do roteiro, inclusive, fazer com que essa transformação não soe repentina demais ou inverossímil: o público entende os motivos de Meyers. O público se solidariza com ele. E, para surpresa geral, o público aceita e aplaude quando a inocência se perde para sempre. No meio dos lobos, envolvido por conspirações subterrâneas, só o que resta a Meyers é tentar sobreviver da maneira mais eficiente – nem que para isso tenha que sacrificar a própria alma.
Esse pessimismo (realismo? cinismo?) do roteiro – que concorreu ao Oscar - não pode ser mais atual. Diante de uma política internacional que desrespeita até mesmo os mais óbvios conceitos de dignidade pessoal, a história de “Tudo pelo poder” soa não como um aviso, mas como um comentário ácido e perspicaz. Como forma de universalizar a trama, o roteiro foge da armadilha de tentar explicar a política americana, preferindo jogar seu foco nas relações humanas por trás dos palanques, um leque de relações tão ou mais revoltante. Para isso, conta com um elenco de coadjuvantes de ouro: Philip Seymour Hoffman dá olé em cada cena, Marisa Tomei nunca esteve tão bem, Paul Giamatti transmite com precisão o tom mefistofélico de seu personagem e Evan Rachel Wood está na medida certa de pureza e sedução. Mas o show é, sem dúvida, de Ryan Gosling. No mesmo ano em que criou o misterioso dublê envolvido com um perigoso grupo de criminosos no excepcional “Drive”, ele sustenta com firmeza de veterano um tratado doloroso sobre o desencanto. Merecia, no mínimo, uma lembrança da Academia. Mas seria esperar demais de um grupo tão conservador e arraigado a valores que o próprio filme faz questão de espatifar.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...