O BARATO DE GRACE (Saving Grace, 2000, Sky Pictures, 93min) Direção: Nigel Cole. Roteiro: Craig Ferguson, Mark Crowdy, estória de Mark Crowdy. Fotografia: John de Borman. Montagem: Alan Strachan. Música: Mark Russell. Figurino: Annie Symons. Direção de arte/cenários: Eve Stewart/Tom Read. Produção executiva: Xavier Marchand, Cat Villiers. Produção: Mark Crowdy. Elenco: Brenda Blethyn, Craig Ferguson, Martin Clunes, Tchéky Karyo, Jamie Foreman, Valerie Edmond, Phyllida Law. Estreia: 24/01/00 (Festival de Sundance)
Só mesmo um cineasta inglês conseguiria o feito de realizar uma comédia sobre maconha sem chocar o público mais conservador - e ainda por cima conquistar a crítica a ponto de receber uma indicação ao Golden Globe de melhor atriz e o prêmio da audiência no Festival de Sundance. Extraindo seu humor do dia-a-dia, de personagens carismáticos e do surrealismo da situação central, "O barato de Grace" é uma delícia! Leve, inteligente, ligeiro e alto-astral, é o triunfo da simplicidade em uma indústria anabolizada por orçamentos milionários e efeitos visuais estonteantes. Sem grandes astros no elenco - o nome mais conhecido é o de Brenda Blethyn, indicada ao Oscar por "Segredos e mentiras" (96) - e dirigido por Nigel Cole - que três anos depois lançaria o igualmente simpático "Garotas do calendário", estrelado por Helen Mirren -, é o que se convencionou chamar de feel good movie, mas tem a seu favor a coragem de provocar a plateia com um assunto delicado, mesmo que faça isso apenas superficialmente e de maneira menos ofensiva possível.
A protagonista, interpretada com perfeito timing cômico por uma surpreendente Brenda Blethyn, é Grace Trevethyn, que acaba de ficar viúva e descobrir, do pior jeito possível, que está na bancarrota. Além de não lhe deixar nenhuma herança, seu marido, morto em circunstâncias estranhas, acumulou dívidas a ponto de sua própria casa estar correndo o risco de ser leiloada. Desesperada com sua situação, conhecida de toda a pequena cidade onde ela vive, Grace encontra uma saída inesperada quando se oferece para ajudar seu jovem jardineiro, Matthew (Craig Ferguson, também um dos autores do roteiro), recém demitido, a cultivar uma erva que, sem a luz apropriada, não está crescendo o suficiente enquanto escondida em um terreno atrás da casa do vigário do local. Encantada com a rapidez com que as plantas se desenvolvem em sua estufa, Grace descobre que está com uma mina de ouro em mãos: Matthew planta maconha e sua venda, caso o investimento seja maior, pode não apenas salvar seu lar mas lhe render uma bela grana.
As artimanhas de Grace para defender seu novo modo de vida, sua relação de mãe e filho com Matthew, a ajuda dos amigos para esconder a contravenção da querida moradora da cidade, as tentativas da protagonista em vender a mercadoria a um perigoso traficante londrino (Tchéky Karyo) e os problemas entre o jardineiro e sua namorada grávida, Nicky (Valerie Edmond) dão a tônica do filme. Com um ritmo admirável, que mescla humor e uma certa melancolia, o roteiro explora ao máximo as idiossincrasias de uma cidade do interior, com generosidade suficiente para oferecer cenas memoráveis até mesmo a coadjuvantes com papéis quase insignificantes (a dupla de idosas que tomam chá de maconha, uma delas interpretada por Phyllida Law, mãe da atriz Emma Thompson é hilariante). Além disso, a trilha sonora repleta de sucessos dos anos 70 e 80 ilustra com perfeição o clima da produção - e convida o espectador a uma doce nostalgia enquanto acompanha as travessuras de uma personagem principal encantadora e corajosa. A despretensão do filme lembra a de outro produto britânico, "Ou tudo ou nada" (97), mas sua crítica social é bem menos contundente - ainda que ambos se utilizem de assuntos tabu (nudez masculina e uso de maconha) para divertir e emocionar.
É inegável que, em determinado ponto, "O barato de Grace" sofre uma pequena queda de ritmo - quando a protagonista sai de sua cidadezinha para ir ao encontro do traficante o filme perde um pouco seu tom doméstico e parece prestes a cair na armadilha de querer ir mais longe do que deveria. Mas felizmente o roteiro logo retorna às suas origens e volta a centrar seu foco nos problemas de Grace e na relação problemática entre Matthew e Nicky. O desfecho também pode soar um pouco forçado, buscando um final feliz meio inverossímil. Porém, é tudo tão simpático, agradável e bem-humorado que é difícil reclamar. Nigel Cole dirige o filme com mão leve, sem forçar a barra nos dramas de sua personagem principal - mesmo que sua situação seja bastante preocupante - e tratando o casal romântico central com carinho de pai. É um filme que merecia ter tido mais sucesso - e que é altamente recomendável a qualquer espectador que esteja disposto a relaxar diante da tela sem abrir mão de seus neurônios. Uma bela e aconchegante surpresa!
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terça-feira
domingo
LAURA, A VOZ DE UMA ESTRELA
LAURA, A VOZ DE UMA ESTRELA (Little voice, 1998, Miramax, 97min)
Direção: Mark Herman. Roteiro: Mark Herman, peça teatral "The rise and
fall of Little Voice", de Jim Cartwright. Fotografia: Andy Collins.
Montagem: Michael Ellis. Música: John Altman. Figurino: Lindy Hemming.
Direção de arte/cenários: Don Taylor/John Bush. Produção executiva: Nik
Powell, Stephen Wooley. Produção: Elizabeth Karlsen. Elenco: Jane
Horrocks, Michael Caine, Brenda Blethyn, Ewan McGregor, Jim Broadbent.
Estreia: 18/9/98 (Festival de Toronto)
Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Brenda Blethyn)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator (Comédia/Musical): Michael Caine
Uma das maiores funções do Golden Globe - prêmio concedido pela Associação de Correspondentes Estrangeiros em Hollywood - é revelar ao público e à Academia que concede os Oscar (normalmente fechada em seus próprios interesses comerciais) alguns filmes que, por má distribuição, orçamentos pequenos ou inúmeros outros motivos, talvez tenham passado em branco pelas salas de exibição. Em 1999 isso aconteceu com "Laura, a voz de uma estrela", adaptação de uma peça teatral inglesa que chamou a atenção para a brilhante atuação de Michael Caine - apesar da vitória no Globe, porém, ele foi ignorado pela Academia, que lembrou-se apenas de indicar sua colega de elenco Brenda Blethyn à estatueta de atriz coadjuvante. Tal fracasso em destacar o filme dentre tantas outras produções, no entanto, não ofusca suas maiores qualidades, que residem justamente no elenco coeso e na atuação hipnótica de Jane Horrocks - para quem a peça original foi escrita - no papel principal.
Laura, a protagonista, é uma jovem inglesa reclusa e tímida que vive trancada em seu quarto, ouvindo os discos das divas que eram os ídolos de seu pai, de quem sente uma saudade devastadora. Sua rotina simples de escutar ad infinitum os álbuns de Judy Garland, Shirley Bassey e Marilyn Monroe só é quebrada pela personalidade exagerada de sua mãe, Mari Hoff (Brenda Blethyn, perfeita na caracterização), uma mulher pouco afeita a sutilezas e generosidades que vê na filha um fracasso completo. Suas vidas sofrem uma profunda transformação, porém, quando uma das conquistas de Mari, o empresário artístico Ray Say (Michael Caine), descobre que, por trás da timidez quase patológica de Laura existe um genuíno talento musical: ao ouví-la, sem querer, imitando as grandes cantoras a que admira, ele vê nela um futuro extraordinário no showbusiness.Com o apoio da ambiciosa Mari, ele tenta convencer a jovem - a quem chamam de LV (Little Voice) - a apresentar-se no clube do semi-fracassado Mr. Boo (Jim Broadbent). Sentindo-se pressionada, a antissocial Laura tem a compreensão apenas do delicado Billy (Ewan McGregor), funcionário da companhia telefônica que se dá melhor com seus pombos-correio do que com as pessoas a seu redor.
Despretensioso e de estrutura simples, "Laura, a voz de uma estrela" conquista basicamente pela construção de seus personagens, delineados com capricho e sutileza, ainda que a princípio pareçam mais estereótipos do que pessoas reais. Conforme a história avança é que as verdadeiras personalidades vão surgindo, mostrando as reais intenções de cada um - assim como as consequências de seus atos os aproxima de um desfecho senão previsível, ao menos coerente e delicado como a protagonista. O romance titubeante entre Laura e Billy (personagem inexistente na versão teatral e criado especificamente para ser vivido por Ewan McGregor) é apaixonante na medida certa, cativando a plateia graças às atitudes desajeitadas dos personagens, envolvidos sem querer em uma situação inesperada e para eles desconhecida. Ainda que não seja o foco central da narrativa, sua história de amor ajuda o espectador a compartilhar da solidão e dos medos dos dois jovens, em um amor puro que contrasta violentamente com o caso entre Mari e Ray, dois seres dotados de extremo egoísmo e ganância - e que os leva à ruína emocional.
Com interpretações fantásticas de Blethyn e Caine, Mari e Ray quase conseguem ser maiores do que a maior das qualidades de "Laura": o talento impressionante de Jane Horrocks em imitar algumas das mais idolatradas divas da música norte-americana. Duas sequências são especialmente brilhantes nesse ponto: primeiro, quando a jovem finalmente cede aos pedidos da mãe e dá um show no palco, sendo aplaudida fervorosamente; e depois, quando enfrenta bravamente Ray, utilizando-se de seu talento para expulsá-lo de sua casa apenas com trechos de músicas antigas. Essas duas cenas são um belo exemplo da força discreta do filme, que seduz imperceptivelmente até que os créditos finais surgem e deixam no público uma sensação de paz e bem-estar. Um belo pequeno filme.
Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Brenda Blethyn)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator (Comédia/Musical): Michael Caine
Uma das maiores funções do Golden Globe - prêmio concedido pela Associação de Correspondentes Estrangeiros em Hollywood - é revelar ao público e à Academia que concede os Oscar (normalmente fechada em seus próprios interesses comerciais) alguns filmes que, por má distribuição, orçamentos pequenos ou inúmeros outros motivos, talvez tenham passado em branco pelas salas de exibição. Em 1999 isso aconteceu com "Laura, a voz de uma estrela", adaptação de uma peça teatral inglesa que chamou a atenção para a brilhante atuação de Michael Caine - apesar da vitória no Globe, porém, ele foi ignorado pela Academia, que lembrou-se apenas de indicar sua colega de elenco Brenda Blethyn à estatueta de atriz coadjuvante. Tal fracasso em destacar o filme dentre tantas outras produções, no entanto, não ofusca suas maiores qualidades, que residem justamente no elenco coeso e na atuação hipnótica de Jane Horrocks - para quem a peça original foi escrita - no papel principal.
Laura, a protagonista, é uma jovem inglesa reclusa e tímida que vive trancada em seu quarto, ouvindo os discos das divas que eram os ídolos de seu pai, de quem sente uma saudade devastadora. Sua rotina simples de escutar ad infinitum os álbuns de Judy Garland, Shirley Bassey e Marilyn Monroe só é quebrada pela personalidade exagerada de sua mãe, Mari Hoff (Brenda Blethyn, perfeita na caracterização), uma mulher pouco afeita a sutilezas e generosidades que vê na filha um fracasso completo. Suas vidas sofrem uma profunda transformação, porém, quando uma das conquistas de Mari, o empresário artístico Ray Say (Michael Caine), descobre que, por trás da timidez quase patológica de Laura existe um genuíno talento musical: ao ouví-la, sem querer, imitando as grandes cantoras a que admira, ele vê nela um futuro extraordinário no showbusiness.Com o apoio da ambiciosa Mari, ele tenta convencer a jovem - a quem chamam de LV (Little Voice) - a apresentar-se no clube do semi-fracassado Mr. Boo (Jim Broadbent). Sentindo-se pressionada, a antissocial Laura tem a compreensão apenas do delicado Billy (Ewan McGregor), funcionário da companhia telefônica que se dá melhor com seus pombos-correio do que com as pessoas a seu redor.
Despretensioso e de estrutura simples, "Laura, a voz de uma estrela" conquista basicamente pela construção de seus personagens, delineados com capricho e sutileza, ainda que a princípio pareçam mais estereótipos do que pessoas reais. Conforme a história avança é que as verdadeiras personalidades vão surgindo, mostrando as reais intenções de cada um - assim como as consequências de seus atos os aproxima de um desfecho senão previsível, ao menos coerente e delicado como a protagonista. O romance titubeante entre Laura e Billy (personagem inexistente na versão teatral e criado especificamente para ser vivido por Ewan McGregor) é apaixonante na medida certa, cativando a plateia graças às atitudes desajeitadas dos personagens, envolvidos sem querer em uma situação inesperada e para eles desconhecida. Ainda que não seja o foco central da narrativa, sua história de amor ajuda o espectador a compartilhar da solidão e dos medos dos dois jovens, em um amor puro que contrasta violentamente com o caso entre Mari e Ray, dois seres dotados de extremo egoísmo e ganância - e que os leva à ruína emocional.
Com interpretações fantásticas de Blethyn e Caine, Mari e Ray quase conseguem ser maiores do que a maior das qualidades de "Laura": o talento impressionante de Jane Horrocks em imitar algumas das mais idolatradas divas da música norte-americana. Duas sequências são especialmente brilhantes nesse ponto: primeiro, quando a jovem finalmente cede aos pedidos da mãe e dá um show no palco, sendo aplaudida fervorosamente; e depois, quando enfrenta bravamente Ray, utilizando-se de seu talento para expulsá-lo de sua casa apenas com trechos de músicas antigas. Essas duas cenas são um belo exemplo da força discreta do filme, que seduz imperceptivelmente até que os créditos finais surgem e deixam no público uma sensação de paz e bem-estar. Um belo pequeno filme.
quinta-feira
NADA É PARA SEMPRE
NADA
É PARA SEMPRE (A river runs through it, 1992, Allied
Filmmakers/Wildwood Enterprises, 130min) Direção: Robert Redford.
Roteiro: Richard Friedenberg, estória de Norman MacLean. Fotografia:
Philippe Rousselot. Montagem: Robert Estrin, Lynzee Klingman. Música:
Mark Isham. Figurino: Kathy O'Rear. Direção de arte/cenários: Jon
Hutman/Gretchen Rau. Produção executiva: Jake Eberts. Produção: Patrick
Markey,Amalia Mato, Robert Redford. Elenco: Tom Skerrit, Brad Pitt,
Craig Scheffer, Brenda Blethyn, Emily Lloyd, Joseph Gordon-Levitt.
Estreia: 30/10/92
3 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Fotografia
Há de se reconhecer que, vez ou outra, a Academia de Hollywood acerta em cheio em suas escolhas. Um perfeito exemplo dessa afirmação é o Oscar de melhor fotografia concedido a Philippe Rousselot na cerimônia de 1993: as belíssimas sequências captadas por ele para o filme "Nada é para sempre", são o que há de melhor no filme de Robert Redford, baseado na estória real do escritor Norman MacLean e na sua relação com a família e a natureza (mais especificamente a pesca). Tratando cada cena como se fosse um quadro, o diretor de fotografia francês - que já tinha no currículo uma indicação à estatueta por seu trabalho em "Esperança e glória" (87) - transforma as vastas paisagens de Montana em um personagem de crucial importância para a trama, ditando o ritmo da narrativa e emoldurando em deslumbrantes takes a bela e trágica história contada com delicadeza e poesia por um inspirado Redford - que conseguiu os direitos de filmagem por muito tempo cobiçados por gente como William Hurt.
Diretor bissexto - ele assinou apenas três filmes em doze anos - Robert Redford ganhou um Oscar já por sua estreia na função, com o dramático "Gente como a gente", de 1980, que, assim como "Nada é para sempre", tem um núcleo familiar como base para uma história que versa sobre amor, amizade, perdas e o duro aprendizado que vem com elas. Um cineasta arraigado aos valores mais tradicionais da sociedade americana - apesar de sua postura política liberal - Redford traduz, em seus filmes, uma visão poética e melancólica de seu país, seja através de um vilarejo lutando por seus direitos básicos - tema de "Rebelião em Milagro" (88) - ou de uma família desestruturada pelo suicídio de um adolescente incapaz de lidar com suas inseguranças frente a um futuro incerto. Em "Nada é para sempre", ele viaja até o inicio do século XX para vasculhar os preconceitos, a religiosidade e a estrutura social de uma pequena cidade americana que serve como microcosmo de um país em construção. E encontra uma poderosa história, que conta de maneira suave e caudalosa como um rio em toda a sua extensão.
O cerne de "Nada é para sempre" é a pesca, esporte praticado de forma quase sagrada pelos homens da família MacLean (sim, o sistema é patriarcal, onde à mãe, vivida por Brenda Blethyn, cabem apenas os afazeres domésticos e as eventuais visitas à Igreja presbiteriana local onde seu marido é o pastor). O chefe da casa - vivido com a medida certa de aspereza e delicadeza por Tom Skerrit - é o pastor da pequena localidade onde moram, e educa os dois filhos com rigidez, dentro das normas religiosas e morais com que também foi criado. A história começa realmente quando o mais velho dos irmãos, Norman (Craig Scheffer), retorna, depois de seis anos distante, à casa dos pais. Formado mas ainda indeciso em relação à seu futuro, ele encontra o caçula, Paul (Brad Pitt em seu primeiro papel de destaque depois do furor que causou em "Thelma & Louise", de 1991) respeitado como jornalista, mas metido em diversas encrencas relacionadas a jogo e bebidas. O reencontro dos irmãos - de personalidades distintas mas profundamente ligados um ao outro - também acontece quando Norman se apaixona por Jesse (Emily Lloyd), de convições religiosas diferentes às de sua família e Paul resolve desafiar a preconceituosa sociedade local envolvendo-se com uma bela mestiça indígena.
Como se pode perceber, a história é o que menos importa em "Nada é para sempre", uma vez que nada conta de diferente. O que faz a diferença no filme - e o que o torna tão fascinante - é a união de fatores que forma o conjunto. Além da espetacular fotografia e da trilha sonora sutil de Mark Isham (que substituiu outra, de autoria de Elmer Bernstein), o roteiro de Richard Friedenberg - indicado ao Oscar - mantém a poesia da prosa de Norman MacLean, tanto na narração em off quanto em vários diálogos, valorizados pelo elenco bem escalado. Apesar de Craig Scheffer ser o protagonista, Brad Pitt rouba todas as cenas com seu carisma jovem que, logo em seguida o tornaria o astro mais popular de Hollywood. Tom Skerrit e Brenda Blethyn emocionam sem fazer alarde e até mesmo um pequeno Joseph Gordon-Levitt, em sua estreia no cinema, dá as caras com o jovem Norman. Filmado com precisão, delicadeza e a dose certa de emoção - leia-se sem apelar para o sentimentalismo - "Nada é para sempre" é para ser degustado com calma, paciência e serenidade. Como uma boa pescaria.
3 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Fotografia
Há de se reconhecer que, vez ou outra, a Academia de Hollywood acerta em cheio em suas escolhas. Um perfeito exemplo dessa afirmação é o Oscar de melhor fotografia concedido a Philippe Rousselot na cerimônia de 1993: as belíssimas sequências captadas por ele para o filme "Nada é para sempre", são o que há de melhor no filme de Robert Redford, baseado na estória real do escritor Norman MacLean e na sua relação com a família e a natureza (mais especificamente a pesca). Tratando cada cena como se fosse um quadro, o diretor de fotografia francês - que já tinha no currículo uma indicação à estatueta por seu trabalho em "Esperança e glória" (87) - transforma as vastas paisagens de Montana em um personagem de crucial importância para a trama, ditando o ritmo da narrativa e emoldurando em deslumbrantes takes a bela e trágica história contada com delicadeza e poesia por um inspirado Redford - que conseguiu os direitos de filmagem por muito tempo cobiçados por gente como William Hurt.
Diretor bissexto - ele assinou apenas três filmes em doze anos - Robert Redford ganhou um Oscar já por sua estreia na função, com o dramático "Gente como a gente", de 1980, que, assim como "Nada é para sempre", tem um núcleo familiar como base para uma história que versa sobre amor, amizade, perdas e o duro aprendizado que vem com elas. Um cineasta arraigado aos valores mais tradicionais da sociedade americana - apesar de sua postura política liberal - Redford traduz, em seus filmes, uma visão poética e melancólica de seu país, seja através de um vilarejo lutando por seus direitos básicos - tema de "Rebelião em Milagro" (88) - ou de uma família desestruturada pelo suicídio de um adolescente incapaz de lidar com suas inseguranças frente a um futuro incerto. Em "Nada é para sempre", ele viaja até o inicio do século XX para vasculhar os preconceitos, a religiosidade e a estrutura social de uma pequena cidade americana que serve como microcosmo de um país em construção. E encontra uma poderosa história, que conta de maneira suave e caudalosa como um rio em toda a sua extensão.
O cerne de "Nada é para sempre" é a pesca, esporte praticado de forma quase sagrada pelos homens da família MacLean (sim, o sistema é patriarcal, onde à mãe, vivida por Brenda Blethyn, cabem apenas os afazeres domésticos e as eventuais visitas à Igreja presbiteriana local onde seu marido é o pastor). O chefe da casa - vivido com a medida certa de aspereza e delicadeza por Tom Skerrit - é o pastor da pequena localidade onde moram, e educa os dois filhos com rigidez, dentro das normas religiosas e morais com que também foi criado. A história começa realmente quando o mais velho dos irmãos, Norman (Craig Scheffer), retorna, depois de seis anos distante, à casa dos pais. Formado mas ainda indeciso em relação à seu futuro, ele encontra o caçula, Paul (Brad Pitt em seu primeiro papel de destaque depois do furor que causou em "Thelma & Louise", de 1991) respeitado como jornalista, mas metido em diversas encrencas relacionadas a jogo e bebidas. O reencontro dos irmãos - de personalidades distintas mas profundamente ligados um ao outro - também acontece quando Norman se apaixona por Jesse (Emily Lloyd), de convições religiosas diferentes às de sua família e Paul resolve desafiar a preconceituosa sociedade local envolvendo-se com uma bela mestiça indígena.
Como se pode perceber, a história é o que menos importa em "Nada é para sempre", uma vez que nada conta de diferente. O que faz a diferença no filme - e o que o torna tão fascinante - é a união de fatores que forma o conjunto. Além da espetacular fotografia e da trilha sonora sutil de Mark Isham (que substituiu outra, de autoria de Elmer Bernstein), o roteiro de Richard Friedenberg - indicado ao Oscar - mantém a poesia da prosa de Norman MacLean, tanto na narração em off quanto em vários diálogos, valorizados pelo elenco bem escalado. Apesar de Craig Scheffer ser o protagonista, Brad Pitt rouba todas as cenas com seu carisma jovem que, logo em seguida o tornaria o astro mais popular de Hollywood. Tom Skerrit e Brenda Blethyn emocionam sem fazer alarde e até mesmo um pequeno Joseph Gordon-Levitt, em sua estreia no cinema, dá as caras com o jovem Norman. Filmado com precisão, delicadeza e a dose certa de emoção - leia-se sem apelar para o sentimentalismo - "Nada é para sempre" é para ser degustado com calma, paciência e serenidade. Como uma boa pescaria.
DESEJO E REPARAÇÃO
DESEJO E REPARAÇÃO (Atonement, 2007, Universal Pictures, 123min) Direção: Joe Wright. Roteiro: Christopher Hampton, romance "Reparação", de Ian McEwan. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Paul Tothill. Música: Dario Marianelli. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Liza Chasin, Richard Eyre, Robert Fox, Debra Hayward, Ian McEwan. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Paul Webster. Elenco: James McAvoy, Keira Knightley, Saoirse Ronan, Romola Garai, Brenda Blethyn, Juno Temple, Benedict Cumberbatch, Vanessa Redgrave. Estreia: 29/8/07 (Festival de Veneza)
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Saoirse Ronan), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Trilha Sonora Original
A distribuidora nacional bem que tentou forçar a semelhança com o filme mais famoso de Joe Wright, mas, com exceção de seu nome e da presença da atriz Keira Knightley em ambas as obras, muito poucas semelhanças existem entre "Orgulho e preconceito" e "Desejo e reparação", adaptação de Christopher Hampton da obra-prima do inglês Ian McEwan. Dono de uma prosa mais contundente e uma visão mais pessimista do mundo, McEwan criou uma poderosa história de amor e perda, que trata sem subterfúgios o poder destruidor da imaginação. Recriada com precisão pelo roteiro de Hampton e pela direção caprichada de Wright, a história do romance interrompido entre o humilde Robbie Turner e sua amada Cecilia Tallis ganha, em celulóide, uma visão perturbadora e poética, valorizada por um visual arrebatador e um elenco impressionante.
O nome mais conhecido no cartaz de "Desejo e reparação" é o da atriz Keira Knightley - que já havia trabalhado com o diretor na versão 2005 de "Orgulho e preconceito", mas é o quase desconhecido James McAvoy quem rouba a cena. Tendo sido notado pelo público e pela crítica como o médico de Idi Amin em "O último rei da Escócia" e como o fauno de "As crônicas de Nárnia", o jovem ator (indicado ao Golden Globe por sua atuação, mas injustamente esquecido pelo Oscar) brilha na pele de Robbie Turner, o filho de uma das empregadas da tradicional família Tallis que, em uma casa de campo na Inglaterra de 1935, vê sua vida transformada radicalmente devido a um incidente de consequências funestas. Apaixonado pela bela Cecilia (Knightley), filha dos patrões, ele sonha em cursar Medicina para ter condições de casar-se com ela. Dedicado e honesto, ele é também o objeto da paixão de Briony (Saoirse Ronan, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), que, aos 13 anos de idade, tem o objetivo de tornar-se escritora. É ela quem, com sua mente criativa, irá deflagrar a crise que irá levar o rapaz a uma espiral de acontecimentos trágicos que irá lhe afastar de um futuro promissor. Sentindo-se culpada, alguns anos mais tarde (e interpretada por Romola Garai), ela tentará reparar seu erro.
Mesmo que os fãs do livro voltem a apaixonar-se pela trama de McEwan, é inegável que quanto menos se souber a respeito dos desdobramentos da história, melhor. Apesar de ter um ritmo quase contemplativo em sua primeira metade - que a edição brilhante de Paul Thothill jamais permite tornar-se aborrecido - o filme de Wright leva o espectador, em sua segunda parte, a uma viagem fascinante a um universo de culpa, desejo reprimido e rancor, banhados em lágrimas e sangue. A história de amor entre Robbie e Cecilia - interrompida pelos horrores da Segunda Guerra - é ilustrada com cenas extraordinariamente orquestradas pelo cineasta, incluindo-se aí um longo plano-sequência de tirar o fôlego e um final devastador, valorizado por uma participação especialíssima de Vanessa Redgrave que mostra porque ela é uma das maiores atrizes em atividade. Vivendo Briony Tallis em sua maturidade, Redgrave dá uma aula de classe, elegância e sensibilidade que poderia tranquilamente também ter sido lembrada pela Academia.
Em mais uma prova de suas incoerências, a Academia indicou "Desejo e reparação" a oito estatuetas, incluindo melhor filme e roteiro adaptado, mas deixou de lado tanto McAvoy quanto o diretor Joe Wright. Premiando apenas sua sensacional trilha sonora, os membros eleitores deixaram de prestigiar com mais estatuetas um dos melhores filmes de sua temporada. Espetacularmente fotografado e dono de uma reconstituição de época brilhante (em especial seu figurino), o filme de Wright consegue ser tecnicamente perfeito e emocionalmente potente. É difícil manter-se incólume à sua força e à sua melancolia, traduzidas em imagens inesquecíveis que captam com maestria a essência e o clima do livro de Ian McEwan. Uma obra-prima imperdível!
ORGULHO E PRECONCEITO
ORGULHO E PRECONCEITO (Pride & Prejudice, 2005, Focus Features/Universal Pictures, 127min) Direção: Joe Wright. Roteiro: Deborah Moggach, romance de Jane Austen. Fotografia: Roman Osin. Montagem: Paul Tothill. Música: Dario Marianelli. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Liza Chasin, Debra Hayward. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Paul Webster. Elenco: Keira Knightley, Matthew McFayden, Judi Dench, Rosamund Pike, Carey Mulligan, Donald Sutherland, Brenda Blethyn, Jena Malone, Talulah Riley. Estreia: 25/7/05
4 indicações ao Oscar: Atriz (Keira Knightley), Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de arte/cenários
Publicado em 1813, o romance "Orgulho e preconceito" acabou tornando-se o mais popular e amado dentre toda a obra da escritora inglesa Jane Austen - também autora de obras conhecidas que foram adaptadas para o cinema, como "Razão e sensibilidade" e "Emma". Transformado em filme pela primeira vez em 1940 - com Greer Garson e Laurence Olivier nos papéis principais - a história de amor entre a orgulhosa Elizabeth Benneth e o circunspecto Mr. Darcy sempre esteve no inconsciente coletivo das milhares de leitoras que nunca deixaram que a obra caísse no esquecimento. Porém, depois de uma bem-sucedida adaptação para a tv britânica em 1995 - mesmo ano em que Austen tornou-se febre entre os estúdios de cinema - parecia que não havia mais espaço para mais uma releitura. Foi aí que entrou em cena o cineasta Joe Wright, estreando com o pé direito no cinema.
Nascido em 1972 e egresso da televisão inglesa, Wright surpreendeu crítica e público ao assinar um filme elegante e que mantinha em perfeito equilíbrio o romance e o senso de humor da obra de Austen - algo que o bem mais experiente Ang Lee também havia conseguido na versão de "Razão e sensibilidade" de 1995. Sem preocupar-se com as adaptações anteriores, Wright construiu seu filme como se fosse uma história de amor inédita e surpreendente, e seu frescor fica patente logo em suas primeiras cenas, onde ele apresenta a barulhenta e vital família Bennett, liderada por um Donald Sutherland particularmente inspirado e uma Brenda Blethyn mostrando porque era uma das inglesas preferidas da Academia no final dos anos 90 - quando concorreu ao Oscar por "Segredos e mentiras" e "Little Voice, a voz de uma estrela". Os veteranos atores vivem os pais de uma ninhada de cinco meninas, todas em idade de arrumar um marido - de preferência ricos e bem educados. A protagonista é sua primogênita, Elizabeth (Keira Knightley), de personalidade forte e ideias à frente de seu tempo, que a levam a declinar de propostas tidas como irrecusáveis. Seu jeito pouco afeito às convenções sociais acabam por aproximá-la - e ao mesmo tempo afastá-la - do aparentemente esnobe Mr. Darcy (Matthew Macfadyen), um rico proprietário vizinho de sua família.

Tirando proveito do estilo gracioso e um tanto sardônico do romance de Jane Austen, "Orgulho e preconceito" é um vitorioso principalmente por não ter vergonha das origens plenamente folhetinescas e romanescas de seu original. O roteiro - que contou com a colaboração preciosa e não creditada de Emma Thompson - ao mesmo tempo em que descreve o estilo de vida de sua época com carinho e romantismo não deixa de criticá-lo de maneira sutil e divertida. A história de amor entre Elizabeth e Mr. Darcy, por exemplo, cede espaço em muitos momentos, para tramas paralelas sempre bastante interessantes e com os dois pés fincados no classicismo vitoriano de sua autora - tramas repletas de reviravoltas, mal-entendidos e principalmente amores eternos e dramáticos. E Wright tem a sorte - ou o talento de escolha - para contar com um elenco extraordinário, onde Donald Sutherland e Brenda Blethyn são apenas a ponta do iceberg.
Na pele de Elizabeth Bennett, a frágil Keira Knightley - em alta na época pelo sucesso de "Piratas do Caribe" - oferece uma de suas atuações mais felizes, onde mescla a força de sua personagem com uma delicadeza ímpar diante do amor. Matthew Macfadyen cria um Mr. Darcy impecável, rivalizando com dois grandes intérpretes da personagem, Laurence Olivier e Colin Firth. Mesmo que soe muito mais antipático do que deveria em um filme que apesar de tudo é uma história de amor, Macfadyen faz o contraponto perfeito à sutileza de Knightley - indicada ao Oscar por seu desempenho. Juntos, eles conseguem conquistar a audiência, que passa a torcer por seu final feliz logo que os dois cruzam os olhares - e dos quais vão adiante com diálogos de uma mordacidade deliciosa.
Fotografado com requinte e dono de uma reconstituição de época brilhante, "Orgulho e preconceito" não faz feio diante de suas versões anteriores, revelando em Joe Wright um cineasta competente e criativo - qualidades que seu trabalho seguinte, o estarrecedor "Desejo e reparação" deixaria ainda mais claro. Um programa obrigatório para os românticos.
4 indicações ao Oscar: Atriz (Keira Knightley), Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de arte/cenários
Publicado em 1813, o romance "Orgulho e preconceito" acabou tornando-se o mais popular e amado dentre toda a obra da escritora inglesa Jane Austen - também autora de obras conhecidas que foram adaptadas para o cinema, como "Razão e sensibilidade" e "Emma". Transformado em filme pela primeira vez em 1940 - com Greer Garson e Laurence Olivier nos papéis principais - a história de amor entre a orgulhosa Elizabeth Benneth e o circunspecto Mr. Darcy sempre esteve no inconsciente coletivo das milhares de leitoras que nunca deixaram que a obra caísse no esquecimento. Porém, depois de uma bem-sucedida adaptação para a tv britânica em 1995 - mesmo ano em que Austen tornou-se febre entre os estúdios de cinema - parecia que não havia mais espaço para mais uma releitura. Foi aí que entrou em cena o cineasta Joe Wright, estreando com o pé direito no cinema.
Nascido em 1972 e egresso da televisão inglesa, Wright surpreendeu crítica e público ao assinar um filme elegante e que mantinha em perfeito equilíbrio o romance e o senso de humor da obra de Austen - algo que o bem mais experiente Ang Lee também havia conseguido na versão de "Razão e sensibilidade" de 1995. Sem preocupar-se com as adaptações anteriores, Wright construiu seu filme como se fosse uma história de amor inédita e surpreendente, e seu frescor fica patente logo em suas primeiras cenas, onde ele apresenta a barulhenta e vital família Bennett, liderada por um Donald Sutherland particularmente inspirado e uma Brenda Blethyn mostrando porque era uma das inglesas preferidas da Academia no final dos anos 90 - quando concorreu ao Oscar por "Segredos e mentiras" e "Little Voice, a voz de uma estrela". Os veteranos atores vivem os pais de uma ninhada de cinco meninas, todas em idade de arrumar um marido - de preferência ricos e bem educados. A protagonista é sua primogênita, Elizabeth (Keira Knightley), de personalidade forte e ideias à frente de seu tempo, que a levam a declinar de propostas tidas como irrecusáveis. Seu jeito pouco afeito às convenções sociais acabam por aproximá-la - e ao mesmo tempo afastá-la - do aparentemente esnobe Mr. Darcy (Matthew Macfadyen), um rico proprietário vizinho de sua família.
Tirando proveito do estilo gracioso e um tanto sardônico do romance de Jane Austen, "Orgulho e preconceito" é um vitorioso principalmente por não ter vergonha das origens plenamente folhetinescas e romanescas de seu original. O roteiro - que contou com a colaboração preciosa e não creditada de Emma Thompson - ao mesmo tempo em que descreve o estilo de vida de sua época com carinho e romantismo não deixa de criticá-lo de maneira sutil e divertida. A história de amor entre Elizabeth e Mr. Darcy, por exemplo, cede espaço em muitos momentos, para tramas paralelas sempre bastante interessantes e com os dois pés fincados no classicismo vitoriano de sua autora - tramas repletas de reviravoltas, mal-entendidos e principalmente amores eternos e dramáticos. E Wright tem a sorte - ou o talento de escolha - para contar com um elenco extraordinário, onde Donald Sutherland e Brenda Blethyn são apenas a ponta do iceberg.
Na pele de Elizabeth Bennett, a frágil Keira Knightley - em alta na época pelo sucesso de "Piratas do Caribe" - oferece uma de suas atuações mais felizes, onde mescla a força de sua personagem com uma delicadeza ímpar diante do amor. Matthew Macfadyen cria um Mr. Darcy impecável, rivalizando com dois grandes intérpretes da personagem, Laurence Olivier e Colin Firth. Mesmo que soe muito mais antipático do que deveria em um filme que apesar de tudo é uma história de amor, Macfadyen faz o contraponto perfeito à sutileza de Knightley - indicada ao Oscar por seu desempenho. Juntos, eles conseguem conquistar a audiência, que passa a torcer por seu final feliz logo que os dois cruzam os olhares - e dos quais vão adiante com diálogos de uma mordacidade deliciosa.
Fotografado com requinte e dono de uma reconstituição de época brilhante, "Orgulho e preconceito" não faz feio diante de suas versões anteriores, revelando em Joe Wright um cineasta competente e criativo - qualidades que seu trabalho seguinte, o estarrecedor "Desejo e reparação" deixaria ainda mais claro. Um programa obrigatório para os românticos.
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