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quinta-feira

O HOMEM QUE MUDOU O JOGO

O HOMEM QUE MUDOU O JOGO (Moneyball, 2011, ColumbiaPictures, 131min) Direção: Bennett Miller. Roteiro: Steven Zaillian, Aaron Sorkin, livro de Michael Lewis. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Mychael Danna. Figurino: Kasia Malicja Maione. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Mark Bakshi, Andrew Karsch, Sidney Kimmel, Scott Rudin. Produção: Michael De Luca, Rachael Horovitz, Brad Pitt. Elenco: Brad Pitt, Jonah Hill, Philip Seymour Hoffman, Robin Wright, Chris Pratt, Spike Jonze, Stephen Bishop, Brent Jennings, Tammy Blanchard, Arliss Howard. Estreia: 09/9/11 (Festival de Toronto)

06 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Brad Pitt), Ator Coadjuvante (Jonah Hill), Roteiro Adaptado, Montagem, Mixagem de Som

Poucas pessoas em Hollywood conseguiriam convencer um estúdio a bancar um filme a respeito de beisebol e matemática, dois assuntos não exatamente populares - especialmente fora dos EUA, onde o esporte é praticamente veneno de bilheteria. E uma dessas poucas pessoas é o diretor Steven Soderbergh, que desde 1989, quando ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes com "sexo, mentiras e videotape", consagrou-se como o cineasta independente mais bem-sucedido do cinema norte-americano. Nem mesmo alguns tiros n'água foram o suficiente para diminuir seu prestígio na indústria - e o Oscar de melhor diretor por "Traffic" (2000) no mesmo ano em que também concorria por "Erin Brokovich, uma mulher de talento" só aumentou seu cacife. Portanto, quando Soderbergh surgiu com a ideia de fazer um filme sobre o esporte com o elenco formado por ex-jogadores e profissionais da liga, poucos se surpreenderam com a aquiescência da Columbia Pictures em bancar os custos da produção. A surpresa veio mesmo quando o próprio diretor saiu fora do projeto, por divergências em relação ao roteiro, escrito pelo premiado Steven Zaillian. A entrada em cena de um novo comandante - Bennett Miller, indicado ao Oscar por "Capote" (05) - e um astro de primeira grandeza no papel principal - Brad Pitt - imediatamente inchou o orçamento, e o que seria uma produção menor ganhou destaque na mídia e nas cerimônias de premiação. Indicado a seis Oscar - incluindo melhor filme e ator - e com uma considerável bilheteria doméstica de mais de 75 milhões de dólares, "O homem que mudou o jogo" talvez tenha sido super-apreciado, mas é um filme bastante interessante, a despeito de seu tema pouco atraente.

Desprovido de seu charme de galã e de seu carisma irresistível, Brad Pitt arrancou uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho como Billy Beane, o gerente geral de um time de beisebol de Oakland que tenta, com a ajuda de seu novo assistente, Peter Brand (Jonah Hill, lembrado como coadjuvante pela Academia), melhorar os índices de aproveitamento de sua equipe mesmo com um orçamento irrisório em comparação com os rivais. Perdendo os atletas-astros para times maiores, Beane e Brand - formado em Economia e sem nenhuma relação com o esporte em si - criam uma nova forma de calcular o quanto cada jogador pode render em campo, através de gráficos e percentuais. Contratando homens até então desacreditados ou relegados ao banco de reservas, eles enfrentam a descrença dos analistas técnicos e até do treinador, Art Howe (Philip Seymour Hoffman); Mas, para surpresa de todos, depois de um período de tempo as vitórias começam a acumular-se, transformando o Oakland Athletics em uma espécie de fenômeno inesperado.


Baseado em uma história real, contada por Michael Lewis em seu livro "Moneyball", o filme de Bennet Miller se beneficia de uma edição inteligente, que mergulha o espectador dentro não apenas dos jogos em si - cujas regras não são tão facilmente compreensíveis quanto as do futebol - mas das entranhas do esporte em geral. A melancolia dos estádios vazios, a frieza das negociações contratuais, a agonia das derrotas e a euforia das vitórias são retratadas de forma quase documental, com a câmera de Wally Pfister (diretor de fotografia preferido de Christopher Nolan) sempre atenta a qualquer detalhe capaz de humanizar cada um de seus personagens. Mesclando imagens de arquivo com cenas feitas especialmente para o filme, Miller consegue a proeza de enfatizar a emoção do esporte sem precisar, para isso, abdicar de uma certa dose de racionalidade que dá ao resultado final uma curiosa mescla entre cérebro e coração: é impossível não torcer pelos desacreditados jogadores menosprezados, mesmo que a direção quase cirúrgica evite qualquer traço de sentimentalismo. Até mesmo a relação entre Beane e a filha pré-adolescente é tratada com discrição, apesar de permitir à Pitt que demonstre a sutileza de sua atuação.

Centrando todo seu foco nos dois protagonistas, "O homem que mudou o jogo" conta com participações especiais ilustres - além de Philip Seymour Hoffman como o treinador Art Howe, aparecem em cena Robin Wright (como a ex-mulher de Beane), o diretor Spike Jonze (como o novo marido dela) e Chris Pratt, antes de tornar-se popular como o herói de "Guardiões da galáxia" (2014), como um dos jogadores resgatados pelo método audacioso de Beane e Brand. Como um filme que se propõe a narrar uma história quase inacreditável sem apelar para grandes reviravoltas ou artifícios dramáticos, se utiliza de um excelente roteiro - que, inicialmente escrito por Steven Zaillian, foi burilado por Aaron Sorkin e indicado ao Oscar a categoria, perdendo para "Os descendentes" - para celebrar a persistência e o amor ao esporte, na figura de um protagonista falível e realista, iluminado por flashbacks reveladores que explicam sua trajetória de atleta promissor a gerente em crise profissional. Sem excesso de nenhuma natureza - característica de seu diretor - é uma obra que cresce em uma revisão, desde que se saiba exatamente quais são seus objetivos e seu estilo narrativo. Mais uma bola dentro na carreira de Brad Pitt.

quarta-feira

FOXCATCHER: UMA HISTÓRIA QUE CHOCOU O MUNDO

FOXCATCHER: UMA HISTÓRIA QUE CHOCOU O MUNDO (Foxcatcher, 2014, Annapurna Pictures/Media Rights Capital, 134min) Direção: Bennet Miller. Roteiro: Dan Futterman, E. Max Frye. Fotografia: Greig Fraser. Montagem: Jay Cassidy, Stuart Levy, Conor O'Neil. Música: Ron Simonsen. Figurino: Kasia Walicka-Maimone. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Kathy Lucas. Produção executiva: Mark Bakshi, Chelsea Barnard, Michael Coleman, John P. Giura, Tom Heller, Ron Schmidt. Produção: Anthony Bregman, Megan Ellison, Jon Kilik, Bennett Miller. Elenco: Steve Carrell, Mark Ruffalo, Channing Tatum, Vanessa Redgrave, Siena Miller, Anthony Michael Hall. Estreia: 19/5/14 (Festival de Cannes)

5 indicações ao Oscar: Diretor (Bennett Miller), Ator (Steve Carrell), Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Roteiro Original, Maquiagem
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes (Bennett Miller)

Se existe um caminho para conquistar o coração dos eleitores da Academia, esse caminho deve ser do conhecimento do diretor Bennett Miller. Desde que lançou seu primeiro longa - a cinebiografia "Capote", que contava com a brilhante atuação de Philip Seymour Hoffman como o famoso autor de "À sangue frio" - o cineasta nova-iorquino viu seus três filmes conquistarem importantes indicações ao Oscar: o primeiro e "O homem que mudou o jogo" - estrelado por Brad Pitt e Jonah Hill - chegaram mesmo a concorrer à estatueta de melhor filme, apesar da qualidade apenas razoável do segundo. Seu novo trabalho (e novamente uma história verdadeira) é "Foxcatcher, uma história que chocou o mundo", que, apesar de não ter alcançado a glória de ser indicado na categoria de de melhor filme, chegou ao páreo de direção, ator (um irreconhecível Steve Carrell), ator coadjuvante (Mark Ruffalo) e roteiro original. Tido como um dos favoritos às estatuetas desde que estreou no Festival de Cannes, em maio passado, o filme foi aos poucos perdendo fôlego e, se conseguiu atravessar a cobiçada linha que separa as especulações da realidade é porque conta com um invejável conjunto de atores, todos eles em momento de grande inspiração: no cômputo geral, "Foxcacther" está muito longe de ser o filme memorável que poderia ser.

O subtítulo nacional - "Uma história que chocou o mundo" - já é um exagero desproporcional, uma vez que, antes da estreia mundial, pouca gente sabia a respeito da tragédia que deu origem ao roteiro (ao menos fora dos EUA, onde os personagens eram relativamente famosos), mas não é a pior coisa do filme de Miller, que sofre de uma direção distante e impessoal que lhe dá um equivocado tom de semi-documentário - uma opção discutível que acaba por afastar o envolvimento emocional do espectador com uma história já recheada de personagens ambíguos e frios. Mesmo que em certos momentos crie algumas cenas de inegável impacto visual - que acentuam o viés melancólico e denso da trama - o cineasta incorre no erro de evitar qualquer mudança no ritmo quase letárgico de sua narração, dando a todos os acontecimentos mostrados a mesma importância dramática. O que poderia ser inteligente - ir montando aos poucos um quebra-cabeças de peças aparentemente desconexas - acaba por se mostrar apenas aborrecido quando se percebe, ao final, que todos aqueles momentos silenciosos e repetitivos não ajudaram em nada a entender o principal: o que levou o milionário John Du Pont a tomar a drástica atitude que inspirou o subtítulo em português.


Não saber muito a respeito da trama ajuda a manter o clima de suspense que, de certa forma, é um dos trunfos de "Foxcatcher" - mesmo que não se conheça a história fica claro desde o princípio que algo pouco positivo irá resultar da aproximação dos personagens, principalmente porque, reconheçamos, a trilha sonora e a edição soturna dão dicas a esse respeito. Tudo começa quando o jovem Mark Schultz (Channing Tatum), lutador olímpico que vive de treinos e palestras motivacionais a estudantes enfadados, é convidado a visitar a mansão do milionário John Du Pont (Steve Carrell sem o menor tique cômico), que vive isolado em uma gigantesca propriedade e tem como sonho criar uma vitoriosa equipe norte-americana de lutadores. Ele mesmo um treinador e lutador diletante, Du Pont convence o jovem a juntar-se a outros atletas, dando-lhe um lugar para morar, comida, boas condições de treino e um pagamento generoso. A única pedra em seu caminho é Dave (Mark Ruffalo), irmão mais velho e antigo técnico de Mark, com quem mantém uma forte relação de carinho familiar. A união entre os dois passa a despertar um misto de inveja e admiração no multi-milionário - que não tem o melhor dos relacionamentos com a mãe (Vanessa Redgrave) e leva uma vida solitária - que resolve, então, chamar Dave para juntar-se a eles em seu projeto.

Contando sua história sem pressa e muitas vezes abusando da paciência do público, Bennett Miller tem como maior trunfo sua trinca de atores centrais. Enquanto Mark Ruffalo já é reconhecido por seu talento dramático graças a uma série de bons filmes - que incluem a comédia dramática "Minhas mães e meu pai", que lhe deram sua primeira indicação ao Oscar, em 2011 - a plateia é pega de surpresa principalmente pelo trabalho de Steve Carrell e Channing Tatum. Tatum, mais conhecido por exibir o físico privilegiado em dramas românticos como "Querido John" e comédias bobas como "Anjos da lei", ainda não é um grande ator, mas seu esforço em crescer artisticamente é visível na construção corporal de seu personagem, que foge do estereótipo do galã sedutor com seu andar pesado, seu olhar perdido e sua forma quase anestesiada de falar. E Steve Carrell mereceu, com todo o louvor, sua indicação à estatueta de melhor ator, apresentando um desenvolvimento exemplar de personagem: mesmo que pouco se explique a respeito de sua natureza no roteiro, ele consegue, através do olhar vazio e das expressões faciais destituídas de qualquer emoção, arrepiar e emocionar na medida certa. Em nenhum momento somos lembrados que, por trás da competente maquiagem e da voz monocórdia, existe o genial ator cômico do seriado "The Office" e da refilmagem de "Agente 86". Ponto para ele.

No fim das contas, "Foxcatcher" é um trabalho apenas ok de um diretor que caiu inexplicavelmente nas graças da Academia - e dos jurados do Festival de Cannes, que lhe deram a Palma de Ouro da categoria. A intenção do cineasta em retratar o mundo da luta como uma espécie de culto - um mundo à parte, isolado e cheio de regras - cai no vazio diante de um roteiro que deixa mais à imaginação do público do que deveria e o final anti-climático perde a oportunidade de chocar ou surpreender para parecer apenas mais um acontecimento banal como um treino ou uma corrida matinal. Nem mesmo as possibilidades homoeróticas da história são levantadas, tornando tudo apenas um exercício sonolento e quase arrogante. Ainda bem que tem seus atores.

quinta-feira

CAPOTE

CAPOTE (Capote, 2005, Columbia TriStar, 114min) Direção: Bennett Miller. Roteiro: Dan Futterman, livro de Gerald Clarke. Figurino: Adam Kimmel. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Mychael Danna. Figurino: Kasia Walicka Maimone. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Maryam Decter, Scott Rossell. Produção executiva: Dan Futterman, Philip Seymour Hoffman, Kerry Rock, Danny Rosett. Produção: Caroline Baron, Michael Ohoven, William Vince. Elenco: Philip Seymour Hoffman, Catherine Keener, Clifton Collins Jr., Chris Cooper, Amy Ryan, Bruce Greenwood, Bob Balaban. Estreia: 30/9/05

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Bennett Miller), Ator (Philip Seymour Hoffman), Atriz Coadjuvante (Catherine Keener), Roteiro Adaptado

Em 30 de setembro de 2005, dia em que o escritor Truman Capote completaria 81 anos, estreou nas telas americanas aquele que provavelmente poderia ser um de seus maiores presentes. Com base na extensa biografia escrita por Gerald Clarke - porém limitando sua trama ao período em que ele envolveu-se de forma quase insana na criação de sua mais famosa obra, o livro "À sangue frio" - estreou o filme "Capote", que encontrou no ator Philip Seymour Hoffman sua encarnação mais perfeita. Também produtor executivo do filme, Hoffman simplesmente encarnou a personalidade polêmica do escritor/jornalista mais célebre de seu tempo, provocando um verdadeiro arrastão na temporada de premiações - que culminou com um merecido Oscar de melhor ator.

Realizado praticamente ao mesmo tempo que "Confidencial" - onde o ator Toby Jones encarnou o protagonista e Sandra Bullock desfilou sua apatia como Harper Lee - "Capote" é um filme repleto de qualidades, a começar pela direção sensível de Bennett Miller e o roteiro conciso e inteligente do também ator Dan Futterman (que depois viveria o jornalista Daniel Pearl em "O preço da coragem", ao lado de Angelina Jolie). O filme começa com o assassinato de uma família no Kansas, cometido sem motivo aparente. Subitamente interessado pela notícia, o jornalista - afeminado, excêntrico e dotado de um senso de humor muitas vezes agressivo - parte para a pequena cidade de Holcomb acompanhado da amiga escritora Harper Lee (Catherine Keener, discreta e inexplicavelmente indicada a um Oscar por seu trabalho) com o objetivo de escrever uma matéria sobre o caso. Fascinado com a tragédia, Capote fica ainda mais entusiasmado quando conhece os assassinos, em especial Perry Smith (Clifton Collins Jr., ótimo), com quem sente uma estranha conexão. Mergulhando cada vez em suas pesquisas, ele acaba decidindo escrever não mais uma matéria e sim um livro sobre o caso. O que seria apenas alguns dias de trabalho acaba se tornando quase uma obsessão de anos.



O roteiro de Futterman concentra-se bastante na relação entre Capote e Perry, o que lhe dá a chance de explorar a contento a personalidade conflitante de seu protagonista e, ao mesmo tempo, criar um paralelo interessante entre ele e um assassino que, à primeira vista, nada tem em comum com ele. A forma com que tanto o roteiro quanto a direção conduzem a narrativa é um primor de sutileza e discrição, valorizado pelo desempenho formidável de Philip Seymour Hoffman e pela surpreendentemente emotiva atuação de Clifton Collins Jr., que dá à sua personagem uma textura ainda mais contundente do que no clássico "À sangue-frio", realizado nos anos 60, com os fatos ainda quentinhos no inconsciente americano. O distanciamento temporal também ajuda à plateia a ter uma visão menos passional do tema do filme e analisar "Capote" não como um semi-documentário (como o magnífico trabalho de Richard Brooks), mas como um filme que poderia tranquilamente ser uma obra de ficção - mistura essa que o próprio escritor inaugurou na literatura, criando o gênero "romance de não-ficção".

Equilibrando-se admiravelmente entre os bastidores da realização de uma das mais importantes obras literárias americanas do século XX e o estudo da personalidade festiva e melancólica de um dos autores essenciais de sua época, "Capote" é um filme que cresce a cada revisão, graças a sua seriedade em tratar de temas complexos e à interpretação assombrosa de Phillip Seymour Hoffman, no grande papel de sua vida.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...