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segunda-feira

TREM-BALA


TREM-BALA (Bullet train, 2022, Sony Pictures Entertainment, 127min) Direção: David Leitch. Roteiro: Zak Olkewicz, romance de Kôtarô Isaka. Fotografia: Jonathan Sela. Montagem: Elisabet Ronaldsdóttir. Música: Dominic Lewis. Figurino: Sarah Evelyn. Direção de arte/cenários: David Scheunemann/Elizabeth Keenan. Produção executiva: Brent O'Connor, Ryosuke Saegusa, Kat Samick, Yuma Terada. Produção: Antoine Fuqua, David Leitch, Kelly McCormick. Elenco: Brad Pitt, Aaron Taylor-Johnson, Joey King, Brian Tyree-Henry, Andrew Koji, Hiroyuki Sanada, Michael Shannon, Bad Bunny, Logan Lerman, Sandra Bullock. Estreia: 18/7/2022 (Paris)

Publicado no Japão em 2010, o livro "Trem-bala", escrito por Kôtarô Isaka, tornou-se um fenômeno, com mais de 700 mil exemplares vendidos, e acabou, como não poderia deixar de ser, chamando a atenção de Hollywood. Com os direitos adquiridos pela Sony Pictures e produzido com um orçamento de 90 milhões de dólares, a intrincada história de cinco assassinos profissionais cujas missões se cruzam em uma inusitada viagem chegou às telas com um elenco de primeira linha, um diretor acostumado a sequências recheadas de adrenalina e a responsabilidade de devolver ao público o hábito de ir às salas de exibição depois do longo hiato provocado pela Covid-19. Com uma renda acumulada de quase 240 milhões de dólares internacionalmente, é difícil dizer que fracassou em seu intento - mas dividiu a crítica e não fez o barulho que se poderia esperar. Mesmo assim, o resultado final é um delicioso filme de ação, com inspirados momentos de humor e um visual dos mais caprichados dos últimos anos.

Na direção, que ficaria a cargo de Antoine Fuqua, o cineasta David Leitch, cujo currículo apresenta produções extremamente comerciais, como "Deadpool 2" (2018) e "Velozes e furiosos: Hobbs & Shaw (2019) - além do subestimado e estiloso "Atômica" (2017) - deixou de lado o tom mais sério proposto no projeto original para assumir sem medo o caos, o deboche e a ironia. Com diálogos rápidos, idas e vindas no tempo, cenas de luta empolgantes e personagens excêntricos, o roteiro de "Trem-bala" nem sempre é rigorosamente fiel a seu material original, mas até mesmo as alterações feitas na trama do livro servem com perfeição à visão iconoclasta de Leitch, que prescinde das definições levianas de heróis e vilões, algozes e vítimas: durante as pouco mais de duas horas de duração do filme, nada que é dito é completamente confiável e nenhuma verdade é absoluta. Tal opção pelo dúbio e pela diversão ao invés da sobriedade faz de "Trem-bala" um produto raro, um respiro muito bem-vindo a um gênero que normalmente falha em tal equilíbrio. E se a presença de Brad Pitt parece apontar para um filme calcado em um grande astro - e caro, com um cachê milionário de 20 milhões de dólares -, o desenvolvimento do roteiro insiste em sua principal característica: não há um personagem central além do trem que dá nome ao filme. 

A princípio até pode parecer que Pitt é o personagem principal da trama, já que é o maior nome do cartaz e o primeiro a surgir na tela, mas não demora para que fique perceptível que seu Ladybug é apenas uma peça em um tabuleiro repleto delas. Escalado por sua superior (cuja intérprete-surpresa surge apenas nos momentos finais) a recuperar uma maleta em um trem-bala que viaja de Tóquio a Kyoto, Ladybug - que está passando por momentos difíceis na carreira, sendo acusado de não conseguir lidar com a agressividade - embarca no veículo sem ter a menor ideia de que sua missão está longe de ser simples como parece. No mesmo local, estão outros dois assassinos de aluguel, Tangerine (Aaron Taylor-Johnson) e Lemon (Bryan Tyree Henry), e a misteriosa Prince (Joey King) - que apesar do nome, esconde uma identidade feminina e um violento trauma familiar. Contratados pelo infame mafioso White Death (Michael Shannon) para salvar seu jovem filho das mãos de sequestradores, Lemon e Tangerine acabam por cruzar o caminho de outros criminosos beligerantes e cruéis - e, no decorrer do caminho, alianças são feitas e desfeitas, fatos do passado são trazidos à tona, reviravoltas acontecem a cada parada e até uma cobra assassina parece fazer parte de uma trama cujos desdobramentos remetem a coincidências das mais bizarras.

"Trem-bala" é um filme com inúmeras qualidades, mas justamente elas podem incomodar parte dos espectadores. Seu humor - um tanto macabro e violento - não é exatamente convencional. A estrutura do roteiro - repleta de flashbacks e flash forwards -  obriga a uma atenção extra que poucos estão dispostos a conceder diante do cinema quase preguiçoso que vem sendo oferecido pelos grandes estúdios. A falta de um herói - por mais que Ladybug seja uma espécie de fio condutor da trama ele não é o protagonista absoluto - talvez confunda àqueles que buscam uma narrativa mais simples. E o visual elaborado (cortesia da fotografia admirável de Jonathan Sela) pode soar como excessivamente colorido e kitsch. Mas o fato é que, somadas todas as características que fazem dele um filme de ação que tenta fugir da pasteurização do gênero, o resultado é uma produção muito acima da média, que não perde o ritmo em momento algum, que apresenta personagens interessantes interpretados por um elenco impecável e que não hesita em oferecer sequências coreografadas com precisão cirúrgica. É divertido, inteligente e produzido com extrema competência. Quanto ao fato de ser baseado em um livro japonês e contar com atores ocidentais é uma outra discussão, mais séria e mais profunda que em nada atrapalha o prazer de ser envolvido por um filme por 127 minutos de entretenimento puro.

quinta-feira

ANIMAIS NOTURNOS

ANIMAIS NOTURNOS (Nocturnal animals, 2016, Focus Features, 116min) Direção: Tom Ford. Roteiro: Tom Ford, romance "Tony & Susan", de Austin Wright. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Joan Sobel. Música: Abel Korzeniowski. Figurino: Ariane Phillips. Direção de arte/cenários: Shane Valentino/Meg Everist. Produção: Tom Ford, Robert Salerno. Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson, Armie Hammer, Laura Linney, Isla Fisher, Michael Sheen, Ellie Bamber,  Karl Glusman, Robert Aramayo, Jena Malone. Estreia: 02/9/16 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Michael Shannon)

Os créditos de abertura de "Animais noturnos" - estranhos, desconfortáveis, quase agressivos ao olhar - já preparam o espectador para o que virá nas próximas duas horas: em seu segundo filme como cineasta, o estilista Tom Ford não brinca em serviço e apresenta ao público um dos mais claustrofóbicos estudos sobre a culpa e o desespero produzidos por Hollywood nos últimos anos. Não quer dizer que seja completamente bem-sucedido em tudo que ambiciona dizer, mas é preciso reconhecer sua coragem em nadar contra a corrente do cinemão médio americano e realizar uma obra tão perturbadora e ao mesmo tempo tão visualmente atraente. Baseado no romance "Tony & Susan", de Austin Wright, Ford forjou um exercício de estilo que equilibra lampejos de brilhantismo com um ritmo claudicante que quase põe tudo a perder. Calorosamente aclamado no Festival de Veneza - onde teve seus direitos de distribuição comprados pelo valor recorde de 10 milhões de dólares - e indicado a surpreendentes oito estatuetas no BAFTA (o Oscar britânico), "Animais noturnos" não é nem a obra-prima que muitos aplaudem nem a fraude que outros tantos denunciam: é um filme acima da média, mas com sérios defeitos que o impedem de atingir a todas as notas a que se propõe.

Alternando liberdade criativa e fidelidade à sua fonte original, Tom Ford repete a estrutura do livro de Wright ao mesmo tempo em que acrescenta outras nuances a uma trama já naturalmente densa e repleta de simbolismos: a protagonista é Susan Morrow (Amy Adams em mais uma interpretação extraordinária), dona de uma galeria de arte sofisticada e bem frequentada. Casada com um executivo bonito e igualmente bem-sucedido (Armie Hammer), ela não consegue deixar de lado uma constante solidão, que se agrava com as viagens do marido e a distância dos filhos. Em uma dessas crises de melancolia, ela recebe o manuscrito de um livro escrito por Tony Hastings (Jake Gyllenhaal), com quem foi casada anos antes, em uma relação que acabou de forma bastante traumática. Junto com o livro, chega uma nota, onde Tony pede à ex-mulher que o leia e dê sua opinião. Temerosa com as possíveis intenções de Tony - que saiu do relacionamento extremamente magoado e ofendido - ela inicia a leitura e se vê envolvida em uma história repleta de uma inesperada violência.


No livro de Tony, chamado "Animais noturnos", o protagonista é Edward Sheffield (também interpretado por Gyllenhaal), um homem comum que, em viagem de férias com a mulher e a filha adolescente, é abordado na estrada por três desconhecidos que transformam sua vida em um pesadelo. Tendo a família sequestrada e depois morta, Edward se une a um policial da pequena cidade onde ocorreu o crime, Bobby Andes (Michael Shannon, indicado ao Oscar de ator coadjuvante) - também passando por um grave problema pessoal - para buscar justiça pelas próprias mãos. Seu silencioso desespero encontra eco em Susan, que começa a perceber nas entrelinhas do romance uma sórdida e sutil vingança do homem a quem amava contra alguns dos acontecimentos que aceleraram sua separação. Conforme o livro vai chegando ao seu final - e seu reencontro com Tony se aproxima - a mulher segura e confiante vai dando lugar a uma outra, triste e consumida por uma série de arrependimentos.

Como todo artista consciente da força das imagens, Tom Ford faz de seus "Animais noturnos" um show visual, graças à belíssima fotografia de Seamus McGarvey e a direção de arte sofisticada de Shane Valentino. Mas, mais do que simplesmente enfeitar a tela com uma cuidadosa seleção de cores e contrastes, ele as utiliza como ferramentas para enfatizar ideias e pensamentos, o que é, sem dúvida, um dos maiores méritos de seu filme. Ao contrário de muitas obras que soam redundantes por não confiar na potência dos enquadramentos e da edição, "Animais noturnos" usa e abusa de silêncios e de pequenos detalhes que vão compondo o quadro geral proposto pelo roteiro. Conforme vai iluminando a história entre Susan e Edward - e de como ela é a base para o livro dele - o cineasta vai também empurrando o público rumo à uma conclusão que, longe de ser facilmente digerida, é igualmente brutal e desconcertante - o que seria impossível sem o elenco impecável escolhido a dedo. Se Aaron Taylor-Johnson (como um dos criminosos) saiu vencedor do Golden Globe e Michael Shannon recebeu uma indicação ao Oscar, eles são apenas peões em um jogo de xadrez comandado por dois atores em momentos brilhantes da carreira: Jake Gyllenhaal e Amy Adams.

Em um espetacular trabalho de interpretação, tanto Adams quanto Gyllenhaal encaram o desafio de trazer à luz dois personagens complexos, ricos em nuances e psicologicamente ambíguos de forma irretocável: enquanto Adams (injustamente esquecida pelo Oscar também por seu trabalho arrebatador em "A chegada") cria duas Susans distintas - um passado romântico e sonhador e um presente carente e solitário - com uma coerência impressionante, Gyllenhaal explora com meticulosidade um jovem repleto de sonhos profissionais pouco práticos e um personagem criado na sua imaginação, bem mais propenso a explicitar sua revolta através da violência. O uso constante de metáforas e símbolos pode até excessivo em determinados momentos, mas a garra do casal central de atores e a maneira sutil com que conduzem seus personagens praticamente anula os pecados do filme de Ford. Corajoso, inteligente e dono de uma personalidade rara no cinemão, "Animais noturnos" também é exagerado, pretensioso e de uma crueldade poética. Incoerências que fazem dele, no mínimo, um filme muito interessante mesmo àqueles que não concordem com seu estilo único.

sexta-feira

ANNA KARENINA

ANNA KARENINA (Anna Karenina, 2012, Universal Pictures/Focus Features, 129min) Direção: Joe Wright. Roteiro: Tom Stoppard, romance de Leon Tolstoi. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Melanie Ann Oliver. Música: Dario Marianelli. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Liza Chasin. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Paul Webster. Elenco: Keira Knightley, Jude Law, Aaron Taylor-Johnson, Matthew Macfadyen, Domnhall Gleeson, Kelly McDonald, Olivia Williams, Alicia Vikander, Susanne Lothar, Emily Watson. Estreia: 07/9/12 (Festival de Toronto)

4 indicações ao Oscar: Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Figurino

Poucos filmes levaram tão a sério a afirmação de William Shakespeare de que o mundo é um palco quanto a versão do cineasta Joe Wright do clássico russo “Anna Karenina”, publicado por Leon Tolstoi em 1878. Investindo em uma adaptação visualmente estilizada de um dos maiores romances da história da literatura, o diretor que já visitou Jane Austen em “Orgulho e preconceito” e Ian McEwan em “Desejo e reparação” distanciou-se das versões anteriores do livro para criar um espetáculo exuberante e opulento que trata a história de um amor adúltero na Rússia do século XIX como uma peça teatral, onde os personagens tratam de viver papéis pré-estabelecidos de acordo com as regras sociais, reprimindo seus desejos e instintos mais primitivos. Sob a visão de Wright e do roteirista Tom Stoppard – dramaturgo vencedor do Oscar por “Shakespeare apaixonado” – Anna Karenina e seus coadjuvantes são peças de um cruel jogo de aparências emoldurado por uma sociedade mais afeita às convenções do que aos reais sentimentos. Tal visão, sob a fotografia inspirada de Seamus McGarvey e embalada pela trilha sonora de Dario Marianelli, encontra eco na mais deslumbrante transposição da obra de Tolstoi para as telas. Vencedor do Oscar de melhor figurino – merecia também os prêmios de direção de arte, trilha sonora e fotografia – o “Anna Karenina” de 2012 é digno de figurar entre as melhores adaptações cinematográficas já realizadas pelo cinema por várias razões.

Primeiro porque Wright não apenas transportou a história de uma mídia para outra, como aconteceu anteriormente. Ousadamente, ele levou o livro de Tolstoi para as telas com uma escala no teatro, através de um cenário estilizado – brilhantemente executado por Sarah Greenwood e Katie Spencer – onde paredes se movem e salões de baile se transformam em estações ferroviárias, restaurantes, escritórios burocratas e aposentos domésticos, de acordo com a necessidade de cada cena. Como em um espetáculo teatral, Wright brinca com a ludicidade, editando de forma magistral suas sequências como forma de mergulhar sem reservas o espectador em sua trama. Dessa maneira, Karenin (um Jude Law maduro e roubando a cena) rasga uma carta da ex-esposa, a pica em minúsculos pedaços e a joga para cima apenas para imediatamente, tais pedaços transformarem-se em flocos de neve. E Anna (Keira Knightley, a atriz preferida do diretor, aqui em seu terceiro filme juntos) pode sair desesperadamente de sua casa e estar prontamente dentro de um trem, a caminho dos braços de seu amante. A princípio, tal artifício soa estranho ao espectador acostumado com o trivial, mas não demora muito para que ele se deixe seduzir pela beleza estonteante promovida pelo conjunto – coeso e elegante – da obra.
Outro ponto que sublinha as qualidades da adaptação de Stoppard diz respeito à opção em não tentar abraçar a obra inteira de Tolstoi – mais de 600 páginas, afinal de contas – em um único filme. Centrando sua narrativa basicamente no romance adúltero entre Anna e Vronski (Aaron Taylor-Johnson), o dramaturgo corria o risco de ser violentamente rechaçado pelos puristas, que poderiam ver na falta de interesse do roteiro nas elocubrações socialistas do escritor uma maneira de diluir a importância do livro e transformá-lo em um melodrama puro e simples. Stoppard não chega a tanto, mas diminui radicalmente os questionamentos de Liévin (Dohmnall Gleeson) a respeito da desigualdade social que grassava na Rússia imperial, utilizando o personagem quase que apenas como um observador atuante da tragédia que se desenrola à sua frente – enquanto tenta conquistar o amor da bela e ingênua Kit (Alicia Vikander bem antes de sonhar com o Oscar de coadjuvante por “A garota dinamarquesa”). Quem leu o romance sabe bem que as longas páginas gastas pelo escritor para divagar a respeito do dia-a-dia dos camponeses não caberiam em um filme romântico – se é que caberiam em algum outro gênero. Assim, Stoppard acerta em dedicar seu foco ao fatal triângulo amoroso que abalou a sociedade de São Petersburgo no final do século XVIII – ainda que por vezes algumas atitudes dos personagens soem meio abruptas e que Jude Law tenha conseguido fazer de seu Karenin alguém bem mais simpático do que no romance.

Boa parte da simpatia conquistada por Karienin vem do fato de que Law é um ator extremamente superior a Aaron Taylor-Johnson, que vive nas telas o seu rival. Mesmo com seus olhos azuis faiscando ainda mais brilhantes graças à fotografia de McGarvey e o uniforme branco com que seu Vronski desfila pelas telas, Johnson não tem a profundidade e a experiência necessárias para fazer de seu personagem alguém marcante ou forte o suficiente para justificar o amor desesperado de Anna. Bonito ele é, mas lhe falta carisma e sutileza: em muitos momentos o público fica perdido, sem saber de seus reais sentimentos em relação à amante. Enquanto isso, Law deita e rola, puxando para si a protagonização da história, transmitindo uma vasta nuance de sentimentos que acaba fazendo com que o público torça mais por ele do que pelo amante de sua mulher. Já Keira Knightley faz o que pode com uma personagem que tem em sua lista de intérpretes nomes como Greta Garbo e, mais recentemente, Sophie Marceau: limitada, ela até consegue controlar o excesso de caras e bocas que vem marcando sua carreira, mas lhe falta substância dramática para encarar uma das mais complexas e fascinantes personagens femininas da literatura mundial. É de se imaginar o que gente como Natalie Portman e Michelle Williams faria em seu lugar. Mas, dos males o menor, Knightley ao menos consegue ser suportável – coisa de que não foi capaz em “Um método perigoso”, em que quase jogou por terra o belo trabalho de Michael Fassbender como Jung.

A história, como se sabe, pode ser resumida em poucas linhas: na Rússia imperial do século XVIII, Anna (Keira Knightley), a jovem esposa de um influente político moscovita, Karenin (Jude Law), vai a São Petersburgo com a missão de tentar salvar o casamento do irmão, Stiva (Matthew McFadyen, par romântico de Knightley em “Orgulho e preconceito”), que acaba de ter seu romance com uma babá descoberto pela esposa, Dolly (Kelly McDonald). Frequentando a sociedade local, ela acaba por apaixonar-se perdidamente pelo jovem cavaleiro Vronski (Aaron Taylor-Johnson) – pretendente da irmã de sua cunhada, Kit (Alicia Vikander) – e inicia com ele um escandaloso romance extra-conjugal que a torna uma pária social e a joga contra o marido, que a ameaça tirar-lhe a guarda do único filho. Enquanto isso, Kit, sem mais esperanças de casar-se com Vronski, se deixa conquistar por Liév (Domnhall Gleeson), um jovem fazendeiro que não se deixa cativar pelo jogo de aparências das altas rodas russas.
Elegante, charmoso, visualmente deslumbrante e narrado como uma sóbria sinfonia que aos poucos vai se deixando envolver pela tragédia, “Anna Karenina” é um trabalho raro. De extremo cuidado plástico e emocional, é um dos mais fascinantes filmes de 2012 apesar de alguns pequenos pecados. Altamente recomendável para quem gosta de cinema com conteúdo.

quinta-feira

ALBERT NOBBS

ALBERT NOBBS (Albert Nobbs, 2011, Mockingbird Pictures/Trillium Pictures/Parallel Film Productions, 113min) Direção: Rodrigo Garcia. Roteiro: Glenn Close, Gabriella Prekop, John Banville, adaptação de István Szabó, novela "The singular life of Albert Nobbs", de George Moore. Fotografia: Michael McDonough. Montagem: Steven Weisberg. Música: Brian Byrne. Figurino: Pierre-Yves Gayraud. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Jenny Oman. Produção executiva: Cami Goff, John C. Goff, Sharon Harel Cohen, Daryl Roth, David E. Shaw. Produção: Glenn Close, Bonnie Curtis, Julie Lynn, Alan Moloney. Elenco: Glenn Close, Mia Wasikowska, Janet McTeer, Aaron Johnson, Pauline Collins, Brendan Gleeson, Bronagh Gallagher. Estreia: 02/9/11 (Festival de Telluride)

3 indicações ao Oscar: Atriz (Glenn Close), Atriz Coadjuvante (Janet McTeer), Maquiagem


“Albert Nobbs” é um tour de force da atriz Glenn Close, fascinada pela novela de George Moore a ponto de entregar-se de corpo e alma à realização de sua adaptação para o cinema. Apaixonada pela história e pela personagem central, Close não apenas assumiu a protagonização do filme, tratando também de produzí-lo, coescrever seu roteiro (ao lado de Gabriella Prekop e John Banville) e gravar a canção que toca nos créditos finais. Tanta dedicação lhe valeu uma indicação ao Oscar – que perdeu para Meryl Streep em “A dama de ferro” – e elogios calorosos da crítica, mas não conseguiu atingir seu objetivo principal. Dirigido sem personalidade por Rodrigo Garcia (que já havia trabalhado com a atriz no subestimado “Coisas que você pode dizer só de olhar para ela”), “Albert Nobbs” é um filme com valores de produção admiráveis (direção de arte, figurino, maquiagem) mas que carece do essencial: emoção. Nem mesmo Close, com seu inquestionável talento, é capaz de injetar alma na história, prejudicada ainda pela escolha lamentável dos dois jovens atores que servem de apoio à trama central. No final das contas, “Albert Nobbs” é um filme que poderia ter sido muito bom, mas que tropeça frequentemente em opções bastante equivocadas.
A trama se passa na Irlanda do século XIX. Em uma Dublin suja, triste e cinzenta, o dedicado Albert Nobbs (Close) trabalha como garçom da pensão da Sra. Baker (Pauline Collins), uma mulher que faz vistas grossas a todo tipo de transgressão que aconteça em sua propriedade desde que isso lhe seja proveitoso de alguma forma. O sonho de Nobbs é, com o dinheiro suado que economiza desde a juventude, abrir um negócio próprio e, casado, viver uma existência menos penosa e árdua. O que ninguém na pensão sabe – apesar de todos dividirem o mesmo ambiente 24 horas por dia – é que, na verdade, Albert é uma mulher: desde cedo ciente de que vive em um mundo predominantemente masculino, ela assumiu uma identidade nova para sobreviver. Só quem fica sabendo de tal segredo (e mesmo assim por puro acaso) é alguém que divide com ela a mesma situação, o pintor de paredes Hubert Page (Janet McTeer, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante). Ainda mais ousado que Nobbs, Page é casado e vive com a mulher Cathleen uma relação de confiança e carinho. Incentivado pela experiência bem-sucedida do novo confidente, o esforçado garçom resolve então dar prosseguimento a seus planos e decide conquistar o amor de Helen Dawes (Mia Wasikowska), que também trabalha na pensão.



E é justamente aí – quando a história criada por Moore parece engrenar uma segunda e tem a chance de explorar todas as nuances dramáticas de seu interessante protagonista – que o filme de Garcia perde as estribeiras. Dawes, uma jovem ambiciosa e pouco afeita a convenções sociais, é convencida por seu amante, Joe Mackins (Aaron Johnson antes de assumir o Taylor da esposa no sobrenome) a dar corda às ambições românticas do tímido colega de serviço, que ele acreditar ter dinheiro escondido. Decidido a pedir Helen em casamento, Nobbs nem de longe desconfia estar sendo vítima de uma exploração fria e cruel. E então uma epidemia de febre tifoide chega à cidade para embaralhar todas as cartas do jogo. Com vários elementos empolgantes em mão para criar uma trama no mínimo impactante, Rodrigo Garcia desperdiça tudo com uma direção frouxa e sem brilho. Cenas climáticas – o desfecho do protagonista, por exemplo – são filmadas sem um mínimo de criatividade ou paixão, transmitindo uma frieza que impede a empatia (imprescindível) entre público e protagonista. Até mesmo Close, do alto de sua interpretação minimalista, está aquém do esperado: construindo uma personagem cujos silêncios e discrição são essenciais, ela simplesmente afasta a plateia dos verdadeiros sentimentos de seu Albert Nobbs – talvez por isso a atuação de Janet McTeer acabe se sobressaindo: seu Hubert Page é mais corajoso, mais impulsivo e bem menos introspectivo, o que lhe aproxima com mais facilidade do público médio. E é particularmente constrangedora a sequência em que os dois amigos resolvem assumir seu lado feminino e saem vestidos de mulher na rua. Poderia ter sido uma linda cena: virou um pastelão sem graça.
Chegamos, então, ao pior de tudo: Aaron Johnson e Mia Wasikowska. Johnson, revelado por seu desempenho como John Lennon em “O garoto de Liverpool” é um ator fraco, a despeito de seu sucesso na comédia de ação “Kick-ass: quebrando tudo”, e sua interpretação apática como o mau-caráter Joe Mackins não chega a surpreender. Mas Wasikowska – revelada por Tim Burton em “Alice no País das Maravilhas” (10) e tida pela crítica como uma das mais promissoras atrizes de sua geração – é simplesmente intragável. Dona de um papel crucial na trama, a australiana é incapaz de explorar as várias possibilidades de sua personagem, mantendo do início ao fim do filme a mesma expressão (ou falta de), chegado ao cúmulo de criar uma cena simplesmente patética já na reta final da narrativa, quando Helen, desesperada com sua situação, desabafa com Nobbs em uma praça pública. É de chorar e de se perguntar como Garcia deixou que a cena permanecesse na montagem final – como comparação é algo do mesmo nível de Sofia Coppola em “O poderoso chefão parte III”, com a diferença que Sofia foi apedrejada unanimemente pelo pífio desempenho, enquanto Mia...
“Albert Nobbs”, no fim, vale como uma demonstração da persistência de Glenn Close, ainda que ela mesma tenha sido uma vítima infeliz de uma série de escolhas ruins que acabaram por minar todas as possibilidades dramáticas da história. Sua personagem, riquíssima, acaba por tornar-se uma convidada da própria (e monótona) festa. Uma pena!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...