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quinta-feira

HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN


HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN (Harry Potter and the prisoner of Azkaban, 2004, Warner Bros, 142min) Direção: Alfonso Cuarón. Roteiro: Steve Kloves, romance de J.K. Rowling. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Steven Weisberg. Música: John Williams. Figurino: Jany Temine. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Michael Barnathan, Callum McDougall, Tanya Seghatchian. Produção: Chris Columbus, David Heyman, Mark Radcliffe. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Michael Gambon, Maggie Smith, Gary Oldman, Emma Thompson, Julie Walters, Alan Rickman, David Thewliss, Tom Felton, Richard Griffiths, Fiona Shaw, Julie Christie, Robbie Coltrane. Estreia: 23/5/2004

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Efeitos Visuais

Quando Chris Columbus voltou atrás em sua decisão de comandar todos os filmes da série "Harry Potter" - da qual ele já havia dirigido os dois primeiros - uma nova odisseia de bastidores começou. A Warner, afinal, tinha um investimento dos mais preciosos em mãos (os direitos de todos os sete livros da saga) para entregá-lo a qualquer um. Entre os candidatos a assumir as rédeas do terceiro capítulo da milionária obra da britânica J.K. Rowling, então, surgiram nomes tão díspares quanto M. Night Shyamalan e Marc Forster. O primeiro tinha no currículo o megasucesso "O sexto sentido" (1999), que havia lhe rendido indicações ao Oscar de filme, direção e roteiro; o outro havia sido responsável por "A última ceia" (2001), que deu à Hale Berry a estatueta de melhor atriz. A responsabilidade de estar à frente de um blockbuster dos mais esperados da temporada 2004, porém, não foi tão sedutora assim, e ambos declinaram do convite: Shyamalan para realizar "A vila" (2004), e Forster para assinar "Em busca da Terra do Nunca" (2004). Foi aí que entrou em cena o mexicano Guillermo Del Toro, cujo currículo até então (com filmes como "Mutação", de 1997, "A espinha do diabo", de 2001, e "Blade II: O caçador de vampiros", de 2002) pouco recomendava para uma produção cujo público-alvo era infanto-juvenil. Para surpresa de muitos, Del Toro recusou o convite para penetrar no mundo de Hogwarts, mas não sem antes recomendar um amigo: enquanto preferiu tocar adiante um projeto de estimação - a adaptação de "Hellboy", baseado nas HQs de Mike Mignola -, ele apontou para seu conterrâneo Alfonso Cuarón. Em um primeiro olhar, Cuarón não poderia estar mais distante de Harry Potter, com filmes como o sexy "E sua mãe também" - que havia lhe rendido uma indicação ao Oscar de roteiro original - no portfolio. No entanto, Cuarón também sabia ser sensível e apropriado aos espectadores juvenis, como mostrou em 1995, ao adaptar o clássico "A princesinha", de Frances Hodgson Burnett, com a dose certa de emoção e delicadeza.

Com Cuarón no comando - aprovado por Rowling, fã de seus trabalhos anteriores - e um orçamento de estimados 130 milhões de dólares, "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" começava a dar os primeiros passos da série em direção à seriedade que os últimos capítulos apresentariam. Com um visual diferente dos dois primeiros filmes - cortesia da bela fotografia de Michael Seresin - e com sequências inteiras filmadas com câmeras em movimento, o terceiro filme da série apresenta também diferenças no figurino (especialmente os protagonistas) e um ritmo que equilibra cenas de ação, suspense e até comédia (como sempre acontece no começo do filme, Potter sofre nas mãos de seus tios e resolve a situação da melhor maneira que pode, com a ajuda de seus dons de bruxo, é claro). O roteiro, novamente adaptado por Steve Kloves, apresenta ao espectador novos elementos da saga, como o misterioso Sirius Black (interpretado com gosto por Gary Oldman), o padrinho do protagonista, que foge da prisão de Azkaban e, segundo a lenda, tem o objetivo de assassinar Harry, uma vez que é um dos mais fiéis seguidores do temido Voldemort (Ralph Fiennes). O que acontece, porém, é que Potter acaba descobrindo que o que sempre foi tido como verdade pode muito bem ser apenas parte dela. Com a ajuda de Hermione (Emma Watson) e Ron (Rupert Grint) - assim como também de alguns professores que conhecem a real história de Black -, o adolescente enfrenta o ano letivo mais perigoso de sua vida, visto até mesmo pelas previsões da professora Trelwaney (Emma Thompson, em papel pequeno que ela tira de letra).


Substituindo o falecido Richard Harris no crucial papel do professor Dumbledore, que foi oferecido também a Ian McKellen, Peter O'Toole e Christopher Lee, mantém em alto nível o elenco coadjuvante da série. Nomes como Maggie Smith, Alan Rickman, Fiona Shaw e Julie Walters continuam servindo de apoio a seus jovens colegas de cena, com generosidade ímpar. Conforme a trajetória de Harry Potter vai ficando cada vez menos infantil e se aproxima de momentos bastante tensos e violentos, a importância do corpo docente de Hogwarts se torna ainda mais importante e presente - e é admirável que a direção de Cuarón seja sensível ao ritmo da trama: o cineasta acelera quando precisa e mantém-se delicada ao examinar a relação de Potter com os personagens a seu lado. Daniel Radcliffe - assim como seus colegas mais próximos - mostra um amadurecimento tanto físico quanto artístico: não é um grande ator, mas é difícil imaginar outro intérprete para o jovem bruxo, um dos personagens mais populares da literatura e do cinema, um perfeito exemplo de entretenimento divertido e realizado com extremo cuidado e talento.

E "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" é justamente isso: entretenimento de primeira, capaz de agradar aos fãs dos livros e até mesmo àqueles que nunca abriram uma página sequer da saga de Rowling. Apesar de tratar - metaforicamente - com temas como depressão (representada pelos aterrorizantes dementadores), o filme de Cuarón se mantém no limite entre a fantasia e o terror, que ficaria a cada filme mais próximo dos protagonistas. Único filme da saga a não alcançar (por pouco) a marca de 800 milhões de dólares de bilheteria mundial, "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" concorreu a dois Oscar (trilha sonora original e efeitos visuais) e provou que, a despeito das mudanças na cadeira de diretor, mantém uma coerência interna e uma qualidade à prova das grandes expectativas de seu público. Cuarón, que assumiu não ter lido nenhum dos livros quando convidado para comandar esse terceiro filme - e que levaria o Oscar de direção por "Gravidade" (2013) - mostrou-se uma escolha certeira, que manteve o alto nível da série e emprestou-lhe um prestígio que apenas colaborou para seu sucesso de crítica e público.

sexta-feira

O AMOR NÃO TEM SEXO

O AMOR NÃO TEM SEXO (Prick up your ears, 1987, Zenith Entertainment, 105min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Alan Bennett, biografia por John Lahr. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Mick Audsley. Música: Stanley Myers. Figurino: Bob Ringwood. Direção de arte/cenários: Hugo Luczyk Wyhowski/Philip Elton. Produção: Andrew Born. Elenco: Gary Oldman, Alfred Molina, Vanessa Redgrave, Wallace Shawn, Lindsay Duncan, Julie Walters, Frances Barber. Estreia: 17/4/87

Vencedor no Festival de Cannes: Melhor Trilha Sonora

Quem começar a assistir à "O amor não tem sexo" pensando tratar-se de mais um filme de temática gay com uma mensagem edificante certamente vai levar um choque ao final da sessão: o título em português de "Prick up your ears" (algo intraduzível mas pouco romântico ou formal) esconde a verdadeira e chocante história de amor, sexo, ciúme, violência e literatura do dramaturgo britânico Joe Orton e seu amante, Kenneth Halliwell, também escritor, mas sem o mesmo prestígio. Baseado em uma biografia de Orton escrita por John Larh, o filme de Stephen Frears (pouco antes de conquistar Hollywood com seu excepcional "Ligações perigosas", lançado em 1988) é seco, frio e um tanto irônico em sua tentativa de retratar não apenas um casal vivendo quase à margem da sociedade, mas também a própria sociedade hipócrita e falsamente liberal dos anos 1960.

Conhecido na Inglaterra como o autor de peças teatrais repletas de humor negro e críticas à sociedade, como "Entertaining Mr. Sloane" e "Loot", Orton chegou a ser chamado para escrever o roteiro de um filme dos Beatles e conhecer pessoalmente Paul McCartney. Enquanto ascendia profissionalmente, porém, sua relação com Halliwell entrava cada vez mais em uma crise sem fim: sete anos mais velho que Orton e sem seu charme, Halliwell sofria com as traições do parceiro - ainda que por vezes fosse chamado por ele para participar - e via sua carreira ser eclipsada pelo sucesso de Orton. A relação, desequilibrada sob todos os aspectos, parece atrair uma atmosfera de urgência e melancolia. Sob a visão de Frears, quase documental, os protagonistas parecem vislumbrar a tragédia, mas, ao mesmo tempo, sabem que não há como evitá-la. O tom de decadência impresso pelo cineasta nas aventuras sexuais de Orton transmitem uma sensação de incômodo e angústia - ainda que justamente essas jornadas pelo lado sombrio do sexo tenham feito dele o dramaturgo visceral que foi.


Um dos grandes trunfos de "O amor não tem sexo" é o elenco escolhido por Stephen Frears - notoriamente conhecido como um excelente diretor de atores. Antes de começar sua bem-sucedida carreira em Hollywood, Gary Oldman assume com perfeição o sotaque e os trejeitos de Joe Orton - um ano antes ele havia encarnado o roqueiro Sid Vicious e cinco anos mais tarde ele faria um Lee Harvey Oswald brilhante em "JFK: a pergunta que não quer calar", de Oliver Stone. Oldman, um ator dedicado e capaz de transformar-se fisicamente de um filme para outro encontra o par ideal em Alfred Molina. No papel, recusado por Ian McKellen (que anos mais tarde assumiu o arrependimento por isso), Molina brilha como o introvertido e apaixonado Halliwell, com um trabalho impressionante que vai se avolumando até o desfecho trágico. Não bastasse o par central, a excelente Vanessa Redgrave faz uma participação especial como a editora de Orton, Peggy Ramsay, em uma interpretação que lhe rendeu um prêmio de coadjuvante pela associação de críticos de Nova York e indicações ao Golden Globe e ao Bafta. É Redgrave quem surge como a voz da razão em um filme que mergulha sem medo no retrato de uma história de amor, sexo, inveja e literatura.

"O amor não tem sexo" não é, definitivamente, um filme que glamoriza a homossexualidade, mas tampouco a condena: é um desenho o mais fiel possível de uma tragédia, contado com imparcialidade e sem artifícios visuais ou melodramáticos. A fotografia crua de Oliver Stapleton e a edição ágil (mas nunca apressada) de Mick Ausdley são fatores cruciais para o sucesso do filme, mas é a direção incisiva de Stephen Frears quem reúne todos os elementos para formarem um único e chocante painel sobre um dos relacionamentos mais doídos da arte britânica dos anos 1960. É um filme desconfortável, mas, ao mesmo tempo, imprescindível!

quarta-feira

CRIMES OCULTOS

CRIMES OCULTOS (Child 44, 2015, Worldview Entertainment/Scott Free Productions, 137min) Direção: Daniel Espinosa. Roteiro: Richard Price, romance de Tom Rob Smith. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Pietro Scalia, Dylan Tichenor. Música: Jon Ekstrand. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Jan Roelfs/Mykyta Brazhnyk, Sophie Hervieu. Produção executiva: Maria Cestone, Molly Conners, Elishia Holmes, Sarah E. Johnson, Adam Merims, Hoyt David Morgan, Kevin Plank, Douglas Urbanski. Produção: Michael Schaefer, Ridley Scott, Greg Shapiro. Elenco: Tom Hardy, Gary Oldman, Noomi Rapace, Paddy Considine, Joel Kinnaman, Jason Clarke, Vincent Cassel. Estreia: 15/4/15

Em 1990, uma produção para a televisão americana, "Cidadão X", estrelada por Stephen Rea e Donald Sutherland, contava a história real da caçada da polícia russa ao mais famoso serial killer do país, Andrei Chikatilo, que matou dezenas de crianças e escondeu seus corpos pelas florestas de sua região por mais de duas décadas. Em 2008, o escritor Tom Rob Smith lançou "Criança 44", um romance policial que, inspirado no caso, expandia sua trama ao adicionar a ela um drama ético e uma história de amor ameaçada pelas paranoias do regime soviético. Adaptado para as telas pelas mãos do sueco Daniel Espinosa - e rebatizado como "Crimes ocultos" - o filme acabou banido das salas de exibição na Rússia, que não viu com bons olhos a crítica aos costumes políticos da era Stalin. Fracasso de bilheteria e pouco reconhecido pela crítica especializada, "Crimes ocultos" é um policial acima da média, mas que infelizmente não chega a empolgar tanto como poderia, a julgar pela reunião de grandes talentos que apresenta.

A começar por Tom Hardy, uma das mais valiosas aquisições de Hollywood nos últimos anos, que demonstra imensa versatilidade passeando por gêneros diversos, como a comédia romântica ("Guerra é guerra"), drama familiar ("Guerreiro") e filmes de ação ("Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge" e "Mad Max: estrada da fúria") e já chegou até a uma indicação ao Oscar de coadjuvante (por "O regresso", que deu a estatueta a Leonardo DiCaprio). Hardy está estupendo na pele de Leo Demidov, um dedicado membro da polícia militar russa que, para salvar a pele da esposa, Raisa (Noomi Rapace, da versão original da trilogia "Millenium"), acusada de traição, acaba por cair em desgraça junto à corporação. Relegado a uma cidadezinha do interior do país, ele se vê compelido a mergulhar de cabeça na investigação de uma série de mortes de crianças - que o General Mikhail Nesterov (Gary Oldman) insiste em considerar acidentes de trem. Ao lado de Raisa, ele tenta capturar o assassino e se redimir junto a um amigo que perdeu o filho pelas mãos do criminoso. Nesse meio-tempo, precisa também desviar-se da perseguição feita por um antigo colega,Vasili (Joel Kinnaman), e lidar com as dúvidas acerca da lealdade da esposa.


Ousado ao bifurcar sua narrativa em dois caminhos complementares, o roteiro de "Crimes ocultos" acerta em fugir da óbvia e convencional busca ao criminoso - revelado antes da metade do filme - e tentar acrescentar camadas políticas à trama policial. Mais do que simplesmente investigar e caçar o serial killer que impulsiona a história, Leo serve como o guia do espectador pelas entranhas de um sistema político rígido e incapaz de reconhecer suas rachaduras sociais. A perseguição de Vasili ao protagonista - com direito inclusive à assédio à sua esposa - e as tentativas ferozes de Nesterov em assumir a possibilidade de que possam estar acontecendo violentos homicídios em seu país - "Não há assassinatos no Paraíso!" - são o retrato inclemente de uma mentalidade construída a ferro e fogo e mantida com controle absoluto por um governo totalitário e violento. Nem sempre as duas partes funcionam à perfeição quando unidas - em vários momentos tem-se a impressão de que o filme não sabe exatamente seu foco - mas a caprichada reconstituição de época e o empenho de seus atores compensam qualquer derrapada. Tom Hardy não tem muita química com Noomi Rapace (que mantém o mesmo tom antipático por toda a duração do filme), mas é um ator tão carismático e competente que engole tudo à sua volta, conseguindo eclipsar inclusive o normalmente ótimo Gary Oldman. Equilibrando fragilidade e agressividade, Hardy constrói um personagem repleto de nuances, apoiado pela direção competente de Daniel Espinosa e pela capacidade do roteiro de manter a elegância e a discrição mesmo com um tema tão sangrento.

Ao contrário de "Cidadão X", que lidava diretamente com a questão dos assassinatos e da busca por seu perpetrador, "Crimes ocultos" vai mais além no retrato de uma Rússia despreparada para lidar com crimes tão chocantes.


quinta-feira

BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE

BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE (The Dark Knight rises, 2012, Warner Bros/Legendary Pictures, 165min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan, estória de Christopher Nolan, David S. Goyer, personagens criados por Bob Kane. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Lindy Hemming, Craciunica Roberto. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Kevin Kavanaugh. Produção executiva: Kevin De La Noy, Benjamin Melniker, Thomas Tull, Michael E. Uslan. Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas. Elenco: Christian Bale, Anne Hathaway, Michael Caine, Joseph Gordon-Levitt, Tom Hardy, Marion Cottilard, Gary Oldman, Morgan Freeman, Matthew Modine, Cillian Murphy, Ben Mendelsohn, Juno Temple, Thomas Lennon, Liam Neeson. Estreia: 16/7/12

O que falta dizer sobre "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge" que ainda não foi dito, analisado, dissecado e elogiado desde sua estreia, a maior de 2012, com uma bilheteria arrasadora que confirmou de uma vez por todas a força do personagem e do talento de todos os envolvidos? O encerramento da trilogia dirigida por Christopher Nolan - que provou que entretenimento e inteligência podem conviver pacificamente em um blockbuster, haja visto também o sucesso merecido de "A origem", que chegou a concorrer ao Oscar de melhor filme - pode não ser tão impactante quanto o segundo capítulo da série (que, afinal de contas, contava com a atuação assombrosa de Heath Ledger) mas consegue ser empolgante, comovente e surpreendente, apesar de alguns pequenos defeitos. De quantos "filmes de verão", pouco afeitos a "detalhes" como roteiro e direção de atores se pode pode afirmar a mesma coisa?

A essa altura todo mundo sabe que a trama mantida em segredo por Nolan antes da estreia começa sete anos depois dos acontecimentos do segundo filme, mostrando Bruce Wayne (Christian Bale) isolado em sua mansão e a imagem de Batman manchada pela acusação da morte de Harvey Dent (Aaron Eckhart) - na verdade obra das armações do Coringa (Heath Ledger).  Batman e Wayne são obrigados a voltar à ação, no entanto, quando um mercenário chamado Bane (o impressionante Tom Hardy) passa a ameaçar Gotham City com a destruição em massa proposta por Ra's Al Ghul (Liam Neeson), mentor de ambos na Liga das Sombras. Junta-se à receita a charmosa ladra Selina Kyle (Anne Hathway na ingrata tarefa de ofuscar a Mulher-Gato de Michelle Pfeiffer no filme comandado por Tim Burton em 1992), o jovem policial idealista Blake (Joseph Gordon-Levitt) e a milionária Miranda Tate (Marion Cotillard) - que ambiciona tornar-se sócia de Wayne em seus experimentos - e pronto: Nolan oferece à audiência cenas de ação de extrema competência, dramas humanos críveis e reviravoltas em número suficiente para que as quase três horas de projeção passem voando diante dos olhos do público.


Fugindo do limitativo nicho de "filmes de super-herói", a trilogia do Homem-morcego criada por Nolan tem uma consistência rara, mantendo um nível de qualidade que encanta tanto aos fãs de histórias em quadrinhos quanto àqueles interessados apenas em um bom filme de ação. Tudo tem espaço no roteiro do cineasta, que tem óbvio carinho pelas personagens e pelos atores que as interpretam (não é à toa que o "time Nolan" está todo aqui, de Bale, Michael Caine e Cillian Murphy aos novos integrantes da troupe, Marion Cotillard, Joseph Gordon-Levitt e Tom Hardy, saídos direto de "A origem"). A história que conta é mais importante para o homem que despontou para o grande público com o fantástico "Amnésia" do que efeitos desconcertantes de câmera e efeitos especiais de ponta (e mesmo assim ele proporciona à plateia bons momentos assim). E é um desafio a qualquer um não sair do cinema bastante satisfeito com as ideias do excelente roteiro e com o final emocionante, com direito até mesmo a uma pequena e feliz surpresa. Seguindo o caminho de costurar várias linhas narrativas simultâneas e com inúmeros personagens, que pode ser bastante perigoso - caso do terceiro "Homem-aranha", de Sam Raimi - quanto bem-sucedido - como aconteceu com a trilogia "O Senhor dos Anéis", de Peter Jackson - Nolan conta com uma edição de extrema competência, que consegue dar conta de tudo mesmo quando a aparência é de uma bagunça descontrolada. Realmente existe um acúmulo de personagens, mas Nolan mantém o pulso firme até o final - e ainda consegue chocar a audiência com uma das cenas mais impressionantes da trilogia (retirada diretamente dos quadrinhos).

Difícil falar de "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge", em especial depois que tudo foi dito. Mas algo precisa ser afirmado apesar de tudo: é absolutamente imperdível e satisfaz até ao mais exigente fã do personagem de Bob Kane. É um encerramento absolutamente digno e se Anne Hathway não rouba a coroa de Michelle Pfeiffer ao menos faz bonito em cena, com beleza, carisma e talento. Uma pena, no entanto, que a personagem de Marion Cottilard seja tão pouco aproveitada e que agora estejamos todos reféns de novas e temíveis adaptações do herói para o cinema. Obrigado, Nolan, por esses anos de entretenimento de primeira qualidade.

sexta-feira

O ESPIÃO QUE SABIA DEMAIS

O ESPIÃO QUE SABIA DEMAIS (Tinker tailor soldier spy, 2011, StudioCanal, 127min) Direção: Tomas Alfredson. Roteiro: Peter Straughan, Bridget O'Connor, romance de John Le Carré. Direção: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Dino Jonsater. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Tatiana MacDonald, Zsuzsa Mihalek. Produção executiva: Liza Chasin, Olivier Courson, Ron Halpern, Debra Hayward, John Le Carré, Peter Morgan, Douglas Urbanski. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Robyn Slovo. Elenco: Gary Oldman, John Hurt, Colin Firth, Toby Jones, Tom Hardy, Benedict Cumberbatch, Kahty Burke, Ciarán Hinds, David Dencik. Estreia: 05/9/11 (Festival de Veneza)

3 indicações ao Oscar: Ator (Gary Oldman), Montagem, Trilha Sonora Original 

Para se assistir a "O espião que sabia demais" duas coisas são imprescindíveis: paciência e atenção. Paciência porque o filme, baseado em um romance de John LeCarré - que já rendeu uma minissérie de TV - tem um ritmo próprio, mais lento do que as habituais produções hollywoodianas centradas em espionagem que mal dão tempo ao espectador para respirar (como a excepcional trilogia Bourne, estrelada por Matt Damon). E atenção porque, apesar de nunca atropelar as informações, o roteiro de Peter Straughan e Bridget O'Connor(que morreu antes do lançamento do filme e a quem ele é dedicado) é tão recheado de pequenos detalhes e silêncios reveladores que, se o espectador der uma piscadela corre o risco de perder o fio da meada e se confundir irremediavelmente.

Em uma época em que tudo chega ao público da maneira mais mastigadinha possível, um filme como "O espião que sabia demais" é um estranho no ninho. Dirigida com uma elegância e uma quase frieza que trai as origens nórdicas de seu diretor Tomas Alfredson (cujo cartão de visitas é a ótima versão original do terror "Deixe ela entrar"), a trama - complexa e um tanto anacrônica nos dias de hoje, em que a Guerra Fria é apenas um fantasma longínquo - quase serve mais como um show de atores do que exatamente um thriller convencional de espionagem. Na pele do protagonista George Smiley, finalmente Gary Oldman tem o reconhecimento que merece há décadas, em uma atuação construída em cima de sutilezas e movimentos delicados que foi recompensada com uma indicação ao Oscar. Mesmo cercado de atores de talento comprovado - Colin Firth, Toby Jones, Ciarán Hinds, Kathy Burke, Tom Hardy - o inglês que deu intensidade ímpar ao protagonista de "Drácula de Bram Stoker" cria um personagem de personalidade ambígua, mantendo o interesse do público desde as primeiras cenas até o final coerente e inteligente.


Ah, sim, a história... Passado nos anos primeiros anos da década de 70, "O espião que sabia demais" começa quando Control (o ótimo John Hurt), chefe do Serviço de Inteligência Britânico é obrigado a se demitir depois de uma missão tragicamente equivocada na Hungria. Junto com ele, sai do serviço seu braço-direito, George Smiley (Oldman, econômico em gestos e palavras), que, algum tempo depois, é procurado pelo governo para investigar a acusação do jovem agente Ricki Tarr (Tom Hardy em papel herdado de Michael Fassbender e demonstrando um talento que frequentemente se esconde debaixo dos músculos), que, ecoando uma suspeita de seu antigo chefe, afirma que existe um agente duplo entre os agentes do grupo. Smiley, de fora da agência, tenta descobrir a partir daí, quem é o real culpado (e se ele realmente existe), uma tarefa nada fácil, uma vez que todos os seus ex-colegas - Percy Alleline (Toby Jones), Toby Esterhase (David Dencik), Roy Bland (Ciarán Hinds) e Bill Haydon (Colin Firth) - parecem ter algo a esconder.

O filme de Alfredson é construído a partir de detalhes, de pequenas coisas, de mentiras e meias-verdades que só serão esclarecidas em seus minutos finais. O ritmo lento talvez afugente o público acostumado a ação desenfreada, mas, fotografado com discrição e apresentando uma reconstituição de época impecável, é um filme sério, feito para adultos que prezam o cérebro e os olhos. A estupenda e precisa edição - que a princípio parece confundir mas aos poucos vai iluminando cada um de seus personagens a partir de sutilezas de que só os grandes cineastas são capazes - contribui para o clima de confusão que se estabelece tanto ao público como a seu protagonista, permitindo uma imersão total na trama criada pelo escritor John Le Carré, que tem aqui a melhor adaptação de uma obra sua, ao lado de "O jardineiro fiel", dirigida pelo brasileiro Fernando Meirelles em 2005 mas dotada de um calor que os contrapõem totalmente. É uma prova da personalidade marcante de seu cineasta, capaz de acrescentar - e muito - ao cinema hollywoodiano.

sábado

O PROFISSIONAL

O PROFISSIONAL (The professional/Leon, 1994, Gaumont Pictures, 110min) Direção e roteiro: Luc Besson. Fotografia: Thierry Arbogast. Montagem: Sylvie Landra. Música: Eric Serra. Figurino: Magali Guidasci. Direção de arte/cenários: Dan Weill/Françoise Benoit Fresco. Produção executiva: Claude Besson. Elenco: Jean Reno, Gary Oldman, Natalie Portman, Danny Aiello. Estreia: 14/9/94

Alguns filmes marcam a vida do espectador por sua mensagem, outros por sua história e ainda outros pela forma narrativa que adotam. Em alguns casos, porém, o que fica na memória da plateia e faz uma produção tornar-se especial é uma característica única. É o caso de "O profissional", lançado em 1994 e que hoje é menos lembrado por sua história ou por outros detalhes narrativos e mais por ter sido o filme que lançou a carreira de uma das atrizes mais importantes de sua geração, Natalie Portman. O alvoroço em torno da estreia de Portman foi tanto e tão merecido que o principal ponto de venda da obra na época - era o primeiro trabalho do cineasta francês Luc Besson em Hollywood - ficou quase totalmente eclipsado. Não é pra menos: como uma lolita pós-moderna, decidida e vingativa (ainda que sensível nos momentos certos), a jovem que tinha apenas 11 anos quando foi escolhida pelo diretor, roubou a cena de ninguém menos que Jean Reno (astro na França e começando uma popular carreira nos EUA) e o mestre Gary Oldman.

Um dos diretores franceses mais respeitados na indústria americana - a ponto de ter recebido a discutível homenagem de ver seu sucesso de bilheteria "Nikita, criada para matar" (90) ser refilmado sob o título de "A assassina" (92), com Bridget Fonda - Besson estava com tudo pronto para fazer sua estreia em Hollywood com a superprodução "O quinto elemento", uma ficção científica cara e ambiciosa que seria estrelada por Bruce Willis e Gary Oldman para a Columbia Pictures. A agenda de Willis, sempre apertada, acabou adiando as filmagens, mas o cineasta, para não perder o ritmo criativo, escreveu, em cerca de 30 dias, o roteiro de um filme policial inspirado em um dos coadjuvantes de "Nikita". Ainda com Oldman no elenco, ele chamou seu amigo Jean Reno - que fazia o tal personagem inspirador do protagonista no filme anterior - e escolheu a jovem Portman para viver a protagonista feminina. Com um custo consideravelmente mais baixo, sem o apoio da Columbia e com um prazo de filmagens de 90 dias, ele realizou então um dos pontos mais altos de sua filmografia - enquanto "O quinto elemento", lançado apenas quatro anos mais tarde, decepcionou a gregos e troianos.


O profissional do titulo internacional - na frança ele chamou-se apenas "Léon" - é Leone Montana, um matador de aluguel que é, segundo seu intermediário Tony (Danny Aiello), o melhor dentre todos. Vivendo sozinho em um pequeno apartamento de Nova York, ele leva uma vida simples e discreta, sem amigos, sem relacionamentos e sem vida social. Sua bolha de isolamento é rompida quando ele conhece Mathilda (Natalie Portman, esbanjando talento), uma menina de 12 anos que testemunha toda a sua família ser chacinada violentamente por Stansfield (Gary Oldman) - um policial corrupto - e seus capangas. Desesperada e sedenta de vingança, a garota se aproxima de Léon, vai morar com ele e resolve aprender a se tornar ela mesma uma assassina, para acabar com o assassino - não tanto de seu pai, com quem não mantinha a mais saudável das relações, mas principalmente de seu irmão de 4 anos.

A relação entre Léon e Mathilda é a mais interessante das camadas de "O profissional". Mesmo que o filme funcione muito bem como policial e suspense, com cenas bem construídas e uma edição impactante que remete aos melhores momentos de "Nikita", é a história de amor e amizade surgida entre duas pessoas tão diferentes e ao mesmo tempo tão semelhantes que empurra o filme pra frente. Léon, um homem sozinho e até então desprovido de maiores emoções, se vê profundamente tocado com o sofrimento e a angústia de Mathilda, a quem adota como filha. A menina, por sua vez, é uma explosão de sentimentos, chegando a confundir a gratidão e o carinho imensos que sente por seu mentor com amor e desejo. A cena em que ela se declara apaixonada é uma prova inconteste do talento já enorme de Portman em seu primeiro filme: apenas com o olhar e a voz, ela se transforma de vingadora obsessiva em uma jovem mulher, ainda que confusa em suas sensações, experimentadas pela primeira vez.

"O profissional" é um belo filme, ainda que tenha sido recebido com certa frieza da crítica quando foi lançado - em especial a imprensa se concentrava em seus diálogos, que considerou fracos. Hoje, a obra alcançou status de cult e é considerado por vários especialistas um dos filmes indispensáveis dos anos 90. Nem que seja para testemunhar o nascimento de uma estrela chamada Natalie Portman.

quinta-feira

AMOR À QUEIMA-ROUPA

AMOR À QUEIMA-ROUPA (True romance, 1993, Morgan Creek Productions, 120min) Direção: Tony Scott. Roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Jeffrey L. Kimball. Montagem: Michael Tronick, Christian Wagner. Música: Hans Zimmer. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: Benjamín Fernández/Thomas L. Roysden. Produção executiva: James G. Robinson, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Gary Barber, Samuel Hadida, Steve Perry, Bill Unger. Elenco: Christian Slater, Patricia Arquette, Gary Oldman, Christopher Walken, Dennis Hopper, Brad Pitt, Saul Rubinek, Michael Rapaport, James Gandolfini, Samuel L. Jackson, Val Kilmer, Bronson Pinchot, Chris Penn, Tom Sizemore, Maria Pitillo. Estreia: 10/9/93

Antes de tornar-se febre e ser considerado o "novo Martin Scorsese" graças ao sucesso imediato de seu violento "Cães de aluguel" (92), Quentin Tarantino trabalhava como gerente de uma video-locadora, como qualquer fã de cinema bem informado sabe. O que talvez pouca gente saiba é que, durante esse período, ele e seu colega Roger Avary trabalharam em uma gigantesca história com mais de 500 páginas recheada de todas as características que posteriormente marcariam a obra do mais venerado cineasta da década de 90. Logicamente um roteiro de 500 páginas jamais seria produzido, nem mesmo pelo mais alucinado estúdio de Hollywood e a trama acabou sendo dividida em dois filmes que aparentemente nada tem em comum: o primeiro, "Assassinos por natureza", acabou se transformando em um gigantesco manifesto anti-violência dirigido por Oliver Stone e anabolizado com um excesso de efeitos de filmagem que descaracterizou o texto de Tarantino e provocou duras críticas de seu autor (apesar de ser um grande filme ainda não devidamente reconhecido por todo mundo). O segundo, com narrativa mais tradicional - mas ainda assim extremamente violento - é "Amor à queima-roupa", vendido por meros 50 mil dólares e dirigido pelo inglês Tony Scott, irmão de Ridley e mais conhecido como o autor de filmes bem-sucedidos comercialmente mas ocos em conteúdo, como "Top Gun, ases indomáveis" (86) e "Um tira da pesada II" (87). De posse do roteiro ágil e sem melindres de Tarantino - e com um grande elenco em dias pra lá de inspirados - Scott conseguiu assinar o melhor filme de sua carreira, tragicamente encerrada em agosto de 2012 com um suicídio que abalou Hollywood.

Apesar de parecer estranha a afirmação, "Amor à queima-roupa" é, como diz o título, uma história de amor, ainda que revestida de todas as obsessões e neuroses da década de 90 - bem com de suas referências à cultura contemporânea e às cenas de sexo bem fotografadas e quentes na medida certa. A fotogênica (ainda que um tanto canastrona) dupla central serve perfeitamente às intenções da trama, rocambolesca, exagerada e extremamente divertida. Clarence (Christian Slater no melhor papel de sua carreira) é um jovem atendente de uma loja de quadrinhos raros (referência autobiográfica de Tarantino) que sofre com sua falta de aptidões sociais. Na noite de seu aniversário, ele vai ao cinema assistir a uma sessão tripla de filmes de kung-fu e conhece a doce Alabama (Patricia Arquette), com quem sente uma identificação imediata. Os dois passam a noite juntos, se apaixonam e a verdade cai sobre eles como um balde de água fria: ela é prostituta e foi contratada pelo chefe do rapaz como presente de aniversário. Ao invés de ficar arrasado e sentir-se traído, Clarence sente na confissão da moça uma prova de sinceridade e a pede em casamento. Para que possam viver sua vida em paz, porém, eles precisam se livrar do cafetão de Alabama, o bizarro Drexl (Gary Oldman). E é aí que os problemas realmente começam.


Depois de um confronto com Drexl, em que tanto o cafetão quanto todos os seus comparsas são mortos, Clarence fica de posse de uma mala com 500 mil dólares em cocaína. Vendo nessa trágica circunstância a chance de ficar rico e poder viver ao lado da amada Alabama, eles viajam até Hollywood para vender a droga ao produtor de cinema (Saul Rubinek), mas não sabem que atrás deles está o verdadeiro dono da mercadoria - um mafioso pouco dado a sutilezas que não hesita em matar quem atrapalhe seu caminho - e a polícia de Los Angeles, disposta a tudo para desbaratar a quadrilha de traficantes. O resultado, como se poderia esperar, é um daqueles massacres que só Hollywood sabe orquestrar sem ofender a suscetibilidade da plateia. Exercitando a violência como poucas vezes em sua filmografia, Scott deita e rola em sequências feitas para o delírio dos fãs do gênero - em especial a luta entre Alabama e o capanga vivido pelo saudoso James Gandolfini, em que até mesmo um saca-rolhas serve de arma. É para nenhum fã de sangue botar defeito.

Mas, por trás da violência, das sacadas pop de Quentin Tarantino e do elenco cool, "Amor à queima-roupa" é um bom filme? Sem dúvida. Apesar de nunca ter conseguido realizar antes um filme que combinasse o visual apurado de suas produções com um conteúdo digno de tanto capricho, aqui ele tem a chance de explorar tanto a direção de atores - o que não é difícil quando se tem em cena dois monstros como Christopher Walken e Dennis Hopper, por exemplo - quanto o desenvolvimento de uma trama que, apesar dos clichês (utilizados com destreza ímpar), é inteligente e bem construída. O ritmo imposto a partir da morte de Drexl é alucinado, equilibrado com doses de humor negro e participações especiais que vão desde um Brad Pitt chapado em todas as cenas até a um Val Kilmer que não mostra o rosto como o fantasma de Elvis Presley que aconselha Clarence em suas aventuras. É uma história de amor ao gosto de Quentin Tarantino, com tudo que faz do seu cinema bom ou ruim, dependendo do ponto de vista. É pegar ou largar.

terça-feira

BATMAN BEGINS

BATMAN BEGINS (Batman begins, 2005, Warner Bros, 140min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, David S. Goyer, estória de David S. Goyer, personagens criadas por Bob Kane. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: James Newton Howard, Hans Zimmer. Figurino: Lindy Hemming. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Paki Smith, Simon Wakefield. Produção executiva: Benjamin Melniker, Michael E. Uslan. Produção: Larry Franco, Charles Roven, Emma Thomas. Elenco: Christian Bale, Katie Holmes, Gary Oldman, Liam Neeson, Morgan Freeman, Michael Caine, Cillian Murphy, Tom Wilkinson, Rutger Hauer, Ken Watanabe, Linus Roache. Estreia: 15/6/05

Indicado ao Oscar de Fotografia

Depois do verdadeiro fiasco de "Batman & Robin", dirigido por Joel Schumacher em 1997 - e que praticamente enterrou as possibilidades do super-heroi - muita gente acreditava que a franquia do homem-morcego (tão rentável nas mãos de Tim Burton) estava acabada de vez. Foi preciso uma recauchutagem geral para que o Cavaleiro das Trevas, criado por Bob Kane nos anos 30 voltasse às boas graças do público e da crítica. Com o criativo e talentoso Christopher Nolan - recém saído do sucesso "Amnésia" e do prestigiado "Insônia" - no comando, "Batman begins" tem a inteligência de ignorar a série cinematográfica lançada em 1989 e partir do princípio da história, das origens do heroi mascarado, que viu seus pais morrerem assassinados quando ainda era uma criança.

Escalar o inglês Christian Bale (lançado por Steven Spielberg em "Império do sol", de 1987) como protagonista foi o acerto primordial de Nolan. Frio nas horas certas e com o físico adequado para o papel, Bale apaga em poucos minutoso trauma deixado por Michael Keaton, Val Kilmer e George Clooney (ainda que este último não tenha sido o responsável pela derrocada da série). Na pele do milionário Bruce Wayne, o jovem ator consegue ser o super-heroi que todos desejavam ver sem apelar para o escapismo tradicional mas bastante fake dos filmes anteriores. Wayne, depois da tragedia que testemunhou, foi embora da mansão de sua família, foi preso, fez um treinamento quase ninja e volta à Gotham City com a missão de salvá-la da sua destruição total pela violência. Contando com a ajuda do Comissário Gordon (um Gary Oldman envelhecido mas ainda brilhante) e da assistente de promotoria que foi sua namorada na infância (a inapropriada Katie Holmes no único erro de escalação do elenco), ele parte para o ataque contra os bandidos que querem transformar sua cidade em ruínas.



Christopher Nolan é um exímio diretor de atores, o que faz toda a diferença na transformação da sombria saga de Batman de um ralo filme de ação em um drama de personagens, mesmo que às vezes eles sejam um tanto superficiais. O romance entre Wayne e sua namorada, por exemplo, nunca empolga (culpa talvez da constante apatia de Katie Holmes). A ideia genial de Batman fazer a sua primeira (e triunfal) aparição somente depois de meia-hora de projeção, no entanto, dá vida nova e inteligente ao roteiro. Michael Caine, Morgan Freeman, Ken Watanabe, Liam Neeson e Tom Wilkinson - todos já indicados ao Oscar - são coadjuvantes de luxo em uma diversão de primeira, que prova que filmes-pipoca podem e devem ser espertos e não tratar o público como crianças. A edição, repleta de idas e voltas - que no começo até atrapalham um pouco - também ajuda o filme a fugir do óbvio, e a bela fotografia de Wally Pfister (dona de sua única indicação ao Oscar) dá o tom exato da bela obra de Nolan.

"Batman begins" pode não ter rendido tanto dinheiro quanto os primeiros filmes do heroi, mas arrebanhou prestígio suficiente para dar o pontapé inicial em uma nova e bem-sucedida série e preparar a audiência para
seu extraordinário segundo capítulo, "Batman, o cavaleiro das trevas", que deixaria o mundo de queixo caído.

quarta-feira

A CONSPIRAÇÃO

A CONSPIRAÇÃO (The contender, 2000, Dreamworks SKG, 126min) Direção e roteiro: Rod Lurie. Fotografia: Denis Maloney. Montagem: Michael Jablow. Música: Larry Groupé. Figurino: Matthew Jacobsen. Direção de arte/cenários: Alexander Hammond/Eloise Stammerjohn. Produção executiva: Maurice Leblond, Gary Oldman. Produção: Marc Frydman, James Spies, Douglas Urbanski. Elenco: Joan Allen, Gary Oldman, Christian Slater, Jeff Bridges, Sam Elliott, William Petersen, Saul Rubinek, Philip Baker Hall, Robin Thomas, Mariel Hemingway. Estreia: 13/10/00

2 indicações ao Oscar: Atriz (Joan Allen), Ator Coadjuvante (Jeff Bridges)

Filmes sobre política norte-americana interessam ao público brasileiro quase na mesma proporção que filmes sobre beisebol. Intrigas dos bastidores da Casa Branca e seus arredores, portanto, volta e meia suscitam a atenção, como bem prova a popularidade da série de TV "West Wing" - que mesmo assim fez um sucesso imenso nos EUA e aqui tinha uma audiência bastante selecionada. Por essa razão não é nenhuma surpresa o fato de um filme tão interessante quanto "A conspiração" ter passado quase batido na ocasião de sua estreia, apesar do elenco de prestígio. Se não fosse as indicações ao Oscar - Joan Allen como melhor atriz e Jeff Bridges como ator coadjuvante é bem possível que nem mesmo tivesse passado pelas salas brasileiras.

Escrito e dirigido pelo desconhecido Rod Lurie - que dedica o filme a suas filhas, em sinal de esperança no futuro de seu país - "A conspiração" é um drama político que centra sua atenção mais em suas personagens do que em intrincadas manobras de gabinete (ainda que elas existam em número considerável), o que facilita a assimilação até mesmo por quem não tem familiaridade com os jogos políticos americanos. É elogiável a forma sóbria e direta com que Lurie conta sua história, permitindo a seus atores (todos em excelente forma) momentos de um brilho discreto mas muito eficiente.


Quando o filme começa, os EUA estão sem um vice-presidente, morto recentemente. A expectativa de todos é que o presidente, o carismático Jackson Evans (Jeff Bridges em uma atuação simpática) nomeie o governador Jack Hathaway (William Petersen) para o cargo, aproveitando sua popularidade em alta, especialmente depois de ter tentado salvar (em vão) uma jovem de morrer afogada após um acidente de carro. O que surpreende a todos - mas não em especial seus assessores mais próximos - é a decisão de Evans de deixar um legado histórico, escolhendo uma mulher para o segundo posto mais importante do país. A escolhida é a senadora Laine Hanson (Joan Allen), uma mulher séria e discreta, filha de um político, que aceita o cargo prontamente. A escolha do presidente desagrada principalmente o líder da oposição, Shelly Ruinon (um Gary Oldman irretocável), que tencionava manipular Hathaway. Para denegrir Hanson e tentar impedir sua posse, ele faz vazar para a imprensa e consequentemente para os eleitores, fotos que mostram a senadora participando de uma orgia sexual em seus tempos de faculdade. Atônita com a situação, ela se vê dividida entre reagir à altura ou manter sua integridade pessoal e privada.

Depois de ter-se consagrado como a coadjuvante perfeita - em filmes como "Nixon", "As bruxas de Salem" e "Tempestade de gelo" - finalmente Joan Allen atinge o status de protagonista, em um papel escrito especialmente para seu talento. Sua Laine Hanson é discreta, honesta e estoica, mesmo quando vê sua vida pessoal ser vasculhada com um microscópio, e o rosto sempre sereno de Allen casa perfeitamente com a personalidade da personagem. Joan trasmite confiabilidade, o que é essencial para que o público fique a seu lado, torcendo contra aqueles que, em nome da moral e dignidade, buscam sujar seu nome, mesmo que não sejam exatamente exemplos de hombridade (um detalhe que lembra perigosamente os políticos brasileiros). Essa definição clara entre o bem e o mal feita pelo roteiro de Lurie caminha perigosamente em direção ao maniqueísmo, mas felizmente o cineasta consegue driblar essa armadilha, mantendo o tom sério e realista da trama, que tem entre seus produtores executivos o excepcional Gary Oldman.

Foi Jeff Bridges quem concorreu ao Oscar de coadjuvante por "A conspiração", mas quem deveria ter sido lembrado - por outros filmes também - é Oldman. Na pele do vil, cínico e cruel Shelly Runion, o ator inglês não apenas está irreconhecível. Ele está visivelmente à vontade, em um papel sob medida para seu talento para o lado obscuro do ser humano - que tanto lhe ajudou em "Drácula de Bram Stoker" e "Sid & Nancy, o amor mata". Seus diálogos com Joan Allen encontram nos dois atores os intérpretes ideais, em um jogo de cena quase minimalista, repleto de silêncios e olhares expressivos. Oldman encarna um político da forma mais abjeta e escorregadia possível, provocando a antipatia imediata da plateia e causando, assim, a torcida incondicional pela heroína. Não é esse o sonho de todo diretor?

"A conspiração" é um filme inteligente, adulto e sério que toca em assuntos pertinentes e relevantes. Depois de juntar a essas qualidades um elenco de grandes atores - que nem Christian Slater consegue estragar - é só correr pro abraço. E ser descoberto pela audiência que lhe interessa.

sábado

ASSASSINATO EM PRIMEIRO GRAU

ASSASSINATO EM PRIMEIRO GRAU (Murder in the first, 1995, Warner Bros, 122min) Direção: Marc Rocco. Roteiro: Dan Gordon. Fotografia: Fred Murphy. Montagem: Russell Livingstone. Música: Christopher Young. Figurino: Sylvia Vega Vasquez. Direção de arte/cenários: Kirk M. Petruccelli/Greg Grande. Produção executiva: Marc Rocco, David L. Wolper. Produção: Marc Frydman, Mark Wolper. Elenco: Kevin Bacon, Christian Slater, Gary Oldman, Embeth Davidtz, William H. Macy, Stephen Tobolowsky, Brad Dourif, R.Lee Ermey. Estreia: 20/01/95

Um dos mais famosos presídios do mundo, Alcatraz foi o tema central de um dos mais conhecidos filmes de Clint Eastwood, "Alcatraz, fuga impossível", de 1979. Considerado um dos presídios mais seguros do planeta, localizado em uma ilha perto de San Francisco e construída em 1934 (sobreviveu como instituição penal até 1963), Alcatraz passou, ao menos na sétima arte, de cenário a personagem. Em "Assassinato em primeiro grau", ele foi, inclusive, acusado de cumplicidade em um homicídio. Baseado em uma história real, o filme de Marc Rocco - que ficou com um projeto inicialmente pensado para Oliver Stone - tem boas intenções (denunciar o sistema penitenciário e a violação de direitos humanos), mas esbarra na total falta de sutileza de seu diretor.

Nos anos 30, quando Alcatraz estava no auge de sua fama como um local de fuga impossível, o jovem Henry Young (Kevin Bacon) tenta escapar, em companhia de outros presidiários. Capturado em seguida, ele é mandado para a solitária, ficando sem sol, sem luz e sem contato com quaisquer seres humanos pelo absurdo prazo de 3 anos e 2 meses - sendo que o máximo permitido por lei para tal castigo é de apenas 19 dias. Brutalizado pelo superindentente do lugar, o frio Milton Glenn (Gary Oldman), ele sai do buraco onde esteve encarcerado e tenta voltar à vida normal de condenado. No entanto, ele mata violentamente o delator de seu plano de fuga e volta ao banco dos réus, sob risco de ser condenado à morte - sendo que foi preso pela primeira vez por roubar 5 dólares de um posto de correio. Para defendê-lo, é designado o jovem e idealista James Stamphill (Christian Slater), que surpreende a audiência ao afirmar que o principal culpado do crime não é Young, e sim o sistema carcerário de Alcatraz.


Como convém a um filme com pretensões comerciais, "Assassinato em primeiro grau" toma algumas liberdades poéticas para contar sua história, a principal delas em relação a um de seus protagonistas, o apenado Henry Young. Retratado no roteiro de Dan Gordon como uma vítima absoluta do sistema e da sociedade (como normalmente acontece com filmes com intenções de provocar discussões), o verdadeiro Young não era tão desprovido de maldade e nem tão puro assim, tendo cometido roubo a banco, violência contra um refém e até mesmo um assassinato ANTES de ser encarcerado em Alcatraz. Não justifica nenhuma violência cometida contra ele, é claro, mas é um truque um tanto sujo dos produtores, que forçam assim uma empatia óbvia com ele. E talvez seja justamente nesse ponto que a receita desanda.

Dirigindo com mão pesada uma história por si só trágica e absurda, Marc Rocco - que não assinou mais nenhum filme desde então - peca principalmente por não permitir ao público as discussões que tenta suscitar. Não há espaço para argumentos, uma vez que, no maniqueísta roteiro, o bem e o mal estão claramente delineados. Henry Young é puro, virgem, injustiçado e torna-se um herói involuntário da mídia. James Stamphill é idealista, íntegro e corajoso, capaz de lutar contra todo o sistema apenas para ver a justiça prevalecer. E Milton Glenn, que dirige o presídio, é frio, cruel, arrogante e incapaz de um sentimento nobre. Essa pobreza de nuances é o calcanhar de Aquiles do projeto, que se salva da mediocridade graças a seu elenco.

Apesar de Christian Slater ser sempre o mesmo, ele divide a cena com dois atores que, de maneiras diferentes, atigem seus objetivos. Enquanto Kevin Bacon luta claramente para dar credibilidade a seu Henry Young, mesmo caindo na armadilha do exagero em alguns momentos (sua entrega ao papel é louvável), Gary Oldman não parece precisar de muito esforço para sobressair-se. Seu olhar impenetrável, seu tom monocórdio e sua expressão de rocha dizem muito mais do que a trilha sonora exagerada e os diálogos empolados e repleto de frases de efeito do roteiro. Nem mesmo a fotografia - aparentemente claustrofóbica mas na verdade apenas escura e sem criatividade - chama a atenção, sendo tão comum quanto o resultado final do filme.

A história de "Assassinato em primeiro grau" é interessante. O elenco convence. Mas o filme é desnecessariamente longo e aborrecido. Um diretor mais talentoso talvez o salvasse de ser tão comum e tão historicamente discutível!

quinta-feira

MINHA AMADA IMORTAL

MINHA AMADA IMORTAL (Immortal beloved, 1995, Icon Entertainment International/Majestic Films International, 121min) Direção e roteiro: Bernard Rose. Fotografia: Peter Suschitzky. Montagem: Dan Rae. Figurino: Maurizio Millenotti. Direção de arte/cenários: Jirí Hlupý/John Myhre. Produção executiva: Stephen McEveety. Produção: Bruce Davey. Elenco: Gary Oldman, Jeroen Krabbé, Isabella Rosselini, Valeria Golino, Johanna ter Steege, Marco Hofschneider, Christopher Fulford, Miriam Margolyes. Estreia: 06/01/95

"Minha amada imortal" é o primo pobre de "Amadeus"! Enquanto a obra de Milos Forman sobre Mozart esbanjava opulência, pompa e circunstância, o filme de Bernard Rose sobre um determinado período da vida de Beethoven se concentra menos no visual luxuoso e mais nas relações do compositor austríaco com a família - na figura do irmão caçula e do sobrinho - e com a sociedade de sua época. Ainda que seu pontapé inicial seja historicamente questionável, é pouco provável que o público não se deixe seduzir principalmente pela - mais uma vez - sublime atuação de Gary Oldman no papel principal. Assim como encarnou com veracidade o roqueiro Sid Vicious na cinebiografia "Sid & Nancy, o amor mata", o ator inglês vai muito além do chamado do dever na pele do autor da 9ª Sinfonia, a ponto de ter aprendido a tocar piano com o máximo de precisão possível.

Assim como "Amadeus", "Minha amada imortal" começa com o funeral de Beethoven e a trama desenrola-se justamente a partir da morte do compositor, quando um de seus melhores amigos, Anton Schindler (Jeroen Krabbé) descobre, entre os objetos pessoais do músico um testamento legando todo o seu patrimônio a uma misteriosa mulher chamada apenas de "minha amada imortal" - a quem também é endereçada uma carta de amor. Na tentativa de descobrir quem é essa mulher que conquistou o coração de seu amigo, Schindler chega a duas belas apaixonadas por ele no passado: Giulietta Guicciardi (Valeria Golino), que foi obrigada a abandoná-lo por pressões familiares e a Condessa Anna Marie Erdody (Isabella Rosselini), cuja vida repleta de tragédias pessoais (como a perda de um filho) aproximou-a do artista. A busca de Schindler é intercalada com o retrato da difícil relação de Beethoven com seu irmão, Kaspar (Christopher Fulford) e a esposa deste, Johanna (Johanna ter Steege), com quem ele inicia uma guerra pela guarda do sobrinho, Karl (Marc Hofschneider).


A opção do roteiro do cineasta em manter o foco na busca de Schindler pela amada de Beethoven - ao invés de realizar uma cinebiografia convencional - é louvável, porque impede o filme que caia na extrema superficialidade. No entanto, ao contar uma história não exatamente comprovada, corre o risco de tornar-se uma ficção desvairada. Felizmente Bernard Rose conta com alguns trunfos que fazem toda a diferença: além da impecável atuação de Oldman, o filme apresenta alguns momentos de beleza ímpar (em especial em sua reta final, quando a personagem de Isabella Rosselini lembra da ocasião em que encontrou com o compositor pela primeira vez, em uma sequência belíssima pontuada pela música indescritível da personagem principal).

É também muito interessante salientar o sucesso de Rose em apresentar à audiência algumas passagens da vida de Beethoven que talvez não fossem de domínio público, como a rejeição popular à sua pessoa, os fatos que ocasionaram sua surdez e até mesmo a relação paternal que ele criou com o único sobrinho, em quem ele depositava grande fé artística. É uma pena que o diretor não seja muito bom com atores: se Oldman atinge o equilíbrio perfeito entre todas as nuances de sua personagem (um ser humano repleto de falhas, mas um artista genial), o mesmo não pode ser dito de outros atores. Isabella Rossellini e Jeroen Krabbé defendem bem seus papéis, mas Valeria Golino e principalmente Johanna ter Steege (esta última em um papel crucial) são bastante medíocres, enfraquecendo algumas cenas que, em outras mãos, poderiam elevar a qualidade do resultado final.

Em todo caso, vale a pena assistir-se a "Minha amada imortal". Pela música espetacular, pela história envolvente e surpreendente e principalmente pelo trabalho irretocável de Gary Oldman. Sem comparar com "Amadeus" pode ser um programa interessante.

sexta-feira

DRÁCULA DE BRAM STOKER

DRÁCULA DE BRAM STOKER (Bram Stoker's Dracula, 1992; American Zoetrope/Columbia Pictures, 128min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: James V. Hart, romance de Bram Stoker. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Anne Goursaud, Glen Scantlebury, Nicholas C. Smith. Música: Wojciceh Kilar. Figurino: Eiko Ishioka. Direção de arte/cenários: Thomas Sanders/Garrett Lewis. Casting: Victoria Thomas. Produção executiva: Michael Apted, Robert O'Connor. Produção: Fred Fuchs, Francis Ford Coppola, Charles Mulvehill. Elenco: Gary Oldman, Winona Ryder, Anthony Hopkins, Keanu Reeves, Tom Waits, Richard E. Grant, Cary Elwes, Bill Campbell, Sadie Frost, Monica Bellucci. Estreia: 13/11/92

4 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/cenários, Maquiagem, Efeitos Sonoros
Vencedor de 3 Oscar: Figurino, Maquiagem, Efeitos Sonoros

Quem tem coragem de dizer que todos os filmes de vampiro são iguais - ou acha que a série "Crepúsculo" tem qualquer qualidade além de ser uma vitrine para a "beleza" de seus astros - provavelmente não assistiu a "Drácula de Bram Stoker", mais uma obra-prima de Francis Ford Coppola. Só mesmo um cineasta de seu porte, que encontrou humanidade nos mafiosos de "O poderoso chefão", que quase foi à falência com o esteticamente ousado "O fundo do coração" e deu uma nova visão à guerra do Vietnã em "Apocalypse now", poderia orquestrar, sem soar repetitivo, essa ambiciosa adaptação quase operística da história do mais famoso vampiro da literatura, escrita pelo irlandês Bram Stoker no século XIII.

O toque de mestre do diretor já dá as caras no prólogo, inédito no livro e que conta as origens do sanguessuga - inspirado em uma personalidade real. O conde Vlad Dracul (o espetacular inglês Gary Oldman) torna-se conhecido como sanguinário devido a sua luta para defender a Igreja católica durante as Cruzadas. Ao retornar para casa, ele descobre que sua amada Elisabeta (Winona Ryder, linda mas quase inexpressiva) havia cometido suicídio, ao acreditar-lhe morto. Revoltado com a Igreja, que se recusa a sepultar suicidas, ele se entrega às trevas. Essas cenas, faladas em romeno e filmadas com criatividade e elegância, dão o tom barroco e épico pretendido pelo cineasta. O que vem pela frente é a mais perfeita tradução do universo gótico e assustador da obra.

Séculos depois da sequência de abertura, o Conde vive isolado em seu castelo na Transilvânia e recebe a visita do agente imobiliário Jonathan Harker (Keanu Reeves, o único elo fraco do filme), que chega disposto a fechar negócio com o idoso e misterioso milionário, depois que seu colega anterior, Reinfield (o cantor Tom Waits em participação especial extremamente eficiente) saiu de cena devido a um grave desequilíbrio mental. As coisas parecem estar indo bem até que o Conde reconhece em uma imagem de Mina, a noiva de Harker, a reencarnação de sua amada. Trancando o jovem em seu castelo, ele embarca para a Inglaterra com a intenção de reconquistar sua felicidade. Em Londres, ele parte em busca de Mina, mesmo que para isso tenha que sacrificar a melhor amiga desta, a desinibida Lucy (Sadie Frost) e enfrentar o conhecido médico Abraham Van Helsing (Anthony Hopkins), estudioso de ocultismo e caçador de vampiros nas horas vagas.

 A atmosfera lúgubre criada por Coppola e seu diretor de fotografia Michael Ballhaus encanta até o mais renitente dos espectadores. Ao utilizar-se de técnicas rudimentares de cinema para contar sua história - contrariando a nascente tendência de CGI - o cineasta parece querer convidar a plateia a entrar em um universo carregado de simbolismos onde a escuridão revela mais que a claridade, onde o vermelho do sangue grita a cada frame, onde cada transição de cena é meticulosamente cuidada. O visual carregado - justamente como se fosse uma ópera - é impecável: a direção de arte e o figurino (premiado com um justíssimo Oscar) não ficam nunca aquém do fantástico. Mais do que pretender assustar, o que Coppola quer é pegar o espectador pela mão e apresentá-lo a uma história de amor que não deixa o tempo, a religião ou a morte lhe diminuir. Ao contrário de outras versões cinematográficas, onde o protagonista era retratado ora como monstro ora como galã, aqui o Conde Drácula tem uma personalidade bem mais complexa: sim, ele é um monstro sanguinário e impiedoso, mas é também um homem traído pela sua fé e acima de tudo, um amante caloroso e dedicado que atravessa séculos em busca de sua amada.



Na pele do exímio Gary Oldman, Drácula é um herói trágico. Oldman não erra o tom de sua personagem em momento algum, equilibrando magistralmente o sarcasmo, o romance e a violência que lhe são características sem deixar que uma anule a outra. Sob a pesada maquiagem (também premiada com um Oscar), Oldman se transforma em ancião, em lobo e em vampiro sem nunca perder a essência, e aproveita cada cena para demonstrar seu grande talento. Destaque absoluto do elenco, ele precisa, no entanto, contracenar com um apático Keanu Reeves e uma Winona Ryder que, apesar de esforçada, não atinge o potencial dramático de sua personagem, ao contrário de uma desconhecida Sadie Frost que pinta e borda com sua fogosa Lucy, dona de algumas das mais belas cenas do filme. Anthony Hopkins, como Van Helsing, também encontra o tom exato de sua atuação, entre o trágico e o cômico, e até mesmo Tom Waits revela-se um ator eficaz, transmitindo a sensação de perigo que a chegada do Conde anuncia.

Belamente concebido - a trilha sonora forte de Wojciech Kilar ajuda a estabelecer também o clima quase surreal da visão de Coppola - e encenado como uma angustiante peça de teatro - e é genial a inserção do cinematógrafo na cena do primeiro encontro entre Drácula e Mina - "Drácula de Bram Stoker" é a visão definitiva de uma das mais duradouras histórias de amor e perda da literatura mundial. É também mais uma poderosa prova do talento visionário de Francis Ford Coppola, em seu, até agora, último trabalho digno de figurar no rol de suas obras-primas.

quinta-feira

JFK, A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR

JFK, A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR (JFK, 1991, Warner Bros, 189min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Zachary Sklar, livros "On the trail of assassins", de Jim Garrison e "Crossfire: the plot that killed Kennedy", de Jim Marrs. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Joe Hutsching, Pietro Scalia. Música: John Williams. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Crispian Sallis. Casting: Risa Bramon Garcia, Billy Hopkins, Heidi Levitt. Produção executiva: Arnon Milchan. Produção: A. Kitman Ho, Oliver Stone. Elenco: Kevin Costner, Sissy Spacek, Gary Oldman, Tommy Lee Jones, Joe Pesci, Jack Lemmon, Walter Matthau, Donald Sutherland, Kevin Bacon, Michael Rooker, John Candy, Sally Kirkland, Vincent D'Onofrio, Wayne Knight, Laurie Metcalf, Lolita Davidovich, Ron Rifkin. Estreia: 20/12/91

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Oliver Stone), Ator Coadjuvante (Tommy Lee Jones), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Som
Vencedor de 2 Oscar: Fotografia, Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Oliver Stone) 

Em 22 de novembro de 1963, em uma viagem a Dallas, o presidente John Fitzgerald Kennedy foi alvejado fatalmente, para desespero de milhares de americanos que o idolatravam. Pouco tempo depois, a polícia apresentava o culpado, o jovem Lee Harvey Oswald. Antes de qualquer tipo de julgamento, o acusado foi assassinado, frente às câmeras de TV, por Jack Ruby, o dono de um bar de strippers, ligado à máfia. Uma comissão formada pelo governo para investigar o caso - a Comissão Warren - chegou à conclusão de que Oswald agiu por contra própria, por discordar das ideias de Kennedy a respeito de Cuba e Fidel Castro. A investigação teria tido um ponto final se Jim Garrison, o promotor público de Nova Orleans, não tivesse dado continuidade ao assunto. Com a ajuda de uma equipe dedicada e incorruptível, ele levou um empresário local ao banco de réus, acusando-o de conspiração. Segundo Garrison, a morte de Kennedy foi o ato final de uma conspiração gigantesca envolvendo o FBI, a CIA e até mesmo o próprio governo americano. E é justamente sua batalha atrás da verdade sobre o assassinato que mudou a história dos EUA que é retratada em "JFK, A pergunta que não quer calar", a obra-prima absoluta do polêmico cineasta Oliver Stone.

Utilizando dois livros como base para seu complexo e instingante roteiro - um escrito pelo próprio Jim Garrison e outro pelo jornalista Jim Marrs, nem sempre de teorias compatíveis - Oliver Stone construiu um dos thrillers políticos mais fascinantes da história do cinema. Ao eleger a investigação de Garrison como fio condutor para sua narrativa, Stone entrega ao público um trabalho detalhista e admiravelmente bem construído. O roteiro, repleto de camadas que escondem camadas que escondem camadas, é um primor de inteligência, que gruda o espectador na cadeira em seus primeiros minutos e não o deixa abandoná-la até seu final - na versão do diretor, mais de três horas depois.

 

Interpretado por um Kevin Costner discreto, que não se deixa engrandecer pela personagem - depois que Harrison Ford e Mel Gibson declinaram do papel - Jim Garrison é o mais próximo de um herói que a trama de "JFK" pode oferecer à plateia. Lembrando em certos momentos seu Elliot Ness de "Os intocáveis" - um homem honesto e quase obcecado em sua busca pela verdade - Garrison serve também como os olhos do público, incrédulos, chocados, absolutamente apavorados com a gama de mentiras que vão sendo desvendadas pouco a pouco. E a forma como as verdades - ou o mais perto possível delas - surgem diante dos olhos de Garrison e da audiência é nunca menos do que brilhante. Nas mãos de Oliver Stone, a morte de John Kennedy, um dos maiores traumas coletivos da história americana, transforma-se em um espetáculo dos mais empolgantes que o cinema pode proporcionar.

Além do roteiro impecável - tão cheio de informações que é desaconselhável até mesmo uma piscadela - Stone também cercou-se de uma equipe excepcional. A edição nunca aquém de espetacular levou um merecidíssimo Oscar, ao alternar vídeos reais com cenas incrivelmente reconstituídas, e a fotografia de Robert Richardson, também oscarizada, se equilibra entre a cor, o preto-e-branco e 8mm (com as recorrentes cenas do filme de Abraham Zapruder, que testemunhou a tragédia, sendo apresentadas quase como uma personagem). A trilha sonora de John Williams comenta a ação com sabedoria, destacando com força os momentos mais tensos - trabalhando longe de Steven Spielberg, Williams criou uma de suas mais sensacionais trilhas, que dá o tom exato das intenções de Oliver Stone em manter intacta a atenção do público mesmo diante da quantidade de nomes, fatos e contradições que se espalham na tela. E se as informações são em número quase assustador, o elenco formado pelo cineasta é de tirar o fôlego. Trabalhando com cachês bem abaixo de seu normal, os atores de "JFK" são um show à parte.

Naturalmente, Kevin Costner lidera o elenco como protagonista absoluto.Mas, a seu lado, desfila um elenco de causar inveja a Robert Altman - em personagens maiores ou menores, eles sustentam com garra e elegância uma estrutura complexa que dá espaço para que todos brilhem em seu devido momento. Somente Tommy Lee Jones chegou a ser indicado ao Oscar, por sua atuação como Clancy Shaw, o único a ser julgado pela morte do presidente, mas sua indicação pode ter sido uma forma de a Academia homenagear todas as feras dirigidas por Stone. Como Lee Harvey Oswald, o inglês Gary Oldman transforma-se absurdamente (como já o havia feito em "Sid & Nancy, o amor mata", onde viveu o roqueiro Sid Vicious). Como o misterioso X, que dá dicas preciosas a Garrison, Donald Sutherland é dono de uma das sequências mais arrepiantes do longa. E além deles, estão presentes Kevin Bacon, Joe Pesci (magnífico), Sissy Spacek e os indescritíveis Jack Lemmon e Walter Matthau. Pode-se pedir mais de um elenco?

"JFK" é eletrizante, inteligente, fascinante e dirigido com uma paixão evidente. Graças a ele, documentos a respeito das investigações da Comissão Warren foram a público muito antes do previsto e, mais importante do que tudo, Oliver Stone conseguiu abalar as estruturas americanas com um filme que nunca deixa de ser também entretenimento da mais alta qualidade. Suas teorias talvez não sejam tão realistas quanto ele afirma, mas só o fato de fazer um trabalho tão impecável do ponto de vista cinematográfico já é motivo o bastante para que seja louvado. Infelizmente bateu de frente com "O silêncio dos inocentes" na corrida pelo Oscar. Ganhou duas estatuetas. Merecia muito mais.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...