Mostrando postagens com marcador ANTONIO BANDERAS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ANTONIO BANDERAS. Mostrar todas as postagens

quinta-feira

CONCORRÊNCIA OFICIAL


CONCORRÊNCIA OFICIAL (Competencia oficial, 2021, ICAA/Orange/RTVE, 115min) Direção: Mariano Cohn, Gastón Duprat. Roteiro: Andrés Duprat, Gastón Duprat, Mariano Cohn. Fotografia: Arnaud Valls Colomer. Montagem: Alberto del Campo. Figurino: Wanda Morales. Direção de arte/cenários: Alain Bainée/Sara Natividad. Produção executiva: Antonio Banderas, Penélope Cruz, Laura Férnadez Espeso, Oscar Martínez, Javier Méndez, Javier Pons. Produção: Jaume Roures. Elenco: Penélope Cruz, Antonio Banderas, Oscar Martínez, José Luiz Gómez. Estreia: 04/9/2021

O que fazer quando se chega aos 80 anos de idade, tem dinheiro de sobra e sonha em ter o nome para a posteridade? O empresário Humberto Suárez (José Luiz Gómez), depois de pensar em inúmeras possibilidades (como uma ponte, por exemplo) chega à conclusão de que o melhor negócio que pode fazer é financiar um filme. Mas não um filme qualquer, e sim um grande filme, o melhor que o dinheiro pode comprar. E é com esse objetivo que ele contrata a premiada Lola Cuevas (Penélope Cruz) para dirigir a adaptação de um célebre romance que tem todos os ingredientes para transformar-se em sucesso. Dona de uma personalidade bastante excêntrica, Lola embarca no projeto com a condição de contar, no elenco, com dois dos maiores atores do país: o prestigiado Iván Torres (Oscar Martínez) e o popular Félix Rivero (Antonio Banderas). O que nem Humberto nem os tarimbados atores poderiam imaginar é que os métodos de Lola para atingir a perfeição fogem muito do convencional - e transformam os ensaios em um inferno, fazendo emergir ressentimentos, inseguranças e sentimentos pouco nobres de todos os envolvidos no processo.

Dirigido pelos argentinos Mariano Cohn e Gastón Duprat, "Concorrência oficial" é um deleite para os fãs de cinema em geral e artistas em particular: ao mergulhar em um universo repleto de egos inflados e talentos superestimados, a dupla de cineastas e roteiristas brinca com o próprio métier sem nunca perder, apesar do tom de deboche, o respeito pelo cinema e seus realizadores. Ao retratar diretores egóicos, atores autocentrados e produtores sem o menor tino artístico, a trama surpreende o espectador com uma narrativa imprevisível e personagens repletos de camadas, reveladas aos poucos, conforme suas barreiras vão sendo demolidas a ferro, fogo e dinâmicas bizarras criadas por Lola - interpretada com perceptível prazer por Penélipe Cruz, uma das produtoras executivas do filme, ao lado de seus colegas de elenco. Com um visual exuberante que lembra seus melhores momentos com o espanhol Pedro Almodóvar - nitidamente uma influência na paleta de cores vivas e na excentricidade dos personagens -, Cruz deita e rola com diálogos saborosos, repletos de absurdos e referências à cultura pop. De maneira inteligente, os diretores conseguem até mesmo uma auto-citação: o romance adaptado por Cuevas, "Rivalidade", é de autoria de Daniel Mantovani, personagem do filme anterior dos realizadores, "Um cidadão ilustre", vivido pelo mesmo Oscar Martínez que interpreta aqui o celebrado Iván Torres.


 

Iván Torres é um ator de métodos clássicos, do tipo que cria um passado para os personagens que irá interpretar e mergulha profundamente em sua criação. A forma como lida com seu ofício bate de frente com a quase irresponsabilidade de Féliz Rivero, seu colega e rival, que leva a profissão bem menos a sério - e, paradoxalmente, é bem mais popular entre o público. O confronto entre dois estilos de atuação é a faísca procurada por Lola, que os escolhe justamente por sua radical diferença, que ela julga apropriada para a história de dois irmãos rivais. Enquanto ensaia cada linha de diálogo do roteiro - para enfado de ambos, cada um por uma razão diferente - e cria dinâmicas quase humilhantes para arrancar deles interpretações viscerais (a ponto de fazê-los ler o roteiro sob uma rocha que pesa toneladas e pode vir a desabar a qualquer momento), a polêmica diretora não percebe que, em determinado momento, torna-se também vítima de suas técnicas quando passa a questionar o que é verdade ou não na relação entre seus astros - o que pode até acarretar uma tragédia inesperada.

É difícil saber o que é mais precioso em "Concorrência oficial". Do roteiro, original e mordaz, à escalação do elenco, absolutamente certeira, tudo no filme de Cohn e Duprat funciona às mil maravilhas. O estranhamento do primeiro ato - quando Lola Cuevas inicia seu processo criativo - dá lugar, gradativamente, a uma trama recheada de ironias, brilhantemente abraçadas por seus atores, todos em estado de graça. Equilibrando-se entre o humor mais fino e o suspense por vezes inesperado, o filme transita com facilidade por diversos gêneros, extraindo o melhor de cada um deles para oferecer à plateia um banquete cuidadosamente preparado. Criticando o culto à celebridade ao mesmo tempo em que não perdoa o exagerado pedantismo de certa parcela da elite artística, a produção faz rir e pensar na mesma intensidade - é um programa inteligente e leve, que mostra, mais uma vez, a inegável qualidade do cinema argentino contemporâneo.

terça-feira

FEMME FATALE

FEMME FATALE (Femme fatale, 2002, Quinta Communications, 114min) Direção e roteiro: Brian De Palma. Fotografia: Thierry Arbogast. Montagem: Bill Pankow. Música: Ryuichi Sakamoto Figurino: Olivier Beriot. Direção de arte/cenários: Anne Pritchard/Françoise Benoit-Fresco. Produção executiva: Mark Lombardo. Produção: Tarak Ben Ammar, Marina Gefter. Elenco: Rebecca Rojmin-Stamos, Antonio Banderas, Peter Coyote. Estreia: 30/4/02 

Dizer que Brian De Palma é o maior discípulo de Alfred Hitchcock produzido por Hollywood é limitar e diminuir a carreira de um dos mais interessantes cineastas norte-americanos contemporâneos, capaz tanto de obras impecáveis, como "Os intocáveis" (87), quanto de desastres monumentais - como bem podem testemunhar aqueles que tiveram de encarar a tenebrosa adaptação de "A fogueira das vaidades" (90), do romance de TomWolfe. Nem sempre feliz na escolha de seus projetos, De Palma foi obrigado a encarar um período bastante complicado em sua trajetória quando, depois do grande sucesso comercial de "Missão: impossível" (96), passou a acumular fracassos críticos e de bilheteria que minaram sua credibilidade junto ao público e aos estúdios - foi nessa época que ele enfileirou os horrorosos "Olhos de serpente" (98) e "Missão Marte" (2000), dois fiascos retumbantes. Renegado pela indústria, o diretor acabou encontrando consolo em terras estrangeiras, mais precisamente na França: recuperando-se da má fase profissional em Paris, o diretor teve a ideia daquele que se tornaria seu próximo filme, um suspense recheado de erotismo e com uma protagonista feminina das mais fortes de sua filmografia, a ousada, corajosa e sexy Laurie Ash, interpretada com nítida satisfação pela bela Rebecca Romijn-Stamos (a Mística dos filmes "X-Men").

Depois de considerar Jennifer Lopez e Uma Thurman para o papel central -Thurman abandonou o projeto por causa da gravidez - e convencer Antonio Banderas a assumir o principal papel masculino (com a ajuda da então esposa do ator, Melanie Griffith, com quem havia trabalhado em "Dublé de corpo" e "A fogueira das vaidades"), De Palma entregou à plateia do Festival de Cannes 2002 um de seus filmes mais pessoais, recheado de algumas de suas mais marcantes características como cineasta. Em pouco menos de duas horas de duração, o espectador vê diante de si longas sequências silenciosas, movimentos de câmera criativos e surpreendentes, personagens amorais, uma edição inteligente e umas duas boas reviravoltas capazes de pegar de surpresa até o mais atento fã de cinema. Homenageando a sétima arte desde sua abertura - cenas do clássico "Pacto de sangue", de Billy Wilder, dando o tom da trama - até de forma mais explícita - com o início da história acontecendo em pleno Festival de Cannes (com direito até mesmo a participações especiais do cineasta Régis Wargnier e da atriz Sandrine Bonnnaire) - "Femme fatale" é um filme que brinca com as aparências e com as expectativas do público, emendando uma história na outra de maneira quase imperceptível, até um desfecho inesperado que comprova o talento de seu criador em romper com o trivial quando se trata de contar uma história que envolva o público.


E é impossível não se deixar envolver pelo roteiro criado por De Palma, que já começa mostrando a que veio: em suas primeiras cenas, a belíssima Laurie Ash, se aproveitando de seu status de fotógrafa credenciada pelo Festival de Cannes, seduz a acompanhante de um dos candidatos à Palma de Ouro e, com a ajuda de um grupo de comparsas, supostamente rouba as joias da atraente modelo. Supostamente. A partir do momento em que as coisas saem do controle dos mentores do golpe, o filme inicia sua jornada em conduzir o público por caminhos que trafegam sem medo pela violência, pelo erotismo e pela absoluta falta de regras. Em poucos minutos Laurie se transforma em outra mulher, mais sofisticada e ainda mais misteriosa, que vê seu passado criminoso ameaçar vir à tona pelas mãos do paparazzo Nicolas Bardo (Antonio Banderas) - um homem dividido entre a ambição de ser reconhecido profissionalmente e a atração irresistível que sente pelo alvo de sua câmera. Ele busca o sucesso e o dinheiro; ela procura salvar a pele de revelações aterradoras que podem destruir seu casamento com um homem poderoso (Peter Coyote): juntos, eles irão, despudoradamente, tentar alcançar seus objetivos, mesmo que tais sejam potencialmente contrários um ao outro. No meio desse caminho, o roteiro dá conta de esfregar na cara da plateia cenas de grande tensão sexual (Rojmin nunca esteve tão sensual e desejável) e alguns momentos puramente cinematográficos que são sua assinatura (com direito a tela repartida e ângulos inusitados).

Se existe uma falha no desenho dos personagens de "Femme fatale" - que se comportam mais como personagens do que gente de verdade, o que de certa forma é coerente com a proposta do filme - ela é plenamente compensada com a técnica empregada por Brian De Palma para grudar o espectador na cadeira até os minutos finais da sessão. Econômico na hora de dar detalhes a respeito de seus protagonistas, ele os contorna com tons fortes e simplesmente os utiliza como matéria-prima de uma profusão de sequências muito interessantes visualmente, que mantém o suspense em constante ritmo enquanto prepara um final provocativo e que deixa no ar a sensação quase tangível de desconforto. Pode não ser o melhor Brian De Palma, mas só o fato de tirar a plateia da zona de conforto já faz de "Femme fatale" um programa acima da média - um programa valorizado pela beleza e o talento fascinante de Rebecca Rojmin (ainda Stamos à época), que mostra que pode ir muito além de uma violenta mutante.

quinta-feira

OS AMANTES PASSAGEIROS

OS AMANTES PASSAGEIROS (Los amantes pasajeros, 2013, El Deseo, 96min) Direção e roteiro: Pedro Almodóvar. Fotografia: Jose Luis Alcaine. Montagem: José Salcedo. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Davidelfin, Tatiana Hernández. Direção de arte/cenários: Antxón Gómez/Clara Notari. Produção: Agustin Almodovar, Esther García. Elenco: Antonio Banderas, Penelope Cruz, Javier Camara, Cecilia Roth, Lola Dueñas, Antonio de la Torre, Raul Arévalo, Carlos Areces, Hugo Silva, Miguel Ángel Silvestre, Laya Martí, Paz Vega, Blanca Suárez. Estreia: 08/3/13

Depois de aventurar-se pelo lado negro da alma humana no denso "A pele que habito", Pedro Almodovar parece ter voltado às origens transgressoras e debochadas do início de sua carreira com "Os amantes passageiros". Despretensioso e abertamente escrachado, seu filme mostra que aquele senso de humor que era a essência de obras como "Labirinto de paixões" e "Pepi, Luci, Bom" continua intacto debaixo do verniz de cineasta sério e consagrado com dois Oscar. Centrado quase que exclusivamente em um único cenário - um avião com uma pane que ameaça a todos os tripulantes e passageiros - o roteiro de Almodovar usa e abusa de diálogos surreais, personagens ensandecidos (por nascimento ou pelo abuso de álcool e drogas) e atores velhos conhecidos do diretor, como Cecilia Roth, Lola Dueñas e Javier Camara - até mesmo Antonio Banderas e Penélope Cruz participam da brincadeira, em uma participação especial nos primeiros minutos de projeção.

Conforme o próprio trailer já deixava antever, "Os amantes passageiros" não se leva a sério - e nem pede à audiência que o faça. A começar pelo trio de protagonistas - comissários de bordo gays vividos por Javier Camara, Raúl Arévalo e Carlos Areces em atuações pra lá de inspiradas - tudo no filme pede que o público esqueça qualquer preconceito e se entregue sem medidas às loucuras do roteiro. Só mesmo assim - com total consciência da real essência do diretor - é que a experiência se torna ainda mais divertida. O Almodovar de "Os amores passageiros" está muito mais para o diretor trash e criativo de "Maus hábitos" e "O que fiz eu para merecer isto?" do que para o bem mais comportado (mas nem por isso menos genial) criador de "Tudo sobre minha mãe" e "Fale com ela". Estão em cena situações bizarras que combinam muito mais com a primeira fase de sua carreira - em que desafiava com humor e ironia o governo franquista - do que com seu momentos mais reflexivos, que lhe tornaram o cineasta espanhol mais respeitado desde Buñuel. É esse Almodovar original que consegue fazer com que o absurdo se torne crível, como nos melhores momentos de sua filmografia.


A trama começa com uma sequência aparentemente sem importância que reúne Antonio Banderas e Penélope Cruz como um casal de namorados que trabalha para uma companhia aérea e que, felizes com a notícia de uma gravidez, não percebe que falhou em um dos procedimentos de segurança antes do próximo voo. Tal erro só é percebido tarde demais, quando o avião já está a caminho da Cidade do México, com passageiros e tripulação a bordo e descobrindo, aos poucos, que podem estar em seus últimos momentos. Para aliviar a tensão, os comissários Joserra (Javier Camara), Fajas (Carlos Areces) e Ulloa (Raúl Arévalo) fazem o possível, dopando a segunda classe e promovendo shows de dublagem para os demais passageiros. Entre eles, inclui-se Norma Boss (Cecilia Roth), uma ex-atriz, hoje empresária no ramo da prostituição de luxo que está na mira de um assassino de aluguel, Ricardo Galán (Guilermo Toledo), um ator dividido entre duas mulheres, e Sr. Más (José Luís Torrijo), o presidente de um banco envolvido em um escândalo financeiro - além de um noivo (Miguel Ángel Silvestre, que depois faria sucesso na série "Sense8") que está em lua-de-mel e é cobiçado pela sensitiva Bruna (Lola Dueñas), que quer perder a virgindade antes de morrer, e pelo comissário Fajas. Enquanto os pobres passageiros não sabem, a princípio, o tamanho do perigo que correm, os pilotos estão mais preocupados com seus problemas conjugais e sexuais do que com a possibilidade de espatifar seu avião.

Livre da pressão de realizar mais um filme para agradar aos festivais de cinema e à crítica intelectualoide que tornou-o hype, Almodovar fez, com "Os amantes passageiros", o que há muito tempo seu público fiel vinha desejando: um trabalho anárquico, sem amarras e sem preocupações que não a de fazer rir. Talvez isso decepcione quem espera algo mais impactante, mas sem dúvida agrada a quem sabe quem realmente o realizador é. O humor de seu novo filme brinca com a sexualidade, com a religião, com drogas, com redes sociais e com a família com o mesmo cáustico senso de humor que vinha sendo deixado de lado há bons anos. É iconoclasta, é cafona, é gay ao extremo - que o diga a sequência musical onde os comissários dublam a canção "I'm so excited" (título do filme para o mercado de língua inglesa).  Mas é, também, engraçadíssimo, leve, despretensioso e Almodovar na veia. Não é nem de longe seu melhor trabalho, mas é infinitamente superior a qualquer comédia que se pretende engraçada mas tem medo de ousadias.

sexta-feira

VOCÊ VAI CONHECER O HOMEM DOS SEUS SONHOS

VOCÊ VAI CONHECER O HOMEM DOS SEUS SONHOS (You will meet a tall dark stranger, 2010, Mediapro, 98min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Beatrix Aruna Pasztor. Direção de arte/cenários: Jim Clay/John Bush. Produção executiva: Javier Méndez. Produção: Letty Aronson, Jaume Rorers, Stephen Tenenbaum. Elenco: Anthony Hopkins, Naomi Watts, Antonio Banderas, Josh Brolin, Gemma Jones, Frieda Pinto, Pauline Collins, Lucy Punch, Ewen Bremner. Estreia: 15/5/10 (Festival de Cannes)

Quando quer, Woody Allen sabe ser sombrio e pessimista. Depois que flertou com o final feliz em seu "Tudo pode dar certo" ele volta a conversar com a falta de esperança em "Você vai conhecer o homem dos seus sonhos", no qual ele utiliza novamente a ironia e as armadilhas do destino para contar uma história sobre gente normal presa a seus próprios problemas amorosos/profissionais/sexuais. Lembra bastante "Crimes e pecados" e "Match point", dois de seus melhores trabalhos e, se não chega ao nível deles, fica bastante perto.

O filme acompanha a história de várias personagens que se cruzam por laços familiares. A primeira a ser apresentada é Helena (a extraordinária Gemma Jones), uma dona-de-casa que vê sua vida devastada ao ser abandonada pelo marido, Alfie (Anthony Hopkins), que resolve viver a vida depois dos sessenta anos. Perdida e sem rumo, ela procura uma vidente, Cristal (Pauline Collins), que lhe garante que ela irá encontrar um novo amor, assim como aconteceu com seu ex-marido, que casou-se com uma ex-prostituta, Charmaine (a exagerada Lucy Punch). A filha de Alfie e Helena, Sally (Naomi Watts exercitando um belo sotaque britânico) começa a trabalhar na galeria de arte do sedutor Greg (Antonio Banderas) e sente-se atraída por ele, mesmo porque seu casamento também está em crise: seu marido, Roy (Josh Brolin), que abandonou a Medicina para ser escritor, está com um problema de criatividade e sente-se tentado ao adultério quando passa a espionar a vizinha da frente, a bela Dia (Freida Pinto).


Essa ciranda de adultério, desejos reprimidos e busca desenfreada pela realização pessoal é contada de forma sóbria por um dos roteiros mais interessantes de Allen em sua fase pós-Mia Farrow. Não há muito humor - ao menos um humor óbvio - e o cineasta mantém-se neutro em relação aos atos de suas personagens. Como em seus melhores filmes, a imprevisibilidade da trama é um aliado poderoso, deixando a plateia sempre em suspenso, aguardando os desvios de sua história. E mais uma vez a escalação certeira do elenco merece um capítulo à parte. Naomi Watts e Josh Brolin estão em perfeita sintonia como um casal à beira da separação; Anthony Hopkins está à vontade em um papel bastante diferente dos que costuma representar e Gemma Jones rouba a cena como a desnorteada Helena, uma personagem crucial que ela segura com uma firmeza que mereceria uma indicação ao Oscar de coadjuvante.

Ao citar "Macbeth", de Shakespeare, em seu prólogo - que diz que a vida é feita de som e fúria e que não quer dizer nada - Woody Allen dá o tom amargo de seu novo e belo filme. Nem mesmo o final em aberto consegue estragá-lo, muito pelo contrário, o reafirma como um dos mais interessantes títulos de sua digna filmografia.

segunda-feira

A PELE QUE HABITO

A PELE QUE HABITO (La piel que habito, 2011, El Deseo S/A, 120min) Direção: Pedro Almodovar. Roteiro: Pedro Almodovar, Agustín Almodovar, romance "Tarantula", de Thierry Jonquet. Fotografia: José Luis Alcaine. Montagem: José Salcedo. Música: Alfredo Iglesias. Figurino: Paco Delgado. Direção de arte/cenários: Antxon Gómez/Vicente Díaz. Produção: Agustin Almodovar, Esther García. Elenco: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet, Roberto Álamo. Estreia: 19/5/11 (Festival de Cannes)
 

Em poucas cinematografias contemporâneas o sublime e o bizarro convivem tão em paz quanto na obra do espanhol Pedro Almodovar. Com mais intensidade em alguns filmes (“Maus hábitos”, “O que fiz eu para merecer isto?”, “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, “Kika”) e mais sutil em outros (“A flor do meu segredo”, “Volver”, “Abraços partidos”), essa mistura aparentemente impossível é uma das características mais marcantes do cineasta, já premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro (por “Tudo sobre minha mãe”) e roteiro original (por “Fale com ela”) e que é normalmente apontado como um especialista em personagens femininas de grande força dramática. Em “A pele que habito”, porém, ele mostra que é plenamente capaz de criar um protagonista masculino igualmente potente, além de experimentar, pela primeira vez em sua carreira, o mergulho em um filme de suspense. Tudo bem que “Matador” e “Má educação” tinham momentos que flertavam com o gênero, mas nenhum deles era tão ostensivamente cruel e sufocante quanto essa adaptação livre do romance “Tarântula”, de Thierry Jonquet, que mistura elementos de “Frankenstein”, de Mary Shelley e “O colecionador”, de John Fowles, para contar uma história de obsessão e vingança que, no fim das contas, combina à perfeição com a obra que o diretor vem construindo desde a década de 80.

A primeira ligação de “A pele que habito” com o passado de Almodovar vem com o reencontro com Antonio Banderas, ator-fetiche de seus primeiros filmes e com quem não trabalhava desde “Ata-me”, de 1990. Mais velho e mais maduro como ator – ainda que vez por outra escorregue no overacting – Banderas vive Robert Ledgard, um cirurgião plástico respeitado pelos colegas e pelos pacientes que dedica seu tempo ao desenvolvimento de uma pele sintética capaz de resistir a quaisquer tipos de agressão. Suas experiências polêmicas (e contra a lei) tem origem no trauma que viveu com a morte da esposa, vítima de um acidente de carro que a deixou desfigurada e resultou em seu suicídio. A tragédia – que teve ainda uma outra consequência devastadora envolvendo sua única filha – o faz tornar-se um homem obcecado por vingança, que acaba por envolver um jovem Vicente(Jan Cornet) em uma dedicada e violenta experiência.         
Com uma narrativa que usa e abusa de flashbacks que dão ao público a exata noção de causa/consequência dos atos de Robert, “A pele que habito” destoa um tanto dos filmes mais famosos de Almodovar por demorar a estabelecer a real história que deseja contar. É somente aos poucos que o roteiro vai oferecendo à plateia os elementos essenciais à compreensão da extensão da vingança de seu protagonista, um homem que, ao contrário do que dita a cartilha do cinema hollywoodiano, está longe de ser um herói assim como tampouco pode ser considerado um vilão: essa dualidade de seu personagem principal é um dos principais méritos do filme de Almodovar, que mais uma vez confere propriedades humanas a suas criações, livrando-as do maniqueísmo fácil e preguiçoso que domina boa parte do cinema comercial. Robert Ledgard pode ter suas razões para buscar uma vingança, mas a certo ponto da narrativa – graças principalmente à recusa do diretor em injetar uma culpa explícita em ... – é impossível que a plateia não fique em dúvida se tudo não está indo longe demais. E, acreditem, nem Almodovar nem seu protagonista parecem dispostos a poupar ninguém de seu pesadelo estético/sexual, que inclui a bela Vera (Elena Anaya).


O bom-humor tão louvado na obra de Almodovar – que sempre conseguiu alternar riso e lágrimas sem prejuízo do conjunto – praticamente inexiste em “A pele que habito”. Quando tenta dar uma aliviada ao tom extremamente sombrio e doentio da história, acaba por tropeçar – Zeca, o filho brasileiro de Marília (Marisa Paredes, outra habitual colaboradora do cineasta), empregada de Robert e sua aliada/cúmplice, chega à mansão do médico fantasiado de tigre, em uma desnecessária pretensão à comicidade distorcida de seus filmes anteriores. Apesar da presença de Zeca ser o catalisador de eventos que empurram a ação – e dão origem às reminiscências que finalmente explicam os motivos das atitudes do cirurgião – tal artifício soa fora de lugar. Em “Kika” funcionaria. Em “Mulheres à beira de um ataque de nervos” sublinharia o tom debochado. Em “A pele que habito” deixa a impressão de uma piada sem graça e fora de hora. É o único escorregão de um filme que, afora isso, é sufocante e desconfortável como uma visita ao dentista.
Sublinhado pela música tonitruante de Alberto Iglesias e pela cenografia inesperadamente asséptica – uma surpresa em se tratando de uma espécie de embaixador da estética kitsch – “A pele que habito” conduz o espectador a uma viagem por um labirinto de sensações conflitantes e de uma tensão nunca vista antes na obra do diretor. Sem medo de pegar pesado no suspense, Almodovar utiliza todo o seu talento na construção de um pesadelo incomodamente verossímil, apesar do aparente exagero da trama central. Se desperta o riso, é um riso nervoso, reação à crueldade da vingança de Roberto e à forma com que ela é realizada. Nem mesmo quando flerta descaradamente com o melodrama – gênero no qual o diretor é mestre – o filme deixa de ser desconcertante, prova do gênio de seu criador, um cineasta incapaz de gerar um filme medíocre mesmo quando se propõe a testar seus limites.
A crítica não foi tão generosa com “A pele que habito” como foi com as obras-primas de Almodovar – a saber, “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, “Carne trêmula”, “Tudo sobre minha mãe”, “Fale com ela” – e fez malabarismos para ver em seu filme defeitos que em produções hollywoodianas não parecem ser problema algum. Talvez a expectativa gerada pela reunião de Almodovar/Banderas/Marisa Paredes tenha sido seu maior algoz. Mas um dia provavelmente sua incursão no lado mais negro do ser humano até hoje será vista como o excelente filme que é, apesar de seus pecadilhos. “A pele que habito” não é um Almodovar típico – a despeito de seu final irônico - mas é um grande Almodovar.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...