CORAÇÕES DE FERRO (Fury, 2014, Columbia Pictures, 134min) Direção e
roteiro: David Ayer. Fotografia: Roman Vasyanov. Montagem: Jay Cassidy,
Dody Dorn. Música: Steven Price. Figurino: Maja Meschede, Anna B.
Sheppard. Direção de arte/cenários: Andrew Menzies/Lee Gordon, Malcolm
Stone. Produção executiva: Anton Lessine, Alex Ott, Brad Pitt, Sasha
Shapiro, Ben Waisbren. Produção: David Ayer, Bill Block, John Lesher,
Ethan Smith. Elenco: Brad Pitt, Logan Lerman, Shia LaBeouf, Michael
Peña, Jon Bernthal, Jim Parrack, Jason Isaacs. Estreia: 15/10/14
Sim, esse é mais um daqueles filmes que retratam a II Guerra Mundial sob a ótica dos aliados - leia-se norte-americanos - e que fazem a alegria dos pseudointelectuais que adoram reclamar da forma com que Hollywood romantiza o conflito a favor dos EUA. E sim, não foge muito da tradicional receita das produções do gênero, lembrando principalmente o excepcional "O resgate do soldado Ryan", obra-prima de Steven Spielberg lançada em 1998. Escrito e dirigido por David Ayer - autor do roteiro do premiado "Dia de treinamento" (2000) e da vergonhosa adaptação para as telas do seriado televisivo "SWAT" (2003) - "Corações de ferro" tem a seu favor, porém, a despeito de sua quase previsibilidade, um elenco impecável e um tom que se equilibra com sucesso entre a violência e a poesia. Com uma renda abaixo do esperado nas bilheterias - pouco mais de 80 milhões, pouco se considerada a presença de um astro do calibre de Brad Pitt encabeçando os créditos - o filme falhou também em ser lembrado pelas cerimônias de premiação da temporada 2014, sendo ignorado até mesmo nas categorias técnicas, onde normalmente filmes do estilo encontram espaço.
Brad Pitt - que também é um dos produtores executivos do filme - lidera o elenco de "Corações de ferro", mas generosamente divide seu espaço em cena com outros cinco atores mais jovens, que interpretam os subordinados de seu Sargento Collier na missão de enfrentar os nazistas em plenas linhas inimigas, já nos meses finais da guerra. Experiente e quase cínico, Collier se torna o mentor e protetor do introvertido Norman Ellison (Logan Lerman), que entra na batalha por acaso, sendo escalado para ser um dos pilotos do tanque "Fury" - um dos pouco veículos ainda em funcionamento quando a trama tem início. Extremamente jovem e sem histórico em batalhas campais, Norman a princípio é hostilizado e desprezado pelos colegas (como convém a uma boa história do gênero), mas com a amizade do sargento e o desenrolar dos acontecimentos (quando é obrigado a tomar parte de momentos sangrentos e chocantes), aos poucos torna-se ciente de seu papel no jogo. No meio do caminho, descobre - da pior maneira possível - que a guerra não escolhe vítimas.
O roteiro de David Ayer não chega a ser um primor de criatividade, mas ao menos tem o mérito de proporcionar a seus atores alguns bons diálogos e algumas cenas bastante interessantes, principalmente quando dá um tempo em suas sequências de guerra - bem filmadas, mas nada excepcionais - e concentra-se na forma como cada um dos soldados lida com a trágica situação em que se encontram. Como dita o clichê, existe o soldado cristão Bible (vivido por um discreto e eficiente Shia LaBeouf), o latino Gordo (Michael Peña), o fanfarrão violento Coon-Ass (Jon Bernthal, da série "The walking dead") e o boa-gente Binkowski (Jim Parrack). Ayer não se dá muito ao trabalho de desenvolver com profundidade nenhum deles e nem dar-lhes um passado, mas ainda assim fica difícil não se deixar envolver com eles e seus medos diante de um inimigo real e imediato. Ao contar (mais) uma história de perda de inocência, o diretor disfarça a quase burocracia do roteiro com sua segurança em comandar sequências bem orquestradas de batalha, valorizadas pela fotografia e pelo trabalho de som, que mergulham o espectador no meio do conflito, como é mandatório em um filme de guerra que se preze.
Mesmo que não seja um triunfo completo e não esteja destinado a tornar-se um clássico do gênero, "Corações de ferro" não decepciona aos fãs nem de obras sobre a II Guerra Mundial nem de Brad Pitt. Apesar de contida e discreta, a atuação do ator é um dos maiores destaques do filme de Ayer, mesclando com sutileza sentimentos díspares como fúria, desespero, ternura e firmeza sem nunca deixar de convencer a plateia de que é realmente um homem comum tornado herói diante de circunstâncias extremas. Suas cenas com Logan Lerman - cujo personagem dócil e encantador ele acaba por adotar informalmente, apesar de saber que tais características estão com as horas contadas - são as melhores do filme. Apesar da abundância de lugares-comuns, "Corações de ferro" é um filme de guerra com alma, o que lhe dá um diferencial muito bem-vindo em relação a seus semelhantes. Impossível ficar insensível a suas intenções.
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NINFOMANÍACA, VOLUME 2
NINFOMANÍACA: VOLUME 2 (Nymphomaniac: Vol. II, 2013, Zentropa
Entertainment, 123min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia:
Manuel Alberto Claro. Montagem: Molly Marlene Stensgaard. Direção de
arte: Alexander Scherer. Produção executiva: Peter Garde, Peter Aalbaek
Jensen. Produção: Marie Cecilie Gade, Peter Aalbaek Jensen, Louise
Vesth. Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgard, Stacy Martin,
Shia LaBeouf, Christian Slater, Jamie Bell, Willem Dafoe,
Jean-Marc Barr, Udo Kier. Estreia: 25/12/13
Enquanto o primeiro capítulo do mais polêmico filme de Lars Von Trier tratava de apresentar Joe e sua infância e adolescência - origens de sua autodiagnosticada doença - "Ninfomaníaca, volume 2" se aprofunda ainda mais em sua busca inglória pelo Santo Graal do prazer a todo custo e nas consequências dramáticas de suas escolhas - nem sempre tomadas de forma totalmente racional. Sem mais dividir o papel de protagonista com Stacy Martin, a atriz Charlotte Gainsbourg mostra mais uma vez porque é uma das preferidas do cineasta, com uma performance intensa e corajosa. Finalizando com coerência e ainda mais controvérsia uma obra explosiva e que despertou discussões incansáveis ao redor do planeta, o segundo volume da história de Joe acrescenta ao já variado menu sexual da protagonista sadomasoquismo, lesbianismo, sexo grupal e, para seu desespero, até uma dose de anorgasmia (incapacidade de ter orgasmos). O resultado é uma narrativa que equilibra com sensibilidade uma série de sequências bastante quentes - interpretadas por dublês de corpo - e alguns momentos de partir o coração.
Começando exatamente de onde acabou a primeira parte - quando, casada e apaixonada, Joe se descobre incapaz de ter prazer com o marido, Jerôme (Shia LaBeouf), também pai de seu filho - o filme mostra o desespero da protagonista diante de uma encruzilhada que a obriga a tomar decisões cruéis e revoltantes como forma de sustentar seu estilo particular de vida, regado a sexo compulsivo e por vezes (ao menos na visão tradicional) degradante. Se dando até mesmo ao luxo da auto-citação - com uma sequência que lembra um dos momentos mais fortes de seu "Anticristo" - Lars Von Trier conduz Joe e a plateia por um caminho sombrio e desprovido de glamour, onde o sexo surge não como uma forma de prazer absoluto, mas como uma espécie de inferno particular. Ao não conseguir fugir de sua "doença", Joe se afunda cada vez mais em situações de perigo - sexo a três com desconhecidos, encontros secretos com um jovem cujo fetiche é espancar mulheres e até mesmo um emprego como "cobradora informal" ao lado de criminosos violentos - como forma de expiar seus pecados (nem mesmo a ajuda de um grupo de apoio é capaz de livrá-la do que considera parte de seu ser). Mas, ao contrário do primeiro volume, dessa vez o cineasta deixa a trama perder o foco em algum lugar da estrada.
Mesmo sendo visualmente mais ousado do que o primeiro filme em termos de cenas de sexo e até mesmo em teorias polêmicas (em determinado ponto Joe defende os pedófilos que nunca ultrapassaram a linha do desejo e os classifica como heróis), "Ninfomaníaca, volume 2" perde parte de seu ritmo quando cria uma subtrama desnecessária e quase deslocada, que envolve Joe e um empresário (Willem Dafoe) que a contrata para cobrar dívidas de mau-pagadores. Ok, existe um motivo dramaticamente explicável para tal desvio quase surpreendente da narrativa (e que inclui mais uma história de amor frustrada da protagonista e que acaba por ser a responsável pela situação em que ela se encontra no começo do capítulo inicial), mas é inegável que, depois da avalanche de situações empolgantes/temerárias/controversas discutidas pelo filme, esse desvio de percurso compromete o ritmo do filme e quase o transforma em uma obra de narrativa convencional - impressão que seu final anti-climático (ainda que com uma certa dose de ironia) apenas ajuda a reforçar. A questão que fica, porém, é uma só: "Ninfomaníaca" (os dois volumes juntos) é, afinal um filme misógino ou feminista?
Nem uma coisa nem outra. Lars Von Trier é um cineasta conhecido por colocar suas personagens femininas em situações extremas de humilhação e sofrimento, mas daí a considerá-lo misógino por causa disso é exagero - afinal, ótimas atrizes, como Emily Watson Nicole Kidman, Kirsten Dunst e a própria Charlotte Gainsbourg não iriam sujeitar-se a um diretor com tendências exclusivamente sádicas e sem (boas) histórias para contar. Além do mais, basta examinar com mais cuidado seus filmes anteriores para perceber que, apesar das via-crucis pelas quais passam suas protagonistas, elas não deixam de ser mulheres fortes e determinadas. Joe, por exemplo, pode ser vista tanto como uma vítima das circunstâncias quanto uma senhora de seu destino, por fazer escolhas (muitas delas erradas, mas coerentes com sua personalidade) e pagar o preço por elas estoicamente. Uma mulher ser capaz de entregar-se a uma vida sexual rica e submeter-se aos caprichos masculinos por vontade própria pode soar como uma afronta às feministas, mas não deixa de ser também revolucionário e corajoso. Talvez isso tenha incomodado algumas mulheres e provocado a discussão a respeito das intenções de Von Trier, mas até mesmo essa dubiedade é fascinante e transforma o que poderia ser apenas mais um filme disposto a chamar a atenção pelo comércio do sexo puro e simples em uma obra passível de permanecer por bons anos na berlinda. Afinal de contas, não é isso que se espera de um bom cineasta?
Quanto às virtudes artísticas, é preciso mais uma vez louvar o desempenho de Charlotte Gainsbourg - não à toa integrante da Trilogia da Depressão do cineasta ("Anticristo", "Melancolia" e estes volumes de "Ninfomaníaca" - no papel central. Entregue de corpo e alma a um papel difícil e desafiador, a filha da cantora Jane Birkin e do músico Serge Gainsbourg se mostra uma das mais ousadas atrizes de sua geração e uma parceira à altura dos devaneios de Von Trier. Merecem destaque também as participações de Jamie Bell - o menino revelado em "Billy Elliot", aqui crescido e bem desenvolvido - e Stellan Skarsgard, em uma atuação contida que só vai explodir ao final, quando finalmente revela quem é seu personagem. Resumindo, "Ninfomaníaca, volume 2" é o desfecho impactante de um filme por si só capaz de despertar todos os tipos de sentimento no espectador que procura mais no cinema do que simples diversão. Altamente recomendável - nem que seja para falar mal com argumentos.
Enquanto o primeiro capítulo do mais polêmico filme de Lars Von Trier tratava de apresentar Joe e sua infância e adolescência - origens de sua autodiagnosticada doença - "Ninfomaníaca, volume 2" se aprofunda ainda mais em sua busca inglória pelo Santo Graal do prazer a todo custo e nas consequências dramáticas de suas escolhas - nem sempre tomadas de forma totalmente racional. Sem mais dividir o papel de protagonista com Stacy Martin, a atriz Charlotte Gainsbourg mostra mais uma vez porque é uma das preferidas do cineasta, com uma performance intensa e corajosa. Finalizando com coerência e ainda mais controvérsia uma obra explosiva e que despertou discussões incansáveis ao redor do planeta, o segundo volume da história de Joe acrescenta ao já variado menu sexual da protagonista sadomasoquismo, lesbianismo, sexo grupal e, para seu desespero, até uma dose de anorgasmia (incapacidade de ter orgasmos). O resultado é uma narrativa que equilibra com sensibilidade uma série de sequências bastante quentes - interpretadas por dublês de corpo - e alguns momentos de partir o coração.
Começando exatamente de onde acabou a primeira parte - quando, casada e apaixonada, Joe se descobre incapaz de ter prazer com o marido, Jerôme (Shia LaBeouf), também pai de seu filho - o filme mostra o desespero da protagonista diante de uma encruzilhada que a obriga a tomar decisões cruéis e revoltantes como forma de sustentar seu estilo particular de vida, regado a sexo compulsivo e por vezes (ao menos na visão tradicional) degradante. Se dando até mesmo ao luxo da auto-citação - com uma sequência que lembra um dos momentos mais fortes de seu "Anticristo" - Lars Von Trier conduz Joe e a plateia por um caminho sombrio e desprovido de glamour, onde o sexo surge não como uma forma de prazer absoluto, mas como uma espécie de inferno particular. Ao não conseguir fugir de sua "doença", Joe se afunda cada vez mais em situações de perigo - sexo a três com desconhecidos, encontros secretos com um jovem cujo fetiche é espancar mulheres e até mesmo um emprego como "cobradora informal" ao lado de criminosos violentos - como forma de expiar seus pecados (nem mesmo a ajuda de um grupo de apoio é capaz de livrá-la do que considera parte de seu ser). Mas, ao contrário do primeiro volume, dessa vez o cineasta deixa a trama perder o foco em algum lugar da estrada.
Mesmo sendo visualmente mais ousado do que o primeiro filme em termos de cenas de sexo e até mesmo em teorias polêmicas (em determinado ponto Joe defende os pedófilos que nunca ultrapassaram a linha do desejo e os classifica como heróis), "Ninfomaníaca, volume 2" perde parte de seu ritmo quando cria uma subtrama desnecessária e quase deslocada, que envolve Joe e um empresário (Willem Dafoe) que a contrata para cobrar dívidas de mau-pagadores. Ok, existe um motivo dramaticamente explicável para tal desvio quase surpreendente da narrativa (e que inclui mais uma história de amor frustrada da protagonista e que acaba por ser a responsável pela situação em que ela se encontra no começo do capítulo inicial), mas é inegável que, depois da avalanche de situações empolgantes/temerárias/controversas discutidas pelo filme, esse desvio de percurso compromete o ritmo do filme e quase o transforma em uma obra de narrativa convencional - impressão que seu final anti-climático (ainda que com uma certa dose de ironia) apenas ajuda a reforçar. A questão que fica, porém, é uma só: "Ninfomaníaca" (os dois volumes juntos) é, afinal um filme misógino ou feminista?
Nem uma coisa nem outra. Lars Von Trier é um cineasta conhecido por colocar suas personagens femininas em situações extremas de humilhação e sofrimento, mas daí a considerá-lo misógino por causa disso é exagero - afinal, ótimas atrizes, como Emily Watson Nicole Kidman, Kirsten Dunst e a própria Charlotte Gainsbourg não iriam sujeitar-se a um diretor com tendências exclusivamente sádicas e sem (boas) histórias para contar. Além do mais, basta examinar com mais cuidado seus filmes anteriores para perceber que, apesar das via-crucis pelas quais passam suas protagonistas, elas não deixam de ser mulheres fortes e determinadas. Joe, por exemplo, pode ser vista tanto como uma vítima das circunstâncias quanto uma senhora de seu destino, por fazer escolhas (muitas delas erradas, mas coerentes com sua personalidade) e pagar o preço por elas estoicamente. Uma mulher ser capaz de entregar-se a uma vida sexual rica e submeter-se aos caprichos masculinos por vontade própria pode soar como uma afronta às feministas, mas não deixa de ser também revolucionário e corajoso. Talvez isso tenha incomodado algumas mulheres e provocado a discussão a respeito das intenções de Von Trier, mas até mesmo essa dubiedade é fascinante e transforma o que poderia ser apenas mais um filme disposto a chamar a atenção pelo comércio do sexo puro e simples em uma obra passível de permanecer por bons anos na berlinda. Afinal de contas, não é isso que se espera de um bom cineasta?
Quanto às virtudes artísticas, é preciso mais uma vez louvar o desempenho de Charlotte Gainsbourg - não à toa integrante da Trilogia da Depressão do cineasta ("Anticristo", "Melancolia" e estes volumes de "Ninfomaníaca" - no papel central. Entregue de corpo e alma a um papel difícil e desafiador, a filha da cantora Jane Birkin e do músico Serge Gainsbourg se mostra uma das mais ousadas atrizes de sua geração e uma parceira à altura dos devaneios de Von Trier. Merecem destaque também as participações de Jamie Bell - o menino revelado em "Billy Elliot", aqui crescido e bem desenvolvido - e Stellan Skarsgard, em uma atuação contida que só vai explodir ao final, quando finalmente revela quem é seu personagem. Resumindo, "Ninfomaníaca, volume 2" é o desfecho impactante de um filme por si só capaz de despertar todos os tipos de sentimento no espectador que procura mais no cinema do que simples diversão. Altamente recomendável - nem que seja para falar mal com argumentos.
quarta-feira
NINFOMANÍACA, VOLUME 1
NINFOMANÍACA, VOLUME 1 (Nymphomaniac: Vol. I, 2013, Zentropa
Entertainments, 117min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia:
Manuel Alberto Claro. Montagem: Morten Hojberg, Moly Marlene Stensgaard.
Figurino: Manon Rasmussen. Direção de arte/cenários: Simon Grau
Roney/Thorsten Sabel. Produção executiva: Peter Garde, Peter Aalbaek
Jensen. Produção: Louise Vesth. Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan
Skarsgard, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Christian Slater, Uma Thurman,
Sophie Kennedy Clark, Connie Nielsen, Mia Goth. Estreia: 25/12/13
Lars Von Trier é um cineasta que não tem medo de polêmicas - e, a julgar por sua filmografia recheada de obras provocantes como "Anticristo", "Dogville" e "Ondas do destino" até as procura constantemente. Depois de ter sido banido do Festival de Cannes 2011 por declarações consideradas antissemitas - ele afirmou entender Hitler - o dinamarquês voltou às manchetes no final de 2013 graças a mais um projeto cinematográfico ousado e controverso: dividido em dois volumes lançados simultaneamente, "Ninfomaníaca" já despertava furiosas discussões ao redor do mundo antes mesmo de sua estreia. O motivo? Mais do que nunca, Trier dava munição de sobra a todos que sempre o acusavam de misoginia ao contar a dramática história de Joe, uma mulher cuja impossibilidade de resistir a seus desejos a leva a uma vida repleta de dor e sofrimento. Porém, mesmo que dê continuidade à linhagem de mártires femininas criadas pelo diretor, Joe é, ao mesmo tempo, vítima e heroína, dona de uma complexidade dramática de que só mesmo o talento da atriz Charlotte Gainsbourgh - parceira constante do diretor - conseguiria dar conta. O resultado é uma obra perturbadora como todos os trabalhos anteriores de Trier, mas bem menos "pornográfico" do que o marketing e a curiosidade do público previam.
Misturando matemática, música clássica e filosofia a uma receita explosiva por natureza, Lars Von Trier narra a saga de Joe através de flashbacks, quando ela conta sua história ao solidário Seligman (Stellan Skarsgard), que a encontra caída e extremamente ferida perto de sua casa. Sentindo que pode confiar no homem que a ajudou, Joe revela a ele sua trajetória sexual, que teve início já na infância em brincadeiras com uma amiga. Aos poucos, ela passa para situações mais intensas, como a traumática perda da virgindade com Jerôme (Shia LaBeouf), que a atormentará pela vida inteira. Enquanto discute teorias matemáticas com Seligman e ouve suas histórias sobre pescaria - hobby que ele compara ao vício dela - Joe também revela a importância de seu relacionamento com o pai amoroso (Christian Slater), a amizade competitiva com B (Sophie Kennedy Clark) - que a incentivava a praticar atos ousados como transar com todos os passageiros possíveis de um trem - e a forma como gerenciava uma vida preenchida por inúmeros casos sexuais concomitantes e que resultou em uma experiência pouco agradável com a esposa de um dos amantes (Uma Thurman). Dotada de extrema autocrítica, Joe prepara o espírito de Seligman para chegar até o clímax de sua história - e que a fez acabar espancada na porta de sua casa.
"Ninfomaníaca, volume 1" não é um filme erótico, apesar do que pode parecer ao público menos informado: tudo bem que Lars Von Trier não se furta a mostrar cenas bem mais ousadas do que acontece no cinema comercial, mas não existe gratuidade nas sequências que mostram as desventuras sexuais de sua protagonista. Mesmo em momentos mais explícitos, não é intenção do filme excitar o espectador, e sim retratar com o máximo de realismo a rotina de uma mulher presa a suas próprias armadilhas. Joe sabe desde cedo onde colocar o desejo que lhe acomete - e, a princípio, o faz sem culpa e com um prazer que não teria como passar em branco por um mundo machista e propenso a todo tipo de julgamentos morais. E o castigo por sua liberdade, como se poderia esperar de um filme assinado por Von Trier, vem sem piedade justamente quando ela sente-se disposta a entregar-se ao amor - em uma cena angustiante que prepara o público para a segunda parte, que levará a protagonista ao fundo do poço físico e moral.
Mesmo que seja o rosto de Charlotte Gainsbourgh que enfeite os cartazes de "Ninfomaníaca", é inegável que boa parte do impacto do filme se deve à performance corajosa e intensa de Stacy Martin, que se entrega sem medo ao desafio de interpretar a juventude de Joe mesmo em cenas pra lá de quentes. Com um rosto angelical que contrasta com a voracidade do desejo sexual de sua personagem, Martin cativa a plateia com um misto de conformismo e sensualidade, enquanto contracena com atores do porte de Uma Thurman, Christian Slater e Shia LaBeouf em dias inspiradíssimos. Fotografado com capricho e criativo na edição - que mantém a atenção da plateia do primeiro ao último minuto de projeção - o filme de Von Trier é um primeiro capítulo instigante, repleto das maiores qualidades do cinema do diretor (e também um prato cheio para seus detratores). Como filme é fascinante, e como discussão é ainda melhor, ainda que só faça sentido completo após o término do segundo volume.
Lars Von Trier é um cineasta que não tem medo de polêmicas - e, a julgar por sua filmografia recheada de obras provocantes como "Anticristo", "Dogville" e "Ondas do destino" até as procura constantemente. Depois de ter sido banido do Festival de Cannes 2011 por declarações consideradas antissemitas - ele afirmou entender Hitler - o dinamarquês voltou às manchetes no final de 2013 graças a mais um projeto cinematográfico ousado e controverso: dividido em dois volumes lançados simultaneamente, "Ninfomaníaca" já despertava furiosas discussões ao redor do mundo antes mesmo de sua estreia. O motivo? Mais do que nunca, Trier dava munição de sobra a todos que sempre o acusavam de misoginia ao contar a dramática história de Joe, uma mulher cuja impossibilidade de resistir a seus desejos a leva a uma vida repleta de dor e sofrimento. Porém, mesmo que dê continuidade à linhagem de mártires femininas criadas pelo diretor, Joe é, ao mesmo tempo, vítima e heroína, dona de uma complexidade dramática de que só mesmo o talento da atriz Charlotte Gainsbourgh - parceira constante do diretor - conseguiria dar conta. O resultado é uma obra perturbadora como todos os trabalhos anteriores de Trier, mas bem menos "pornográfico" do que o marketing e a curiosidade do público previam.
Misturando matemática, música clássica e filosofia a uma receita explosiva por natureza, Lars Von Trier narra a saga de Joe através de flashbacks, quando ela conta sua história ao solidário Seligman (Stellan Skarsgard), que a encontra caída e extremamente ferida perto de sua casa. Sentindo que pode confiar no homem que a ajudou, Joe revela a ele sua trajetória sexual, que teve início já na infância em brincadeiras com uma amiga. Aos poucos, ela passa para situações mais intensas, como a traumática perda da virgindade com Jerôme (Shia LaBeouf), que a atormentará pela vida inteira. Enquanto discute teorias matemáticas com Seligman e ouve suas histórias sobre pescaria - hobby que ele compara ao vício dela - Joe também revela a importância de seu relacionamento com o pai amoroso (Christian Slater), a amizade competitiva com B (Sophie Kennedy Clark) - que a incentivava a praticar atos ousados como transar com todos os passageiros possíveis de um trem - e a forma como gerenciava uma vida preenchida por inúmeros casos sexuais concomitantes e que resultou em uma experiência pouco agradável com a esposa de um dos amantes (Uma Thurman). Dotada de extrema autocrítica, Joe prepara o espírito de Seligman para chegar até o clímax de sua história - e que a fez acabar espancada na porta de sua casa.
"Ninfomaníaca, volume 1" não é um filme erótico, apesar do que pode parecer ao público menos informado: tudo bem que Lars Von Trier não se furta a mostrar cenas bem mais ousadas do que acontece no cinema comercial, mas não existe gratuidade nas sequências que mostram as desventuras sexuais de sua protagonista. Mesmo em momentos mais explícitos, não é intenção do filme excitar o espectador, e sim retratar com o máximo de realismo a rotina de uma mulher presa a suas próprias armadilhas. Joe sabe desde cedo onde colocar o desejo que lhe acomete - e, a princípio, o faz sem culpa e com um prazer que não teria como passar em branco por um mundo machista e propenso a todo tipo de julgamentos morais. E o castigo por sua liberdade, como se poderia esperar de um filme assinado por Von Trier, vem sem piedade justamente quando ela sente-se disposta a entregar-se ao amor - em uma cena angustiante que prepara o público para a segunda parte, que levará a protagonista ao fundo do poço físico e moral.
Mesmo que seja o rosto de Charlotte Gainsbourgh que enfeite os cartazes de "Ninfomaníaca", é inegável que boa parte do impacto do filme se deve à performance corajosa e intensa de Stacy Martin, que se entrega sem medo ao desafio de interpretar a juventude de Joe mesmo em cenas pra lá de quentes. Com um rosto angelical que contrasta com a voracidade do desejo sexual de sua personagem, Martin cativa a plateia com um misto de conformismo e sensualidade, enquanto contracena com atores do porte de Uma Thurman, Christian Slater e Shia LaBeouf em dias inspiradíssimos. Fotografado com capricho e criativo na edição - que mantém a atenção da plateia do primeiro ao último minuto de projeção - o filme de Von Trier é um primeiro capítulo instigante, repleto das maiores qualidades do cinema do diretor (e também um prato cheio para seus detratores). Como filme é fascinante, e como discussão é ainda melhor, ainda que só faça sentido completo após o término do segundo volume.
domingo
PARANOIA
PARANOIA (Disturbia, 2007, DreamWorks SKG, 105min) Direção: D.J. Caruso. Roteiro: Christopher Landon, Carl Ellsworth, estória de Christopher Landon. Fotografia: Rogier Stoffers. Montagem: Jim Page. Música: Geoff Zanelli. Figurino: Marie-Sylvie Deveau. Direção de arte/cenários: Tom Southwell/Maria Nay. Produção executiva: Tom Pollock, Ivan Reitman. Produção: Jackie Marcus, Joe Medjuck, E. Benneth Walsh. Elenco: Shia LaBeouf, David Morse, Carrie-Anne Moss, Sarah Roemer, Aaron Yoo, Viola Davis. Estreia: 04/4/07
Uma versão adolescente e moderna de "Janela indiscreta" poderia parecer desnecessária para uns, mercenária para outros e até blasfêmia para os mais exaltados. No entanto, é praticamente isso que "Paranoia", dirigido pelo mesmo D.J. Caruso de "Roubando vidas", é. O mais surpreendente de tudo, porém, não é o fato de uma versão puramente comercial de um clássico do suspense ter sido um sucesso de bilheteria (mais de 80 milhões de dólares arrecadados no mercado doméstico) nem de ter o dedo milionário de Steven Spielberg na produção (através de seu estúdio DreamWorks): o mais admirável é que o filme de Caruso funciona muito bem. Desde a escolha do elenco - o jovem Shia LaBeouf ainda não havia estrelado o blockbuster "Transformers", mas já demonstrava fôlego para segurar produções mais ambiciosas - até a direção dotada de ritmo e tensão, tudo se encaixa à perfeição para criar um entretenimento despretensioso, capaz de agradar até ao mais ferrenho defensor do "purismo cinematográfico".
Levando-se em conta que até mesmo a justiça americana considerou inválida a ação perpetrada pelos detentores dos direitos autorais do conto de Cornell Woolrich que deu origem ao filme de Hitchcock - por perceber no roteiro de "Paranoia" diferenças em número suficiente para dar-lhe uma identidade original - os tais puristas deveriam relaxar e aproveitar 105 minutos de diversão descompromissada e tecnicamente bem-cuidada, como tudo que leva a mão de Spielberg - que mais tarde daria a LaBeouf o papel de filho do arqueólogo mais famoso do cinema, em "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal". Inteligente e com altas doses de adrenalina, "Paranoia" é uma sessão da tarde turbinada, que requer apenas uma plateia disposta a embarcar na trama junto com os protagonistas e uma bom combo de pipoca e refrigerante. Não muda a história do cinema, mas é divertido e muito competente.
Antes de tornar-se mais um jovem ator-problema de Hollywood, Shia LaBeouf vive Kale, um adolescente de 17 anos, órfão de pai - morto em um recente acidente de carro - que, depois de agredir um professor, é condenado a três meses de prisão domiciliar. Sem poder recorrer ao velho e bom video-game e à Internet - cortados por sua mãe, Julie (Carrie-Anne Moss, a Trinity da trilogia "Matrix") - resta a ele acompanhar a rotina diária de sua vizinhança através de um binóculo. Tal rotina torna-se extremamente interessante, porém, quando a bela Ashley (Sarah Roemer) muda-se para uma casa próxima e lhe dá, mesmo sem saber, shows diários de banhos de sol e trocas de roupa em seu quarto. Sua paixão pela nova vizinha ele compartilha com seu melhor amigo, Ronnie (Aaron Yoo), mas logo esse sentimento de paz e amor é ameaçado quando evidências passam a apontar que um outro vizinho, o misterioso Turner (David Morse), é o assassino de uma série de mulheres e que fez uma das vítimas em sua casa. O trio passa então, a investigar o caso, mesmo que Kale não possa afastar-se do quintal de sua propriedade.
Contando sua história aos poucos, sem apressar o ritmo e em tensão crescente, D.J. Caruso mantém o interesse da audiência aceso do início ao fim, equilibrando momentos de puro suspense com outros mais leves, onde explora o romance nascente entre Kale e Ashley - o que leva o filme aos domínios da plateia adolescente, público-alvo da produção, afinal de contas - e dá inevitável espaço para o humor, na figura de Ronnie, que, felizmente, não serve apenas para arrancar risos e também põe a mão na massa na hora de provar a culpa do vilão, vivido com gosto por David Morse, um ator que tem o tipo certo para o personagem e tira de letra a missão de bater de frente com um trio de adolescentes bisbilhoteiros que atrapalham sua trajetória criminosa. Sem poupar ninguém, o suspeito - logo tornado culpado - mostra que não é preciso ser um mascarado atrapalhado para dar sustos na plateia jovem (e nem mesmo naquela nem tão jovem assim). Com um vilão apavorante, um protagonista carismático e uma trama razoavelmente consistente, "Paranoia" é um programa dos bons. Basta não esperar uma obra-prima como o filme que lhe inspirou.
Uma versão adolescente e moderna de "Janela indiscreta" poderia parecer desnecessária para uns, mercenária para outros e até blasfêmia para os mais exaltados. No entanto, é praticamente isso que "Paranoia", dirigido pelo mesmo D.J. Caruso de "Roubando vidas", é. O mais surpreendente de tudo, porém, não é o fato de uma versão puramente comercial de um clássico do suspense ter sido um sucesso de bilheteria (mais de 80 milhões de dólares arrecadados no mercado doméstico) nem de ter o dedo milionário de Steven Spielberg na produção (através de seu estúdio DreamWorks): o mais admirável é que o filme de Caruso funciona muito bem. Desde a escolha do elenco - o jovem Shia LaBeouf ainda não havia estrelado o blockbuster "Transformers", mas já demonstrava fôlego para segurar produções mais ambiciosas - até a direção dotada de ritmo e tensão, tudo se encaixa à perfeição para criar um entretenimento despretensioso, capaz de agradar até ao mais ferrenho defensor do "purismo cinematográfico".
Levando-se em conta que até mesmo a justiça americana considerou inválida a ação perpetrada pelos detentores dos direitos autorais do conto de Cornell Woolrich que deu origem ao filme de Hitchcock - por perceber no roteiro de "Paranoia" diferenças em número suficiente para dar-lhe uma identidade original - os tais puristas deveriam relaxar e aproveitar 105 minutos de diversão descompromissada e tecnicamente bem-cuidada, como tudo que leva a mão de Spielberg - que mais tarde daria a LaBeouf o papel de filho do arqueólogo mais famoso do cinema, em "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal". Inteligente e com altas doses de adrenalina, "Paranoia" é uma sessão da tarde turbinada, que requer apenas uma plateia disposta a embarcar na trama junto com os protagonistas e uma bom combo de pipoca e refrigerante. Não muda a história do cinema, mas é divertido e muito competente.
Antes de tornar-se mais um jovem ator-problema de Hollywood, Shia LaBeouf vive Kale, um adolescente de 17 anos, órfão de pai - morto em um recente acidente de carro - que, depois de agredir um professor, é condenado a três meses de prisão domiciliar. Sem poder recorrer ao velho e bom video-game e à Internet - cortados por sua mãe, Julie (Carrie-Anne Moss, a Trinity da trilogia "Matrix") - resta a ele acompanhar a rotina diária de sua vizinhança através de um binóculo. Tal rotina torna-se extremamente interessante, porém, quando a bela Ashley (Sarah Roemer) muda-se para uma casa próxima e lhe dá, mesmo sem saber, shows diários de banhos de sol e trocas de roupa em seu quarto. Sua paixão pela nova vizinha ele compartilha com seu melhor amigo, Ronnie (Aaron Yoo), mas logo esse sentimento de paz e amor é ameaçado quando evidências passam a apontar que um outro vizinho, o misterioso Turner (David Morse), é o assassino de uma série de mulheres e que fez uma das vítimas em sua casa. O trio passa então, a investigar o caso, mesmo que Kale não possa afastar-se do quintal de sua propriedade.
Contando sua história aos poucos, sem apressar o ritmo e em tensão crescente, D.J. Caruso mantém o interesse da audiência aceso do início ao fim, equilibrando momentos de puro suspense com outros mais leves, onde explora o romance nascente entre Kale e Ashley - o que leva o filme aos domínios da plateia adolescente, público-alvo da produção, afinal de contas - e dá inevitável espaço para o humor, na figura de Ronnie, que, felizmente, não serve apenas para arrancar risos e também põe a mão na massa na hora de provar a culpa do vilão, vivido com gosto por David Morse, um ator que tem o tipo certo para o personagem e tira de letra a missão de bater de frente com um trio de adolescentes bisbilhoteiros que atrapalham sua trajetória criminosa. Sem poupar ninguém, o suspeito - logo tornado culpado - mostra que não é preciso ser um mascarado atrapalhado para dar sustos na plateia jovem (e nem mesmo naquela nem tão jovem assim). Com um vilão apavorante, um protagonista carismático e uma trama razoavelmente consistente, "Paranoia" é um programa dos bons. Basta não esperar uma obra-prima como o filme que lhe inspirou.
sexta-feira
BOBBY
BOBBY (Bobby, 2006, The Weinstein Company, 120min) Direção e roteiro:
Emilio Estevez. Fotografia: Michael Barrett. Montagem: Richard Chew.
Música: Mark Isham. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários:
Patti Podesta/Lisa Fischer, Radha Mehta. Produção executiva: Dan
Grodnick, Anthony Hopkins, Michelle Krumm, Matthew Landon, Gary Michael
Walters. Produção: Edward Bass, Michael Litvak, Holly Wiersma. Elenco:
Harry Belafonte, Emilio Estevez, Laurence Fishburne, Heather Graham,
Anthony Hopkins, Helen Hunt, Joshua Jackson, David Krumholtz, Ashton
Kutscher, Shia LeBeouf, Lindsay Lohan, William H. Macy, Demi Moore,
Freddie Rodriguez, Martin Sheen, Christian Slater, Sharon Stone, Elijah
Wood. Estreia: 05/9/06 (Festival de Veneza)
Em 1991, Oliver Stone lançou o espetacular "JFK", em que investigava o assassinato do presidente John Fitzgerald Kennedy, ocorrido em novembro de 1963, utilizando-se, para isso, de toda a sua parafernália de artifícios narrativos e visuais - deu certo, e, além de várias indicações ao Oscar (e das estatuetas de fotografia e edição) e do sucesso de bilheteria, tornou-se um clássico instantâneo do cinema político e talvez o melhor trabalho de sua carreira. O roteiro - baseado em dois livros com teorias distintas e que paradoxalmente se completavam - citava, em determinado momento, a morte do irmão caçula de John, o senador Robert, assassinado em Los Angeles, justamente quando estava a caminho de tornar-se ele mesmo presidente dos EUA, em 1968. Tal fato, que confirmava o triste destino dos Kennedy e que serviu de combustível a mais em um país em um período de convulsão social - com lutas violentas pelos direitos civis e a guerra do Vietnã suscitando as mais beligerantes discussões entre todas as classes sociais - serve de tema para "Bobby", escrito e dirigido pelo ator/cineasta Emilio Estevez: ao contrário do filme de Stone, porém, Estevez optou por um caminho menos ambicioso, ao utilizar a tragédia apenas como pano de fundo para um representativo painel humano da época. Se por um lado acerta - ao fugir das comparações e evitar controvérsias desnecessárias - também peca - com tantos personagens em cena é difícil aprofundá-los. Mas a indicação ao Golden Globe de melhor filme dramático de 2006 mostra que, entre mortos e feridos, a obra do irmão mais velho de Charlie Sheen tem muito mais méritos do que defeitos.
A trama de "Bobby" se passa no dia 04 de junho de 1968, data das eleições primárias na Califórnia, onde Robert Kennedy é o franco-favorito graças à sua campanha baseada no pacifismo e nos interesses do povo. O QG de sua campanha é o Hotel Ambassador, onde ele é esperado no final da noite para discursar a seus eleitores e apoiadores. E é nesse hotel de luxo em Los Angeles que vários dramas se desenrolam durante o dia, atingindo funcionários e hóspedes que esperam ansiosamente pela chegada do homem que eles acreditam ser capaz de renovar as esperanças do país. Entre eles está o antigo porteiro do hotel, o veterano John Casey (Anthony Hopkins, produtor executivo do filme) e seu velho amigo Nelson (Harry Belafonte), inconscientes dos problemas da cozinha do local, quase implodindo com o racismo do responsável pelo departamento, Daryl (Christian Slater) e pelas conversas entre o experiente cozinheiro Edward (Laurence Fishburne) e o latino Jose (Freddie Rodriguez), contrariado pelo expediente duplo que o impedirá de assistir a um jogo de baseball já clássico antes mesmo de acontecer. É nas dependências dos empregados também que Paul (William H. Macy) esconde da esposa - a cabeleireira Miriam (Sharon Stone) - seu relacionamento com a telefonista Angela (Heather Graham) e os responsáveis pela campanha de Kennedy - Wade (Joshua Jackson) e Dwayne (Nick Cannon) - tentam dar ordem aos jovens cabos eleitorais e organizar a leva de jornalistas sequiosos por entrevistas.
Entre os hóspedes também há espaço para drama: a veterana cantora Virginia Fallon (Demi Moore, que foi noiva de Estevez antes de tornar-se diva sexy) luta contra o vício em álcool enquanto enlouquece seu marido e empresário Tim (o próprio Estevez). O casal Samantha (Helen Hunt) e Jack (Martin Sheen) luta contra a instabilidade mental dela, a jovem Diane (Lindsay Lohan) se casa com o amigo William (Elijah Wood) para impedí-lo de ser chamado ao Vietnã e os dois amigos Jimmy (Brian Geraghty) e Cooper (Shia LaBeouf), em vez de buscar eleitores, entram em uma viagem de LSD proporcionada pelo traficante Fisher (Ashton Kutscher). Como é comum em filmes-coral - popularizados por Robert Altman no início dos anos 90 e quase obrigatórios desde então - os personagens se cruzam ocasionalmente, até o clímax, quando a chegada do senador e a subsequente tragédia unem a todos, independente de classe social, fama ou drama pessoal.
Intercalando cenas reais de discursos de Robert Kennedy aos dramas dos personagens fictícios de seu filme (embora alguns sejam levemente inspirados em histórias reais, como o jovem cozinheiro vivido por Freddie Rodriguez, que ficou ao lado do senador enquanto aguardava o socorro médico e o porteiro interpretado por Anthony Hopkins), Emilio Estevez dá a ele um tom acertado de nostalgia e ao mesmo tempo mostra um amplo painel de relações humanas à luz de sua época, sem soar exageradamente saudosista e demonstrando clara admiração pelas palavras do homem que dá título à sua obra. Enquanto apresenta hippies, ativistas, negros e latinos em busca de aceitação social, jovens com medo da guerra do Vietnã e até repórteres socialistas atrás de cinco minutos de atenção com o homem do dia, o filme também mostra sequências que mostram o carisma enorme de Bobby, ao som da eloquente "The sound of silence", da dupla Simon & Garfunkel - em especial depois dos tiros que o vitimam é díficil não se emocionar com elas, em um toque emocional que chega perto do clichê, mas que funciona muito bem, assim como o encontro de duas das mais belas mulheres do cinema americano da década de 90 (Sharon Stone e Demi Moore) na cena mais interessante do filme, quando elas discutem a força do tempo em relação à efemeridade da juventude.
Talvez a indicação ao Golden Globe de melhor filme tenha sido mais por causa do elenco atraente ou das boas intenções de Estevez - que demorou sete anos para transformar a ideia em algo concreto. Mas é inegável que é um filme correto, sem exageros e até discreto - deixando de lado a atuação vergonhosa de Ashton Kutscher. Vale uma espiada, especialmente por seguir um viés diametralmente oposto ao "JFK" de Oliver Stone.
Em 1991, Oliver Stone lançou o espetacular "JFK", em que investigava o assassinato do presidente John Fitzgerald Kennedy, ocorrido em novembro de 1963, utilizando-se, para isso, de toda a sua parafernália de artifícios narrativos e visuais - deu certo, e, além de várias indicações ao Oscar (e das estatuetas de fotografia e edição) e do sucesso de bilheteria, tornou-se um clássico instantâneo do cinema político e talvez o melhor trabalho de sua carreira. O roteiro - baseado em dois livros com teorias distintas e que paradoxalmente se completavam - citava, em determinado momento, a morte do irmão caçula de John, o senador Robert, assassinado em Los Angeles, justamente quando estava a caminho de tornar-se ele mesmo presidente dos EUA, em 1968. Tal fato, que confirmava o triste destino dos Kennedy e que serviu de combustível a mais em um país em um período de convulsão social - com lutas violentas pelos direitos civis e a guerra do Vietnã suscitando as mais beligerantes discussões entre todas as classes sociais - serve de tema para "Bobby", escrito e dirigido pelo ator/cineasta Emilio Estevez: ao contrário do filme de Stone, porém, Estevez optou por um caminho menos ambicioso, ao utilizar a tragédia apenas como pano de fundo para um representativo painel humano da época. Se por um lado acerta - ao fugir das comparações e evitar controvérsias desnecessárias - também peca - com tantos personagens em cena é difícil aprofundá-los. Mas a indicação ao Golden Globe de melhor filme dramático de 2006 mostra que, entre mortos e feridos, a obra do irmão mais velho de Charlie Sheen tem muito mais méritos do que defeitos.
A trama de "Bobby" se passa no dia 04 de junho de 1968, data das eleições primárias na Califórnia, onde Robert Kennedy é o franco-favorito graças à sua campanha baseada no pacifismo e nos interesses do povo. O QG de sua campanha é o Hotel Ambassador, onde ele é esperado no final da noite para discursar a seus eleitores e apoiadores. E é nesse hotel de luxo em Los Angeles que vários dramas se desenrolam durante o dia, atingindo funcionários e hóspedes que esperam ansiosamente pela chegada do homem que eles acreditam ser capaz de renovar as esperanças do país. Entre eles está o antigo porteiro do hotel, o veterano John Casey (Anthony Hopkins, produtor executivo do filme) e seu velho amigo Nelson (Harry Belafonte), inconscientes dos problemas da cozinha do local, quase implodindo com o racismo do responsável pelo departamento, Daryl (Christian Slater) e pelas conversas entre o experiente cozinheiro Edward (Laurence Fishburne) e o latino Jose (Freddie Rodriguez), contrariado pelo expediente duplo que o impedirá de assistir a um jogo de baseball já clássico antes mesmo de acontecer. É nas dependências dos empregados também que Paul (William H. Macy) esconde da esposa - a cabeleireira Miriam (Sharon Stone) - seu relacionamento com a telefonista Angela (Heather Graham) e os responsáveis pela campanha de Kennedy - Wade (Joshua Jackson) e Dwayne (Nick Cannon) - tentam dar ordem aos jovens cabos eleitorais e organizar a leva de jornalistas sequiosos por entrevistas.
Intercalando cenas reais de discursos de Robert Kennedy aos dramas dos personagens fictícios de seu filme (embora alguns sejam levemente inspirados em histórias reais, como o jovem cozinheiro vivido por Freddie Rodriguez, que ficou ao lado do senador enquanto aguardava o socorro médico e o porteiro interpretado por Anthony Hopkins), Emilio Estevez dá a ele um tom acertado de nostalgia e ao mesmo tempo mostra um amplo painel de relações humanas à luz de sua época, sem soar exageradamente saudosista e demonstrando clara admiração pelas palavras do homem que dá título à sua obra. Enquanto apresenta hippies, ativistas, negros e latinos em busca de aceitação social, jovens com medo da guerra do Vietnã e até repórteres socialistas atrás de cinco minutos de atenção com o homem do dia, o filme também mostra sequências que mostram o carisma enorme de Bobby, ao som da eloquente "The sound of silence", da dupla Simon & Garfunkel - em especial depois dos tiros que o vitimam é díficil não se emocionar com elas, em um toque emocional que chega perto do clichê, mas que funciona muito bem, assim como o encontro de duas das mais belas mulheres do cinema americano da década de 90 (Sharon Stone e Demi Moore) na cena mais interessante do filme, quando elas discutem a força do tempo em relação à efemeridade da juventude.
Talvez a indicação ao Golden Globe de melhor filme tenha sido mais por causa do elenco atraente ou das boas intenções de Estevez - que demorou sete anos para transformar a ideia em algo concreto. Mas é inegável que é um filme correto, sem exageros e até discreto - deixando de lado a atuação vergonhosa de Ashton Kutscher. Vale uma espiada, especialmente por seguir um viés diametralmente oposto ao "JFK" de Oliver Stone.
sábado
CONSTANTINE
CONSTANTINE (Constantine, 2005, Warner Bros, 121min) Direção: Francis Lawrence. Roteiro: Kevin Brodbin, Frank A. Cappello, estória de Kevin Brodbin, HQ de Jamie Delano, Garth Ennis. Fotografia: Phillippe Rousselot. Montagem: Wayne Wahrman. Música: Klaus Badelt, Brian Tyler. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Naomi Shohan/Douglas A. Mowat. Produção executiva: Gilbert Adler, Michael Aguilar. Produção: Lorenzo Di Bonaventura, Akiva Goldsman, Benjamin Melniker, Lauren Shuler Donner, Erwin Stoff, Michael E. Uslan. Elenco: Keanu Reeves, Rachel Weisz, Tilda Swinton, Dijmon Houson, Gavin Rossdale, Shia LeBeouf, Pruitt Taylor Vince, Peter Stormare. Estreia: 16/02/05
Depois do acachapante sucesso de "X-Men" e "Homem-aranha" qualquer herói de HQ que se preze começou a sonhar em virar protagonista de um filme bem-sucedido. Até mesmo personagens mais cultuados que populares entraram na fila e o resultado é "Constantine", adaptação de um comic book inglês que já chegou às telas debaixo de uma saraivada de críticas dos fãs, que foram principalmente contra a escalação do americano e moreno Keanu Reeves para encarnar a personagem principal, que na versão em papel é britânico e louro. No entanto, como boa parte do público nem sabia que existia a personagem antes que o filme estreasse, a obra de Francis Lawrence não ligou para esses detalhes e acabou se tornando apenas mais um produto de entretenimento bem embalado por efeitos visuais e um orçamento generoso que serve como um eficiente passatempo.
Depois do acachapante sucesso de "X-Men" e "Homem-aranha" qualquer herói de HQ que se preze começou a sonhar em virar protagonista de um filme bem-sucedido. Até mesmo personagens mais cultuados que populares entraram na fila e o resultado é "Constantine", adaptação de um comic book inglês que já chegou às telas debaixo de uma saraivada de críticas dos fãs, que foram principalmente contra a escalação do americano e moreno Keanu Reeves para encarnar a personagem principal, que na versão em papel é britânico e louro. No entanto, como boa parte do público nem sabia que existia a personagem antes que o filme estreasse, a obra de Francis Lawrence não ligou para esses detalhes e acabou se tornando apenas mais um produto de entretenimento bem embalado por efeitos visuais e um orçamento generoso que serve como um eficiente passatempo.
E é como um
passatempo que “Constantine” deve ser encarado. Keanu Reeves continua o mesmo
apático de sempre na pele do protagonista John Constantine, que segundo o
roteiro, tem o dom de se comunicar com seres de outro mundo – no caso, anjos,
demônios e afins. Sabendo que está com os dias contados devido a um câncer de
pulmão, ele é procurado pela policial Ângela Doodson (Rachel Weisz, menos
canastra do que o normal), cuja irmã gêmea acaba de cometer suicídio. Ela pede
sua ajuda para provar que algo mais complexo do que o corriqueiro empurrou sua
irmã para a morte e os dois acabam se envolvendo em uma trama que envolve a
tentativa do filho do próprio demônio de subir à Terra.
Apesar de algumas ideias bastante interessantes – como a
escalação de Tilda Swinton como o anjo Gabriel – e um visual sujo o bastante
para transmitir a sensação de desesperança dos protagonistas, o filme de
Lawrence carece principalmente de empatia. Da forma que é interpretado por
Keanu Reeves, o herói John Constantine nunca chega a convencer plenamente, seja
como detetiva seja com ser humano, mostrando mais uma vez as flagrantes falhas
de Reeves como ator. É de se pensar se com outro ator mais talentoso em seu
lugar o resultado não teria sido bem mais forte e marcante. Até mesmo o senso
de humor negro que o roteiro tenta apresentar sofre com a apatia de seu
protagonista.
“Constantine” funciona – e bem – como entretenimento. É bem
realizado, tem uma história suficientemente interessante e uma fotografia
caprichada – cortesia do veterano oscarizado Phillippe Rousselot. Mas perde a
oportunidade tanto de ser um filme inesquecível quanto de começar uma franquia
de grandes possibilidades financeiras. Talvez os fãs dos quadrinhos realmente
tenham razão quanto à ira despertada pela escalação de Keanu Reeves.
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