MARNIE: CONFISSÕES DE UMA LADRA (Marnie, 1964, Universal Pictures,
130min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Jay Presson Allen, romance
de Winston Graham. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini.
Música: Bernard Herrmann. Direção de arte/cenários: Robert F.
Boyle/George Milo. Produção: Alfred Hitchcock. Elenco: Tippi Hedren,
Sean Connery, Martin Gabel, Louise Latham, Diane Baker, Bruce Dern. Estreia: 09/7/64
Em 1962, uma das notícias mais quentes e surpreendentes que rolavam nos bastidores de Hollywood dizia respeito a uma possível volta de Grace Kelly às telas. Casada desde 1956 com o Príncipe Rainier III, do Condado de Mônaco, a bela e talentosa musa vencedora do Oscar por "Amar é sofrer" (54) estava em negociações com o cineasta Alfred Hitchcock - com quem havia realizado os inesquecíveis "Janela indiscreta" (54), "Disque M para matar" (54) e "Ladrão de casaca" (55) - para um retorno não definitivo, mas muito esperado pelo público, saudoso de uma das mais populares atrizes de sua época. Interessada no roteiro e disposta a dividir seu tempo entre as filmagens e suas responsabilidades como princesa, Kelly acabou desistindo da ideia, para tristeza dos fãs e alívio de todos que a cercavam no principado - que, como mostra o filme "Grace de Mônaco" (2014), de Olivier Dahan, passava por uma grave crise financeira e política e não via com bons olhos tal "excentricidade". É possível, também, que os conselheiros de Rainier não estivessem muito entusiasmados com a ideia de sua princesa voltar aos cinemas interpretando uma cleptomaníaca frígida e com traumas de infância bem pouco compatíveis com sua imagem pública. Era o fim de um sonho - e Kelly nunca mais faria nenhum outro filme.
A saída de Grace Kelly do elenco de "Marnie, confissões de uma ladra" não chegou a ser uma surpresa para Hitchcock, que, apesar de sua amizade com a atriz, sabia dos empecilhos que a impediam de aceitar seu convite. Com o papel principal sem dona, o cineasta começou, então, uma sofrida procura por alguém capaz de interpretar todas as nuances da personagem - e que aceitasse seus métodos algumas vezes heterodoxos de direção. Nomes como Eva Marie Saint - com quem ele havia trabalhado em "Intriga internacional" (59) - e Vera Miles - com quem o diretor mantinha uma relação de amor e ódio desde que ela havia engravidado pouco antes de começar a filmar "Um corpo que cai" (58) - foram levantados como hipóteses plausíveis, e até mesmo Marilyn Monroe foi cogitada, depois de ter demonstrado interesse no projeto. No final das contas, depois de estudar diversas possibilidades, Hitchcock acabou recorrendo à protagonista de seu filme anterior, "Os pássaros" (63) - e ofereceu à Tippi Hedren a maior personagem de sua carreira. Mesmo que pelo período de filmagens ela e o cineasta tenham se estranhado constantemente, o resultado final acabou por compensar qualquer problema: nunca a mãe de Melanie Griffith esteve tão bem em cena quanto nesse atípico drama de suspense, com conotações sexuais ousadas até mesmo para os liberais anos 60.
Baseado em um romance de Winston Graham - que declarou posteriormente que teria cedido da graça os direitos de sua obra à Hitchcock, dada a sua importância na história do cinema - "Marnie" começou a ser adaptado pelo mesmo Joseph Stefano que havia assinado "Psicose", um dos maiores sucessos de bilheteria do diretor. O roteiro de Stefano (com Grace Kelly em mente para a personagem-título) era mais próximo da obra original, mas acabou sendo deixado de lado quando a princesa deixou o projeto. Entre as alterações mais significativas do novo texto, sob o comando de Jay Presson Allen, estava a eliminação de um personagem crucial (um psiquiatra que ajudaria Marnie a enfrentar seus fantasmas do passado) e um segundo pretendente ao coração da protagonista, transformado, no filme, na cunhada de Mark (Sean Connery), a dedicada Lil (papel que foi cobiçado por Jane Fonda mas que acabou nas mãos de Diane Baker). Tendendo muito mais para o drama psicológico do que para o suspense, o roteiro final de "Marnie, confissões de uma ladra" acabou oferecendo à Hedren a chance de mostrar outra faceta de seu talento - e de comprovar Hitchcock como um cineasta capaz de buscar elementos de gêneros diversos para mesclar a seu universo particular.
O filme conta a complexa e estranha história de amor entre Marnie Edgar (Tippi Hedren), uma cleptomaníaca com sérios problemas de relacionamento com mãe, Bernice (Louise Latham), e o milionário Mark Rutland (Sean Connery já tentando ser mais do que James Bond, em papel cogitado para Paul Newman, Marlon Brando e Peter O'Toole). Sabendo dos problemas de Marnie, Mark se casa com ela ao invés de denunciá-la, mas descobre, na lua-de-mel, que roubar é o menor dos males da jovem esposa: acontecimentos traumáticos em seu passado a levam a recusar qualquer tipo de toque, além de ter ataques histéricos sempre que vê a cor vermelha. Disposto a ajudá-la a superar seus dramas, Mark lhe propõe repor tudo que ela roubou, desde que ela aceite ser analisada. Equilibrando cenas de puro suspense - um roubo de Marnie quase sendo descoberto por uma faxineira, por exemplo - com momentos que traem a tendência da época em utilizar-se da psicanálise como instrumento narrativo, Hitchcock abandona sua zona de conforto ao criar um protagonista masculino de índole dúbia - Mark praticamente estupra Marnie na lua-de-mel - e uma heroína tragicamente presa a um passado violento e brutal. Ao oferecer ao casal uma chance de redenção, o cineasta mostra que, no fundo, por trás de seu quase cinismo, ainda existia um romântico. A seu modo tortuoso, "Marnie, confissões de uma ladra" é, no fim das contas, um romance torturado e angustiante como somente Hitch conseguiria realizar.
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segunda-feira
domingo
O PROFESSOR ALOPRADO
O PROFESSOR ALOPRADO (The nutty professor, 1963, Paramount Pictures,
107min) Direção: Jerry Lewis. Roteiro: Jerry Lewis, Bill Richmond.
Fotografia: W. Wallace Kelley. Montagem: John Woodcock. Música: Walter
Scharf. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Hal Pereira,
Walter Tyler/Robert Benton, Sam Comer. Produção: Ernest D. Glucksman.
Elenco: Jerry Lewis, Stelle Stevens, Del Moore, Kathleen Freeman.
Estreia: 04/6/63
Em 1996, o ator Eddie Murphy reencontrou o caminho das bilheterias milionárias com "O professor aloprado", uma comédia dirigida por Tom Shadyac que explorava ao máximo seu talento em transformações físicas e no humor escatológico. O filme não apenas recuperou o sucesso comercial de Murphy, como também levou pra casa um justíssimo Oscar de maquiagem e, mais importante ainda, relevou a uma nova geração de espectadores o filme original, um dos mais populares e importantes da carreira de Jerry Lewis. Lançado em 1963, no auge de seu sucesso como autor total de seus filmes - ele atuava, dirigia, escrevia o roteiro e produzia - "O professor aloprado" brincava com o conceito Dr. Jekyll e Mr. Hyde criado por Robert Louis Stevenson em "O médico e o monstro" para fazer uma severa crítica à valorização oca da beleza física em detrimento de sentimentos mais nobres. Parece um discurso sentimentaloide, mas nas mãos de Lewis, especialista em desconstruir os mais sérios discursos com a delicadeza de uma marreta, tudo é desculpa para uma série de gags - que se dividem entre as bem-sucedidas e as que não conseguem chegar lá.
Dotado do visual camp inconfundível dos anos sessenta, "O professor aloprado" apresenta Lewis como seu personagem arquetípico, o desajeitado, sem graça e fracassado amorosamente Julius Kelp, um mestre de química que, apesar da inteligência acima da média, não consegue nem mesmo o respeito de seus alunos, que não se cansam de debochar de seu visual, de sua voz esganiçada e de seu sorriso dentuço. Vítima constante de bullying até dentro de sala de aula e apaixonado pela delicada Stella Purdy (Stella Stevens), ele resolve mudar de vida, mas quando até suas tentativas de enfrentar uma rotina de exercícios de musculação não dão resultado, ele apela para uma fórmula secreta que lhe transforma - depois de muitas experiências mal-sucedidas - em um galã de fala mansa mas um tanto agressivo e sedutor. Buddy Love, com seu jeito galanteador de quinta categoria, acaba por seduzir Stella, sem dar chance à real personalidade de Kelp de mostrar suas qualidades.
Segundo as más-línguas, Jerry Lewis criou o antipático e canastrão Buddy Love inspirado em seu ex-parceiro de palco e telas Dean Martin - embora tenha semelhanças também com o líder do grupo de amigos de Martin, o cantor Frank Sinatra. Verdade ou não, é fato que a divisão do ator em dois personagens tão díspares apenas comprova sua versatilidade e capacidade de deixar de lado a persona infantiloide que tanto encantava o público infantil e os franceses em geral. Apaixonados pela obra de Lewis - muito mais do que seus conterrâneos, que frequentemente não valorizavam seus esforços artísticos - os críticos da França o viam como um autor do mesmo nível de Charles Chaplin, ao contrário dos norte-americanos, que menosprezavam seu trabalho como algo puramente comercial. O fato de que o astro não era exatamente uma pessoa de fácil convivência ajudava a relegá-lo a uma espécie de limbo profissional, em que era adorado pelos fãs mas detestado por todos que o rodeavam - e talvez isso deixe claro que Buddy Love era apenas uma faceta do próprio Lewis, que ele preferia esconder do grande público enquanto fazia suas pataquadas. Psicologismos à parte, "O professor aloprado" é, hoje, um filme que parece não ter resistido muito ao teste do tempo.
Além do visual sessentista - charmoso mas um tanto desconfortável pelo excesso de cores fortes que lhe dão um ar psicodélico hoje um tanto anacrônico - e de um ritmo por vezes claudicante, o filme de Jerry Lewis se arrasta mais do que deveria, demorando a apresentar a segunda personalidade do protagonista até quase metade da projeção. O roteiro - escrito e reescrito diversas vezes - não chega a empolgar, sempre dando a impressão de ser um fiapo de história feito com o objetivo de ligar várias cenas onde o ator pode exercitar seu egocentrismo (e, convém dizer, seu talento). Os atores coadjuvantes são outro problema, jamais fazendo jus ao esforço de Lewis em dar consistência a um conjunto não muito bem estruturado. A impressão de que o show é unicamente do ator é nítida, e, apesar de ele conseguir manter a atenção até o final da narrativa, seus exageros nem sempre funcionam como deveriam. Apesar disso, é uma comédia que é a cara de sua época, e um exemplo mais que perfeito do que Jerry Lewis era capaz em seu apogeu. Uns (como os franceses) veneram. Outros se aborrecem. Basta escolher um lado.
Em 1996, o ator Eddie Murphy reencontrou o caminho das bilheterias milionárias com "O professor aloprado", uma comédia dirigida por Tom Shadyac que explorava ao máximo seu talento em transformações físicas e no humor escatológico. O filme não apenas recuperou o sucesso comercial de Murphy, como também levou pra casa um justíssimo Oscar de maquiagem e, mais importante ainda, relevou a uma nova geração de espectadores o filme original, um dos mais populares e importantes da carreira de Jerry Lewis. Lançado em 1963, no auge de seu sucesso como autor total de seus filmes - ele atuava, dirigia, escrevia o roteiro e produzia - "O professor aloprado" brincava com o conceito Dr. Jekyll e Mr. Hyde criado por Robert Louis Stevenson em "O médico e o monstro" para fazer uma severa crítica à valorização oca da beleza física em detrimento de sentimentos mais nobres. Parece um discurso sentimentaloide, mas nas mãos de Lewis, especialista em desconstruir os mais sérios discursos com a delicadeza de uma marreta, tudo é desculpa para uma série de gags - que se dividem entre as bem-sucedidas e as que não conseguem chegar lá.
Dotado do visual camp inconfundível dos anos sessenta, "O professor aloprado" apresenta Lewis como seu personagem arquetípico, o desajeitado, sem graça e fracassado amorosamente Julius Kelp, um mestre de química que, apesar da inteligência acima da média, não consegue nem mesmo o respeito de seus alunos, que não se cansam de debochar de seu visual, de sua voz esganiçada e de seu sorriso dentuço. Vítima constante de bullying até dentro de sala de aula e apaixonado pela delicada Stella Purdy (Stella Stevens), ele resolve mudar de vida, mas quando até suas tentativas de enfrentar uma rotina de exercícios de musculação não dão resultado, ele apela para uma fórmula secreta que lhe transforma - depois de muitas experiências mal-sucedidas - em um galã de fala mansa mas um tanto agressivo e sedutor. Buddy Love, com seu jeito galanteador de quinta categoria, acaba por seduzir Stella, sem dar chance à real personalidade de Kelp de mostrar suas qualidades.
Segundo as más-línguas, Jerry Lewis criou o antipático e canastrão Buddy Love inspirado em seu ex-parceiro de palco e telas Dean Martin - embora tenha semelhanças também com o líder do grupo de amigos de Martin, o cantor Frank Sinatra. Verdade ou não, é fato que a divisão do ator em dois personagens tão díspares apenas comprova sua versatilidade e capacidade de deixar de lado a persona infantiloide que tanto encantava o público infantil e os franceses em geral. Apaixonados pela obra de Lewis - muito mais do que seus conterrâneos, que frequentemente não valorizavam seus esforços artísticos - os críticos da França o viam como um autor do mesmo nível de Charles Chaplin, ao contrário dos norte-americanos, que menosprezavam seu trabalho como algo puramente comercial. O fato de que o astro não era exatamente uma pessoa de fácil convivência ajudava a relegá-lo a uma espécie de limbo profissional, em que era adorado pelos fãs mas detestado por todos que o rodeavam - e talvez isso deixe claro que Buddy Love era apenas uma faceta do próprio Lewis, que ele preferia esconder do grande público enquanto fazia suas pataquadas. Psicologismos à parte, "O professor aloprado" é, hoje, um filme que parece não ter resistido muito ao teste do tempo.
Além do visual sessentista - charmoso mas um tanto desconfortável pelo excesso de cores fortes que lhe dão um ar psicodélico hoje um tanto anacrônico - e de um ritmo por vezes claudicante, o filme de Jerry Lewis se arrasta mais do que deveria, demorando a apresentar a segunda personalidade do protagonista até quase metade da projeção. O roteiro - escrito e reescrito diversas vezes - não chega a empolgar, sempre dando a impressão de ser um fiapo de história feito com o objetivo de ligar várias cenas onde o ator pode exercitar seu egocentrismo (e, convém dizer, seu talento). Os atores coadjuvantes são outro problema, jamais fazendo jus ao esforço de Lewis em dar consistência a um conjunto não muito bem estruturado. A impressão de que o show é unicamente do ator é nítida, e, apesar de ele conseguir manter a atenção até o final da narrativa, seus exageros nem sempre funcionam como deveriam. Apesar disso, é uma comédia que é a cara de sua época, e um exemplo mais que perfeito do que Jerry Lewis era capaz em seu apogeu. Uns (como os franceses) veneram. Outros se aborrecem. Basta escolher um lado.
sábado
A PANTERA COR-DE-ROSA
A PANTERA COR-DE-ROSA (The Pink Panther, 1963, MGM Pictures,
115min) Direção: Blake Edwards. Roteiro: Maurice Richlin, Blake Edwards.
Fotografia: Philip Lathrop. Montagem: Ralph E. Winters. Música: Henry
Mancini. Direção de arte/cenários: Fernando Carrere/Reginald Allen,
Arrigo Breschi, Jack Stevens. Produção: Martin Jurow. Elenco: Peter
Sellers, David Niven, Robert Wagner, Capucine, Claudia Cardinale.
Estreia: 18/12/63 (Itália)
Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original
Em Hollywood, acontece dessas coisas: "A pantera cor-de-rosa" era para ser um veículo para o britânico David Niven apresentar seu novo personagem, o fleumático ladrão de joias Charles Lytton, sério candidato a tornar-se protagonista de uma série de outros filmes, algo assim como uma versão cômica e fora-da-lei de James Bond. Para surpresa de todos, no entanto, quem acabou conquistando as plateias e a crítica não foi seu elegante larápio - apesar de sua atuação sempre exata - mas sim um personagem coadjuvante que, graças à inspiradíssima interpretação de seu ator, roubou a cena e ganhou, ainda no mesmo ano 1963, um filme só para si. O atrapalhado Inspetor Clouseau, que caiu nas mãos de Peter Sellers depois da deserção do ator original, Peter Ustinov, agradou tanto ao público que voltou meros três meses depois da estreia do primeiro filme, já como protagonista absoluto, no igualmente bem-sucedido "Um tiro no escuro" (64), que, por sua vez, rendeu outras três continuações e, até a data, duas refilmagens (com Steve Martin) e uma produção caça-níqueis estrelada pelo histérico Roberto Benigni.
A entrada de Peter Sellers no elenco de "A pantera cor-de-rosa" - cujos emblemáticos créditos de abertura contam com a música inconfundível de Henry Mancini e com a genial animação criada por David H. DePatie e Fritz Freleng - aconteceu quase por acaso, justamente devido a problemas de pré-produção tão comuns quanto providenciais. Contratado para viver o desastrado Inspetor Clouseau, o premiado Peter Ustinov já estava em Roma para começar as filmagens quando saiu abruptamente do projeto. Uma versão da história diz que o fato teve a ver com o processo movido pela Mirsch Company - que foi afastada da produção pelo ator - mas a que parece mais apetitosa (e a que foi mais divulgada com os anos) envolve fofocas de bastidores com gente mais graúda. Segundo sua autobiografia, Janet Leigh havia sido convidada para interpretar Simone Clouseau, a esposa do inspetor que caça um ladrão de joias pela Europa, mas declinou do convite por ter se casado recentemente (com seu quarto marido, Robert Brandt) e não ter a intenção de viajar. Os produtores, então, ofereceram o papel à Ava Gardner, que aceitou a proposta. Duas semanas antes do início das filmagens, porém, uma radical mudança de ideia alterou todos os planos: temendo que os caprichos de Gardner (e seu salário acima da média para um filme de orçamento modesto) pudessem complicar a vida de todos os envolvidos, a produção achou melhor optar por algo menos ambicioso e substituiu "o animal mais lindo do mundo" pela bela e (bem) menos famosa Capucine.
Tal substituição, em tese, não teria agradado à esposa de Ustinov, que via nela uma considerável diminuição nas ambições artísticas e comerciais do filme. Sendo assim, o ator pulou fora do barco, deixando espaço para o então desconhecido Peter Sellers, que agarrou a chance com unhas e dentes. Já durante as filmagens a equipe - e o diretor Blake Edwards - viram o potencial do personagem, expandido graças ao talento imenso de Sellers em improvisar em cima do material que lhe era oferecido. Com total liberdade para criar em cena, o ator acabou por transformar um coadjuvante engraçadinho em um dos maiores e mais famosos personagens da comédia norte-americana, com um humor estabanado e ingênuo que fazia rir mesmo em silêncio. Basta que se assista às suas cenas para que se perceba claramente que, apesar do roteiro inteligente e do elenco afiado, "A pantera cor-de-rosa" só resiste bravamente ao tempo por causa das palhaçadas do Inspetor Clouseau - em especial a genial sequência em que sua mulher tenta esconder dele, em um pequeno quarto de hotel, seu amante (David Niven) e o sobrinho (um jovem Robert Wagner), que está lutando para seduzí-la: é um momento genial do humor, que faz rir tanto pelo absurdo da situação quanto pelo talento dos seus atores em torná-la crível e extremamente divertida.
A história de "A pantera cor-de-rosa" é quase uma desculpa para o desfile de gags de Sellers e da elegância de David Niven, destilando seu charme inglês a cada cena. No filme, ele vive Sir Charles Lytton, um cavalheiro britânico que, sem que a polícia desconfie, é na verdade o procurado ladrão de joias conhecido como Fantasma. Quando a história começa, ele está planejando o grande golpe de sua carreira, o espetacular roubo da Pantera Cor-de-Rosa, um diamante de propriedade de uma princesa indiana (Claudia Cardinale) que está passando uma temporada em Roma. Na capital italiana, Lytton começa a por seu plano em prática, mas sem levar em consideração a perseguição do Inspetor Clouseau (Sellers), um policial francês cuja esposa, Simone (Capucine), é sua amante. A chegada à Roma de George (Robert Wagner), sobrinho do criminoso, complica ainda mais as coisas - especialmente quando Simone se revela parte do esquema armado por Charles. Todas as situações levam ao mesmo clímax: uma grande festa onde finalmente a polícia conseguirá (ou não) caçar um de seus maiores desafetos.
Com um roteiro caprichado nas mãos e um timing excepcional para comédias - o que demonstrava sua versatilidade, uma vez que vinha do denso e poderoso "Vício maldito" (62) - o diretor Blake Edwards deu o pontapé inicial em uma das mais populares séries cômicas do cinema americano e em uma parceria certeira com Peter Sellers, que também rendeu o impecável "Um convidado bem trapalhão" (68). Com seu brilhante senso de humor e confiança na inteligência da plateia, Edwards mostrou que fazer rir também é uma arte. E o público, agradecido, lotou as salas de cinema e deu vida longa ao atrapalhado Inspetor Clouseau.
Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original
Em Hollywood, acontece dessas coisas: "A pantera cor-de-rosa" era para ser um veículo para o britânico David Niven apresentar seu novo personagem, o fleumático ladrão de joias Charles Lytton, sério candidato a tornar-se protagonista de uma série de outros filmes, algo assim como uma versão cômica e fora-da-lei de James Bond. Para surpresa de todos, no entanto, quem acabou conquistando as plateias e a crítica não foi seu elegante larápio - apesar de sua atuação sempre exata - mas sim um personagem coadjuvante que, graças à inspiradíssima interpretação de seu ator, roubou a cena e ganhou, ainda no mesmo ano 1963, um filme só para si. O atrapalhado Inspetor Clouseau, que caiu nas mãos de Peter Sellers depois da deserção do ator original, Peter Ustinov, agradou tanto ao público que voltou meros três meses depois da estreia do primeiro filme, já como protagonista absoluto, no igualmente bem-sucedido "Um tiro no escuro" (64), que, por sua vez, rendeu outras três continuações e, até a data, duas refilmagens (com Steve Martin) e uma produção caça-níqueis estrelada pelo histérico Roberto Benigni.
A entrada de Peter Sellers no elenco de "A pantera cor-de-rosa" - cujos emblemáticos créditos de abertura contam com a música inconfundível de Henry Mancini e com a genial animação criada por David H. DePatie e Fritz Freleng - aconteceu quase por acaso, justamente devido a problemas de pré-produção tão comuns quanto providenciais. Contratado para viver o desastrado Inspetor Clouseau, o premiado Peter Ustinov já estava em Roma para começar as filmagens quando saiu abruptamente do projeto. Uma versão da história diz que o fato teve a ver com o processo movido pela Mirsch Company - que foi afastada da produção pelo ator - mas a que parece mais apetitosa (e a que foi mais divulgada com os anos) envolve fofocas de bastidores com gente mais graúda. Segundo sua autobiografia, Janet Leigh havia sido convidada para interpretar Simone Clouseau, a esposa do inspetor que caça um ladrão de joias pela Europa, mas declinou do convite por ter se casado recentemente (com seu quarto marido, Robert Brandt) e não ter a intenção de viajar. Os produtores, então, ofereceram o papel à Ava Gardner, que aceitou a proposta. Duas semanas antes do início das filmagens, porém, uma radical mudança de ideia alterou todos os planos: temendo que os caprichos de Gardner (e seu salário acima da média para um filme de orçamento modesto) pudessem complicar a vida de todos os envolvidos, a produção achou melhor optar por algo menos ambicioso e substituiu "o animal mais lindo do mundo" pela bela e (bem) menos famosa Capucine.
Tal substituição, em tese, não teria agradado à esposa de Ustinov, que via nela uma considerável diminuição nas ambições artísticas e comerciais do filme. Sendo assim, o ator pulou fora do barco, deixando espaço para o então desconhecido Peter Sellers, que agarrou a chance com unhas e dentes. Já durante as filmagens a equipe - e o diretor Blake Edwards - viram o potencial do personagem, expandido graças ao talento imenso de Sellers em improvisar em cima do material que lhe era oferecido. Com total liberdade para criar em cena, o ator acabou por transformar um coadjuvante engraçadinho em um dos maiores e mais famosos personagens da comédia norte-americana, com um humor estabanado e ingênuo que fazia rir mesmo em silêncio. Basta que se assista às suas cenas para que se perceba claramente que, apesar do roteiro inteligente e do elenco afiado, "A pantera cor-de-rosa" só resiste bravamente ao tempo por causa das palhaçadas do Inspetor Clouseau - em especial a genial sequência em que sua mulher tenta esconder dele, em um pequeno quarto de hotel, seu amante (David Niven) e o sobrinho (um jovem Robert Wagner), que está lutando para seduzí-la: é um momento genial do humor, que faz rir tanto pelo absurdo da situação quanto pelo talento dos seus atores em torná-la crível e extremamente divertida.
A história de "A pantera cor-de-rosa" é quase uma desculpa para o desfile de gags de Sellers e da elegância de David Niven, destilando seu charme inglês a cada cena. No filme, ele vive Sir Charles Lytton, um cavalheiro britânico que, sem que a polícia desconfie, é na verdade o procurado ladrão de joias conhecido como Fantasma. Quando a história começa, ele está planejando o grande golpe de sua carreira, o espetacular roubo da Pantera Cor-de-Rosa, um diamante de propriedade de uma princesa indiana (Claudia Cardinale) que está passando uma temporada em Roma. Na capital italiana, Lytton começa a por seu plano em prática, mas sem levar em consideração a perseguição do Inspetor Clouseau (Sellers), um policial francês cuja esposa, Simone (Capucine), é sua amante. A chegada à Roma de George (Robert Wagner), sobrinho do criminoso, complica ainda mais as coisas - especialmente quando Simone se revela parte do esquema armado por Charles. Todas as situações levam ao mesmo clímax: uma grande festa onde finalmente a polícia conseguirá (ou não) caçar um de seus maiores desafetos.
Com um roteiro caprichado nas mãos e um timing excepcional para comédias - o que demonstrava sua versatilidade, uma vez que vinha do denso e poderoso "Vício maldito" (62) - o diretor Blake Edwards deu o pontapé inicial em uma das mais populares séries cômicas do cinema americano e em uma parceria certeira com Peter Sellers, que também rendeu o impecável "Um convidado bem trapalhão" (68). Com seu brilhante senso de humor e confiança na inteligência da plateia, Edwards mostrou que fazer rir também é uma arte. E o público, agradecido, lotou as salas de cinema e deu vida longa ao atrapalhado Inspetor Clouseau.
sexta-feira
O LEOPARDO
O LEOPARDO (Il gattopardo, 1963, Titanus, 187min) Direção: Luchino Visconti. Roteiro: Suso Cecchi D'Amico, Pasquale Festa Campanile, Enrico Medioli, Massimo Franciosa, Luchino Visconti, romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa. Fotografia: Giuseppe Rottuno. Montagem: Mario Serandrei. Música: Nino Rota. Figurino: Piero Tosi. Direção de arte/cenários: Mario Garbuglia/Laudomia Herculani, Giorgio Pes. Produção executiva: Pietro Notarianni. Produção: Goffredo Lombardo. Elenco: Burt Lancaster, Claudia Cardinale, Alain Delon, Paolo Stoppa, Giuliano Gemma. Estreia: 27/3/63
Indicado ao Oscar de Figurino
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes
O filme preferido do cineasta Martin Scorsese é, hoje, um dos clássicos mais cultuados do cinema, graças principalmente a seu cuidado com o visual - uma das características mais marcantes de seu diretor Luchino Visconti - e à atenção dada à fidelidade da adaptação do romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, uma crônica tão ácida quanto poética da decadência da aristocracia italiana no século XIX através da figura de seu protagonista, o Príncipe Fabrizio di Salina, em uma aplaudida interpretação do americano Burt Lancaster. Fotografado brilhantemente por Giuseppe Rottuno e com uma minuciosa reconstituição de época que rendeu a Piero Tosi uma indicação ao Oscar de figurino, "O Leopardo" é, sem dúvida, um filme que encanta os olhos do espectador. Mas, é preciso que se diga, é necessária uma paciência maior do que a normal para encarar a narrativa construída por Visconti e poder se deliciar com suas belas imagens: em mais de três horas de duração, os acontecimentos se sucedem de forma lenta e contemplativa, sob o olhar ora atônito ora compreensivo de seu protagonista. Definitivamente é um filme que nem de longe irá agradar ao público médio acostumado com o ritmo do cinema hollywoodiano.
E nem mesmo Hollywood conseguiu digerir apropriadamente o filme de Visconti - ele mesmo um aristocrata com simpatias claras e explícitas com o comunismo. Distribuído pela Fox no mercado de língua inglesa, "O Leopardo" foi um fracasso de bilheteria quase previsível, apesar das críticas positivas e do elenco internacional que incluía, além de Lancaster, o francês Alain Delon (amigo pessoal do diretor e que foi escalado apesar das tentativas de Warren Beatty em participar do projeto) e a italiana Claudia Cardinale. O nome de Lancaster - a essa altura já premiado com o Oscar de melhor ator por "Entre Deus e o pecado" (60) - foi sugerido à Visconti pelos produtores, que tentavam, assim, incluir um nome conhecido mundialmente e que pudesse despertar a atenção das plateias que não conheciam a trajetória do cineasta italiano, mais prestigiado entre a crítica e os festivais de cinema do que exatamente por êxitos comerciais. Visconti queria Laurence Olivier no papel principal, e até Marlon Brando e Gregory Peck foram considerados (já que a Fox financiaria parte do orçamento caso um astro americano estrelasse o filme), mas foi o ator de "A um passo da eternidade" (53) que acabou conquistando o veterano diretor, convencido finalmente após vê-lo em cena no clássico "Julgamento em Nuremberg" (61). A relação entre diretor e astro, no entanto, não foi feita apenas de flores: demorou até que Lancaster mostrasse à Visconti sua imersão e dedicação ao papel - algo que aconteceu e foi reiterado com uma nova colaboração em 1974, no filme "Violência e paixão".
"O Leopardo" não tem uma história envolvente e repleta de acontecimentos dramáticos, podendo ser classificado mais como uma crônica dos costumes sicilianos do século XIX e suas transformações sociais do que exatamente como um drama romântico ou algo parecido. Ao adaptar fielmente o livro de Lampedusa em imagens e atmosfera, Visconti - que em sua vitoriosa carreira ainda assinaria a difícil adaptação de "Morte em Veneza", de Thomas Mann - opta por um viés mais bucólico e sentimental, que reflete o tom de nostalgia que perpassa toda a sua narrativa. Em seus quarenta minutos finais - um espetacular baile que sublinha visualmente todas as questões da trama - um dos mais elegantes cineastas da história apresenta à plateia um retrato quase melancólico de uma metamorfose inevitável, que, segundo diz o personagem central, mostra que, às vezes, "é preciso mudar tudo para que as coisas permaneçam como estão.". E é esse o pensamento central do filme e do Príncipe Fabrizio, vivido com maestria por um Burt Lancaster diferente de tudo que havia feito até então, com um ar de sobriedade e elegância dos mais intensos do cinema.
A trama - simples, minimalista, quase inexistente - gira em torno do Príncipe Fabrizio Di Salina, um aristocrata italiano que, depois de hesitar por um algum tempo, finalmente passa a aceitar a união entre seu mundo de luxo, pompa e circunstância com a burguesia que tanto serve de chacota junto a seus semelhantes. Percebendo que a única forma de manter-se no topo da cadeia alimentar social é a aliança com o prefeito da cidade, o exuberante Calogero Sedara (Paolo Stoppa), representante do novo dinheiro, ele não apenas concorda como incentiva o casamento de seu sobrinho, Tancredi (Alain Delon), com a filha do mal-afamado vizinho, a jovem e bela Angelica (Claudia Cardinale). Contando sua história com detalhes, discrição rítmica e sutileza, Visconti não apela para cenas de grande impacto dramático, preferindo revelar ao espectador as nuances de uma sociedade unicamente por meio de cenas milimetricamente arquitetadas de modo a encantar os olhos antes de qualquer outro nível de racionalização. Funciona: plasticamente, "O Leopardo" é impecável, ainda que prescinda de um ritmo um tanto menos letárgico. Ainda assim, para quem procura cinema de alto padrão estético, é um desbunde.
quinta-feira
IRMA LA DOUCE
IRMA LA DOUCE (Irma La Douce, 1963, The Mirisch Corporation,
147min) Direção: Billy Wilder Roteiro: Billy Wilder, I.A.L. Diamond,
peça teatral de Alexandre Breffort. Fotografia: Joseph LaShelle.
Montagem: Daniel Mandell. Música: André Previn. Figurino: Orry-Kelly.
Direção de arte/cenários: Alexander Trauner/Maurice Barnathan, Edward G.
Boyle. Produção: Edward L. Alperson, Billy Wilder. Elenco: Jack Lemmon,
Shirley MacLaine, Lou Jacobi, Bruce Yarnell, Herschel Bernardi.
Estreia: 05/6/63
3 indicações ao Oscar: Atriz (Shirley MacLaine), Fotografia em Cores, Trilha Sonora Adaptada
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Adaptada
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Shirley MacLaine)
O primeiro encontro entre Billy Wilder, Jack Lemmon e Shirley MacLaine, em 1960, foi "Se meu apartamento falasse", que rendeu, entre outros prêmios, os Oscar de melhor filme, direção e roteiro original. Nada mais natural, portanto, que MacLaine, ao ser convidada para viver o papel-título da comédia "Irma La Douce" - dirigida por Wilder e coestrelada por Lemmon - tenha assinado o contrato sem ao menos ler o roteiro, adaptado de um musical de sucesso da Broadway. Para sua surpresa, porém, na transposição do palco para as telas, a obra de Alexandre Breffort perdeu todas as canções originais, transformando-se, nas mãos do cineasta austríaco, em uma comédia sem o menor vestígio de sua peculiar origem teatral. Sabendo-se incapaz de comandar coreografias ou números cantados, Wilder preferiu manter a trama central - com pequenas alterações, como a profissão do personagem de Lemmon - e injetar nela seu delicioso cinismo irônico. Deu certo, apesar das reservas de MacLaine, que não via o filme como o sucesso que foi - para sua surpresa, ela ganhou o Globo de Ouro e recebeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz por seu desempenho.
O que MacLaine talvez não soubesse quando aceitou entrar no projeto de Wilder é que ela não era a primeira opção para o papel principal. O próprio diretor declarou, mais tarde, que sua primeira escolha era ninguém menos que Elizabeth Taylor - o convite nem chegou a ser feito, no entanto, porque o austríaco disse que não saberia lidar com a conturbada vida afetiva da atriz, então envolvida em um rumoroso caso de amor com Richard Burton, seu colega de cena no complicadíssimo "Cleópatra" (63). A segunda escolhida por ele tampouco mostrou-se possível, mas por motivos bem mais insolúveis: mesmo ainda traumatizado com os problemas demonstrados por Marilyn Monroe nos sets de "Quanto mais quente melhor" (59), Wilder estava muito disposto a reuní-la com Jack Lemmon, mas a inesperada morte do maior símbolo sexual da história do cinema, em agosto de 1962, antes mesmo do início da produção, abriu caminho para MacLaine. Mesmo fisicamente bastante diferente do que Monroe poderia oferecer ao papel, a irmã de Warren Beatty entregou ao filme um tom de ironia e sarcasmo ingênuo que valoriza o roteiro escrito por Wilder e seu colaborador habitual I.A.L. Diamond. Atriz de grande inteligência e sensibilidade, ela faz de seu reencontro com Lemmon um espetáculo à parte.
Na trama criada por Alexandre Breffort, ela vive Irma La Douce, uma prostituta que vive de vender seu corpo em um bairro distante dos cartões-postais de Paris. Rodeada de corrupção por todos os lados - as autoridades fazem vista grossa às dezenas de contravenções praticadas no local, já que são bem pagos para isso - ela tem sua rotina transformada quando conhece o incorruptível Nestor Patou (Jack Lemmon), um novo e incorruptível policial que, para sua surpresa, se vê demitido ao desafiar as regras não-escritas de convivência pacífica entre criminosos e moradores locais. Perdidamente apaixonado por Irma, ele acaba defendendo-a de seu violento cafetão e, percebendo que ela não tem a menor intenção de abandonar a chamada vida fácil, aceita empresariá-la. O ciúme, porém, lança sua flecha preta, e logo Nestor se vê torturado com a possibilidade da amada estar nos braços de outros homens. Com a ajuda de Moustache (Lou Jacobi) - o dono do bar onde eles passam boa parte de seu tempo e que tem uma profusão de experiências profissionais em seu passado, mesmo que elas não dialoguem exatamente entre si - Nestor cria, então, um cliente falso para Irma. Disfarçado com bigode, cavanhaque, tapa-olho e sotaque inglês, ele assume a personalidade de Lord X, um homem com problemas sexuais que se oferece para ser cliente fixo da inocente garota de programa. O problema é que, para pagá-la, ele precisa se desdobrar em vários trabalhos - e seu cansaço faz com que ela passe a desconfiar de uma outra mulher em sua vida.
Levando a trama em tom de farsa, com direito a um toque de nonsense e romance, Billy Wilder mostra porque seus filmes mantem, ainda hoje, um frescor raro e delicioso. Recheando o roteiro com uma acidez que lhe é característica - e que está presente tanto em tramas românticas como "Sabrina" (54) como em tragédias como "A montanha dos sete abutres" (51) - o cineasta evita o excesso de açúcar que poderia surgir na história de amor entre os protagonistas e ainda dá um jeito de fazer rir da hipocrisia em relação ao sexo e da corrupção das autoridades. Com diálogos brilhantes - especialmente aqueles com a presença do ótimo Lou Jacobi, substituindo Charles Laughton, morto antes das filmagens, no papel de Moustache - "Irma La Douce" pode não chegar ao nível de qualidade dos melhores trabalhos de Wilder, mas é uma prova a mais de seu absurdo talento em inserir sua personalidade genial até mesmo em criações alheias. Difícil é sentir falta de qualquer número musical quando se está diante da química perfeita entre Jack Lemmon e Shirley MacLaine.
3 indicações ao Oscar: Atriz (Shirley MacLaine), Fotografia em Cores, Trilha Sonora Adaptada
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Adaptada
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Shirley MacLaine)
O primeiro encontro entre Billy Wilder, Jack Lemmon e Shirley MacLaine, em 1960, foi "Se meu apartamento falasse", que rendeu, entre outros prêmios, os Oscar de melhor filme, direção e roteiro original. Nada mais natural, portanto, que MacLaine, ao ser convidada para viver o papel-título da comédia "Irma La Douce" - dirigida por Wilder e coestrelada por Lemmon - tenha assinado o contrato sem ao menos ler o roteiro, adaptado de um musical de sucesso da Broadway. Para sua surpresa, porém, na transposição do palco para as telas, a obra de Alexandre Breffort perdeu todas as canções originais, transformando-se, nas mãos do cineasta austríaco, em uma comédia sem o menor vestígio de sua peculiar origem teatral. Sabendo-se incapaz de comandar coreografias ou números cantados, Wilder preferiu manter a trama central - com pequenas alterações, como a profissão do personagem de Lemmon - e injetar nela seu delicioso cinismo irônico. Deu certo, apesar das reservas de MacLaine, que não via o filme como o sucesso que foi - para sua surpresa, ela ganhou o Globo de Ouro e recebeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz por seu desempenho.
O que MacLaine talvez não soubesse quando aceitou entrar no projeto de Wilder é que ela não era a primeira opção para o papel principal. O próprio diretor declarou, mais tarde, que sua primeira escolha era ninguém menos que Elizabeth Taylor - o convite nem chegou a ser feito, no entanto, porque o austríaco disse que não saberia lidar com a conturbada vida afetiva da atriz, então envolvida em um rumoroso caso de amor com Richard Burton, seu colega de cena no complicadíssimo "Cleópatra" (63). A segunda escolhida por ele tampouco mostrou-se possível, mas por motivos bem mais insolúveis: mesmo ainda traumatizado com os problemas demonstrados por Marilyn Monroe nos sets de "Quanto mais quente melhor" (59), Wilder estava muito disposto a reuní-la com Jack Lemmon, mas a inesperada morte do maior símbolo sexual da história do cinema, em agosto de 1962, antes mesmo do início da produção, abriu caminho para MacLaine. Mesmo fisicamente bastante diferente do que Monroe poderia oferecer ao papel, a irmã de Warren Beatty entregou ao filme um tom de ironia e sarcasmo ingênuo que valoriza o roteiro escrito por Wilder e seu colaborador habitual I.A.L. Diamond. Atriz de grande inteligência e sensibilidade, ela faz de seu reencontro com Lemmon um espetáculo à parte.
Na trama criada por Alexandre Breffort, ela vive Irma La Douce, uma prostituta que vive de vender seu corpo em um bairro distante dos cartões-postais de Paris. Rodeada de corrupção por todos os lados - as autoridades fazem vista grossa às dezenas de contravenções praticadas no local, já que são bem pagos para isso - ela tem sua rotina transformada quando conhece o incorruptível Nestor Patou (Jack Lemmon), um novo e incorruptível policial que, para sua surpresa, se vê demitido ao desafiar as regras não-escritas de convivência pacífica entre criminosos e moradores locais. Perdidamente apaixonado por Irma, ele acaba defendendo-a de seu violento cafetão e, percebendo que ela não tem a menor intenção de abandonar a chamada vida fácil, aceita empresariá-la. O ciúme, porém, lança sua flecha preta, e logo Nestor se vê torturado com a possibilidade da amada estar nos braços de outros homens. Com a ajuda de Moustache (Lou Jacobi) - o dono do bar onde eles passam boa parte de seu tempo e que tem uma profusão de experiências profissionais em seu passado, mesmo que elas não dialoguem exatamente entre si - Nestor cria, então, um cliente falso para Irma. Disfarçado com bigode, cavanhaque, tapa-olho e sotaque inglês, ele assume a personalidade de Lord X, um homem com problemas sexuais que se oferece para ser cliente fixo da inocente garota de programa. O problema é que, para pagá-la, ele precisa se desdobrar em vários trabalhos - e seu cansaço faz com que ela passe a desconfiar de uma outra mulher em sua vida.
Levando a trama em tom de farsa, com direito a um toque de nonsense e romance, Billy Wilder mostra porque seus filmes mantem, ainda hoje, um frescor raro e delicioso. Recheando o roteiro com uma acidez que lhe é característica - e que está presente tanto em tramas românticas como "Sabrina" (54) como em tragédias como "A montanha dos sete abutres" (51) - o cineasta evita o excesso de açúcar que poderia surgir na história de amor entre os protagonistas e ainda dá um jeito de fazer rir da hipocrisia em relação ao sexo e da corrupção das autoridades. Com diálogos brilhantes - especialmente aqueles com a presença do ótimo Lou Jacobi, substituindo Charles Laughton, morto antes das filmagens, no papel de Moustache - "Irma La Douce" pode não chegar ao nível de qualidade dos melhores trabalhos de Wilder, mas é uma prova a mais de seu absurdo talento em inserir sua personalidade genial até mesmo em criações alheias. Difícil é sentir falta de qualquer número musical quando se está diante da química perfeita entre Jack Lemmon e Shirley MacLaine.
quarta-feira
DESAFIO DO ALÉM
DESAFIO DO ALÉM (The haunting, 1963, Argyle Enterprises, 112min)
Direção: Robert Wise. Roteiro: Nelson Gidding, romance "The haunting of
Hill House", de Shirley Jackson. Fotografia: Davis Boulton. Montagem:
Ernest Walter. Música: Humphrey Searle. Direção de arte/cenários: Elliot
Scott/John Jarvis. Produção: Robert Wise. Elenco: Julie Harris, Claire
Bloom, Richard Johnson, Russ Tamblyn, Fay Compton. Estreia: 18/9/63
Em 1999, acreditando que a tecnologia que tornava qualquer efeito visual imaginado possível de ser mostrado nas telas de cinema, os produtores de Hollywood resolveram que era uma boa ideia realizar um remake do clássico "Desafio do além", um dos mais assustadores filmes de terror da década de 60 e um dos preferidos de ninguém menos que Martin Scorsese. Com o título alterado para "A casa amaldiçoada", um elenco que incluía Liam Neeson, Catherine Zeta-Jones e Lily Taylor e a direção de Jan De Bont - vindo dos sucessos "Velocidade máxima" (94) e "Twister" (96) e do fracasso de "Velocidade máxima 2" (97) - o filme acabou naufragando nas bilheterias e foi massacrado pela crítica. Merecido! Ao substituir o poder de sugestão do original, que buscava o medo através de ruídos fora de lugar e ameaças invisíveis, a refilmagem acabou por perder em inteligência e sobriedade - elementos que fizeram do primeiro filme uma obra obrigatória aos fãs de filmes de terror.
A trajetória de "Desafio do além" até transformar-se em um clássico indiscutível do gênero começou quando o cineasta Robert Wise, ainda na fase de pós-produção de seu "Amor, sublime amor" (que lhe daria o Oscar de melhor direção), leu, na revista Time, a resenha de um livro escrito por Shirley Jackson, chamado "The haunting of Hill House". Intrigado com a trama criada pela autora, Wise imediatamente recomendou-a para o roteirista Nelson Gidding - com quem já havia trabalhado em "Quero viver" (58) - e decidiu que sua adaptação seria o filme que ele ainda devia, por contrato, à MGM. O estúdio concordou com a ideia, mas foi na Inglaterra que Wise obteve melhor receptividade ao projeto - leia-se um orçamento um pouquinho maior - e tal situação acabou levando a produção para Londres e para a escalação de dois de seus atores, Claire Bloom e Richard Johnson. A eles uniram-se Julie Harris (que aceitou o papel principal, a da atormentada Eleanor Lance, por ter interesse em parapsicologia) e Russ Tamblyng (obrigado pelo estúdio a cumprir contrato) e, surpreendendo a quem esperava dele algo mais ambicioso depois de sua versão musical e moderna de "Romeu e Julieta" - um dos filmes mais premiados da história da Academia - Wise entregou uma produção simples e intimista, mais preocupada com a construção delicada do suspense do que com os efeitos mirabolantes que fariam a desgraça do filme de três décadas depois.
A história de "Desafio do além" segue à risca os elementos mais clássicos das tramas de casas mal-assombradas e fantasmas mal-intencionados: para buscar provas para seus experimentos sobre paranormalidade, o dr. Markway (Richard Johnson) decide reunir, em uma mansão dita assombrada, um grupo de pessoas estranhas entre si e que podem lhe ajudar em seus objetivos. Sobrinho de um dos herdeiros da propriedade, o jovem Luke Sanderson (Russ Tamblyn) serve como a voz da razão; modernosa, médium e lésbica, Theodora (Claire Bloom) é a mais favorável a acreditar na força do além; e Eleanor (Julie Harris, que usou a própria depressão como elemento em sua interpretação) é uma mulher sem rumo na vida desde a morte da mãe e que aceita o desafio como forma de encontrar uma razão para a vida. Aos poucos, enquanto Theodora tenta aproximar-se de Eleanor - que se mantém violentamente afetada pelo passado trágico da casa, que já fez quatro vítimas mulheres em oitenta anos de existência - fatos inexplicáveis começam a tomar conta do ambiente, levando todos à certeza de que há uma forte conexão entre Eleanor e o local (ou seus fantasmas).
Fugindo do óbvio e apostando na sutileza da trama, Robert Wise criou um espetáculo que sugere muito mais do que mostra, para sorte de todos que preferem o medo oriundo da mente mais do que de sangue escorrendo pela tela - e até mesmo a opção do diretor em filmar em preto-e-branco colabora para tal sensação de claustrofobia. A direção de arte primorosa, que faz da casa um personagem a mais, é um dos pontos altos do filme, em especial uma tétrica escada em caracol que serve de cenário para o clímax. Abrindo mão de sua ideia inicial - a de localizar a narrativa inteira dentro da cabeça de Eleanor - o roteiro de Nelson Gidding se ampara basicamente na força da história, na direção firme de Wise e na atuação de seu elenco, levando a sério uma trama para a qual é imprescindível uma dose generosa de imaginação e dedicação - justamente o que faltou em sua versão moderna, que apoiou-se no visual e deixou de lado o que há de humano e mais assustador no enredo: o que existe além do que os olhos podem ver.
Em 1999, acreditando que a tecnologia que tornava qualquer efeito visual imaginado possível de ser mostrado nas telas de cinema, os produtores de Hollywood resolveram que era uma boa ideia realizar um remake do clássico "Desafio do além", um dos mais assustadores filmes de terror da década de 60 e um dos preferidos de ninguém menos que Martin Scorsese. Com o título alterado para "A casa amaldiçoada", um elenco que incluía Liam Neeson, Catherine Zeta-Jones e Lily Taylor e a direção de Jan De Bont - vindo dos sucessos "Velocidade máxima" (94) e "Twister" (96) e do fracasso de "Velocidade máxima 2" (97) - o filme acabou naufragando nas bilheterias e foi massacrado pela crítica. Merecido! Ao substituir o poder de sugestão do original, que buscava o medo através de ruídos fora de lugar e ameaças invisíveis, a refilmagem acabou por perder em inteligência e sobriedade - elementos que fizeram do primeiro filme uma obra obrigatória aos fãs de filmes de terror.
A trajetória de "Desafio do além" até transformar-se em um clássico indiscutível do gênero começou quando o cineasta Robert Wise, ainda na fase de pós-produção de seu "Amor, sublime amor" (que lhe daria o Oscar de melhor direção), leu, na revista Time, a resenha de um livro escrito por Shirley Jackson, chamado "The haunting of Hill House". Intrigado com a trama criada pela autora, Wise imediatamente recomendou-a para o roteirista Nelson Gidding - com quem já havia trabalhado em "Quero viver" (58) - e decidiu que sua adaptação seria o filme que ele ainda devia, por contrato, à MGM. O estúdio concordou com a ideia, mas foi na Inglaterra que Wise obteve melhor receptividade ao projeto - leia-se um orçamento um pouquinho maior - e tal situação acabou levando a produção para Londres e para a escalação de dois de seus atores, Claire Bloom e Richard Johnson. A eles uniram-se Julie Harris (que aceitou o papel principal, a da atormentada Eleanor Lance, por ter interesse em parapsicologia) e Russ Tamblyng (obrigado pelo estúdio a cumprir contrato) e, surpreendendo a quem esperava dele algo mais ambicioso depois de sua versão musical e moderna de "Romeu e Julieta" - um dos filmes mais premiados da história da Academia - Wise entregou uma produção simples e intimista, mais preocupada com a construção delicada do suspense do que com os efeitos mirabolantes que fariam a desgraça do filme de três décadas depois.
A história de "Desafio do além" segue à risca os elementos mais clássicos das tramas de casas mal-assombradas e fantasmas mal-intencionados: para buscar provas para seus experimentos sobre paranormalidade, o dr. Markway (Richard Johnson) decide reunir, em uma mansão dita assombrada, um grupo de pessoas estranhas entre si e que podem lhe ajudar em seus objetivos. Sobrinho de um dos herdeiros da propriedade, o jovem Luke Sanderson (Russ Tamblyn) serve como a voz da razão; modernosa, médium e lésbica, Theodora (Claire Bloom) é a mais favorável a acreditar na força do além; e Eleanor (Julie Harris, que usou a própria depressão como elemento em sua interpretação) é uma mulher sem rumo na vida desde a morte da mãe e que aceita o desafio como forma de encontrar uma razão para a vida. Aos poucos, enquanto Theodora tenta aproximar-se de Eleanor - que se mantém violentamente afetada pelo passado trágico da casa, que já fez quatro vítimas mulheres em oitenta anos de existência - fatos inexplicáveis começam a tomar conta do ambiente, levando todos à certeza de que há uma forte conexão entre Eleanor e o local (ou seus fantasmas).
Fugindo do óbvio e apostando na sutileza da trama, Robert Wise criou um espetáculo que sugere muito mais do que mostra, para sorte de todos que preferem o medo oriundo da mente mais do que de sangue escorrendo pela tela - e até mesmo a opção do diretor em filmar em preto-e-branco colabora para tal sensação de claustrofobia. A direção de arte primorosa, que faz da casa um personagem a mais, é um dos pontos altos do filme, em especial uma tétrica escada em caracol que serve de cenário para o clímax. Abrindo mão de sua ideia inicial - a de localizar a narrativa inteira dentro da cabeça de Eleanor - o roteiro de Nelson Gidding se ampara basicamente na força da história, na direção firme de Wise e na atuação de seu elenco, levando a sério uma trama para a qual é imprescindível uma dose generosa de imaginação e dedicação - justamente o que faltou em sua versão moderna, que apoiou-se no visual e deixou de lado o que há de humano e mais assustador no enredo: o que existe além do que os olhos podem ver.
terça-feira
CLEÓPATRA
CLEOPATRA (Cleopatra, 1963, 20th Century Fox, 192min) Direção: Joseph L. Mankiewicz. Roteiro: Joseph L. Mankiewicz, Ranald MacDougall, Sidney Buchman, livro "The life and times of Cleopatra", de C.M. Franzero, estórias de Plutarco, Suetônio e Appian. Fotografia: Leon Shamroy. Montagem: Dorothy Spencer. Música: Alex North. Figurino: Vittorio Nino Novarese, Renié. Direção de arte/cenários: John De Cuir/Paul S. Fox, Ray Moyer, Walter M. Scott. Produção: Walter Wanger. Elenco: Elizabeth Taylor, Richard Burton, Rex Harrison, Hume Cronyn, Cesare Danova, Martin Landau, Roddy McDowall. Estreia: 12/6/63
9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Rex Harrison), Fotografia em Cores, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 4 Oscar: Fotografia em Cores, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais
Para se falar sobre "Cleopatra", o filme estrelado por Elizabeth Taylor é imprescindível que se afogue em números: 129.800 dólares somente para o figurino de Taylor, que troca de roupa 65 vezes durante a projeção; 44 milhões de dólares de orçamento (em números atuais cerca de 300); salário de 1 milhão de dólares para sua estrela (que, atualizados, chegam a 30 milhões); dez pessoas premiadas com o Oscar de direção de arte; 79 cenários construídos; 26.000 figurinos criados; quase três anos de filmagens; seis horas em sua primeira montagem. A superprodução que quase levou a 20th Century-Fox à falência é hoje mais lembrada por suas fofocas de bastidores do que exatamente pelo filme que é. Culpa dos excessos de todos os tipos que circundaram suas filmagens, desde o estouro do orçamento até as crises pessoais de seus intérpretes (Taylor entrou em coma depois de uma cirurgia durante as filmagens, além de ter se envolvido com seu co-astro Richard Burton). No entanto, apesar de todos os problemas, "Cleopatra" foi um dos maiores sucessos de bilheteria dos anos 60 e, se jogou seu estúdio na mais grave crise de sua história - da qual só saiu em 1965 com o êxito de "A noviça rebelde" - é porque seu orçamento extrapolou as mais ambiciosas previsões.
Tudo começou no final dos anos 50, quando a Fox, já em problemas financeiros, resolveu refilmar algum de seus êxitos mais antigos como forma de economia. O filme escolhido - "Cleopatra" - era o remake de um clássico de 1917 estrelado por Theda Bara. A ideia inicial era fazer do filme um veículo para a atriz Joan Collins, com um custo de 2 milhões de dólares, mas a saída de Collins do projeto, devido a adiamentos frequentes da produção, mudou tudo. Quando Elizabeth Taylor finalmente entrou no barco, a coisa começou a sair do controle: com um cachê de 1 milhão de dólares, a atriz tornou-se imediatamente a mais bem paga estrela de Hollywood. Para piorar - ou melhorar, dependendo do ponto de vista - ela voltou a encontrar-se com Richard Burton, com quem não havia simpatizado em uma primeira ocasião. Dessa vez, Burton, que viveria Marco Antonio, a segunda paixão da rainha do Egito, foi visto com mais simpatia por Taylor, com quem iniciou um tórrido romance que alterou até mesmo a ideia central do diretor Joseph L. Mankiewicz quanto ao lançamento do filme.
Mankiewicz - o mesmo cineasta que levou uma cusparada da indignada Katharine Hepburn ao final das filmagens de "De repente, no último verão" - chegou às filmagens de "Cleopatra" depois que o primeiro diretor, Rouben Mamoulian, abandonou o projeto. Quando assumiu as rédeas do filme, Mankiewicz tinha nas mãos um produto 5 milhões acima do orçamento inicial e nenhuma cena pronta. Teve, então, a ideia de fazer dois filmes com três horas de duração cada: "Cesar e Cleopatra" e "Antonio e Cleopatra". A princípio aceita, a ideia logo foi descartada por Darryl F. Zanuck, presidente do estúdio, que, querendo capitalizar em cima do notório romance entre Taylor e Burton, previu que a primeira metade - que tratava da relação entre Cleopatra e Julio Cesar (Rex Harrison) - seria um fracasso de público, uma vez que as atenções já estavam voltadas para o relacionamento entre dois de seus atores principais - que iniciariam ali um romance polêmico e cheio de idas e vindas. Rumores dizem, porém, que duas horas inéditas de filme ainda existem em algum lugar - e os fãs mal podem esperar para assistí-las.
Mas, afinal de contas, "Cleopatra" é um bom filme? Logicamente é uma produção caprichada, bem cuidada e visualmente impressionante, especialmente se for levado em consideração o fato de que é um produto pré-CGI. Porém, em sua ambição de ser esteticamente inesquecível, acaba deixando de lado o roteiro e concentrando-se no visual. Seu roteiro é repleto de cenas dispensáveis, que prejudicam fatalmente o ritmo. Sempre que Taylor - deslumbrante - e Burton estão em cena o filme cresce, mas enquanto isso não acontece, a audiência sofre com longuíssimos discursos sobre política e geografia que, ao invés de ajudar a compreender a história, apenas confundem. Fosse menos megalomaníaco e mais pessoal certamente teria maior sucesso em conquistar a simpatia do espectador, que, apesar disso, pode encantar-se com a opulência do resultado final. Como está, é um filmão - no sentido literal - mas um tanto oco e aborrecido. Vale por Liz Taylor no auge da beleza e sensualidade.
9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Rex Harrison), Fotografia em Cores, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 4 Oscar: Fotografia em Cores, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais
Para se falar sobre "Cleopatra", o filme estrelado por Elizabeth Taylor é imprescindível que se afogue em números: 129.800 dólares somente para o figurino de Taylor, que troca de roupa 65 vezes durante a projeção; 44 milhões de dólares de orçamento (em números atuais cerca de 300); salário de 1 milhão de dólares para sua estrela (que, atualizados, chegam a 30 milhões); dez pessoas premiadas com o Oscar de direção de arte; 79 cenários construídos; 26.000 figurinos criados; quase três anos de filmagens; seis horas em sua primeira montagem. A superprodução que quase levou a 20th Century-Fox à falência é hoje mais lembrada por suas fofocas de bastidores do que exatamente pelo filme que é. Culpa dos excessos de todos os tipos que circundaram suas filmagens, desde o estouro do orçamento até as crises pessoais de seus intérpretes (Taylor entrou em coma depois de uma cirurgia durante as filmagens, além de ter se envolvido com seu co-astro Richard Burton). No entanto, apesar de todos os problemas, "Cleopatra" foi um dos maiores sucessos de bilheteria dos anos 60 e, se jogou seu estúdio na mais grave crise de sua história - da qual só saiu em 1965 com o êxito de "A noviça rebelde" - é porque seu orçamento extrapolou as mais ambiciosas previsões.
Tudo começou no final dos anos 50, quando a Fox, já em problemas financeiros, resolveu refilmar algum de seus êxitos mais antigos como forma de economia. O filme escolhido - "Cleopatra" - era o remake de um clássico de 1917 estrelado por Theda Bara. A ideia inicial era fazer do filme um veículo para a atriz Joan Collins, com um custo de 2 milhões de dólares, mas a saída de Collins do projeto, devido a adiamentos frequentes da produção, mudou tudo. Quando Elizabeth Taylor finalmente entrou no barco, a coisa começou a sair do controle: com um cachê de 1 milhão de dólares, a atriz tornou-se imediatamente a mais bem paga estrela de Hollywood. Para piorar - ou melhorar, dependendo do ponto de vista - ela voltou a encontrar-se com Richard Burton, com quem não havia simpatizado em uma primeira ocasião. Dessa vez, Burton, que viveria Marco Antonio, a segunda paixão da rainha do Egito, foi visto com mais simpatia por Taylor, com quem iniciou um tórrido romance que alterou até mesmo a ideia central do diretor Joseph L. Mankiewicz quanto ao lançamento do filme.
Mankiewicz - o mesmo cineasta que levou uma cusparada da indignada Katharine Hepburn ao final das filmagens de "De repente, no último verão" - chegou às filmagens de "Cleopatra" depois que o primeiro diretor, Rouben Mamoulian, abandonou o projeto. Quando assumiu as rédeas do filme, Mankiewicz tinha nas mãos um produto 5 milhões acima do orçamento inicial e nenhuma cena pronta. Teve, então, a ideia de fazer dois filmes com três horas de duração cada: "Cesar e Cleopatra" e "Antonio e Cleopatra". A princípio aceita, a ideia logo foi descartada por Darryl F. Zanuck, presidente do estúdio, que, querendo capitalizar em cima do notório romance entre Taylor e Burton, previu que a primeira metade - que tratava da relação entre Cleopatra e Julio Cesar (Rex Harrison) - seria um fracasso de público, uma vez que as atenções já estavam voltadas para o relacionamento entre dois de seus atores principais - que iniciariam ali um romance polêmico e cheio de idas e vindas. Rumores dizem, porém, que duas horas inéditas de filme ainda existem em algum lugar - e os fãs mal podem esperar para assistí-las.
Mas, afinal de contas, "Cleopatra" é um bom filme? Logicamente é uma produção caprichada, bem cuidada e visualmente impressionante, especialmente se for levado em consideração o fato de que é um produto pré-CGI. Porém, em sua ambição de ser esteticamente inesquecível, acaba deixando de lado o roteiro e concentrando-se no visual. Seu roteiro é repleto de cenas dispensáveis, que prejudicam fatalmente o ritmo. Sempre que Taylor - deslumbrante - e Burton estão em cena o filme cresce, mas enquanto isso não acontece, a audiência sofre com longuíssimos discursos sobre política e geografia que, ao invés de ajudar a compreender a história, apenas confundem. Fosse menos megalomaníaco e mais pessoal certamente teria maior sucesso em conquistar a simpatia do espectador, que, apesar disso, pode encantar-se com a opulência do resultado final. Como está, é um filmão - no sentido literal - mas um tanto oco e aborrecido. Vale por Liz Taylor no auge da beleza e sensualidade.
domingo
OS PÁSSAROS
OS PÁSSAROS (The birds, 1963, Universal Pictures, 119min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Evan Hunter, baseado em um conto de Daphne DuMaurier. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Elenco: Tippi Hedren, Rod Taylor, Jessica Tandy, Suzanne Pleschette, Veronica Cartwright, Ethel Griffies. Estreia: 28/3/63
Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais
É de se pensar qual seria a reação da plateia caso "Os pássaros", de Alfred Hitchcock, fosse lançado hoje. Acostumada que está a uma dieta de superproduções de conteúdo mastigado e com sequências de ação que valorizam mais explosões e tiroteios do que o suspense calcado em situações extremas, a idiotizada audiência que lota multiplexes provavelmente execraria o que é um dos mais populares do mestre do gênero. Fez isso, por exemplo, com "Fim dos tempos", de M. Night Shyamalan, que bebia da mesma fonte, ainda que sem a mesma excelência. O fato é que, ao optar pelo caminho mais difícil - o de deixar tudo sem maiores explicações - Hitchcock construiu um filme digno de figurar entre os mais angustiantes da história do cinema. E ainda teve a ousadia suprema de deixar um final pessimista. E em aberto.
A ideia de filmar "Os pássaros" veio de uma história da escritora Daphne DuMaurier, mesma autora do romance "Rebecca, a mulher inesquecível", cuja adaptação tornou-se, em 1940, no primeiro trabalho de Hitchcock em Hollywood. No entanto, como já havia feito outras vezes em sua carreira - mais notadamente em "Psicose" - o cineasta utilizou em seu projeto apenas a ideia central do conto original, ou seja, uma série de violentos ataques cometidos por aparentemente inócuos e gentis pássaros. Não aves de rapina ou algo que as valha, mas sim tímidos e bucólicos tordos, gaivotas e assemelhados, que, de uma hora pra outra, passam a investir contra os moradores da pacata Bodega Bay, uma ilha localizada perto de San Francisco.
E é em Bodega Bay que vai parar a socialite Melanie Daniels (Tippi Hedren), que chega até lá com o objetivo de seduzir o advogado Mitch Brenner (Rod Taylor), que ela conheceu em uma pet shop quando ele procurava um casal de passarinhos para presentear sua irmã caçula, Cathy (Veronica Cartwright). Chegando à cidade, ela conhece a doce Annie Hayworth (Suzanne Pleschette), que logo a deixa ciente a respeito do maior problema de Mitch; sua mãe, a controladora viúva Lydia (Jessica Tandy quase 30 anos antes do Oscar por "Conduzindo Miss Daisy"). Ainda assim, Melanie resolve arriscar-se a um flerte com o rapaz, mas, quando os pássaros começam a atacar as pessoas da ilha - e tudo começa quando uma gaivota lhe fere a cabeça quando ela está chegando à ilha - seu objetivo maior passa a ser a sobrevivência.
"Os pássaros" é pavor em estado puro. Para o público atual, acostumado a pular da poltrona ao testemunhar machadadas de autoria de assassinos mascarados ou zumbis descarnados, talvez seja difícil assustar-se com os efeitos especiais hoje um tanto datados, mas de ponta na época do lançamento - mas que perderam o Oscar para "Cleópatra" (hein??). No entanto, é insuperável a atmosfera de terror criada por Hitchcock - que demora propositadamente a pegar pesado na tensão, preferindo estabelecer o clima e as personagens antes de qualquer cena mais sanguinolenta. E, ao contrário de seus filmes anteriores, onde o sangue era quase inexistente - "Psicose" chegou a ser feito em preto-e-branco para atenuar a visão do vermelho - aqui ele corre aos borbotões, sem medo de chocar a plateia. Conforme vai se aproximando do seu final - e os ataques das aves vão ficando cada vez menos amigáveis - o filme torna-se mais e mais próximo do terror convencional, se é que "convencional" é adjetivo que possa ser aplicado a qualquer trabalho de Hitchcock. Depois de pouco mais de uma hora de projeção, todo e qualquer romance que esteja começando entre Melanie e Mitch fica em segundo plano, abrindo espaço para algumas das cenas mais geniais do gênero - e isso que ele nem faz uso de trilha sonora, o que é mais uma de suas ideias que nadavam contra a corrente.

E cenas geniais não faltam em "Os pássaros". Hitchcock constrói aqui sequências onde a tensão crescente é a alma da festa. Em uma dessas cenas antológicas, Melanie (vivida pela mãe da atriz Melanie Griffith e que foi festejada na época como a nova Grace Kelly do cineasta) espera a saída de Cathy da escola e, no momento em que isso acontece todos - alunos, professores e a própria Melanie - são atacados. Antes que isso aconteça, no entanto, o diretor já anuncia o que vem pela frente; a cada vez que a protagonista olha para a pracinha da escola ela percebe o aumento considerável de animais. E o que dizer então da sequência em que um posto de gasolina explode - depois de minutos aterradores - e suas consequências são vistas de cima, como se observadas pelos próprios pássaros? Isso sem falar na cena em que a especialista em pássaros (vivida por Ethel Griffies) tira toda e qualquer esperança de luta contra os repentinos inimigos.
Além de ser entretenimento de primeira, "Os pássaros" ainda serve a inúmeras análises psicossexuais e/ou sociológicas - o ensaio escrito por Camille Paglia e lançado pela editora Rocco que o diga. Em uma primeira visão o que sobressai no roteiro de Evan Hunter é o fato dos ataques começarem com a chegada de Melanie à cidadezinha - uma mulher liberada, dona de si, bela e independente chega a uma paradisíaca ilha e traz consigo uma ameaça de apocalipse. Freud teria acessos de felicidade analisando esse viés da trama, algo assim como o faz uma habitante de Bodega Bay quando acusa a forasteira de ser a culpada pela tragédia - sem a raiva inerente a esta personagem, logicamente.
Análises à parte, "Os pássaros" é um filme para ser visto como prova de que nem sempre é necessário uma explicação racional - leia-se simplista - para que um filme de suspense seja aterrador e angustiante. Afinal, o que é mais amedrontador do que o desconhecido?
PS - Aliás, nem será preciso mais imaginar a reação da plateia quanto a "Os pássaros". Existe o projeto de uma refilmagem para estrear em 2013, em comemoração aos 40 anos de seu lançamento, com Naomi Watts no papel principal. Tenha muito medo...
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