A CADELA (La chienne, 1931, Les Étbalissements Braunberger-Richebé, 91min) Direção: Jean Renoir. Roteiro: Jean Renoir, baseado no romance de Georges de la Fouchardière e peça teatral de André Mouezy-Éon. Fotografia: Théodore Sparkuhl. Montagem: Denise Tual, Paul Fejos. Direção de arte/cenários: Marcel Courmes/Gabriel Scognamillo. Produção: Pierre Braunberger, Roger Richebé, Jean Renoir. Elenco: Michel Simon, Janie Marèse, Georges Flamant, Magdeleine Bérubet. Estreia: 20/11/31
O ano de 1931 foi bastante generoso com os fãs de cinema. Filmes que se tornariam clássicos absolutos, como "Drácula" (dirigido por Tod Browning e estrelado por Bela Lugosi), "Frankenstein" (de James Whale, com Boris Karloff como o monstro), "Luzes da cidade" (de Charles Chaplin), "O inimigo público" (um dos maiores sucessos de James Cagney) estrearam e mudaram a história da sétima arte. Fora do circuito hollywoodiano também foi um tempo admirável: o Brasil compareceu com "Limite", de Mário Peixoto. A Alemanha ofereceu o inesquecível "M: o vampiro de Dusseldorf", de Fritz Lang, que fez a fama de Peter Lorre. E a França legou ao mundo um dos filmes mais importantes do cineasta Jean Renoir (filho do pintor Auguste): "A cadela", adaptação do romance de Georges de la Fouchardière que ganhou uma segunda versão em 1945 pelas mãos de Lang. Alguns anos antes daquelas consideradas suas obras-primas - "A grande ilusão" (1937) e "A regra do jogo" (1939) -, Renoir já mostrava, através de personagens quase desagradáveis, sua predileção pelo lado menos benevolente da humanidade, um retrato cru e realista das relações humanas baseadas em ganância e traição.
Logo de cara, o filme apresenta ao espectador seu triste protagonista, Maurice Legrand (Michel Simon em grande atuação): funcionário introvertido de um banco, casado e tratado aos pontapés pela agressiva Adèle (Magdeleine Bérubet), ele parece um homem de poucas alegrias na vida, traduzidas em suas pinturas, das quais se orgulha a despeito da falta de consideração da esposa em relação a seu talento. Em uma noite, saindo de um encontro com colegas de trabalho, Legrand flagra a jovem Lulu Pelletier (Janie Marèse) ser agredida na rua pelo violento Dedé (Georges Flamant) e a toma sob sua proteção. Apaixonado pela bela nova amiga, ele se deixa enganar por ela e Dedé - seu gigolô, que se faz passar por seu irmão - e inicia com ela uma relação extraconjugal. Cada vez mais cego por seu desejo, Legrand nem chega a se incomodar com o fato de Lulu estar vendendo seus quadros como se fossem dela (sob o pseudônimo de Claire Bloom). Com o tempo, ele é surpreendido por uma forma de livrar-se de Adèle e assumir seu novo romance, mas a revelação de que foi ludibriado acarreta uma tragédia que pode por em risco a sua liberdade.
O roteiro, escrito pelo próprio Renoir - e que se utiliza da adaptação que André Mouezy-Éon fez do livro para o teatro - é um primor de concisão. Em cerca de noventa minutos, ele conta sua história sem excessos ou gorduras, centralizando seu foco totalmente em Legrand e nas consequências de sua história de luxúria e crime. Mesmo que o terço final pareça um tanto longo demais em relação ao resto do filme - talvez culpa da saída de Janie Marèse de cena -, é inegável que o cineasta apresenta um senso de ritmo tão preciso quanto suas noções visuais: apesar de pouco inovadora, a fotografia de "A cadela" conduz a trama de forma inteligente e mundana, sem preocupações em arrancar poesia dos cenários decadentes que abarcam o enredo (vil, seco e irônico na medida certa). A atuação contida de Michel Simon se encaixa neste viés naturalista, e vai além ao buscar a simpatia do público através do minimalismo: mesmo que seu personagem às vezes soe como uma caricatura, o trabalho de Simon impede qualquer reação negativa da audiência, conquistada por sua trajetória ímpar e até mesmo do tom leve imposto em alguns momentos (como a reviravolta na metade da narrativa, que o leva a solucionar seu problema matrimonial de forma inusitada). A sequência final, aliás, é de uma ironia deliciosa, exibindo um lado quase debochado do diretor - e que, de certo modo, alivia um bocado o peso do material exibido até então.
E se Michel Simon é o corpo e a alma de "A cadela", seria injusto não oferecer elogios rasgados ao trabalho de Janie Marèse, uma atriz cujo nome não atravessou a história do cinema como deveria (até mesmo devido à sua morte precoce, duas semanas após o término das filmagens de seu desempenho como Lulu Pelletier: evitando as armadilhas fáceis que poderiam fazer de sua personagem uma femme fatale igual a dezenas de outras, Marèse criou uma prostituta que, se não é exatamente simpática ou vítima das circunstâncias, tampouco é uma vilã desprezível e fria, sem traços atenuantes. A performance da jovem atriz é repleta de frescor e leveza, até mesmo diante da tragédia - o que justifica a paixão de Legrand por ela e seu desespero em manter-se a seu lado apesar da dura verdade que lhe é mostrada diante dos olhos. A sedução quase infantil de Marèse e a queda fulminante de Simon formam a base na qual se apoia o filme de Jean Renoir - e é impossível não se deixar envolver pelo desastre que se vislumbra logo em seu primeiro encontro. "A cadela" é um grande filme - que preparava o público para o que o cineasta ainda iria aprontar em sua elogiadíssima carreira.
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sexta-feira
terça-feira
M, O VAMPIRO DE DUSSELDORF
M, O VAMPIRO DE DUSSELDORF (M, 1931, Nero-Film, 117min) Direção: Fritz Lang. Roteiro: Fritz Lang, Thea Von Harbou. Fotografia: Fritz Arno Wagner. Montagem: Paul Falkenberg. Direção de arte: Emil Hasler, Karl Vollbrecht. Produção: Seymour Nebenzal. Elenco: Peter Lorre, Ellen Widmann, Inge Landgut, Otto Wernicke, Theodor Loos. Estreia: 11/5/31
Em uma interpretação fabulosa de Peter Lorre – até então um ator basicamente de comédias – Beckert é um homem que esconde, por trás de seu ar bonachão e simples, uma alma atormentada: ele é o responsável por uma série de assassinatos de crianças da pequena cidade de Dusseldorf. A polícia local, na figura do Inspetor Karl Lohmann (Otto Wernicke), não consegue pistas para a captura do monstro, que chega ao requinte de mandar cartas para a imprensa, comentando seus crimes. Porém, quando as investigações começam a atrapalhar o desenvolvimento de outras atividades ilegais da cidade, os contraventores locais criam uma espécie de associação informal com o objetivo de acabar com os homicídios. É aí que Beckert, que seduz suas vítimas com presentes banais como doces e balões, acaba sendo finalmente ameaçado – e, depois de aprisionado, passa a lutar por sua vida em um julgamento improvisado pela escória de Dusseldorf.
O cinema
policial de hoje – seja de Hollywood ou em qualquer parte do mundo – tem nos
psicopatas e serial killers uma matéria-prima que já beira o clichê. Em 1931,
porém, as coisas não eram bem assim, e quando o austríaco Fritz Lang lançou “M
– O vampiro de Dusseldorf”, o impacto foi tanto que respingou até nos grandes estúdios
norte-americanos: fascinado com o trabalho de Lang, o todo-poderoso Irving
Thalberg (então no comando da MGM) chegou a fazer uma reunião com todos os seus
roteiristas e cineastas cobrando deles filmes com o mesmo compromisso com a
realidade e com as inovações que começavam a chegar à indústria. É difícil
imaginar, no entanto, que um grande estúdio de Hollywood tivesse a coragem –
especialmente em tempos bem menos liberais – de contar a história apresentada
por Lang em seu filme. Não apenas por tratar sem moralismo de um assunto
polêmico e desagradável (assassinato de crianças) mas por ousar fazer de seu
protagonista – até prova em contrário um vilão cruel – um personagem dotado de
alma e sentimentos. Ao fugir do maniqueísmo que se poderia esperar, “M”
pavimentou seu caminho rumo a um lugar inarredável da lista dos melhores filmes
da história do cinema.
Banido pelo governo de Adolf Hitler
em 1934, três anos depois de sua estreia, “M” foi tido por muitos como uma obra
que refletia, em seu tom cru e um tanto cínico, a rápida escalada do nazismo na
Europa. O tempo mostrou que Lang tinha razão em temer tal avanço: metade judeu,
ele testemunhou, estarrecido, a filiação de sua própria esposa (e colaboradora
artística), Thea von Harbou, ao partido nacional-socialista, e abandonou a Alemanha em 1933, após ter
recusado o convite de Goebbels para dirigir a indústria cinematográfica do
país. Separado de Thea durante as filmagens de “O testamento do Dr. Mabuse”
(33) – além de nazista, ela revelou-se também infiel – Lang fez uma escala na
França antes de ser abraçado por Hollywood, onde assinou obras de gêneros
variados, como o western “O diabo feito
mulher” (51), com Marlene Dietrich, e o policial “Um retrato de mulher” (44).
Nenhum de seus filmes, no entanto, atingiu o mesmo grau de brilhantismo do que
a trágica história do aparentemente inofensivo Franz Beckert.
Em uma interpretação fabulosa de Peter Lorre – até então um ator basicamente de comédias – Beckert é um homem que esconde, por trás de seu ar bonachão e simples, uma alma atormentada: ele é o responsável por uma série de assassinatos de crianças da pequena cidade de Dusseldorf. A polícia local, na figura do Inspetor Karl Lohmann (Otto Wernicke), não consegue pistas para a captura do monstro, que chega ao requinte de mandar cartas para a imprensa, comentando seus crimes. Porém, quando as investigações começam a atrapalhar o desenvolvimento de outras atividades ilegais da cidade, os contraventores locais criam uma espécie de associação informal com o objetivo de acabar com os homicídios. É aí que Beckert, que seduz suas vítimas com presentes banais como doces e balões, acaba sendo finalmente ameaçado – e, depois de aprisionado, passa a lutar por sua vida em um julgamento improvisado pela escória de Dusseldorf.
Atrevendo-se a fazer de Beckert uma
espécie de vítima de sua própria condição psicológica – o que acaba por
despertar uma certa compaixão da plateia – Fritz Lang acerta em praticamente
todos os pontos do filme. A narrativa é elegante e sutil, evitando explicitar
os atos homicidas e substituindo-os por símbolos inequívocos (balões voando
soltos, bolas abandonadas). A utilização do som é exemplar – a música que
Beckert assobia não apenas é sua apavorante marca registrada mas também serve
de inteligente elemento dramático (um vendedor cego acaba por ser uma
testemunha importante do caso justamente por reconhecê-la). A fotografia em
preto-e-branco de Fritz Arno Wagner (de “Nosferatu, uma sinfonia de horror”)
capta com perfeição as sombras dos becos e das ruas de Dusseldorf de forma a
torná-los ameaçadores. E, em um toque de mestre, o cineasta escalou, para a
climática cena do julgamento do protagonista, criminosos verdadeiros, que
emolduram o grande momento de Lorre – que, logo após o filme, também abandonou
a Alemanha por medo de Hitler (e anos mais tarde marcou presença no clássico
“Casablanca”). Com uma interpretação que desperta pavor, repulsa e até mesmo
comiseração, ele acaba sendo a alma de um filme nunca menos que impressionante.
Se foi ou não inspirado em fatos
reais – Lang sempre negou que tivesse se baseado na história verdadeira do
serial killer Peter Kurten, que aterrorizou a Alemanha nos anos 20 – não faz
diferença. O que importa é que “M, o vampiro de Dusseldorf” é um dos mais
impactantes e geniais filmes jamais realizados: inteligente, forte, ousado,
plasticamente deslumbrante e politicamente relevante. Para ver e rever sempre –
e descobrir sempre coisas novas!
segunda-feira
O MÉDICO E O MONSTRO
O MÉDICO E O MONSTRO (Dr. Jekyll and Mr. Hyde, 1931, Paramount Pictures, 98min) Direção: Rouben Mamoulian. Roteiro: Samuel Hoffenstein, Percy Heath, romance de Robert Louis Stevenson. Fotografia: Karl Struss. Montagem: William Shea. Figurino: Travis Banton. Direção de arte: Hans Dreier. Produção: Adolph Zuckor. Elenco: Fredric March, Miriam Hopkins, Rose Hobart, Homes Herbert. Estreia:31/12/31
Três indicações ao Oscar: Ator (Fredric March), Roteiro, Fotografia
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Fredric March)
Três indicações ao Oscar: Ator (Fredric March), Roteiro, Fotografia
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Fredric March)
Na história
do Oscar poucos momentos foram tão insólitos quanto um ocorrido em 18 de
novembro de 1932, ainda nos primórdios de sua existência: por sua performance
em “O médico e o monstro” – adaptação do clássico de Robert Louis Stevenson – o
inglês Fredric March foi eleito o melhor ator da temporada. Para surpresa de
todos, porém, algum tempo depois, ainda na cerimônia de entrega dos prêmios, o
Presidente da Academia, Conrad Nagel subiu ao palco e anunciou a novidade:
March não havia sido o único vitorioso e teria que dividir a glória com Wallace
Beery (até então tido como o favorito por “O campeão”). O caso é que Beery
havia perdido a votação por um único voto e as regras da Academia na época
ditavam que, se a diferença entre o primeiro e o segundo lugares fosse menor
que três votos, um empate seria declarado. Regra é regra, claro – e atualmente
um empate só é considerado empate no caso do Oscar quando o número de votos for
rigorosamente igual – mas o fato é que a interpretação de March se mantém,
apesar da distância de mais de oitenta anos, extremamente atual e
impressionante. Mérito de seu talento como ator, obviamente, mas também da
força de seu diretor, Rouben Mamoulian.
Ao adaptar uma das histórias mais conhecidas da literatura mundial – e que já havia sido levada às telas treze vezes antes de sua versão, escrita por Samuel Hoffenstein e Percy Heath – Mamoulian imprimiu, em seu terceiro longa-metragem, uma personalidade e uma inteligência raras no cinema dos grandes estúdios (no caso, a Paramount). Fazendo uso elegante da fotografia de Karl Struss e da edição ágil e inovadora, repleta de fusões que contrastam os mundos díspares que convivem na Londres do século XIX, o cineasta acabou por construir uma narrativa em que convivem pacificamente um brilhante filme de horror, um suspense de grande sofisticação e, surpresa, um drama romântico dos mais interessantes. Mantendo o interesse da plateia do primeiro ao último minuto mesmo contando uma história já muito conhecida, Mamoulian pavimentou seu caminho como um dos diretores mais versáteis e populares de Hollywood – ao menos até o final dos anos 50, quando sua tendência à independência lhe arrumou sérios problemas com o sistema vigente na terra do cinema.
Ao adaptar uma das histórias mais conhecidas da literatura mundial – e que já havia sido levada às telas treze vezes antes de sua versão, escrita por Samuel Hoffenstein e Percy Heath – Mamoulian imprimiu, em seu terceiro longa-metragem, uma personalidade e uma inteligência raras no cinema dos grandes estúdios (no caso, a Paramount). Fazendo uso elegante da fotografia de Karl Struss e da edição ágil e inovadora, repleta de fusões que contrastam os mundos díspares que convivem na Londres do século XIX, o cineasta acabou por construir uma narrativa em que convivem pacificamente um brilhante filme de horror, um suspense de grande sofisticação e, surpresa, um drama romântico dos mais interessantes. Mantendo o interesse da plateia do primeiro ao último minuto mesmo contando uma história já muito conhecida, Mamoulian pavimentou seu caminho como um dos diretores mais versáteis e populares de Hollywood – ao menos até o final dos anos 50, quando sua tendência à independência lhe arrumou sérios problemas com o sistema vigente na terra do cinema.
Depois de “O médico e o monstro”, Mamoulian
deixaria sua marca em filmes tão variados quanto o romântico “Ama-me esta
noite” (32) – que fazia exemplar uso da trilha sonora – e o inesquecível
“Rainha Christina” (34), um dos melhores papéis de Greta Garbo em Hollywood.
Assinou “Vaidade e beleza” (35) – primeiro filme a utilizar o Technicolor de
três tiras – e comandou o dramático “Sangue e areia” (41), com Tyrone Power e
Rita Hayworth. Foi já em 1944 que sua carreira começou a sofrer as
consequências de seu espírito indômito: foi afastado da direção do icônico
“Laura” e substituído por seu produtor Otto Preminger (que acabou sendo
indicado ao Oscar) e ainda teve de amargar outras duas situações idênticas: em
1959, quando o mesmo Preminger ficou em seu lugar na cadeira de diretor nas
filmagens de “Porgy e Bess” e em 1963, quando foi afastado do problemático
“Cleópatra” para dar lugar a Joseph L. Mankiewicz. Cineasta de sensibilidade
teatral, Mamoulian acabou pagando um alto preço por seu bom-gosto em meio à
falta de imaginação generalizada da indústria de cinema norte-americana. Mas é
justamente esse seu diferencial que transforma “O médico e o monstro” em algo
mais do que simplesmente um filme de terror.
Absolutamente impecável, Fredric
March dá vida ao Dr. Jekyll, um médico brilhante, gentil, inteligente e
caridoso que julga ter encontrado uma fórmula capaz de separar o bem e o mal
que ele acredita existir dentro de todo ser humano. Alvo de piadas e
desacreditado pelos colegas, ele resolve testar a experiência em si mesmo e,
para sua surpresa, ele liberta um monstrengo de aparência semi-animal,
grosseiro, violento e cruel a que dá o nome de Mr. Hyde. Enquanto seu lado
afável tenta convencer o futuro sogro a antecipar seu casamento com a doce
(Miriam Hopkins), sua desprezível segunda personalidade se envolve com a bela
prostituta Ivy (Rose Hobart) e passa a tratá-la como sua propriedade – o que a
levará, sem que ela saiba disso – aos braços do doce médico.
Com um roteiro fluido e que vai
direto ao ponto, “O médico e o monstro” se beneficia de três grandes atrativos:
a direção clara de Mamoulian, a atuação avassaladora de March – convincente em
qualquer uma das personalidades do protagonista – e os efeitos de maquiagem
nunca aquém de excepcionais, a cargo do mestre Wally Westmore (a quem March
agradeceu nominalmente em seu discurso de aceitação do Oscar). A confluência
dessas três qualidades dá ao filme – dotado de uma ousadia sexual
surpreendente, pré-Código Hayes – um palpável ar de atualidade de que nem todos
os seus congêneres podem se gabar. Um trabalho excepcional, desde seu visual
caprichado até os detalhes narrativos de grande impacto dramático. Uma pequena
obra-prima!
domingo
FRANKENSTEIN
FRANKENSTEIN (Frankenstein, 1931, Universal Pictures, 70min) Direção: James Whale. Roteiro: Garrett Fort, Francis Edward Faragoh, peça teatral de Peggy Webling, romance de Mary Shelley. Fotografia: Arthur Edeson. Montagem: Clarence Kolster. Direção de arte: Charles D. Hall. Produção: Carl Laemmle Jr.. Elenco: Colin Clive, Mae Clarke, John Boles, Boris Karloff, Edward Van Sloan, Frederick Kerr. Estreia: 21/11/31
O cineasta
inglês James Whale deveria saber muito bem, assim como o protagonista de seu
filme mais famoso, o que significava o sentimento de exclusão e desajuste:
homossexual assumido em uma época cujos conceitos de tolerância às diferenças
eram bem menos elásticos, Whale abandonou a carreira em Hollywood no início da
década de 40 – ou seja, usufruiu por apenas dez anos o prestígio de sua
obra-prima – e morreu, supostamente suicida, em 1957, aos 68 anos de idade
(como mostra o belo “Deuses e monstros”, que Bill Condon lançou em 1998, com
Ian McKellen no papel do diretor). Certamente a fúria interior de Whale e seu
desejo de manifestar a violência da intolerância serviram de força motriz à
potência dramática de “Frankenstein”, adaptação livre do romance gótico de Mary
Shelley que, parte de um pacote de filmes de terror da Universal (que incluía o
também icônico “Drácula”, com Bela Lugosi), sobreviveu ao tempo como um
impressionante retrato de como a humanidade reage em relação às diferenças.
Sem
preocupar-se com exatidão ao livro de Shelley – que deu origem a diversos
outros produtos, seja no cinema, nos palcos e até na televisão, com níveis
diferentes de fidelidade ao material original – o roteiro baseia-se também na
peça teatral de Peggy Webling, o que explica algumas diferenças bastante óbvias
na condução da trama, incluindo-se aí a mudança do nome do protagonista:
enquanto no romance o cientista que brinca de Deus ao criar uma vida em seu
laboratório secreto chama-se Victor Frankenstein, no filme de Whale ele foi
batizado como Henry – em interpretação notável de Colin Clive – e tanto o
prólogo e o epílogo escritos pela jovem autora foram limados (e só voltariam a
fazer parte da história na versão dirigida por Kenneth Branagh em 1994, que
trata com extrema fidelidade o manuscrito original). De tintas bem mais
trágicas do que o filme – que faz milagres em desenvolver toda a trama em meros
71 minutos – o livro capricha em descrever os desastres pessoais pelos quais
passa o cientista antes de finalmente dedicar-se à sua obsessão, mas o filme
passa por cima desses detalhes para ater-se basicamente nas consequências de
tal ato. E visto por esse ângulo, o trabalho de Whale é um triunfo.
Um homem de bom-gosto inquestionável
– quando abandonou o cinema, ele passou a dedicar-se à pintura – Whale cria
cada sequência de seu filme com requinte e beleza, imprimindo um tom de
melancolia e poesia até às cenas mais banais. A bela fotografia em
preto-e-branco sublinha o tom gótico da narrativa e enfatiza os pormenores
daquela que é a sua maior qualidade: a atuação icônica e fascinante de Boris
Karloff, que mesmo sem dizer uma única palavra em todo o filme, traduz com
exatidão as nuances sonhadas pelo cineasta. Ao lado de Jack Pierce, responsável
pela maquiagem antológica da criatura, Whale concebeu um monstro que ainda
hoje, 85 anos depois de sua estreia, povoa a imaginação das plateias. Mesmo que
talvez seja motivo de piada diante de efeitos especiais que praticamente
emburreceram o gênero terror – e de inúmeras imitações, homenagens e paródias –
o visual da criatura é de um êxito impressionante. Não há quem não reconheça a
imagem: um homem com a cabeça achatada, com plugues no pescoço, roupa
esfarrapada, botas pesadas, pálpebras caídas e repleto de cicatrizes entra em
cena de costas, devagar, enquanto a câmera se aproxima e mostra a uma plateia
de respiração suspensa o resultado dos experimentos ensandecidos de um
cientista irresponsável e ambicioso cujo maior objetivo na vida – além de
casar-se com a namorada de infância, Elizabeth (Mae Clark) – é ser capaz de
criar um ser humano a partir das partes de pessoas mortas.
Obviamente as consequências de tal
ambição não serão nada agradáveis, e uma trilha de sangue e morte é deixada
conforme a criatura – foragida depois de assassinar o cruel assistente de
Frankenstein, Fritz (Dwight Frye), personagem inexistente no livro e que acabou
por tornar-se parte do inconsciente coletivo graças à comédia “O jovem
Frankenstein” (74), de Mel Brooks, quando recebeu o nome de Igor e foi vivido
por Marty Feldman – parte atrás de seu criador. No caminho, até mesmo suas
tentativas de adaptação a um mundo hostil e intolerante a quem foge dos padrões
acabam em tragédia. James Whale não tem medo de chegar até o fim em sua missão
de impactar o espectador, e nem mesmo crianças são poupadas de suas ousadias. O
clímax – o embate entre criador e criatura no alto de um penhasco – também é
digno de nota, por inaugurar uma tendência que se mantém atual no cinema
comercial: por frente a frente herói e vilão (ainda que nesse caso a divisão
não seja assim tão óbvia).
Executado de forma brilhante,
“Frankenstein” é do tipo de filme que não sai da cabeça do espectador mesmo
depois de muito tempo. Suas imagens, fortes e concebidas com o claro intuito de
encantar e assustar ao mesmo tempo, são uma prova inconteste do talento de seu
diretor, que consegue a façanha de sobrepujar um roteiro um tanto superficial
com ideias fascinantes e inteligentes. Se Boris Karloff é o corpo do filme –
que acabou por transformar-se em uma espécie de marca registrada sua – Whale é
sua alma. Sua união é responsável por um dos clássicos absolutos do cinema,
capaz de encantar mesmo nos cínicos dias de hoje.
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