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quinta-feira

AGENTE 86

 


AGENTE 86 (Get Smart, 2008, Warner Bros/Village Roadshow Pictures, 110min) Direção: Peter Segal. Roteiro: Tom J. Astle, Matt Ember, personagens criados por Mel Brooks, Buck Henry. Fotografia: Dean Semler. Montagem: Richard Pearson. Música: Trevor Rabin. Figurino: Deborah L Scott. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Suzanne Cloutier, Paul Rotte, Leslie E. Rollins. Produção executiva: Bruce Berman, Steve Carell, Dana Goldberg, Jimmy Miller, Brent O'Connor, Peter Segal. Produção: Michael Ewing, Alex Gartner, Andrew Lazar, Charles Roven. Elenco: Steve Carell, Anne Hathaway, Dwayne Johnson, Alan Arkin, Terence Stamp, Terry Crews, David Koechner, Bill Murray, James Caan. Estreia: 20/6/2008

Em 1998, poucos nomes em Hollywood pareciam mais apropriados para uma versão cinematográfica da série de TV "Agente 86" do que o de Jim Carrey, Astro de comédias de sucesso que exploravam seu humor físico, o ator canadense soava como a escolha ideal para assumir o mais icônico papel do veterano Don Adams. Por uma série de razões, no entanto, o projeto acabou sendo deixado de lado até metade dos anos 2000 - mas, com a morte de Adams, em 2005, tornou-se quase obrigatória uma homenagem digna a um dos programas mais populares dos anos 1960. Para sorte de todos, foi também em 2005 que estreou, na NBC, a releitura da telessérie britânica "The office": seu protagonista, Steve Carell, mostrou-se, em poucos episódios, uma opção inequívoca para vestir a personalidade de Maxwell Smart, um agente secreto cujo brilhantismo intelectual contradizia sua total inabilidade para o trabalho de campo. Ciente de seu talento cômico - revelado e consagrado em "O virgem de 40 anos" (2005) - e da importância do trabalho, Carell entrou de corpo e alma em sua missão. Como produtor executivo e líder do elenco, ele transformou o que poderia ser apenas uma produção caça-níqueis em um sucesso quase inesperado: com 230 milhões de dólares arrecadados pelo mundo, "Agente 86" não apenas demonstrou respeitar o material original, mas também conquistou uma nova geração de fãs.

CONTROL, agência secreta norte-americana está em risco: boa parte de seus integrantes teve suas identidades reveladas por um grupo terrorista chamado KAOS - liderado pelo infame Siefgried (Terence Stamp) -, que ameaça praticar um atentado à bomba em local ainda desconhecido. Para impedir que tal hecatombe aconteça, o chefe no comando (Alan Arkin) resolve finalmente realizar o sonho de um seus mais dedicados agentes, Maxwell Smart (Steve Carell), e incumbí-lo de um trabalho de campo. Genial em suas missões intelectuais mas desastrado e desligado no dia-a-dia, Smart é rebatizado como Agente 86 e é designado a fazer dupla com a atraente Agente 99 (Anne Hathaway) - cujo rosto pós-cirurgia plástica é desconhecido pelos criminosos. A dupla pouco provável viaja então para a Rússia - e seus métodos opostos acabam por aproximá-los. A descoberta de um agente duplo, porém, põe em xeque seu incipiente relacionamento.

O roteiro - que contou com a colaboração não creditada de Carell e de seu colega de "The office", B.J. Novak - é apenas uma desculpa para uma série de piadas visuais e verbais, lançadas em um ritmo vertiginoso que realça o talento de sua dupla de protagonistas. Se Carell demonstra estar totalmente à vontade em cena, arrancando gargalhadas com sua simples presença, o trabalho de Anne Hathaway tampouco fica atrás: sexy e com um excelente tempo de comédia, a futura vencedora do Oscar não se deixa suplantar por seu parceiro (a sequência em que os dois dançam em uma festa, cada um com seu par, deixa qualquer um com um sorriso nos lábios). E se os protagonistas deitam e rolam, o elenco coadjuvante faz o mesmo, desde o veterano Alan Arkin até um surpreendente Dwayne Johnson, como o Agente 23, ídolo de Smart e seu exemplo dentro da agência. Até nomes pouco conhecidos, como Masi Oka e Nate Torrence conseguem fazer rir, graças à direção precisa de Peter Segal - cujo currículo inclui o terceiro capítulo da série "Corra que a polícia vem aí" e "Terapia de choque", estrelado por Jack Nicholson e Adam Sandler - que transforma todo pequeno momento em entretenimento puro.

O sucesso de "Agente 86" não foi suficiente, no entanto, para uma continuação. Apesar dos desejos da equipe, alguns fatores colaboraram para que o primeiro filme não rendesse uma sequência. A morte do produtor Alan Horn (que abandonou o projeto quando ele saiu das mãos da Disney) e do ator Alan Arkin e a agenda apertada de Anne Hathaway, além da dificuldade de encontrar um roteiro à altura acabaram por sepultar a possibilidade, para desgosto do público que esperava voltar a rir com as trapalhadas de Maxwell Smart. E se tudo funcionou como um relógio no primeiro capítulo não deixa de ser um alívio pensar que ninguém conseguiu estragar tudo com uma produção menos feliz em uma continuação equivocada.

sexta-feira

O CASAMENTO DE RACHEL

O CASAMENTO DE RACHEL (Rachel getting married, 2008, Sony Pictures Classic, 110min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Jenny Lumet. Fotografia: Declan Quinn. Montagem: Tim Squyres. Música: Donald Harrison Jr., Zafer Tawil. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Ford Wheeler/Chryss Hionis. Produção executiva: Carol Cuddy, Ilona Herzberg. Produção: Neda Armian, Jonathan Demme, Marc Platt. Elenco: Anne Hathaway, Debra Winger, Rosemarie De Witt, Anisa George, Mather Zickel, Tunde Adebimpe, Bill Irwinn, Anna Deavere Smith, Sebastian Stan. Estreia: 01/9/08 (Festival de Veneza)

 Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Anne Hathaway)

Quando Jonathan Demme começou a chamar a atenção do público, na segunda metade da década de 1980, ele se destacava por comédias amalucadas com personagens femininas fortes - "Totalmente selvagem" (1986), com Melanie Griffith, e "De caso com a máfia" (1988), com Michelle Pfeiffer, tornaram-se cult movies principalmente por suas atrizes principais. Depois, em uma nova fase, ele abraçou o cinema comercial (pero no mucho) com filmes vencedores do Oscar - "O silêncio dos inocentes" (1991), vencedor das cinco principais estatuetas da Academia, e "Filadélfia" (1993), que deu o primeiro troféu a Tom Hanks e premiou Bruce Springsteen por sua bela "Streets of Philadelphia". Mais tarde, depois do fracasso do ambicioso "Bem-amada", estrelado por Oprah Winfrey em 1998, dedicou-a remakes: "O segredo de Charlie" (2002), tinha Mark Wahlberg e Thandie Newton, e "Sob o domínio do mal" (2004) foi estrelado por Denzel Washington e Meryl Streep, mas nenhum fez barulho nas bilheterias e junto aos críticos. Foi assim, como um cineasta já acostumado aos altos e baixos da profissão e que buscava conforto dirigindo documentários e videoclipes, que Demme voltou aos holofotes. Realizado de forma independente e emprestando seu visual dos documentários, "O casamento de Rachel" estreou no Festival de Veneza de 2008 - e, de cara, chamou a atenção para a qualidade que seria seu maior trunfo nas cerimônias de premiação da temporada: o desempenho excepcional de sua protagonista, Anne Hathaway.

Uma atriz então em ascensão, com papéis tanto em dramas premiados como "O segredo de Brokeback Mountain" (2005) quanto em sucessos de bilheteria como "O diabo veste Prada" (2006), a jovem Hathaway (que levaria o Oscar de coadjuvante pela versão cinematográfica do musical "Os miseráveis", de 2012) foi a escolha perfeita para viver a conturbada e complexa protagonista do filme de Demme, uma mulher não exatamente admirável, mas tão repleta de nuances que somente uma atriz com seu talento conseguiria segurar sem apelar para os clichês que se poderia esperar. Tudo bem que o roteiro de Jenny Lumet - filha do veterano cineasta Sidney Lumet - foge completamente de qualquer emoção mais fácil, mas é a união da direção de Jonathan e da atuação de Hathaway que dá a estrutura da narrativa. Filmado com uma câmera na mão e contando apenas com uma trilha sonora diagética (originada apenas pelos sons dentro da ação), "O casamento de Rachel" se equilibra com cuidado entre um drama familiar e o registro de uma cerimônia que tem espaço para reconciliações, brigas, lavagem de roupa suja e, para salvação de todos, demonstrações de amor profundo e apaixonado. Tudo regado a vários gêneros musicais (inclusive com a participação de uma escola de samba) e interpretações precisas - e conta-se aí o retorno da ótima Debra Winger, no papel,  secundário mas crucial, da mãe da personagem central.


Kym Buchman, a protagonista, acaba de ser liberada provisoriamente de sua reabilitação para o casamento de sua irmã mais velha, Rachel (Rosemarie De Witt). Ausente de casa há nove meses, e frequentadora habitual da clínica de onde está saindo, Kym não é exatamente uma pessoa confiável, o que fica claro com a constante vigilância de seu pai, Paul (Bill Irwin) e com o clima de tensão que seu retorno ao lar provoca em todos. A relação entre Kym e Rachel é de carinho, mas não demora para que a noiva passe a sentir-se incomodada com a presença de sua irmã mais nova - especialmente quando Kym começa a dar sinais de que pretende aproveitar a festa para tentar remendar alguns de seus erros do passado, o que inclui um acidente fatal que ainda não está superado pela família. Envolvida também em uma relação casual com um dos padrinhos do noivo, Kieran (Mather Zickel), a quem conheceu em uma reunião de Alcóolicos Anônimos, Kym está sempre a um passo de uma recaída - ou, pior ainda, de uma tentativa desesperada de provar-se uma mulher mais segura e confiante para todos os convidados do casamento, incluindo a desconhecida família do noivo.

Ainda que tenha recuperado parte do prestígio do diretor, "O casamento de Rachel" nem de longe chega a lembrar a genialidade demonstrada em seus filmes mais populares - principalmente o inesquecível "O silêncio dos inocentes". Seu filme acerta em não fazer de Kym uma heroína chorosa ou vítima - ainda que isso faça dela um tanto irritante, também a torna muito mais crível. Anne Hathaway deita e rola com as oportunidades do papel (que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz), e enfrenta com segurança a série de desafios que o roteiro lhe apresenta, incluindo um embate violento com sua mãe e uma sessão de lembranças que traz à tona (mais uma vez) a tragédia causada por ela na adolescência. Os personagens de Lumet são realistas, humanos e passíveis de erros, e é exatamente por isso que "O casamento de Rachel" consegue ser tão incômodo e quase desagradável em alguns momentos. A delicadeza com que Demme trata a produção, no entanto, evita o melodrama barato e a aproxima mais da filmografia de Robert Altman - grande referência do diretor durante as filmagens. Simples no visual e complexo nos sentimentos, "O casamento de Rachel" não é recomendado para quem busca entretenimento puro - mas pode conquistar àqueles que procuram uma consistência dramática cada vez mais rara no cinemão norte-americano.

domingo

INTERESTELAR

INTERESTELAR (Interstellar, 2014, Paramount Pictures/Warner Bros/Legendary Entertainment, 169min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, Jontahan Nolan. Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Gary Fettis, Helen Kozora-Tell. Produção executiva: Jordan Goldberg, Jake Myers, Kip Thorne, Thomas Tull. Produção: Christopher Nolan, Lynda Obst, Emma Thomas. Elenco: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, Matt Damon, Michael Caine, Ellen Burstyn, David Oyelowo, Wes Bentley, William Devane, Casey Affleck, Topher Grace. Estreia: 26/10/14

5 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais 

Em 2006, quando ainda era um projeto da Paramount Pictures, "Interestelar" seria dirigido por um tal de Steven Spielberg, que contratou Jonathan Nolan para escrever o roteiro, inspirado em teorias científicas do físico Kip Thorne. A história original, que envolvia um conceito chamado de "caminho de minhoca" e várias outras situações que também inspiraram Carl Sagan a escrever seu clássico "Contato", acabou sendo deixada de lado pelo oscarizado cineasta em 2012, quando foi parar, então, nas mãos do irmão do roteirista, um homem que, em poucos anos de carreira, já havia redefinido os filmes de super-heróis com uma sombria trilogia protagonizada por Batman e criado um dos mais fascinantes e inteligentes filmes de ação da história ("A origem"): assumindo um projeto arriscado, caro (165 milhões de dólares) e sujeito à boa vontade de uma plateia mal-acostumada com blockbusters que não exigem muito do cérebro, Christopher Nolan transferiu a produção para sua casa (Warner Bros) e, com uma equipe de confiança a seu lado, realizou mais uma obra-prima que conquistou o público. Com mais de 600 milhões de dólares arrecadados ao redor do mundo, "Interestelar" - uma ficção científica empolgante, inteligente e emocionante - também colocou seu diretor em uma posição bastante privilegiada na indústria, ao ser o quarto filme seguido do diretor eleito como um dos dez melhores do ano pelo American Film Institute.

Como é comum na filmografia de Nolan, "Interestelar" se utiliza de uma técnica impecável para contar uma história que, no fundo, tem ressonâncias emocionais da mais alta profundidade. Sua receita de sucesso - contar com personagens fortes e ligações interpessoais que conectem a plateia com a trama, por mais complexa que ela possa parecer a princípio - mostrou-se vitoriosa principalmente em "A origem" (2010), e volta a funcionar à perfeição neste que talvez seja seu filme mais difícil até o momento. Longo (quase três horas de duração), dotado de um ritmo próprio que evita os clichês de filmes de ação e repleto de explicações científicas que poderiam assustar qualquer espectador acostumado às explosões sem sentido de Michael Bay, "Interestelar" é a prova cabal de que inteligência e diversão podem tranquilamente caminhar lado a lado - e que o público não é tão avesso quanto se pensa ao ato de por o cérebro para funcionar de vez em quando. Vencedor do Oscar de efeitos visuais - concorreu também às estatuetas de edição de som, mixagem de som, trilha sonora e direção de arte - o filme seduz pelo visual estonteante, mas se torna uma experiência única quando deixa a sensibilidade falar mais alto que a tecnologia.


A história imaginada por Nolan começa como mais uma produção sobre futuros distópicos, onde a humanidade está ameaçada de desaparecer diante de uma série de catástrofes que foram minando, pouco a pouco, todos os recursos naturais da Terra. É nesse ambiente desolador que o público é apresentado ao protagonista, Cooper (Matthew McConaughey), um engenheiro e piloto de testes da NASA tornado fazendeiro no Texas após a morte da esposa, e que tenta, a muito custo, manter a propriedade da família e cuidar dos dois filhos e do sogro. Seu destino, porém, logo lhe será revelado: após investigar o aparecimento de misteriosos sinais em sua fazenda, Cooper resolve seguir suas coordenadas e acaba parando em um bunker secreto, comandado pelo veterano John Brand (Michael Caine), um cientista com quem já havia trabalhado no passado. É Brand quem convence Cooper a entrar na mais perigosa aventura de sua vida: juntar-se a um pequeno grupo de exploradores - que inclui a filha de seu ex-chefe, Amelia (Anne Hathaway) - e viajar no espaço à procura de planetas que possam servir de salvação para o aparentemente inevitável extermínio da Terra e seus habitantes. Pensando nos filhos e na possibilidade de salvar a humanidade - um plano B seria o de colonização de outro ambiente propício à sobrevivência humana - Cooper aceita a missão, para desespero de sua filha, Murphy (Mackenzie Foy), uma menina de inteligência acima da média que se recusa a aceitar a partida do pai. A viagem exploratória começa, e é a partir daí que "Interestelar" pega todo mundo de surpresa.

Durante mais de duas horas, o roteiro dos irmãos Nolan segue o padrão dos filmes de ficção científica a que o público está habituado: efeitos visuais de primeira, alguns diálogos recheados de termos complexos, sequências de ação deslumbrantes e com altas doses de suspense, personagens que não são exatamente o que parecem. São seus trinta minutos finais, porém, que o tornam especial. Com uma reviravolta que põe em perspectiva tudo que foi mostrado até então e torna essenciais cada linha de diálogo e cada detalhe mostrados anteriores, a trama fecha um ciclo que, mais do que científico e metafísico, é essencialmente familiar e emotivo, oferecendo à uma Murphy adulta (e vivida com a competência de sempre por Jessica Chastain) uma importância crucial para um desfecho de arrepiar até ao mais cínico dos espectadores. Não importa se a plateia entende os conceitos de "buraco de minhoca" ou tem domínio da maior parte das explanações científicas da trama: é a humanidade que vem dos personagens que faz do filme universal e atemporal. Mais uma obra-prima de Christopher Nolan.

quinta-feira

BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE

BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE (The Dark Knight rises, 2012, Warner Bros/Legendary Pictures, 165min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan, estória de Christopher Nolan, David S. Goyer, personagens criados por Bob Kane. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Lindy Hemming, Craciunica Roberto. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Kevin Kavanaugh. Produção executiva: Kevin De La Noy, Benjamin Melniker, Thomas Tull, Michael E. Uslan. Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas. Elenco: Christian Bale, Anne Hathaway, Michael Caine, Joseph Gordon-Levitt, Tom Hardy, Marion Cottilard, Gary Oldman, Morgan Freeman, Matthew Modine, Cillian Murphy, Ben Mendelsohn, Juno Temple, Thomas Lennon, Liam Neeson. Estreia: 16/7/12

O que falta dizer sobre "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge" que ainda não foi dito, analisado, dissecado e elogiado desde sua estreia, a maior de 2012, com uma bilheteria arrasadora que confirmou de uma vez por todas a força do personagem e do talento de todos os envolvidos? O encerramento da trilogia dirigida por Christopher Nolan - que provou que entretenimento e inteligência podem conviver pacificamente em um blockbuster, haja visto também o sucesso merecido de "A origem", que chegou a concorrer ao Oscar de melhor filme - pode não ser tão impactante quanto o segundo capítulo da série (que, afinal de contas, contava com a atuação assombrosa de Heath Ledger) mas consegue ser empolgante, comovente e surpreendente, apesar de alguns pequenos defeitos. De quantos "filmes de verão", pouco afeitos a "detalhes" como roteiro e direção de atores se pode pode afirmar a mesma coisa?

A essa altura todo mundo sabe que a trama mantida em segredo por Nolan antes da estreia começa sete anos depois dos acontecimentos do segundo filme, mostrando Bruce Wayne (Christian Bale) isolado em sua mansão e a imagem de Batman manchada pela acusação da morte de Harvey Dent (Aaron Eckhart) - na verdade obra das armações do Coringa (Heath Ledger).  Batman e Wayne são obrigados a voltar à ação, no entanto, quando um mercenário chamado Bane (o impressionante Tom Hardy) passa a ameaçar Gotham City com a destruição em massa proposta por Ra's Al Ghul (Liam Neeson), mentor de ambos na Liga das Sombras. Junta-se à receita a charmosa ladra Selina Kyle (Anne Hathway na ingrata tarefa de ofuscar a Mulher-Gato de Michelle Pfeiffer no filme comandado por Tim Burton em 1992), o jovem policial idealista Blake (Joseph Gordon-Levitt) e a milionária Miranda Tate (Marion Cotillard) - que ambiciona tornar-se sócia de Wayne em seus experimentos - e pronto: Nolan oferece à audiência cenas de ação de extrema competência, dramas humanos críveis e reviravoltas em número suficiente para que as quase três horas de projeção passem voando diante dos olhos do público.


Fugindo do limitativo nicho de "filmes de super-herói", a trilogia do Homem-morcego criada por Nolan tem uma consistência rara, mantendo um nível de qualidade que encanta tanto aos fãs de histórias em quadrinhos quanto àqueles interessados apenas em um bom filme de ação. Tudo tem espaço no roteiro do cineasta, que tem óbvio carinho pelas personagens e pelos atores que as interpretam (não é à toa que o "time Nolan" está todo aqui, de Bale, Michael Caine e Cillian Murphy aos novos integrantes da troupe, Marion Cotillard, Joseph Gordon-Levitt e Tom Hardy, saídos direto de "A origem"). A história que conta é mais importante para o homem que despontou para o grande público com o fantástico "Amnésia" do que efeitos desconcertantes de câmera e efeitos especiais de ponta (e mesmo assim ele proporciona à plateia bons momentos assim). E é um desafio a qualquer um não sair do cinema bastante satisfeito com as ideias do excelente roteiro e com o final emocionante, com direito até mesmo a uma pequena e feliz surpresa. Seguindo o caminho de costurar várias linhas narrativas simultâneas e com inúmeros personagens, que pode ser bastante perigoso - caso do terceiro "Homem-aranha", de Sam Raimi - quanto bem-sucedido - como aconteceu com a trilogia "O Senhor dos Anéis", de Peter Jackson - Nolan conta com uma edição de extrema competência, que consegue dar conta de tudo mesmo quando a aparência é de uma bagunça descontrolada. Realmente existe um acúmulo de personagens, mas Nolan mantém o pulso firme até o final - e ainda consegue chocar a audiência com uma das cenas mais impressionantes da trilogia (retirada diretamente dos quadrinhos).

Difícil falar de "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge", em especial depois que tudo foi dito. Mas algo precisa ser afirmado apesar de tudo: é absolutamente imperdível e satisfaz até ao mais exigente fã do personagem de Bob Kane. É um encerramento absolutamente digno e se Anne Hathway não rouba a coroa de Michelle Pfeiffer ao menos faz bonito em cena, com beleza, carisma e talento. Uma pena, no entanto, que a personagem de Marion Cottilard seja tão pouco aproveitada e que agora estejamos todos reféns de novas e temíveis adaptações do herói para o cinema. Obrigado, Nolan, por esses anos de entretenimento de primeira qualidade.

quarta-feira

UM DIA

UM DIA (One day, 2011, Focus Features, 107min) Direção: Lone Scherfig. Roteiro: David Nicholls, romance de David Nicchols. Fotografia: Benoit Dellhome. Montagem: Barney Pilling. Música: Rachel Portman. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Dominic Capon. Produção executiva: Tessa Ross. Produção: Nina Jacobson. Elenco: Anne Hathaway, Jim Sturgess, Patricia Clarkson, Romola Garai, Rafe Spall. Estreia: 08/8/11

Parafraseando Nelson Rodrigues, "envergonha-me estar aqui proclamando o óbvio", mas, ao assistir-se à adaptação para o cinema de um livro querido é preciso estar perfeitamente ciente de que é virtualmente impossível ficar totalmente satisfeito. Isso acontece com uma raridade impressionante. Aconteceu com "As horas", magistral transição do romance de Michael Cunninhgam por Stephen Daldry em 2002. Aconteceu de novo em 2007 com "Desejo e reparação", que Joe Wright dirigiu com base no espetacular drama literário de Ian McEwan. Mas infelizmente não aconteceu com "Um dia", que a dinamarquesa Lone Scherfig assina depois do êxito de seu "Educação", que ano passado chegou a concorrer ao Oscar de Melhor Filme. Tudo bem, o livro de David Nicholls não é uma obra-prima como os citados trabalhos de Cunningham e McEwan, mas é uma leitura deliciosa, ágil, comovente,engraçada e inteligente como poucas conseguem ser. E sua versão em celuloide pode até não ser um filme que vá ganhar estatuetas a granel, mas tem uma honestidade e uma simpatia tão grandes que é difícil não relevar seus pecadilhos.

Ao acompanhar vinte anos na vida de um casal de amigos que se conhece na formatura da faculdade - e que nunca deixam de se falar, escondendo até deles mesmos a paixão que sentem um pelo outro - o roteiro de David Nicholls falha em fazer um inventário de sonhos despedaçados, relacionamentos frustrados e outras tantas decepções pelas quais todos passamos. Enquanto no livro tudo é emocionante e frequentemente hilariante devido à prosa esperta do autor, no filme as coisas acontecem com uma velocidade tão grande que muitas vezes os protagonistas não conseguem atingir o grau de realismo e densidade necessários. Logicamente é preciso muito malabarismo para condensar duas décadas em pouco mais de cem minutos de projeção, mas a pressa com que o roteiro passa por momentos cruciais das personagens - em especial quando eles finalmente começam a amadurecer - acaba prejudicando sua complexidade, deixando-os quase como duas personagens clichê de comédias românticas, o que - e quem leu o livro sabe disso - não pode estar mais longe da verdade.


Dexter Mayhew (vivido com graça e carisma por Jim Sturgess) e Emma Morley (interpretada pela linda e talentosa Anne Hathaway) são apaixonantes. Ele é sedutor, imaturo, no limite do egocentrismo. Ela é inteligente, ambiciosa e idealista. Eles passam a noite juntos no dia 15 de julho de 1988 e prometem ser amigos. Ele torna-se apresentador de um programa ruim de TV, envolve-se com drogas, mulheres e um certo tipo nocivo de fama até se casar com uma mulher que não ama (Romola Garai, de "Desejo e reparação"). Ela vira garçonete, inicia um relacionamento com um aspirante a humorista (Rafe Spall) mas jamais desiste de ser uma escritora. Eles nunca deixam de se falar. Mas são incapazes de perceber que se amam (ou pelo menos escondem esse sentimento tão fundo que desenterrá-lo pode trazer mais dor do que felicidade). Até que um dia...

Os românticos irão se deliciar com "Um dia". É um filme lindamente fotografado, com uma bela trilha sonora de Rachel Portman, dirigido com sensibilidade e leveza e repleto de um clima de delicadeza que se torna patente quando o roteiro permite que Sturgess brilhe com seu perdido Dexter (em especial em suas cenas com o ótimo Ken Stott, que interpreta seu pai ou com a sempre eficiente Patricia Clarkson, que interpreta sua mãe) ou com sua química com Hathaway (ainda que ela esteja aquém das possibilidades mostradas em filmes como "O casamento de Rachel" ou até mesmo em "Amor e outras drogas" e nem sempre consiga sustentar o sotaque inglês). É uma história de amor que emociona por tratar de pessoas de verdade e por fugir (dentro de suas possibilidades) de um final previsível. Quem leu o livro vai dizer (com razão) que poderia ser melhor. Mas ainda assim é um belo programa para os fãs do gênero e tem tudo para tornar-se cult com o passar dos anos.

domingo

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (Alice in Wonderland, 2010, Walt Disney Pictures, 108min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Linda Woolverton, romances de Lewis Carroll. Fotografia: Darius Wolski. Montagem: Chris Lebenzon. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Robert Stromberg/Karen O'Hara. Produção executiva: Chris Lebenzon, Peter Tobyansen. Produção: Joe Roth, Jennifer Todd, Suzanne Todd, Richard D. Zanuck. Elenco: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Christopher Lee, Crispin Glover. Estreia: 05/3/10

Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

Primeiro, a pergunta que não quer calar: por que mais uma versão para o cinema do clássico livro de Lewis Carroll, imortalizado na memória coletiva pela animação dos estúdios Disney lançada em 1951? Depois, uma questão ainda mais pertinente: por que escolher para protagonista uma jovem da idade de Mia Wasikowska e não uma criança, como se poderia esperar de uma adaptação fiel? Ambas as perguntas tem a mesma resposta, que fica clara logo nos primeiros minutos da versão Tim Burton de "Alice no País das Maravilhas": ao transpor para as telas os dois livros de Carroll estrelados por Alice - suas aventuras no País das Maravilhas e Através do Espelho - o excêntrico cineasta por trás de obras essenciais do cinema americano dos anos 90, como "Ed Wood" e "A fantástica fábrica de chocolates", resolveu expandir o universo criado pelo escritor, inventando uma história nova que fizesse uma Alice adulta revisitar seu passado justamente em um momento crucial de seu amadurecimento. Sendo assim, apesar dos personagens clássicos da obra estarem presentes no filme - a Rainha de Copas, o Chapeleiro Maluco, o Gato - o público que esperava uma versão fiel da famosa história se viu diante de um filme visualmente excitante (característica indissociável da obra do diretor) mas bem diferente do previsto. Pior ainda, uma obra desprovida de encanto: sob o comando de Tim Burton, "Alice no País das Maravilhas" é um filme lindo de se ver, mas chatíssimo de acompanhar.

Prejudicado por uma atriz central insossa e sem carisma, "Alice no País das Maravilhas" tem a seu favor todo o esmero que sempre acompanha uma produção com a assinatura de Tim Burton. Do figurino de Colleen Atwood (premiado com o Oscar) à direção de arte (também premiada pela Academia), passando pela fotografia caprichada de Darius Wolszki e pela caracterização visual de todos os personagens, tudo no filme é espetacular e brilhantemente executado. Uma pena, porém, que todo esse cuidado não se reflete no roteiro, confuso e enfadonho a ponto de deixar o público totalmente indiferente à sorte da protagonista bem antes do clímax - uma batalha centrada basicamente em efeitos visuais e desprovida de qualquer emoção. Em sua tentativa de dar um espaço mais generoso ao Chapeleiro Maluco (provavelmente para aumentar a participação de seu habitual colaborador e amigo Johnny Depp) Burton acabou por esvaziar a importância de Alice, transformando-a em um atônito peão em um jogo de xadrez violento e sem muita razão de ser entre duas rainhas irmãs e rivais, vividas por Helena Bonham Carter e Anne Hathaway - aliás, os dois únicos acertos do elenco.


Trabalhando pela sexta vez com o então marido, Bonham Carter mais uma vez rouba a cena, dessa vez na pele da enlouquecida Rainha Vermelha - misturada aqui com a Rainha de Copas, em uma fusão no mínimo ousada, mas eficaz. Fazendo uso de sua tendência ao exotismo, a atriz que trocou os babados dos filmes baseados na literatura inglesa clássica - como "Uma janela para o amor" e "Retorno a Howards End" - pela excentricidade do cinema moderno - como a doentia Marla de "Clube da luta" ou suas colaborações anteriores com Tim Burton - parece estar se divertindo aos montes em cena, em uma composição que mistura o excesso das histórias em quadrinhos com a pop art de Andy Wharol. Sempre que está em cena, ela engole tudo à sua volta, em um desempenho louvável, que encontra eco somente na doçura e serenidade emprestada por Anne Hathaway à sua Rainha Branca - um contraste interessante que poderia ter rendido cenas antológicas não fosse a preguiça do roteiro em aprofundar quaisquer das tramas que propõe durante o caminho de sua protagonista.

Quando a trama começa, a Alice que todos conhecem já está com 19 anos de idade e apavorada com a possibilidade de ser obrigada a casar-se com um homem a quem não ama e com quem não tem a menor ligação. Antes que seja obrigada a dar uma resposta ao pedido de casamento, porém, ela acaba por surpreender a todos os convidados da festa promovida para tal ocasião ao sair correndo atrás de um coelho que julga já conhecer de outro lugar. Em sua busca, ela acaba caindo em um buraco que a leva a uma misteriosa terra chamada Underland. Lá, fazendo contato com seres estranhos que conhece através de vários sonhos que a perseguem há anos, ela descobre que é peça fundamental na batalha entre as duas rainhas que disputam o poder. Além disso, descobre também que já esteve em tal lugar, quando ainda era uma criança.

Fascinante em sua concepção visual e decepcionante em sua construção dramática, "Alice no País das Maravilhas" acabou conquistando o público mesmo com seus sérios defeitos de roteiro e rendeu mais de 300 milhões de dólares pelo mundo. Uma prova (mais uma) de que nem sempre os melhores filmes são os mais bem-sucedidos comercialmente.

PASSAGEIROS

PASSAGEIROS (Passengers, 2008, TriStar Pictures/Mandate Pictures, 93min) Direção: Rodrigo Garcia. Roteiro: Ronnie Christensen. Fotografia: Igor Jadue-Lillo. Montagem: Thom Noble. Música: Edward Shearmur. Figurino: Katia Stano. Direção de arte/cenários: David Brisbin/Carol Lavalee. Produção executiva: Joe Drake, Nathan Kahane. Produção: Julie Lynn, Judd Payne, Matthew Rhodes, Keri Selig. Elenco: Anne Hathaway, Patrick Wilson, Dianne Wiest, David Morse, Andre Braugher, Clea DuVall, William B. Davis, Don Thompson, Ryan Robbins. Estreia: 24/10/08

Diretor do sensível "Coisas que você pode dizer só de olhar para ela" e de alguns episódios da aclamada "A sete palmos", o colombiano Rodrigo Garcia - filho do escritor Gabriel Garcia Marquez - parece não ser, a princípio, o cineasta mais apropriado para contar a história repleta de suspense de um grupo de sobreviventes de um desastre aéreo que tentam superar o trauma com a ajuda de uma jovem terapeuta com problemas familiares. Porém, essa dúvida a respeito de sua adequação à trama é desfeita com poucos minutos de "Passageiros": apesar do tom sombrio e do permanente clima de tensão, o roteiro de Ronnie Christensen - autor de filmes B de pouca repercussão - oferece ao diretor um material rico também em possibilidades dramáticas, que lhe permite explorar, sem prejuízo de nenhum dos enfoques, tanto um belo drama psicológico quanto um suspense elegante, que dispensa sustos baratos ao optar por um viés mais espiritualista da história.

Talvez o maior acerto de "Passageiros" seja Anne Hathaway no papel central de Claire Summers, uma jovem terapeuta que é chamada por seu professor, Perry (Andre Braugher), para servir como conselheira de um grupo de sobreviventes de um grave acidente aéreo ocorrido recentemente. Uma pessoa fechada e introvertida que tem problemas de relacionamento com a única irmã, Claire relutantemente aceita a missão e começa uma série de sessões com os traumatizados passageiros - que tem, cada um a seu modo, uma visão diferente do que aconteceu na ocasião do acidente. Enquanto tenta investigar o que realmente ocasionou a queda do avião, Claire passa a sofrer a perseguição de um dos funcionários da companhia aérea (David Morse) e começa a perceber que seus pacientes estão misteriosamente desaparecendo, um a um. Certa de que algo muito errado está acontecendo, ela ainda começa a envolver-se com um dos pacientes, o charmoso Eric (Patrick Wilson), que, desde o desastre, passou a se comportar como um homem a quem foi dada uma nova chance. Mas, afinal, qual a verdade sobre a tragédia? E como realmente Claire poderá ajudar a essas pessoas?


Levantando suas questões aos poucos, conforme vai apresentando os personagens e estabelecendo suas ligações, o roteiro de "Passageiros" não chega a ser uma obra-prima de criatividade, mas tem o grande mérito de não tratar o espectador como burro. Espalhando pistas sobre a grande revelação final durante todo filme, o roteirista e o diretor não apelam para soluções tiradas da manga, preferindo contar sua história em um ritmo próprio, que equilibra as cenas românticas entre Claire e Eric com momentos de uma suave tensão. Essa opção de enfatizar o lado sensível da trama em detrimento de sustos e violência acaba sendo o grande diferencial do filme de Garcia em relação a outros similares: intercalando delicadeza e mistério, "Passageiros" pode agradar a gregos e troianos, ainda que corra o risco de, por sua indecisão (ou ousadia, dependendo do ponto de vista), deixar de ser um marco em qualquer um dos gêneros. Com o tempo, será lembrado como romance, drama ou suspense? Ou simplesmente irá tornar-se mais um clássico das madrugadas televisivas?

É fácil gostar de "Passageiros", uma vez que tudo parece estar no lugar certo: o elenco talentoso, a direção sutil, o roteiro com reviravoltas suficientes para segurar a atenção, a história interessante. Mas mesmo assim, fica a impressão de que falta a ele um algo a mais que o mantenha na memória do espectador e faça dele um grande filme. É emocionante, é surpreendente e é um entretenimento dos mais agradáveis. Mas dificilmente vai mudar a vida de alguém, ainda que seja sempre um prazer ver Anne Hathaway e Patrick Wilson em cena (melhor esquecermos de "Os miseráveis" e "O vizinho", não é mesmo?).

segunda-feira

AMOR & OUTRAS DROGAS

AMOR & OUTRAS DROGAS (Love & other drugs, 2010, Fox 2000 Pictures, 112min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Charles Randolph, Edward Zwick, Marshall Herscovitz, livro "Hard sell: the evolution of a Viagra salesman", de Jamie Reidy. Fotografia: Steven Fierberg. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Newton Howard. Figurino: Deborah L. Scott. Direção de arte/cenários: Patti Podesta/Meg Everist. Produção executiva: Arnon Milchan, Margaret Riley. Produção: Pieter Jan Brugge, Marshall Herscovitz, Charles Randolph, Scott Stuber, Edward Zwick. Elenco: Jake Gyllenhaal, Anne Hathaway, Oliver Platt, Hanz Azaria, Judy Greer, Gabriel Match, Josh Gad, George Segal, Jill Clayburgh. Estreia: 04/11/10

Levando-se em consideração que no currículo do cineasta Edward Zwick contam produções ambiciosas e grandiosas como “Tempo de glória” (89), “Lendas da paixão” (95) e “O último samurai” (03), não deixa de ser uma surpresa ver seu nome assinando “Amor & outras drogas”, um filme com elementos bastante díspares daqueles a que ele está acostumado. Baseado em uma história real e misturando comédia, romance e drama em doses bastante equilibradas, o filme, adaptado do livro de Jamie Reidy, acabou decepcionando nas bilheterias, a despeito de sua ascendente dupla central de atores – Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway – e dividiu a crítica, que viu com reservas a mistura de gêneros proposta pelo diretor. No entanto, com o tempo é bem provável que o público vá finalmente perceber as inúmeras qualidades de um filme que consegue ser ao mesmo tempo doce, engraçado, triste e dotado de algumas cenas de sexo bastante ousadas – mas que jamais ultrapassam os limites do bom-gosto.
Gyllenhaal vive Jamie Randall, personagem inspirado no autor do livro que deu origem ao filme, “Hard sell: the evolution of a Viagra salesman". Randall começa a trama como um vendedor de aparelhos de som que usa e abusa de seu charme e de seu bom papo para não apenas ser um ótimo negociante mas também para seduzir todas as mulheres que cruzam seu caminho. Demitido depois de seduzir a esposa do chefe e ser flagrado em pleno ato, ele arruma emprego como representante de uma indústria farmacêutica – o que o deixa em posição desconfortável dentro da própria família, que não consegue deixar de vê-lo como alguém desperdiçando seu talento em algo aquém de suas possibilidades. É nessa posição de vendedor de remédios – em busca sempre de uma promoção que o faça vender produtos mais desejados do que os simples antidepressivos com que trabalha – que Jamie conhece a bela Maggie Murdock (interpretada pela bela Hathaway), que além de linda e insaciável, é uma artista plástica talentosa que o surpreende com seus modos pouco convencionais: independente e decidida, ela entra sem medo em um relacionamento baseado unicamente em sexo casual. Aos poucos, porém, Jamie passa a sentir algo único em sua vida: completamente apaixonado, ele leva um choque ao descobrir que o alvo de seu afeto sofre do Mal de Parkinson – ainda inicial, mas já suficientemente capaz de fazer seus estragos.



É a partir dessa descoberta – e de suas consequências logicamente dramáticas – que “Amor & outras drogas” assume um viés completamente distinto de seus dois primeiros terços, banhados em sensualidade e um senso de humor despretensioso (em boa parte graças às intervenções de Josh Gad, no papel do irmão de Jamie): transformando seu filme em um romance ao estilo “Love story”, Edward Zwick corria o sério risco de esbarrar no dramalhão deslavado, mas, para surpresa de muitos e com a ajuda de seus atores, escapa bravamente do piegas. Aproveitando a química impecável entre Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway – casados anteriormente em “O segredo de Brokeback Mountain” – o diretor evita o sentimentalismo barato fugindo de cenas exageradamente dramáticas e apostando no carisma da dupla, em dias inspirados. Gyllenhaal deita e rola com um papel que explora ao máximo sua versatilidade: o jovem ator sai-se bem tanto nos momentos cômicos quanto naqueles que exigem dele mais emoção, e brinda os fãs com cenas pra lá de quentes com Hathaway, que, por sua vez, mostra que é uma das atrizes mais completas de sua geração – vale lembrar que o filme é anterior a seu Oscar de coadjuvante por “Os miseráveis”. Apostando na sutileza, Hathaway rouba a metade final de “Amor & outras drogas”, até então dominado por Gyllenhaal, e o carrega até o final como uma história de amor que equilibra em doses certeiras drama, humor e uma sensualidade das mais excitantes.
Demonstrando um conforto inesperado no comando de uma trama desprovida de cenas épicas de ação, Edward Zwick relembra, em “Amor & outras drogas”, seus tempos como diretor de “Sobre ontem à noite”, que retratava o tortuoso relacionamento entre o então jovem casal Demi Moore e Rob Lowe em 1986. Com uma obra plasticamente atraente e uma trilha sonora adequada e moderna, Zwick conquista a plateia pela simpatia e pela leveza: é impossível não se deixar cativar pela bela e inusitada história de amor entre Jamie e Maggie – que, além de tudo, é real. Uma bela dica para os fãs de Gyllenhaal e Hathaway e para todos que acreditam em um bom romance.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...