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quinta-feira

A MULHER DO AÇOUGUEIRO


A MULHER DO AÇOUGUEIRO (The butcher's wife, 1991, Paramount Pictures, 107min) Direção: Terr Hughes. Roteiro: Ezra Litwak, Marjorie Schwartz. Fotografia: Frank Tidy. Montagem: Donn Cambern. Música: Michael Gore. Figurino: Theadra Van Runkle. Direção de arte/cenários: Charles Rosen/Donald J. Remacle. Produção executiva: Arne Schmidt. Produção: Lauren Lloyd, Wallis Nicita. Elenco: Demi Moore, Jeff Daniels, George Dzunza, Frances McDormand, Mary Steenburgen, Margaret Colin, Max Perlich. Estreia: 25/10/91

Em 1987, quando ainda não era uma estrela de primeira grandeza, Demi Moore tentou convencer a Tri-Star Pictures a comprar um roteiro escrito por Ezra Litak e Marjorie Schwartz,  chamado "A mulher do açougueiro". O estúdio não demonstrou entusiasmo e o script acabou nas mãos da Paramount. Em 1990, com o mega-sucesso "Ghost: do outro lado da vida" no currículo, a então sra. Bruce Willis finalmente teve a oportunidade de ver seu desejo atendido. Já considerada um nome em ascensão em Hollywood, porém, Demi já não tinha mais interesse no projeto, mas foi convencida a reconsiderar a decisão diante de um polpudo salário oferecido pelos executivos - que viam no encontro da estrela do filme de Jerry Zucker com uma produção de temática espiritualista a receita para mais um êxito incontestável. Mas logo o que parecia uma aposta sem riscos se mostrou um tiro n'água: atacado pela crítica e com uma bilheteria decepcionante, o primeiro longa-metragem de Terry Hughes acabou sendo um dos inúmeros fracassos comerciais que pavimentaram o caminho de Demi rumo ao limbo sacramentando com fiascos como "Striptease" (1996) e "Até o limite da honra" (1997).

Conhecido na indústria principalmente pelos 108 episódios que dirigiu da série "Super gatas", Terry Hughes assumiu o comando de "A mulher do açougueiro" com a saída do cineasta inicialmente contratado para o projeto, o polonês Yurek Bogayevicz, dispensado por causa das famosas "diferenças artísticas". Sem experiência cinematográfica, Hughes apresenta um tom apropriadamente leve à sua estreia, mas falha em imprimir personalidade à lúdica história criada por Litak e Schwartz em sua única incursão hollywoodiana. Talvez seja o maior defeito de uma produção que, apesar do massacre da imprensa, não é melhor nem pior que boa parte das comédias românticas que lotam as salas de cinema mesmo sem acrescentar nada ao gênero. Dono de uma atmosfera mágica - sublinhada pela bela trilha sonora de Michael Gore - e recheado de personagens encantadores (ainda que não necessariamente aprofundados pelo roteiro), o filme de Hughes se beneficia da beleza de Demi e do talento de seu elenco coadjuvante para disfarçar uma trama quase simplória, cuja ingenuidade tanto pode ser vista como defeito quanto qualidade.


 

Demi, de peruca loura - e em papel que chegou a ser pensado para Meg Ryan -, interpreta a misteriosa Marina, uma bela clarividente que vê, em seus sonhos a chegada do amor de sua vida à ilha onde vive com sua idosa avó. Quando o açougueiro Leo Lemke (George Dzunza) surge à sua frente, então, ela imediatamente o reconhece como o homem que irá mudar o rumo de sua existência. Casada com ele mesmo sem conhecê-lo direito, ela se muda para Nova York e, com seus poderes, passa a alterar a rotina da pacata vizinhança - quase toda envolvida pessoal ou profissionalmente com o terapeuta Alex Tremor (Jeff Daniels): é graças a seus conselhos, por exemplo, que a tímida Stella Keefover (Mary Steenburgen) cria coragem para dar vazão a seu talento musical; que a vendedora de roupas Grace (Frances McDormand) parte em busca do amor; e que Robyn Graves (Margaret Colin) resolve pressionar o namorado - justamente o indeciso Alex, que, incomodado, confronta a bela esposa de seu vizinho e se apaixona por ela. A ciranda de amores - correspondidos ou não - se completa com a presença de Eugene (Max Perlich), empregado de Leo que vê em Marina a única pessoa capaz de compreendê-lo e aceitar seu passado contraventor.

Não há nada em "A mulher do açougueiro" que seja ofensivamente ruim, como fizeram crer boa parte dos críticos à época de seu lançamento. Se o romance central, entre Marina e Alex, não chega a ser fascinante, tampouco é irritante ou aborrecido. Se os personagens periféricos carecem de profundidade, também não deixam de ser encantadores em sua simplicidade. E se Demi Moore não é exatamente uma atriz de recursos ilimitados, seus colegas compensam o suficiente - e vale lembrar que Demi, carismática ao extremo, foi uma das atrizes mais atacadas dentro da indústria hollywoodiana, talvez pelo sucesso profissional, talvez pelo casamento (até então) bem-sucedido com Bruce Willis, talvez pela beleza irretocável. A má-vontade contra ela talvez explique o fracasso monumental de "A mulher do açougueiro" - menos de dez milhões de dólares arrecadados no total -, mas o fato é que sua carreira ainda emplacaria alguns sucessos de bilheteria ("Questão de honra", em 1992, e "Assédio sexual", em 1993) antes de seus maiores fiascos. "A mulher do açougueiro" é, para o bem ou para o mal, um filme que se sustenta na presença de Demi. Quem é fã não tem do que se queixar. Aos detratores, resta apenas ignorar.


terça-feira

ARIZONA NUNCA MAIS


ARIZONA NUNCA MAIS (Raising Arizona, 1987, 20th Century Fox/Circle Films, 94min) Direção: Joel Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen. Fotografia: Barry Sonnenfeld. Montagem: Michael R. Miller. Música: Carter Burwell. Figurino: Richard Hornug. Direção de arte/cenários: Jane Musky/Robert Kracik. Produção executiva: James Jacks. Produção: Ethan Coen. Elenco: Nicolas Cage, Holly Hunter, John Goodman, William Forsythe, Frances McDormand, Trey Wilson, Randall "Tex" Cobb. Estreia: 06/3/87

O que fazer depois que seu filme de estreia - uma produção independente barata e sem astros hollywoodianos - se torna queridinho da crítica e coloca seu nome dentre as maiores promessas do novo cinema norte-americano? Se a pergunta fosse feita a Joel e Ethan Coen, os irmãos responsáveis pela direção, roteiro e produção do desconcertante "Gosto de sangue" (1984), a resposta certamente revelaria seu desejo de realizar o oposto de seu primeiro filme. Muito mais leve, solar e otimista do que seu antecessor - mas ainda com generosas doses de um humor todo particular -, "Arizona nunca mais" pegou crítica e público de surpresa quando estreou e apresentou, sem nenhum traço de pudor, uma história de amor doce, engraçada e familiar - e que, para deixar tudo ainda mais alto-astral, com um risonho e louro bebê fazendo as vezes de catalisador da ação. Diferindo radicalmente do suspense pesado e violento que marcou sua impactante chegada ao mundo do cinema, "Arizona nunca mais" demonstrou, para quem estivesse disposto a ver e ouvir, que os irmãos Coen não tinham se beneficiado da famigerada sorte de principiante - e que tinham muito, mas muito talento e criatividade a oferecer.

Escrito em três meses e meio (depois que o projeto de "Na roda da fortuna" foi adiado indefinidamente devido a seu orçamento milionário), o roteiro de "Arizona nunca mais" surgiu, segundo os próprios diretores, da vontade de ambos em escrever um bom papel para Holly Hunter, então começando o que viria a ser uma carreira vitoriosa. Desse desejo nasceu Edwina (ou Ed), uma policial dedicada e sensível que sonha em casar e ter uma família - mesmo que seja com alguém tão disfuncional quanto Herbert McDunnough (ou H.I.), um bandido pé-de-chinelo que se apaixona por ela quando é preso pelo assalto a uma loja de conveniências. Seduzida pela atenção que lhe é dispensada por H.I. - que lhe enche de gentilezas a cada vez que é capturado pela polícia -, Ed aceita seu pedido de casamento. Sua nova vida, em um trailer no deserto do Arizona, só não é completa pela falta de um filho - um problema aparentemente insolúvel depois que Ed se descobre estéril e o casal percebe que, graças à extensa ficha criminal de H.I., adoção tampouco é uma opção. A luz no fim do túnel que reacende a esperança de felicidade dos ansiosos pais de família surge em uma notícia de jornal: e se o casal roubasse um dos recém-nascidos quintulos do milionário Nathan Arizona (Trey Wilson)? Afinal de contas, segundo o raciocínio de H.I. e Ed, o magnata e sua esposa "tem mais do que podem cuidar".


O sequestro do pequeno Nathan Jr., logicamente, não é visto com tranquilidade por Arizona, que divulga uma recompensa de 10 mil dólares a quem lhe ajudar a recuperar o filho - um desdobramento que, no entanto, não afeta a consciência do novo núcleo familiar. Encantados com a nova rotina, Ed e H.I. tentam levar uma vida normal, socializando com outros casais (Sam MacMurray e uma impagável Frances McDormand) e fugindo de seu passado - algo complicado, especialmente quando recebem a visita de dois ex-colegas de crime de H.I, os pouco sutis Gale (John Goodman) e Evelle (William Forsythe), que não demoram a descobrir a identidade do bebê e se sentem bastante tentados pela recompensa oferecida. Não bastasse tantas ameaças à felicidade familiar, o apavorante Leonard Smalls (Randal "Tex" Cobb) surge como uma bomba no caminho dos protagonistas: a bordo de sua potente moto e com uma aparência assustadora, o imenso mercenário decide que, se não conseguir convencer Arizona a lhe pagar cinco vezes mais do que a recompensa oferecida, irá recuperar o sorridente e simpático bebê e vender no mercado negro. Como se não bastasse tantos problemas, H.I. é demitido - depois de recusar uma troca de casais com o patrão - e recomeça a flertar com o crime.

Em um papel feito sob medida para seu histrionismo por vezes exagerado - e para o qual Kevin Costner foi testado três vezes -, Nicolas Cage está na medida certa. Com seu cabelo rebelde - que fica mais e mais arrepiado conforme o nível de estresse de seu personagem vai aumentando - e o eterno olhar descrente diante de tanta confusão em uma vida que sonhava fácil, o ator (que mais tarde seria conhecido tanto por seu Oscar por "Despedida em Las Vegas", de 1995, quanto por suas incursões no cinema de ação) faz o contraponto perfeito à atuação quase meiga de Holly Hunter - que, no entanto, apresenta um timing cômico impecável. Com movimentos de câmera criativos (herança dos tempos em que Joel Coen foi assistente de direção de Sam Raimi em seu clássico trash "Uma noite alucinante: a morte do demônio", de 1981) e personagens no limite do surreal, "Arizona nunca mais" parece um desenho animado em live action: suas sequências de ação brincam com o público de forma a enfatizar a falta de compromisso com a realidade. Exatamente como desejavam - fugir de qualquer comparação com "Gosto de sangue" -, os irmãos Coen fizeram de sua primeira comédia um marco e uma influência no cinema independente norte-americano. Um feito e tanto para quem ainda precisava chegar aos sets com storyboards completos como forma de economizar o orçamento tímido de apenas cinco milhões de dólares. Definitivamente talento não tem preço!

segunda-feira

TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME

TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME (Three billboards outside Ebbing, Missouri, 2017, Fox Searchligth Pictures/Film4, 155min) Direção e roteiro: Martin McDonagh. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Jon Gregory. Música: Carter Burwell. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Inbal Weinberg/Melissa Lombardo. Produção executiva: Daniel Battsek, Rose Garnett, David Kosse, Diarmuid McKeown, Bergen Swanson. Produção: Graham Broadbent, Pete Czernin, Martin McDonagh. Elenco: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, Lucas Hedges, John Hawkes, Peter Dinklage, Abbie Cornish, Zeljko Ivanek, Caleb Landry Jones. Estreia: 04/9/17 (Festival de Veneza)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Frances McDormand), Ator Coadjuvante (Woody Harrelson/Sam Rockwell), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Frances McDormand), Ator Coadjuvante (Sam Rockwell)
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Atriz/Drama (Frances McDormand), Ator Coadjuvante (Sam Rockwell), Roteiro 

A presença da atriz Frances McDormand, a ambientação no interior dos EUA, os diálogos certeiros e uma visão crítica a respeito das instituições e do american way of life dão a impressão errada de que "Três anúncios para um crime" é um filme dos irmãos Joel e Ethan Coen, especialistas em encontrar particularidades na mais trivial das histórias. Porém, um dos filmes mais premiados e elogiados da temporada 2017 é apenas o terceiro longa-metragem de um cineasta inglês, nascido em 1970 e que logo em sua estreia, a comédia policial "Na mira do chefe" (2008), já havia conquistado uma indicação ao Oscar de roteiro original. Diretor também do subestimado "Sete psicopatas e um shih tzu", um suspense cômico com tons de metalinguagem, lançado em 2012, Martin McDonagh se tornava, de uma hora para outra, em um queridinho da crítica e uma surpreendente revelação para o público, que deixou, pelo mundo afora, mais de 150 milhões de dólares nas caixas registradoras - um sucesso impressionante, especialmente quando se leva em consideração seu custo irrisório de estimados 15 milhões.

Desde sua estreia, no Festival de Veneza (de onde saiu com o prêmio de melhor roteiro), "Três anúncios para um crime" tornou-se um nome forte para a temporada de premiações, principalmente graças ao trabalho primoroso de Frances McDormand e a força dos coadjuvantes interpretados por Woody Harrelson e Sam Rockwell. Antes que chegasse ao Golden Globe e levasse três estatuetas melhor filme e atriz na categoria drama, e roteiro) e ao Oscar, com sete indicações e dois prêmios (atriz e ator coadjuvante para Rockwell), o filme de McDonagh já havia sido laureado por críticos de Boston, Chicago, Detroit, Las Vegas, Londres e Toronto - além das vitórias do Independent Spirit e no Sindicato de Atores (o SAG). Com uma lista notável de prêmios e elogios do mundo todo, não foi nenhuma surpresa quando ficou entre os finalistas para o Oscar - a surpresa foi McDonagh ter sido esnobado na categoria de melhor diretor, uma injustiça imperdoável. Orquestrando com inteligência e sensibilidade um espetáculo centrado em atores e diálogos, o jovem cineasta não apenas criou uma trama instigante e personagens complexos - com segurança ímpar, deu espaço ao brilho de seu elenco sem jamais deixar de lado o que mais se espera de um diretor de cinema: contar uma boa história.


Fugindo dos clichês e das obviedades, "Três anúncios para um crime" já conquista o espectador nas primeiras cenas: inconformada com a falta de empenho da polícia em resolver o estupro e assassinato de sua filha adolescente, Mildred Hayes (Frances McDormand, em um desempenho de cair o queixo), funcionária de uma loja de presentes da pequena cidade de Ebbing, no Missouri, resolve cutucar as autoridades com vara curta. Por um ano, ela aluga três outdoors vagos na entrada da cidade, questionando o andamento das investigações e afrontando principalmente o chefe de polícia do local, William Willoughby (Woody Harrelson). A jogada chama a atenção da imprensa e movimenta a cidade, que passa a dividir-se em quem apoia a desesperada mãe e aqueles que não aprovam seu ato. Entre estes últimos está outro policial, Dixon (Sam Rockwell), racista, preconceituoso e violento, que praticamente toma para si o desaforo e passa a atormentar a vida de Mildred. Enquanto isso, ela lida com o filho vivo, Robbie (Lucas Hedges), o ex-marido abusador, Charlie (John Hawkes), e sua relação de compaixão com Willoughby, que lhe revela estar morrendo de câncer. A esta salada de personagens (bem construídos e vívidos), juntam-se a mãe dominadora de Dixon, um anão interessado em Mildred (participação especial de Peter Dinklage, da série "Game of Thrones") e outros moradores de Ebbing, cada qual com suas próprias idiossincrasias.

Fosse uma série de televisão, "Três anúncios para um crime" teria muito o que explorar, devido ao talento de Martin McDonagh em dotar cada um de seus personagens com características interessantes e imprevisíveis. Como é apenas um filme (e dos bons), ele se dedica a seus protagonistas, lhes dando espaço o bastante para o brilho individual e coletivo. Não à toa, tanto Sam Rockwell quanto Woody Harrelson foram indicados ao Oscar de coadjuvante, e se Rockwell saiu-se vencedor, boa parte do mérito deve-se ao arco dramático de seu personagem, talvez o mais surpreendente da trama. Frances McDormand - para quem o papel de Mildred Hayes foi especificamente escrito - dá um show na pele da sofrida e corajosa mãe, inserindo em sua interpretação uma fina ironia e uma intensidade de que só as melhores atrizes são capazes. Até mesmo o final do filme, inconclusivo para uns, é um sopro de originalidade e ousadia, o que imediatamente impõe em McDonagh grandes expectativas em relação a seu futuro como roteirista e diretor. "Três anúncios" perdeu o Oscar de melhor filme para o igualmente excelente "A forma da água", mas certamente escreveu seu nome na lista das grandes produções de sua época - e o tempo apenas irá reiterar seu status de cult.

quarta-feira

DARKMAN: VINGANÇA SEM ROSTO

DARKMAN: VINGANÇA SEM ROSTO (Darkman, 1990, Universal Pictures, 96min) Direção: Sam Raimi. Roteiro: Sam Raimi, Chuck Pfarrer, Ivan Raimi, Daniel Goldin, Joshua Goldin, estória de Sam Raimi. Fotografia: Bill Pope. Montagem: Bud S. Smith, David Stiven. Música: Danny Elfman. Figurino: Grania Preston. Direção de arte/cenários: Randy Ser/Julie Kay Fanton. Produção: Robert Tapert. Elenco: Liam Neeson, Frances McDormand, Colin Friels, Larry Drake. Estreia: 24/8/90

Aqueles que se surpreenderam, em 2002, com o talento do diretor Sam Raimi em recriar nas telas de cinema as aventuras de Peter Parker em "Homem-aranha" - tornadas ainda mais empolgantes no segundo capítulo, de 2004 - provavelmente ainda tinham na memória apenas sua experiência como o criador dos criativos e sanguinolentos "Uma noite alucinante: a morte do demônio" (1981) e sua continuação, "Uma noite alucinante 2" (1987). Talvez esses mesmos espectadores tivessem esquecido (ou simplesmente ignorado) um filme que, lançado em 1990, já dava pistas sobre o talento de Raimi em contar histórias de super-heróis: "Darkman: vingança sem rosto" pode não ter sido um estouro de bilheteria - rendeu pouco menos de 50 milhões de dólares pelo mundo afora - mas deixava explícito o carinho do cineasta pelo visual de HQ e sua vocação em abraçar antiherois e seus dilemas existenciais. Inspirada em maior ou menor nível por obras como "O fantasma da Ópera", "O corcunda de Notre Dame" e "O homem elefante" - além dos clássicos de horror da Universal Pictures e personagens populares como Batman e O Sombra -, a trama criada por Raimi (e desenvolvida por um time de roteiristas que incluía, sem créditos, os irmãos Coen, amigos do diretor) é uma colcha de retalhos divertida, despretensiosa e ligeira, o passatempo perfeito para uma tarde chuvosa de sábado.

Produzido por um grande estúdio mas com alma de filme independente, "Darkman" nasceu do desejo de Raimi em fazer um filme protagonizado por algum dos heróis de quadrinhos que moldaram sua infância e adolescência. Sem conseguir os direitos de nenhum, ele criou então a história adotada pela Universal Pictures - e sentiu na carne o abismo que separa o mundo do cinema realizado por trocados por aquele comandado por uma corporação hollywoodiana. Mesmo com um orçamento pequeno (de estimados 16 milhões de dólares), ele se viu lutando para manter sua visão artística, constantemente questionada pelos executivos do estúdio - além de um período difícil dirigindo a atriz principal, Frances McDormand, que, a despeito de ser casada com um amigo de Raimi (o também cineasta Joel Coen), mostrou-se tão dedicada a fazer o melhor para o filme que frequentemente batia de frente com o diretor). Assumindo um papel que por pouco não ficou com Julia Roberts (que pulou do projeto para conhecer o estrelato e a fama com "Uma linda mulher"), McDormand tampouco parecia a escolha ideal para protagonizar um filme de pretensões comerciais - até mesmo Demi Moore e Bridget Fonda foram testadas antes que ela finalmente assinasse o contrato. Da mesma forma, o papel principal masculino também não ficou com um ator popular à época: futuramente indicado ao Oscar por "A lista de Schindler" (93) e herói de filmes de ação, Liam Neeson ainda era um ilustre quase desconhecido em 1990, mas conquistou o respeito e a admiração de Sam Raimi graças a seu carisma - e ficou com o papel que quase esteve nas mãos de Bill Paxton e Gary Oldman (já que a opção inicial do criador da história, Bruce Campbell, foi recusada pelos produtores).


O que parecia um fracasso anunciado - as primeiras exibições-teste foram desastrosas - acabou se tornando, porém, um filme que conquistou a crítica e o público (que não fez dele um blockbuster mas que, graças ao marketing da Universal, correu às salas de exibição em busca de um novo "Batman" (89), de Tim Burton, ou "Dick Tracy" (90), de Warren Beatty). Mereceu o sucesso (relativo) que fez. A história é simples e mera desculpa para apresentar um dos personagens mais interessantes da carreira de Raimi: o brilhante cientista Peyton Westlake. Dedicado e inteligente, Peyton está em vias de atingir a perfeição de seu maior objetivo profissional - a criação de pele sintética. Antes disso, porém, ele acaba sendo deixado para morrer em seu laboratório pelos capangas de Louis Strack Jr. (Colin Friels, em papel oferecido a Richard Dreyfuss e James Caan) - de posse involuntária de documentos procurados pelo criminoso, ele vê todo seu trabalho destruído e, tido como morto, ressurge como o misterioso Darkman, que, em busca de vingança para seu rosto destruído, assume identidades alheias, com direito a máscaras impecáveis (mas que duram apenas 100 minutos). Durante sua jornada, ele conta com a ajuda da namorada, a advogada Julie Hastings (Frances McDormand) - a responsável indireta pela tragédia que quase acabou com a vida de seu amado.

Em ritmo ágil e quase juvenil, "Darkman" envolve o espectador especialmente por seu espírito quase mambembe. Mesmo se tratando de um filme produzido por um estúdio tradicional de Hollywood o que ele passa ao público é um desejo de ser quase trash, barato, como uma justa homenagem aos tempos clássicos do cinemão americano, com o bem e o mal nitidamente definidos, efeitos visuais quase capengas e cenas de ação no limite do inverossímil. Como sinal dos tempos, a protagonista feminina não fica apenas gritando e correndo perigo - algo que a personalidade forte de Frances McDormand jamais deixaria transparecer - e o herói tem uma angústia existencial que os distancia de galãs românticos de caráter estoico e nulidade dramática. O trunfo de Sam Raimi (a escalação de atores de verdade e não apenas símbolos sexuais pouco talentosos para os papéis centrais) é também o trunfo do filme como um todo: é uma entretenimento escapista dos mais divertidos, capaz de levar qualquer um de volta à adolescência. Despretensioso, quase deu origem a uma série de televisão - e não é que ela poderia ter sido muito legal?

sexta-feira

AVE, CÉSAR

AVE, CÉSAR! (Hail, Caesar!, 2016, Working Title Films, 106min) Direção e roteiro: Ethan Coen, Joel Coen. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Robert Graf. Produção: Tim Bevan, Ethan Coen, Joel Coen, Eric Fellner. Elenco: George Clooney, Josh Brolin, Channing Tatum, Ralph Fiennes, Scarlett Johansson, Alden Ehreinreich, Tilda Swinton, Frances McDormand, Jonah Hill, Alison Pill, David Krumholtz. Estreia: 01/02/16

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários

Não é a primeira vez que os irmãos Coen brincam com os bastidores do cinema: em 1992 eles realizaram "Barton Fink: delírios de Hollywood", onde o dramaturgo interpretado por John Turturro (melhor ator no Festival de Cannes) se via diante de um inédito bloqueio criativo justamente quando é contratado para escrever o roteiro de um filme. Em "Ave, César", porém, eles vão ainda mais longe em seu retrato do mundo de ilusões construído pela capital do entretenimento - mais especificamente aquele erguido dentro do sistema dos grandes estúdios na década de 50. Sem deixar de lado seu humor cáustico e a preferência por personagens à margem do sistema (mesmo quando inserido nele), a dupla de cineastas faz uma das mais consistentes homenagens à indústria realizadas nos últimos anos, repleta de citações a astros e gêneros de um dos períodos mais ricos de Hollywood. Injustamente esquecido pelo Oscar e demais cerimônias de premiação da temporada (concorreu a uma única estatueta, por sua impecável direção de arte), "Ave, César" pode até ser considerado por muitos críticos como uma obra menor da dupla de diretores e roteiristas, mas jamais deixa de ser uma excelente opção para quem procura diversão inteligente.

Apesar de George Clooney ser o maior astro do elenco - e parceiro frequente dos cineastas, tendo trabalhado em "E aí, meu irmão, cadê você?" (2001), "O amor custa caro" (2003) e "Queime depois de ler" (2008) - o protagonista da história é interpretado por Josh Brolin, em mais uma atuação inspiradíssima. Ele interpreta Eddie Mannix, que vive de resolver crises nos bastidores de um grande estúdio da Hollywood dos anos 50, a Capitol Pictures. A trama se passa em um único dia, em que Mannix parece sobrecarregado de problemas alheios: o maior nome do estúdio, Baird Whitlock (George Clooney) - que está no final das filmagens de um milionário épico religioso - acaba de ser sequestrado por um grupo chamado "Nós somos o futuro" (na verdade, um grupo de roteiristas comunistas frustrados com o pagamento pífio que recebem por seu trabalho); a atriz DeeAnna Moran (Scarlett Johansson) está grávida e precisa esconder a situação dos fãs e da imprensa (que também não podem saber de sua vasta coleção de ex-maridos); o jovem astros de westerns Hobie Doyle (Alden Ehrenreich) está com dificuldades em fazer a transição para filmes dramáticos, para desespero do diretor Laurence Laurentz (Ralph Fiennes); e a dupla de irmãs colunistas de fofocas Thora e Thessaly Thacker (Tilda Swinton) ameaça por a boca no trombone e publicar uma história que em nada beneficia Whitlock. Sua única forma de escapar é aceitar a proposta de investir em uma companhia aérea que lhe oferece uma tentadora opção de vida.


Sem uma trama forte o bastante para sustentar seus 106 minutos, "Ave, César" (título do filme religioso estrelado por Baird Whitlock) constrói sua narrativa através da jornada de Mannix em busca da solução para os problemas que lhe são apresentados. Costura-se, assim, de forma orgânica e ágil, uma seleção de sequências fascinantes que vão formando um rico e empolgante panorama do cinema americano dos anos 50, com suas estrelas cintilantes e suas produções gigantescas. Nitidamente apaixonados por sua arte, os irmãos Coen conduzem o espectador por cenas que remetem diretamente aos espetáculos aquáticos de Esther Williams - através da personagem de Scarlett Johansson - e aos musicais de Gene Kelly - Channing Tatum mostra todo o seu dom de dançarino em uma bela sequência que em nada fica a dever aos clássicos do período. Até mesmo o épico produzido pelo estúdio fictício tem ecos de "Ben-hur"- e é hilariante a cena em que Mannix se reune com lideranças de várias religiões tentando encontrar um denominador comum que não ofenda a ninguém. Josh Brolin brilha com uma performance ao mesmo tempo irônica e desesperada, encontrando o tom exato de um personagem típico da dupla de diretores, que cutucam desde o poder dos estúdios sobre seus contratados até a histeria comunista que tomava conta do país no período. Contando ainda com participações especiais de Frances McDormand e Jonah Hill e uma reconstituição de época primorosa, "Ave, César" é uma comédia que substitui as gargalhadas pelo sorriso, mas é difícil não considerá-la uma das melhores produções do gênero na temporada.

Repleto de uma ironia deliciosa que se mistura com naturalidade à sincera homenagem à era de ouro de Hollywood, "Ave, César" conquista os fãs de cinema justamente por oferecer-lhes uma visão tanto romântica quanto satírica de suas entranhas. Enquanto o protagonista caminha pelos desvãos da indústria, o público acompanha, fascinado, os bastidores de um mundo à parte, construído por trás das câmeras e que move milhares de pessoas, muitas vezes anônimas. Ao virar sua câmera para o lado menos glamouroso do showbizz, o filme desmascara, com bom humor e sarcasmo, as aparências de um universo milimetricamente forjado para agradar um público ainda muito conservador, que rejeitava mães solteiras e galãs homossexuais mas consumia vorazmente qualquer fofoca a seu respeito. A força irresistível de tanto poder fica clara nas cenas finais, que parecem dizer que, apesar dos pesares, a arte sempre vale a pena. Uma comédia iluminada e sofisticada, "Ave, César" é um dos trabalhos mais fascinantes dos irmãos Coen. E, de quebra, um dos mais divertidos relatos sobre os bastidores do cinema.

terça-feira

MOONRISE KINGDOM

MOONRISE KINGDOM (Moonrise kingdom, 2012, Indian Paintbrush/American Empirical Pictures, 94min) Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson, Roman Coppola. Fotografia: Robert D. Yeoman. Montagem: Andrew Weisblum. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Kasia Walicka-Maimone. Direção de arte/cenários: Adam Stockhausen/Kris Moran. Produção executiva: Sam Hoffman, Mark Roybal. Produção: Wes Anderson, Jeremy Dawson, Steven Rales, Scott Rudin. Elenco: Jared Gilman, Kara Hayward, Bruce Willis, Edward Norton, Frances McDormand, Bill Murray, Tilda Swinton, Bob Balaban, Jason Schwartzman. Estreia: 16/5/12 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

O órfão Sam (Jared Gilman) foge do acampamento de escoteiros onde se sente deslocado e solitário e parte ao encontro da garota que ama, Suzy (Kara Hayward), uma menina negligenciada pelos pais advogados que administram a casa de forma rígida e pouco amorosa e a consideram uma criança-problema. Os dois pré-adolescentes - que enxergam um no outro o amor e a compreensão que tanto necessitam - resolvem refugiar-se no bosque, contando apenas com os truques aprendidos por Sam em seu período no escotismo e com o toca-discos e os livros fantasiosos de Suzy. Sua fuga, porém, abala os adultos que deveriam ser seus responsáveis, e uma busca aflita tem início, unindo os pais da jovem, o xerife local, o chefe dos escoteiros e até uma assistente social que precisa dar um rumo à vida do menino após a desistência de sua última família adotiva.

Fosse escrito e dirigido por um cineasta mais afeito às convenções das comédias românticas adolescentes, "Moonrise kingdom" fatalmente contaria sua história de forma convencional, sentimental e com um senso de humor óbvio e pasteurizado. No entanto, sob o comando de Wes Anderson, o resultado é completamente o oposto. Dono de uma obra no mínimo excêntrica - que inclui os elogiados "Três é demais" e "Os excêntricos Tenenbaums" - o cineasta americano usa e abusa de todas as características singulares que fazem de sua filmografia um estranho no ninho na indústria hollywoodiana (personagens bizarros, humor singular e uma narrativa com ênfase no visual extravagante) para transformar um singelo conto de amor juvenil em um filme que nada contra a corrente do gênero. Mesmo que tenha surgido das memórias afetivas de seu diretor - que divide o roteiro com Roman Coppola, filho de Francis e irmão de Sofia - "Moonrise kingdom" não se deixa dominar pela nostalgia e pela melancolia: é um produto típico de seu autor, capaz de encantar a quem busca um cinema menos comum ou aborrecer o espectador mais tradicional.


Situando sua trama na década de 60 - o que possibilita um espetáculo à parte no desenho de produção e figurinos - Wes Anderson foge habilmente do lugar-comum das histórias de amor por não apostar todas as suas fichas no romance entre os inábeis mas bem-intencionados Sam e Suzy. Dividindo o foco narrativo em duas frentes, ele equilibra a delicadeza de uma nascente história de amor com o humor sutil e inteligente que surge da busca frequentemente equivocada dos adultos por seu pátrio poder - mesmo que ele não venha necessariamente dos pais. Ao tratar os adolescentes como heróis da história e relegar os mais velhos a uma situação de quase absoluta insensatez, o roteiro indicado ao Oscar - perdeu para "Django livre", de Quentin Tarantino - oferece à audiência uma saudável reversão de expectativas que encontra em seu brilhante elenco um invejável respaldo artístico. Ao colaborador habitual do cineasta, Bill Murray (que interpreta o pai de Suzy), juntam-se Frances McDormand (como a mãe da garota, uma mulher que comanda a casa através de um megafone), Edward Norton (no papel do incompetente chefe dos escoteiros), Bruce Willis (como o bem-intencionado xerife que tem um caso com a mãe da jovem desaparecida) e Tilda Swinton (no papel pequeno mas crucial da assistente social que chega ao cenário para aumentar a confusão).

Filme que abriu o Festival de Cannes 2012, "Moonrise kingdom" é um perfeito exemplar da cinematografia de Wes Anderson, que logo em seguida finalmente seria consagrado com o fantástico "O Grand Hotel Budapeste". Longe de ser hermético ou visualmente excitante apenas por sê-lo, é um filme agradável, plasticamente ousado e leve como convém a uma comédia romântica. Mas é, também, inteligente e adorável. Peca em não aprofundar adequadamente seus personagens, mas é um detalhe de pouca relevância diante de outras qualidades tão óbvias.

domingo

AQUI É O MEU LUGAR

AQUI É O MEU LUGAR (This must be the place, 2011, Indigo Film/Lucky Red/Medusa Film, 118min) Direção: Paolo Sorrrentino. Roteiro: Paolo Sorrentino, Umberto Contarello. Fotografia: Luca Bigazzi. Montagem: Cristiano Travaglioli. Música: David Byrne, Will Oldham. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: Stefania Cella. Produção executiva: Ron Bozman, Viola Prestieri. Produção: Francesca Cima, Nicola Giuliano, Andrea Occhipinti, Mario Spedaletti. Elenco: Sean Penn, Frances McDormand, Judd Hirsch, Harry Dean Stanton, Olwen Fouéré, Ewe Hewson, Shea Whigham. Estreia: 20/5/11 (Festival de Cannes)

 A estranheza que o rosto maquiado e envelhecido de Sean Penn causa quando se vê o cartaz de "Aqui é o meu lugar" não deixa de ser um aperitivo para o que vem pela frente quando se arrisca a conferir a obra dirigida pelo italiano Paolo Sorrentino. Melancólico e um tanto perdido em suas intenções, o roteiro do filme é exatamente como seu protagonista, um homem em busca de raízes, tentando sobreviver em um mundo hostil ao qual ele parece não mais pertencer. Interpretado por um ator menos capaz, o roqueiro ultrapassado Cheyenne seria nada mais do que irremediavelmente patético. Na pele do sempre grande Penn ele também é muito triste e, apesar de bizarro e deslocado no tempo e no espaço, bastante humano.

Cheyenne é um roqueiro das antigas, ao estilo Robert "The Cure" Smith, que, depois de aposentado, tem um dia-a-dia modorrento e tedioso em Dublin, ao lado da esposa carinhosa (Frances McDormand) e de vizinhos que não conseguem deixar de estranhar seu visual atípico. Tendo também que lidar com a culpa que carrega devido ao suicídio de uma dupla de adolescentes fãs de sua música, Cheyenne vaga pelo mundo sem maiores arroubos de felicidade ou entusiasmo. A pasmaceira de sua rotina só é quebrada inesperadamente, porém, quando ele fica sabendo que seu pai está à beira da morte em Nova York. Afastado do convívio com o pai há três décadas, ele resolve tentar uma reconciliação, mas, chegando tarde demais, descobre que a única maneira de conseguir atingir seu objetivo é vingar as humilhações sofridas por seu progenitor quando prisioneiro de um campo de concentração durante a II Guerra. Ignorante até então da extensão do sofrimento de seu pai, o cantor resolve então vingar-se do carrasco nazista responsável e parte em busca de revanche. No meio do caminho, como sempre acontece em road movies, ele passa a questionar suas próprias raízes, convicções e objetivos, principalmente quando encontra, durante o trajeto, pessoas capazes de fazê-lo enxergar coisas até então invisíveis para seus olhos um tanto egocêntricos.


Resumido dessa forma, "Aqui é o meu lugar" soa como a mais reles autoajuda. No entanto, Sorrentino - diretor do elogiado "Il Divo", indicado ao Oscar de filme estrangeiro - consegue escapar muitas vezes dos clichês que assolam o gênero, equilibrando com inteligência uma boa dose de ironia e toneladas de uma indisfarçável melancolia, revelada tanto no olhar distante do protagonista em boa parte da narrativa quanto nos detalhes visuais que a câmera, discreta mas sempre atenta, vai colecionando em seu caminho, repleto de figuras excêntricas e, a seu modo, fascinantes. Dono de um estilo seco de direção, Sorrentino mantém-se sempre distante do piegas, mas quando aceita tocar de leve na emoção é arrasador - a sequência em que Cheyenne toca a canção-título do filme com o filho pequeno de uma nova amiga é de encher o coração, especialmente quando se sabe que ela é a neta do homem a quem ele procura e que um de seus maiores arrependimentos na vida é não ter sido pai. A cena é rápida, mas acrescenta uma camada de humanidade ao protagonista que acaba sendo de importância crucial no desfecho da história.

Como sempre ocorre em filmes do estilo, o destino é menos importante do que a jornada - ainda que o embate final entre Cheyenne e o nazista seja bem resolvido e forte. É no desenrolar da viagem de Cheyenne que o filme encontra sua razão de ser, assim como o protagonista também encontra nesse mergulho em si mesmo a força para deixar o passado pra trás e encarar o futuro do qual tanto fugia. E é Sean Penn, do alto de seu talento avassalador, que dá sentido a tudo. Com mais uma atuação corajosa em sua carreira - com um tom de voz delicado, batom nos lábios, esmalte nas unhas e um penteado bizarro - Penn arrasta a plateia para sua angústia, para oferecer-lhe, ao final da projeção, uma experiência bem mais enriquecedora do que se poderia pressupor. É estranho, é bizarro, é triste. Mas é, também, imperdível, nem que seja para se confirmar o que já se sabe há um bom tempo: Penn é um dos melhores atores americanos em atividade.

terça-feira

TERRA FRIA

TERRA FRIA (North country, 2005, Warner Bros, 126min) Direção: Niki Caro. Roteiro: Michael Seitzman, livro "Class Action: The story of Lois Jensen and the landmark case that changed sexual harassment law", de Clara Bingham, Laura Leedy. Fotografia: Chris Menges. Montagem: David Coulson. Música: Gustavo Santaolalla. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: Richard Hoover/Peter Tosti Stephenson. Produção executiva: Helen Bartlett, Doug Claybourne, Nana Greenwald, Jeff Skoll. Produção: Nick Weschler. Elenco: Charlize Theron, Sean Bean, Frances McDormand, Jeremy Renner, Richard Jenkins, Sissy Spacek, Woody Harrelson, Michelle Monaghan. Estreia: 12/9/05 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Charlize Theron), Atriz Coadjuvante (Frances McDormand)

Mesmo sem que seu nome não diga nada à vasta maioria da população mundial, Lois Jenson poder ser considerada, sem favor, uma das figuras mais importantes na luta pelos direitos femininos da história dos EUA: na tradição de Crystal Lee Sutton (retratada no filme "Norma Rae", de 1979) e Karen Silkwood (protagonista de "Silkwood, o retrato da coragem", de 1983), ela foi a responsável por um processo - ou vários deles, na verdade - que abriram o precedente para que fossem criadas as leis responsáveis por criminalizar o assédio sexual no ambiente de trabalho. Por incrível que possa parecer, no entanto, tais leis, sem as quais as relações profissionais entre homens e mulheres sempre sofreriam de uma tensão muitas vezes palpável, só chegaram aos tribunais americanos em 1989. Por causa de Jenson, uma mulher simples que só queria o direito de trabalhar em paz em um ambiente cercado de machismo - e do qual fazia parte seu próprio pai. Rebatizada como Josey Aimes e com o belo rosto de Charlize Theron, Jenson juntou-se Silkwood e Sutton no imaginário dos fãs de cinema quando foi a protagonista de "Terra fria", filme dirigido por Niki Caro - de "A encantadora de baleias" - que chegou à festa do Oscar 2006 indicado em duas categorias: melhor atriz (Theron, sempre excelente) e atriz coadjuvante (Frances McDormand).

Concentrando vários processos movidos pela real Lois Jenson em apenas um - para fins dramáticos e sem prejuízo para a verossimilhança do roteiro - "Terra fria" segue à risca a tradição dos filmes sobre mulheres valentes lutando contra o sistema, mas, graças à direção firme de Caro e à intensidade de Charlize Theron, tal característica não chega a impedir que o resultado final perca sua força e capacidade de indignar ao espectador. Evitando o sentimentalismo e enfatizando a solidão de sua protagonista em seu árduo caminho em direção à justiça, o filme peca apenas por ser excessivamente burocrático: não há ousadias na narrativa de Caro, e essa simplicidade quase documental acaba por impedí-la de atingir todas as suas possibilidades emocionais. Mesmo assim, a forma com que a fotografia acinzentada do veterano Chris Menges combina com o tom monocromático da vida dos personagens e a força das interpretações de Theron, McDormand e do sensacional Richard Jenkins - além da participação especial de Sissy Spacek, de presença sempre marcante - elevam "Terra fria" a um programa bastante acima da média.


Fugindo de um casamento abusivo e tentando recomeçar a vida ao lado dos dois filhos, a bela Josey Aimes (Charlize Theron) retorna à sua cidade natal, no interior de Minnesota, volta a morar com os pais e arruma emprego em um salão de beleza, que não lhe paga um salário suficiente para manter um nível de vida razoável. Incentivada por uma amiga que trabalha na mina de carvão local, a determinada Glory (Frances McDormand) ela resolve desafiar as convenções e tornar-se colega do pai, de um antigo namorado e de outras mulheres também necessitadas de um contracheque menos magro - caso da jovem Sherry (Michelle Monaghan), que precisa sustentar a mãe doente. Bonita e interessante, logo Josey chama a atenção dos colegas homens, que passam a assediá-la sexualmente, tanto com brincadeiras grosseiras quanto com ameaças reais de estupro. Sabendo que tal comportamento não se restringe apenas a ela, mas também a todas as suas colegas do sexo feminino, Josey resolve pedir ajuda à diretoria da mina, mas, sendo humilhada até mesmo por seus patrões - que questionam inclusive o fato de ela não saber quem é o pai de seu filho mais velho - não cabe a ela outra opção a não ser contratar os serviços de um advogado amigo, Bill White (Woody Harrelson), para levar a empresa aos tribunais. Falta apenas, no entanto, convencer suas colegas a testemunhar a seu favor.

Centrando suas forças no talento inegável de Charlize Theron - que mesmo desglamourizada continua linda e carismática - "Terra fria" conquista o público principalmente por fazer de sua protagonista uma heroína clássica, propensa a todos os sofrimentos reservados às grandes mártires do cinema. Sozinha contra o mundo, Josey vê sua vida tornar-se um inferno apenas por desejar justiça, o que acaba por desencadear uma volta ao passado que machuca todos à sua volta. Chegando bem perto do clichê em diversos momentos - em especial quando seu pai (vivido por Jenkins em atuação digna de um Oscar mas injustamente esquecido pela Academia) finalmente toma seu partido diante de todos os mineiros que a estão hostilizando abertamente - o filme de Caro se redime magnificamente sempre que Charlize toma as rédeas, em um trabalho comovente mas nunca piegas. A força de seu desempenho sustenta o filme como um todo - e é força suficiente para torná-lo imperdível.

quinta-feira

O HOMEM QUE NÃO ESTAVA LÁ

O HOMEM QUE NÃO ESTAVA LÁ (The man who wasn't there, 2001, Gramercy Pictures/Good Machine, 116min) Direção: Joel Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes, Tricia Cooke. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Chris Spellman. Produção executiva: Tim Bevan, Eric Fellner. Produção: Ethan Coen. Elenco: Billy Bob Thornton, Frances McDormand, James Gandolfini, Michael Badalucco, Jon Polito, Katherine Borowitz, Scarlett Johansson, Richard Jenkins, Tony Shalhoub. Estreia: 13/5/01 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Fotografia

A estreia dos irmãos Coen em 1984 - o inteligente "Gosto de sangue", que os revelou à crítica como a grande promessa da década - era uma releitura moderna do filme noir, gênero caríssimo do cinema norte-americano. A partir de então, os cineastas entraram em uma jornada artística que virou do avesso a comédia, os filmes de gângsteres e os filmes musicais e policiais com doses generosas de humor negro e um qualidade narrativa que encantou os espectadores, sempre confiantes de que, sob sua assinatura, histórias sempre criativas e elegantes fazem a diferença na mesmice do cinemão comercial hollywoodiano. Outro exemplo dessa afirmação é o contemplativo "O homem que não estava lá", belíssimo drama policial que revisita o noir com ainda mais propriedade de seu primeiro filme. Em um hipnotizante preto-e-branco de Roger Deakins (filmado em cores e depois alterado para maior efeito dramático) e com uma atuação inspiradíssima de Billy Bob Thornton no papel central, a história de traição, morte e desenganos criada pelos cineastas é um dos mais bem-acabados trabalhos de sua carreira até então - o que não é pouco para quem criou pérolas como "Fargo" (96) e "E aí, meu irmão, cadê você?" (00).

Passado em uma cidade do interior da Califórnia em 1949, "O homem que não estava lá" conta a história de Ed Crane (Billy Bob Thornton), que leva um dia-a-dia tedioso trabalhando na barbearia do cunhado Frank (Michael Badalucco) enquanto examina silenciosamente a vida se desenrolando à sua volta. Um dia, por acaso, ele se vê tentado a investir em um negócio de lavagem a seco e, para conseguir os dez mil dólares necessários para a sociedade, passa a chantagear o empresário Big Dave Brewster (James Gandolfini), chefe e amante de sua mulher, Doris (Frances McDormand). Sua chantagem acaba tragicamente com a morte de Big Dave e sua vida se transforma em um pesadelo surreal quando Doris é presa pelo crime. Sabendo da verdade sobre o assassinato mas sem poder provar, Crane se vê envolvido em uma trama que mistura advogados melodramáticos, uma viúva que acredita que uma invasão extra-terrestre matou seu marido e Birdy (Scarlett Johansson), uma adolescente que, através de sua música, seduz o durão e silencioso barbeiro.


Usando com maestria uma das maiores características do cinema noir - a narração em off - "O homem que não estava lá" é construído brilhantemente em todos os seus detalhes visuais e dramáticos, oferecendo ao público um filme elegante e sério, repleto de camadas dramáticas e desdobramentos inesperados que são tirados de letra por um elenco espetacular. Billy Bob Thornton, que no mesmo ano viveu um assaltante de bancos falastrão em "Vida bandida", de Barry Levinson, dá um show na pele de Ed Crane, um homem tão lacônico quanto psicologicamente violento que resolve o turbilhão de sua existência com a mesma expressão de paisagem que utiliza quando corta o cabelo de seus clientes. Frances McDormand mais uma vez comprova a extensão de seu talento na pele da infiel esposa de Crane, com uma interpretação também minimalista e delicada e James Gandolfini não se deixa eclipsar por seus colegas e cria uma espécie de vilão com a gama de nuances que fez sua fama na série de TV "A família Soprano". Seguindo um roteiro preciso e econômico, eles são os responsáveis por dar credibilidade a uma trama recheada de reviravoltas rocambolescas e inusitadas.

Com sequências milimetricamente elaboradas para encantar os olhos do espectador - não à toa sua fotografia concorreu ao Oscar da categoria - "O homem que não estava lá" é mais um grande filme dos irmãos Coen: inteligente, forte, plasticamente deslumbrante e dirigido com firmeza. Talvez seja mais lento do que o público esteja acostumado, mas tem qualidades mais do que suficientes para neutralizar seu ritmo pouco ágil - que, diga-se de passagem, é extremamente apropriado à narrativa ambicionada pelos cineastas. Um filme que Humphrey Bogart protagonizaria sem hesitação.

sexta-feira

LONE STAR, A ESTRELA SOLITÁRIA

LONE STAR, A ESTRELA SOLITÁRIA (Lone star, 1996, Columbia Pictures Corporation/Castle Rock Entertainment, 135min) Direção, roteiro e montagem: John Sayles. Fotografia: Stuart Dryburgh. Música: Mason Daring. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Dan Bishop/Dianna Freas. Produção executiva: John Sloss. Produção: R. Paul Miller, Maggie Renzi. Elenco: Chris Cooper, Elizabeth Peña, Kris Kristofferson, Matthew McConaughey, LaTanya Richardson, Clifton James, Frances McDormand. Estreia: 21/6/96

Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original

O poder do passado em relação ao presente sempre foi um tema caro às tragédias gregas, e não seria exagero descrever "Lone star, a estrela solitária", do cineasta independente norte-americano John Sayles como um exemplar moderno da mais antiga forma de arte dramática do mundo. Ok, o cenário é rusticamente diferente - a fronteira entre o estado do Texas e o México - e o protagonista está longe de ser um rei ou algo do tipo - ainda que um xerife não esteja tão longe assim de alguém superior aos demais habitantes em uma cidadezinha tão pequena quanto Rio County. Mas a trama criada por Sayles, um quebra-cabeças formado por peças aparentemente desconexas que se revela, em seu final, um rico e dramático panorama sócio-cultural repleto de nuances raciais e familiares, remete facilmente ao berço do teatro - mesmo que sua opção por um final menos devastador o afaste dos previsíveis clichês da tragédia. Unanimemente elogiado pela crítica, o filme de Sayles recebeu uma justa indicação ao Oscar de roteiro original - que perdeu para "Fargo", dos irmãos Coen, coincidentemente outra visão do interior dos EUA e também com Frances McDormand no elenco - e é, talvez, o melhor representante de seu estilo de cinema,

A espinha dorsal de "Lone star" é a descoberta, no deserto próximo à pequena cidade de Rio County, de uma ossada enterrada há cerca de quarenta anos - e perto dela, de uma estrela de xerife quase apagada pelo efeito do tempo. Investigações de balística revelam que o esqueleto pertence a Charlie Wade (Kris Kristofferson), antigo xerife local conhecido por sua fama de corrupto e assassino e que foi tido como desaparecido logo depois de embolsar dez mil dólares que tiveram origem nas extorsões que praticava com a minoria mexicana da cidade. A estrela do xerife indica que seu assassinato foi cometido por Buddy Deeds (Matthew McConaughey), seu assistente, que, pouco depois, tornou-se xerife em seu lugar, até morrer também. O problema é que não apenas Buddy passou a ser considerado um herói por seu trabalho no combate à corrupção da localidade como está em vias de ser homenageado pela prefeitura, através de um busto comemorativo - e ser taxado de assassino, mesmo que de um criminoso como Wade, não irá ajudar em nada nas festividades. Não bastasse isso, o atual xerife de Rio County é Sam Deeds (Chris Cooper), filho de Buddy que não mantinha com ele a melhor das relações e não tenciona relaxar as investigações: acreditando que tem mais sujeira por trás do homicídio ocorrido há quatro décadas, ele não mede esforços para descobrir os motivos que levaram ao crime.


Juntamente com a investigação de Sam - que tem como testemunhas-chave o assistente de Wade à época dos acontecimentos, Hollis (Jeff Monahan no passado, Clifton James no presente), e Otis (Gabriel Casseus no passado, Ron Canada no presente), o dono de um bar que presenciou o início de todo o processo que levou à tragédia - o filme de Sayles acompanha outros dramas familiares que se desenrolam na comunidade. Otis tenta conquistar a confiança do filho, que foi criado pela mãe e tornou-se coronel do exército - e que por sua vez também tem problemas com seu próprio rebento, além de ter de lidar com uma jovem rebelde que não consegue deixar de envolver-se em problemas fora do quartel. A professora Pilar (Elizabeth Peña) luta em sua escola por manter um currículo imparcial, que dê aos jovens mexicanos uma visão menos americanizada de sua história - enquanto tenta esconder sua paixão reprimida por Sam, de quem foi afastada na juventude por Buddy e por sua mãe, Mercedes (Miriam Colon), que mantém uma relação ambígua e repressora com os funcionários de seu restaurante.

A teia de personagens criada por Sayles - que parece aleatória até que se revela um único quadro - é um dos maiores méritos de "Lone star". Mais ou menos como Orson Welles fez em "Cidadão Kane" e Akira Kurosawa em "Rashomon" - guardadas as devidas proporções - o diretor/roteirista mostra a verdade sobre Buddy Deeds sob vários ângulos, sempre acrescentando a cada um uma nova perspectiva a respeito de sua personalidade e seu caráter (muito mais complexo do que se poderia imaginar a princípio). Além disso, em sua trajetória atrás da alma de seu pai, Sam cruza com questões raciais e políticas que dão à obra um nível extra de profundidade que o afastam do rótulo simplório de "filme policial". O romance proibido entre Sam e Pilar, por exemplo, é tão crucial para o desenvolvimento da trama quanto as relações dúbias da mãe da professora com seu passado - também intimamente ligado ao surpreendente final da história, que é um retrato sóbrio e inequívoco de uma realidade social da fronteira mexicana.

E, logicamente, John Sayles tem a sorte de contar com o extraordinário Chris Cooper na liderança de seu elenco. Anos antes de ganhar o Oscar por "Adaptação", Cooper já demonstrava uma qualidade ímpar que o consagraria como um dos mais importantes atores americanos de sua geração. É ele quem conduz a trama e, mesmo sem ser então um nome conhecido do grande público, transmite a segurança de um astro em um papel difícil e que passa, através do silêncio, o turbilhão de dúvidas de um homem preso a um passado assombrado. São especialmente brilhantes a cena em que conversa com a ex-mulher emocionalmente desequilibrada - único e impressionante momento de Frances McDormand - e o momento em que finalmente descobre a ordem de eventos que levaram à morte do temido Charlie Wade. Seu trabalho é tão exemplar que ofusca a presença de um então desconhecido Matthew McConaughey em vias de tornar-se astro graças a "Tempo de matar", de Joel Schumacher e a interpretação sincera e emocional de Elizabeth Peña. Juntos, eles dão o tom passional exato à aridez do deserto texano e fazem do filme uma pequena pérola a ser descoberta.

terça-feira

SHORT CUTS, CENAS DA VIDA

SHORT CUTS, CENAS DA VIDA (Short cuts, 1993, Fine Line Features/Spelling Films International, 187min) Direção: Robert Altman. Roteiro: Robert Altman, Frank Barhydt, contos de Raymond Carver. Fotografia: Walt Lloyd. Montagem: Geraldine Peroni. Música: Mark Isham. Figurino: John Hay. Direção de arte/cenários: Stephen Altman/Susan J. Emshwiller. Produção executiva: Scott Bushnell. Produção: Cary Brokaw. Elenco: Andie MacDowell, Bruce Davison, Jack Lemmon, Julianne Moore, Matthew Modine, Anne Archer, Fred Ward, Jennifer Jason-Leigh, Chris Penn, Lily Taylor, Robert Downey Jr., Madeleine Stowe, Tim Robbins, Lily Tomlin, Tom Waits, Frances McDormand, Peter Gallagher, Annie Ross, Lori Singer, Lyle Lovett, Buck Henry, Huey Lewis. Estreia: 05/9/93 (Festival de Veneza)

 
Indicado ao Oscar de Diretor (Robert Altman)

Desde que recuperou o prestígio e as boas graças da indústria e do público com "O jogador" (92), que lhe deu a Palma de Ouro em Cannes e uma indicação ao Oscar de diretor, Robert Altman entrou em uma boa fase sem precedentes em sua carreira. Qualquer projeto que levasse sua assinatura no começo da década era garantia de entusiasmadas expectativas por parte da indústria e dos fãs - situação que acabou com "Pret-a-porter" (95), malfadada tentativa de desvendar os bastidores do mundo da moda que fracassou nas bilheterias e desagradou a gregos e troianos. Antes disso, porém, Altman encantou a crítica com um ambicioso projeto que reunia contos de Raymond Carver em um único filme, misturando seu próprio estilo de cinema (uma tênue linha narrativa abarcando inúmeros personagens independentes entre si) com a prosa minimalista e frequentemente poetica do escritor norte-americano. "Short cuts, cenas da vida" resultou em uma produção longa (três horas de duração que soam exatamente como três horas de duração), irregular e calcada basicamente em seu vasto elenco de ótimos atores, porque, apesar de todos os aplausos, é um filme cansativo e que vai do nada pra lugar nenhum.

É fácil de entender porque os atores gostam de trabalhar com Altman: é perceptível que o veterano cineasta lhes dá a liberdade de improvisar e criar em cima de personagens com uma carga humana muitas vezes inexistente no cinema comercial americano. É também fácil de compreender o entusiasmo com que a crítica muitas vezes recebe seus trabalhos: diretores autorais, com uma visão especial do mundo e da própria indústria são raros, especialmente depois que a era dos visionários deu lugar à era dos efeitos especiais e dos lucros milionários. Porém, para gostar de Robert Altman é preciso, mais do que tudo, gostar do seu estilo peculiar de cinema. Quem procura filmes com tramas bem amarradas ou narrativas estruturadas do modo convencional corre o sério risco de decepcionar-se com a obra do diretor, normalmente avessa a tais regras. Altman é o típico caso de amar ou odiar. E talvez "Short cuts" seja um de seus mais radicais exercícios.


Justamente por não ter uma espinha dorsal rígida - os detratores diriam que falta uma trama central - "Short cuts" depende muito da boa-vontade do espectador em seguir todas as histórias contadas pelo roteiro, que se cruzam sutil e aleatoriamente pelos subúrbios de uma Los Angeles ameaçada tanto por fenômenos naturais (terremotos, enxames de moscas) quanto pelos problemas de relacionamento entre famílias e amigos. Se existe um incidente que dá o empurrão inicial em tudo pode-se dizer que é o atropelamento do pequeno Casey (Zane Cassidy), filho da dona-de-casa Ann (Andie MacDowell) e do comentarista de telejornal Howard (Bruce Davison) - cujo pai, Paul (Jack Lemmon dando olé em cena), abandonou a família anos antes e retorna como se nada tivesse acontecido. Quem atropela o menino e o manda para o hospital sem que saiba das consequências do seu ato é a garçonete Doreen Piggot (Lily Tomlin), que, ironicamente, é casada com um chofer particular que luta contra o alcoolismo, Earl (Tom Waits). Sua filha, Honey (Lily Taylor) é casada com um aprendiz de maquiador de cinema, Bill (Robert Downey Jr.), que é o melhor amigo de Jerry Kaiser (Chris Penn), casado com Lois (Jennifer Jason Leigh), que trabalha como atendente em uma empresa de sexo por telefone.

E assim por diante. Duas dezenas de personagens desfilam pela tela, repletos de problemas cotidianos e dramas pessoais que se equilibram entre o banal e o surreal. Há casamentos em crises, ex-maridos truculentos, pescadores que continuam seu passatempo a despeito do cadáver de uma jovem a poucos metros, traições extraconjugais e até mesmo uma Julianne Moore em nu frontal em uma cena que espanta pela naturalidade: enquanto discute com o marido a respeito de um possível adultério passado, ela - totalmente nua da cintura pra baixo - Moore passa a ferro a roupa amarrotada por acidente. Assim é o cinema de Altman: banal, simples, direto. Enquanto uma jovem violoncelista sofre com a tristeza do mundo e um padeiro se revolta com o que considera um desrespeito a seu trabalho, a terra treme, a vida segue e raivas enrustidas explodem com violência. Nem sempre o trabalho do cineasta é palatável. Mas quem gosta de fugir do feijão-com-arroz do cinemão americano pode se interessar bastante.

quarta-feira

GOSTO DE SANGUE

GOSTO DE SANGUE (Blood simple., 1984, River Road Productions, 99min) Direção: Joel Coen. Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen. Fotografia: Barry Sonnenfeld. Montagem: Roderick Jaynes, Don Wiegmann. Música: Carter Burwell. Figurino: Sara Medina-Pape. Direção de arte: Jane Musky. Produção executiva: Daniel F. Bacaner. Produção: Ethan Coen. Elenco: John Getz, Frances McDormand, Dan Hedaya, M. Emmet Walsh, Samm-Art Williams. Estreia: 07/9/84 (Festival de Toronto)

Nada como começar com o pé direito. Filme de estreia dos irmãos Coen - que uma década e meia mais tarde se consagrariam com os Oscar de filme, direção e roteiro com "Onde os fracos não tem vez" (07) - o policial noir "Gosto de sangue" já mostra, de forma crua, criativa e surpreendente todos os elementos que fariam a fama dos cineastas no futuro. Ao lado de um roteiro mirabolante e cheio de surpresas, estão presentes a direção primorosa de atores, a movimentação frenética e imprevisível da câmera e a paixão inconteste pelo cinema em si, homenageado através da utilização dos signos e ingredientes de um dos gêneros mais queridos pelos cinéfilos - e que seria novamente revisitado por eles em obras de narrativa mais sofisticada, como "Ajuste final" (90) e "O homem que não estava lá" (01). No fundo apenas uma história de policial que remete a clássicos da literatura pulp, mas banhada a sangue, suor e uma certa dose de humor negro, o primeiro filme dos Coen é uma pequena amostra do extraordinário talento com que os irmãos iriam presentear os fãs da sétima arte dali em diante.

O cenário é o Texas, árido como fica o coração de Julian Marty (Dan Hedaya), o proprietário de um bar, quando tem a confirmação de que sua esposa, Abby (Frances McDormand) o está traindo com um funcionário, o jovem Ray (John Getz). Indignado com a traição, ele contrata o mesmo detetive particular que lhe forneceu as provas do adultério, Loren Visser (M. Emmet Walsh), para acabar com o novo casal. Com a promessa de abocanhar dez mil dólares, o detetive aceita a missão. O problema é que quando dinheiro está em jogo as coisas nunca são simples, e o que aparentava ser apenas uma história de traição e morte se transforma rapidamente em um jogo de trapaças e surpresas, onde ninguém é o que realmente mostra aos outros - e a morte pode não ser algo tão definitivo quanto soa. A partir daí, vítimas e criminosos passam a confundir os papéis, embaralhando as cartas até o final surpreendente, onde apenas o mais esperto (ou sortudo) sobreviverá.


Em "Gosto de sangue", os irmãos Coen brindam o público com cenas de grande inventividade visual. Se em "Onde os fracos não tem vez" eles surpreenderam a audiência com a ausência de uma trilha sonora, aqui eles se permitem criar uma longa sequência sem diálogos, sublinhando a tensão de uma situação sui generis apenas com a iluminação dos faróis de um carro e o desespero de um dos personagens, que se vê diante de um dilema que somente em seus filmes faz sentido, apesar do inusitado. Com ângulos sempre desenhados de forma a seduzir a plateia e extrair de cada momento a melhor solução visual, a fotografia de Barry Sonnenfeld - que posteriormente passaria à carreira de diretor com os dois capítulos de "A família Addams" - é um componente a mais na execução de uma trama que jamais deixa o espectador descansar das surpresas. A edição ágil - cortesia dos próprios diretores com o pseudônimo de Roderick Jaynes e de Don Wiegmann - e a trilha sonora, repleta de canções típicas da região onde se passa a história, ilustram com ainda mais poder o conto de ganância e luxúria que se desenrola na tela, ainda que o sexo (relativamente discreto) esteja ligado de forma indelével à culpa e à violência que envolve a todos.

Uma das estreias mais alvissareiras da história do cinema, "Gosto de sangue" conquista pela inteligência com que trata seu público. Apresentando uma Frances McDormand bela como nunca -  ela ficou com o papel (a escolhida nos testes, Holly Hunter teve que abandonar o projeto por compromissos teatrais) e com o diretor, com quem casou-se após as filmagens - e um M. Emmet Walsh diabólico no limite da loucura, o filme conta uma história de amor e vingança que passa como um vento avassalador, que destroi a quem estiver no caminho. Uma pequena obra-prima.

sexta-feira

QUEIME DEPOIS DE LER

QUEIME DEPOIS DE LER (Burn after reading, 2008, Focus Features, 96min) Direção e roteiro: Ethan Coen, Joel Coen. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Tim Bevan, Eric Fellner, Robert Graf. Elenco: George Clooney, Brad Pitt, Frances McDormand, John Malkovich, Tilda Swinton, Richard Jenkins, J.K. Simmons. Estreia: 07/8/08 (Festival de Veneza)

Depois da consagração com os Oscar de filme, direção e roteiro por "Onde os fracos não tem vez", era de se esperar que os irmãos Coen se tornassem mais ambiciosos. Acontece, porém, que a dupla - responsável pela aura de respeitabilidade que o cinema independente americano atingiu nos anos 80 - não joga exatamente pelas regras do mainstream hollywoodiano. Fugindo desesperadamente da repetição, eles lançaram, poucos meses depois da cerimônia de entrega das estatuetas, a comédia "Queime depois de ler", que mistura um roteiro anárquico com personagens que beiram a estupidez - elementos que deram muito certo em algumas de suas obras mais respeitadas, como "Fargo" e "E aí, meu irmão, cadê você?".

Escrito concomitantemente a "Onde os fracos não tem vez", o roteiro de "Queime depois de ler" tem a seu favor o fato de não se levar a sério em momento algum, devolvendo a seus autores o tom de deboche que sempre faz parte de sua filmografia. A diferença é que dessa vez os diálogos nonsense são declamados por rostos conhecidos do grande público, como John Malkovich, George Clooney e Brad Pitt, o que talvez explique a renda de mais de 60 milhões de dólares - tímida em relação aos blockbusters, mas respeitável em se tratando de um filme com o orçamento modesto de pouco mais de 35 milhões. Levando-se em conta também que não segue o padrão de comédias que o público americano gosta - a saber, bobagens sobre fluidos corporais e piadas grosseiras e apelativas. Inteligente e sarcástico, o filme dos Coen é um biscoito fino, despretensioso e muito engraçado.


Tudo começa quando Osborne Cox (John Malkovich, exercitando ainda mais sua persona enlouquecida), um agente da CIA especializado nos Balcãs, é demitido devido a seu problema de alcoolismo. Revoltado, ele resolve escrever suas memórias. Enquanto isso, sua mulher, Katie (Tilda Swinton) tem um caso extraconjugal com Harry Pfarrer (George Clooney), que trabalha no Departamento de Estado e também é casado. O quadrilátero amoroso se complica ainda mais quando Harry - que busca outras amantes em sites da Internet - conhece Linda Litzke (Frances McDormand), funcionária de uma academia de ginástica que tem a ideia fixa de realizar uma série de cirurgias plásticas. Frustrada por não ter cobertura de seu plano de saúde, ela vê uma luz no fim do túnel quando encontra, sem querer, um disquete com os primeiros capítulos das memórias de Cox. Ao lado de seu colega Chad Feldheimer (Brad Pitt), ela resolve chantagear o ex-agente, acreditando que o manuscrito trata de segredos de estado. A partir daí a confusão está formada.

Que não se espere de "Queime depois de ler" uma profusão de piadas. O roteiro dos irmãos Coen é um brilhante exercício de bom-humor e crítica política (sem precisar apelar para intelectualismo). Sua trama, repleta de mal-entendidos e reviravoltas, é um prato cheio para o talento de seu elenco, que deita e rola com personagens que tem seu charme justamente na sua falta de noção. Desde o don juan virtual vivido por Clooney - em sua terceira atuação sobre o comando dos cineastas - até a ansiosa e carente personagem de McDormand, tudo funciona divinamente, graças, logicamente, ao talento dos diretores em extrair de cada um o seu melhor. Aí inclui-se o timing cômico de Brad Pitt e J.K. Simmons e o rosto sempre repleto de nuances de Tilda Swinton. São os excelentes atores escalados que dão suporte ao tresloucado roteiro, cujo principal objetivo é divertir o espectador. E, justiça seja feita, faz isso muito bem.

quinta-feira

ALGUÉM TEM QUE CEDER


ALGUÉM TEM QUE CEDER (Something's gotta give, 2003, Columbia Pictures/Warner Bros, 128min) Direção e roteiro: Nancy Meyers. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Joe Hutsching. Música: Hans Zimmer. Figurino: Suzanne McCabe. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Beth Rubino. Produção: Bruce A. Block. Elenco: Diane Keaton, Jack Nicholson, Keanu Reeves, Amanda Peet, Frances McDormand, Jon Favreau, Paul Michael Glaser, Rachel Ticotin. Estreia: 12/12/03

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Diane Keaton)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Diane Keaton)

Em 2000, a diretora/roteirista Nancy Meyers agradou o público - em especial o feminino - com a comédia "Do que as mulheres gostam", na qual fez o machão Mel Gibson adentrar o pensamento da mulher do século XXI depois de um choque elétrico (??). Três anos depois ela voltava às telas com uma comédia bastante superior e mais madura, novamente encarando um tema pouco explorado pelo cinemão americano: o amor depois dos 50 anos. Em uma época em que apenas as plateias adolescentes parecem ser levadas em conta na hora em que novos projetos são aprovados, "Alguém tem que ceder" provou - à Fox, por exemplo, que não se interessou pelo filme justamente pela idade de seus protagonistas - que inteligência e bom-gosto sempre tem seus fãs: mais de 120 milhões de dólares arrecadados nas bilheterias e uma surpreendente - mas justa - indicação de sua estrela, Diane Keaton, ao Oscar de melhor atriz.

O protagonista masculino da estória é o empresário musical Harry Sanborn (Jack Nicholson), que tem um fraco por mulheres mais jovens: sua faixa etária preferida é cerca de metade de sua idade. Sua nova conquista é a bela Marin (Amanda Peet), filha da bem-sucedida dramaturga Erica Barry (Diane Keaton). Durante um final de semana na belíssima propriedade da família, em Hamptons, Harry tem um enfarte e se vê obrigado a conviver com a “sogra”, com quem não tem um relacionamento dos mais agradáveis e gentis. Erica, no processo de começar um novo trabalho também não fica muito feliz com a possibilidade de ter que ser enfermeira do arrogante e auto-suficiente namorado da filha única, mas vê a situação ficar mais agradável quando conhece o jovem médico do empresário (Keanu Reeves), que cai de amores por ela. Toda a estranha situação fica ainda mais complicada quando Harry, que até então nem pensava em olhar para uma mulher com mais de 30 anos descobre-se interessado em Erica.

        

Escrito com um frescor e uma inteligência ímpares, o roteiro de “Alguém tem que ceder” brinca com a idade dos personagens de maneira engraçada sem ser boba, irônica sem ser complacente e principalmente, romântica sem ser piegas. Os diálogos entre Keaton e Nicholson (ainda sendo o mesmo Jack Nicholson de sempre, mas menos irritante) estão entre os mais sensíveis e cômicos de sua época, e recitados por dois dos melhores atores que se poderia encontrar. Keaton principalmente. A complexa mudança de sua personagem, que redescobre o amor depois de muito tempo enterrado em uma vitoriosa carreira não poderia ser entregue a qualquer atriz. Mas Diane já fez vários filmes com seu ex-marido Woody Allen e sabe como ninguém mergulhar em neuroses inteligentes e bem-humoradas. Não é de se julgar Meyers, que já escreveu o roteiro com seu par de atores em mente e recusou quaisquer outras possibilidades de elenco - e felizmente Nicholsou preferiu estar aqui do que em "Papai Noel às avessas", que deu a Billy Bob Thornton um de seus melhores papéis.
    
 “Alguém tem que ceder” é uma das melhores comédias românticas da década. Sabe ser engraçada, romântica, sensível e arrancar gargalhadas e lágrimas. Mesmo que se arraste um bocado em seu terço final, alongando-se demais, jamais chega a ser cansativa ou aborrecida - principalmente por contar também com a excelente Frances McDormand como a irmã de Erica, dona de momentos impagáveis. E se não fosse só isso, ainda é um prazer dos maiores ver a casa de praia da personagem principal. Mais do que apenas cenário, é uma festa para os olhos, fotografada com precisão pela lente do veterano Michael Balhaus.

QUASE FAMOSOS

QUASE FAMOSOS (Almost famous, 2000, Columbia Pictures/Dreamworks SKG, 122min) Direção e roteiro: Cameron Crowe. Fotografia: John Toll. Montagem: Joe Hutsching, Saar Klein. Música: Nancy Wilson. Figurino: Betsy Heimann. Direção de arte/cenários: Clay A. Griffith/Robert Greenfield. Produção: Ian Bryce, Cameron Crowe. Elenco: Patrick Fugit, Billy Crudup, Jason Lee, Kate Hudson, Frances McDormand, Philip Seymour Hoffman, Anna Paquin, Jimmy Fallon, Fairuza Balk, Noah Taylor, Zooey Deschanel, Rain Wilson. Estreia: 13/9/00

4 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante(Kate Hudson, Frances McDormand), Roteiro Original, MontagemVencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes - Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Coadjuvante (Kate Hudson)

“Não fique amigo de roqueiros!” é o mais importante conselho dado pelo crítico musical Lester Bangs (Phillip Seymour Hoffman) ao adolescente William Miller (Patrick Fugit), às vésperas de o garoto embarcar, aos 15 anos, com a banda de rock Stillwater em sua primeira turnê, entitulada “Quase famosos”. Criado pela repressora Elaine (Frances McDormand), uma professora universitária que conseguiu causar a fuga da filha mais velha devido a suas idiossincrasias - como comemorar o Natal em setembro para fugir do caráter comercial da data - Miller tem a chance, proporcionada pela prestigiada revista Rolling Stone (que nem de longe imagina sua real idade), de acompanhar a excursão da banda para uma reportagem exclusiva. Em poucos dias, o adolescente deixa pra trás uma vida sem graça e tem acesso a um mundo de amor livre, drogas, intrigas e até amor verdadeiro, quando se apaixona por Penny Lane (a graciosa Kate Hudson, filha da atriz Goldie Hawn), uma groupie que esconde quilos de romantismo e ingenuidade debaixo de uma casca de liberalidade e auto-confiança.

William Miller, o adolescente que descobre o amor, o sexo e a vida como ela é no meio de uma excursão de rock é o protagonista de “Quase famosos”, deliciosa comédia escrita e dirigida por Cameron Crowe, em seu filme seguinte ao sucesso de “Jerry Maguire, a grande virada”. Notadamente semi-autobiográfico, seu filme é um vencedor em todos os sentidos. Seu roteiro, vencedor do Oscar, é um achado de bom humor e delicadeza, com diálogos brilhantes, recitados por um elenco excepcional. Sua trilha sonora, como não poderia deixar de ser em se tratando de um filme sobre o rock’n’roll é repleta de pérolas como The Who, Elton John e Simon & Garfunkel e é difícil não se envolver com os personagens criados pela mente ágil e humanista de Crowe, que manteve de seu filme anterior a capacidade de fazer rir e emocionar com facilidade e sem maniqueísmos.


Talvez a maior qualidade de seu roteiro seja fazer dos olhos de William Miller os olhos da plateia. É através do olhar ingênuo e romântico de Miller que o público trava conhecimento com o amor do guitarrista Russell Hammond (o ótimo Billy Crudup) pela música; é graças a seus silêncios que somos testemunhas dos bastidores de um grupo em vias de tornar-se grande; e é por seus olhos encantados de paixão que também caímos de amor por Penny Lane, vivida com graça e carisma por uma Kate Hudson impecável, que foi promovida do papel de irmã do protagonista (que ficou com a ótima Zooey Deschannel) para o principal papel feminino do filme (cobiçado por Kirsten Dunst), ganhou o Globo de Ouro e concorreu ao Oscar de atriz coadjuvante, assim como a colega de elenco Frances McDormand, perfeita como a mãe de Miller e roubando as cenas em que aparece.

Não é sempre que um filme como “Quase famosos” aparece. Lançando um olhar carinhoso à época de ouro do rock (a trama se passa em 1973), Crowe mostra que sabe como poucos onde encontrar material humano no meio de muito som – é dele o roteiro e a direção do subapreciado “Vida de solteiro”, passado em Seattle, berço do movimento grunge do inicio dos anos 90. Não é preciso ser um especialista em rock dos anos 70 para se apaixonar pelo filme – ainda que Crowe tenha espalhado dezenas de referências ao gênero pelo roteiro – nem tampouco ser um roqueiro de fé para se empolgar com o resultado final. Basta gostar de bom cinema. E bom cinema “Quase famosos” é!

segunda-feira

GAROTOS INCRÍVEIS

GAROTOS INCRÍVEIS (Wonder boys, 2000, Paramount Pictures, 107min) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Steve Kloves, romance de Michael Chabon. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Dede Allen. Música: Christopher Young. Figurino: Beatrix Aruna-Pasztor. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Jay R. Hart. Produção executiva: Ned Dowd, Adam Schroeder. Produção: Curtis Hanson, Scott Rudin. Elenco: Michael Douglas, Tobey Maguire, Robert Downey Jr., Frances McDormand, Katie Holmes, Rip Torn, Jane Adams, Philip Bosco. Estreia: 25/02/00

3 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Montagem, Canção ("Things have changed")
Vencedor do Oscar de Melhor Canção Original ("Things have changed")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção Original ("Things have changed")

O termo "wonder boy" do título original é derivativo da palavra alemã "wunderkind", que se refere a determinada pessoa que atinge grande sucesso profissional ou artístico com pouca idade. No primeiro filme de Curtis Hanson após o assombro que foi "Los Angeles, cidade proibida", quem merece o adjetivo é o jovem James Leer (Tobey Maguire), um estudante de literatura com grande talento para a escrita e que acaba sendo o alvo da proteção de seu professor, um antigo "wonder boy" chamado Grady Tripp (Michael Douglas). Autor de um célebre romance, Tripp não consegue terminar seu novo livro (que já tem mais de duas mil páginas) e está passando por uma séria crise pessoal: abandonado pela esposa, ele descobre que a amante Sara (Frances McDormand) - a esposa do reitor - está grávida e ainda tem que se esquivar do assédio de uma aluna, a ambiciosa Hannah Green (Katie Holmes) e da estranha amizade com seu editor, o excêntrico Terry Crabtree (Robert Downey Jr), que se encanta pela delicadeza e pela sensibilidade de James, que cai em lágrimas sentidas em momentos absurdos e tem séria tendência em mentir.


Baseado em um romance de Michael Chabon, "Garotos incríveis" estreou nos EUA em fevereiro de 2000 e caiu nas graças da crítica, em especial a atuação excepcional de Michael Douglas, comprovando seu talento em escolher bons filmes e bons papéis. O fracasso de bilheteria, no entanto, desanimou a Paramount Pictures (que distribuiu o filme), que esperava que a assinatura de Curtis Hanson e o elenco fabuloso - dois vencedores do Oscar, dois jovens em ascensão e um rebelde sem causa carismático - fossem o suficiente para atrair o público. Mesmo assim, no final do ano, o filme voltou às salas de cinema com o objetivo de chamar a atenção para suas qualidades e, quem sabe, conquistar algumas indicações ao Oscar. Funcionou em termos. Com 3 indicações ao prêmio da Academia - incluindo roteiro adaptado - "Garotos incríveis" não atingiu suas expectativas comerciais nem tampouco tornou-se campeão de prêmios. Uma pena. O filme é uma deliciosa comédia dramática com uma inteligência rara no mercado do gênero.



"Garotos incríveis" é uma comédia sem gargalhadas. O humor de Chabon - mantido intacto pelo roteiro de Steve Kloves - é pura ironia, pura delicadeza. É um humor de sorrisos, de assombro. É um humor elegante, sofisticado. E encontrou em Curtis Hanson seu diretor perfeito. Sem utilizar-se de subterfúgios vulgares, Hanson fez de seu filme - o primeiro que assina com o status de "grande diretor" e não apenas "um cineasta competente" - uma homenagem aos gênios incompreendidos, às almas excêntricas, ao surreal que existe no dia-a-dia. "Garotos incríveis" utiliza-se de tramas bizarras e elementos estranhos para contar uma história simples, quase corriqueira. E é essa mistura do comum com o extravagante - uma de suas melhores qualidades - que talvez tenha confundido o público médio.

O roteiro de Kloves - que escreveu as adaptações da série "Harry Potter" para o cinema - mantém a estrutura do livro de Chabon, autor premiado com o Pulitzer em 2001. Toda a trama se passa em 24 horas, com exceção do epílogo, e o público acompanha a trajetória imprevisível de seu protagonista (em uma interpretação antológica de Michael Douglas), que, sem imaginar, se vê em meio a uma confusão que envolve um cachorro morto a tiros, o casaco que Marilyn Monroe utilizou em seu casamento com Joe DiMaggio, seu inacabado romance, as mentiras de James Leer - que jogam o rapaz nos braços do ambicioso Terry - e um gângster violento. Grady Tripp é mais do que um protagonista, ele é também a testemunha das transformações nas vidas das pessoas que o rodeiam, mudanças essas descritas também na canção-tema de Bob Dylan, vencedora do Oscar. Assim como o público, ele acompanha perplexo os acontecimentos, enquanto tenta resolver a confusão que é sua própria existência.

"Garotos incríveis" não é uma comédia tradicional. É pouco provável que agrade aos fãs de humor visual ou de piadas vulgares. Tampouco é um drama no sentido convencional, uma vez que não apresenta momentos lacrimosos ou tragédias pessoais. Mas é um belo filme, realizado com extrema competência e que tem em seu particular jeito de contar uma história a maior de suas qualidades. Merece ser descoberto!

AS DUAS FACES DE UM CRIME

AS DUAS FACES DE UM CRIME (Primal fear, 1996, Paramount Pictures, 129min) Direção: Gregory Hoblit. Roteiro: Steve Shagan, Ann Biderman, romance de William Diehl. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: David Rosenbloom. Música: James Newton Howard. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Cindy Carr. Produção executiva: Howard W. Koch Jr.. Produção: Gary Lucchesi. Elenco: Richard Gere, Laura Linney, Edward Norton, John Mahoney, Alfre Woodard, Frances McDormand, Terry O'Quinn, Andre Braugher, Steven Bauer, Maura Tierney, Jon Seda. Estreia: 03/4/96

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Edward Norton)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Edward Norton)

Desde que teve sua carreira ressuscitada com os sucessos de "Justiça cega", de Mike Figgis e principalmente "Uma linda mulher", de Garry Marshall, o ator Richard Gere correu o sério risco de tê-la novamente perdido, devido a escolhas equivocadas como "Lancelot", com Sean Connery, "Mr. Jones", com Lena Olin e até mesmo o interessante mas fracassado comercialmente "Intersection", onde trabalhou ao lado de Sharon Stone. Para sua sorte, no entanto, um pouco ambicioso filme de tribunal devolveu a ele as boas graças da crítica e do público. Dirigido por um então desconhecido Gregory Hoblit, "As duas faces de um crime" é um policial que, a despeito de não fugir dos elementos tradicionais do gênero, o faz com respeito e sobriedade. Além disso, o filme, baseado no romance de William Diehl, tem para si a distinção de ter revelado um dos melhores jovens atores da década: Edward Norton.

Aos 26 anos, Norton é apenas o quinto nome a aparecer nos créditos de abertura de "As duas faces de um crime", mas quem assiste ao filme sabe que ele é seu maior trunfo. Desconhecido da audiência, ele ficou com um papel que foi oferecido a Leonardo DiCaprio e cobiçado por Matt Damon, e logo de cara recebeu uma merecida indicação ao Oscar de ator coadjuvante - que perdeu para a histérica atuação de Cuba Gooding Jr. em "Jerry Maguire". Sua interpretação, repleta de nuances, foge das armadilhas que o roteiro oferece e consegue fazer até com que o normalmente inexpressivo Gere saia de sua zona de conforto para entregar um trabalho bastante consistente.


Gere interpreta Martin Vail, um advogado narcisista e talentoso que não mede esforços para aparecer na mídia. Uma chance de ouro para aumentar sua popularidade surge quando um respeitado arcebispo é violentamente assassinado e um de seus coroinhas, o tímido Aron Stampler (Edward Norton) é preso e acusado pelo crime. Tentando inocentar seu cliente, Vail vai aos tribunais contra a promotora Janet Venable (Laura Linney), sua ex-amante. Conforme as investigações de Vail e seus assessores vão transcorrendo, novas revelações sobre a personalidade da vítima começam a aparecer, e ligações dele com poderosos homens de negócio - inclusive o procurador do Estado, John Shaugnessy (John Mahoney), o patrão de Janet - levam a outros e surpreendentes rumos.

A maior qualidade do roteiro de "As duas faces de um crime" é embaralhar as cartas de sua trama para jamais deixar o público matar a charada antes das cenas finais. Durante toda a projeção há sempre aquela virtual pulga atrás da orelha sobre quais os reais motivos que levaram o arcebispo a ser assassinado e Gregory Hoblit - demonstrando uma firmeza admirável na direção - conduz a audiência por vários caminhos até finalmente apresentar seu desfecho, coerente e um tanto chocante. Quem já assistiu não tem mais o elemento surpresa que lhe dá mais destaque ao lado de seus congêneres, mas mesmo quem o assiste mais de uma vez é obrigado a concordar que mesmo assim o filme é muito superior que a média. E novamente voltamos a Edward Norton.

A estreia alvissareira de Norton - que no mesmo ano seria dirigido por Milos Forman e Woody Allen - dá um charme especial a "As duas faces de um crime". Talentoso e inteligente, ele não confunde a fragilidade de sua personagem com fragilidade na atuação, apresentando uma atuação visceral e hipnotizante. Se Richard Gere e Laura Linney são os reais protagonistas do filme - e se saem bem, aliás - é Norton, com seu rosto capaz de expressar emoções díspares em questão de segundos que rouba o filme para si. Por ele, vale a pena ver e rever.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...