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sexta-feira

MATADORES DE VELHINHA

 


MATADORES DE VELHINHA (The ladykillers, 2004, Touchstone Pictures, 104min) Direção: Ethan Coen, Joel Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, filme original de William Rose. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes (Ethan Coen, Joel Coen). Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção: Ethan Coen, Joel Coen, Tom Jacobson, Barry Josephson, Barry Sonnenfeld. Elenco: Tom Hanks, Irma P. Hall, Marlon Wayans, J.K. Simmons, Tzi Ma, Ryan Hurst, George Wallace. Estreia: 26/3/2004

Poucos cineastas hollywoodianos - tão propensos à autocensura para melhor caberem nos ditames da indústria - são capazes de forjar seu estilo de forma tão marcante quanto Joel e Ethan Coen. Desde sua chegada ao mundo do cinema, com "Gosto de sangue" (1984), uma releitura original e criativa dos filmes noir, a dupla de irmãos transitou entre gêneros variados - comédia, policial, musical - sempre deixando em cada filme sua marca autoral, facilmente reconhecível por fãs e jornalistas. Como prova da força de seu estilo, em 2004 eles adentraram em uma nova seara - os remakes - sem abandonar nem por um minuto a personalidade de sua filmografia. Releitura da comédia britânica "Quinteto da morte", estrelado por Peter Sellers e Alec Guinness em 1955, "Matadores de velhinha" não chegou a ser uma unanimidade por parte da crítica mas tampouco decepcionou em termos de bilheteria mundial - rendeu mais que o premiado "Fargo" (1996), por exemplo. Contando com a presença de Tom Hanks (certamente um dos motivos de sua razoável receptividade) e abusando sem medo do humor sombrio que tanto lhes agrada, o filme não é um dos maiores destaques na carreira dos Coen, mas apresenta, em seus melhores momentos, tudo aquilo que faz deles os queridinhos de parte da plateia menos tradicional. 

O roteiro de "Matadores de velhinha" - escrito, como de costume, pelos próprios irmãos -, transfere a ação do filme original de Londres para uma pequena cidade do Mississipi, local de um cassino cuja renda é o objeto de desejo de uma gangue que planeja o crime perfeito. O líder do grupo é o excêntrico Goldthwaite H. Dorr (Tom Hanks), que bate à porta da devotada Marva Munson (Irma P. Hall) para pedir a ela que alugue seu amplo porão. Sob o pretexto de usar o lugar como espaço de ensaios para seu grupo musical, Dorr é aceito pela pouco paciente Sra. Munson, que nem de longe desconfia das reais intenções de seu inquilino e seus amigos. Sendo assim, a casa da velha senhora passa a ser frequentada por tipos no mínimo estranhos, cada um com sua missão dentro do plano criminoso: Lump (Ryan Hurst), um jovem e burro jogador de futebol americano; o General (Tzi Ma), experiente em túneis; Garth Pancake (J.K. Simmons), especialista em explosivos e Gawain (Marlon Wayans), que trabalha infiltrado no cassino para passar informações aos companheiros. Conforme a data do roubo vai se aproximando, porém, as coisas começam a dar errado - e eliminar a proprietária da casa passa a ser uma possibilidade real.

 

Trocando o fino humor inglês pela ironia quase absurda, o roteiro de "Matadores de velhinha" encontra na direção afiada dos Coen um de seus maiores trunfos. Apesar da demora em engrenar, a trama vai se tornando cada vez mais repleta de situações bizarras e inesperadas, um prato cheio para a criatividade dos cineastas. Se Tom Hanks soa um tanto exagerado - ainda que dentro da proposta do filme -, o elenco coadjuvante brilha sem muito esforço, em especial a ótima Irma P. Hall, que faz se sua Marva Munson uma personagem das mais surpreendentes. Explorando ao máximo a fotografia de seu colaborador habitual, Roger Deakins - que cria sequências ao mesmo tempo belas e extremamente eficientes em sua forma de contar a história -, os diretores parecem brincar com as expectativas do público ao mesmo tempo que demonstram pleno domínio de seu ofício ao conduzir a trama por caminhos cada vez mais inusitados. Nem tudo funciona - algumas (poucas) situações soam um tanto deslocadas -, mas é perceptível o cuidado com cada detalhe da produção, desde o visual impecável até a escalação do elenco, ao mesmo tempo coeso e heterogêneo. 

Dono de algumas sequências hilariantes e diálogos que exploram com inteligência as diferenças culturais e sociais entre seus personagens, "Matadores de velhinha" é um dos filmes menos celebrados de Ethan e Joel Coen, cujo trabalho seguinte, "Onde os fracos não tem vez" (2007), sairia da cerimônia do Oscar com quatro estatuetas - incluindo melhor filme, direção e roteiro. Ao imprimir sua assinatura mesmo na refilmagem de um clássico do humor britânico, os cineastas comprovaram, mais uma vez, uma personalidade rara dentro de uma indústria pouco afeita a novidades. Não é seu melhor filme, mas é muito acima da média do cinema comercial de Hollywood - e um dos menos celebrados desempenhos de Tom Hanks (corajosamente indo contra a sua imagem popular). E não envergonha, nem de longe, o legado da dupla.

domingo

LA LAND: CANTANDO ESTAÇÕES

LA LA LAND: CANTANDO ESTAÇÕES (La La Land, 2016, Summit Entertainment/Black Label Media, 128min) Direção e roteiro: Damien Chazelle. Fotografia: Linus Sandgren. Montagem: Tom Cross. Música: Justin Hurwitz. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Michael Beugg, Mike Jackson, John Legend, Qiuyun Long, Thad Luckinbill, Trent Luckinbill, Jasmine McGlade, Molly Smith, Ty Stiklorius. Produção: Fred Berger, Gary Gilbert, Jordan Horowitz, Marc Platt. Elenco: Ryan Gosling, Emma Stone, John Legend, J.K. Simmons, Tom Everett Scott, Rosemarie DeWitt, Finn Wittrock. Estreia: 31/8/16 (Festival de Veneza)

14 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Damien Chazelle), Ator (Ryan Gosling), Atriz (Emma Stone), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("Audition", "City of stars"), Figurino, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 6 Oscar: Diretor (Damien Chazelle), Atriz (Emma Stone), Fotografia, Trilha Sonora Original, Canção ("City of stars"), Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 7 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia ou Musical), Diretor (Damien Chazelle), Ator Comédia/Musical (Ryan Gosling), Atriz Comédia/Musical (Emma Stone), Roteiro, Trilha Sonora Original, Canção ("City of stars")

 Poético! Encantador! Irresistível! Fascinante! Em um período em que filmes retratam uma realidade dolorosa, cruel e por vezes realista ao extremo, quantas produções nascidas no berço de ouro de Hollywood podem ostentar tantos adjetivos quanto "La La Land: cantando estações"? Realizado como uma homenagem do jovem cineasta Damien Chazelle à era de ouro dos musicais americanos, e com um custo quase irrisório de 30 milhões de dólares, a doce e apaixonante história de amor entre um fã obcecado de jazz e uma aspirante à atriz acabou por conquistar o mundo, principalmente graças a seu perfeito equilíbrio entre gêneros (romance, musical, comédia, drama), à química inquestionável de seu par de atores centrais e ao visual deslumbrante, milimetricamente calculado para causar um efeito hipnotizante entre os fãs de cinema. Recordista de Golden Globes (levou sete para casa, arrebatando prêmios em todas as categorias a que foi indicado) e em indicações ao Oscar (14, empatando com "A malvada", de 1950, e "Titanic", de 1997), acabou, no entanto, frustrando seus admiradores quando perdeu a principal estatueta (melhor filme) para "Moonlight: sob a luz do luar" - em uma situação sem precedentes na história da Academia, quando foi anunciado vencedor para depois descobrir que os apresentadores Warren Beatty e Faye Dunaway haviam lido o nome errado. Tal situação, no entanto, não apaga seu brilho, suas seis vitórias (incluindo direção e atriz) e a sensação de já ter nascido clássico. Sucesso de público e de crítica, amado por fãs e admirado por amantes de música, é uma obra-prima indiscutível - capaz de abrir sorrisos no mais cínico espectador e provocar lágrimas nos mais sensíveis. Enfim, um filme que redescobre o prazer que apenas o cinema pode proporcionar.

Influenciado por dezenas de produções clássicas - percebe-se referências nítidas no desenrolar da narrativa, sejam diretas ou implícitas - e ainda assim dotado de personalidade própria, "La La Land" é um gigantesco passo à frente na carreira de seu diretor, já devidamente aplaudido em seu filme anterior, o premiado "Whiplash: em busca da perfeição" (2014). Com uma segurança de veterano, Chazelle constrói um universo particular, uma visão romantizada e colorida de sua cidade natal, Los Angeles, e de um mundo que parece radicalmente distante da realidade. Tudo em seu filme é reflexo de uma ótica visualmente deslumbrante e emocionalmente passional: da fotografia impecável de Linus Sandgren, de encher os olhos com sua paleta de cores delicadas em alguns momentos e gritantes em outros à direção de arte, que acompanha o imaginário onírico do cineasta ao criar cenários que parecem ter saído direto do mais apaixonado sonho. Da primeira sequência, em um engarrafamento monstruoso que se transforma magicamente em um número musical animado e empolgante, até os minutos finais (de partir o coração com suas implicações a respeito do destino e de como os sonhos tem seu lado bom e ruim), tudo que é visto na tela tem a clara intenção de encantar o público e transportá-lo para um lugar distante da realidade. As coreografias delicadas e complexas, as canções melancólicas de melodia discreta, as visitas a cenários conhecidos do público - o planetário de "Juventude transviada", os estúdios da Warner, as colinas de Hollywood - e a beleza artificial de uma cidade que já faz parte do inconsciente coletivo formam um impressionante painel narrativo, onde cada peça se encaixa perfeitamente na outra e, juntas, conduzem a audiência a uma experiência cada vez mais rara no quadradinho panorama do cinema americano.


A trama, como convém, é simples e pouco ambiciosa: a jovem Mia (Emma Stone, uma delícia de se assistir) trabalha como garçonete em uma lanchonete de Los Angeles enquanto espera sua grande chance como atriz. Sebastian (Ryan Gosling, versátil como nunca) é um pianista de bares que sonha abrir seu próprio estabelecimento, onde poderá finalmente valorizar a arte do jazz, pela qual é apaixonado. Os caminhos dos dois se cruzam e, depois de alguma relutância, Mia se entrega a um idílico romance com o rapaz, que lhe dá apoio e incentivo a perseguir seus objetivos. Conforme o tempo passa (dividido na tela nas quatro estações do ano, daí o subtítulo em português), os dois sentem que as coisas não serão assim tão fáceis: para juntar dinheiro, ele aceita fazer parte de um grupo musical pop liderado por um antigo desafeto (o cantor John Legend), e ela, motivada por ele, escreve um monólogo para lhe servir de escada para o sucesso. O que deveria unir o casal, porém, começa a afastá-los: será que é impossível a realização profissional e sentimental ao mesmo tempo? A resposta virá no devido tempo - e a música inspirada de Justin Hurwitz irá sublinhá-la de maneira a não deixar um único olho seco na plateia.

Com uma química já comprovada em outras duas ocasiões - nos filmes "Amor à toda prova" (2011) e "Caça aos gângsteres" (2014) - e novamente testada com sucesso, Ryan Gosling e Emma Stone estão fabulosos, e nem é possível imaginar que não foram os primeiros atores escalados para seus papéis. Se os planos de Damien Chazelle corressem conforme o esperado, Emma Watson e Miles Teller estariam na pele de Mia e Sebastian, mas por uma providencial mudança de planos, voltaram a contracenar e tiveram sua mais bem-sucedida parceria: Emma, escolhida pelo diretor depois de ele confirmar seus dotes musicais em uma montagem de "Cabaret", chegou a ganhar o Oscar de melhor atriz com seu misto de ingenuidade e determinação - impossível não se emocionar com a bela "Audition (The fools who dream"), indicada à estatueta de melhor canção - e se mostra uma das maiores promessas de Hollywood, enquanto Gosling se apresenta como um dos atores mais consistentes de sua geração, capaz de atuar, cantar e dançar com desenvoltura e carisma. Plenamente aptos a transmitir a mensagem apaixonante do diretor, eles são o corpo e alma de "La La Land", um filme inesquecível e que renova, de forma emocionante, o status de sétima arte ao cinema. É de se esperar o que mais Chazelle tem guardado na manga para seus próximos filmes: poucos cineastas conseguem ser tão brilhantes tão cedo!

terça-feira

O DIA DO ATENTADO

O DIA DO ATENTADO (Patriots Day, 2016, Bluegrass Films/CBS Films/Closest to the Hole Productions, 133min) Direção: Peter Berg. Roteiro: Peter Berg, Matt Cook, Joshua Zetumer, estória de Peter Berg, Matt Cook, Paul Tamasy, Eric Johnson. Fotografia: Tobias A. Schliessler. Montagem: Gabriel Fleming, Colby Parker Jr.. Música: Trent Reznor, Atticus Ross. Figurino: Virginia Johnson. Direção de arte/cenários: Tom Duffield/Ronald R. Reiss. Produção executiva: Louis G. Friedman, Eric Johnson, Nicholas Nesbitt, John Logan Pierson, Paul Tamasy, Dan Wilson. Produção: Dorothy Aufiero, Dylan Clark, Stephen Levinson, Hutch Parker, Michael Radutzky, Scott Stuber, Mark Wahlberg. Elenco: Mark Wahlberg, Kevin Bacon, Michelle Monaghan, J.K. Simmons, John Goodman. Estreia: 17/11/16

Algo semelhante já havia acontecido em 1974, quando dois projetos diferentes com o mesmo tema - no caso um incêndio de grandes proporções em um arranha-céu - se transformaram em um único filme, o mastodôntico "Inferno na torre", dirigido por John Guillermin e estrelado por gente do naipe de Paul Newman, Steve McQueen, Faye Dunaway e Fred Astaire. "O dia do atentado" não tem o mesmo escopo milionário, mas tem uma origem semelhante: dois roteiros independentes que, com o mesmo pano de fundo, se fundem em um mesmo produto, com intenções e ritmos distintos para atingir todos os públicos possíveis. Assim, o mesmo filme se divide em um quase documentário sobre o trágico atentado na Maratona de Boston em 2013 -  com detalhes sobre a investigação que levou aos culpados e momentos de ação e suspense - e um drama a respeito das vítimas e seus familiares, assim como todos os envolvidos na busca pelos criminosos. Centrada principalmente em um personagem criado especialmente para o filme como um amálgama de vários policiais da cidade, a terceira colaboração entre o diretor Peter Berg e o ator Mark Wahlberg é um competente entretenimento, mas que peca justamente por sua falta de foco. Quando se concentra no melhor que Berg sabe fazer (uma obra tensa e eficiente de suspense) é um ótimo filme. Quando busca a emoção mais sutil acaba por perder o ritmo imposto por algumas sequências de tirar o fôlego.

Assim como no ótimo "O grande herói" (2014) e no apenas mediano "Horizonte profundo" (2016) - as colaborações anteriores do cineasta com Wahlberg - o roteiro de "O dia do atentado" tem como objetivo realçar os momentos mais valorosos de seus protagonistas, mas nem sempre o equilíbrio funciona nesse terceiro capítulo. À vontade quando dirige sequências mais tensas e tecnicamente complexas, Berg parece não ter a mesma desenvoltura em comandar momentos de maior emoção - o que acaba por fazer com que seu filme, por mais que tente fugir do rótulo, seja mais um exemplar de um gênero que tem fãs incondicionais ao redor do mundo: "O dia do atentado" até se esforça em ser mais do que um filme policial de ação, mas sua vocação para entretenimento rápido (mais do que um drama edificante e memorável) fica evidente sempre que suas câmeras passam do sofrimento nos hospitais para a adrenalina das ruas. Com uma edição competente e um desenho de som inteligente, a corrida atrás dos responsáveis por um dos mais graves atentados à bomba em território americano da história é muito mais empolgante e interessante do que os cuidados médicos a suas vítimas. Coincidência ou não, o filme "O que te faz mais forte", estrelado por Jake Gyllenhaal (e que conta a trajetória de um dos sobreviventes) foca mais no drama pessoal do protagonista - e acaba sendo um complemento à obra de Berg.


Ao contrário da maioria dos filmes norte-americanos que recriam as tragédias ocorridas em seu solo como produções de heroísmo pessoal (vide "Torres gêmeas", de Oliver Stone e o próprio "Horizonte profundo", do mesmo Peter Berg), "O dia do atentado" demora a estabelecer-se como um filme de ação, preferindo gastar seus preciosos minutos iniciais apresentando alguns dos personagens que irão conviver com o público pelas duas horas seguintes. É assim que surge o Sargento Tommy Saunders (Mark Wahlberg sem muito o que fazer e sem a importância que alguns cartazes fazem entender): casado com a bela Carol (Michelle Monaghan), ele se destaca no trabalho pelas ruas de Boston, cidade a que conhece como a palma da mão. É ele quem irá ser a peça crucial na caçada aos irmãos Tsarnaev - os culpados pela explosão de uma bomba junto aos espectadores da tradicional maratona da cidade. Antes que a caçada comece, no entanto, o roteiro faz questão de introduzir à audiência outros nomes fundamentais da história, como o casal Patrick Downes (Christopher O'Shea) e Jessica Kinsky (Rachel Brosnahan), a jovem cientista Li (Lana Condor), o estudante Dun Meng (Jimmy O. Yang) e Steve Woolfenden (Dustin Tucker) e seu filho pequeno: todos serão vítimas, em maior ou menor grau, do violento incidente, e Berg cuida para não exagerar na sacarose, tratando seus personagens com respeito e cuidado - mesmo que posteriormente os acabe deixando em segundo plano).

Depois de explosão - antecedida com sequências que mostram sua preparação pelos irmãos Tamerlan (Themo Melikidze) e Dzokhar (Alex Wolff) - a trama de "O dia do atentado" finalmente se bifurca, convidando a plateia para testemunhar a agonia das vítimas da explosão (nada de muito sofisticado emocionalmente ou tampouco inédito) e a corrida dos policiais do FBI, liderados pelo agente especial Rick Deslauriers (Kevin Bacon), atrás dos responsáveis. As longas sequências pelas ruas da cidade, em uma noite particularmente tensa e violenta, são preciosas, mostrando o cuidado do diretor em ser ao mesmo tempo realista e capaz de envolver o público com as ferramentas básicas do suspense. São momentos em que o filme cresce e atinge todo o seu potencial - algo que o mesmo diretor fez em "O grande herói", uma produção de guerra que explora todos os elementos do gênero de forma inteligente e honesta. A opção do roteiro em não fazer de Tommy Saunders um herói individual é corajosa, uma vez que o público espera algo assim de um filme de ação, mas acaba, paradoxalmente, enfraquecendo um pouco seu clímax - apesar de ele ser, ainda assim, potente o bastante para grudar a plateia na poltrona. No fim das contas, "O dia do atentado" é um bom filme de ação, com algumas doses de drama e um domínio técnico invejável de sua equipe. Não é inesquecível, mas está um patamar acima da média das produções do gênero simplesmente por não subestimar a inteligência do espectador.

sábado

WHIPLASH - EM BUSCA DA PERFEIÇÃO

WHIPLASH, EM BUSCA DA PERFEIÇÃO (Whiplash, 2014, Bold Films/Blumhouse Productions, 107min) Direção e roteiro: Demian Chazelle. Fotografia: Sharon Meir. Montagem: Tom Cross. Música: Justin Hurwitz. Figurino: Lisa Norcia. Direção de arte/cenários: Melanie Paisiz-Jones/Karuna Karmakar. Produção executiva: Jeanette Volturno-Brill, Jason Reitman, Couper Samuelson, Gary Michael Walters. Produção: Jason Blum, Helen Eastbrook, David Lancaster, Michel Litvak. Elenco: Miles Teller, J.K. Simmons, Paul Reiser, Melissa Benoist, Austin Stowell, Nate Lang, Chris Mulkey. Estreia: 16/01/14

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (J.K. Simmons), Roteiro Adaptado,  Montagem, Mixagem de Som
Vencedor de 3 Oscar: Ator Coadjuvante (J.K. Simmons), Montagem, Mixagem de Som
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Coadjuvante (J.K. Simmons) 

É difícil não lembrar da velha frase de Thomas Edison que diz que "talento é 1% inspiração e 99% transpiração" quando se assiste a "Whiplash, em busca da perfeição", o extraordinário filme que colocou o pirralho (fez apenas 31 anos agora em janeiro de 2016) Damien Chazelle no mapa de Hollywood ao conquistar cinco indicações ao Oscar, inclusive melhor filme e roteiro adaptado: ao comer o pão que seu professor de música amassou para provar seu talento como baterista, o protagonista vivido por Miles Teller - uma promessa que enfileirou um filme atrás do outro em menos de dois anos - mostra a realidade de uma parcela imensa de jovens (ou nem tão jovens assim) talentosos que buscam seu lugar ao sol na música sem ter o devido reconhecimento. Não é à toa que o filme começou a ser aplaudido vigorosamente por seu público-alvo - que viu nele uma espécie de merecida e carinhosa homenagem a todos aqueles que tem pela música (ou pela arte em geral, vá lá) uma paixão que transcende qualquer vaidade - e acabou por conquistar o mundo inteiro e até a Academia, que acabou lhe concedendo três estatuetas douradas.

Essa paixão/obsessão/tesão pela música é o mote de "Whiplash", e o que move seu protagonista, o jovem Andrew Nieman (interpretado com garra por Teller, antes visto em "Divergente" e no independente "O maravilhoso agora") a enfrentar todas as dificuldades que aparecem à sua frente para se tornar o grande baterista de jazz que almeja ser. A maior delas surge na figura de Terence Fletcher (J. K. Simmons), um professor tão respeitado quanto rígido que é o líder da banda do conservatório de música onde o rapaz estuda. Escolhido pelo temido mestre, Andrew passa a sofrer com seus métodos de intimidação e humilhação, mas seu amor pelo que faz o mantém disposto até mesmo a abrir mão de sua vida pessoal com a namorada Nicole (Melissa Benoist). Sua relação com Terence, portanto, acaba por ser a mais importante de sua vida, mesmo quando todos os limites são ultrapassados e a dedicação do veterano músico revela-se quase uma psicopatia.


A história engendrada por Chazelle - que, sem financiamento dirigiu um curta que serviu de inspiração para seu elogiado filme - não é exatamente original, uma vez que não hesita em utilizar-se dos mais variados clichês para atingir a plateia, mas o faz com tanta pureza e tanto amor (pelos personagens, pela trama, pela música em si) que é impossível não envolver-se com tudo. A relação entre Andrew e Fletcher (a grande chance de J.K. Simmons, um rosto conhecidíssimo do público e que acabou levando um merecidíssimo Oscar de ator coadjuvante) é hipnotizante e rende ao filme seus melhores momentos e a climática sequência final, de nove minutos de duração magistralmente editados é capaz de arrepiar a todos aqueles que tem a música na alma e no coração (não à toa, o Oscar de montagem também foi conquistado, assim como o de mixagem de som). A impressão que se tem quando se assiste ao filme é que seu jovem diretor quis falar diretamente a seu público-alvo, dar-lhes, durante o tempo de uma sessão de cinema, a felicidade e o orgulho de pertencer a esse grupo de gente tantas vezes mal compreendida: os músicos profissionais. E, a julgar pelo entusiasmo geral, foi feliz em sua missão.

Em meio a tantos filmes dispendiosos e festejados, mas ocos de emoção e espírito, "Whiplash" foi um sopro de vida e inspiração. Nenhuma de suas indicações ao Oscar foi injusta - e seus prêmios foram amplamente merecidos. É um pequeno grande filme, capaz de emocionar e empolgar a plateia, tendo como armas basicamente o talento de seus intérpretes e a paixão de seus personagens. Um filme já clássico.

domingo

REFÉM DA PAIXÃO

REFÉM DA PAIXÃO (Labor day, 2013, Indian Paintbrush, 111min) Direção: Jason Reitman. Roteiro: Jason Reitman, romance de Joyce Maynard. Fotografia: Eric Steelberg. Montagem: Dana E. Glauberman. Música: Rolfe Kent. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Steve Saklad/Tracey A. Doyle. Produção executiva: Michael Beugg, Steven M. Rales, Mark Roybal. Produção: Helen Estabrook, Lianne Halfon, Jason Reitman, Russell Smith. Elenco: Kate Winslet, Josh Brolin, Gattlin Griffith, Tobey Maguire, JK Simmons, Tom Lipinski, James Van Der Beek, Maika Monroe, Clark Gregg, Brooke Smith. Estreia: 30/8/13 (Festival de Telluride)
De um sujeito que assinou filmes como o cínico “Obrigado por fumar” (06), o sarcástico “Juno” (07), o cruel “Amor sem escalas” (09) e o ácido “Jovens adultos” (11) pode-se esperar qualquer coisa menos que escolha dirigir uma história de amor daquelas bem recheadas de clichês românticos e personagens heroicos, certo? Errado. Jason Reitman, talvez justamente para não ficar marcado por filmes que não retratam os seres humanos exatamente com simpatia resolveu fazer de seu quinto longa-metragem a adaptação do livro “Refém da paixão”, de Joyce Maynard, uma história de amor bem recheada de clichês românticos e personagens heroicos. A boa notícia? Ele consegue utilizar todos os lugares-comuns da trama a seu favor, construindo um romance delicado, simples e extremamente eficiente, ainda que nunca brilhante ou genial. Contando com atuações acima da média da sua dupla central – o que não é surpresa quando ela é formada por Kate Winslet e Josh Brolin – e revelando o ótimo Gattlin Griffith em um papel crucial, Reitman acerta mais uma vez e conquista o público com sobriedade e sensibilidade.
Situando sua trama no feriado do Dia do Trabalho de 1987 – um dos mais quentes da história – e em um cenário pouco explorado pelo cinemão americano – New Hampshire – Reitman, também autor da adaptação do romance de Maynard, apresenta um conto que apresenta, sem tentativas de soar original ou surpreendente, temas como solidão, depressão, perda da inocência e o despertar do sexo. São elementos já utilizados à exaustão por Hollywood e filmes de todas as nacionalidades, mas com um certo frescor e uma seriedade que torna impossível ao espectador resistir a eles. Justamente por adotar uma narrativa clássica apropriada à história que quer contar, o filho do também diretor Ivan Reitman conduz com simplicidade e sem sobressaltos um filme que em outras mãos menos talentosas certamente esbarraria na monotonia ou na previsibilidade. “Refém da paixão” é escorado em um ritmo que reflete com precisão a temperatura extrema que circunda os personagens – indolente, sexy e por vezes claustrofóbico.
Vivida por uma bela e intensa Kate Winslet, a protagonista do filme é Adele, uma dona-de-casa oprimida por uma depressão crônica tornada ainda pior com o abandono do marido, que a trocou pela secretária. Vivendo em companhia do filho único, o pré-adolescente Henry (Gattlin Griffith) e quase sem sair de casa, Adele resolve romper sua inércia justamente no dia em que Frank Chambers (Josh Brolin), um homem condenado a 18 anos de prisão por assassinato, foge do Hospital onde foi internado para tratar de uma apendicite. Na loja de departamentos onde vai comprar roupas novas para o início das aulas do filho, Adele é obrigada por Frank – sangrando mas nitidamente ameaçador – a levá-lo para sua casa e escondê-lo até a noite, quando então poderá continuar sua fuga. A princípio temerosa – por motivos mais do que óbvios – Adele aos poucos percebe, assim como Henry, que Frank não tem intenções criminosas em relação a eles e surge, então, uma relação amistosa. Assumindo o papel de homem da casa – consertando o carro, a calha, os degraus – e até enfrentando a cozinha – com uma já antológica cena em que os três, como uma família, assam uma torta de pêssegos – Frank acaba por encantar Adele, uma mulher solitária que vê nele uma figura masculina diferente do marido pouco confiável. Henry não demora a notar o interesse da mãe em Frank – e vice-versa – e luta internamente com a felicidade de ver a mãe reagindo ao mundo depois de muito tempo e o medo em relação ao destino de Frank, afinal de contas um foragido da Justiça.

Logicamente, como se trata de uma história de amor, o passado de Frank também é revolvido pelo roteiro, e conta com uma saudável cota de decepções e injustiças. Com flashbacks rápidos entremeados à trama central – e que apresenta Tom Lipinski, um ator idêntico a Josh Brolin fazendo seu papel na juventude – Reitman mostra à plateia que não há motivo para medo: Frank é um homem bom, e é permitido torcer para um final feliz entre ele e Adele. Esse tom de melodrama do filme, ao contrário do que se poderia esperar, funciona à perfeição. Como um bom contador de histórias, o cineasta quer que o público se afeiçoe a seus personagens e o faz com maestria. Fica difícil à plateia não se deixar envolver pelo romance entre Frank e Adele, especialmente porque a química entre Josh Brolin e Kate Winslet transborda pela tela.

Sem que seja preciso apelar para uma cena sequer de sexo, Jason Reitman inunda todas as sequências entre Winslet e Brolin com uma sensualidade à beira do inflamável. São olhares expressivos, toques delicados de mãos, sessões de cozinha e aulas de dança que orquestram a relação perigosa/apaixonada entre os personagens, e tal condição não escapa aos olhos do introvertido Henry, que justamente nesse momento está passando pela fatídica fase de despertar para o sexo oposto – que surge na figura de uma nova moradora da cidade, rebelde e ousada. O contraponto entre a mãe (redescobrindo o prazer e a paixão) e o filho (caminhando para o primeiro amor) surge como uma interessante subtrama, aprofundando os laços entre os dois e confirmando o talento do jovem Griffith em transmitir muito sem precisar falar quase nada. Intercaladas com alguns momentos de suspense bem dosados – o roteiro nunca deixa de lembrar que Frank é um criminoso – as cenas românticas de “Refém da paixão” buscam o familiar, a normalidade e a paz mesmo quando retrata uma situação muito longe da corriqueira. A família postiça de Henry – com um pai bem mais digno do título do que o verdadeiro – lhe oferece mais amor e exemplos do que a original: um contraste inteligente que eleva o filme acima da média do gênero.
Depois de sua metade, quando Adele e Frank resolvem fugir juntos, “Refém da paixão” perde um pouco o ritmo – que recupera no terço final, onde o suspense assume a protagonização em detrimento do romance. Mesmo assim fica difícil não perceber o cuidado da direção em manter uma coerência narrativa e no desenho dos personagens, construídos de forma a jamais trair suas concepções originais. Por mais que possa parecer a princípio, o amor entre a dupla central convence – como o encontro de duas almas torturadas finalmente vendo diante de si a possibilidade de carinho e compreensão. Essa verdade que transparece graças às atuações calorosas de Kate Winslet e Josh Brolin consegue até mesmo deixar perdoável o final um tanto abrupto em que Tobey Maguire assume o papel de Henry na fase adulta e serve como ponte para o desfecho que todos esperavam. É bonito, é coerente e é romântico até a medula. Mas funciona que é uma beleza.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...