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sábado

AS VINHAS DA IRA


AS VINHAS DA IRA (The grapes of wrath, 1940, 20th Century Fox, 129min) Direção: John Ford. Roteiro: Nunnally Johnson, romance de John Steinbeck. Fotografia: Gregg Toland. Montagem: Robert Simpson. Música: Alfred Newman. Figurino: Gwen Wakeling. Direção de arte/cenários: Richard Day, Mark-Lee Kirk/Thomas Little. Produção: Darryl F. Zanuck. Elenco: Henry Fonda, Jane Darwell, John Carradine, Charley Grapewin, Dorris Bowdon, Russell Simpson, John Qualen. Estreia: 24/01/40

07 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Ford), Ator (Henry Fonda), Atriz Coadjuvante (Jane Darwell), Roteiro, Montagem, Som
Vencedor de 2 Oscar: Diretor (John Ford), Atriz Coadjuvante (Jane Darwell)

Publicado em 1939, depois de exaustiva pesquisa que incluiu viagens do próprio autor junto àqueles que pretendia retratar, "As vinhas da ira", de John Steinbeck, não demorou para se tornar um dos maiores clássicos da literatura norte-americana, especialmente por mostrar, em suas páginas, o doloroso destino do país durante a Grande Depressão, consequência da quebra da bolsa de valores de Nova York, ocorrida dez anos antes. Imaginar as palavras do livro em imagens cinematográficas talvez fosse um tanto árduo e deprimente, mas, vez ou outra, Hollywood consegue ousar e surpreender. Pelo pagamento vultoso de cem mil dólares, Steinbeck vendeu os direitos de filmagem de seu romance para a 20th Century Fox - exigindo, em troca, o máximo de fidelidade e respeito possível à obra original. Apaixonado pelo material, o chefão do estúdio, Darryl F. Zanuck, acatou os pedidos e, supervisionando o projeto de perto, como algo pessoal, realizou um de seus melhores trabalhos à frente do estúdio - um filme perfeitamente equilibrado entre entretenimento e arte, que não apenas emocionou o público como encantou a crítica e a Academia, que lhe indicou a sete Oscar e lhe premiou em duas importantes categorias, entre elas a de melhor diretor.

A estatueta de melhor diretor, entregue a John Ford, não deixou de ser uma surpresa: conhecido em Hollywood por sua visão política conservadora, o cineasta tampouco era famoso por sutilezas emocionais - seu maior sucesso até então havia sido "No tempo das diligências" (1939), que praticamente moldou as regras do western, gênero no qual ele se consagraria no futuro, muitas vezes acompanhado de John Wayne. Porém, de posse do material de Steinbeck e do roteiro preciso de Nunnally Johnson (editado por Zanuck em pessoa), Ford realizou um filme poderoso e emocionante, que não deixa de cutucar a política social da época mas busca principalmente contar uma história, forte e contundente o bastante para falar por si mesma. Fotografado com o cuidado de sempre por Gregg Toland (oscarizado por "O morro dos ventos uivantes", de 1939, e em vias de consagrar-se definitivamente com "Cidadão Kane", de 1941), "As vinhas da ira" é, também, assustadoramente atual em seus questionamentos e reivindicações. Se durante as filmagens o tema chamou a atenção dos paranoicos membros do governo norte-americano a ponto de Ford e Steinbeck serem investigados pelo Senado durante a época do infame macarthismo - que "caçava" comunistas atuantes na indústria de cinema -, hoje em dia seu grito a favor dos desfavorecidos e da luta por condições dignas de trabalho e qualidade de vida não soam nem um pouco obsoletos ou ultrapassados. Muito pelo contrário, é uma obra necessária e de suma importância histórica.


Em uma atuação antológica, Henry Fonda recebeu sua primeira indicação ao Oscar na pele de Tom Joad, o filho pródigo que retorna à fazenda da família, em Oklahoma, depois de quatro anos na prisão. Logo em sua chegada ele descobre, desolado, que a crise econômica do país está obrigando todos os proprietários do local a abandonarem suas casas - tomadas pelos bancos. Até mesmo a fazenda de seu tio já está perdida, e Joad se une a seus familiares em uma jornada atrás de uma vida mais digna na Califórnia, onde, segundo um anúncio distribuído pelas ruas, existem grandes possibilidades de trabalho. Em uma caminhonete caindo aos pedaços, Joad embarca com os pais, os avós, o tio, os sobrinhos e um amigo (ex-pastor) e vai testemunhando condições precárias de vida em acampamentos itinerantes, onde crianças, adultos e idosos passam por todo tipo de dificuldade com a esperança de melhores dias. Sofrendo perdas no percurso, Joad passa a tomar consciência social e se envolver em movimentos de resistência - para desespero de sua mãe (Jane Darwell), que tem medo de vê-lo novamente atrás das grades.

Fonda, que aceitou assinar um contrato longo com a 20th Century Fox apenas por ser apaixonado pelo personagem, é a intérprete ideal para Tom Joad. Seu rosto quase impassível transmite, através dos olhos, um turbilhão de sentimentos que faz com que sua atuação, silenciosa, reflita, através das imagens realistas de Gregg Toland, um período dos mais críticos dos EUA. John Steinbeck em pessoa louvou o desempenho de Fonda, e se tornou seu amigo pessoal, apaixonado pela forma com que o ator transformou suas palavras em ações. Nem mesmo o final - menos pesado do que no romance - chegou a incomodar o autor, que alguns anos mais tarde veria outro livro seu, "A leste do Éden", ser adaptado por Elia Kazan e estrelado por James Dean, com o nome de "Vidas amargas" (1955). Emocionante sem ser melodramático, político sem soar panfletário e clássico sem o peso do tempo a pesar sobre seus ombros, "As vinhas da ira" é, talvez, o melhor filme de John Ford - e, ironicamente, o mais atípico de sua carreira.

quinta-feira

FEDORA

FEDORA (Fedora, 1978, Bavaria Atelier, 116min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, I.A.L. Diamond, estória de Thomas Tryon. Fotografia: Gerry Fisher. Montagem: Stefan Arnsten, Fredric Steinkamp. Música: Miklos Rozsa. Figurino: Charlotte Fleming. Direção de arte/cenários: Alexandre Trauner/Robert André. Produção: Billy Wilder. Elenco: William Holden, Marthe Keller, Hildegard Knef, José Ferrer, Frances Sternhagen, Henry Fonda, Michael York. Estreia: 30/5/78 (Festival de Cannes)

Em 1950, o filme "Crepúsculo dos deuses" retratava, de forma poética e um tanto cruel, o fim de um período de glamour dentro da indústria de cinema de Hollywood. Através da personagem Norma Desmond, vivida com propriedade pela extraordinária Gloria Swanson, o diretor e roteirista Billy Wilder criticava com ferocidade o tratamento dado pela nova geração aos ídolos do passado, normalmente relegados a um mero arremedo de existência quando longe dos holofotes. Vinte e oito anos mais tarde, em seu penúltimo filme, Wilder voltaria ao tema, porém sem o mesmo sucesso e o mesmo tom de ironia. "Fedora", inspirado em um conto de Thomas Tryon, não convenceu a crítica como tantos de seus trabalhos anteriores e acabou ficando conhecido como um filme menor na carreira do brilhante cineasta. De fato, é uma produção menos empolgante, mas ainda assim um filme acima da média, com uma história com reviravoltas o suficiente para manter a atenção até seu minuto final.

Pensado inicialmente como um telefilme a ser lançado na CBS, "Fedora" foi resgatado de tal destino pela United Artists, que, com o nome de Billy Wilder em vista, achou que o filme merecia uma estreia em grande estilo. A oportunidade perfeita surgiu com a retrospectiva da carreira do cineasta, no Festival de Cannes de 1978, mas a morna recepção ao resultado final foi responsável pelo descaso da distribuição do filme no mercado tanto doméstico quanto internacional. Para desgosto do próprio Wilder, até mesmo as exibições-teste foram um tanto desastrosas, com a plateia reagindo de forma inadequada ao desenvolvimento da trama, adaptada para as telas por ele mesmo e seu fiel colaborador I.A.L. Diamond. Recusando-se a editar ainda mais sua obra - já mutilada em 12 minutos pela UA - o diretor, cujo último filme havia sido o também pouco louvado "Avanti!... Amantes à italiana" (72), teve de contentar-se em vê-la passar quase em branco pelos cinemas, de forma melancólica e um tanto quanto injusta que nem mesmo sua apresentação no Festival de Cinema de Chicago deu conta de apagar. Ainda assim, é um filme que merece ser descoberto, nem que seja a título de curiosidade.


William Holden - por coincidência ou não o protagonista também de "Crepúsculo dos deuses" - trabalha novamente sob o comando de Wilder, na pele de Barry Detweiler, um produtor de cinema em crise financeira que, com uma adaptação de "Anna Karenina" em mãos, resolve oferecer o papel principal à reclusa atriz Fedora (Marthe Keller), aposentada das telas e moradora em uma escondida ilha mediterrânea, ao lado de uma condessa idosa e temperamental, um médico misterioso e uma governanta hostil. Em suas tentativas de convencer a atriz a voltar às telas, Barry não hesita em relembrá-la de um encontro de sua juventude, mas esbarra não apenas no perceptível desequilíbrio mental da antiga estrela mas também na resistência de todos que a rodeiam - um grupo de pessoas que parece esconder um grande segredo em relação a ela. Tal segredo acaba vindo à tona depois de uma tragédia inesperada - e Detweiler ficará sabendo, então, que a busca pela eterna juventude pode atingir patamares jamais imaginados.

Contando sua história com ares sombrios e repletos de surpresas mirabolantes, Billy Wilder deixa de lado (um pouco) sua habitual ironia, preferindo dedicar-se a enfatizar o lado doentio e claustrofóbico do mundo do cinema - e das celebridades em geral. Ao mudar completamente o rumo de sua narrativa em seu ato final, o cineasta convida o público a adentrar em uma nova história, digna dos melhores contos de horror de Edgar Allan Poe e dotada de uma melancolia surpreendente, em especial vinda de um homem que conseguiu falar de alcoolismo sem cair no sentimentalismo - em "Farrapo humano" (45) - e do sensacionalismo da imprensa sem apelar para o panfletarismo - em "A montanha dos sete abutres" (51). Como percebendo que também ele estava com sua carreira na reta final, Wilder dá seu recado de forma elegante mas contundente, utilizando-se de um gênero (o suspense) para iluminar uma forma quase patológica de vida, com elementos que lembram bastante "A pele que habito" (2011), de Pedro Almodóvar. Com participações especiais de Henry Fonda e Michael York como eles mesmos, "Fedora" é um Billy Wilder atípico, mas jamais menor. É apenas menos óbvio e requer mais atenção e dedicação.

terça-feira

JEZEBEL

JEZEBEL (Jezebel, 1938, Warner Bros, 104min) Direção: William Wyler. Roteiro: Clements Ripley, Abem Finkel, John Huston, peça teatral de Owen Davis. Fotografia: Ernest Haller. Montagem: Warren Low. Música: Max Steiner. Figurino: Orry-Kelly. Direção de arte: Robert Haas. Produção executiva: Hal B. Wallis. Produção: William Wyler. Elenco: Bette Davis, Henry Fonda, Fay Binter, George Brent, Margaret Lindsay, Donald Crisp. Estreia: 10/3/38

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Bette Davis), Atriz Coadjuvante (Fay Binter), Fotografia, Trilha Sonora Original
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Bette Davis), Atriz Coadjuvante (Fay Binter) 


Hollywood, como todos sabem, vive de lendas. E uma das mais firmemente presas ao inconsciente coletivo é aquela que diz que, arrasada por ter perdido o papel de Scarlett O’Hara na adaptação para as telas do épico “... E o vento levou”, de Margaret Mitchell, Bette Davis deu o troco à Warner da melhor maneira possível: criando uma personagem similar em uma história passada no mesmo período histórico e, como tiro de misericórdia, ganhando um Oscar de melhor atriz por ele. Seria uma bela história. Se não fosse apenas mais uma lenda. Tudo bem que Scarlett (que deu à Vivien Leigh o Oscar no ano seguinte) e Julie Morrison – personagem de Davis em “Jezebel” – tem personalidades semelhantes, são fortes e determinadas (além de sulistas durante a Guerra de Secessão), mas o filme de William Wyler NÃO foi uma resposta de Davis a ninguém. Não apenas o nome da atriz principal de “... E o vento levou” ainda não havia sido escolhido quando “Jezebel” começou a ser filmado, como o próprio Selznick recusou-se a testar Davis para o papel justamente por ter ficado irado com o que julgava uma espécie de sabotagem contra seu tão acalentado projeto. Esse conflito de datas pode até jogar um balde de água fria naqueles que gostam de uma boa fofoca de bastidores, mas é apenas mais uma prova de que não é de hoje que Hollywood adora desenvolver filmes com temática semelhante ao mesmo tempo.


Escrita por Owen Davis e fracasso de bilheteria na Broadway na temporada 1934/35, “Jezebel” teve seus direitos comprados pela Warner a preço de banana. Tal sorte financeira, porém, não se repetiu durante as filmagens, que se arrastaram por quase um mês a mais do que o previsto: com um custo adicional de 400 mil dólares ao orçamento inicial, “Jezebel” confirmou a forma particular de direção do cineasta William Wyler, que costumava repetir um take até sentir-se particularmente satisfeito com ele. Tal método de trabalho – que fez com que Humphrey Bogart tivesse tentado dissuadir seu amigo Henry Fonda de fazer o filme – foi em boa parte responsável pelos constantes atrasos no cronograma e até mesmo pelos problemas de relacionamento entre ele e sua estrela Bette Davis (ao menos até que dois motivos a fizeram baixar a guarda: a constatação de que Wyler sabia o que estava fazendo ao exigir dela a mesma cena diversas vezes e o início de um conturbado romance com o diretor). Vendo seu casamento com Ham Nelson naufragando a cada dia, Davis apaixonou-se por Wyler mesmo já estando envolvida com seu colega de elenco, Henry Fonda – que por sua vez não só era casado como estava em vias de tornar-se pai de sua segunda filha, Jane. Em mais uma das lendas que correm a respeito do filme, Davis fingiu-se de doente para não aparecer nos últimos dias das filmagens por saber que o último take seria também sua despedida do cineasta que, dizem, era o pai do bebê que ela esperava - uma reviravolta inesperada para uma relação que havia começado com o pé esquerdo seis anos antes, quando Wyler, durante os testes para o filme "A house divided", comentou com um membro da equipe que detestava atrizes que julgavam que mostrar o corpo as ajudariam a ganhar um papel (a indireta era para Davis, que estava vestida com um figurino alguns números menores por erro alheio).

O fato é que, independentemente de seus problemas e confusões nos bastidores, "Jezebel" é uma obra que se sustenta, e muito bem, sem nada disso. Calcado fortemente na direção inspiradíssima de William Wyler e na atuação monstruosa de Bette Davis, o filme é uma adaptação inteligente e rica em crítica social que destoa radicalmente daquele que tornou-se, mesmo sem querer, seu maior rival no ideário dos cinéfilos, "... E o vento levou": ao contrário do que acontece na obra estrelada por Vivien Leigh e Clark Gable, onde a história de amor entre os protagonistas é orquestrada como um épico onde a Guerra de Secessão surge como um pano de fundo filmado em luxuoso technicolor, em "Jezebel" o espectro do conflito assume ares mais sérios e melancólicos - cortesia da bela fotografia em preto-e-branco de Ernest Haller, que, por coincidência, também assinou o filme de Selznick.

Passeando por uma New Orleans triste e castigada por um conflito que opôs cidadãos e famílias até então amigas, a câmera de Haller não tenta fazer da história um espetáculo e acaba por transformar os dramas de sua protagonista, Julie Morrison, no principal ponto de interesse do filme.

Uma jovem à frente do seu tempo, voluntariosa e pouco afeita a regras que fogem à sua compreensão, Julie não hesita em escandalizar a sociedade sulista da metade do século XIX, assumindo posições transgressoras aparentemente simples mas radicalmente chocantes a seus contemporâneos, como usar um vestido vermelho em um baile para toda a alta sociedade - quando se espera que moças virgens usem apenas branco. É justamente essa sua ousadia que acaba por afastá-la do homem que ama, Preston Dillard (Henry Fonda), que não consegue conceber a ideia de casar-se com uma mulher tão caprichosa. Dando o noivado por acabado, ele abandona a cidade e viaja para a Filadélfia, onde passa três anos. Sua volta é que que deflagra o processo de autodestruição e vingança em Julie - cuja ligação com Jezebel (a personagem bíblica cujos pecados acarretaram destruição e peste) surge através da veterana Belle Massey (Fay Binter, vencedora do Oscar de coadjuvante no mesmo ano em que também concorreu na categoria principal por "Novos horizontes"). O reencontro de Julie e Preston se dá de forma trágica e redentora, que, graças ao bom roteiro e à direção sensível de Wyler, jamais soam pedantes ou como um sermão.

"Jezebel" é, enfim, um grande filme, que merece, depois de todas essas décadas, finalmente sair da sombra de "... E o vento levou". Apesar de suas semelhanças (nem tão absurdas assim, afinal de contas), são duas grandes obras cinematográficas que devem ser vistas da maneira correta: dois filmes excelentes, com ambições diversas e resultados impecáveis. E Bette Davis é sempre uma atriz superlativa, capaz de fazer com que um mero dar de ombros tenha um efeito dramático devastador na plateia e nos colegas de cena. Se isso não for um motivo mais do que imenso, o que seria?

quarta-feira

NUM LAGO DOURADO


NUM LAGO DOURADO (On golden pond, 1981, Universal Pictures, 109min) Direção: Mark Rydell. Roteiro: Ernest Thompson, baseado em sua peça teatral homônima. Fotografia: Billy Williams. Montagem: Robert L. Wolfe. Música: Dave Grusin. Figurino: Dorothy Jeakins. Direção de arte/cenários: Stephen Grimes/Jane Bogart. Casting: Dianne Crittenden, Barry Primus. Produção: Bruce Gilbert. Elenco: Henry Fonda, Katharine Hepburn, Jane Fonda, Doug McKeon, Dabney Coleman. Estreia: 04/12/81

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mark Rydell), Ator (Henry Fonda), Atriz (Katharine Hepburn), Atriz Coadjuvante (Jane Fonda), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Som
Vencedor de 3 Oscar: Ator (Henry Fonda), Atriz (Katharine Hepburn), Roteiro Adaptado
Vencedor de 3 Golden Globes: Filme/Drama, Ator/Drama (Henry Fonda), Roteiro


Existem no mínimo dois motivos para que o filme "Num lago dourado" tenha sido feito. Primeiro, para registrar em película o emocionante encontro entre duas gerações de uma nobre linhagem do cinema americano (que vivem na tela um interessante paralelo do que viviam na realidade) e para dar a Henry Fonda, aos 76 anos de idade, sua maior chance de levar um Oscar. O primeiro objetivo foi atingido plenamente: ao lado da filha Jane, de forma comovente, o veterano ator exorcisa uma difícil relação familiar em frente à plateia de forma comovente. E no resultado do segundo motivo saiu-se ainda melhor: não só Fonda levou a estatueta como sua companheira de cena, Katharine Hepburn arrebatou seu quarto Oscar, estabelecendo um recorde que não dá sinais de ser batido tão cedo.

Escrito pelo dramaturgo Ernest Thompson baseado em sua peça teatral homônima, o roteiro de "Num lago dourado" versa sobre assuntos normalmente considerados venenos de bilheteria, como velhice, medo da morte e relações familiares problemáticas. Totalmente escorado no trabalho de atores e em seus diálogos bem escritos, em detrimento de efeitos visuais e piadas infames (que já na época de seu lançamento faziam a alegria dos estúdios), o filme de Mark Rydell conquista justamente pela simplicidade de seu enredo e pela felicidade na escalação de seu elenco. Ao contrário de aborrecer o público com falas inflamadas e lugares-comuns, "Num lago dourado" oferece à plateia um espetáculo de delicadeza e bom gosto, que exige apenas um mínimo de sensibilidade para emocionar a audiência sem apelar para golpes baixos.

A trama do filme se passa no verão em que Norman Thayler Jr (vivido com sutileza por Henry Fonda em seu último papel) completa 80 anos. Irascível, rabugento e sem maiores admirações pelos seres humanos em geral, ele chega até sua casa de verão com a dedicada esposa Ethel (Katharine Hepburn) pra comemorar seu aniversário e afastar-se do turbilhão da cidade grande. Logo em seguida sua única filha, Chelsea (Jane Fonda) também chega ao local, acompanhada do novo namorado, Bill Ray (Dabney Coleman) e do filho deste (Doug McKeon), um menino de 13 anos de idade, rebelde e pouco amistoso. Fica patente para os visitantes que a relação entre pai e filha não é das mais saudáveis, mas mesmo assim tudo transcorre dentro da normalidade. As coisas mudam de figura quando Chelsea pede aos pais que fiquem cuidando de seu futuro enteado enquanto ela viaja com Bill Ray. O que poderia ser uma temeridade, no entanto, acaba ajudando tanto o menino, que torna-se mais afável, quanto o próprio Norman, que vê no rapaz o neto que nunca teve.


A maior beleza de "Num lago dourado", além de sua fotografia deslumbrante, é a maneira com que o roteiro de Thompson trata suas personagens. Abdicando de qualquer condescendência, ele criou personagens dolorosamente reais, repletos das qualidades e defeitos de qualquer ser humano. Norman é um homem amargurado, chato, de uma misantropia quase patológica, mas ao mesmo tempo se envolve em uma relação de amizade e amor com um pré-adolescente que busca aceitação e carinho. E sua filha, uma mulher fechada em suas mágoas de infância tenta desesperadamente conquistar a admiração de um pai do qual nunca teve mais do que críticas. No meio deles, uma mãe carinhosa e amorosa que luta para uní-los através dos laços de sangue.

É inegável que "Num lago dourado" ganha muito com os embates verbais entre os dois Fonda de seu elenco, ambos vibrantes e à flor da pele. Mas é injusto não aplaudir também a química entre o bom e velho Henry e o menino Doug McKeon (que, a despeito de seu bom trabalho não conseguiu uma carreira decente em Hollywood): as cenas entre os dois transmitem uma ternura quase palpável, que emociona sem ser piegas. E emocionante, aliás, é um eufemismo para o que acontece quando Fonda e Katharine Hepburn estão juntos. O último ato do filme, em que o velho casa volta a ficar sozinho em casa depois da partida de seus convidados é de uma pungência ímpar. Sem recorrer a truques sujos para tentar a emoção do espectador, o texto de Thompson e a direção elegante de Mark Rydell atingem o máximo de beleza ao deixar que seus intérpretes brilhem ao máximo. E eles dão um show à parte, provando que talento definitivamente não envelhece.

    sábado

    DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA


    DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA (Twelve angry men, 1957, United Artists, 96min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Reginald Rose. Fotografia: Boris Kaufman. Montagem: Carl Lerner. Música: Kenyon Hopkins. Produção: Reginald Rose, Henry Fonda. Elenco: Henry Fonda, Lee J. Cobb, Jack Warden, Ed Begley, Martin Balsam, John Fiedler, E.G. Marshall, Edward Binns, Joseph Sweeney, George Voskovec, Robert Webber, Jack Klugman. Estreia: 13/4/57

    3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sidney Lumet), Roteiro Adaptado

    Um rapaz de origem latina é acusado de assassinar o próprio pai com um golpe de canivete. Sem um álibi concreto e tendo duas testemunhas do crime (um vizinho idoso do andar de baixo e uma mulher de meia-idade que assistiu ao homicídio pela sua janela), sua sorte parece não ser das melhores. Com o julgamento encerrado, basta apenas as deliberações do júri para que a justiça seja feita (ou não). Então, uma dúzia de cidadãos de idades, classes sociais e situações financeiras distintas são fechados em uma sala para dar o veredicto. Fim da história, sim? Não, absolutamente não. É justamente nesse ponto onde a maioria esmagadora dos filmes de tribunal acaba é que começa "Doze homens e uma sentença", de Sidney Lumet.

    Escrito por Reginald Rose (co-produtor do filme, ao lado do ator Henry Fonda), "Doze homens" não foi um sucesso de público, apesar dos rasgados elogios da crítica e das três importantes indicações ao Oscar que conquistou: filme, diretor e roteiro. Não é difícil entender, uma vez que não é exatamente o tipo de produto que plateias ávidas por ação e astros de primeira grandeza costumam consumir. É um filme com uma inteligência bem acima da média, um elenco escolhido pelo talento e não pelo poder de fogo nas bilheterias, um ritmo teatral (mas nunca enfadonho como podem pensar os avessos ao estilo) e principalmente um filme que dá importância aos diálogos mais do que a movimentos de câmera e afins. É uma prova inconteste da força de uma boa escalação de elenco para elevar um filme à categoria de uma obra-prima.

    Quando "Doze homens e uma sentença" começa, o julgamento em si já acabou. O público não tem acesso a quase nenhuma imagem do tribunal (exceção feita à bancada dos jurados e ao rosto angustiado do réu). É apenas quando os doze homens do título sentam à volta de uma mesa para discutir o caso é que o roteiro de Rose agarra a plateia pelo cérebro e não larga mais. O caso, aparentemente fácil de ser julgado passa a ser um desafio aos membros do júri quando, na primeira votação, o jurado de número 8 (Henry Fonda) afirma não ter certeza absoluta da culpa do réu. Contestado pelos outros colegas, ele explica, então, suas dúvidas em relação ao caso. Aos poucos sua retórica passa a contaminar outros parceiros de missão, que, mesmo a princípio certos da culpabilidade do rapaz acusado do crime, começam a questionar suas certezas, para desespero do jurado número 3 (Lee J. Cobb), que não entende como eles podem ter mudado de ideia a respeito de algo que, para ele, é tão cristalino.


    O grande diferencial de "Doze homens e uma sentença" são seus diálogos. Fortes, contundentes e realistas, as falas criadas por Reginald Rose são mais do que suficientes para apresentar à audiência tudo que é necessário, sem buscar subterfúgios que o cinema tranquilamente poderia proporcionar. O grau de competência dos diálogos é tão alto que em nenhum momento o público assiste ao julgamento, mas ao final dos 96 minutos de projeção, a impressão que se tem é que ele foi visto com detalhes. E o que é mais importante: apenas o que é importante é mencionado. Em um corriqueiro filme de tribunal, isso ficaria a cargo do editor. Aqui, Carl Lerner tem pouco (mas importante) trabalho.

    A importância do trabalho do editor Carl Lerner em "Doze homens e uma sentença" pode parecer pequena, uma vez que aparentemente não é preciso esforço para montar um filme sem maiores cortes. No entanto, é justamente ele quem, ao lado do diretor Sidney Lumet (que viria ainda a comandar pelo menos outro grande filme, "Um dia de cão", em 1975), dá ao filme a cara de cinema que ele tem. Inteligentemente, Lumet e Lerner optaram por uma edição tranquila, suave, delicada, que dá a cada detalhe do roteiro a importância que ele tem. Em teatro é difícil, por exemplo, concentrar-se em um único ator sem perder todo o restante do quadro. Aqui, o diretor e seu editor resolvem esse problema com facilidade e parcimônia, dando a cada ator seu momento certo de brilhar.

    E que brilho! Há de se louvar o responsável pelo casting de "Doze homens..." Mesmo que de certa forma Henry Fonda seja uma espécie de protagonista (afinal, é ele quem dá o pontapé inicial no conflito retratado), seus colegas de elenco não ficam para trás em termos de desempenho. Lee J. Cobb como o truculento e quase irascível jurado número 3 (o que tem mais dificuldade em se deixar convencer pelas dúvidas dos colegas) rouba a cena sem nenhuma vergonha e a outra dezena de atores é de tirar o chapéu. Generoso, o texto de Reginald Rose (refilmado para a TV americana em 1997, com Jack Lemmon no lugar de Fonda) dá espaço para todos demonstrarem seu talento, mesmo que - e isso é outra jogada de mestre - suas vidas, ao menos para o espectador, possa ser resumida apenas às horas em que eles estão na sala de jurados. Durante a duração do filme - e da discussão entre as personagens - o mundo fora do tribunal é vislumbrado apenas pelo calor, pela chuva e pelo jogo de baseball que uma das personagens anseia em assistir. Eles estão ali para definir a vida ou a morte de um rapaz e apesar de nem todos terem a mesma consciência da importãncia do fato, o que acontece no mundo exterior não tem mais a mesma urgência. O fato de seus nomes não serem sequer mencionados (com exceção de dois deles, na cena final) apenas reitera sua condição de anônimos.

    "Doze homens e uma sentença" é obrigatório. Para fãs de cinema, para estudantes de Direito, para todos que sentem prazer em assistir a uma boa história, contada por gente que entende do riscado. Imperdível!

    sexta-feira

    O HOMEM ERRADO


    O HOMEM ERRADO (The wrong man, 1956, Warner Bros., 105min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Maxwell Anderson, Angus MacPhail. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Bernard Herrmann. Elenco: Henry Fonda, Vera Miles, Anthony Quayle. Estreia: 22/12/56

    Está certo que Norman Bates, o protagonista de "Psicose" (1960) é inspirado em Ed Gein, que realmente existiu na década de 50. Mas, levando-se em consideração que o roteiro do filme se baseava no livro de Robert Bloch - por sua vez uma obra de ficção - não é incorreto afirmar que "O homem errado" é o único filme de Alfred Hitchcock baseado em uma história real. Aliás, baseado apenas não. Em um fato inédito em sua carreira, o mestre do suspense realizou filmagens em alguns dos verdadeiros locais onde a história ocorreu e, mais impressionante ainda, utilizou algumas das testemunhas do caso em pequenas participações. Apesar de soar como um documentário, no entanto, "O homem errado" está bem longe disso, sendo um dos filmes mais contundentes e sérios de Hitch.

    Aqui, Henry Fonda é o ator principal. Ele usa seu rosto anguloso e expressivo para dar vazão à toda angústia e perplexidade que toma conta de sua personagem, envolvida inesperadamente em um pesadelo kafkiano dos mais aterradores. Ele vive Christopher Emmanuel Balestrero, um músico casado, pai de dois filhos pequenos e em dificuldades financeiras que vê sua vida virar do avesso quando é preso inesperadamente, acusado de assalto à mão armada. Reconhecido por várias testemunhas e incapaz de fornecer um álibi concreto, ele acaba sendo julgado por um crime que não cometeu, enquanto sua mulher, Rose (Vera Miles) passa a sofrer de um sério desequilíbrio emocional.

    Hitchock não brinca em serviço em "O homem errado". Ao deixar de lado as cores elegantes de seus filmes imediatamente anteriores, ele conta com a sombria fotografia de Robert Burks para dar ênfase ao turbilhão pessoal de Balestreros, que, ao mesmo tempo em que tenta provar sua inocência, percebe que tudo parece ser inútil. É exemplar a maneira com que o cineasta filma a prisão e os primeiros momentos do protagonista como prisioneiro. Como Balestreros está sentindo-se humilhado e desrespeitado em seus direitos como cidadão, a câmera focaliza quase que apenas o chão, os pés, as algemas (como se estes estivessem sendo realmente focalizados pelos olhos da personagem). O clima de claustrofobia presente nas cenas após a prisão do protagonista é acentuado por close-ups intimidantes e uma música discreta mas retumbante de Bernard Herrmann. O olhar apavorado de Henry Fonda e sua delicadeza fisica (sua figura esguia, seus modos delicados) ajudam a aproximá-lo do público, que, sabendo de antemão de sua inocência, sofre junto com ele (um golpe de mestre de Hitchcock).


    Criticado por não decidir-se entre as linguagens de ficção e documentário, "O homem errado", no entanto, é um dos mais consistentes dramas de Hitchcock. O roteiro (que não foi escrito por John Michael Hayes, colaborador habitual do cineasta por questões financeiras) não dá espaço para o corriqueiro senso de humor de sua filmografia, recorrendo ainda a elementos e simbolismos católicos para atingir seus objetivos de prender a atenção da audiência e alertar para uma história tão chocante quanto verdadeira. Talvez seu esforço em dar vida a uma trama tão intensa tenha sido o responsável para que logo em seguida ele embarcasse em um projeto tão profundo quanto: "Um corpo que cai", uma de suas maiores obras-primas.

    OS AGENTES DO DESTINO

      OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...