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terça-feira

REENCARNAÇÃO

 


REENCARNAÇÃO (Birth, 2004, New Line Cinema/Fine Line Features, 100min) Direção: Jonathan Glazer. Roteiro: Jonathan Glazer, Jean-Claude Carrière, Milo Addica. Fotografia: Harris Savides. Montagem: Sam Sneade, Claus Wehlisch. Música: Alexandre Desplat. Figurino: John Dunn. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Ford Wheeler. Produção executiva: Xavier Marchand, Mark Ordesky, Kerry Ordent. Produção: Lizie Gower, Nick Morris, Jean-Louis Piel. Elenco: Nicole Kidman, Cameron Bright, Danny Huston, Lauren Bacall, Anne Heche, Arliss Howard, Peter Stormare, Cara Seymour, Ted Levine. Estreia: 08/9/2004 (Festival de Veneza)

Um dos filmes mais polêmicos da temporada 2004 de cinema começou sua trajetória de controvérsias já em sua estreia, no Festival de Veneza, quando foi recebido com vaias e críticas contundentes por parte da imprensa. Em pouco tempo, uma cena em que sua estrela, Nicole Kidman, dividia (nua) uma banheira com uma criança (igualmente sem roupa) tornou-se motivo de gritaria entre os mais conservadores, e acabou por eclipsar o que a própria atriz chamou de uma história sobre luto e vulnerabilidade. Dirigido por Jonathan Glazer - que vários anos depois seria indicado ao Oscar por "Zona de interesse" (2023) - e tendo entre seus corroteiristas o experiente Jean-Claude Carrière, "Reencarnação" demorou a ser visto sem a capa de imoral, imposta por uma parcela conservadora da plateia, e ter suas qualidades reconhecidas pelo público. É um filme que se equilibra com razoável destreza entre o drama psicológico e o suspense, amparado por um visual sóbrio e uma trilha sonora que reflete o tom inquietante de sua premissa - além de contar com uma das mais profundas e subestimadas atuações de Kidman, então recém premiada com o Oscar por "As horas" (2002).

De cabelos curtíssimos e uma elegância à toda prova, Kidman interpreta a delicada Anna, uma mulher arrasada pela morte repentina e precoce do marido, vítima de um ataque cardíaco. Depois de um ano de sofrimento e luto, ela finalmente parece estar disposta a prosseguir sua vida ao casar-se com um antigo apaixonado, Joseph (Danny Huston). Seus planos, porém, são interrompidos quando entra em cena o pequeno Sean (Cameron Bright), um menino de dez anos de idade que alega ser a reencarnação de seu falecido marido. Munido de informações a respeito de seu relacionamento com Anna que são apenas do conhecimento do casal, o garoto insiste em manter contato com a jovem viúva, que, para angústia de sua família - atônita com a situação -, passa a levar a sério a possibilidade de ter reencontrado o amor de sua vida. Se aproximando cada vez de Sean, Anna passa a questionar seu novo relacionamento e as escolhas de sua vida, enquanto Joseph tenta provar a ela que tudo não passa de um absurdo sem tamanho.

 

Se existe um adjetivo que acompanha "Reencarnação" em cada minuto, esse adjetivo é "elegante". Não apenas devido aos ambientes chiques de Nova York onde circulam seus personagens ou à sofisticação inerente à Nicole Kidman, no auge de sua fase mais etérea. Tampouco é responsabilidade apenas da fotografia de enquadramentos discretos de Harris Savides ou da trilha sonora marcante de Alexandre Desplat. A elegância do filme de Glazer advém principalmente de seu ritmo plácido, quase contemplativo, que reflete em imagens a alma melancólica de sua protagonista. Dotado de expressões minimalistas que transmitem de forma sutil o turbilhão de sua Anna, o rosto de Nicole Kidman é o instrumento perfeito do diretor para contar sua história, repleta de silêncios e mistérios que vão se revelando sem pressa diante dos olhos do público e de seus familiares - entre as quais uma subaproveitada Lauren Bacall. O único (e grande) senão é a mudança radical de rumo no terço final, quando a trama toma rumos que mudam tudo que se poderia imaginar até então. Para alguns uma reviravolta muito bem-vinda; para outros o enfraquecimento de um interessante estudo sobre a quebra de paradigmas e certezas absolutas.

Fascinante em seu modo de desenrolar a narrativa, provocando o espectador até o limite de seu conservadorismo - segundo a atriz Christina Applegate o roteiro final amenizou consideravelmente o teor sexual da trama, com a chegada de Nicole Kidman ao projeto -, "Reencarnação" já demonstrava em Jonathan Glazer um diretor sensível e atento aos detalhes visuais e dramáticos de seus trabalhos. Ao fugir do óbvio - como o fez em "Zona de interesse" quase duas décadas mais tarde -, ele imprime uma personalidade própria a seu filme, mesmo correndo o risco de ser incompreendido ou simplesmente taxado de chato. "Reencarnação" é lento. É sutil. E é ousado. Pode não ser um grande filme (talvez lhe falte coragem de encerrar dignamente), mas é um filme ainda subestimado por boa parte do público acostumado a mais do mesmo.

quarta-feira

DA MAGIA À SEDUÇÃO


DA MAGIA À SEDUÇÃO (Practical magic, 1998, Warner Bros, 104min) Direção: Griffin Dunne. Roteiro: Robin Swicord, Akiva Goldsman, Adam Brooks, romance de Alice Hoffman. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Elizabeth Kling. Música: Alan Silvestri. Figurino: Judianna Makovksy. Direção de arte/cenários: Robin Standefer/Claire Jenora Bowin. Produção executiva: Bruce Berman. Produção: Denise Di Novi. Elenco: Sandra Bullock, Nicole Kidman, Aidan Quinn, Dianne Wiest, Stockard Channing, Goran Visnjic, Marc Feuerstein, Evan Rachel Wood, Margo Martindale, Chloe Webb. Estreia: 16/10/98

Quando "Da magia à sedução" chegou aos cinemas, Nicole Kidman ainda não era a estrela que viria a se tornar depois do sucesso de "Moulin Rouge: o amor em vermelho" e "Os outros" - ambos lançados em 2001 - nem tampouco tinha o prestígio que o Oscar por "As horas" (2002) lhe traria. Em outubro de 1998, data da estreia, a maior estrela do projeto era Sandra Bullock, em franca ascensão desde que chamou a atenção do público pela primeira vez, em "Velocidade máxima" (1994). A união das duas atrizes, porém, ao contrário do que se poderia esperar, decepcionou. Com menos de 50 milhões de dólares arrecadados nas bilheterias mundiais, o filme dirigido pelo também ator Griffin Dunne - e baseado em um best-seller de Alice Hoffman - ficou em um estranho meio-termo entre uma comédia romântica com tons sobrenaturais e um suspense fantástico com elementos típicos das histórias de amor que enchem os olhos dos fãs do gênero. Escorado no carisma de suas estrelas e com o apoio luxuoso de um elenco coadjuvante impecável, "Da magia à sedução" funciona como um passatempo acima da média - mas inegavelmente sofre com sua atmosfera um tanto indecisa.

De acordo com um dos roteiristas, o premiado Akiva Goldsman - Oscar por "Uma mente brilhante" (2001) - a primeira versão do filme privilegiava o lado mais sombrio da história criada por Hoffman e publicada em 1995. O marketing promovido pela Warner, porém, conduziu a produção a um resultado mais leve, de olho em um público mais amplo. Sendo assim, a saga de duas jovens irmãs lidando com seus dons de feitiçaria encontrou, no filme de Dunne, um viés mais lúdico e menos mórbido. Se por um lado é um acerto, ao explorar o talento cômico de suas atrizes, também deixa no ar a sensação de um resultado final híbrido, que não atinge todo o seu potencial dramático. Tal problema de foco respingou inclusive na trilha sonora original de Michael Nyman, que foi substituída, depois de exibições-teste, por uma música considerada menos "europeia e intrusiva", composta por Alan Silvestri. Com intenções mais comerciais, a versão que finalmente chegou às telas acabou por decepcionar o estúdio - mas tornou-se cult com o passar do tempo, principalmente devido à presença de Kidman e Bullock.

 

As duas atrizes vivem, respectivamente, Gillian e Sally Owens, irmãs que, órfãs, vivem desde a infância em uma pequena ilha na costa de Massachussets, criadas por suas tias, Frances (Stockard Channing) e Jet (Dianne Wiest). Descendentes de uma longa linhagem de bruxas, elas sabem que são amaldiçoadas para o amor e se ressentem de terem passado a vida toda sofrendo o preconceito dos outros moradores locais. Chegando à idade adulta, porém, sua união é posta à prova pelas radicais diferenças entre suas personalidades. Enquanto Sally - introvertida e romântica - desafia sua sina e vive um casamento feliz e realizado com Michael (Mark Feuerstein), Gillian - rebelde e sensual - foge da cidade com o objetivo de viver a vida longe dos olhos maldosos dos conterrâneos. A maldição que as une, no entanto, parece mais forte do que qualquer coisa: Sally fica viúva depois de um trágico acidente, e Gillian se envolve em um relacionamento tóxico e violento com o perigoso Jimmy Angelow (Goran Visjnic) - uma relação cujos desdobramentos trágicos a obriga a retornar ao lar e apresenta as duas irmãs o detetive de polícia Gary Hallet (Aidan Quinn). Sua reunião abala a tranquilidade da pequena cidade - mas pode, paradoxalmente, ajudá-las a superar o preconceito que cerca sua família e suas origens.

O que pode ser dito a respeito de "Da magia à sedução" é que, apesar dos problemas, o produto final é um delicioso programa para os menos exigentes. No auge da beleza, Nicole Kidman rouba a cena como a tresloucada e irresponsável Gillian - um contraponto aos dramas de Sally, interpretada por uma Sandra Bullock competente mas repetindo os trejeitos que fizeram dela uma grande estrela. Stockard Channing e Dianne Wiest brilham a cada aparição e a direção de Griffin Dunne faz o possível para extrair o melhor de um roteiro cuja mudança de tom no terço final prejudica mais do que ajuda. Para os fãs de suas atrizes centrais é imperdível - mas fica no ar a sensação de que poderia ter sido melhor, mais memorável ou até mesmo mais corajoso.

quinta-feira

DE OLHOS BEM FECHADOS


DE OLHOS BEM FECHADOS (Eyes wide shut, 1999, Warner Bros, 159min) Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Stanley Kubrick, Frederic Raphael, novela "Traumnovelle", de Arthur Schnitzler. Fotografia: Larry Smith. Montagem: Nigel Galt. Música: Jocelyn Pook. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Les Tomkins, Roy Walker/Lisa Leone, Terry Wells Sr.. Produção executiva: Jan Harlan. Produção: Stanley Kubrick. Elenco: Tom Cruise, Nicole Kidman, Sidney Pollack, Todd Field, Sky du Mont, Marie Richardson, Thomas Gibson, Julienne Davis, Vinessa Shaw, Leelee Sobieski, Rade Serbedzija. Estreia: 13/7/99

O tempo é um elemento do qual não se é possível fugir ao se falar sobre "De olhos bem fechados", o último filme do celebrado e mítico Stanley Kubrick. Foi em 1960 que o cineasta conheceu o livro "Traumnovelle", de Arthur Schnitzler - durante as sessões de terapia a que foi submetido em conjunto com Kirk Douglas para que resolvessem seus problemas de relacionamento nas filmagens de "Spartacus". Foi em 1971 que o presidente da Warner Bros, John Calley, anunciou que a adaptação da obra seria o próximo trabalho do diretor - uma informação que não revelou-se verdade, uma vez que a honra de suceder "Laranja mecânica" (1971) ficou com "Barry Lyndon" (1975). Foi no começo dos anos 1990 que o lendário homem por trás de "2001: uma odisseia no espaço" (1968) resolveu voltar a seu projeto de estimação quando Steven Spielberg anunciou "A lista de Schindler" (1993) - com tema bastante similar a "Aryan papers", cuja produção estava disposto a começar. Foi em novembro de 1996 que finalmente começaram as filmagens que se estenderiam por 400 dias - um recorde registrado no Guinnes Book, que nem considerou a pós-produção de quase um ano. E foi apenas quatro dias depois de mostrar sua versão do filme aos executivos do estúdio (ainda não completamente finalizada) que o mundo foi pego de surpresa com a notícia de sua inesperada morte - quatro meses antes da estreia oficial de uma mais esperadas produções cinematográficas da década.

Estrelado pelo então casal real de Hollywood - Tom Cruise e Nicole Kidman - e cercado por expectativas estratosféricas (assim como por um mistério que se estendeu até o lançamento), "De olhos bem fechados"se beneficiou do hype em torno do nome do diretor e do reencontro dos protagonistas sete anos depois do esquecível "Um sonho distante": mesmo sem muitas pistas a respeito da trama e das intenções comerciais do filme (nem mesmo o famoso trailer ao som de Chris Isaack entregava qualquer dica), o público correu às salas de exibição para conferir o resultado das cansativas e controversas filmagens que mantiveram Cruise e  Kidman presos na Inglaterra por mais de um ano - a ponto de atrasar outras produções da dupla, como "Da magia à sedução" e"Missão: impossível II" (finalmente lançado em 2000). Primeiro filme de Kubrick a estrear em primeiro lugar nas bilheterias dos EUA, "De olhos bem fechados" terminou sua carreira internacional com mais de 160 milhões de dólares em caixa - nada mal para uma produção adulta e com um tema tão controverso quanto... sexo.

Sim, sexo está na base e na origem de "De olhos bem fechados". Já adaptada anteriormente (para a televisão austríaca, em 1969, e em um filme italiano chamado "Ad un pas dall'aurora"), a novela de Schnitzler - discípulo de Freud - acompanha a obsessiva jornada de um médico, William Harford (Tom Cruise), por uma aventura sexual que o faça esquecer (ao menos momentaneamente) a confissão da bela esposa, Alice (Nicole Kidman), de que quase o traiu em uma viagem romântica. Cego de decepção - afinal sua vida matrimonial parecia sólida e imune a qualquer tipo de traição -, Harford busca um encontro casual, mas acaba envolvido (como penetra) em uma misteriosa orgia com participantes mascarados, senhas e uma atmosfera de perigo constante. Perseguido pela paranoia, ele refaz os passos da noite, o que inclui encontros com uma jovem prostituta e com uma adolescente envolvida com dois homens mais velhos. Nesse meio tempo, passa a desconfiar que está correndo o risco de ser vítima da violência dos organizadores da orgia - como aconteceu com um amigo músico e com uma bela mulher que tentou alertá-lo sobre os perigos da festa.


 A trama de Schnitzler, seguida com razoável fidelidade pelo roteiro do diretor e Frederic Raphael, não é das mais empolgantes em termos de ação. Porém, é fascinante como o cineasta é capaz de cobrir o enredo com uma atmosfera de pesadelo, sublinhada pela trilha sonora de Jocelyn Pook (indicada ao Globo de Ouro) e pela edição quase contemplativa de Nigel Galt. Se Tom Cruise não é um grande ator nem mesmo sob o comando de alguém exigente como Kubrick, o mesmo não pode ser dito de Nicole Kidman - em um de seus papéis mais importantes antes do divórcio do galã, a atriz mostra que beleza e talento podem tranquilamente caminhar juntos, e mesmo sem muita participação na segunda metade do filme, rouba a cena sem cerimônia na primeira parte (cujo desfecho é a cena em que confessa o adultério cogitado). Kubrick - que considerava "De olhos bem fechados" seu melhor filme - conduz seu último trabalho como um maestro, enfatizando aqui e acolá a complexidade de seus personagens com a sutileza de um veterano. É surpreendente que, antes que chegasse à conclusão sobre sua própria visão do enredo, tenha tido ideias tão excêntricas quanto a de tratá-lo como uma comédia.

A ideia de Kubrick de tratar o material de Schnitzler como uma comédia talvez tenha sido a mais inusitada de sua carreira - especialmente quando se pensa que o cineasta desejava ter Woody Allen no papel principal. Depois de Allen, Kubrick pensou em Steve Martin - até que deixou de lado a ousadia de brincar com o sisudo texto original e voltou a cogitar atores mais sérios, como Harrison Ford e Johnny Depp. Depois de conceber a ideia de ter um casal real na pela dos protagonistas, Kubrick chegou a Alec Baldwin e Kim Basinger - mas somente até que Tom Cruise e Nicole Kidman visitaram sua propriedade na Inglaterra (onde Kidman filmava "Retrato de uma mulher") e foram oficialmente convidados para tomar parte em seu ambicioso projeto. A opção por um dos casais mais famosos do mundo agradou aos executivos da Warner - que sugeriam ao diretor a escalação de nomes populares para agradar ao mercado - e deu início a uma série de fofocas de bastidores, que iam de especulações a respeito da trama (eles realmente seriam terapeutas que se envolviam com pacientes?) até substituições no meio das filmagens (Harvey Keitel e Jennifer Jason Leigh chegaram a filmar várias cenas, antes que compromissos os impedissem de voltar ao set para novas gravações e os fizessem perder os papéis para Sidney Pollack e Marie Richardson). O trabalho estendeu-se indefinidamente a ponto de dar uma úlcera a Tom Cruise - que, dizem, teve que fazer 95 takes de uma cena em que tinha que simplesmente atravessar o batente de uma porta -, mas valeu a pena. Com um roteiro que lança mais perguntas que respostas, "De olhos bem fechados" é a obra-prima imperfeita de Kubrick é seu belo canto do cisne - e uma produção digna de figurar em uma filmografia tão ímpar e cultuada.

BOY ERASED: UMA VERDADE ANULADA


BOY ERASED: UMA VERDADE ANULADA (Boy erased, 2018, Focus Features/Anonymous Content/Perfect World Pictures, 115min) Direção: Joel Edgerton. Roteiro: Joel Edgerton, livro de Garrard Conley. Fotografia: Eduard Grau. Montagem: Jay Rabinowitz. Música: Danny Bensi, Saunder Jurriaans. Figurino: Trish Summerville. Direção de arte/cenários: Chad Keith/Mallorie Coleman, Adam Willis. Produção executiva: Nash Edgerton, Kim Hodgert, Tony Lipp, Ann Ruark, Rebecca Yeldham. Produção: Joel Edgerton, Steve Golin, Kerry Kohansky-Roberts. Elenco: Lucas Hedges, Nicole Kidman, Russell Crowe, Joel Edgerton, Xavier Dolan, Madelyn Cline, Victor McKay, Flea, Cherry Jones. Estreia: 01/9/2018 (Festival de Telluride)

Em 2016, quando o livro "Boy erased" foi lançado, boa parte dos EUA ainda considerava legais as terapias de conversão sexual - conhecidas vulgarmente como "cura gay". Sem qualquer fundamento psicológico ou médico, setores ligados principalmente à religião praticamente torturavam jovens com pensamentos homossexuais (muitas vezes nem era necessário que tivessem passado à prática) com sessões de humilhação, rígidas regras de comportamento e tormento psicológico. Em seu livro de memórias, Garrard Conley narrava, mesmo que de forma quase poética, os tormentos pelos quais passou em seu período em um desses tratamentos. De seus escritos (pessoais e emotivos) nasceu um filme sensível e sóbrio, assinado por um ator/roteirista/diretor que promete grandes voos futuros e estrelado por um elenco nunca aquém de excepcional: apesar do fracasso comercial e de não ter chamado tanta atenção quanto se poderia esperar nas cerimônias de premiação, "Boy erased: uma verdade anulada" é uma pérola, um filme que já nasceu destinado a suscitar discussões e se tornar cult - além de ser um instrumento essencial na luta contra os abusos do conservadorismo criminoso que vem se alastrando perigosamente pelo Ocidente.

Dirigido pelo ator Joel Edgerton, que também escreveu o roteiro - depois que o próprio Conley declinou da oportunidade - e assumiu um dos papéis mais importantes da trama, "Boy erased" é um filme de emoções contidas, que raramente apela para o melodrama fácil. Graças à atuação discreta e introspectiva de Lucas Hedges (que vem se mostrando um dos melhores atores de sua geração) e ao tom suave imposto pela edição que não abusa dos flashbacks (mas os usa de forma eficiente), a produção escapa de ser apenas mais um filme-denúncia e se destaca como uma história de amor, respeito e tolerância - mesmo que, para que isso seja alcançado, tenha-se que se passar por pesadelos inimagináveis. Mesmo que não poupe o espectador de um constante desconforto (em especial quando mostra as sessões da malfadada busca pela "cura"), Edgerton evita pesar a mão em excesso: a fotografia de Eduard Grau (que cuidou do belo visual de "Direito de amar", de 2009) é luminosa em boa parte da narrativa (em contraste com o tema sombrio) e a trilha sonora (jamais invasiva) sublinha a ação de forma delicada, quase como um oásis diante da aridez do tema. E se por vezes o roteiro pode soar um tanto superficial (especialmente no desenho de alguns personagens), a falha é compensada pelo empenho de cada um dos atores selecionados pelo diretor (ele próprio incluído).

Lucas Hedges - já indicado ao Oscar de coadjuvante por "Manchester à beira-mar", de 2006 - encontra o tom ideal para seu Jared Eamons, um adolescente de 18 anos, filho de um pastor batista, aluno dedicado e responsável, que se vê obrigado pelos pais a participar do tal programa de "reabilitação", comandado pelo prepotente Victor Sykes (Joel Edgerton em pessoa, em uma caracterização precisa, que se equilibra com exatidão no limite do desprezível). Enquanto testemunha atrocidades no período em que fica isolado de qualquer contato com seu mundo anterior (como celulares, diários e afins), Jared é obrigado a revisitar seu passado e confrontar sua conflituosa sexualidade (oprimida pelos preceitos familiares, pela religião e pela culpa). A única pessoa que lhe dá apoio durante o processo - e mesmo assim sem saber exatamente como agir, dividida entre o amor pelo filho, a fé em Deus e o respeito pelas crenças do marido - é sua mãe, Nancy (Nicole Kidman, brilhante), que tenta servir como porto seguro às turbulências do rapaz. Kidman é dona de alguns dos melhores momentos do filme - como o clímax, inexistente no livro mas eficaz como cinema - e divide com Russell Crowe a difícil missão de oferecer consistência a personagens que poderiam ter sido melhor desenvolvidos pelo roteiro: Marshall e Nancy Eamons surgem apenas como os pais repressores (ainda que amorosos), sem maiores nuances dramáticas ou camadas extras. O mesmo acontece com Sykes, o teatral líder da clínica Love in Action, cujo desfecho - revelado apenas nos letreiros finais - é a irônica pá de cal nas ideias absurdas que servem de base à todo o conceito de reorientação sexual.

Prestes a ser lançado no Brasil no final de janeiro de 2019, "Boy erased" acabou tendo sua estreia cancelada - a distribuidora alegou como motivos para tal decisão o fraco desempenho do filme nas bilheterias internacionais e a falta das esperadas indicações ao Oscar, mas ficou no ar o cheiro de censura que chegava com o novo governo (para dizer o mínimo) conservador. Tal situação não deixa de ser uma demonstração clara da importância do filme, com suas discussões e seu tema se tornando cada vez mais urgentes e fundamentais. Pode não ser uma obra-prima, mas serve como base para longos e sérios debates - e, como cinema, confirma Joel Edgerton (cuja estreia como diretor, o suspense "O presente", de 2015, já tinha indiscutíveis qualidades) como um cineasta promissor e relevante, capaz de surpreender em um futuro próximo.

domingo

OLHOS DA JUSTIÇA

OLHOS DA JUSTIÇA (Secret in their eyes, 2015, IM Global, 111min) Direção: Billy Ray. Roteiro: Billy Ray, roteiro original de Juan José Campanella, Eduardo Sacheri, romance de Eduardo Sacheri. Fotografia: Danny Moder. Montagem: Jim Page. Música: Emilio Kauderer. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Nelson Coates/Andrea Joel. Produção executiva: Matt Berenson, Juan José Campanella, Stuart Ford, Russell Levine, Jeremiah Samuels, Robert Simonds, Lee Jea Woo, DEborah Zipser. Produção: Matt Jackson, Mark Johnson. Elenco: Chiwetel Ejiofor, Nicole Kidman, Julia Roberts, Michael Kelly, Dean Norris, Alfred Molina, Joe Cole. Estreia: 12/11/15 (Itália)

Ao menos dois motivos podem justificar o remake de uma produção estrangeira dentro dos moldes de Hollywood. Primeiro: por mais sucesso que o original possa fazer no mercado norte-americano, seu alcance ainda é muito limitado, principalmente pela barreira do idioma (não é segredo para ninguém a aversão do público médio a legendas). E segundo: poucos produtores conseguiriam resistir à ideia de ganhar uma bela grana ao copiar um êxito já comprovado - chancelado, preferencialmente, por nomes e rostos conhecidos da plateia. Isso explica "Olhos da justiça", refilmagem (bastante) livre do excepcional "O segredo dos seus olhos", vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009. Baseado em um romance de Eduardo Sacheri, o filme de Juan José Campanella derrotou produções badaladas, como "A fita branca", de Michael Haneke, e "O profeta", de Jacques Audiard, e se tornou um dos filmes mais elogiados da temporada, com uma mistura perfeita de romance, drama e policial, além de uma atuação quase mágica de Ricardo Darín. Sua releitura hollywoodiana, porém, não teve a mesma sorte: recebida com frieza pela crítica, também falhou em conquistar o público, e, apesar da presença de Julia Roberts e Nicole Kidman (dois chamarizes fortes), mal conseguiu arrecadar 20 milhões de dólares no mercado doméstico (EUA e Canadá). De uma certa forma esse resultado foi até previsível.


Sua bilheteria tímida (leia-se fracasso monumental, em linguagem de Hollywood) deixou claro para todo mundo que nem sempre grandes estrelas são garantia de sucesso, especialmente quando elas não estão a função de uma franquia que pode caminhar por si mesma (caso dos filmes de super-heróis) ou em busca de um Oscar, com uma campanha milionária de marketing na retaguarda. Bancado por uma companhia independente, a IM Global (depois que a Warner abandonou o projeto a meio caminho) e dirigido por Billy Ray (um cineasta competente mas sem grandes êxitos comerciais no currículo), "Olhos da justiça" talvez tenha confiado demais no interesse do público por uma história já consagrada e no poder de fogo de seu elenco. Mais um exemplo de como refilmagens não são exatamente o caminho das pedras para o sucesso financeiro (raras vezes a ideia dá certo, como no caso de "A gaiola das loucas", dirigida por Mike Nichols em 1996), o filme de Ray amargou uma esnobada geral - e no fim das contas nem merecia tamanho descaso. Visto como um filme independente (o que é especialmente difícil, principalmente para os fãs do original), "Os olhos da justiça" até tem suas qualidades e pode ser digerido facilmente pelo público que procura um drama policial. Visto sem expectativas irreais, é uma produção competente - mesmo que tenha momentos que lembrem mais telefilmes do que grande cinema.


A principal mudança na estrutura da trama - em relação ao filme argentino - é a alteração do gênero de um dos personagens principais (e sua relação com os demais protagonistas). Enquanto na produção de Campanella a vítima do crime brutal que dá início à ação era uma jovem recém-casada cuja morte transforma a busca pelo culpado uma obsessão do marido, na versão americana quem morre é uma adolescente que vem a ser filha de uma investigadora policial, especializada em contra-terrorismo - uma mudança que também serve para definir de forma decisiva o tempo e o local da primeira parte do enredo, saindo da Argentina da ditadura militar dos anos 70 para a Los Angeles pós-11/9. Jess Cobb, a policial que sofre a traumática perda, é vivida por uma Julia Roberts despida de qualquer glamour e escondendo seu famoso sorriso - o personagem, masculino no livro de Eduardo Sacheri, no roteiro de Campanella e até no primeiro tratamento de Billy Ray, foi reescrito especialmente para ela, que se sai bastante bem apesar de dividir o foco da narrativa com o drama romântico que se desenrola a seu lado - este sim, bem menos potente do que aquele apresentado pelo material original.

No filme de Campanella, o romance entre os protagonistas interpretados por Ricardo Darín e Soledad Villamil é intenso, repleto de silêncios, olhares e uma química palpável, que conduz a trama com a mesma força do enredo policial. Em "Olhos da justiça" a mágica não se repete. Por mais talentosos que sejam, Nicole Kidman (substituindo Gwyneth Paltrow) e Chiwetel Ejiofor não conseguem reproduzir a tensão sexual entre seus personagens. Enquanto Kidman interpreta a promotora Claire Sloane, que se divide entre a carreira e sentimentos mais pessoais (a atração que sente pelo colega, o desejo de quebrar as regras para vingar a amiga), Ejiofor faz o possível para dar consistência a um personagem que o próprio roteiro não desenvolve a contento - o dedicado Ray Kasten, que passa dez anos preso a duas obsessões: encontrar o assassino da filha de Jess e conquistar o amor de Claire, por quem se apaixonou à primeira vista e a quem jamais esqueceu. As duas tramas paralelas (o romance e o policial) caminham juntas em uma edição repleta de flashbacks pouco inventivos e atuações em registro quase automático: com exceção de alguns momentos inspirados de Julia Roberts, o filme não chega a empolgar (e até a famosa sequência em um estádio de futebol, aqui devidamente alterado para beisebol, é muito mais intensa no filme original, ainda que Ray faça esforço para criar a tensão necessária). Um filme apenas mediano, "Olhos da justiça" se beneficia do elenco (ainda que não em dias excelentes), uma trama forte (ainda que diluída por mudanças um tanto desnecessárias e um final diferente) e pela produção bem cuidada. Serve como entretenimento, mas não passará ao status de cult de seu material original.

sábado

O MESTRE DOS GÊNIOS

O MESTRE DOS GÊNIOS (Genius, 2016, Desert Wolf Productions/Riverstone Pictures, 104min) Direção: Michael Grandage. Roteiro: John Logan, livro de A. Scott Berg. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Chris Dickens. Música: Adam Cork. Figurino: Jane Petrie. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: James J. Bagley, A. Scott Berg, Tim Bevan, Nik Bower, Tim Christian, Ivan Dunleavy, Arielle Tepper Madover, Deepak Nayar. Produção: James Bierman, Michael Grandage, John Logan. Elenco: Colin Firth, Jude Law, Nicole Kidman, Guy Pearce, Laura Linney, Dominic West, Vanessa Kirby. Estreia:16/02/16 (Festival de Berlim) 

Foi em 1983 que John Logan leu o livro "Max Perkins: editor of genius", de A. Scott Berg, que foi o vencedor National Book Award de 1978. De lá até 2016, quando finalmente viu sua adaptação ganhar as telas de cinema, Logan tornou-se um dos roteiristas mais conceituados de Hollywood, com três indicações ao Oscar no currículo ("Gladiador", "O aviador" e "A invenção de Hugo Cabret") e crédito em duas aventuras de James Bond ("007 - Operação Skyfall" e "007 contra Spectre"). Seu prestígio, no entanto, não ajudou muito a alavancar "O mestre dos gênios", que, mesmo contando com um elenco de vencedores e indicados ao Oscar e falando de alguns dos maiores escritores americanos do século XX, naufragou fragorosamente nas bilheterias e sequer foi lembrado pelas cerimônias de premiação - o mais perto que chegou disso foi concorrer ao Urso de Ouro no Festival de Berlim. Tal resultado não deixa de ser um reflexo da qualidade do filme de estreia do ator Michael Grandage como diretor: a biografia de Max Perkins, editor de nomes consagrados da literatura, como Thomas Wolfe, Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald, é apenas correta, passando bem longe de ser uma experiência memorável.

Na pele de um Colin Firth contido e sem cacoetes, Max Perkins surge como um visionário editor da celebrada Scribners, capaz de enxergar nas caudalosas páginas do novato Thomas Wolfe (Jude Law substituindo Michael Fassbender e saindo-se bastante bem) um provável sucesso de crítica. Wolfe, por sua vez, é um gênio excêntrico e dotado de todas as características típicas de pessoas como ele: quase arrogante, inteligente e capaz de escrever milhares de páginas apenas para descrever um objeto. Casado com Aline Bernstein (Nicole Kidman), uma mulher que o apoia mas se ressente de ser frequentemente deixada em segundo plano em relação à sua arte, o autor de obras elogiadas mas difíceis como "Olhe para casa, anjo" e "Do tempo e do rio" (ambos inéditos no Brasil) encontra em Law um retrato não exatamente fiel fisicamente, mas energético e fascinante a ponto de eclipsar seus colegas de cena. A relação entre ele e Perkins, um homem de família discreto e dedicado à sua profissão, é mostrada com delicadeza por Grandage - especialmente quando o filme lança luz a seus maiores desafios: cortar os excessos do romancista, tornando palatáveis suas obras escandalosamente prolixas. De certa forma, Perkins era quase um coautor dos livros de Wolfe, o que lhes alterava a relação puramente comercial em algo muito mais emocional e fraterno. Assim, o escritor frequentava a casa do editor, convivia com sua esposa, Louise (Laura Linney) e os filhos e o levava para suas farras noturnas.


Mas nem só da amizade entre Wolfe e Perkins trata o roteiro de "O mestre dos gênios". De forma ligeira e quase superficial, entram em cena, para deleite dos fãs de literatura, outros nomes de suma importância para o mundo das letras do século XX. Guy Pearce vive um decadente e sofrido F. Scott Fitzgerald, já na época em que sua esposa, Zelda (Vanessa Kirby), passava por graves crises depressivas e ele mesmo sentia-se incapaz de escrever qualquer obra que lembrasse vagamente seus melhores trabalhos. Ernest Hemingway também surge, interpretado com precisão por Dominic West, que empresta ao escritor ares de sujeito mundano, mais interessado em pescarias do que em máquinas de escrever. Tais respiros, mais do que simplesmente tirar um pouco o foco da amizade entre os protagonistas, serve também para localizar o espectador em um período específico do século e desmistificar alguns dos maiores autores da história, oferecendo a eles uma aura mais humana e menos inalcançável. O artifício funciona: Guy Pearce está particularmente bem como um Fitzgerald cansado e desiludido e Dominic West, mesmo em uma única cena, dá um belo vislumbre da personalidade de Hemingway, assim como Corey Stoll fez com maestria em "Meia-noite em Paris", de Woody Allen. São esses momentos, fora do arco narrativo principal de "O mestre dos gênios" que, paradoxalmente, fazem dele um filme interessante e o salvam do lugar-comum.

Não deixa de ser surpreendente, no entanto, que, mesmo com um profissional experiente como John Logan, seja justamente o roteiro um dos principais problemas do filme de Grandage. Sem conseguir imprimir em seus protagonistas o grau de empatia suficiente para conquistar o espectador, a história acaba por tentar impor-se mesmo sem ter força para isso. Escorando-se basicamente em um relacionamento profissional/fraternal sem maiores lances dramáticos, a trama acaba por arrastar-se por longos 104 minutos, tentando encontrar atrativos além do elenco excepcional para cativar a atenção da plateia. É uma produção caprichada, com uma reconstituição de época cuidadosa e personagens lendários vividos por atores de primeira linha, mas esbarra em uma falta absoluta do que contar em seu terço final. É um desperdício, mas mesmo com seus pecados, ainda é um filme que pode agradar a quem procura conhecer um pouco mais de seus autores favoritos. Uma pena que até mesmo nesse ponto é superficial demais para acrescentar algo a mais na carreira dos envolvidos.

quinta-feira

GRACE DE MÔNACO

GRACE DE MÔNACO (Grace of Monaco, 2014, Stone Angels/YRF Entertainment, 103min) Direção: Olivier Dahan. Roteiro: Arash Amel. Fotografia: Eric Gautier. Montagem: Olivier Gajan. Música: Christopher Gunning. Figurino: Gigi Lepage. Direção de arte/cenários: Dan Weil. Produção executiva: Claudia Blumhuber, Jeremy Burdek, Florian Dargel, Uta Fredebeil, Irene Gall, Bill Johnson, Nadia Khamlichi, Adrian Politowski, Jonathan Reiman, Jim Seibel, Gilles Waterkeyn, Bruno Wu. Produção: Arash Amel, Uday Chopra, Pierre-Ange Le Pogam. Elenco: Nicole Kidman, Tim Roth, Frank Langella, Paz Vega, Parker Posey, Milo Ventimiglia, Derek Jacobi. Estreia: 14/5/14 (Festival de Cannes)

Em 2007, o cineasta Olivier Dahan comoveu o mundo e revelou o talento de Marion Cottilard ao contar a história de um dos maiores ícones da música francesa em "Piaf, um hino ao amor" - que rendeu à bela Cottilard o merecidíssimo Oscar de melhor atriz. Sete anos e dois filmes mais tarde, ele tentou repetir o sucesso, dessa vez mirando sua câmera para outro ídolo popular - e uma das mulheres mais invejadas do mundo: Grace Kelly, musa de Hitchcock, atriz vencedora do Oscar e, sonho dos sonhos, princesa do Condado de Mônaco após seu casamento com o Príncipe Rainier. Acontece que, apesar da história forte (a vida real de Kelly nos cômodos do palácio real não era tão idílica quanto parecia), do talento de Nicole Kidman no papel central e do talento do diretor em sublinhar a emoção de seus personagens sem soar piegas, "Grace de Mônaco" naufragou fragorosamente. Depois de abrir o Festival de Cannes de 2014, o filme de Dahan se viu em uma situação inusitada: os distribuidores americanos (os famigerados irmãos Weinstein, ex-Miramax) não gostaram do resultado final e exigiam uma nova montagem para a estreia nos EUA. O impasse estendeu-se tanto que somente um ano mais tarde o filme finalmente chegou ao mercado ianque - pela televisão, em uma terceira montagem, diferente da mostrada em Cannes e da realizada pelo produtor e roteirista Arash Amel para agradar aos Weinstein. O resultado de tanta briga? O filme foi praticamente ignorado pelo público.

Não merecia tal destino. Ainda que esteja bem longe das qualidades mostradas por Dahan em "Piaf", "Grace de Mônaco" é um filme honesto, sério, inteligente e avesso à tentação de ser apenas um amontoado de fofocas a respeito dos bastidores da realeza. Tampouco é uma cinebiografia convencional, que acompanha a trajetória da protagonista desde seus tempos de atriz consagrada - premiada com o Oscar por "Amar é sofrer" - até sua precoce morte em um acidente automobilístico em 1982. O roteiro de Arash Amel se concentra em um período bastante específico da vida da princesa - mais precisamente os meses de 1962 que a obrigaram a tomar partido de sua vida como mãe e esposa em detrimento de uma volta à Hollywood proposta por Hitchcock - e espertamente faz um interessante paralelo entre as questões diplomáticas a que Kelly era obrigada mesmo sem ter vocação para isso, e a séria crise entre Mônaco e a França, que, sob o comando de Charles De Gaulle, exigia o pagamento de impostos que poderia dar fim ao Condado. Infeliz no casamento com o Príncipe Rainier (Tim Roth, eficiente no papel), ela sente-se incapaz de cumprir as expectativas do marido e do povo, e o convite para estrelar "Marnie, confissões de uma ladra" serve de catalisador para uma crise também em sua relação.


Sentindo que voltar ao cinema poderia ser visto como uma espécie de descaso a seu papel como monarca - impressão enfatizada pelos discursos pouco incentivadores do marido e pelos conselhos de Francis Tucker (Frank Langella), um religioso americano que lhe serve de figura paterna - Kelly resolve recusar o convite de Hitchcock e dedicar-se à arte de ser uma princesa. Temerosa também de perder a guarda dos filhos em caso de divórcio, ela assume o papel mais importante de sua vida, apoiando o marido na época mais delicada de sua vida. Mesmo rejeitando seus ideais políticos e sociais e abdicando de sua personalidade forte - o que lhe aproximava da amiga Maria Callas (Paz Vega) - a bela se torna um exemplo de força e determinação quando resolve interferir na perigosa disputa com o presidente francês e se vê às voltas com traições políticas que envolvem pessoas muito mais próximas do que poderia imaginar. O atentado ao presidente De Gaulle é a deixa que ela precisa, então, para assumir as rédeas da situação.

Deixando claro que seu roteiro é inspirado em fatos reais, mas tratando-os de maneira ficcional, "Grace de Mônaco" se beneficia das enormes possibilidades dramáticas que rodeiam o universo da protagonista, oferecendo à Nicole Kidman a chance de brilhar em vários níveis. Quando interpreta a mulher insatisfeita com sua vida que deseja libertar-se da armadilha inclemente de ser uma pessoa pública, ela convence sem fazer esforço. Quando se transforma na deslumbrante e carismática princesa que ajuda a transformar a história - uma liberdade poética apropriada e escrita com delicadeza - ela transborda fascínio. E quando deixa transparecer através do olhar toda a sua frustração em relação a seus objetivos de caridade atrapalhados por interesses políticos, ela é intensa e verdadeira. Escorrega um pouco quando sua Grace Kelly tenta aprender os traquejos da vida de princesa - um tom leve que destoa do restante da narrativa - mas se recupera com maestria ao desfilar toda a majestade de uma mulher que descobriu na marra o que acontecia depois dos finais felizes dos contos de fada. Kidman é a alma do filme de Dahan. Merecia que o filme tivesse sido lançado decentemente e encontrado seu público.

domingo

UM SONHO SEM LIMITES

UM SONHO SEM LIMITES (To die for, 1995, Columbia Pictures Corporation, 106min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Buck Henry, romance de Joyce Maynard. Fotografia: Eric Alan Edwards. Montagem: Curtiss Clayton. Música: Danny Elfman. Figurino: Beatrix Aruna-Pasztor. Direção de arte/cenários: Missy Stewart/Carol Lavoie. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo, Jonathan Taplin. Produção: Laura Ziskin. Elenco: Nicole Kidman, Matt Dillon, Joaquin Phoenix, Casey Affleck, Illeana Douglas, Dan Hedaya, Kurtwood Smith, Wayne Knight, Alison Folland. Estreia: 20/5/95 (Festival de Cannes)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Nicole Kidman)

No livro "To die for", de Joyce Maynard, a protagonista - que sonha desesperadamente tornar-se famosa - declara que, se um filme fosse feito a respeito de sua vida, ela gostaria de ser interpretada pela atriz Nicole Kidman (à época do lançamento ainda conhecida mais como a esposa de Tom Cruise do que por seus dotes dramáticos). Coincidência ou destino, anos depois, quando o cineasta Gus Van Sant viu Meg Ryan pular fora da adaptação do romance de Maynard foi Kidman quem o procurou, ávida pela chance de estrelar o filme, por cujo roteiro ela havia se apaixonado perdidamente. Seu assédio a Van Sant funcionou e o Hollywood viu surgir uma estrela de primeira grandeza. Mesmo ignorada pelo Oscar, Nicole abocanhou o Golden Globe de melhor atriz em comédia ou musical, recebeu elogios unânimes da crítica e, pela primeira vez desde que aportou no cinema americano mostrou que era bem mais do que um rosto lindo e um corpo desejável: ela era uma intérprete de verdade.

Vindo do fiasco crítico e comercial de "Até as vaqueiras ficam tristes" (93), um western lésbico estrelado por Uma Thurman, o diretor Gus Van Sant não poderia ter escolhido melhor o material para sua volta ao trabalho. Ácido e momentoso, o romance de Maynard brincava com o culto à celebridade, o desejo irracional por fama a qualquer custo e o desmoronamento da instituição do casamento com um humor delicioso, tom mantido no roteiro enxuto de Buck Henry, que consegue jogar com o suspense, o erotismo, o documentário e a comédia sem nunca embaralhar os gêneros. É crédito também de Henry - e um poucão da atuação de Kidman - conseguir fazer com que o público sinta-se conectado à protagonista apesar de todos os seus pecados e crimes. Poucas vezes o cinema americano mostrou uma personagem central feminina tão amoral, ambiciosa e fria como Suzanne Maretto. E poucas vezes o público ficou tão encantado com uma personagem desse naipe.


Morando na pequena cidade de New Hampshire, Suzanne Stone (uma Kidman loira e perigosa em sua sensualidade latente) tem como maior objetivo da vida ser famosa e sabe o que fazer para realizar seu intento. Em seu caminho para ser a âncora do telejornal local, porém, ela esbarra justamente na única pessoa que deveria estar a seu lado: o marido, Larry (Matt Dillon). Boa-praça e querido por todos, ele é o herdeiro de um pequeno restaurante na cidade, tem uma relação de extremo afeto com a família e é apaixonado pela esposa até o limite da quase cegueira. Com ambições bem menores do que as dela, ele deseja fazer uma reforma em seu negócio, ter filhos e viver uma tranquila e pacata vida de casado. Apavorada com tal possibilidade, Suzanne aproveita que está fazendo um documentário sobre a adolescência para a TV local para seduzir um de seus entrevistados, o rebelde Jimmy Emmett (Joaquin Phoenix), e convencê-lo a tirar Larry da jogada.

Uma femme fatale das mais atrevidas e cínicas, Suzanne Maretto chora cinicamente quando precisa mostrar-se arrasada, usa e abusa do poder de sedução para enlouquecer jovens no auge da testosterona, mente sobre o que for preciso e recorre até ao homicídio para conquistar seus objetivos. Sua absoluta falta de pudor acaba fazendo com que a personagem escape da esfera do trágico para atingir o cômico, o que é um acerto e tanto do roteiro e da direção. Ao dar leveza à trágica história que conta, Van Sant permite ao público um respiro de alívio que, mesmo sendo de viés, o afasta da tensão e do peso. Para isso, ele conta com a interpretação irretocável de Nicole Kidman, que deita e rola em um dos melhores papéis de sua carreira: além de extremamente sexy, ela transmite todas a complexidade da personagem sem nunca cair na caricatura ou no exagero. A seu lado, cabe a Matt Dillon e Joaquin Phoenix pontuar com correção um show de perfeito timing cômico e dramático.

sábado

UM SONHO DISTANTE

UM SONHO DISTANTE (Far and away, 1992, Universal Pictures/Imagine Entertainment, 140min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Bob Dolman, estória de Bob Dolman, Ron Howard. Fotografia: Mikael Salomon. Montagem: Daniel Hanley, Michael Hill. Música: John Williams. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Allan Cameron, Jack T. Collins/Richard Goddard. Produção executiva: Todd Hallowell. Produção: Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Tom Cruise, Nicole Kidman, Thomas Gibson, Robert Prosky, Barbara Babcock, Colm Meaney, Brendan Gleeson. Estreia: 18/5/92 (Festival de Cannes)

Tudo está no lugar: a fotografia espetacular, a trama que honra a superação de limites de classe e possibilidades de ascensão social, a dupla romântica bela e carismática, a reconstituição caprichada de época e o roteiro equilibrado entre cenas dramáticas, cômicas e de ação - além do orçamento nada desprezível (dentro dos padrões do início dos anos 90) de 60 milhões de dólares. Por que, então, "Um sonho distante", a ambição de Ron Howard em criar um épico de grandes proporções, naufragou tão solenemente nos EUA, a ponto de sequer ter conseguido o retorno de seu investimento? Lançado com toda pompa e circunstância no Festival de Cannes de 1992, o filme nem ao menos empolgou a crítica, os jurados do festival ou os membros da Academia de Hollywood, passando em brancas nuvens em todas as cerimônias de premiação do ano. Primeiro filme de Tom Cruise e Nicole Kidman como um casal - eles já haviam contracenado antes em "Dias de trovão" (90), mas ainda não eram casados - a história de amor entre dois jovens irlandeses - diferentes como a água e o vinho - em meio à busca pelo tão sonhado pedaço de chão na América do final do século XVIII pode ser uma festa para os olhos, mas carece, para atingir plenamente seus objetivos artísticos e comerciais, de personalidade.

Criado em meio à indústria do entretenimento - quando criança ficou conhecido como um dos atores da popular telessérie "Happy days" - o cineasta Ron Howard sempre esteve ciente dos meandros do sistema e, por conseguinte, das exigências do mercado. Tal característica o norteou, portanto, desde seus primeiros passos atrás das câmeras e foi a responsável tanto pelo sucesso de bilheteria de filmes como "Splash, uma sereia em minha vida" (84) - primeiro grande êxito de Tom Hanks - e "O tiro que não saiu pela culatra" (89) - delicado e carinhoso retrato da paternidade - como de fracassos ambiciosos - "Willow, na terra da magia" (88), um projeto pessoal que não encontrou seu público. Seguindo à risca a regra que ensina que uma bilheteria polpuda só será possível se determinado filme conquistar os quatro quadrantes - homens, mulheres, adultos e adolescentes - Howard construiu uma obra que se esforça perceptivelmente a atingí-los: há o romance emoldurado por belas paisagens para os suspiros femininos, cenas de luta e ação para agradar àqueles sedentos por adrenalina, um humor ingênuo (que quase nunca funciona, diga-se de passagem) e até mesmo o maniqueísmo típico desse tipo de produção, que coloca em lados muito bem definidos os mocinhos dos bandidos. No entanto, nessa tentativa de abraçar o mundo, "Um sonho distante" acaba falhando justamente pela previsibilidade.


A trama de "Um sonho distante" se passa no final da década de 1890, quando chegou à Irlanda a notícia - um tanto quanto incompleta em relação aos fatos, mas ainda assim promissora - de que os EUA estavam distribuindo terras aos imigrantes dispostos ao árduo trabalho de cultivá-las. A possibilidade de uma nova vida imediatamente chama a atenção do jovem Joseph Donnelly (Tom Cruise), que acaba de perder o pai, não vê futuro em manter-se em sua terra natal e ambiciona tornar-se dono de uma propriedade onde possa criar uma família. Seu caminho em direção à sua terra prometida cruza-se com o de Shannon Christie (Nicole Kidman), uma moça da alta sociedade que se recusa a cumprir as regras pré-estabelecidas por sua classe social (e tampouco casar-se com o homem escolhido para ela) e também deseja chegar à Oklahoma e estabelecer-se. Passando-se por irmãos, eles chegam aos EUA e lutam para manter-se: ela arruma emprego depenando galinhas e ele passa a ganhar dinheiro envolvendo-se em lutas organizadas pelo aparentemente simpático Kelly (Colm Meaney). Sem perceber que estão apaixonados um por outro, eles terão que passar por grandes dificuldades financeiras e uma separação traumática para notarem que dividem o mesmo sonho.

Não é difícil gostar de "Um sonho distante", já que Ron Howard cuida minuciosamente de cada detalhe para agradar a todos os tipos de audiência. A fotografia grandiosa de Mikael Salomon, a música grandiloquente de John Williams e os figurinos de Joanna Johnston estão todos alinhados ao desejo do diretor em criar um filme inesquecível. Uma pena, no entanto, que sua opção em tratá-lo como um produto "para a família" - com o romance entre Cruise e Kidman e até mesmo as cenas mais violentas amenizadas com esse propósito - tenha lhe tirado a oportunidade de fazer o filme definitivo sobre um dos momentos essenciais da história norte-americana - e do qual seus próprios antepassados tomaram parte. É um filme visualmente belíssimo, mas frio e sem empatia com a mesma audiência que queria tanto conquistar. Está longe de ser uma bomba, mas Howard com certeza sai-se muito melhor quando é intimista.

terça-feira

REENCONTRANDO A FELICIDADE

REENCONTRANDO A FELICIDADE (Rabbit hole, 2010, Olympus Pictures, 91min) Direção: John Cameron Mitchell. Roteiro: David Lindsay-Abaire, peça teatral de David Lindsay-Abaire. Fotografia: Frank G. DeMarco. Montagem: Joe Klotz. Música: Anton Sanko. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Kalina Ivanov/Diana Salzburg. Produção executiva: William Lischak, Linda McDonough, Brian O'Shea, Dan Revers. Produção: Nicole Kidman, Gigi Pritzker, Per Saari, Leslie Urdang, Dean Vanech. Elenco: Nicole Kidman, Aaron Eckhart, Dianne Wiest, Sandra Oh, Miles Teller. Estreia: 13/9/10 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Nicole Kidman)


É difícil acreditar que o John Cameron Mitchell que assina o drama “Reencontrando a felicidade” é o mesmo inquieto e energético cineasta que ficou conhecido internacionalmente com “Hedwig” – uma festa para os olhos e ouvidos, dotado de um cinismo iconoclasta devastador e anárquico. Não porque essa adaptação da peça de teatro de David Lindsay Abaire (feita pelo próprio dramaturgo) seja medíocre ou algo parecido, mas sim porque é radicalmente diferente do filme de estreia do diretor, tanto em tom quanto em intenção. Melancólica, recheada de emoções brutas e desprovida de qualquer senso de humor capaz de amenizar sua força dramática, a história de um casal tentando superar a imensa dor da perda de um filho ainda criança revela em Mitchell um cineasta capaz de sair de sua zona de conforto e mesmo assim atingir a empatia do público – principalmente graças às atuações milagrosas de seu par de protagonistas, Nicole Kidman e Aaron Eckhart.
Kidman e Eckhart interpretam Becca e Howie Corbett, um casal jovem, bonito e bem-sucedido que vê sua vida paradisíaca virar de cabeça para baixo com a violenta morte de seu filho, atropelado por um carro acima do limite da velocidade dirigido pelo adolescente (Miles Teller). Oito meses depois da tragédia, eles tentam, cada um à sua maneira, superar seus sentimentos de dor e desespero: Howie acredita que grupos de apoio podem lhes ajudar e conta com a ajuda da igualmente traumatizada Gaby (Sandra Oh) para seguir em frente – mas não consegue deixar de “visitar” o filho em um vídeo gravado em seu celular. Becca, por sua vez, esconde seus sentimentos e, vez por outra, extravasa sua revolta em discussões com a família – a mãe, (Dianne Wiest), que também já perdeu um filho, e a irmã, , que acaba de descobrir-se grávida. Uma reviravolta acontece em sua vida, porém, quando ela inicia uma hesitante relação de amizade com o jovem Jason (Miles Teller), consumido pela culpa do acidente – uma relação que irá por em xeque todos os questionamentos da enlutada mãe e jogá-la em rota de colisão com o marido.


Fugindo do sentimentalismo barato e apostando em diálogos crus e realistas – mas nunca carentes de uma alta dose de emoção – o roteiro de “Reencontrando a felicidade” (um título nacional no mínimo equivocado, haja visto que nenhum personagem chega a reencontrar a tal felicidade) foge magistralmente das limitações de sua origem teatral não apenas por oxigenar a claustrofobia que poderia surgir de uma verborragia excessiva mas também por possibilitar à direção de Mitchell um viés mais cinematográfico em termos visuais. Ainda que o cineasta não ouse narrativa ou formalmente, em nenhum momento seu filme se torna um aborrecido exercício de autocompaixão ou masoquismo. Respeitando a força dos personagens de Lindsay-Abaire, o diretor se deixa conduzir por seus dramas sem nunca escorregar no exagero, contornando até mesmo os momentos mais tensos com uma sensibilidade que lembra o cinema europeu, avesso à qualquer tipo de pieguice. Os embates entre Kidman e Eckhart, por exemplo, fogem do tradicional esquema lacrimoso dos filmes do gênero, oferecendo a ambos a chance de exercitar suas maiores qualidades.
Eckhart – que já demonstrou talento para o cinismo desbragado em “Na companhia de homens” (97) e “Obrigado por fumar” (06) – tem um desempenho acima da média, transmitindo todo o turbilhão de sentimentos de seu personagem com uma potência dramática ainda não explorada por Hollywood. Enquanto isso, Kidman volta à sua melhor forma – esquecida diante de uma série de filmes bem aquém de seu talento – com uma personagem que, ao contrário do que se poderia esperar, não se resume a lágrimas e agressões. O vasto espectro de emoções mostrado por Kidman em pouco menos de 90 minutos justifica sua indicação ao Oscar de melhor atriz – que ela perdeu para Natalie Portman, por “Cisne negro” – e confirma a capacidade de John Cameron Mitchell de se reinventar e escapar do gueto artístico em que sua bem-sucedida estreia poderia lhe aprisionar. Contando ainda com atuações preciosas de Dianne Wiest (com pelo menos duas grandes cenas) e do então desconhecido Miles Teller (que se consagraria em 2015 com o ótimo “Whiplash, em busca da perfeição”), “Reencontrando a felicidade” é um palco para seus ótimos atores e mais uma prova de que um bom texto, uma direção competente e emoções verdadeiras são ingredientes mais do que suficientes para a realização de um belo e comovente drama familiar.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...