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terça-feira

ASAS DA LIBERDADE

ASAS DA LIBERDADE (Birdy, 1984, TriStarPictures, 120min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Sandy Kroopf, Jack Behr, romance de William Wharton. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Gerry Hambling. Música: Peter Gabriel. Figurino: Kristi Zea. Direção de arte/cenários: Geoffrey Kurland/George R. Nelson. Produção executiva: David Manson. Produção: Alan Marshall. Elenco: Matthew Modine, Nicolas Cage, John Harkins, Bruno Kirby, Sandy Baron, Karen Young. Estreia: 21/12/84

A ideia central de "Asas da liberdade" - um jovem traumatizado pela guerra se entrega à obsessão em tornar-se um pássaro - é, ao mesmo tempo, surreal e inverossímil. Só mesmo um diretor do porte de Alan Parker (que já tinha no currículo os excelentes "O expresso da meia-noite", de 1978, e "Fama", de 1980) conseguiria transformar tal material, baseado em um romance de William Wharton, em um filme que fosse comercialmente atraente e palatável ao gosto do público médio sem que perdesse sua essência metafórica e poética. Dono de um estilo visual apurado e uma elegância natural em sua filmografia, Parker realizou uma obra fascinante, que saiu do Festival de Cannes 1985 com o Grande Prêmio do Júri - que deixou-se seduzir pela bela história de amizade, lealdade e dor criada por Wharton. Estrelado por dois então jovens atores em início de carreira - Matthew Modine e Nicolas Cage -, "Asas da liberdade" pode não ter tido o devido reconhecimento à época de sua estreia (fracassou nas bilheterias e foi ignorado pelo Oscar), mas talvez seja um dos filmes mais importantes da década de 80 - e um dos primeiros a falar, ainda que sutilmente, sobre as consequências emocionais da Guerra do Vietnã.

No livro de Wharton, os dois personagens centrais são sobreviventes da II Guerra Mundial. No filme, Parker mudou o cenário do conflito (incidental, mas crucial para o desenvolvimento da trama) para o sudeste asiático - uma forma inteligente de aproximar a plateia da estória e, de quebra, mexer em uma ferida ainda muito dolorida na sociedade norte-americana. De qualquer forma, a geografia da guerra é o que menos importa: o que interessa ao cineasta e à sua bela fábula são os sentimentos, a alma e o coração de sua dupla central de protagonistas, ambos traumatizados e, à sua maneira, obrigados a lidar com as consequências da violência e da solidão. Ilustrado por uma inspirada trilha sonora de Peter Gabriel, o filme de Parker é, sobretudo, um brilhante estudo sobre a capacidade humana de sublimar a dor através da fuga e da ilusão - sublinhadas por belíssimas sequências aéreas captadas por Michael Seresin, que em seguida assinaria também a fotografia do trabalho seguinte do cineasta, a obra-prima "Coração satânico" (86).


"Asas da liberdade" tem, a princípio, duas linhas narrativas paralelas (que abrigam uma terceira em sua reta final, como forma de jogar luz sobre momentos-chave da história). Logo de início o público é apresentado a Al Columbato (Nicolas Cage), um jovem soldado americano que, em consequência de ferimentos sofridos na guerra, teve o rosto completamente reconstruído pelos cirurgiões. Ainda inconformado com sua situação, ele é procurado por um médico, o Major Weiss (John Harkins), que lhe pede ajuda para que possa fazer progressos no tratamento de outra vítima do conflito, Birdy (Matthew Modine), grande amigo de Al: depois de ter desaparecido por um mês no Vietnã, o jovem foi encontrado e levado para o hospital sem ferimentos, mas claramente com sérios problemas mentais. Comportando-se como um pássaro e sem dizer uma única palavra aos médicos e enfermeiros, Birdy parece viver um um mundo particular, e o médico acredita que Al - devido à sua relação com o rapaz - seja a pessoa ideal para mudar o quadro de catatonia. Enquanto tenta arrancar alguma informação ou melhora em seu colega, Al vai relembrando sua amizade com ele, desde que, de desconhecidos quase rivais, tornaram-se companheiros inseparáveis, a despeito de suas diferentes personalidades.

O flashback das memórias de Al é a segunda linha narrativa proposta pelo roteiro - e, como um quebra-cabeças, vai juntando pedaços sobre o estranho comportamento de Birdy, que desde sempre sentiu-se como alguém deslocado da sociedade e do mundo a seu redor. Fanático por pássaros a ponto da obsessão, o rapaz tinha em Al sua ponte com a realidade - uma realidade que frequentemente o aborrecia e decepcionava, e que acabou por levando-o à sua atual situação. Parker não dá respostas fáceis para o comportamento de Birdy, preferindo deixar que a poesia de suas imagens seja mais contundente do que palavras ou explicações psicológicas baratas. Preferindo aprofundar a relação entre os personagens a tentar encontrar uma saída fácil para as questões levantadas pelo roteiro, o cineasta encontra em Matthew Modine e Nicolas Cage uma dupla impecável - em especial Modine, fascinante em seu desempenho silencioso como o atormentado Birdy. Com um desfecho que não tenta agradar a todo mundo e um desenvolvimento de ritmo próprio, "Asas da liberdade" envolve aos poucos, com uma história bem contada e repleta de sutilezas, amparada em bons atores, um visual caprichado e a coragem de fugir do óbvio. Uma pérola que precisa ser redescoberta!

segunda-feira

A VIDA DE DAVID GALE

A VIDA DE DAVID GALE (The life of David Gale, 2003, Universal Pictures, 130min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Charles Randolph. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Gerry Hambling. Música: Alex Parker, Jake Parker. Figurino: Jennifer Williams. Direção de arte/cenários: Geoffrey Kirkland/Renee Ehrlich Kalfus. Produção executiva: Moritz Borman, Guy East, Nigel Sinclair. Produção: Nicolas Cage, Alan Parker. Elenco: Kevin Spacey, Kate Winslet, Laura Linney, Cleo King, Gabriel Mann, Matt Craven. Estreia: 21/02/03

Em seu currículo, o cineasta inglês Alan Parker conta com o raivoso “Expresso da meia-noite” (1978), que bradava contra o sistema jurídico e penal da Turquia e gerou controvérsias variadas na época de sua exibição. De lá pra cá, Parker novamente criou obras polêmicas (“Mississipi em chamas”), flertou com o musical (“Fama”, The Commitments, loucos pela fama" e “Evita”) e assinou um dos mais assustadores filmes de terror da história (“Coração satânico”). Dono de um talento inquestionável, ele no entanto amargou um fracasso crítico e de bilheteria com “A vida de David Gale”, que se pretendia um libelo poderoso contra a pena de morte mas acabou morrendo na praia de suas boas intenções. Com menos de 20 milhões de dólares de arrecadação nos EUA, o filme também foi ignorado nas cerimônias de premiações, apesar do elenco estelar, do tema forte e de suas qualidades, praticamente relevadas por seus detratores. 

O David Gale do título é um brilhante e respeitado professor de filosofia vivido por Kevin Spacey que vê sua vida virar de cabeça pra baixo de uma hora pra outra. Traído pela esposa e acusado de estupro por uma aluna mal-intencionada, ele perde o emprego e o casamento, deixando-se levar pelo desespero e por problemas com bebidas alcóolicas. Fragilizado, ele acaba se envolvendo com Constance Harraway (Laura Linney), que junto com ele faz parte de um comitê ativo contra a pena de morte. Quando Constance aparece estuprada e morta, Gale é considerado culpado e condenado à morte. Quatro dias antes da execução, ele pede para dar uma entrevista à ambiciosa Bitsey Bloom (Kate Winslet) e a jovem repórter começa a desconfiar que sua certeza acerca da culpa do professor pode estar completamente equivocada e que um inocente pode estar às vésperas de morrer por um crime que não cometeu.

 

Longe de ser um petardo emocional como “Os últimos passos de um homem”, que mexe com mais paixão no assunto da pena capital, “A vida de David Gale” deixa a emoção de lado por um bom tempo, concentrando-se nos mecanismos que levaram o protagonista à delicada situação em que se encontra. Para isso não hesita em apelar para alguns clichês do gênero policial, com reviravoltas finais e um suspense que funciona bastante bem em alguns momentos mas que carece de força em outros. É inegável, no entanto, que o seu final consegue surpreender, principalmente por não ser previsível – apesar de soar um tanto inverossímil em um primeiro olhar.
 
Também é inegável que a maior força de “A vida de David Gale” vem de seu elenco, liderado por atores há muito consagrados e admirados. Kevin Spacey nem precisa se esforçar muito pra mostrar porque é um dos melhores atores de sua geração, principalmente quando interpreta personagens pouco heróicos e bastante comuns. Laura Linney compõe sua Constance com medidas exatas entre lucidez, estoicismo e delicadeza, o que é fundamental para a compreensão de seu destino trágico. Mas é Kate Winslet quem rouba a cena. Na pele da ambiciosa repórter Bitsey Bloom, a atriz inglesa demonstra uma variedade de nuances em sua atuação, tornando crível a sua mudança de atitudes e pensamentos do início ao final do filme, o que talvez Nicole Kidman (a escolha inicial para o papel) não conseguisse com tanta facilidade.
 
“A vida de David Gale” está longe de ser uma obra-prima e nem perto de ser o melhor trabalho da carreira de Alan Parker, mas merece uma segunda chance de ser descoberto e apreciado por suas inúmeras qualidades. Produzido por Nicolas Cage, que acabou deixando o papel principal de lado (assim como o fez George Clooney), é um filme sério e adulto, que mexe com as certezas arraigadas da plateia. Não é todo mundo que faz isso!

quarta-feira

EVITA

EVITA (Evita, 1996, Hollywood Pictures/Cinergi Pictures Entertainment/Dirty Hands Productions, 135min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Alan Parker, Oliver Stone, musical homônimo de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Gerry Hambling. Figurino: Penny Rose. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Philippe Turlure. Produção: Alan Parker, Robert Stigwood, Andrew G. Vajna. Elenco: Madonna, Antonio Banderas, Jonathan Pryce, Jimmy Nail. Estreia: 25/12/96

5 indicações ao Oscar: Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Canção ("You must love me"), Som
Vencedor do Oscar de Melhor Canção ("You must love me")
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Comédia/Musical, Atriz Comédia/Musical (Madonna), Canção ("You must love me")

Praticamente vinte anos separam a estreia na Broadway do musical "Evita", de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice do lançamento de sua adaptação cinematográfica, dirigida pelo inglês Alan Parker e estrelado pela diva pop Madonna. Nesse vácuo de quase duas décadas, a ópera-rock de Webber e Rice - que teve montagem até mesmo no Brasil - tornou-se parte do inconsciente coletivo e sua transição para as telas mostrou-se mais complicada do que parecia a princípio. A demora, porém, foi providencial. Com a defecção de Oliver Stone do projeto, também foram deixadas de lado Barbra Streisand, Liza Minnelli, Meryl Streep e Michelle Pfeiffer. Por melhores atrizes que todas elas sejam, ninguém conseguiria ser Evita tão bem quanto Madonna. Arrebatadora em cena, ela apaga da memória de todos seus fiascos anteriores. Levou o merecido Golden Globe de melhor atriz em comédia/musical e segura lindamente a barra de protagonizar um filme quase 100% cantado.


Madonna fala meras 140 palavras em "Evita". Antonio Banderas - na melhor atuação de sua carreira em Hollywood - fala ainda menos (cerca de 18). A música fala por eles e por Jonathan Pryce, o terceiro protagonista de uma ousada e cara produção filmada em Londres, Budapeste e Buenos Aires e que despertou polêmica antes mesmo de ter sua primeira cena rodada: logicamente os argentinos, que veem Eva Perón como quase uma santa não gostaram nem um pouco de vê-la interpretada por Madonna, cuja imagem pública cabe em qualquer definição exceto às relacionadas a qualquer tipo de santidade. Furiosos com a produção do filme, eles chegaram a lançar a sua versão da história, estrelada por Esther Goris, que de certa forma complementa a visão artística e quase onírica de Rice e Lloys Webber, dirigida por maestria por um Alan Parker acostumado a musicais - afinal, foi ele quem assinou "Fama", "Pink Floyd - The Wall" e "The Commitments, loucos pela fama".


A escolha de Parker para comandar "Evita" foi um golpe de mestre. Inteligente e irônico, o cineasta imprime um ritmo espetacular a um roteiro que, em mãos menos hábeis, poderia se tornar um exercício enfadonho de paciência. Editado com precisão por seu colaborador habitual, Gerry Hambling e fotografado brilhantemente pelo iraniano Darius Khondji, "Evita" é tecnicamente impecável, repleto de toda a pompa e circunstância que exige. A impressionante sequência que mostra o funeral da primeira-dama mais amada da história da Argentina é de encher os olhos e basta uma olhada nas fotos do real evento para que se perceba o cuidado da direção de arte em reconstituir com detalhes toda a trajetória da protagonista. Àqueles que reclamaram da superficialidade do roteiro, é preciso lembrar que trata-se de um musical hollywoodiano baseado em um espetáculo da Broadway, ou seja, longe de ser um documentário com objetivos maiores do que entreter e encantar visualmente.



E visualmente "Evita" é um deslumbre. Não há uma única cena em que Alan Parker não tenha impresso seu extremo bom-gosto. Madonna troca de roupa 85 vezes em cena - batendo o recorde de Elizabeth Taylor em "Cleópatra" - e se entrega de corpo e alma à personagem, mesmo tendo que, em certos momentos, esconder a barriguinha de grávida. A estrela maior da música pop canta, dança e representa como se de sua atuação dependesse toda sua carreira - e a julgar pela carta desesperada que escreveu ao diretor implorando pelo papel, de certa forma considerava sua escalação para o filme como seu ápice. Seria injusto dizer que ela não atingiu seu objetivo de conquistar o respeito da crítica e da indústria, ainda que o tenha perdido pouco depois com mais escolhas equivocadas que acrescentou a seu currículo. Mesmo assim, é impossível dissociar, ao final do filme, a imagem de Madonna da imagem de Eva Perón.


Mas, como canta a personagem de Antonio Banderas no início do filme, quem é essa Santa Evita? O musical criado por Lloyd Webber e Tim Rice tenta responder essa questão da maneira mais lírica possível. A sequência inicial mostra a comoção argentina com a morte de sua "líder espiritual". A partir daí, a trama volta no tempo para apresentar a trajetória de uma menina bastarda que chegou ao cargo de primeira-dama da Argentina em uma época de grave crise econômica e de baixa auto-estima do país. O filme conta sua história de amor com o político Juan Peron (Jonathan Pryce, bastante eficiente), sua batalha contra a classe dominante (o que lhe causou grandes problemas de aceitação junto ao high society) e seu trágico final, vítima de um câncer que lhe tirou a vida aos 33 anos de idade. Tudo é narrado através do ponto de vista de um integrante da classe popular, vivido por um surpreendentemente capaz Antonio Banderas - e que, apesar do nome, não tem nenhuma relação com o revolucionário Che Guevara, como foi dito à época. Através de seus olhos, a ironia de toda a trama tem lugar sem nunca prejudicar seu desenvolvimento. E vale lembrar que em seu documentário "Na cama com Madonna", a cantora declarou ter grande interesse sexual no ator... uma fofoquinha de bastidor que dá um gosto ainda mais saboroso ao filme...


Enfim, "Evita", falem o que quiserem, é um grande filme. É dirigido com brilho, interpretado com garra e tem um ritmo invejável, onde as canções, ao invés de atrapalhar a ação, a empurram adiante. Uma obra-prima do gênero e o único trabalho de Madonna em que ela pode realmente ser chamada de atriz.


PS - Aproveito o momento para afirmar minha tristeza com a morte de Elizabeth Taylor, a última diva dos áureos tempos do cinema. É clichê dizer isso, mas sua obra sobreviverá junto àqueles que amam o cinema de qualidade.

segunda-feira

THE COMMITMENTS, LOUCOS PELA FAMA

THE COMMITMENTS, LOUCOS PELA FAMA (The Commitments, 1991, 20th Century Fox, 118min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Roddy Doyle, Dick Clement, Ian La Frenais, romance de Roddy Doyle. Fotografia: Gale Tattersall. Montagem: Gerry Hambling. Música: Wilson Pickett. Figurino: Penny Rose. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Karen Brookes. Casting: John Hubbard, Ros Hubbard. Produção executiva: Armyan Bernstein, Souter Harris, Tom Rosenberg. Produção: Lynda Myles, Roger Randall-Cutler. Elenco: Robert Arkins, Andrew Strong, Angeline Ball, Maria Doyle Kennedy, Dave Finnegan, Michael Aherne, Bronagh Gallagher, Félim Gormley, Glen Hansard, Dick Massey, Johnny Murphy, Ken McCluskey, Colm Meaney. Estreia: 14/8/91

Indicado ao Oscar de Montagem

"Os irlandeses são os negros da Europa. E os dublinenses são os negros da Irlanda. E os irlandeses do Norte são os negros de Dublin. Então digam isso, e digam alto: sou negro com orgulho!" É com essas palavras que o jovem Jimmy Rabbitte (Robert Arkins) incentiva seu grupo de soul, chamado The Commitments, a descobrirem o ritmo dentro deles, como forma de mudarem de vida e levar boa música aos trabalhadores das áreas menos favorecidas de Dublin. E é também "The Commitments, loucos pela fama" que se chama o filme do inglês Alan Parker baseado no romance de Roddy Doyle que devolve o diretor ao universo dos musicais, depois de "Fama" (1980) e "Pink Floyd: the wall" (1982). Energético, pulsante como o soul e encantador, o filme - estrelado por jovens desconhecidos e transformados em excelentes atores por Parker - foi uma injeção de vida em um gênero praticamente morto na época de seu lançamento. Não fez um sucesso comercial estonteante, mas agradou a crítica e teve uma sobrevida interessante quando o grupo fictício viajou pelo mundo em uma bem-sucedida tour.

Jimmy Rabbitte, o protagonista do filme, é um jovem desempregado que vive com uma numerosa família em um subúrbio de Dublin. Ao receber de uma dupla de amigos que cantam em casamentos - um deles vivido por Glen Hansard que ganharia um Oscar de melhor canção por "Apenas uma vez" anos depois - o convite para ser seu empresário, ele decide criar uma banda que misture o ritmo quente do soul com a dura realidade de suas vidas. Com muita dificuldade e lutando contra a descrença de todos, aos poucos o grupo vai se formando, com operários, estudantes e trabalhadores exaustos. Quando estão em vias de subir um degrau mais alto, porém, os egos começam a se chocar, diferenças pessoais tornam-se incontornáveis e o sonho começa a dar sinais de que nunca passou realmente de ilusão.


O maior acerto de Alan Parker, em "The Commitments", foi de escalar um elenco de amadores para seus papéis principais. Os rostos de todos são extremamente verdadeiros, reais, sem a sensação plástica da maioria dos filmes de Hollywood, o que dá ao filme uma consistência rara de honestidade. Enquanto acompanha a trajetória da banda, Parker nunca deixa que a plateia esqueça que eles são todos pessoas que existem no meio de dificuldades financeiras e pessoais - o que a ambientação na real Dublin reitera com força a cada momento. Não existe a preocupação artificial de embelezar nada na maneira com que o cineasta vê suas personagens em busca não da fama em seu sentido mais fútil, mas sim como maneira de escapar de uma existência medíocre e triste. E é justamente essa despreocupação de procurar belezas ocas e clichês que faz com que "The Commitments" seja extremamente belo. Despojado de ambições estéticas exageradas, o filme concentra-se nos seres humanos que retrata. E são eles, ao lado de uma trilha sonora pra lá de caprichada que deixa tudo fascinante.


Repleto de standards da soul music - como "Mustang Sally" e "Try a little tenderness" - a trilha sonora de "The Commitments" merece um capítulo à parte. Como nos melhores musicais da história, a música não chega para atrapalhar o andamento da história e sim faz parte - de maneira indelével - dela. A voz poderosa de Andrew Strong na pele do vocalista Deco ajuda Parker a ilustrar a trajetória de Rabbitte e seus empresariados de forma ágil e comovente. Mas felizmente o veterano cineasta nunca deixa sua inteligência de lado e em momento algum apela para a emoção fácil. Apesar da atmosfera um tanto depressiva que perpassa todo o filme - e é brilhantemente disfarçada pela música e pela edição primorosa - o diretor não tenta fazer chorar nem busca críticas sociais panfletárias. Ele mostra uma realidade, como que testemunhando a mesma e dividindo suas impressões com o público, empolgado e atento.

Com um roteiro dono de um irresistível e imprevisível senso de humor - em especial na sua primeira metade - e uma despretensão que sempre é bem-vinda no cada vez mais mercenário cinema comercial, "The Commitments, loucos pela fama" é um dos melhores filmes de Alan Parker, que não à toa declarou que realizá-lo foi uma de suas melhores experiências como cineasta. E se ele gostou, quem somos nós para discordar?

quinta-feira

MISSISSIPI EM CHAMAS


MISSISSIPI EM CHAMAS (Mississippi burning, 1988, Orion Pictures, 128min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Chris Gerolmo. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Gerry Hambling. Música: Trevor Jones. Figurino: Aude Bronson-Howard. Direção de arte/cenários: Philip Harrison, Geoffrey Kirkland/Jim Erickson. Casting: Howard Feuer, Juliet Taylor. Produção: Robert F. Colesberry, Frederick Zollo. Elenco: Gene Hackman, Willem Dafoe, Frances McDormand, Brad Dourif, R. Lee Ermey, Stephen Tobolowski, Michael Rooker, Pruitt Taylor Vince, Tobin Bell. Estreia: 09/12/88

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alan Parker), Ator (Gene Hackman), Atriz Coadjuvante (Frances McDormand), Fotografia, Montagem, Som
Vencedor do Oscar de Fotografia


Alan Parker não é de brincar em serviço. O inglês que chocou o mundo com "O expresso da meia-noite" e depois transformou Robert DeNiro no demônio encarnado, em "Coração satânico" mostra mais uma vez, em "Mississipi em chamas", porque contundência é uma das características mais marcantes de seu trabalho como cineasta. Inspirado em fatos reais - disfarçados ou, como preferem os puristas, distorcidos -, o roteiro de Chris Gerolmo é forte o suficiente para transformar-se em matéria-prima ideal para um diretor inquieto e feroz. Ao tocar o dedo na profunda ferida do racismo no sul dos EUA em plenos efervescentes anos 60, Parker assinou um de seus filmes mais radicais e elogiados, merecidamente indicado a sete Oscar - inclusive filme e diretor.

A trama do filme se passa em 1964 e começa quando três jovens ativistas dos direitos civis - um deles negro - são violentamente assassinados em uma pequena cidade do Mississipi. Tidos como desaparecidos, eles chamam a atenção do FBI, que manda para a localidade dois agentes com diferentes métodos de trabalho. Alan Ward (Willem Dafoe, em papel desejado por Don Johnson) é relativamente jovem, idealista e crente na aproximação pacífica e civilizada. Anderson (Gene Hackman, genial), criado na região e bem mais cínico e experiente, acredita na força física e não dá muita importância a coisas como ética. Tão logo chegam ao local das investigações, os dois policiais passam a testemunhar o aumento exponencial das atividades da Ku Klux Klan, cuja violência é não apenas vista com condescêndia pelas autoridades locais, mas incentivada. Não demora muito para que Ward autorize Anderson a trabalhar como sabe, o que os envolve em uma guerra declarada.



A fotografia de Peter Biziou, vencedora do Oscar, é um primor. Quente e sólida, ela colabora para passar a sensação de claustrofobia almejada pela história contada sem meio-tons por Gerolmo e Parker. A violência do racismo não é enfeitada ou amenizada pelo diretor, que faz questão de esfregar na cara da plateia a fealdade do preconceito - a começar pela eficaz imagem de abertura do filme, que mostra bebedouros diferenciados para brancos e negros. Não faz parte das ideias do cineasta fugir muito do maniqueísmo, ainda que a forma com que Anderson lida com sua missão esteja longe de ser exemplar. No mundo retratado em "Mississipi em chamas", os vilões tem cara de vilões, falam com tal e não hesitam em espancar as próprias esposas (Frances McDormand concorreu a seu primeiro Oscar na pele da mulher do delegado da cidade, vivido por um eficiente Brad Dourif, cujo embate com Hackman em uma barbearia chega a ser quase antológica).

A história de "Mississipi em chamas" pode até não ter sido exatamente como narrada no filme de Alan Parker. Mas sua força reside mais no que ele quer denunciar do que em verdades absolutas, e assim sendo, é construído como um libelo contra o racismo. Como tal, beira a perfeição.

CORAÇÃO SATÂNICO


CORAÇÃO SATÂNICO (Angel heart, 1987, TriStar Pictures, 113min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Alan Parker, romance "Falling angel", de William Hjorstberg. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Gerry Hambling. Música: Trevor Jones. Figurino: Aude Bronson-Howard. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Robert J. Franco, Leslie Pope. Casting: Risa Bramon, Billy Hopkins. Produção executiva: Mario Kassar, Andrew Vajna. Produção: Elliott Kastner, Alan Marshall. Elenco: Mickey Rourke, Robert DeNiro, Lisa Bonet, Charlotte Rampling. Estreia: 06/3/87

Uma das experiências mais apavorantes do cinema dos anos 80, “Coração satânico” não é apenas um filme de terror. Filmes de terror assustam (ou não) e quando acabam são facilmente esquecíveis. Esta obra-prima do inglês Alan Parker não dá um único susto em suas mais de duas horas de duração, mas em compensação angustia, incomoda, e o que talvez seja mais importante: fica na memória por um bom tempo.

Baseado em um romance pouco conhecido de William Hjorstberg, “Coração satânico” já começa bem pela atmosfera lúgubre e escura, que perpassa todo o filme. Passada nos anos 50, a trama gira em torno de Harry Angel (Mickey Rourke, ótimo), um detetive particular que recebe a incumbência de encontrar Johnny Favorite, um músico de jazz que deve favores a seu empregador, o misterioso Louis Cypher (Robert De Niro, apavorante). Seguindo a pista de Favorite, Angel vai parar em New Orleans, onde se depara com rituais de vudu e magia negra e se envolve com a dúbia Evangeline Proudfoot (Lisa Bonet), que aparenta saber bem mais do que quer revelar. Enquanto vai se enredando cada vez mais nas investigações, o detetive acaba sendo o suspeito de inúmeros crimes que acontecem sempre que ele está por perto. Para salvar a própria pele, ele vai mais a fundo no caso e acaba descobrindo uma verdade aterradora sobre seu cliente e sobre si mesmo.


É difícil dizer o que é mais acertado em “Coração satânico”. O roteiro, escrito pelo próprio Alan Parker é intrincado e assustador na medida certa, entregando aos poucos a verdade sobre seus personagens, defendidos por atores em plena forma. Se Robert De Niro não precisa provar nada a ninguém, é Mickey Rourke quem se destaca, na atuação de sua vida - um papel oferecido a Jack Nicholson, Al Pacino e ao próprio DeNiro. O tom sombrio da fotografia devidamente úmida e escura de Michael Seresin combina à perfeição com a música perfeita de Quincy Jones, que buscou nas raízes do gospel a inspiração para seu trabalho.

Repleto de metáforas óbvias e outras nem tão óbvias assim, “Coração satânico” é um dos mais angustiantes trabalhos do cinema de suspense da história. Sujo, desagradável e sem concessões ao comercial, o filme de Parker é cinema com C maiúsculo, um exercício para se ver e rever inúmeras vezes. E ficar chocado sempre.

domingo

FAMA


FAMA (Fame, 1980, MGM Pictures, 134min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Christopher Gore. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Gerry Hambling. Música: Michael Gore. Figurino: Kristi Zea. Direção de arte/cenários: Geoffrey Kirland/George DeTitta. Casting: Howard Feuer, Jeremy Ritzer. Produção: David De Silva, Alan Marshall. Elenco: Irene Cara, Eddie Barth, Lee Curreri, Laura Dean, Antonia Franceschi, Paul McCrane. Estreia: 16/5/80

6 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("Fame", "Out here on my own"), Som
Vencedor de 2 Oscar: Trilha Sonora Original, Canção ("Fame")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção ("Fame")


A High School for the Performing Arts, em Nova York, é uma das mais prestigiadas escolas de arte dos EUA. E é também o cenário desse musical energético, forte e empolgante do diretor inglês Alan Parker, que aqui deixa de lado o tom depressivo de seu bem-sucedido “Expresso da meia-noite” para embarcar no sonho de um punhado de jovens em busca da fama do título.

O roteiro, escrito por Christopher Gore, cujo irmão Michael compôs a dançante trilha sonora, que inclui a vencedora do Oscar “Fame”, concentra-se em meia dúzia de estudantes, que, a despeito de seu talento, enfrentam sérios problemas pessoais no caminho rumo ao estrelato. A ambiciosa cantora Coco (Irene Cara, que canta a música-tema do filme) sonha em ver seu nome nas marquises, mas acaba descobrindo da pior maneira possível que não é somente uma bela voz que basta para se ter sucesso; o jovem Montgomery (Paul McCrane) quer ser ator, mas tem primeiro que aceitar sua homossexualidade, descoberta quando se apaixonou pelo tearapeuta; a judia Doris (Maureen Teefy) precisa superar sua quase dependência da mãe superprotetora, o que começa a acontecer quando se envolve com o aspirante a humorista Ralph (Barry Miller), que tenta esconder sua origem paupérrima sob uma constante chuva de piadas. Para finalizar o grupo de estudantes está a milionária que sonha em ser bailarina (Laura Dean) e se apaixona por um dançarino negro, o rebelde Leroy (Gene Anthony Ray) e o descendente de italianos Bruno Martelli (Lee Curreri), que luta para ser músico mesmo sendo fã de sintetizadores musicais.


Mesmo sem conseguir fugir de alguns clichês, o filme de Parker tem a seu favor a edição ágil de Gerry Hambling, seu habitual colaborador, que divide a ação em tempos quase iguais a seus sonhadores personagens, defendidos por atores amadores. Se por um lado o filme ganha por isso, com um frescor e um realismo raros, perde pela inexperiência de seus intérpretes, nem todos com o carisma e/ou a competência necessários para acompanhar as idas e vindas do roteiro. Sorte que Alan Parker é um diretor de primeira grandeza, que tira leite de pedra em muitos momentos.

Mesmo quando o clima pesa, no terço final da obra, o diretor consegue driblar a lágrima fácil, mantendo sua câmera tão distante quanto uma observadora passiva dos dramas que se desenrolam a sua frente. Até mesmo os números musicais fogem do marasmo, imprimindo ao filme uma marca bastante interessante: longe de ser um musical enfadonho, com personagens cantando 90% do tempo, “Fama” é um filho bastardo do gênero, utilizando as ótimas canções de Michael Gore como comentários da ação e não parte integrante dela.

Ainda que se estenda um pouco demais em seu final, “Fama” é o filme certo na hora certa e provavelmente é um dos musicais essenciais de seu tempo.

sexta-feira

O EXPRESSO DA MEIA-NOITE


O EXPRESSO DA MEIA-NOITE (Midnight express, 1978, Columbia Pictures, 121min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Oliver Stone, basedo no livro de William Hayes e William Hoffer. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Gerry Hambling. Música: Giorgio Moroder. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Geoffrey Kirkland/Evan Hercules. Produção executiva: Peter Guber. Produção: Alan Marshall, David Puttnam. Elenco: Brad Davis, John Hurt, Randy Quaid, Irene Miracle, Paolo Bonacelli, Mike Kellin. Estreia: 06/10/78

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alan Parker), Ator Coadjuvante (John Hurt), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 2 Oscar: Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original
Vencedor de 6 Golden Globes: Filme/Drama, Ator Coadjuvante (John Hurt), Roteiro, Trilha Sonora, Estreia masculina (Brad Davis), Estreia feminina (Irene Miracle)

Depois que se assiste a “Expresso da meia-noite” fica-se com um nó na garganta. Não por tristeza, mas talvez por revolta. Inacreditavelmente baseado em uma história real, o filme do inglês Alan Parker é um petardo emocional e sensorial que dificilmente pode ser esquecido ou tido como entretenimento simples e fácil. Se a história do americano Billy Hayes é sofrida e deprimente, ao menos originou um dos melhores filmes de 1978 e talvez o melhor da carreira do cineasta.

Billy Hayes, vivido no filme por um impressionante Brad Davis, é um jovem americano de classe média que é preso na Turquia com um carregamento de haxixe. Acusado de tráfico de drogas, ele é preso imediatamente e condenado a seis anos de cadeia, sem dar muitas chances ao advogado contratado por seu pai. Às vésperas de sua soltura, porém, como forma de fazer dele um exemplo aos EUA - com quem não tem a mais amigável das relações - o governo turco transmuta sua sentença para prisão perpétua. Uma vez condenado, Hayes é trancafiado em uma prisão assustadora, violenta e sem muita noção do que significam as palavras Direitos Humanos. Sua única chance de sobreviver ao inferno é fugir com alguns companheiros de cela no que eles chamam de Expresso da Meia-noite, ou seja, um túnel. Para isso, ele terá que testemunhar uma truculência inimaginada em seus dias na América.


Poucas vezes se viu no cinema uma obra tão abertamente brutal como “Expresso da meia-noite”. Sem medo de chocar e/ou afugentar seu público, Alan Parker mergulha seu protagonista em um buraco de racismo, dor e violência. Para isso conta com o inspirado roteiro de Oliver Stone (premiado com o Oscar): mesmo alterando substancialmente algumas passagens do livro escrito pelo próprio Hayes - as passagens do livro que se referem a sua experiência homossexual dentro da prisão foi deslavadamente modificadas, o que tira um pouco de sua credibilidade, o script do futuro diretor dá a exata noção do pesadelo no qual um jovem saudável, amado pela família e pela namorada é jogado de uma hora para outra. O filme não faz julgamentos morais a respeito de seu protagonista, que no entanto, depois de tanto sofrimento, acaba conquistando a simpatia do público, mesmo longe de ser um exemplo a ser seguido.

Muito dessa conquista se deve ao trabalho de Brad Davis, que transmite em cada olhar de dor e revolta todos os sentimentos complexos de seu personagem. Lembrando alguns trejeitos de James Dean - principalmente na forma como lida com a injustiça e a revolta - ele foi mais um jovem talento que morreu cedo - Davis morreu de AIDS aos 41 anos em 1991. Contando com a ajuda de colegas de elenco como John Hurt e Randy Quaid, como dois prisioneiros que unem-se a ele em sua trajetória rumo à liberdade ainda que tardia, Davis foi uma revelação das mais empolgantes do final da década de 70, causando polêmica com seu trabalho em "Querelle", de 1982.

Não se pode esperar que “Expresso da meia-noite” seja um filme para divertir. É cinema sério, de denúncia, mas que jamais esquece de seu principal objetivo: contar uma boa história, com personagens fortes e um roteiro bem estruturado. Contando ainda com uma fotografia opressiva de Michael Seresin e uma trilha sonora de Giorgio Moroder que já tornou-se clássica, é um filme que dificilmente abandona a memória.
O único alívio que se tem ao assisti-lo é saber que, mesmo sendo uma história verdadeira, não aconteceu conosco.

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