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quinta-feira

VEJA COMO ELES CORREM


VEJA COMO ELES CORREM (See how they run, 2022, Searchlight Pictures, 98min) Direção: Tom George. Roteiro: Mark Chappell. Fotografia: Jamie D. Ramsay. Montagem: Gary Dollner, Peter Lambert. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: Amanda McArhur/Celia De La Hey. Produção: Gina Carter, Damian Jones. Elenco: Sam Rockwell, Saoirse Ronan, Adrien Brody, David Oyelowo, Harris Dickinson, Gregory Cox, Maggie McCarthy, Charlie Cooper, Ruth Wilson, Reece Shearsmith, Sian Clifford, Jacob Fortune-Lloyd, Shirley Henderson. Estreia: 08/9/2022

Em 25 de novembro de 1952, em Londres, estreava a peça "A ratoeira", da escritora policial Agatha Christie - depois de uma pequena turnê por outras cidades inglesas. Desde então, com exceção de um período de 14 meses de paralisação por conta da Covid-19, nunca mais saiu de cartaz, tendo seu elenco substituído todo ano e se mantendo como uma das obras mais duradouras do teatro mundial. Nunca adaptado por Hollywood - uma cláusula de seu contrato estipula que nenhuma versão para as telas pode ser realizada antes de transcorridos seis meses desde o encerramento das apresentações -, mas com um versão indiana e outra russa, devidamente disfarçadas, o texto de Christie é considerado um exemplo perfeito de seu estilo e um clássico do gênero whodunit? (quem matou?). "Veja como eles correm", estrelado por Sam Rockwell e Saoirse Ronan, é uma divertida e criativa homenagem, tanto à peça em si quanto à obra da escritora. Repleto de referências sutis (ou nem tanto) e dotado de um humor britânico em toda a sua mordacidade, o filme de Tom George oferece ao espectador uma hora e meia de inteligência, valorizada por um visual caprichado e um elenco em dias de graça.

A trama de "Veja como eles correm" - título que copia o segundo verso da canção infantil "Três ratos cegos", que também deu nome à peça radiofônica e ao conto que mais tarde se transformaram em "A ratoeira" - se passa em 1953, quando a peça de Agatha Christie está comemorando sua 100ª apresentação em Londres. O sucesso estrondoso da produção acaba de chamar a atenção de produtores de cinema, que tencionam levá-la às telas o quanto antes, sob a direção do excêntrico Leo Kopernick (Adrien Brody), que chega dos EUA com a missão de comandar a adaptação - que, como se sabe, só será possível seis meses depois do encerramento da temporada teatral. Quando o pouco simpático Kopernick é assassinado e tem seu corpo deixado no cenário do teatro, é chamado o inspetor de polícia Stoppard (Sam Rockwell), que, com seu jeito desleixado, inspira pouca confiança. Com a ajuda da jovem policial Constable Stalker (Saoirse Ronan) - deslumbrada com a possibilidade de investigar um crime acontecido no meio artístico, pelo qual é fascinada -, Stoppard passa a conviver com produtores, atores, roteiristas e demais membros da companhia teatral, em busca do nome do assassino, que não demora em fazer novas vítimas.


 

Com um roteiro recheado de brincadeiras que frequentemente escapam ao público médio - o inspetor tem o nome em homenagem ao dramaturgo Tom Stoppard, que escreveu uma paródia de "A ratoeira", e o mordomo de Agatha Christie tem o mesmo sobrenome de Julian Fellowes, premiado com o Oscar de roteiro original por "Assassinato em Gosford Park" (2001), que bebe na fonte da autora inglesa - e um visual criativo que mescla ângulos de câmera inusitados com uma edição que usa e abusa de pontos de vista alternativos, "Veja como eles correm" funciona como comédia satírica e como filme policial, com direito a reviravoltas e um desfecho típico da criadora de Hercule Poirot e Miss Marple - e que inclusive tem participação efetiva no clímax da história, sendo interpretada por Shirley Henderson. Com uma fotografia de cores fortes e uma direção de arte cuidadosamente elaborada, o filme de Tom George - estreando no cinema, em um gênero do qual não é exatamente fã, segundo suas próprias palavras - faz lembrar, em alguns momentos, o brilhante "Assassinato por morte" (1976), de Robert Moore, que unia, no mesmo ambiente, os mais famosos detetives policiais da literatura para investigar um crime: enquanto o espectador tenta adivinhar a identidade do culpado (a), acompanhando as aventuras de Stoppard e Constable, se diverte com diálogos espirituosos e a união certeira entre personagens fictícios e personalidades reais, como o ator e diretor Richard Attenborough (vivido aqui por Harris Dickinson).

E por falar em Stoppard e Constable, a química entre Sam Rockwell e Saoirse Ronan é preciosa: ele vive um policial pouco exemplar (e inspirado em Peter Sellers e seu Inspetor Clouseau) e ela, uma das atrizes mais elogiadas de sua geração, demonstra um timing cômico dos mais agradáveis, na pele de uma ambiciosa e ansiosa aspirante a maiores voos profissionais. Além deles, brilha Adrien Brody como Leo Kopernick, o detestável cineasta que encontra a morte logo nos minutos iniciais - mas que permanece em cena, em flashbacks que conduzem a investigação dos protagonistas: sem medo de mostrar uma persona pouco simpática, Brody parece se divertir em cada cena, em cada diálogo. E é exatamente esse tom irônico e bem-humorado o maior trunfo de "Veja como eles correm", um passatempo dos mais interessantes e sagazes da temporada.

 

sexta-feira

HOLLYWOODLAND: BASTIDORES DA FAMA

HOLLYWOODLAND: BASTIDORES DA FAMA (Hollywoodland, 2006, Focus Features/Miramax, 126min) Direção: Allen Coulter. Roteiro: Paul Bernbaum. Fotografia: Jonathan Freeman. Montagem: Michael Berenbaum. Música: Marcelo Zarvos. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Leslie McDonald/Odetta Stoddard. Produção executiva: J. Miles Dale, Jake Myers, Joe Pichirallo. Produção: Glenn Williamson. Elenco: Ben Affleck, Adrien Brody, Diane Lane, Bob Hoskins, Robin Tunney, Lois Smith. Estreia: 31/8/06 (Festival de Veneza)

Provavelmente apenas os mais dedicados estudiosos do cinema e da televisão conhecem - de nome e sem consultas ao Google - a trajetória do ator George Reeves, morto em 1959 depois de uma carreira marcada essencialmente por sua participação no seriado de tv "As aventuras do Super-homem", que permaneceu no ar entre 1952 e 1958 e no qual ele interpretava o super-herói de Krypton. Sentindo-se preso no papel que praticamente o impediu de ser levado a sério como ator dramático, Reeves foi encontrado morto, vítima de um tiro justamente na ocasião em que sua casa estava repleta de convidados. Foi suicídio ou homicídio? E, no caso de a segunda resposta for a correta, quem o cometeu? A jovem noiva, Leonore Lemmon (Robin Tunney)? A amante casada com um chefão da indústria de cinema, Toni Mannix (Diane Lane)? Ou o próprio executivo, Eddie Mannix (Bob Hoskins), vingando-se do adultério? Todas essas questões, ainda não definitivamente resolvidas, são a base de "Hollywoodland: bastidores da fama", filme que investiga, em tom ficcional, um caso que abalou a indústria do entretenimento americano à sua época. Comandado por Allen Coulter - experiente diretor de episódios de séries, como "Arquivo X", "Sex and the city", "A sete palmos", "Família Soprano" e "Roma" - e estrelado por um surpreendente Ben Affleck, o filme não chega a atingir todo o potencial de seu explosivo tema, mas é uma curiosa viagem pelos bastidores de Hollywood e os perigos da fogueira das vaidades que a cidade se orgulha em ser.

Na verdade, o roteiro se concentra em Louis Simo (Adrien Brody), um detetive particular com problemas no casamento que começa a investigar a morte de Reeves a partir do pedido da mãe da vítima, a aparentemente inconsolável Helen Bessolo (Lois Smith). Sabendo que o caso pode lhe dar a visibilidade necessária para que crie um nome respeitável na profissão, Simo passa a dedicar-se dia e noite à investigação - o que significa mergulhar não apenas na rotina do ator nas semanas imediatamente anteriores à sua morte, mas principalmente voltar no tempo, até os dias do começo de sua carreira, quando contou com a inestimável ajuda da bela Toni Mannix para manter-se confortavelmente e conseguir o papel de Super-homem em uma bem-sucedida série. Conforme vai avançando pelos meandros do sistema de entretenimento, Simo percebe que o glamour muitas vezes oferecido ao público nem sempre corresponde a bastidores saudáveis e/ou felizes. Esse choque de realidade o fará questionar a própria vida e carreira - principalmente quando, durante a investigação, passa a entender os sentimentos dúbios de Reeves em relação a seu status de ídolo popular.


Indicado ao Golden Globe de melhor ator em filme dramático e premiado no Festival de Veneza por sua atuação discreta e eficiente, Ben Affleck acerta o tom de seu George Reeves, criando um personagem repleto de idiossincrasias e nuances, fato raro em uma carreira marcada por severas críticas a seu talento como intérprete. Herdando um papel que quase foi de Hugh Jackman, ele deixa de lado sua persona de astro para tornar-se um ator real, imprimindo verdade e melancolia por baixo da máscara de vaidade e orgulho exibida por Reeves para o grande público. Não chega a ser uma atuação extraordinária e digna de um Oscar, mas é um grande passo para um ator que, à época, frequentava mais as manchetes sensacionalistas devido a seu romance com Jennifer Lopez - e o fracasso retumbante de filmes como "Contato de risco" (2003) e "Sobrevivendo ao Natal" (2004) - do que por seus méritos artísticos. Não à toa, seu trabalho chamou mais a atenção do público e da imprensa do que a interpretação sóbria e contida de Adrien Brody, que, desde seu inesperado Oscar por "O pianista" (2002) tenta encontrar um veículo adequado a seu modo quase sonolento de atuação. Na pele de Louis Simo ele nem precisa se esforçar muito para transmitir toda a sensação de tédio e desencanto que nasce das revelações que surgem em seu caminho - é uma interpretação minimalista que funciona, embora em alguns momentos dê a impressão de nunca atingir um clímax. E, de certa forma, esse é um problema do filme em si.

Mesmo tendo em mãos uma história intrigante e repleta de possibilidades, o roteirista Paul Bernbaum não consegue atingir todo seu potencial, principalmente por não conseguir fazer a conexão entre a história de Simo e a trajetória de Reeves de forma orgânica. Utilizando-se de flashbacks de forma confusa a maior parte do tempo, o filme tampouco ultrapassa a superficialidade quando trata dos bastidores de Hollywood, perdendo a chance de explorar um universo sempre rico e interessante. Diane Lane - que em 2015 viveu a esposa do roteirista Dalton Trumbo em "Trumbo: lista negra" - faz o que pode para dar vida a uma personagem dividida entre as aparências e a paixão, mas sofre com a irregularidade do roteiro. Sem apontar uma solução definitiva para o caso da morte de Reeves, o filme simplesmente levanta questões sem resolvê-las, para frustração do público que procura um desfecho mais contundente. É um bom filme, mas é incapaz de ficar na memória da plateia. Uma pena!

O GRANDE HOTEL BUDAPESTE

O GRANDE HOTEL BUDAPESTE (The Grand Budapest Hotel, 2014, Fox Searchlight Pictures/Indian Paintbrush, 99min) Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson, estória de Wes Anderson, Hugo Guinness, inspirado em escritos de Stefan Zweig. Fotografia: Robert D. Yeoman. Montagem: Barney Pilling. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Adam Stockhausen/Anna Pinnock. Produção executiva: Molly Cooper, Christoph Fisser, Henning Molfenter, Charlie Woebcken. Produção: Wes Anderson, Jeremy Dawson, Steven Rales, Scott Rudin. Elenco: Ralph Fiennes, F. Murray Abraham, Jude Law, Willem Dafoe, Adrien Brody, Jeff Goldblum, Saoirse Ronan, Mathieu Amalric, Harvey Keitel, Bill Murray, Edward Norton, Jason Schwartzman, Léa Seydoux, Tilda Swinton, Tom Wilkinson, Owen Wilson, Tony Revolori, Fisher Stevens, Bob Balaban. Estreia: 06/02/14 (Festival de Berlim)

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Wes Anderson), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor de 4 Oscar: Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme (Comédia/Musical) 

 Dentre os filmes pouco convencionais selecionados pela Academia de Hollywood para concorrer ao principal Oscar de 2015 - "Birdman" e "Boyhood", por exemplo - nenhum é tão radicalmente a cara de seu autor quanto "O Grande Hotel Budapeste", escrito, dirigido e produzido por Wes Anderson, um dos cineastas menos afeitos a concessões comerciais que o cinema norte-americano gerou nos últimos quinze anos, desde que lançou o elogiado - e ignorado pelo público - "Três é demais", em 1998. Dono de um estilo facilmente reconhecível que equilibra com rara inteligência personagens excêntricos, histórias inusitadas e um visual milimetricamente planejado, Anderson faz parte de um time de poucos realizadores que tem uma marca própria dentro do cinema, como Tim Burton, Woody Allen e Pedro Almodovar. No entanto, ainda faltava a ele uma espécie de reconhecimento oficial por parte da indústria, que lhe desse o passaporte definitivo para a elite dos cineastas. Com as surpreendentes nove indicações conquistadas por seu novo filme (e a vitória em quatro categorias) tal passaporte já está carimbado. Só o fato de ter lutado de igual pra igual com produções bem menos criativas (e por conseguinte mais facilmente digeríveis pelos tradicionais e vestutos eleitores da Academia), "O Grande Hotel Budapeste" já pode ser considerado um campeão.

A trama - contada através de uma história dentro de uma história, em uma opção narrativa arriscada mas extremamente bem-sucedida - é aparentemente simples, mas repleta de bifurcações inusitadas e personagens surreais: quem começa a contá-la é um escritor consagrado (vivido por Tom Wilkinson na maturidade e Jude Law na juventude), que transmite ao público a história do misterioso Mr. Moustafa (F. Murray Abraham), dono do decadente Hotel Budapeste, localizado em um país fictício da Europa que teve seu auge no período entre-guerras. Solitário e discreto, Moustafa relembra, através de flashbacks, as reviravoltas que fizeram com que a imensa propriedade fosse parar em seu nome. Tais reviravoltas tem início quando ele, ainda jovem (e interpretado por Tony Revolori) consegue emprego como empregado do hotel, sob o comando do rígido e dedicado Gustave H. (Ralph Fiennes), que, além de ser o melhor concierge da região, não hesita em agradar as hóspedes de mais idade com noites regadas a champagne e sexo. Quando uma dessas visitantes frequentes, a milionária Céline Villeneuve Desgoffe und Taxis (Tilda Swinton irreconhecível sob pesada maquiagem vencedora do Oscar), morre aos 84 anos em sua mansão, ele resolve prestar suas últimas homenagens, atendendo a seu funeral. Para sua surpresa, porém, ele fica sabendo - junto com a ambiciosa família da falecida - que herdou um quadro de valor milionário, o que acaba lhe colocando em sérios apuros com a polícia: recusando-se a aceitar que a mãe tenha deixado tão valioso bem para um mero serviçal, o psicótico Dimitri (Adrien Brody) o acusa de assassinato e parte em sua captura, ao lado de seu violento capanga Jopling (Willem Dafoe). Quando eclode a II Guerra, cabe a Gustave provar sua inocência - contando, para isso, com o apoio de um clube secreto de concierges espalhados pelo mundo.


Dotado de um humor sofisticado que provoca mais sorrisos do que gargalhadas e de uma trama tão cheia de informações visuais que uma segunda sessão é mandatória, "O Grande Hotel Budapeste" é, tranquilamente, o melhor filme de Wes Anderson, refinando as características narrativas de "Os excêntricos Tenenbauns" e estilísticas de "Moonrise kingdom" e unindo-as em um espetáculo de qualidade estética ímpar. Único dos candidatos ao Oscar de fotografia a ser filmado em película - um feito digno de nota, especialmente quando se percebe a qualidade irretocável do meticuloso trabalho de Robert Yeoman - a obra de Anderson também é um triunfo de desenho de produção (também premiada pela Academia), tão impressionante com seus cenários grandiosos quanto a segurança do cineasta em equilibrar narrativas múltiplas sem perder o fio da meada ou confundir o espectador. Contando com um elenco acima de qualquer crítica - com destaque para Ralph Fiennes em raro registro cômico e Edward Norton em sua segunda parceria com o diretor, além da revelação Tony Revolori - o filme ainda se beneficia da inspirada trilha sonora (mais uma) de Alexandre Desplat, que comenta a ação como se fosse um personagem a mais e deu a ele uma merecida estatueta dourada. Ela é mais uma peça essencial em um dos mais empolgantes produtos cinematográficos dos últimos anos, um filme capaz de encantar qualquer fã da sétima arte e a prova cabal do talento de seu criador, até então escondido em pérolas de cinemateca - vulgo filmes amados por uma parcela de espectadores que não tem medo do diferente.

Ousado, criativo, original, inteligente. Faltam adjetivos para explicar porque "O Grande Hotel Budapeste" merece ser visto, revisto, trevisto e aplaudido todas as vezes. É um dos mais excitantes e inovadores produtos a sair de um lugar cada vez menos disposto a riscos como Hollywood. E além de tudo é uma comédia muito engraçada e excêntrica, que não precisa de um humor pastelão para arrancar risos. Precisa de mais motivos para ser genial?

quinta-feira

O PIANISTA

O PIANISTA (The pianist, 2002, R.P. Productions/Heritage Films, 150min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Ronald Harwood, livro de Wladyslaw Szpilman. Fotografia: Pawel Edelman. Montagem: Hervé de Luze. Música: Wojciech Kilar. Figurino: Anna Sheppard. Direção de arte/cenários: Allan Starski/Wieslawa Chojkowska, Gabrielle Wolff. Produção executiva: Timothy Burrill, Henning Molfenter, Lew Rywin. Produção: Robert Benmussa, Roman Polanski, Alain Sarde. Elenco: Adrien Brody, Thomas Kretschmann, Emilia Fox, Michal Zebrowski, Ed Stoppard, Maureen Lipman. Estreia: 24/5/02 (Festival de Cannes)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Roman Polanski), Ator (Adrien Brody), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Figurino
Vencedor de 3 Oscar: Diretor (Roman Polanski), Ator (Adrien Brody), Roteiro Adaptado
Palma de Ouro (Melhor Diretor) no Festival de Cannes: Roman Polanski

Diretor de obras aclamadas e queridas pela crítica e pelo público, como "O bebê de Rosemary" (68) e "Chinatown" (74), o polonês Roman Polanski - cuja vida pessoal é tão ou mais trágica e atribulada do que as tramas de seus trabalhos para as telas - declarou, em um documentário de 2011 chamado "Roman Polanski: a film memoir" que, dentre todos os seus filmes, o seu preferido é "O pianista", que ele lançou no Festival de Cannes de 2002 e que lhe rendeu a Palma de Ouro e o Oscar de melhor diretor. Não é para menos: assim como "A lista de Schindler" serviu para que Steven Spielberg fizesse as pazes com suas origens judaicas - e com a Academia - a história real do músico Wladyslaw Szpilman foi a desculpa perfeita para que Polanski (que perdeu a mãe em um campo de concentração durante a II Guerra Mundial) também voltasse os olhos para um período negro de sua vida como forma de catarse. O resultado é, em contraste com a força sentimental do filme de Spielberg, um retrato seco e cruel ao estilo pouco lírico do diretor que quase acabou com a festa de "Chicago" na cerimônia do Oscar de 2003 - além de Polanski, foram premiados o roteiro de Ronald Harwood e a atuação minimalista de Adrien Brody, que, aos 29 anos, tornou-se o mais jovem premiado da categoria.

Desde a primeira sequência - em que Szpilman mantém-se concentrado em terminar a peça musical que está tocando mesmo com a explosão de bombas que ameaçam o prédio da emissora de rádio onde trabalha, na Polônia de 1939 - fica claro que a intenção de Brody e Polanski é enfatizar a paixão do protagonista por sua arte, independente das circunstâncias nefastas que o cercam. Assim como todos os judeus de sua Varsóvia - incluindo sua família - ele se vê repentinamente privado de suas propriedades, de sua honra e de seus direitos de cidadão. Conforme a situação vai gradativamente piorando, ele vê famílias sendo destruídas, pessoas sendo assassinadas cruelmente nas ruas e, chocado, presencia a transferência de centenas de conhecidos para campos de concentração. Por obra do acaso - na figura de um amigo que o livra de tal destino - ele arruma emprego como pianista de um restaurante, mas logo é obrigado a levar uma vida clandestina, fugindo e se escondendo da impiedosa polícia nazista enquanto testemunha com cada vez maior pavor o aniquilamento de sua antiga vida.


Fotografado em tons cinzentos que contribuem para sublinhar o tom pessimista e melancólico da história, "O pianista" abdica das cenas lacrimosas para mostrar com austeridade os horrores da guerra sob o ponto de vista de uma de suas vítimas. Com seu olhar perdido e o ar desesperado, Szpilman atravessa a calamitosa - e longa - fase de sua vida não como um herói, mas como uma pessoa comum, um homem incapaz de fugir das armadilhas que lhe surgem pela frente sem sofrer na alma cada perda e cada angústia. A interpretação de Brody - frequentemente silenciosa e intimista - encaixa com perfeição na quase passividade do personagem, que justamente por não lutar contra a tempestade que cai em seus ombros chega quase a enervar a plateia. É mérito dele que haja o envolvimento emocional com a forma quase documental com que o roteiro é tratado - inclusive Polanski mesmo incluiu nos relatos de Szpilman suas próprias recordações de acontecimentos que presenciou na infância, o que aprofunda ainda mais a experiência dolorosa que é assistir-se ao filme.

"O pianista" é um filme forte, intenso e cruel, como toda a obra de Roman Polanski. Porém, é ainda mais excruciante por tratar de maneira realista e desprovida de sentimentalismo um período de trevas e dor que dizimou a vida e a esperança de milhares de pessoas. Talvez seja mal-entendido por aqueles que esperavam um novo "A lista de Schindler", mas é, ao lado dele, um dos mais poderosos retratos do holocausto e dos crimes da II Guerra Mundial, visto por quem estava dentro do furacão. De inegável impacto, não surpreende ser o preferido de seu autor.

sábado

O VERÃO DE SAM

O VERÃO DE SAM (The summer of Sam, 1999, 40 Acres & A Mule Filmworks/Touchstone Pictures, 142min) Direção: Spike Lee. Roteiro: Spike Lee, Victor Colicchio, Michael Imperioli. Fotografia: Ellen Kuras. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Terence Blanchard. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Thérèse DePrez/Diane Lederman. Produção executiva: Jerri Carroll-Colicchio, Michael Imperioli. Produção: Jon Kilik, Spike Lee. Elenco: John Leguizamo, Mira Sorvino, Adrien Brody, Jennifer Esposito, Michael Rispoli, Bebe Neuwirth, Patti Lupone, Anthony LaPaglia, Ben Gazzarra, John Savage, Spike Lee. Estreia: 20/5/99 (Festival de Cannes)

A ideia inicial de Spike Lee era contar em forma de filme, uma das histórias mais apavorantes vivenciadas pelos moradores de Nova York na década de 70, quando um serial killer auto-intitulado "O Filho de Sam" usou de um revólver calibre 44 para matar seis pessoas e ferir outras sete, sempre à noite, entre agosto de 1976 e julho de 1977 - um dos mais quentes da história da cidade. A contrariedade dos familiares das vítimas, que não gostaram nem um pouco de ver o algoz de seus entes queridos transformado em possível heroi mudou a perspectiva do polêmico cineasta: a trama central então, mudou de foco, e apesar dos assassinatos terem importância fundamental em "O verão de Sam", são apenas o pano de fundo para um conto sobre preconceito, intolerância e medo. Candente e dotado de um ritmo ágil e angustiante, o filme é um dos melhores da carreira do diretor de "Faça a coisa certa" e "Malcolm X", valorizado pelo cuidado com a reconstituição de época e com um elenco de atores certos nos papéis corretos.

O protagonista de "O verão de Sam" é Vinny (o ótimo John Leguizamo, que improvisou boa parte de seus diálogos, com o incentivo do diretor), um cabeleireiro mulherengo que gasta suas noites dançando nas discotecas do Bronx ao lado da esposa, Dionna (Mira Sorvino) - e frequentemente transando com qualquer rabo-de-saia que passe à sua frente, não importa se é a sua chefe, Gloria (Bebe Neuwirth) ou a prima de sua mulher. Em uma dessas puladas de cerca, ele escapa de ser assassinado pelo Filho de Sam, um serial killer que vem apavorando a cidade de Nova York. Acreditando que sua sorte é um sinal de Deus para que mude de vida, ele resolve tentar ser o melhor marido possível, ao mesmo tempo em que Dionna, para mantê-lo a seu lado, passa a buscar formas diferentes de satisfazê-lo sexualmente. Nesse meio tempo, um dos policiais encarregados do caso, Lou Petrocelli (Anthony LaPaglia), criado no Bronx, pede ajuda ao mafioso local, Luigi (Ben Gazzarra), para que colabore nas investigações com seu vasto conhecimento do submundo do crime. Tal pedido acaba por envolver na história um grupo de moradores do bairro, que, preconceituosos e ignorantes, passam a perseguir a todos aqueles que julgam possíveis suspeitos. Um deles, o jovem Richie (Adrien Brody), acaba por se tornar o principal acusado, somente por vestir-se como punk, tocar rock em bares pouco recomendáveis e, vez ou outra, prostituir-se.


Costurando suas histórias com um ritmo cadenciado que jamais permite tempos mortos em sua narrativa, Spike Lee constrói um potente estudo sobre a culpa e o preconceito, jogando na mesma mistura uma sexualidade explosiva e marginal - com direito a cenas de orgias e diálogos repletos de palavrões - e uma violência tanto física quanto moral exasperantes. Enquanto o criminoso Filho de Sam se vê torturado pelas vozes em sua cabeça (que o impelem a matar), Richie é vítima de todos os tipos de preconceito, que surgem dentro de sua própria casa e se estendem pelas ruas de seu bairro. A forma como o roteiro trata Richie - um homem inocente destruído por suspeitas aleatórias - lembra os clássicos de Hitchcock, mas aquecidos a uma temperatura quase insuportável, refletida na fotografia quase em tom documental de Ellen Kuras e no desenho de som, que transforma a narrativa em um pesadelo kafkiano. Uma pena, porém, que Lee não tenha mantido a ousadia até o final, refreando a crueldade que poderia dar à mensagem do filme uma ênfase ainda mais contundente.

Afora esse pequeno senão, "O verão de Sam" tem de tudo para agradar a todos os paladares: é um filme policial competente - ainda que o roteiro não se detenha nas investigações em si -, é um drama romântico sensual, tem sequências musicais bem dirigidas (calma, nada de cantorias, apenas coreografias bem elaboradas ao som de música disco), um elenco bem dirigido e uma trilha sonora deliciosa com sucessos da década de 70 - ABBA, The Who, Thelma Huston. Nem mesmo sua longa duração - duas horas e meia - chega a ser um defeito, uma vez que a edição tem um invejável senso de ritmo e a história nunca deixa de ser interessante o bastante para manter a atenção da plateia. Um grande filme, que se apropria de uma das mais assustadoras lendas da crônica policial norte-americana para falar de pessoas comuns, vítimas da ignorância e do preconceito. Vale a pena assistir ou revisitar.

domingo

MEIA-NOITE EM PARIS

MEIA-NOITE EM PARIS (Midnight in Paris, 2011, Gravier Productions, 94min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Sonia Grande. Direção de arte/cenários: Anne Seibel/Hélène Dubreuil. Produção executiva: Javier Méndez. Produção: Letty Aronson, Jaume Roures, Stephen Tenenbaum. Elenco: Owen Wilson, Marion Cottilard, Rachel McAdams, Michael Sheen, Kathy Bates, Corey Stoll, Adrien Brody, Alison Pill, Tom Hiddleston, Carla Bruni, Léa Seydoux. Estreia: 11/5/11 (Festival de Cannes)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Roteiro Original, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro

Fazer um filme por ano há mais de três décadas não é para qualquer um. Woody Allen não É qualquer um. Somente entre 2000 e 2010 ele equilibrou-se em filmes apenas eficientes (“Dirigindo no escuro”, “Tudo pode dar certo”, “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos”), alguns deslizes (“Melinda e Melinda”, “O escorpião escarlate”), filmes subestimados (“O sonho de Cassandra”, “Igual a tudo na vida”), sucessos de crítica (“Vicky Cristina Barcelona”) e duas obras-primas. A primeira, de 2005, é “Match point: ponto final”, um drama com elementos de suspense que vai fundo na releitura de “Crime e castigo”, de Dostoievsky. A outra é “Meia-noite em Paris”, uma deliciosa, brilhante e charmosa homenagem à Cidade-luz e seus dourados anos 20. Indicada ao Oscar de melhor filme do ano – feito que somente o multipremiado “Noivo neurótico, noiva nervosa” havia conseguido, em 1977 – a história do mergulho do aspirante a escritor Gil Pender na atmosfera féerica que inspirou Ernest Hemingway a escrever o clássico “Paris é uma festa” acabou conquistando a merecidíssima estatueta de roteiro original no mesmo ano em que a Academia parecia ter descoberto o fascínio pelo passado – “O artista”, um filme mudo e em preto-e-branco dirigido pelo francês Michel Hazanivicius e que falava sobre os primórdios do cinema, foi o grande vencedor.
Enquanto “O artista” acompanhava a decadência de um astro do cinema mudo com a chegada do som à indústria do cinema, “Meia-noite em Paris” percorre um caminho inverso: na obra estrelada por Jean Dujardin (também vencedor de um Oscar) é o futuro que atropela o protagonista, na forma da ameaçadora tecnologia que lhe arrancará do topo da popularidade; no filme de Allen, quem surge do nada e surpreende o protagonista é o passado, na forma de um virtual portal para um período em que as festas da capital francesa eram frequentadas por gente do porte de Hemingway, F. Scott Fitzgerald e sua mulher Elsa, Gertrude Stein, Pablo Picasso e Cole Porter – não por acaso, ídolos máximos do roteirista de cinema com ambições de tornar-se escritor e mudar-se para a cidade e aproveitar tudo que ela pode oferecer, desde sua paisagem e seu clima cultural até a chuva que ele enxerga com olhos românticos (ao contrário de sua materialista e patricinha noiva). O ator vivido por Dujardin luta contra o inevitável. O escritor interpretado por Owen Wilson – na melhor atuação de sua carreira – se entrega à inusitada situação com deleite extremo (e quem não o faria?). Porém o filme de Allen não se deixa limitar pelas amarras de uma piada única: engraçado, elegante e inteligente, “Meia-noite em Paris” até pode agradar muito mais àqueles que tem uma noção mais específica de literatura, arte e música, mas é impossível não se deixar envolver por sua atmosfera lúdica e nostálgica.
Gil Pender, o protagonista, visita Paris como alguém fascinado por sua história, sua cultura e sua aura. Deseja morar na cidade e beijar sob a chuva que cai à noite sobre suas charmosas ruas. Sua noiva, Inez (Rachel McAdams) só quer saber de aproveitar as promoções e comprar artigos de decoração para sua nova casa em Hollywood – e não perde nenhuma chance de comparar (negativamente) o noivo a um antigo namorado que encontra por acaso no país, o pedante Paul(Michael Sheen). Enquanto ela vê Paris como um mero shopping-center, Pender se descobre repentinamente capaz de viajar para o passado: caminhando sem rumo pela cidade em uma noite, ele entra em um mundo povoado por todos aqueles ídolos a quem sempre venerou e, a princípio atônito e posteriormente agradecido aos céus, tem a chance de pedir que Gertrude Stein (Kathy Bates) leia seu romance e lhe dê conselhos a respeito – assim como também faz amizade com o hedonista Ernest Hemingway (Corey Stoll, fabuloso) e com o enlouquecido casal Fitzgerald (Tom Hiddlestone e Alisson Pill). Frequentando saraus, festas e reuniões, ele acaba se apaixonando perdidamente por Adriana (Marion Cottilard), musa e amante de Pablo Picasso – e passa a considerar seriamente a hipótese de nunca mais voltar ao século XXI. E é aí que Allen mostra seu gênio.


O que até então era apenas uma deliciosa brincadeira com a festa ambulante que era a capital francesa nos anos 20, transforma-se repentina e inteligentemente em uma discussão sobre as dores e delícias de se estar em um mundo com o qual não se tem afinidades culturais e sociais. Pender é um sujeito norte-americano do século XXI que sonha viver em uma cidade europeia dos primeiros anos do século anterior. Sua amante vive nesse que ele considera seu paraíso particular, mas, insatisfeita, preferiria estar passeando pelas ruas e cabarés da belle époque, socializando com Toulouse-Lautrec. E o espectador, deliciado na plateia, fica a perguntar-se se qual o endereço de seu Xangri-lá. Com sutileza e bom-humor, Allen mostra que nenhuma época da história é tão perfeita quanto se pode sonhar e, com isso, permite ao público uma viagem segura e delicada a seus mais recônditos desejos nostálgicos. Sem medo de mergulhar fundo na fantasia – da mesma forma que já havia feito com enorme êxito no belo “A rosa púrpura do Cairo” (85) – o cineasta permite a seus personagens que assumam sem medo seus anseios e dá a seu desfecho um tom de otimismo capaz de derreter até ao mais cínico coração.
É claro que o espectador familiarizado com a obra de Hemingway, Fitzgerald, Gertrude Stein, Picasso, Luis Buñuel e Salvador Dalí vai encontrar ainda mais motivos para se divertir com “Meia-noite em Paris”, mas o que nas mãos de outro diretor poderia soar como um pedantismo oco e gratuito se torna um charme extra ao filme de Allen, premiado com extrema justiça com o Oscar de roteiro original. Fotografado com carinho e inteligência pelo ótimo Darius Khondji – cujo currículo inclui “Seven, os sete crimes capitais”, “Evita” e “Beleza roubada” – e com um elenco onde se destaca o pouco conhecido Corey Stoll (da telessérie “House of Cards”) como Ernest Hemingway e o sempre competente Michael Sheen como o arrogante Paul, “Meia-noite em Paris” é um ponto altíssimo na carreira de Allen, recheada de grandes filmes. Imperdível!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...