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domingo

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE


ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE (Giant, 1956, Warner Bros., 201min) Direção: George Stevens. Roteiro: Fred Guiol, Ivan Moffat, baseado no romance de Edna Ferber. Fotografia: William C. Mellor. Montagem: William Hornbeck. Música: Dimitri Tiomkin. Produção: Henry Ginsberg, George Stevens. Elenco: Elizabeth Taylor, Rock Hudson, James Dean, Mercedes McCambridge, Dennis Hopper, Carroll Baker, Sal Mineo. Estreia: 24/11/56

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (George Stevens), Ator (James Dean e Rock Hudson), Atriz Coadjuvante (Mercedes McCambridge), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte
Vencedor do Oscar de Melhor Diretor (George Stevens)


Mais que um Estado americano, o Texas é um estado de espírito. Pelo menos é isso que depreende-se de "Assim caminha a humanidade", terceiro e derradeiro capítulo do que foi convencionado pela crítica chamar de "trilogia" e que dava seguimento a "Um lugar ao sol" e "Os brutos também amam". São necessárias muitas elocubrações intelectualóides e psicossociais para tentar entender a razão de alocá-los em um mesmo conjunto ideológico, mas não é preciso pensar muito para ter uma certeza absoluta: cada um, dentro de seu gênero e de suas ambições, é uma obra-prima indiscutível.

Seguindo um rumo oposto à quase instrospecção visual e psicológica de "Um lugar ao sol", "Assim caminha a humanidade" - baseado em um livro de Edna Ferber - é um épico grandioso, imponente e ambicioso, narrando a vida de uma família texana através de 25 anos, confrontando-a com problemas racias, a guerra e a mudança de mãos de poder e de dinheiro - graças, no caso, à exploração de petróleo. Contando com a vasta paisagem do Texas como uma personagem a mais em sua narrativa, Stevens criou uma saga fascinante, que, a despeito de sua longa duração (mais de três horas) em nenhum momento se torna cansativa, desnecessária e/ou anacrônica. Ao contrário de muitos dos filmes feitos em sua época, "Assim caminha..." ainda mantém intactas suas principais qualidades: o roteiro forte, a contundente crítica social e principalmente o notável elenco, em atuações impecáveis.

Último filme que James Dean fez antes de espatifar seu Porsche em uma estrada da Califórnia, "Assim caminha a humanidade" deu ao ator sua segunda indicação póstuma ao Oscar, que ele disputou com seu colega de elenco, Rock Hudson, então entrando no auge de sua carreira (no mesmo ano ele estaria em "Palavras ao vento" e começaria em breve uma bem-sucedida parceria com Doris Day em uma série de comédias românticas). E se Elizabeth Taylor já estava na estrada há tempos, uma vez que começou sua carreira ainda criança, aqui ela atinge a maturidade necessária para firmar-se como atriz adulta (e levaria seu primeiro Oscar em 4 anos, por "Disque Butterfield 8"). Juntos, eles dão a exata noção de porque ainda são considerados mitos absolutos da sétima arte. Lutando pelo amor da estonteante Liz Taylor através de mais de duas décadas, o gigantesco Hudson e o diminuto Dean se imortalizaram na retina e no coração de legião de fãs. É impossível desviar o olhar da tela quando qualquer um deles está em cena. E levando-se em consideração que os três são os protagonistas absolutos do longa-metragem, são 200 minutos de puro deleite, com o que de melhor Hollywood poderia oferecer em 1956, em termos de espetáculo e conteúdo.


A afirmação inicial deste texto, de que o Texas é um estado de espírito, é a primeira conclusão de Leslie Lynton (Taylor), uma quase dondoca sofisticada e de temperamento forte quando chega à casa do marido, o rústico Jordan Benedict II (Hudson). Dono de uma fazenda gigantesca, Reata, que dirige ao lado da irmã solteirona, Luz (Mercedes McCambridge, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), Benedict tem ideias muito próprias a respeito de como tratar as mulheres, os amigos e principalmente os empregados, quase todos mexicanos e tratados com quase desprezo. Indignada com o que presencia, Leslie aos poucos passa a tentar mudar o pensamento do marido, buscando tratar os criados com delicadeza, respeito e dando-lhes o mínimo de assistência médica. Seus atos incomodam seu marido, mas a aproximam de Jett Rink (Dean), que trabalha na fazenda graças à proteção de Luz, que o tem como um filho. Quando Luz morre depois de um acidente e deixa um pedaço de terra a Jett a relação entre ele e Jordan (chamado carinhosamente de Bick pela esposa) fica ainda mais difícil, chegando a ficar insustentável depois que Jett descobre petróleo em sua propriedade. Muitos anos depois, novos problemas ameaçam a estabilidade da família Benedict. Enquanto Jett fica a cada dia mais rico, Bick é obrigado a lidar com os fatos de que seu único filho homem (Dennis Hopper) pretende cursar medicina e cuidar das famílias carentes da região - além de casar-se com uma mexicana - e que sua caçula, Luz II (Carroll Baker) está interessada romanticamente no seu maior inimigo.

É difícil acreditar que "Assim caminha a humanidade" tenha perdido o Oscar de Melhor Filme para "Volta ao mundo em 80 dias". Aliás, é difícil acreditar que, de suas dez indicações, apenas George Stevens tenha levado um prêmio pra casa. Ainda que absolutamente merecida, sua estatueta não reflete com exatidão a qualidade insuperável do filme (não que ganhar Oscar seja garantia de alguma coisa, com bem o sabem os fãs de bom cinema). Fotografada com precisão por William C. Mellor (que dá à vastidão quase desértica do Texas a importância de um quarto protagonista), a saga da família Benedict é pontuada ainda com uma belíssima trilha sonora de Dimitri Tiomkin e com uma edição enxuta (ainda que seja bastante extenso, o filme não desperdiça nenhuma cena, utilizando cada enquadramento para fortalecer suas ideias). Até mesmo seu posicionamento a favor da tolerância racial soa moderno nos politicamente corretos dias de hoje, sem que apele em momento algum para a emoção fácil ou force uma empatia com qualquer das personagens.

E o que dizer das personagens? Poucas vezes se viu um épico com as proporções de "Giant" com tanto cuidado no desenvolvimento de suas personagens. Leslie Lynton, Jett Rink e Bick Benedict são tão críveis em seu amadurecimento (ou não, no caso de Rink, que nunca consegue abandonar o sentimento de inferioridade, mesmo com todo o dinheiro que ganha) que é difícil não envolver-se com seus dilemas, suas dúvidas e até mesmo com suas certezas. Leslie é uma mulher criada no conforto que precisa adaptar-se a um mundo novo depois de casar-se - e se sai admiravelmente bem! Jett Rink precisa encarar as próprias limitações que sua origem social lhe impusera para subir na vida e sentir-se "digno" do amor da mulher por quem é apaixonado (mesmo que décadas depois isso tenha que vir com a filha dela). E Bick Benedict se vê forçado a engolir seu preconceito e racismos incutidos pela mentalidade arcaica de sua família quando percebe que não conseguirá deter o destino e que seus filhos aceitariam morrer por ele... mas não viver por ele!

Apesar do cuidado do roteiro e da direção com as personagens secundárias (e isso inclui principalmente a irmã de Bick, a solitária Luz), é em seu elenco principal que "Assim caminha a humanidade" se sustenta. Irradiando carisma, garra e sex-appeal, Rock Hudson, James Dean e Elizabeth Taylor provam sem espaço para dúvidas que para se fazer um épico é preciso mais do que ambição: é imprescindível que se tenha talento.

terça-feira

JUVENTUDE TRANSVIADA


JUVENTUDE TRANSVIADA (Rebel without a cause, 1955, Warner Bros., 111min) Direção: Nicholas Ray. Roteiro: Stewart Stern, baseado em uma ideia de Nicholas Ray adaptada por Irving Schulman. Fotografia: Ernest Haller. Montagem: William Ziegler. Música: Leonard Rosenman. Figurino: Moss Mabry. Produção: David Weisbert. Elenco: James Dean, Natalie Wood, Sal Mineo, Jim Backus, Ann Doran, Edward Platt, Corey Allen, Frank Mazzolla, Dennis Hopper, Marietta Canty. Estreia: 27/10/55

3 indicações ao Oscar: Ator coadjuvante (Sal Mineo), Atriz Coadjuvante (Natalie Wood), História Original

No início de 1955, James Dean ainda não era James Dean, pelo menos na concepção de sua imagem que temos hoje em dia. "Vidas amargas", seu primeiro filme, ainda não havia estreado e tudo o que se sabia dele é que era mais um adepto do "método" do Actors Studio (ainda que o tenha abandonado depois de poucas aulas), que era um obcecado por Marlon Brando e que havia enervado seu diretor Elia Kazan e seu co-astro Raymond Massey durante as filmagens de "Vidas". No final de outubro do mesmo ano, quando seu filme seguinte, "Juventude transviada" estreou, James Dean já era James Dean. Louvado como ator e idolatrado como símbolo de uma juventude rebelde, ele tinha mais um filme pronto para estrear (ao lado de Rock Hudson e Elizabeth Taylor) e já tinha deixado sua marca na história do cinema. Tinha 24 anos. E estava morto.

James Dean morreu em um acidente de carro em 30 de setembro de 1955 e não pode aproveitar todo o sucesso que fez. Talvez nem mesmo quisesse. Dono de uma personalidade que, segundo aqueles que o conheceram, poderia ir da doçura à agressividade em questão de segundos, ele era a antítese do astro de cinema (talvez inspirado por Brando, talvez por escolha própria). Um tanto excêntrico, um bocado desregrado e pouco disposto a seguir os caminhos que os estúdios insistiam em lhe mostrar, Dean era a voz que os jovens queriam ouvir naquela época pré-nuclear, onde o rock ainda engatinhava e os adolescentes não tinham um espelho onde mirar-se. Nada mais natural que ele fosse o protagonista do filme que mudaria para sempre a maneira com que Hollywood via seus jovens. Influente até hoje, 55 anos depois de seu lançamento, "Juventude transviada" fixou a imagem de James Dean como símbolo máximo da rebeldia juvenil e, mesmo visto nos cínicos dias atuais, ainda mantém intacta sua aura de transgressor. Agradeça a seu diretor Nicholas Ray.

Incensado na década de 60 pela revista francesa "Cahiers du Cinèma" como um cineasta autoral, Ray mostrou, durante a feitura de "Juventude" que mereceu carregar esse título. Lutando incansavelmente contra a Warner para manter seus pontos de vista e batalhando contra o calendário (e o amadorismo de seu elenco de jovens), o cineasta é o maior responsável pelo resultado final do filme, cujas origens remontam a uma luta pessoal consigo mesmo. Segundo o livro "Live fast, die young: the wild ride of making Rebel without a cause", de Lawrence Frascella e Al Weisel (que dissecam cada aspecto da realização do filme), a primordial intenção de Ray ao iniciar a produção era tentar um contato com a geração imediatamente posterior à sua (que incluia principalmente seu filho mais velho, com quem ele cortou relações ao flagrá-lo dormindo com sua mulher...). Ao assistir-se ao filme percebe-se claramente que ele o conseguiu.


"Juventude transviada" começa quando o jovem Jim Stark (vivido com naturalidade e garra por Dean) vai preso por bebedeira, logo que chega a Los Angeles, para onde mudou-se com os pais disfuncionais (Jim Backus e Ann Doran). Na delegacia, ele tem seu primeiro contato com a problemática Judy (Natalie Wood), que vive uma relação de conflito com o pai (vivido pelo filho da colunista de fofocas Hedda Hopper) e com o carente Plato (Sal Mineo), praticamente criado pela empregada doméstica (Marietta Canty). Os três estudam na mesma escola, Dawson High (cujo nome inspirou Kevin Williamson a batizar seu seriado "Dawson's Creek"), mas são tão distantes quanto semelhantes. Logo que chega à escola, Jim arruma briga com o valentão Buzz (Corey Allen), líder de uma gangue de jovens delinquentes e, em consequência disso, acaba aceitando o desafio de participar de uma "chickie run". Em outras palavras, ele topa participar de uma espécie de racha, onde perde quem saltar por último de um carro em movimento, rumo a um precipício. Um trágico acidente mata Buzz e, temendo que Jim os denuncie à polícia, o grupo de rebeldes passa a perseguir o novato, que se esconde, junto a Judy e Plato, em uma mansão abandonada. Perseguidos pela gangue e pela polícia, os três descobrem uma nova forma de família enquanto tentam escapar de um destino trágico.

Aparentemente, em uma análise superficial, "Juventude transviada" pode parecer apenas mais um filme feito para adolescentes (ainda que seja muito superior em temática e resultado final aos seus congêneres da época). Mas basta uma olhada mais atenta para que certos aspectos sejam percebidos e admirados. Não deixa de ser absolutamente inovador (e corajoso) unir Jim, Judy e Plato como um novo núcleo familiar (hoje em dia todos sabem que os adolescentes tem seus amigos como uma nova família). Também é surpreendente como, em plenos repressores anos 50, um filme tenha tido a coragem de colocar, como um de seus protagonistas, um adolescente cuja sexualidade é evidentemente dúbia, em uma atuação marcante de Sal Mineo, que carregou o peso do papel pelo resto de sua carreira encerrada violentamente em 1976. E até mesmo a relação entre Judy e seu pai tem ecos freudianos, mais uma prova da tentativa de Ray em empurrar ao máximo os limites impostos pela mesmice dos produtos dirigidos ao público jovem da época. Nem mesmo aquelas consideradas suas falhas (a pretensa superficialidade das personagens mais velhas, por exemplo) chegam a incomodar, uma vez que o show aqui é da juventude, em um elenco escolhido a dedo pelo diretor.

Analisar todos os aspectos de "Juventude transviada" é tarefa inglória, especialmente depois da leitura do livro de Frascella e Weisel. Cada cena do filme tem tantas nuances, tantas camadas e tantas leituras que fica difícil escolher uma vertente para comentá-las. O jeito é assisti-lo e admirar-se com seu CinemaScope grandioso, com sua coragem em lidar com alguns temas espinhosos, com a química impressionante entre Dean, Natalie Wood e Sal Mineo e com seu final melancólico e por isso mesmo inesquecível. E suspirar pela grande perda ocorrida no dia 30 de setembro de 1955, quando Dean saiu da vida pra entrar na história.

PS - Assim como aconteceu com "Casablanca" também tive a oportunidade de assistir a "Juventude transviada" no cinema, em tela grande... Experiência inesquecível! Me senti, eu juro, como se estivesse em 1955...

quinta-feira

VIDAS AMARGAS


VIDAS AMARGAS (East of Eden, 1955, Warner Bros., 115min) Direção: Elia Kazan. Roteiro: Paul Osborn, baseado no romance de John Steinbeck. Fotografia: Ted McCord. Montagem: Owen Marks. Música: Leonard Rosenman. Elenco: James Dean, Julie Harris, Raymond Massey, Jo Van Fleet, Richard Davalos. Estreia: 09/3/55

4 indicações ao Oscar: Diretor (Elia Kazan), Ator (James Dean), Atriz Coadjuvante (Jo Van Fleet), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Jo Van Fleet)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama

Reza a lenda - e não há porque ser apenas uma lenda - que o escritor John Steinbeck, quando conheceu James Dean, antes do início das filmagens da adaptação de sua obra-prima "A leste do Éden" por Elia Kazan, disse para quem quisesse ouvir: "Este É Cal!", referindo-se a um dos protagonistas da obra. E se o próprio criador da personagem o afirmou com tanta segurança, discordar quem há de? Mesmo porque, basta se assistir aos primeiros minutos de "Vidas amargas" (como foi batizado em português o filme de Kazan) para que qualquer dúvida a respeito da certeza do escritor se dissipe rapidamente. Até mesmo aqueles que nunca leram o livro no qual o filme é baseado (o que não deixa de ser um pecado, uma vez que o livro é FABULOSO!!!!) não podem deixar de concordar que poucas vezes um ator e sua personagem tiveram um casamento tão perfeito. James Dean realmente É Cal Trask. Duvida?

"Vidas amargas" se passa em 1917, às vésperas da I Guerra Mundial, na pequena cidade agrícola de Salinas. Lá, vive o religioso e rígido Adam Trask (Raymond Massey), que criou sozinho os dois filhos depois da morte da esposa, por quem era loucamente apaixonado. Seu alto grau de exigência em relação aos filhos acaba sempre colocando-o em rota de colisão com o caçula, Caleb (James Dean), cuja relação com preceitos religiosos e regras pré-estabelecidas não é das melhores. O eterno conflito entre os dois naturalmente faz com que Adam tenha uma afinidade muito maior com o mais velho, Aron (Richard Davalos), um rapaz sério, trabalhador e ciente de seus deveres familiares, religiosos e sociais. Sentindo-se sempre rejeitado (não sem uma certa razão), Cal busca desesperadamente conquistar a admiração e o amor do pai, nem sempre utilizando de métodos ortodoxos para isso. O ápice de sua luta pelo carinho paterno acontece quando ele descobre que sua mãe na verdade não morreu - ela abandonou a família e montou um bem-sucedido bordel na cidade vizinha - e pede a ela dinheiro emprestado para repor a pequena fortuna que seu pai perdeu em um negócio equivocado. Incompreendido por todos à sua volta, resta a Cal apenas a amizade (amor?compreensão?) de Abra (Julie Harris), a noiva de seu irmão.

Por que James Dean É Cal Trask? Biógrafos e psicanalistas de plantão poderiam dar mil razões (todas elas provavelmente acertadas), mas o que mais salta aos olhos é a similaridade entre a relação pai/filho entre Cal e Adam e Dean e seu próprio genitor. Praticamente abandonado por Winston Dean depois da morte da mulher, o pequeno Jimmy foi criado por tios e nunca teve um relacionamento feliz e estável com seu pai, a quem tentava agradar mais do que a todos no mundo. Winston queria que James seguisse uma carreira mais "séria" e em nenhum momento se deixou orgulhar-se do filho (pelo menos enquanto este estava vivo). Sabendo desse detalhe da vida do jovem ator fica difícil não emocionar-se ainda mais com suas cenas ao lado de Raymond Massey. O que está em cena não é apenas uma personagem batalhando pela aceitação e admiração do pai: é James Dean (pouco) disfarçado buscando o amor de seu familiar mais próximo e ao mesmo tempo mais distante.


Hoje sabe-se que Elia Kazan - que não tornou-se um dos maiores fãs de Dean depois de trabalhar com ele - incentivava, nos bastidores, a discórdia entre o iniciante ator e o veterano Raymond Massey, que não gostava do "método" com que Dean trabalhava. Dean, fã de Marlon Brando quase às raias da obsessão, tentava imitar-lhe (ou seja, falava com uma dicção quase ininteligível, improvisava, buscava mais a emoção do que a técnica) e incomodava Massey. Kazan não tentava apaziguar os ânimos, utilizando a hostilidade entre eles como matéria-prima de suas cenas mais emocionais. Quem pode dizer que não deu certo? Alguém pode reclamar de algumas das melhores cenas da carreira do diretor, como a discussão à mesa de jantar quando Cal recusa-se a ler a Bíblia da maneira com que Adam deseja ou a decepção do rapaz ao ver seu presente de aniversário rejeitado? James Dean e Raymond Massey em cena soltavam faíscas. E quem ganhou foi o público.

Mas "Vidas amargas" não é somente James Dean. Ainda que seja praticamente impossível tirar os olhos do ator quando ele está em cena (assim como acontecia com seu ídolo Marlon Brando), o filme de Elia Kazan tem méritos que seriam suficientes para fazê-lo sobreviver ao tempo mesmo que seu elenco fosse outro (e quase foi!! Marlon Brando mesmo foi cotado para o papel de Cal, ao lado de Montgomery Clift como Aron). O próprio John Steinbeck supervisionou o processo de filmagem, e aprovou o resultado final - vale lembrar que o filme adaptou apenas a segunda parte do extenso (644 páginas na edição mais recente pela Record) romance do autor, centrando-se na disputa dos dois irmãos pelo amor do pai (uma clara alusão à história de Caim e Abel). A bela fotografia em Technicolor de Ted McCord e a música de Leonard Rosenman contribuem lindamente para o resultado final e Jo Van Fleet, como Kate, a mãe de Cal e Aron, levou um Oscar de atriz coadjuvante por sua atuação (ainda que apareça bem pouco, suas cenas são cruciais para o desenvolvimento da ação).

"Vidas amargas" não é o melhor filme de Elia Kazan nem tampouco de James Dean. Kazan é dono de obras-primas como "Sindicato de ladrões" e "Uma rua chamada pecado" e Dean, mesmo morrendo seis meses após a estreia do filme ainda deixaria sua marca em dois outros grandes clássicos: "Juventude transviada" (que firmaria sua imagem icônica de rebeldia) e "Assim caminha a humanidade" (que daria um respeito póstumo a seu trabalho como ator). Mas é um filme dramaticamente forte e realizado com o brilhantismo habitual de Kazan. Ainda que esbarre em alguns pequenos problemas de ritmo e tenha um elenco coadjuvante um tanto quanto anêmico (Julie Harris e Richard Davalos são o melhor exemplo), "Vidas amargas" é a respeitável adaptação de um dos maiores romances do século. Convenhamos que não é pouca coisa!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...