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segunda-feira

A DAMA DAS CAMÉLIAS

A DAMA DAS CAMÉLIAS (Camille, 1936, MGM, 109min) Direção: George Cukor. Roteiro: Zoe Akins, Frances Marion, James Hilton, romance e peça teatral de Alexandre Dumas Filho. Fotografia: William Daniels. Montagem: Margareth Booth. Música: Herbert Stothart. Figurino: Adrian. Direção de arte/cenários: Cedric Gibbons/Henry Grace, Jack D. Moore. Produção: Bernard H. Hyman, Irving Thalberg. Elenco: Greta Garbo, Robert Taylor, Lionel Barrymore, Elizabeth Allan, Jessie Ralph. Estreia: 12/12/36

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Greta Garbo)

Logo no início de "A dama das camélias" - caprichada versão da MGM da famosa peça teatral de Alexandre Dumas Filho (por sua vez adaptado de seu próprio romance) - a protagonista, Marguerite Gautier confunde o jovem Armand Duval com um poderoso empresário que poderá lhe servir como novo amante. Famosa cortesã da Paris da metade do século XIX, ela acaba por se apaixonar por Armand graças a esse pequeno mal-entendido inicial. Se alguém reconhecer a cena e não souber de onde, basta lembrar de "Moulin Rouge", lançado por Baz Luhrmann em 2001: em sua inesquecível colcha de retalhos pop, o cineasta australiano fez com que Nicole Kidman e Ewan McGregor iniciassem sua história de amor da mesma maneira - e no decorrer do roteiro ainda deu um jeitinho de fazer outras explícitas homenagens à sua grande inspiração. Não é para menos: com uma belíssia Greta Garbo no papel de Marguerite - ou Camille, devido à sua paixão por camélias - o filme de George Cukor, conhecido por seu talento em arrancar interpretações viscerais de suas estrelas, é uma das mais arrebatadoras histórias de amor de sua época e uma das maiores influências do gênero - tanto no cinema quanto na teledramaturgia.


Escolhido pela própria Garbo como seu filme preferido dentre toda a sua obra, "A dama das camélias" tem uma história mais do que conhecida, graças a suas constantes imitações, homenagens, refilmagens e modernizações. Mesmo assim, em boa parte devido à força da atriz e da direção de Cukor, muitas vezes deixa a plateia encantada com sua fluência e coragem em eleger, em plena década de 30, uma prostituta como personagem principal. Essa ousadia reflete a do próprio Dumas, cuja peça original estreou em 1852, na mesma Paris que lhe serve de cenário: baseando Marguerite em uma jovem com ele mesmo havia tido um avassalador relacionamento e que havia morrido com apenas 23 anos, o autor acabou por criar um dos mais icônicos e duradouros personagens românticos da história. O fato de que tal personagem ter encontrado em determinado momento de sua trajetória uma intérprete do gabarito de Greta Garbo é, no mínimo, mágico. E à plateia resta admirar tal casamento.


Como dito anteriormente, a trama de "A dama das camélias" é uma daquelas que todos conhecem, talvez até como parte do inconsciente coletivo. Marguerite Gautier é uma cortesã francesa tão admirada quanto invejada nos altos círculos da sociedade parisiense. Como forma de garantir seu sustento, ela aceita os favores de um aristocrata, o Barão de Varville (Henry Daniell), mas sente-se incapaz de resistir aos encantos do jovem Armand Duval (Robert Taylor), filho de um influente empresário da cidade. Os dois passam a viver um romance idílico, mas ela esconde do rapaz a constante piora de sua saúde. Além disso, a pressão do pai de Armand para que ela o abandone começa a minar a relação a ponto de testar seu amor. A vida frívola e inconsequente de Marguerite se vê, então, diante do dilema de manter a felicidade romântica ao lado do homem que ama ou salvá-lo da desgraça de tornar-se um pária junto à sociedade.

Conduzido com extrema elegância e sutileza por um cineasta ciente do poder de sua estrela, "A dama das camélias" é um melodrama romântico à moda antiga. Explorando ao máximo o glamour e o charme tanto de Greta Garbo quanto dos cenários que a rodeiam, o filme de Cukor é uma aula de sofisticação. Sem exagerar nem nas lágrimas nem nos momentos mais leves, o roteiro mantém um ritmo que equilibra com extrema competência os elementos dramáticos e o tom quase etéreo que acompanha a vida de Marguerite em sua vida boêmia. Quando chega a seu clímax é impossível não se deixar levar pela emoção provocada por uma história honesta, simples e bem interpretada por um dos maiores mitos do cinema. Imperdível!

TEMPOS MODERNOS

TEMPOS MODERNOS (Modern times, 1936, Charles Chaplin Productions/United Artists, 87min) Direção e roteiro: Charles Chaplin. Fotografia: Ira Morgan, Roland Totheroh. Montagem: Charles Chaplin, Willard Nico. Música: Charles Chaplin. Direção de arte/cenários: Charles D. Hall/J. Russell Spencer. Produção: Charles Chaplin. Elenco: Charles Chaplin, Paulette Goddard, Henry Bergman, Stanley Sandford. Estreia: 05/02/36

Convencido de que o cinema sonoro havia realmente chegado para ficar e não era apenas uma fase transitória - como havia pensado logo que a novidade aportou em Hollywood - Charles Chaplin finalmente decidiu que já era hora de ceder em sua firme decisão de manter-se mudo. Escreveu um roteiro inteiro com diálogos, tendo seu Carlitos como protagonista, mas, para surpresa de muitos (e como esperado por outros tantos) mudou de ideia na última hora. Afinal de contas, sendo coerente com toda a sua filmografia anterior, o vagabundo que lhe deu fama, prestígio e dinheiro não poderia encerrar sua carreira nas telas falando, como se fosse um personagem qualquer. Sendo assim, "Tempos modernos", o último filme mudo do grande Chaplin também foi a despedida de Carlitos. E ele não poderia ter ido embora - na clássica cena final - em melhor estilo: ao mesmo tempo uma feroz crítica à frieza da era industrial e uma deliciosa comédia física repleta de sequências sensacionais, o filme encerrou, por ser também o último filme mudo realizado em Hollywood (sem contar paródias e posteriores homenagens), uma era do cinema americano com chave de ouro.

Lançado em plena Depressão americana - pós-quebra da bolsa de Nova York em 1929 - "Tempos modernos"  mostra, em forma do típico humor aparentemente ingênuo de Chaplin, a opinião do cineasta em relação à automatização do mundo, em detrimento dos seres humanos, frequentemente oprimidos em fábricas que os tratam como animais (como fica evidente em várias sequências) ou empregados descartáveis. Tais pensamentos políticos acabaram se revelando, alguns anos depois, nocivos ao próprio diretor, quando, investigado pelo Comitê de Atividades Anti-americanas e taxado como comunista, viu-se impedido de voltar aos EUA por mais de vinte anos. Talvez os americanos devessem também ter ficado contrariados com Mahatma Gandhi: foi em uma conversa com o líder indiano sobre a dominação das máquinas sobre as pessoas que Chaplin teve a ideia para seu roteiro.


Utilizando apenas efeitos sonoros - até mesmo como forma de ilustrar suas ideias a respeito do progresso e da modernidade na sociedade - Chaplin conta a história de um homem comum (seu conhecido vagabundo) que começa o filme enlouquecendo com o trabalho mecânico em uma fábrica, que, além de obrigá-lo a um trabalho repetitivo, ainda o usa como cobaia em um teste de uma máquina de dar comida na boca dos funcionários (!!). Depois de sair do hospital, ele tenta voltar ao mercado de trabalho, principalmente por estar apaixonado pela filha de um grevista morto em combate (Paulette Goddard). Logicamente as coisas não saem como o esperado e, enquanto tenta encontrar um lugar ao sol em uma sociedade cada vez menos afeita ao indivíduo, ele brinda o espectador com momentos da mais pura poesia visual equilibrados com um brilhante timing cômico. Chaplin chega inclusive a deixar com que a plateia finalmente ouça sua voz, cantando uma música cuja letra (em um idioma incompreensível) não faz o menor sentido a não ser que se acompanhe os gestos que ele faz.

Mais um enorme sucesso na carreira de Chaplin, "Tempos modernos" encerrou um ciclo em sua filmografia, melancolicamente ilustrado pela belíssima canção "Smile", composta por ele mesmo. Seu filme seguinte, "O grande ditador" faria uma sátira ao nazismo em geral e Adolf Hitler em pessoa e a partir de então, o som estaria definitivamente incorporado à sua dinâmica como cineasta. Seu capítulo final na fase mais brilhante de sua carreira é mais uma prova inconteste de sua genialidade e da perenidade de suas ideias - por mais avançadas que elas pudessem ser. Impossível não se deixar encantar.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...