OU
TUDO OU NADA (The full monty, 1997, Redwave Films/Channel Four
Films/20th Century Fox Films, 91min) Direção: Peter Cattaneo. Roteiro:
Simon Beaufoy. Fotografia: John De Borman. Montagem: David Freeman, Nick
Moore. Música: Anne Dudley. Figurino: Jill Taylor. Direção de
arte/cenários: Max Gottlieb. Produção: Uberto Pasolini. Elenco: Robert
Carlyle, Tom Wilkinson, Mark Addy, William Snape, Steve Huison, Paul
Barber, Hugo Speer, Lesley Sharp, Emily Woof. Estreia: 13/8/97
4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Direção (Peter Cattaneo), Roteiro Original, Trilha Sonora Original (Comédia/Musical)
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original (Comédia/Musical)
A
cerimônia do Oscar 98 teve um protagonista indiscutível - "Titanic",
com suas 14 indicações e 11 estatuetas - e alguns coadjuvantes de
importância razoável - "Melhor é impossível", "Gênio indomável" e "Los
Angeles, cidade proibida", todos premiados em duas categorias cada um.
Mas um dos filmes mais falados da disputa não tinha astros conhecidos em
seu elenco, havia sido realizado com uns trocados e era falado em um
inglês que até mesmo os americanos tinham certa dificuldade em
compreender. Em mais um caso de Davi contra Golias na maior festa do
cinema, a comédia "Ou tudo ou nada" - com um orçamento de 3,5 milhões de
dólares - tentava derrotar o mastodôntico transatlântico de 200 milhões
de James Cameron com base apenas na simpatia que despertou nas plateias
mundiais e nas entusiasmadas críticas angariadas pelo planeta.
Logicamente suas armas não foram poderosas o bastante - levou apenas o
Oscar de melhor trilha sonora, que soou como um prêmio de consolação -
mas só o fato de estar entre os cinco finalistas de melhor filme de um
ano bem forte já pode ser considerado uma vitória e tanto para uma obra
tão pouco ambiciosa.
Mistura de comédia de costumes com
crítica social, "Ou tudo ou nada" ganhou o público justamente pela
despretensão, que é a sua maior qualidade. Enxuto e esperto ao utilizar
suas limitações orçamentárias a seu favor, transmitindo em cada cena a
sensação de decadência e melancolia de uma comunidade desprovida de
esperança e expectativas de progresso, o filme do estreante Peter
Cattaneo - que de cara se viu disputando uma estatueta dourada com nomes
consagrados como Cameron e Gus Van Sant - desconstrói o pessimismo
diante de uma das maiores crises financeiras da história da Inglaterra
com uma história alto-astral e positiva, recheada de personagens
absolutamente críveis em sua banalidade e uma trilha sonora deliciosa de
clássicos da era da discoteca.
A
trama se passa em uma pequena cidade inglesa chamada Sheffield, que, de
um passado brilhante e promissor como "a cidade do aço",
transformou-se, uma década e meia mais tarde, em mais uma comunidade
assombrada pelo fantasma da crise e do desemprego massivo. Apenas mais
um dentre milhares, o desesperado Gary (Robert Carlyle) está em vias de
perder inclusive a guarda compartilhada do único filho quando tem uma
ideia no mínimo inusitada: reunir um grupo de homens na mesma situação
que ele para organizar um show de striptease completo e assim, arrumar
dinheiro para pagar as contas. O fato de nem ele nem seus companheiros
de projeto serem exatamente galãs é o menor dos seus problemas: com
pouco tempo e sem local para ensaiar, o grupo também precisa lidar com
sua baixa autoestima e o medo do fracasso, agravado depois que seus
planos são expostos à toda população, gerando uma grande expectativa na
cidade. Tal pressão passa a torturar principalmente o tímido Dave (Mark
Addy) - complexado por achar-se acima do peso - e Gerald (Tom
Wilkinson), que esconde da esposa que perdeu o emprego há seis meses e
vê aos poucos suas dívidas se acumulando.
Simples e
direto, "Ou tudo ou nada" sofre de uma certa superficialidade no desenho
de seus personagens, que, com exceção de Gary, Gerald e Dave, são
relegados a um segundo plano quase injusto no roteiro escrito por Simon
Beaufoy - que anos depois ganharia o Oscar por "Quem quer ser um
milionário?": mesmo quando a trama acena para o desenvolvimento maior
dos coadjuvantes, tal promessa nunca ultrapassa os limites do mais
básico simplismo. Sorte que as atuações de Mark Addy como o inseguro
Dave e Robert Carlyle como a mente criativa por trás do evento funcionem
com perfeição, entregando à plateia uma emoção genuína que disfarça a
fragilidade do roteiro. Além disso, é impossível não estampar um sorriso
no rosto diante da mais clássica do filme: na fila do banco, enquanto
aguardam o pagamento de seu seguro-desemprego, os seis operários
(desesperançados, tristes, fora de forma e da idade mais apropriada para
isso) não resistem ao som de "Hot stuff", de Donna Summer e fazem,
alienados do mundo à sua volta, a coreografia prevista para seu show.
Uma cena singela, engraçada e simpática - qualidades que levaram a obra
de Cattaneo ao palco do Oscar em um ano em que filmes geniais como
"Boogie nights", de Paul Thomas Anderson e "Jackie Brown", de Quentin
Tarantino, apenas a assistiram de longe.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade.
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quinta-feira
A PRAIA
A PRAIA (The beach, 2000, 20th Century Fox, 119min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: John Hodge, romance de Alex Garland. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Masahiro Irakubo. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Rachael Fleming. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Anna Pinnock. Produção: Andrew McDonald. Elenco: Leonardo DiCaprio, Tilda Swinton, Robert Carlyle, Virginie Ledoyen, Guillaume Canet, Lars Arentz-Hansen. Estreia: 02/02/00
Depois do sucesso inesperado – e merecido – de seu “Trainspotting, sem limites” e o convite recusado para dirigir “Alien, a ressurreição”, o cineasta escocês Danny Boyle deu sua primeira escorregada artística com o fracasso comercial de sua comédia romântica de humor negro “Por uma vida menos ordinária”, que não agradou nem a crítica nem o público. Talvez para minimizar o estrago ele tenha aceitado fazer inúmeras concessões ao estúdio produtor de seu novo projeto. O principal deles, e o que provou-se o mais equivocado, foi limar do papel principal o alter ego do diretor, o ator Ewan McGregor, que rompeu a parceria com o diretor e foi aventurar-se no mainstream cinematográfico como Obi Wan Kenobi na segunda trilogia “Star Wars”.
Na verdade, McGregor até teve sorte de não ter seu nome relacionado a mais uma decepção comercial. Mesmo com Leonardo DiCaprio no papel principal – em seu primeiro filme de verdade desde o mega-sucesso “Titanic” -, o que parecia um tiro certeiro em termos de bilheteria, “A praia”, baseado em um livro de Alex Garland, não conseguiu nem cobrir seu orçamento de 50 milhões de dólares nas bilheterias americanas. O resultado decepcionante é parte culpa do diretor, parte culpa do projeto em si e boa parte da escolha de seu ator central. Mostrando-se não tão infalível assim (tanto em termos financeiros quanto artísticos) DiCaprio prejudica "A praia" em um papel inadequado a seu tipo físico franzino e ainda adolescente apesar de seus 25 anos de idade à época do lançamento.

“A praia” até que começa muito bem. DiCaprio é Richard, um mochileiro que vive viajando pelo mundo em busca do prazer absoluto. Em sua procura hedonista ele encontra, em plena Bangcock, o misterioso e alucinado Daffy (Robert Carlyle, em participação pequena mas marcante), que lhe garante a existência de uma ilha paradisíaca não muito longe dali. Antes de cometer suicídio, o inglês desenha um mapa da tal ilha para Richard, que acompanhado de um jovem casal de franceses (por cuja metade feminina ele imediatamente se sente atraído), parte atrás da realização do seu sonho. Quando ele finalmente torna-se realidade, as coisas parecem ser perfeitas: a ilha existe, e é a casa de uma comunidade alegre, leve e sem grandes preocupações. Liderada pela quase despótica Sal (a excelente Tilda Swinton), a comunidade tem apenas uma regra: manter segredo absoluto de sua existência e localização. Não demora muito e o sonho dourado torna-se um pesadelo depois de envolver-se com sua amiga e com a própria Sal em uma viagem, ele vira um proscrito e tem que lutar pela própria sobrevivência. E é justamente a partir dessa segunda metade, quando o sonho de uma vida alternativa dá lugar a um pesadelo violento, que o filme se perde.
Sem as ousadias visuais que lhe trouxeram glória, Danny Boyle transforma-se, como diretor de “A praia”, em um cineasta mediano, que não lembra quase em nenhum momento o criativo autor de cenas marcantes dos anos 90 como a overdose de Ewan McGregor em “Trainspotting”. Preso a um academicismo quase tedioso, ele ainda tenta agradar os fãs em sequências pretensamente alucinantes, como Leonardo DiCaprio como personagem de vídeo-game e a cena de amor entre DiCaprio e a bela Virginie Ledoyen no oceano (que, justiça seja feita, é visualmente deslumbrante). Enquanto apresenta seus personagens e suas belíssimas locações – fotografadas magnificamente por Darius Khondji – ele conquista e desperta o interesse. Na segunda parte, no entanto, ao entregar a um Leonardo DiCaprio sem maior estofo dramático o papel de herói acossado, ele derrapa em momentos quase constrangedores. Felizmente, as cenas finais, a trilha sonora sensacional e a fotografia esplendorosa conseguem salvar o filme de um desastre. É um entretenimento eficaz. Mas em nenhum momento deixa-se de pensar em como Boyle já foi melhor e como tudo seria muito melhor se Ewan McGregor estivesse em cena.
Depois do sucesso inesperado – e merecido – de seu “Trainspotting, sem limites” e o convite recusado para dirigir “Alien, a ressurreição”, o cineasta escocês Danny Boyle deu sua primeira escorregada artística com o fracasso comercial de sua comédia romântica de humor negro “Por uma vida menos ordinária”, que não agradou nem a crítica nem o público. Talvez para minimizar o estrago ele tenha aceitado fazer inúmeras concessões ao estúdio produtor de seu novo projeto. O principal deles, e o que provou-se o mais equivocado, foi limar do papel principal o alter ego do diretor, o ator Ewan McGregor, que rompeu a parceria com o diretor e foi aventurar-se no mainstream cinematográfico como Obi Wan Kenobi na segunda trilogia “Star Wars”.
Na verdade, McGregor até teve sorte de não ter seu nome relacionado a mais uma decepção comercial. Mesmo com Leonardo DiCaprio no papel principal – em seu primeiro filme de verdade desde o mega-sucesso “Titanic” -, o que parecia um tiro certeiro em termos de bilheteria, “A praia”, baseado em um livro de Alex Garland, não conseguiu nem cobrir seu orçamento de 50 milhões de dólares nas bilheterias americanas. O resultado decepcionante é parte culpa do diretor, parte culpa do projeto em si e boa parte da escolha de seu ator central. Mostrando-se não tão infalível assim (tanto em termos financeiros quanto artísticos) DiCaprio prejudica "A praia" em um papel inadequado a seu tipo físico franzino e ainda adolescente apesar de seus 25 anos de idade à época do lançamento.
“A praia” até que começa muito bem. DiCaprio é Richard, um mochileiro que vive viajando pelo mundo em busca do prazer absoluto. Em sua procura hedonista ele encontra, em plena Bangcock, o misterioso e alucinado Daffy (Robert Carlyle, em participação pequena mas marcante), que lhe garante a existência de uma ilha paradisíaca não muito longe dali. Antes de cometer suicídio, o inglês desenha um mapa da tal ilha para Richard, que acompanhado de um jovem casal de franceses (por cuja metade feminina ele imediatamente se sente atraído), parte atrás da realização do seu sonho. Quando ele finalmente torna-se realidade, as coisas parecem ser perfeitas: a ilha existe, e é a casa de uma comunidade alegre, leve e sem grandes preocupações. Liderada pela quase despótica Sal (a excelente Tilda Swinton), a comunidade tem apenas uma regra: manter segredo absoluto de sua existência e localização. Não demora muito e o sonho dourado torna-se um pesadelo depois de envolver-se com sua amiga e com a própria Sal em uma viagem, ele vira um proscrito e tem que lutar pela própria sobrevivência. E é justamente a partir dessa segunda metade, quando o sonho de uma vida alternativa dá lugar a um pesadelo violento, que o filme se perde.
Sem as ousadias visuais que lhe trouxeram glória, Danny Boyle transforma-se, como diretor de “A praia”, em um cineasta mediano, que não lembra quase em nenhum momento o criativo autor de cenas marcantes dos anos 90 como a overdose de Ewan McGregor em “Trainspotting”. Preso a um academicismo quase tedioso, ele ainda tenta agradar os fãs em sequências pretensamente alucinantes, como Leonardo DiCaprio como personagem de vídeo-game e a cena de amor entre DiCaprio e a bela Virginie Ledoyen no oceano (que, justiça seja feita, é visualmente deslumbrante). Enquanto apresenta seus personagens e suas belíssimas locações – fotografadas magnificamente por Darius Khondji – ele conquista e desperta o interesse. Na segunda parte, no entanto, ao entregar a um Leonardo DiCaprio sem maior estofo dramático o papel de herói acossado, ele derrapa em momentos quase constrangedores. Felizmente, as cenas finais, a trilha sonora sensacional e a fotografia esplendorosa conseguem salvar o filme de um desastre. É um entretenimento eficaz. Mas em nenhum momento deixa-se de pensar em como Boyle já foi melhor e como tudo seria muito melhor se Ewan McGregor estivesse em cena.
quarta-feira
TRAINSPOTTING, SEM LIMITES
TRAINSPOTTING, SEM LIMITES (Trainspotting, 1996, Channel Four Films, 94min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: John Hodge, romance de Irvine Welsh. Fotografia: Brian Tufano. Montagem: Masahiro Irakubo. Figurino: Rachael Fleming. Direção de arte/cenários: Kave Quinn/Tracey Gallacher. Produção: Andrew Macdonald. Elenco: Ewan McGregor, Robert Carlyle, Jonny Lee Miller, Ewen Bremner, Kevin McKidd, Kelly Macdonald. Estreia: 23/02/96
Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado
Em 1995, o cineasta inglês Danny Boyle lançou "Cova rasa", um suspense recheado de humor negro que empolgou a crítica e revelou o talento do jovem ator Ewan McGregor. Ao respeitar as regras básicas do gênero incutindo nele referências pop e uma modernidade estilística, Boyle tornou-se um "nome a ser guardado e observado". Por mais ferrenhos que fossem seus admiradores de então, nem mesmo eles poderiam prever o que viria a seguir. "Trainspotting, sem limites", o segundo longa do diretor causou enorme furor já em sua estreia, no Festival de Cannes de 1996. Acusado de ser uma apologia às drogas, o filme chegou aos cinemas americanos cercado de uma controvérsia que só fez aumentar sua popularidade. Exageradamente apelidado de "o 'Laranja Mecânica' dos anos 90", reacendeu a polêmica sobre o papel do cinema na sociedade e sua má influência à juventude. Exagerada ou não, a discussão sobre sua ideologia quase ofuscou as qualidades da obra de Boyle como cinema propriamente dito. Felizmente, muita gente descobriu que, por trás de sua aparente subversão, "Trainspotting" é um grande filme.
Até mesmo a sisuda Academia de Hollywood foi obrigada a dar o braço a torcer, indicando o roteiro de John Hodge - adaptado de um romance estranho e difícil de Irvine Welsh - ao Oscar. Mesmo que não tenha tido a menor chance de vitória - perdeu para o hoje esquecido "Na corda bamba", de Billy Bob Thornton - só o fato de ter rompido o preconceito contra um cinema quase marginal - pelo tema, em especial - já atesta a sua força. Ao encontrar uma linha narrativa em um livro de estrutura quase anárquica, que dá vozes a diversas personagens sem seguir um enredo sólido, Hodge realizou um trabalho impecável e, por incrível que pareça, fiel ao espírito transgressor da obra que lhe deu origem. E, obviamente, contar com a criatividade avassaladora de Danny Boyle na direção só ajudou.

À primeira vista, "Trainspotting" acompanha a trajetória de um grupo de jovens escoceses viciados em heroína. Uma análise mais cuidadosa, porém, revela uma poderosa crítica à sociedade de consumo e à hipocrisia reinante não apenas no país, mas de maneira geral. O protagonista, Mark Renton (Ewan McGregor) é um rapaz que tem como principal mote de sua existência o niilismo absoluto: usuário de drogas, ele se vê repentinamente se forçando a abandonar o vício ao ser preso pelo roubo em uma loja. Passando por uma tenebrosa crise de abstinência, ele conta com a ajuda (ou não) de seu grupo de amigos: o galã Sick Boy (Jonny Lee Miller), o psicótico Begbie (Robert Carlyle), o também viciado Spud (Ewen Bremner) e o romântico Tommy (Kevin McKidd). O filme mostra como Renton busca fugir da vida de drogado - e consequentemente mergulhar no capitalismo que tanto despreza - através de uma série de anedotas e acontecimentos engraçados/chocantes/trágicos.
O que talvez tenha incomodado tanto os censores de plantão seja a absoluta falta de vontade de Hodge, Welsh e Boyle de utilizar "Trainspotting" como uma lição de moral. Não é verdade que o filme exalte o uso de drogas, ainda que Renton descreva a sensação de estar chapado como "mil vezes melhor que seu melhor orgasmo". Tampouco é panfletário, mesmo que apresente algumas cenas chocantes e trágicas - algumas embaladas em um visual atraente e criativo, mas mesmo assim bastante fortes. Não existe certo e errado na história de Irvine Welsh, apenas situações que, extremas, obrigam suas personagens a tomar decisões quase definitivas. Mas é inegável que, por trás de bebês mortos e mergulhos em sanitários imundos, existe um fator que desequilibra a balança: ao utilizar uma trilha sonora vibrante, atores atraentes e um irresistível humor negro para contar sua história, Boyle de certa forma reveste de um certo glamour o mundo das drogas. Mas aí a velha questão volta a martelar: o cinema tem a obrigação de educar ou é apenas um espelho da sociedade? Ou ainda: depois de todo esse bafafá... "Trainspotting" é ou não um bom filme?
A resposta é clara: um sonoro SIM. "Trainspotting" tem um roteiro diferente do corriqueiro, um elenco brilhante (liderado por um magérrimo e dedicado Ewan McGregor), uma trilha sonora antenada (que não saiu das pistas de dança por bons meses) e uma edição desenfreada mas nunca confusa ou sufocante. Dirigido com firmeza por um Danny Boyle no auge de seu vigor criativo - que lhe daria um Oscar pelo bom mas menor "Quem quer ser um milionário?" - é um retrato de sua época e de uma juventude que não estava disposta a sentar em frente a uma TV se alimentando de comida enlatada. Se isso incomodou tanto, é porque tocou em uma ferida muito sensível da sociedade dos anos 90. Isso é cinema!
PS: Visitem meu outro blog e leiam uma outra visão minha do filme:
http://lennysmind.blogspot.com/2010/03/filmes-que-mudaram-minha-vida.html
Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado
Em 1995, o cineasta inglês Danny Boyle lançou "Cova rasa", um suspense recheado de humor negro que empolgou a crítica e revelou o talento do jovem ator Ewan McGregor. Ao respeitar as regras básicas do gênero incutindo nele referências pop e uma modernidade estilística, Boyle tornou-se um "nome a ser guardado e observado". Por mais ferrenhos que fossem seus admiradores de então, nem mesmo eles poderiam prever o que viria a seguir. "Trainspotting, sem limites", o segundo longa do diretor causou enorme furor já em sua estreia, no Festival de Cannes de 1996. Acusado de ser uma apologia às drogas, o filme chegou aos cinemas americanos cercado de uma controvérsia que só fez aumentar sua popularidade. Exageradamente apelidado de "o 'Laranja Mecânica' dos anos 90", reacendeu a polêmica sobre o papel do cinema na sociedade e sua má influência à juventude. Exagerada ou não, a discussão sobre sua ideologia quase ofuscou as qualidades da obra de Boyle como cinema propriamente dito. Felizmente, muita gente descobriu que, por trás de sua aparente subversão, "Trainspotting" é um grande filme.
Até mesmo a sisuda Academia de Hollywood foi obrigada a dar o braço a torcer, indicando o roteiro de John Hodge - adaptado de um romance estranho e difícil de Irvine Welsh - ao Oscar. Mesmo que não tenha tido a menor chance de vitória - perdeu para o hoje esquecido "Na corda bamba", de Billy Bob Thornton - só o fato de ter rompido o preconceito contra um cinema quase marginal - pelo tema, em especial - já atesta a sua força. Ao encontrar uma linha narrativa em um livro de estrutura quase anárquica, que dá vozes a diversas personagens sem seguir um enredo sólido, Hodge realizou um trabalho impecável e, por incrível que pareça, fiel ao espírito transgressor da obra que lhe deu origem. E, obviamente, contar com a criatividade avassaladora de Danny Boyle na direção só ajudou.
À primeira vista, "Trainspotting" acompanha a trajetória de um grupo de jovens escoceses viciados em heroína. Uma análise mais cuidadosa, porém, revela uma poderosa crítica à sociedade de consumo e à hipocrisia reinante não apenas no país, mas de maneira geral. O protagonista, Mark Renton (Ewan McGregor) é um rapaz que tem como principal mote de sua existência o niilismo absoluto: usuário de drogas, ele se vê repentinamente se forçando a abandonar o vício ao ser preso pelo roubo em uma loja. Passando por uma tenebrosa crise de abstinência, ele conta com a ajuda (ou não) de seu grupo de amigos: o galã Sick Boy (Jonny Lee Miller), o psicótico Begbie (Robert Carlyle), o também viciado Spud (Ewen Bremner) e o romântico Tommy (Kevin McKidd). O filme mostra como Renton busca fugir da vida de drogado - e consequentemente mergulhar no capitalismo que tanto despreza - através de uma série de anedotas e acontecimentos engraçados/chocantes/trágicos.
O que talvez tenha incomodado tanto os censores de plantão seja a absoluta falta de vontade de Hodge, Welsh e Boyle de utilizar "Trainspotting" como uma lição de moral. Não é verdade que o filme exalte o uso de drogas, ainda que Renton descreva a sensação de estar chapado como "mil vezes melhor que seu melhor orgasmo". Tampouco é panfletário, mesmo que apresente algumas cenas chocantes e trágicas - algumas embaladas em um visual atraente e criativo, mas mesmo assim bastante fortes. Não existe certo e errado na história de Irvine Welsh, apenas situações que, extremas, obrigam suas personagens a tomar decisões quase definitivas. Mas é inegável que, por trás de bebês mortos e mergulhos em sanitários imundos, existe um fator que desequilibra a balança: ao utilizar uma trilha sonora vibrante, atores atraentes e um irresistível humor negro para contar sua história, Boyle de certa forma reveste de um certo glamour o mundo das drogas. Mas aí a velha questão volta a martelar: o cinema tem a obrigação de educar ou é apenas um espelho da sociedade? Ou ainda: depois de todo esse bafafá... "Trainspotting" é ou não um bom filme?
A resposta é clara: um sonoro SIM. "Trainspotting" tem um roteiro diferente do corriqueiro, um elenco brilhante (liderado por um magérrimo e dedicado Ewan McGregor), uma trilha sonora antenada (que não saiu das pistas de dança por bons meses) e uma edição desenfreada mas nunca confusa ou sufocante. Dirigido com firmeza por um Danny Boyle no auge de seu vigor criativo - que lhe daria um Oscar pelo bom mas menor "Quem quer ser um milionário?" - é um retrato de sua época e de uma juventude que não estava disposta a sentar em frente a uma TV se alimentando de comida enlatada. Se isso incomodou tanto, é porque tocou em uma ferida muito sensível da sociedade dos anos 90. Isso é cinema!
PS: Visitem meu outro blog e leiam uma outra visão minha do filme:
http://lennysmind.blogspot.com/2010/03/filmes-que-mudaram-minha-vida.html
segunda-feira
O PADRE
O PADRE (Priest, 1994, Miramax Films, 98min) Direção: Antonia Bird. Roteiro: Jimmy McGovern. Fotografia: Fred Tammes. Montagem: Susan Spivey. Música: Andy Roberts. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Raymond Langhorn/Sue Pow. Produção executiva: Mark Shivas. Produção: George Faber, Josephine Ward. Elenco: Linus Roache, Tom Wilkinson, Robert Carlyle, Robert Pugh, Cathy Tyson, Lesley Sharp. Estreia EUA: 24/3/95
Dentre inúmeros países que levam muito a sério a sua origem católica, a Irlanda provavelmente é um dos mais radicais, e não gosta nem um pouco que se toque em qualquer polêmica relativa a sua religião. Um exemplo claro dessa afirmação é seu violento boicote a "O padre", realizado pela cineasta inglesa Antonia Bird. Ao centrar sua história em um sacerdote homossexual com dúvidas em relação a um dos principais dogmas da Igreja, Bird desagradou a cúpula religiosa irlandesa, que tentou banir o filme dos cinemas. Tendo estreado mundialmente no Festival de Toronto de 1994, o filme alcançou as telas inglesas e americanas em março do ano seguinte, dividindo opiniões mas dando seu recado de forma bastante contundente.
A história começa quando o jovem padre Greg Pilkington (o ótimo Linus Roache, que anos depois faria o pai de Christian Bale em "Batman begins") chega a uma paróquia de Liverpool para substituir um antigo religioso. Logo que chega ao local, porém, Greg descobre que o pároco, Padre Matthew Thomas (Tom Wilkinson) não é exatamente praticamente do celibato, tendo um relacionamento estável com uma funcionária, Maria Kerrigan (Cathy Tyson). A princípio chocado com a descoberta, aos poucos Greg inicia uma relação de amizade e admiração pelo religioso mais velho, principalmente porque também seus segredos e dúvidas. Homossexual, ele passa a se encontrar às escondidas com o operário Graham (Robert Carlyle), lutando contra suas convicções. Sua fé fica definitivamente abalada, no entanto, quando ele descobre, através da confissão, que a adolescente Lisa (Christine Temarco) é abusada sexualmente pelo próprio pai. Sem poder revelar o trágico segredo, Greg fica de mãos amarradas e inicia uma jornada de revisão de todos os seus conceitos.
"O padre" não tem medo de polemizar. Cenas de sexo ousadas, diálogos bastante inteligentes a respeito da falta de sentido de alguns dos principais pilares da igreja católica e incesto desfilam pela tela diante dos olhos da plateia, a qual só resta tomar partido: é um filme forte e de ideias liberais ou apenas uma obra com vontade de chocar a audiência mais conservadora? Talvez a resposta esteja na coluna do meio. "O padre" merece aplausos por sua coragem em tocar em temas que precisam ser discutidos sem falsos moralismos, mas o faz, em certos momentos, sem uma bem-vinda dose de sutileza. Antonia Bird consegue provocar a discussão, mas a encerra de maneira um tanto abrupta e simplista. Até lá, no entanto, boa parte de suas intenções atingiram o objetivo: "O padre" toca em feridas e só por isso já é digno de louvor.

Primeiro, o roteiro de Jimmy McGovern ousa questionar o celibato, na figura do Padre Thomas, interpretado com o talento conhecido de Tom Wilkinson. Adepto da Teologia da Libertação, o veterano sacerdote vive em constante conflito com seus superiores a respeito de todo e qualquer assunto relacionado às formalidades católicas e suas discussões com o bispo são interessantes e relevantes. Se tivesse dedicado o filme todo a essa questão complicada por si mesma, "O padre" já daria o que falar. Mas Antonia Bird e McGovern ainda querem mais. E aproveitam a mesma trama (incesto) para discutir abuso sexual e a importância dos segredos de confessionário. Em "Testemunha do silêncio", Alfred Hitchcock jogou Montgomery Clift na cova dos leões ao fazê-lo ser acusado de um crime do qual ele sabia o autor através da confissão. Aqui, Padre Greg é impedido de tomar qualquer atitude em relação ao drama da adolescente Lisa e isso aumenta sua crise de fé. Ou seja, assunto para longas discussões em mesas de bares, artigos de jornal e sermões.
Mas nenhuma trama de "O padre" causou mais comoção do que a discussão do homossexualismo. Antonia Bird não se furta a mostrar graficamente a opção sexual de Greg, em cenas bastante quentes, ainda que muito bem dirigidas e plasticamente atraentes. Mesmo que os demais assuntos discutidos no filme sejam tão fortes quanto as aventuras amorosas de Greg com seu amante Graham, são elas que causaram mais choque entre a comunidade religiosa irlandesa e mundial a respeito do filme. Discutir celibato? Tudo bem. Questionar a validade dos segredos de confissão? Perfeito. Mas falar sobre homossexualidade dentro da Igreja pareceu ser além da conta. À luz dos inúmeros escândalos envolvendo pedofilia e padres, no entanto, não deixa de ser de extrema ironia que um filme com pretensões sérias e legítimas tenha sido capaz de despertar tanto celeuma.
No final das contas, "O padre" é um filme que merece ser assistido por suas qualidades artísticas (o elenco é impecável), mas que fica no meio-termo entre o que poderia ser e o que se tornou. Discute assuntos muito sérios que precisam ser discutidos, mas o faz de maneira bastante simplória em alguns momentos, apesar de algumas cenas de extrema força dramática. É um filme que poderia ter sido genial, mas que esbarra em seus próprios exageros e vontade de chocar.
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