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domingo

APOLLO 13: DO DESASTRE AO TRIUNFO

APOLLO 13: DO DESASTRE AO TRIUNFO (Apollo 13, 1995, Universal Pictures, 140min) Direção: Ron Howard. Roteiro: William Broyles Jr., Al Reinert, livro de Jim Lovell, Jeffrey Kluger. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Dan Henley, Mike Hill. Música: James Horner. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Merideth Boswell. Produção executiva: Todd Hallowell. Produção: Brian Grazer. Elenco: Tom Hanks, Bill Paxton, Kevin Bacon, Ed Harris, Gary Sinise, Kathleen Quinlan, Xander Berkeley, Loren Dean, Todd Louiso. Estreia: 22/6/95

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Ed Harris), Atriz Coadjuvante (Kathleen Quinlan), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Direção de Arte/Cenários, Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 2 Oscar: Montagem, Som 

Em abril de 1970, o mundo parou graças à viagem de uma missão norte-americana à Lua. Não porque estivesse curioso sobre a viagem em si - Neil Armstrong já havia dado seus passos por lá no ano anterior e o interesse da mídia pela nova aventura da NASA não era dos maiores -, mas justamente porque o que era esperado ser um sucesso previsível acabou se tornando um pesadelo para os astronautas, suas famílias e os engenheiros responsáveis pelos cálculos que levaram à crise. A inesperada explosão em um dos tanques de oxigênio, ocorrida antes que a tripulação chegasse a seu destino, obrigou a um retorno imediato, com o risco iminente de um desfecho trágico - os três pilotos poderiam morrer de frio, sufocados pela falta de ar, envenenados pelo gás carbônico liberado por eles mesmos ou até incinerados ao entrar na atmosfera terrestre. De repente, o que era tratado com desdém por parte da população transformou-se em interesse internacional - e um desastre em potencial virou uma história de superação mais poderosa que qualquer roteiro que pudesse ser criado por Hollywood. E, levando-se em conta a avidez da indústria em capitalizar em cima de narrativas tão impactantes, até que demorou para que a trajetória da Apollo 13 chegasse aos cinemas: somente em 1995, duas décadas e meia depois dos fatos é que finalmente o astronauta Jim Lovell se veria retratado nas telas - mas, como forma de compensação, se veria interpretado por um dos maiores astros de sua geração: Tom Hanks.

Quando "Apollo 13: do desastre ao triunfo" chegou aos cinemas, sob a direção de Ron Howard, em pleno verão norte-americano, Hanks ainda estava saboreando seu segundo Oscar consecutivo de melhor ator, pelo megasucesso "Forrest Gump: o contador de histórias", de Robert Zemeckis. Não há dúvidas de que sua presença ajudou o filme de Howard a tornar-se um enorme êxito comercial, com mais de 170 milhões de dólares arrecadados somente no mercado doméstico (e mais de 350 milhões ao redor do mundo), mas também é certo de que o marketing da Universal Pictures, o talento do diretor em contar histórias que agradam a todos os tipos de público e o fabuloso empurrão da Academia, com nove indicações à estatueta dourada (incluindo melhor filme mas não diretor e ator, para surpresa de muitos). Tudo bem que, no final das contas, Mel Gibson e seu "Coração valente" acabaram se dando melhor na cerimônia do Oscar - deixando apenas os prêmios de edição e som para o filme de Howard -, mas, a esse ponto, a popularidade de "Apollo 13" já estava nas alturas e não precisava de qualquer espécie de selo de aprovação. Mesmo assim, o Screen Actors Guild fez sua parte, lhe conferindo duas láureas: melhor elenco e melhor ator coadjuvante (Ed Harris, também indicado ao Oscar e ao Golden Globe por seu desempenho como Gene Kranz, líder da missão em Houston).


Amparado no maior realismo possível de obter com um orçamento generoso, Ron Howard e sua equipe fizeram de "Apollo 13" um filme tecnicamente impecável - para as rápidas cenas em que a falta de gravidade é mostrada dentro da cápsula espacial, por exemplo, foi utilizado um avião com que a própria NASA trabalha para o treinamento de seus astronautas, que conseguem flutuar por cerca de 23 segundos a cada mergulho no ar. Os efeitos visuais (que perderam o Oscar para "Babe: o porquinho atrapalhado") são sutis, mas tão perfeitos que o próprio Jim Lovell, ao assistir ao filme, julgou que algumas imagens fossem cedidas pela agência norte-americana. Sublinhadas pela trilha sonora épica de James Horner, tais sequências enchem os olhos da plateia e equilibram a tensão e a angústia de seus personagens - nenhum deles especialmente dotado de uma profundidade dramática além da necessária para envolver o espectador. A opção do roteiro em concentrar praticamente toda a ação durante o período em que os protagonistas estavam completamente focados em sua missão é válida - problemas familiares e/ou outros conflitos são praticamente ignorados pelo roteiro, baseado no livro de Lovell e Jeffrey Kluver - e impede o filme de estender-se em excesso ou abusar de uma prolixidade que lhe seria prejudicial em termos de adrenalina. Tal medida não atrapalha, por exemplo, Kathleen Quinlan, que concorreu à estatueta de coadjuvante por sua atuação como Marilyn, a esposa de Lovell, dividida entre o desespero de ver o marido correndo o risco de não voltar vivo para casa e a resiliência necessária para não desabar diante das câmeras de televisão - repentinamente dispostas a dar espaço para a viagem que a princípio não despertara seu interesse.

Mas "Apollo 13" não é o show de um homem só - ou de uma técnica narrativa milimetricamente criada para deixar a plateia com os nervos à flor da pele até os últimos minutos. Como ex-ator mirim, Ron Howard sabe muito bem como explorar o melhor de cada um de seu elenco, repleto de rostos conhecidos do grande público. Tom Hanks lidera o elenco com o carisma habitual, mas divide a maior parte de seu tempo em cena com Bill Paxton e Kevin Bacon, igualmente competentes em transmitir toda a vasta gama de sensações experimentada por seus personagens. Em Terra, além de Kathleen Quinlan e Ed Harris, quem tem suprema importância em ajudar os desventurados protagonistas é Gary Sinise, que, na pele de Ken Mattingly - um astronauta que ficou de fora da missão na última hora -, reprisa sua parceria com Hanks, iniciada em "Forrest Gump". Equilibrando sua linha narrativa entre a técnica e a emoção, Howard criou um filme perfeito para todos os públicos - e já declarou de que se trata do filme preferido dentre todos os que já realizou. Se ufanismo pode incomodar um pouco, mas é inegável que "Apollo 13: do desastre ao triunfo" é, realmente, bem mais um triunfo do que um desastre.

quarta-feira

NO CORAÇÃO DO MAR

NO CORAÇÃO DO MAR (In the heart of the sea, 2015, Warner Bros, 122min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Charles Leavitt, estória de Charles Leavitt, Rick Jaffa, Amanda Silver, livro de Nathaniel Philbrick. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: Roque Baños. Figurino: Julian Day. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Dominic Capon. Produção executiva: David Bergstein, Bruce Berman, Sarah Bradshaw, Erica Huggins, Steven Mnuchin, Palak Patel. Produção: Brian Grazer, Ron Howard, Joe Roth, Will Willard, Paula Weistein. Elenco: Chris Hemsworth, Benjamin Walker, Tom Holland, Ben Whishaw, Brendan Gleeson, Cillian Murphy, Michelle Fairley, Charlotte Riley. Estreia: 02/12/15

Publicado em 1851 e tornado um clássico indiscutível e obrigatório, o romance "Moby Dick" atravessou o tempo como parte do inconsciente coletivo de várias gerações, como prova do gênio de seu autor, Herman Melville, e gerando estudos e discussões a respeito de seu tema e sua linguagem. Adaptado para o cinema - mais notavelmente na produção dirigida por John Huston em 1956 - e frequentemente citado em listas dos melhores livros já escritos, "Moby Dick" tem, por incrível que pareça, inspiração em uma história real, ocorrida em 1820 no Oceano Pacífico. E é essa história verdadeira e quase inacreditável que é narrada em "No coração do mar", primeiro filme do cineasta Ron Howard na Warner - e mais um injusto fracasso comercial na sua carreira, logo depois da fria recepção do público ao excelente "Rush: no limite da emoção" (2014): com uma renda mundial de pouco mais de 93 milhões de dólares, o filme não chegou nem mesmo a cobrir seu orçamento milionário, além de ter sido solenemente ignorado pelas cerimônias de premiação. Nem mesmo seu maior trunfo (os efeitos visuais caprichados) foi percebido pela Academia ou aplaudido pela crítica. No entanto, é entretenimento de primeira, valorizado pelo bom elenco - liderado pelo carismático Chris Hemsworth - e pelo excepcional desenho de produção.

O roteiro de Charles Leavitt é baseado no livro de Nathaniel Philbrick, que narra a trágica e emocionante aventura do navio Essex e seus tripulantes, já contada em um filme feito pela BBC em 2015 - mas toma a liberdade de inserir na trama o próprio Herman Melville, antes de escrever sua obra-prima e disposto a pagar por informações detalhadas que possam tornar seu próximo romance o mais realista possível. Vivido por Ben Winshaw, o escritor chega até um dos sobreviventes da aventura, o hesitante e quase agressivo Tom Nickerson (Brendan Gleeson), que só aceita relembrar os acontecimentos que presenciou décadas antes mediante o pagamento de um dinheiro que pode lhe pagar dívidas e a comida. Essa introdução - e suas subsequentes inserções no decorrer da ação - pode até contextualizar a trama e servir como seu fio condutor, mas é, de uma certa forma, uma quebra no ritmo que prejudica consideravelmente a fluidez da edição. Mesmo assim, não chega a incomodar tanto a ponto de alienar a atenção do espectador, que, a esta altura, já está totalmente envolvido nas desventuras dos personagens.


A história que Nickerson conta a Melville começa na Nova Inglaterra de 1820, quando ele tinha apenas 14 anos de idade (e o rosto de Tom Holland, o menino que comoveu multidões em "O impossível", de 2012): contratado para trabalhar no Essex, um navio que zarpa com o objetivo de retornar com centenas de litros de óleo de baleia, ele testemunha a rotina dos companheiros de missão com o olhar ingênuo e atento. O que mais lhe chama a atenção, no entanto, é a disputa nem sempre silenciosa entre o experiente Owen Chase (Chris Hemsworth) e o novato George Pollard (Benjamin Walker): escalado como subalterno de Pollard porque este tem origem social mais importante, Chase sente-se diminuído, mas aceita o trabalho com a promessa de ter um retorno profissional que poderá dar estabilidade à sua família. Os conflitos entre os dois, porém, levam a um impasse quando uma gigantesca baleia branca passa a perseguir sua embarcação - e ambos se unem na luta por salvarem suas vidas e eliminar a ameaça que os cerca.

Contando sua história com o máximo de realismo possível, com sequências de ação bem construídas e um elenco escalado com cuidado, "No coração do mar" segue a tendência de Ron Howard em retratar personagens reais em sua filmografia - tendência esta que tem como exemplos os elogiados "Apollo 13: do desastre ao triunfo" (95) e "Frost/Nixon" (2008) e o premiado "Uma mente brilhante" (2001). Sem descuidar do capricho na construção de seus personagens, no entanto, dessa vez ele aposta mais no visual: os ataques da baleia são esteticamente apurados, e a fotografia do premiado Anthony Dod Mantle (Oscar por "Quem quer ser um milionário?", de 2008) empresta ao filme um tom nostálgico que se reflete nos tons azulados e na constante sensação de ameaça transmitida pela câmera. Diante de tal capricho na ação, resta aos atores pontuar com correção os esforços da produção em apresentar um filme capaz de agradar a qualquer tipo de audiência que busca um entretenimento de qualidade - está longe de ser um filme inesquecível ou brilhante, mas cumpre o que promete e entrega um dos passatempos mais interessantes do gênero. Diversão garantida, apesar do fracasso de bilheteria.

quinta-feira

SPLASH: UMA SEREIA EM MINHA VIDA

SPLASH: UMA SEREIA EM MINHA VIDA (Splash, 1984, Touchstone Pictures, 111min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Lowell Ganz, Babaloo Mandel, Bruce Jay Friedman, estória de Brian Grazer. Fotografia: Don Peterman. Montagem: Daniel P. Hanley, Michael Hill. Música: Lee Holdridge. Figurino: May Routh. Direção de arte/cenários: Jack T. Collins. Produção executiva: John Thomas Lenox. Produção: Brian Grazer. Elenco: Tom Hanks, Daryl Hannah, John Candy, Eugene Levy. Estreia: 09/3/84

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Praticamente uma década antes de consagrar-se como um ator sério - e de quebra levar dois Oscar consecutivos, nos anos 94/95 -, Tom Hanks já era um astro devidamente reconhecido pelo grande público. Um exemplo claro disso foi a surpreendente bilheteria de "Splash: uma sereia em minha vida", estrelado por ele em 1984: primeiro filme lançado pela subsidiária da Disney (a Touchstone Pictures), a obra de Ron Howard custou meros oito milhões de dólares e rendeu, somente no mercado doméstico, mais de 60 milhões, arrancando elogios da crítica, capas de revista e uma inesperada indicação ao Oscar de roteiro original. Apesar do tom leve e romântico do filme e da beleza ímpar de Daryl Hannah, porém, é claro que o carisma de Hanks foi o maior responsável por fazer do filme um êxito incontestável - e isso que o próprio ator costuma brincar e dizer que ele foi apenas o 11º intérprete a ser considerado para o papel principal.

Pode até ser um pouco de exagero de Tom Hanks, mas o fato é que, realmente, antes de seu nome ser confirmado como o astro do filme, vários outros atores foram cotados para viver o protagonista - desde astros já reconhecidos (como John Travolta, Richard Gere, Burt Reynolds e Jeff Bridges) até grandes comediantes (Chevy Chase, Bill Murray, Robin Williams e Dudley Moore). A presença de Hanks, no entanto, é um dos maiores trunfos de "Splash": simpático e capaz de despertar empatia em qualquer um na plateia, ele nem precisa de muito esforço para convencer, mesmo diante de uma premissa quase absurda e fantasiosa a ponto de parecer conto de fadas. A atmosfera lúdica - acentuada pela trilha sonora delicada de Lee Holdridge - ganha contornos cômicos com a direção segura de Howard, que abriu mão de dirigir "Footlose: ritmo louco" (84) para dar vida à estória imaginada pelo produtor Brian Grazer em 1977, durante uma viagem. Com um roteiro esperto e divertido, "Splash" é um passatempo tão inofensivo que não é de admirar que tenha resistido tão bem ao tempo - e que seja tão delicioso assisti-lo hoje quanto o era há mais de trinta anos.


As cenas iniciais já deixam claro que trata-se de um filme em cuja fantasia a plateia precisa embarcar sem reservas: um menino é salvo de afogar-se no mar por uma sereia da sua idade. Ele mantém segredo a respeito do assunto (mesmo porque não tem certeza se tudo não passava de imaginação) e segue sua vida normalmente. Vinte anos mais tarde, o menino, agora um homem, chamado Allen Bauer (Tom Hanks) gerencia o negócio de distribuição de verduras de sua família, ao lado do irmão mais velho, Freddie (John Candy) - irresponsável e mulherengo. Recém abandonado pela esposa, Allen sofre um novo acidente no mar e acorda em uma ilha, ao lado de uma estonteante loura - que desaparece logo em seguida. De posse da carteira do rapaz, porém, a sereia apaixonada descobre seu paradeiro em Nova York e decide procurá-lo. Sem saber falar inglês e desconhecendo completamente a cultura dos humanos, ela deixa com que Allen pense que ela é uma estrangeira e os dois começam um relacionamento amoroso e dedicado. Batizada como Madison, a sereia logo começa a aprender a conviver com seu amado - mas precisa evitar ser desmascarada pelo cientista Cornbluth (Eugene Levy), cujo maior objetivo na vida é comprovar a existência de sereias.

Equilibrando sua narrativa entre o idílio romântico de Allen e Madison e subtramas cômicas - as tentativas de Cornbluth em provar sua hipótese científica, as escapadas de Freddie, a distação da velha secretária de Allen -, Ron Howard cria uma pequena pérola do gênero. A excelente química entre Tom Hanks e Daryl Hannah é tão incrível que é difícil imaginar que a bela sereia poderia ter sido interpretada por outra atriz - e isso que várias foram cotadas o papel: Jodie Foster, Brooke Shields, Debra Winger, Ally Sheedy, Rosanna Arquette, Michelle Pfeiffer, Tatum O'Neal, Diane Lane, Melanie Griffith e Kathleen Turner poderiam ter sido a estrela de um filme que deu à Hannah seu primeiro papel principal e um daqueles que a farão ser eternamente lembrada pelos fãs. Linda e carismática, ela foi a escolha perfeita - que o digam as centenas de meninas batizadas de Madison justamente por causa de seu sucesso. "Splash" pode não ser um dos filmes mais importantes da história, mas é, sem dúvida, um passatempo dos mais encantadores.

sábado

ANJOS E DEMÔNIOS

ANJOS E DEMÔNIOS (Angels and demons, 2009, Columbia Pictures/Imagine Entertainment, 138min) Direção: Ron Howard. Roteiro: David Koepp, Akiva Goldsman, romance de Dan Brown. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: Hans Zimmer. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Allan Cameron/Larry Bellantoni, Robert Gould. Produção executiva: Dan Brown, Todd Hallowell, Marco Valerio Pugini. Produção: John Calley, Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Tom Hanks, Ewan McGregor, Armin Mueller-Stahl, Ayelet Zurer, Stellan Skarsgaard, Pierfrancesco Favino, Cosimo Fusco. Estreia: 04/5/09 (Roma)

Best-seller absoluto em todo o mundo, o livro "O Código Da Vinci", de Dan Brown, não demorou em chegar às telas de cinema, em 2006, com o apoio de um invejável time liderado pelo diretor Ron Howard (vencedor do Oscar por "Uma mente brilhante") e pelo ator Tom Hanks (dono de duas estatuetas, por "Filadélfia" e "Forrest Gump: o contador de histórias" e que ficou com um papel disputado pelos maiores astros de Hollywood à época, como Russell Crowe e Hugh Jackman). Com um custo estimado de 125 milhões de dólares, o filme acabou desagradando boa parte da crítica e dos fãs da obra original, e, apesar de ter coletado mais de 750 milhões internacionalmente, ficou longe de ser considerado um fenômeno sequer parecido com o do livro, que vendeu mais de 80 milhões de cópias e causou polêmicas infindáveis com suas teorias a respeito de uma possível descendência de Jesus Cristo. Isso não impediu, no entanto, que Hollywood percebesse que Langdon e suas aventuras poderiam tranquilamente render muito mais - especialmente porque Brown já tinha publicado outro livro com o mesmo personagem e que estava pronto para ser adaptado. Mesmo se passando antes dos acontecimentos mostrados em "Da Vinci", "Anjos e demônios" foi lançado, três anos mais tarde, como uma continuação - e, se não teve a bilheteria esperada, não foi por falta de esforço por parte dos produtores, que tentaram (sem conseguir muito) corrigir as falhas do primeiro filme.


Uma das mais frequentes críticas feita à "O Código Da Vinci" em seu lançamento dizia respeito à forma como o roteirista Akiva Goldsman havia traduzido a estratosférica quantidade de informações sobre História, Arte e Religião do livro para o filme. Para evitar o didatismo em "Anjos e demônios", o vencedor do Oscar por "Uma mente brilhante" - que recebeu um salário recorde de 3,8 milhões de dólares pelo trabalho - enxugou o máximo que pode de referências históricas aos Illuminati (sociedade secreta surgida no século XVIII que tem papel preponderante na trama) e concentrou-se nas aventuras de Langdon pela cidade do Vaticano às vésperas da eleição de um novo Papa. O roteiro acabou por ter cenas reescritas pelo veterano David Koepp (a pedido de Tom Hanks) e chegou até o público sem a mesma inteligência de "Da Vinci" - e com sequências de suspense e ação mornas e apáticas. Nem mesmo a duração excessiva (quase duas horas e meia de projeção) dá conta de costurar o exagero de situações criadas pela história, que envolve sequestro de cardeais, o roubo de antimatéria com intenções criminosas, os famigerados Illuminati e uma sucessão de cenas que se pretendem chocantes mas que ficam no meio do caminho entre a violência e o desejo de atrair público de todas as idades às salas de cinema. O resultado é um filme bem produzido (como era de se esperar haja visto o orçamento gigantesco para uma obra sem efeitos visuais mirabolantes) mas sonolento, incapaz de empolgar ou sequer atiçar a imaginação da plateia como seu antecessor.


Se em "O Código Da Vinci" o protagonista fazia uma turnê pelos pontos turísticos religiosos e históricos de Paris, em "Anjos e demônios" o simbologista mais famoso da literatura mundial é chamado ao Vaticano para tentar evitar uma tragédia de grandes proporções: um grupo de membros dos Illuminati acaba de sequestrar os quatro cardeais favoritos ao posto de novo Papa (após a morte inesperada do último) e pretende matá-los de hora em hora, além de detonar uma explosão capaz de arrasar com a cidade. Tais atos, planejados como uma revanche pela perseguição da Igreja Católica feita à sociedade secreta desde sua criação, ameaçam não apenas a integridade física de todos os religiosos reunidos para o conclave, mas também a própria estrutura da Igreja - o que deixa o carmelengo Patrick McKenna (Ewan McGregor) na difícil situação de lidar tanto com a eleição quanto com a possibilidade de não sobrarem possíveis candidatos ao cargo, já que, além dos desaparecidos, apenas o Cardeal Strauss (Armin Mueller-Stahl) tem condições de assumir tal papel. Nesse meio-tempo, Langdon corre de uma catedral à outra, tentando evitar as mortes dos cardeais usando, para isso, pistas que remetem a antigas anotações guardadas a sete chaves pelas autoridades canônicas.

Substituindo a francesa Audrey Tautou pela israelense Ayelet Zurer (que foi a mulher de Eric Bana em "Munique", de 2005), "Anjos e demônios" consegue evitar a verborragia excessiva de "O Código Da Vinci", mas esbarra em um problema ainda maior: a superficialidade de absolutamente toda a sua narrativa. Enquanto no filme anterior o diretor Ron Howard ilustrava longos discursos com uma edição notável e criativa (mas ainda assim vítima de muitas reclamações), aqui ele simplesmente ignora toda e qualquer vontade de esclarecer a plateia sobre as origens dos Illuminati ou sobre detalhes a respeito das pistas que Langdon vai encontrando em sua busca. O ritmo talvez tenha ficado mais ágil, mas em compensação é difícil de envolver-se com a trama ou com seus personagens. Tom Hanks continua no piloto automático e Ewan McGregor faz o que pode com um personagem que jamais atinge todas as suas possibilidades. No cômputo final, é um filme menor do que seu primeiro capítulo - não empolga, não ensina nem tampouco é memorável. Um entretenimento decente, mas nada além disso. Uma decepção quando se pensa que tem a assinatura de um time de talento inegável e uma produção caríssima.

quarta-feira

RUSH - NO LIMITE DA EMOÇÃO

RUSH: NO LIMITE DA EMOÇÃO (Rush, 2013, Imagine Entertainment/Cross Creek Pictures, 123min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Peter Morgan. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: Hans Zimmer. Figurino: Julian Day. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: Tobin Armbrust, Tim Bevan, Guy East, Todd Hallowell, Nigel Sinclair, Tyler Thompson. Produção: Andrew Eaton, Eric Fellner, Brian Grazer, Ron Howard, Peter Morgan, Brian Oliver. Elenco: Chris Hemsworth, Daniel Bruhl, Olivia Wilde, Alexandra Maria Lara, Pierfrancesco Favino, David Calder. Estreia: 02/9/13 (Festival de Londres)

O diretor Ron Howard tem uma forte tendência a recriar, em seus filmes, histórias reais de superação e/ou rivalidade. Foi assim em "Apollo 13", "Uma mente brilhante", "A luta pela esperança" e "Frost/Nixon". É assim também em "Rush, no limite da emoção", que ilumina a rivalidade levada às raias da obsessão entre os pilotos de Fórmula 1 James Hunt e Niki Lauda, concentrando sua narrativa na emocionante temporada de 1976, uma das mais sensacionais da história do automobilismo. Contando com um roteiro enxuto e direto de Peter Morgan - autor dos scripts de  "O aviador", "A rainha" e "Frost/Nixon", entre outros menos cotados - o filme de Howard é uma aula de narrativa visual, que consegue conquistar a admiração e a atenção até mesmo daqueles que veem o esporte que consagrou Ayrton Senna com absoluta indiferença.

Apesar de começar sua narrativa quando os protagonistas ainda estão engatinhando na Fórmula 3 - até como forma de estabelecer a idade de sua rivalidade, concentrada basicamente em seus diferentes modos de ver a carreira e lidar com a pressão das montadoras - "Rush" tem o bom senso de não tentar contar toda a história de vida dos dois pilotos, preferindo ater-se à tensão da temporada 1976, quando sua briga atingiu o auge. Contando sua história com imagens poderosas e uma edição impecável, Howard equilibra com perfeição os momentos mais pessoais dos protagonistas - como suas relações matrimoniais - com sequências abismais de corrida, fotografadas como nenhuma outra até hoje, que praticamente leva o espectador para o meio das pistas. O realismo das cenas é um dos maiores méritos do filme, que, além disso, não deixa de lado a construção dramática de seus personagens e dá a seus atores chances extraordinárias de mostrar serviço.


Se Chris Hemsworth consegue deixar pra trás seu personagem mais famoso até então, o super-heroi Thor, em um trabalho bastante eficiente - apesar de seu James Hunt ser extremamente apropriado a seu físico e à persona que ele vem construindo em sua carreira - é Daniel Bruhl quem brilha na pele do rígido e focado Niki Lauda, um homem obcecado com sua profissão a ponto de arriscar a vida para provar seu talento. Injustamente esquecido pelas indicações ao Oscar de coadjuvante - apesar de ser tão protagonista (ou mais) quanto Hemsworth, foi nessa categoria que ele concorreu ao Golden Globe - Bruhl está irreconhecível sob a maquiagem que o transforma no piloto austríaco e não tem medo de retratá-lo como alguém quase desagradável, em especial diante do carisma de Hunt. Sempre que estão juntos em cena, os dois atores fascinam o público, com uma química de causar faíscas, bastante valorizada pelos ótimos diálogos de Morgan, que enfatizam sem didatismo as diferenças cruciais entre os dois - e suas semelhanças óbvias.

A rivalidade entre os dois - que remete, guardadas as devidas proporções, ao multipremiado "Amadeus", de Milos Forman, que falava sobre Mozart e Salieri - é o ponto alto de "Rush". É sua discussão sobre as diferentes formas com que os gênios lidam com seus dons que move o filme, que permanece na memória do espectador como o melhor retrato da Fórmula 1 já mostrado no cinema. Mesmo que o final da história seja conhecido - ou de fácil acesso em tempos de Internet - é impossível tirar os olhos da tela. Graças ao conjunto de qualidades, é um dos melhores filmes da temporada 2013, infelizmente ignorado pela Academia até mesmo nas categorias técnicas - um trabalho irretocável e admirável. Um filme que certamente será valorizado ainda mais com o passar dos anos.

FROST/NIXON

FROST/NIXON (Frost/Nixon, 2008, Universal Pictures/Imagine Entertainment, 122min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Peter Morgan, peça teatral homônima do mesmo autor. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill, Robert Komatsu. Música: Hans Zimmer. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Susan Benjamin. Produção executiva: David Bernardi, Matthew Byan Shaw, Liza Chasin, Todd Hallowell, Debra Hayward, Karen Kehela Sherwood, Peter Morgan. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Frank Langella, Michal Sheen, Kevin Bacon, Sam Rockwell, Matthew Macfadyen, Toby Jones, Andy Milder. Estreia: 15/10/08 (Festival de Londres)

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ron Howard), Ator (Frank Langella), Roteiro Adaptado, Montagem

Talvez o mais polêmico dentre todos os presidentes norte-americanos, Richard Nixon acabou por tornar-se também um dos personagens mais fascinantes da política mundial, com sua personalidade ambígua e sua história repleta de lances melodramáticos e controversos - mesmo quando não aparece em cena, ele é o centro das atenções, como é o caso de "Todos os homens do presidente" (76), que Alan J. Pakula dirigiu baseado no livro dos jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward, que investigaram o famigerado caso Watergate, que o empurrou à renúncia. Protagonista do ambicioso "Nixon" (95), de Oliver Stone - no qual foi interpretado por um brilhante Anthony Hopkins, indicado ao Oscar por seu desempenho - o homem que comandou os EUA em um dos períodos mais críticos de sua história serviu de inspiração também para o dramaturgo Peter Morgan, que em 2007 estreou na Broadway a elogiadíssima "Frost/Nixon", a recriação dramática de uma série de entrevistas concedidas pelo ex-presidente ao repórter britânico David Frost em 1977 - e que se tornaram momentos clássicos da televisão mundial. O sucesso do espetáculo teatral logo chamou a atenção da indústria cinematográfica e inúmeros diretores relevantes - Martin Scorsese, Sam Mendes, Mike Nichols, George Clooney - se dispuseram a comandar sua adaptação para as telas, até que Ron Howard ganhou a disputa, com a garantia de ter nos papéis centrais os dois atores que davam vida aos protagonistas nos palcos, Frank Langella e Michael Sheen. Se o resultado nas bilheterias não foi dos mais empolgantes - culpa talvez da natural aversão da plateia a temas políticos - o mesmo não pode ser dito da receptividade da crítica, unânime em apontar o filme como um dos melhores da temporada 2008, opinião compartilhada pelos membros da Academia de Hollywood, que o colocaram no páreo para cinco importantes Oscar, inclusive melhor filme, direção e ator (Langella).

Com a adaptação escrita pelo próprio Morgan, que também foi indicado à estatueta dourada, "Frost/Nixon" pode até ser de interesse um tanto limitado - é difícil imaginar o mesmo público que lota os cinemas para ver coisas como "Transformers" pagando ingresso para assistir a um duelo verbal sobre política - mas é absolutamente fascinante, tanto em termos narrativos quanto históricos. Dotado de um ritmo ágil e de diálogos saborosos que dão a seus atores a chance de explorar as diversas nuances de seus personagens - além de um inusitado senso de humor que o afasta do tom shakespereano do filme de Stone, por exemplo - o roteiro de Morgan acerta principalmente ao deixar claro ao espectador as motivações egoístas de cada um dos lados da questão antes de colocá-los frente a frente: dessa forma, nem Frost é um heroi da mídia disposto a apresentar a verdade ao povo americano (ele tem interesses financeiros no projeto, ainda que sofra com a angústia de não conseguir financiamento para ele) nem Nixon é um injustiçado pelos opositores políticos ou ingênuo (o que fica claro na última das sessões de entrevistas, em um momento genial de texto, direção e interpretação). Ao negar a seu texto qualquer traço maniqueísta, Morgan transforma o que poderia ser em um exercício aborrecido, verborrágico e parcial em um interessantíssimo estudo de personagens - mesmo que um deles tenha sido o homem mais poderoso do mundo por um determinado período de tempo.


Quando o filme começa, Richard Nixon já está fora da esfera do poder, em um silêncio ensurdecedor que priva os eleitores americanos da verdade a respeito do caso Watergate - quando políticos republicanos foram desmascarados ao espionar a sede do partido democrata no prédio que dá nome à situação. Sabendo que uma declaração sua pode lhe trazer o prestígio e o respeito que sua carreira como repórter de celebridades não lhe dá, o jornalista inglês David Frost (Michael Sheen, sensacional) tem a ideia de propor-lhe uma série de entrevistas exclusivas para serem transmitidas na televisão americana. A chance de reconquistar a admiração de seus eleitores - e um generoso pagamento de 600 mil dólares - convence o político a aceitar a proposta, mesmo que com uma série de exigências. Pondo em risco seu patrimônio pessoal correndo sério risco com o investimento, Frost insiste na ideia e marca os encontros para o início de 1977. O que ele pensava ser uma missão fácil se mostra, porém, um desafio jamais experimentado em sua carreira até então repleta de futilidade e superficialidade.

"Frost/Nixon" é um filme de muitas qualidades. Além do roteiro conciso de Peter Morgan e da direção segura de Ron Howard, o elenco está em dias inspirados, tanto os atores centrais quanto os coadjuvantes - uma lista que inclui Kevin Bacon, Rebecca Hall, Sam Rockwell e Oliver Platt. Hipnotizante, inteligente e realizado com seriedade rara, é uma pequena pérola que, mesmo tendo quase sido esquecida com o passar dos anos, merece ser redescoberto.

sábado

UM SONHO DISTANTE

UM SONHO DISTANTE (Far and away, 1992, Universal Pictures/Imagine Entertainment, 140min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Bob Dolman, estória de Bob Dolman, Ron Howard. Fotografia: Mikael Salomon. Montagem: Daniel Hanley, Michael Hill. Música: John Williams. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Allan Cameron, Jack T. Collins/Richard Goddard. Produção executiva: Todd Hallowell. Produção: Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Tom Cruise, Nicole Kidman, Thomas Gibson, Robert Prosky, Barbara Babcock, Colm Meaney, Brendan Gleeson. Estreia: 18/5/92 (Festival de Cannes)

Tudo está no lugar: a fotografia espetacular, a trama que honra a superação de limites de classe e possibilidades de ascensão social, a dupla romântica bela e carismática, a reconstituição caprichada de época e o roteiro equilibrado entre cenas dramáticas, cômicas e de ação - além do orçamento nada desprezível (dentro dos padrões do início dos anos 90) de 60 milhões de dólares. Por que, então, "Um sonho distante", a ambição de Ron Howard em criar um épico de grandes proporções, naufragou tão solenemente nos EUA, a ponto de sequer ter conseguido o retorno de seu investimento? Lançado com toda pompa e circunstância no Festival de Cannes de 1992, o filme nem ao menos empolgou a crítica, os jurados do festival ou os membros da Academia de Hollywood, passando em brancas nuvens em todas as cerimônias de premiação do ano. Primeiro filme de Tom Cruise e Nicole Kidman como um casal - eles já haviam contracenado antes em "Dias de trovão" (90), mas ainda não eram casados - a história de amor entre dois jovens irlandeses - diferentes como a água e o vinho - em meio à busca pelo tão sonhado pedaço de chão na América do final do século XVIII pode ser uma festa para os olhos, mas carece, para atingir plenamente seus objetivos artísticos e comerciais, de personalidade.

Criado em meio à indústria do entretenimento - quando criança ficou conhecido como um dos atores da popular telessérie "Happy days" - o cineasta Ron Howard sempre esteve ciente dos meandros do sistema e, por conseguinte, das exigências do mercado. Tal característica o norteou, portanto, desde seus primeiros passos atrás das câmeras e foi a responsável tanto pelo sucesso de bilheteria de filmes como "Splash, uma sereia em minha vida" (84) - primeiro grande êxito de Tom Hanks - e "O tiro que não saiu pela culatra" (89) - delicado e carinhoso retrato da paternidade - como de fracassos ambiciosos - "Willow, na terra da magia" (88), um projeto pessoal que não encontrou seu público. Seguindo à risca a regra que ensina que uma bilheteria polpuda só será possível se determinado filme conquistar os quatro quadrantes - homens, mulheres, adultos e adolescentes - Howard construiu uma obra que se esforça perceptivelmente a atingí-los: há o romance emoldurado por belas paisagens para os suspiros femininos, cenas de luta e ação para agradar àqueles sedentos por adrenalina, um humor ingênuo (que quase nunca funciona, diga-se de passagem) e até mesmo o maniqueísmo típico desse tipo de produção, que coloca em lados muito bem definidos os mocinhos dos bandidos. No entanto, nessa tentativa de abraçar o mundo, "Um sonho distante" acaba falhando justamente pela previsibilidade.


A trama de "Um sonho distante" se passa no final da década de 1890, quando chegou à Irlanda a notícia - um tanto quanto incompleta em relação aos fatos, mas ainda assim promissora - de que os EUA estavam distribuindo terras aos imigrantes dispostos ao árduo trabalho de cultivá-las. A possibilidade de uma nova vida imediatamente chama a atenção do jovem Joseph Donnelly (Tom Cruise), que acaba de perder o pai, não vê futuro em manter-se em sua terra natal e ambiciona tornar-se dono de uma propriedade onde possa criar uma família. Seu caminho em direção à sua terra prometida cruza-se com o de Shannon Christie (Nicole Kidman), uma moça da alta sociedade que se recusa a cumprir as regras pré-estabelecidas por sua classe social (e tampouco casar-se com o homem escolhido para ela) e também deseja chegar à Oklahoma e estabelecer-se. Passando-se por irmãos, eles chegam aos EUA e lutam para manter-se: ela arruma emprego depenando galinhas e ele passa a ganhar dinheiro envolvendo-se em lutas organizadas pelo aparentemente simpático Kelly (Colm Meaney). Sem perceber que estão apaixonados um por outro, eles terão que passar por grandes dificuldades financeiras e uma separação traumática para notarem que dividem o mesmo sonho.

Não é difícil gostar de "Um sonho distante", já que Ron Howard cuida minuciosamente de cada detalhe para agradar a todos os tipos de audiência. A fotografia grandiosa de Mikael Salomon, a música grandiloquente de John Williams e os figurinos de Joanna Johnston estão todos alinhados ao desejo do diretor em criar um filme inesquecível. Uma pena, no entanto, que sua opção em tratá-lo como um produto "para a família" - com o romance entre Cruise e Kidman e até mesmo as cenas mais violentas amenizadas com esse propósito - tenha lhe tirado a oportunidade de fazer o filme definitivo sobre um dos momentos essenciais da história norte-americana - e do qual seus próprios antepassados tomaram parte. É um filme visualmente belíssimo, mas frio e sem empatia com a mesma audiência que queria tanto conquistar. Está longe de ser uma bomba, mas Howard com certeza sai-se muito melhor quando é intimista.

quarta-feira

O TIRO QUE NÃO SAIU PELA CULATRA

O TIRO QUE NÃO SAIU PELA CULATRA (Parenthood, 1989, Universal Pictures, 124min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Lowell Ganz, Babaloo Mandel, estória de Ron Howard, Babaloo Mandel, Lowell Ganz. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Daniel Hanley, Michael Hill. Música: Randy Newman. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Todd Hallowell/Nina Ramsey. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo. Produção: Brian Grazer. Elenco: Steve Martin, Jason Robards, Mary Steenburgen, Dianne Wiest, Tom Hulce, Rick Moranis, Harley Kozak, Martha Plimpton, Keanu Reeves, Joaquin Phoenix. Estreia: 31/7/89

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest), Canção Original ("I love to see you smile")

Uma doce e terna homenagem às benesses da paternidade - título-original massacrado pelo absurdamente idiota e sem sentido "O tiro que não saiu pela culatra" - a comédia de Ron Howard que acompanha as aventuras e desventuras de uma família tipicamente americana (mas que poderia tranquilamente ser brasileira, italiana, francesa ou japonesa, com suas diferenças culturais à parte, obviamente) nasceu da conclusão de Howard (juntamente com o produtor Brian Grazer e os roteiristas Babaloo Mandel e Lowell Ganz) de que o fato mais importante que lhes aconteceu na vida foi terem sido pais. Relembrando situações embaraçosas, tristes ou engraçadas pelas quais passaram, eles conceberam a história de um clã tão disfuncional quanto caloroso, repleto de problemas mas igualmente cercado de carinho e compreensão, os Buckman. Representados por um elenco excepcional que tem em mãos um roteiro recheado de diálogos deliciosos e poeticamente realista, os Buckman são um retrato bastante fiel da plateia, que deixou nas bilheterias americanas cerca de 100 milhões de dólares e colocou Ron Howard no mapa dos diretores altamente comerciais de Hollywood - status que havia conquistado com "Splash, uma sereia em minha vida" (84) e perdido momentaneamente com o relativo fracasso de "Willow, na terra da magia" (88), um projeto pessoal que naufragou nas bilheterias.

Contado em forma de anedotas cotidianas interligadas por uma história tênue e de uma simplicidade extremamente eficiente, "O tiro que não saiu pela culatra" concentra-se principalmente em Gil Buckman (Steve Martin, explorando todo o seu timing cômico em papel recusado por Dan Ayckroyd, Michael Keaton, Jeff Golblum e Tom Hanks), o segundo filho do patriarca Frank (Jason Robards), um homem que passou a vida dedicado ao trabalho e deixou a família de lado. Gil é casado com a doce Karen (Mary Steenburgen), luta para ser reconhecido profissionalmente e lida diariamente com seus três filhos - sendo que o mais velho, Kevin (Jasen Fisher), para surpresa dos pais, é considerado um garoto-problema na escola e precisa frequentar uma psicóloga. Sua irmã mais velha, Helen (Dianne Wiest), é separada de um ex-marido ausente e luta para ter uma relação afável com os filhos adolescentes, a rebelde Julie (Martha Plimpton) - que namora o desnorteado Todd (Keanu Reeves) - e o misterioso Garry (Joaquin Phoneix, ainda com seu nome real, Leaf, posto por seus pais hippies). A terceira irmã, Susan (Harley Kozak), é casada com o neurótico Nathan (o ótimo Rick Moranis), que quer transformar a filhinha de seis anos em um Einstein de saias e o irmão caçula, Larry (Tom Hulce) - de certa forma o preferido de Frank - pega toda a família de surpresa quando retorna de uma viagem acompanhado de um adendo inesperado: um filho pequeno que teve com uma dançarina de Las Vegas.


Com essa galeria de tipos idiossincráticos mas bastante próximos da realidade do espectador - tanto em termos emocionais quanto familiares -  Ron Howard cria uma pequena pérola do cinema mainstream, equilibrando com sensibilidade momentos de humor (como a hilariante cena em que Gil descobre, sem querer, o que consola sua irmã Helen em suas noites solitárias) com sequências banhadas em uma delicadeza quase europeia (sempre que Gil tem a chance de questionar as escolhas de sua vida e dá de cara com a estrutura familiar que construiu com Karen e os filhos). A trilha sonora de Randy Newman pontua com precisão as escolhas sutis de Howard, comentando a ação de forma discreta - sua canção-tema, "I love to see you smile", chegou a ser indicada ao Oscar da categoria. E o elenco é um show à parte, equilibrando atores já consagrados com os nomes mais quentes do humor cinematográfico americano da época - não deixa de ser injusto que apenas Dianne Wiest tenha sido lembrada pela Academia por seu desempenho como a solitária Helen (um papel no qual ela é especialista, haja visto pelo menos dois trabalhos sob o comando de Woody Allen, "A era do rádio" (87) e "Hannah e suas irmãs" (86), que lhe rendeu uma estatueta.

Se Steve Martin de certa forma comanda o espetáculo com seu Gil Buckman, ele encontra ao seu lado um grupo de atores em plena forma. Jason Robards transmite com exatidão as dúvidas de seu Frank, que descobre na velhice o quanto perdeu da juventude dos filhos e tenta remendar os erros passando a mão na cabeça do caçula irresponsável. Mary Steenburgen vive com placidez uma personagem sempre no meio do redemoinho mas sempre com a cabeça pronta para diminuir as tempestades. Dianne Wiest brilha como Helen, especialmente em seus duelos com a filha Julie (a ótima e eterna "goonie" Martha Plimpton). E Rick Moranis - popularíssimo nos EUA nos anos 80 e depois praticamente esquecido pelo público e pela indústria - quase rouba a cena como o alucinado pai com grandes expectativas intelectuais em relação ao rebento. Juntos, essa família de ótimos atores transforma o texto quase simples de "O tiro que não saiu pela culatra" (que alguns críticos consideraram pasteurizado e digno de sitcoms e não de um filme de um grande estúdio) em um trunfo do cinema familiar. É simples, é quase ingênuo e é também, reconheçamos, quase esquecível. Mas é, ao mesmo tempo, uma delícia como um grande pedaço de bolo de chocolate.

O CÓDIGO DA VINCI


O CÓDIGO DA VINCI (The Da Vinci Code, 2006, Columbia Pictures, 149min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Akiva Goldsman, romance de Dan Brown. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Dan Henley, Mike Hill. Música: Hans Zimmer. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Allan Cameron/Richard Roberts. Produção executiva: Dan Brown, Todd Hallowell. Produção: John Calley, Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Tom Hanks, Audrey Tautou, Jean Reno, Ian McKellen, Paul Bettany, Alfred Molina, Jurgen Prochnow. Estreia: 19/5/06

E alguém duvidava que o décimo-primeiro livro mais vendido do mundo (ao toque de 80 milhões de cópias contabilizadas) chegaria às telas de cinema? É claro que não. A grande questão, respondida na abertura do Festival de Cannes de 2006 era bem outra: conseguiria o roteiro do oscarizado Akiva Goldsman fazer justiça ao romance do americano Dan Brown e repetir junto aos ávidos frequentadores de cinema o interesse do livro? Afinal de contas, o que fazia do thriller de Brown um produto acima da média em termos de literatura de ficção era justamente a mistura bem azeitada entre suspense, história, arte e religião que fazia com que os consumidores simplesmente devorassem a obra vorazmente. Porém, esse equilíbrio, que consistia em páginas e mais páginas de explanações sobre segredos do Vaticano divididos com momentos de ação e mistério e funcionava à perfeição nas páginas, tropeça nas telas. A versão para o cinema de "O código Da Vinci" é tecnicamente perfeita, mas não cumpre tudo que promete.

Tudo começa já na escolha do ator principal. Por mais talentoso que seja, Tom Hanks talvez não seja a opção mais adequada para viver Robert Langdon, o simbologista que é jogado de uma hora pra outra em uma arriscada aventura que põe sua própria vida em jogo: a apatia do ator é perceptível em cada cena, tirando muito do entusiasmo que a trama poderia suscitar e nem mesmo as inspiradas atuações de Ian McKellen, Paul Bettany e Jean Reno conseguem apagar a má impressão. Somado a um roteiro que para a ação em momentos cruciais para a inserção de longos monólogos explicativos - fato que não chega a ser exatamente culpa de Goldsman, uma vez que tais cenas são imprescindíveis para a compreensão da história - o trabalho quase medíocre de Hanks tira muito o brilho do filme.



Filmado com locações dentro do Museu do Louvre, em Paris - onde a trama tem início de forma violenta - "O código Da Vinci" é uma produção caprichada, como se espera de um filme com o orçamento gigantesco de 125 milhões de dólares. Fotografado e editado com cuidado e precisão, ele não consegue, no entanto, deixar a impressão de que é mais longo do que seus demorados 149 minutos de duração. Enquanto o livro passava rapidamente diante dos olhos dos leitores, que viravam suas páginas enlouquecidamente para saber o que viria a seguir, a versão live-action dirigida quase no piloto automático por Ron Howard (vindo do Oscar por "Uma mente brilhante") nunca chega a empolgar, conduzindo o público a uma intriga bastante interessante revelada de forma preguiçosa. É surpreendente que um roteirista tarimbado como Akiva Goldsman não saiba transformar o livro em um produto cinematográfico adequado, ficando preso em demasia à sua estrutura em detrimento a dotá-lo de um ritmo próprio.

Por outro lado, nem tudo são pedras. Quem não leu o romance de Dan Brown - cuja continuação "Anjos e demônios", que se passa antes deste também virou filme nas mãos da mesma equipe - provavelmente irá se surpreender com a história criada pelo escritor, que causou polêmica junto à Igreja católica graças às teorias que levantou. Segundo o livro, o artista plástico Leonardo Da Vinci deixou, escondidas em suas obras, inúmeras pistas relativas a um ancestral segredo que diz respeito à linhagem sagrada de Jesus Cristo e Maria Madalena. São essas pistas que levam o simbologista vivido por Hanks - em papel disputado quase a tapa pelos maiores astros de Hollywood - a correr atrás do assassino de um velho amigo, assassinado no Museu do Louvre e que lhe deixou mensagens criptografadas. Ao lado da neta da vítima, Sophie Neveu (Audrey Tautou), ele parte em busca de respostas a questões que nem sabia existir e encontra pelo caminho o assustador monge Silas (Paul Bettany).

É inegável que a história engendrada por Dan Brown é inteligente, intrigante e bastante relevante. Mas é visível também que sua adaptação para o cinema não chegou nem perto de suas imensas possibilidades. Mesmo assim, é acima da média no gênero e, assistido com paciência e boa vontade, pode render uma bela sessão, principalmente pela história e pelas atuações de Ian McKellen e Paul Bettany.

A LUTA PELA ESPERANÇA

A LUTA PELA ESPERANÇA (Cinderella man, 2005, Universal Pictures/Miramax Films, 144min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Cliff Hollingsworth, Akiva Goldsman, estória de Cliff Hollingsworth. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: Thomas Newman. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Gordon Sim. Produção executiva: Todd Hallowell. Produção: Brian Grazer, Ron Howard, Penny Marshall. Elenco: Russell Crowe, Renée Zellweger, Paul Giamatti, Bruce McGill, Craig Bierko, Paddy Considine. Estreia: 23/5/05

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Paul Giamatti), Montagem, Maquiagem

Depois dos merecidos Oscar por "Uma mente brilhante" o diretor Ron Howard, o ator Russell Crowe, o roteirista Akiva Goldsman e o produtor Brian Grazer tinham a mais plena certeza de que um bicampeonato estava despontando com seu filme seguinte, mais uma poderosa história de superação, repleta de lances melodramáticos e um protagonista capaz de emocionar os espectadores. Sua ambições, no entanto, começaram a parecer impossíveis quando "A luta pela esperança" - a história real de um boxeador nos difíceis anos pós-Depressão americana - naufragou solenemente nas bilheterias. Tendo custado cerca de 80 milhões de dólares, o filme estacionou em pouco mais de 60 milhões em território ianque e só conseguiu passar dos 100 milhões depois de estrear no resto do mundo - no Brasil, mesmo, só chegou às telas quatro meses depois de seu lançamento doméstico. O fracasso comercial, porém, não faz justiça a um espetáculo que, apesar de quadradinho e sem maiores arroubos de criatividade é comovente ao extremo e visualmente deslumbrante.

Fotografado com precisão por Salvatore Totino - que dá a textura de desânimo e desesperança às imagens - e editado com coesão por Dan Hanley e Mike Hill (também herança de "Uma mente brilhante"), "A luta pela esperança" talvez não tenha encontrado seu público justamente por um visual próximo demais da realidade dos anos 30, ou seja, triste e doloroso demais para uma audiência muito mais interessada em filmes de ação escapistas e efeitos visuais. Também não colaborou para sua tentativa de sucesso o fato de que seu protagonista, Jim Braddock, é um boxeador e é sabido que filmes com qualquer relação com esportes - com raras exceções - tendem a bombar nas bilheterias. Somado ao fato de ter estreado bem longe da data tida como mais favorável aos possíveis indicados ao Oscar - a saber, o final do ano - as chances da obra de Howard chegar aos finalistas da estatueta dourada foram minguando com o passar do tempo. Resultado: apenas três indicações menores, incluindo uma de ator coadjuvante para Paul Giamatti.



Giamatti - sendo lembrado pela Academia depois de ter sido ignorado por seu protagonista em "Sideways, entre umas e outras" - interpreta Joe Gould, o treinador de Braddock, um boxeador que teve seus dias de glória deixados para trás com a crise financeira causada pela quebra da bolsa em 1929 e que tenta desesperadamente arrumar trabalho nas docas de Nova York para sustentar a mulher, Mae (Renée Zellweger) e os três filhos pequenos. Sua luta pela sobrevivência - cada dia mais difícil e sofrida - recebe um alento quando seu antigo empresário lhe oferece uma série de lutas. Mesmo contra a vontade da esposa, Braddock aos poucos começa a recuperar seu status e passa a ser chamado pela imprensa de "Cinderella man". Sua grande chance, porém, ainda está por vir: ele aceita lutar contra o arrogante e talentoso Max Baer (Craig Bierko, irreconhecível), em uma luta que será seu tudo ou nada.

Quanto menos se souber a respeito da história de Jim Braddock - sim, é uma história real - melhor para o aproveitamento do drama proposto por Howard e companhia. O suspense a respeito da luta final é realmente bem desenhado pelo cineasta, que faz com que a audiência sofra cada soco em seu protagonista como se fosse em si mesmo. As cenas de luta - mesmo que passem longe da excelência de "Touro indomável" - são filmadas com realismo e extrema competência pelo cineasta. E Russell Crowe mais uma vez entrega uma performance invejável, que o levou a emagrecer e sofrer com uma prótese dentária. Seu esforço injustamente não foi recompensado com uma indicação ao Oscar, mas é digna de figurar entre os grandes momentos de sua carreira.

segunda-feira

UMA MENTE BRILHANTE

UMA MENTE BRILHANTE (A beautiful mind, 2001, Universal Pictures/Dreamworks SKG, Imagine Entertainment, 135min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Akiva Goldsman, livro de Sylvia Nasar. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: James Horner. Figurno: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Leslie Rollins. Produção executiva: Todd Hallowell, Karen Kehela. Produção: Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Russell Crowe, Jennifer Connelly, Ed Harris, Christopher Plummer, Paul Bettany, Josh Lucas, Adam Goldberg, Judd Hirsch. Estreia: 13/12/01

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ron Howard), Ator (Russell Crowe), Atriz Coadjuvante (Jennifer Connelly), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Maquiagem
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ron Howard), Atriz Coadjuvante (Jennifer Connelly), Roteiro Adaptado
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator/Drama (Russell Crowe), Atriz Coadjuvante (Jennifer Connelly), Roteiro

Grande vencedor do Oscar 2001 em quatro categorias - Filme, Diretor, Roteiro Adaptado e Atriz Coadjuvante - "Uma mente brilhante" conta a história do matemático John Nash causou polêmica em seu lançamento, o que em nada atrapalhou seu sucesso também nas bilheterias, com uma arrecadação de mais de 170 milhões de dólares somente no mercado americano (o que, se for levado em conta que não é um típico produto para consumo imediato é um estrondoso sucesso). O celeuma foi causado pela revelação de que o protagonista do filme tinha ideias antissemitas, o que foi convenientemente deixado de lado pelo premiado roteiro de Akiva Goldsman, assim como suas tendências homossexuais. O que os polemistas talvez não tenham percebido é que tais características da personagem não fazem muita diferença para o centro da história contada no filme. O que importa na obra de Ron Howard - um diretor até então de filmes comerciais sem maiores ambições artísticas - é a luta de Nash contra a esquizofrenia, travada durante décadas, e sua história de amor com a esposa Alicia - história essa bastante enfeitada na transposição para celulóide da extensa biografia escrita por Sylvia Nasar.

Vivido com um misto de garra e delicadeza surpreendente por um Russell Crowe provando seu imenso talento, John Nash é mostrado pela primeira vez em 1947, ainda na faculdade e buscando uma maneira de destacar-se de seus colegas, todos matemáticos brilhantes e um tanto arrogantes. Já professor, Nash conhece e se apaixona por uma aluna, a bela Alicia (Jennifer Connelly, linda e excelente no papel), com quem se casa, apesar de suas dificuldadades em relacionamentos sociais. Às vésperas de seu reconhecimento profissional, no entanto, ele é diagnosticado como esquizofrênico e, com a ajuda de Alicia e do psiquiatra Dr. Rosen (Christopher Plummer), ele tenta superar a doença e voltar a ser o gênio que prometia.



Russell Crowe foi injustiçado quando perdeu o Oscar de Melhor Ator para Denzel Washington. Seu trabalho como John Nash é infinitamente superior não somente ao de Denzel mas principalmente à sua própria atuação vencedora do prêmio da Academia pelo épico "Gladiador". Repleta de nuances e sutilezas que só os grandes atores conseguem, sua atuação comove, intriga e angustia na medida certa, impedindo a compaixão fácil e fazendo com que cada cena seja especial pelo simples fato de ele estar presente nela. Sua química exemplar com Jeniffer Connelly, seja em cenas românticas (criadas para agradar às plateias mais convencionais) ou nas mais dramáticas eleva o filme a um patamar de excelência que provavelmente foi o que conquistou o público sedento por um drama adulto de qualidade. É de questionar apenas os motivos que levaram Connelly a vencer na categoria de coadjuvante, uma vez que sua personagem é quase tão protagonista quanto a de Crowe. Somado a sua trama de superação - que além de tudo é verdadeira, apesar da supressão de fatos importantes e da simplificação de outros - o romance entre Nash e Alicia também seduziou os eleitores do Oscar que lhe deram quatro importantes estatuetas (e deveriam ter dado no mínimo mais uma, a Crowe, que acabou prejudicado pela mania do Oscar de corrigir injustiças fazendo outras....).

Além dos trabalhos exemplares de Crowe e Connelly, porém, seria injusto deixar de citar a maior qualidade de "Uma mente brilhante": o roteiro irretocável de Akiva Goldsman. Apesar das licenças poéticas (que incorreram na fúria dos puristas), seu script é capaz de conquistar pela delicadeza dos diálogos e pela reviravolta espetacular que proporciona depois de sua primeira hora de projeção e além de tudo, funciona como drama médico, como romance e como thriller de espionagem, sem nunca atropelar o ritmo e as personagens, sejam elas protagonistas ou coadjuvantes - e nessa categoria encontra-se atores de primeira linha, como Christopher Plummer, Paul Bettany e um arrepiante Ed Harris, perfeito em sua tétrica caracterização como um misterioso agente da CIA.

Com todas essas qualidades, não é de estranhar que "Uma mente brilhante" tenha passado incólume pelas polêmicas a seu respeito. Afinal, verdadeiras ou não, as acusações feitas são contra a personalidade de seu protagonista e não interferem no produto cinematográfico, dirigido com precisão por Ron Howard, até então mais afeito a produções mais lineares e menos, com o perdão do trocadilho, brilhantes. É aqui, com a parceria de Russell Crowe e Akiva Goldsman que ele atinge seu ápice, em um filme forte e que, apesar de parecer esquemático, consegue surpreender e emocionar.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...