O HOMEM DUPLICADO (Enemy, 2013, Pathé International, 91min) Direção:
Dennis Villeneuve. Roteiro: Javier Gullón, romance de José Saramago.
Fotografia: Nicolas Bolduc. Montagem: Matthew Hannam. Música: Danny
Bensi, Saunder Jurriaans. Figurino: Renée April. Direção de
arte/cenários: Patrice Vermette/Jim Lambie. Produção executiva: François
Ivernel, Victor Loewy, Cameron McCracken, Mark Slone. Produção: Miguel
A. Faura, Niv Fichman. Elenco: Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Sarah
Gadon, Isabella Rossellini. Estreia: 08/9/12 (Festival de Toronto)
Adam é um jovem professor universitário que vive em Toronto e leva uma rotina pacata, que inclui visitas à sua dedicada mãe e encontros ocasionais com uma bela mulher com quem evita maiores intimidades. Um dia, assistindo a um filme recomendado por um colega de trabalho, ele reconhece em um dos figurantes um homem idêntico a si mesmo. Movido por uma curiosidade implacável, ele descobre o nome do tal ator - Anthony Claire - e, depois de confirmar sua impressionante semelhança física com ele, parte em sua busca para encontrá-lo face a face. Quando tal encontro acontece, uma série de situações imprevistas une os dois rapazes (de personalidades opostas) e passa a invadir suas vidas íntimas.
À primeira vista, "O homem duplicado" é apenas mais um filme de suspense repleto de clichês, a despeito de ser baseado em um romance do premiado escritor português José Saramago. Mas basta prestar atenção nos créditos para se perceber que ele é bem mais do que isso. Na direção está o canadense Denis Villeneuve, que concorreu ao Oscar de filme estrangeiro com o devastador "Incêndios", e o elenco conta com a experiente Isabella Rossellini e o mais que conhecido Jake Gyllenhaal se dividindo nos papéis centrais. Herdando o desafio recusado por Javier Bardem (que não se achava adequado) e Christian Bale (impedido de fazer o filme por falta de tempo na agenda), Gyllenhaal acaba se mostrando mais do que capaz de enfrentar um roteiro que se liberta das amarras do gênero apresentando um conjunto de metáforas e símbolos de fazer qualquer fã de David Lynch vibrar a cada cena.
Desde a primeira cena, em um bizarro cenário que retrata um misterioso clube que remete imediatamente aos delírios visuais que Lynch imprimiu em obras singulares como "Veludo azul" e "Cidade dos sonhos", o filme de Villeneuve - finalizado antes do bem mais comercial "Os suspeitos", mas lançado posteriormente - já dá mostras ao espectador que não irá seguir o caminho tradicional das narrativas hollywoodianas. Construindo o suspense aos poucos e oferecendo econômicas pistas sobre o que realmente está acontecendo, o roteiro de Javier Gullón conduz a plateia a um angustiante jogo de espelhos, enfatizado pela extraordinária fotografia, que se equilibra com maestria entre os ensolarados exteriores e os opressivos e claustrofóbicos ambientes fechados - uma dualidade que casa perfeitamente com a ideia central da trama, que versa sobre extremos e dicotomias a todo momento. E logicamente, encerrar seu filme com um final alegórico apenas confirma sua vocação para cult: não foi à toa que "O homem duplicado" pouca atenção chamou nas bilheterias e passou praticamente em branco até mesmo pelas cerimônias de premiação, onde foi solenemente ignorado apesar de suas evidentes qualidades artísticas.
Tipo de filme do qual pouco se pode falar sob pena de estragar a diversão alheia, "O homem duplicado" é um prato cheio para o espectador que procura mais do que simples entretenimento. Inteligente, sutil, bem dirigido e bem interpretado - Isabella Rossellini ilumina a tela no papel da mãe do protagonista - o filme de Villeneuve, um cineasta elegante e incapaz de obviedades, é para ser assistido, discutido e aplaudido. Em um dos melhores trabalhos de uma carreira jovem mas já solidificada, Jake Gyllenhaal é apenas a principal razão para se conhecer um dos melhores e mais subestimados filmes de 2013 - nem que seja para ficar com a cabeça repleta de nós quando acabar a sessão.
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sexta-feira
O CONCERTO
O CONCERTO (Le concert, 2009, Les Productions du Trésor/France 3
Cinéma, 119min) Direção: Radu Mihaileanu. Roteiro: Radu Mihaileanu,
Alain-Michel Blanc, colaboração de Matthew Robbins, estória de Héctor
Cabello Reyes, Thierry Degrandi. Fotografia: Laurent Dailland. Montagem:
Laurent Dailland. Música: Armand Amar. Figurino: Viorica Petrovici,
Maira Ramedhan Lévy. Direção de arte/cenários: Christian Niculescu,
Stanislas Reydellet. Produção: Alain Attal, Michael Blakely, Radu
Mihaileanu. Elenco: Aleksey Guskov, Mélanie Laurent, Dmitry Nazarov, François Berléand, Miou-Miou. Estreia: 12/10/09 (Festival de Beauvau)
Uma comédia que une música clássica e crítica político-social em uma trama que não tem medo de misturar dramáticos segredos do passado com toques de humor pastelão não é coisa fácil de se encontrar. Talvez por isso o belo "O concerto" tenha agradado tanto às plateias e à crítica desde sua estreia, no Festival de Cinema de Beauvau. Longe das tradicionais produções francesas - ao menos daquelas menos populares que marcaram o país como pátria de uma cinematografia por vezes hermética demais para o grande público - o filme de Radu Mihaileanu se equilibra com rara sutileza entre o humor e o drama, sem jamais subestimar a inteligência do espectador, que tem a oportunidade de se deliciar com uma história bem contada e sensível, indicada ao Golden Globe de melhor filme estrangeiro e saiu da cerimônia do César (o Oscar francês) com as estatuetas de trilha sonora original e som.
Mesmo sem nenhum astro de primeira grandeza no elenco - o rosto mais conhecido é de Mélanie Laurent, a Shoshana de "Bastardos inglórios" e o par romântico de Ewan McGregor em "Toda forma de amor" - "O concerto" conquista sua audiência sem muito esforço, graças principalmente à forma cadenciada (seria musical?) de sua narrativa. Quando o filme começa, o faxineiro do consagrado Teatro Bolshoi intercepta um fax que convida a tradicional orquestra russa para um concerto de última hora em Paris. Acontece que tal faxineiro era, trinta anos antes, o regente da orquestra, famoso e respeitado até que a ascensão do regime comunista o relegou ao ostracismo artístico. Vendo na excursão proposta pelos franceses a grande chance de recuperar a autoestima perdida quando foi demitido em plena apresentação pelo fato de ter dado emprego a judeus, Andrey Simoniovich Filipov (Aleksey Guskov) resolve reunir seus antigos colegas e fazer-se passar por atuais profissionais do grupo. Para isso, ele terá que reuní-los apesar do tempo tê-los afastado e contratar como empresário o ex-agente da KGB Ivan Gravilov (Valeryi Barinov) - o homem responsável por seu afastamento dos palcos. O que poucos imaginam, na verdade, é que Andrey tem outro objetivo com o concerto, algo relacionado com o passado da festejada violinista Anne-Marie Jacquet (Mélanie Laurent).
Dedicando os dois terços iniciais de seu filme à busca de Andrey pelos recursos necessários à sua viagem e à organização do concerto, Mihaileanu oferece à plateia uma comédia de situações leve e quase despretensiosa, centrada em personagens cujos estilos de humor variam entre o bufão e o quase minimalista - mesmo que por vezes suas opções soem deslocadas, a exemplo da confusão exagerada em uma festa de casamento. Quando o drama assume os holofotes, no entanto, é que "O concerto" diz a que veio: enquanto mergulha o público nos dramas que envolvem a infância de Anne-Marie e a juventude de Andrey, o cineasta romeno vai costurando um delicado e comovente painel de emoções humanas que chega ao clímax na aguardada apresentação da orquestra, uma explosão fascinante de música e sentimentos capaz de arrepiar ao mais cético espectador. Se até então havia alguma dúvida dos motivos que levaram o filme a ser tão querido, ela se desfaz conforme a intensa melodia de Tchaikovsky preenche a tela e as peças do quebra-cabeça embaralhado pelo roteiro começam a se encaixar.
"O concerto" não é uma obra-prima. Algumas quebras de ritmo em sua narrativa e certos desvios de foco enfraquecem o resultado geral, mas é inegável que a comunhão entre a direção elegante, o elenco homogêneo e a inusitada mistura de música clássica e política deu liga. A lembrança que o filme deixa no espectador é a melhor possível, com seu final emocionalmente potente e a beleza de sua trilha sonora. Em um tempo repleto de violência e humor de baixo calão, não deixa de ser um bálsamo de bom gosto e delicadeza.
Uma comédia que une música clássica e crítica político-social em uma trama que não tem medo de misturar dramáticos segredos do passado com toques de humor pastelão não é coisa fácil de se encontrar. Talvez por isso o belo "O concerto" tenha agradado tanto às plateias e à crítica desde sua estreia, no Festival de Cinema de Beauvau. Longe das tradicionais produções francesas - ao menos daquelas menos populares que marcaram o país como pátria de uma cinematografia por vezes hermética demais para o grande público - o filme de Radu Mihaileanu se equilibra com rara sutileza entre o humor e o drama, sem jamais subestimar a inteligência do espectador, que tem a oportunidade de se deliciar com uma história bem contada e sensível, indicada ao Golden Globe de melhor filme estrangeiro e saiu da cerimônia do César (o Oscar francês) com as estatuetas de trilha sonora original e som.
Mesmo sem nenhum astro de primeira grandeza no elenco - o rosto mais conhecido é de Mélanie Laurent, a Shoshana de "Bastardos inglórios" e o par romântico de Ewan McGregor em "Toda forma de amor" - "O concerto" conquista sua audiência sem muito esforço, graças principalmente à forma cadenciada (seria musical?) de sua narrativa. Quando o filme começa, o faxineiro do consagrado Teatro Bolshoi intercepta um fax que convida a tradicional orquestra russa para um concerto de última hora em Paris. Acontece que tal faxineiro era, trinta anos antes, o regente da orquestra, famoso e respeitado até que a ascensão do regime comunista o relegou ao ostracismo artístico. Vendo na excursão proposta pelos franceses a grande chance de recuperar a autoestima perdida quando foi demitido em plena apresentação pelo fato de ter dado emprego a judeus, Andrey Simoniovich Filipov (Aleksey Guskov) resolve reunir seus antigos colegas e fazer-se passar por atuais profissionais do grupo. Para isso, ele terá que reuní-los apesar do tempo tê-los afastado e contratar como empresário o ex-agente da KGB Ivan Gravilov (Valeryi Barinov) - o homem responsável por seu afastamento dos palcos. O que poucos imaginam, na verdade, é que Andrey tem outro objetivo com o concerto, algo relacionado com o passado da festejada violinista Anne-Marie Jacquet (Mélanie Laurent).
Dedicando os dois terços iniciais de seu filme à busca de Andrey pelos recursos necessários à sua viagem e à organização do concerto, Mihaileanu oferece à plateia uma comédia de situações leve e quase despretensiosa, centrada em personagens cujos estilos de humor variam entre o bufão e o quase minimalista - mesmo que por vezes suas opções soem deslocadas, a exemplo da confusão exagerada em uma festa de casamento. Quando o drama assume os holofotes, no entanto, é que "O concerto" diz a que veio: enquanto mergulha o público nos dramas que envolvem a infância de Anne-Marie e a juventude de Andrey, o cineasta romeno vai costurando um delicado e comovente painel de emoções humanas que chega ao clímax na aguardada apresentação da orquestra, uma explosão fascinante de música e sentimentos capaz de arrepiar ao mais cético espectador. Se até então havia alguma dúvida dos motivos que levaram o filme a ser tão querido, ela se desfaz conforme a intensa melodia de Tchaikovsky preenche a tela e as peças do quebra-cabeça embaralhado pelo roteiro começam a se encaixar.
"O concerto" não é uma obra-prima. Algumas quebras de ritmo em sua narrativa e certos desvios de foco enfraquecem o resultado geral, mas é inegável que a comunhão entre a direção elegante, o elenco homogêneo e a inusitada mistura de música clássica e política deu liga. A lembrança que o filme deixa no espectador é a melhor possível, com seu final emocionalmente potente e a beleza de sua trilha sonora. Em um tempo repleto de violência e humor de baixo calão, não deixa de ser um bálsamo de bom gosto e delicadeza.
TODA FORMA DE AMOR
TODA FORMA DE AMOR (Begginers, 2010, Olympus Pictures/Northwood Productions, 105min) Direção e roteiro: Mike Mills. Fotografia: Kasper Tuxen. Montagem: Olivier Bugge Coutte. Música: Roger Neill, David Palmer, Brian Reitzell. Figurino: Jennifer Johnson. Direção de arte/cenários: Shane Valentino/Coryander Friend. Produção executiva: Joan Scheckel. Produção: Miranda de Pencier, Lars Knudsen, Leslie Urdang, Jay Van Hoy, Dean Vanech. Estreia: Ewan McGregor, Mélanie Laurent, Christopher Plummer, Goran Visnjic. Estreia: 11/9/10 (Festival de Toronto)
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Christopher Plummer)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Christopher Plummer)
A estreia do cineasta Mike Mills não ultrapassou os limites dos festivais de cinema. O longa "Impulsividade" angariou elogios da crítica, mas não pode ser considerado um êxito de público. Seu segundo trabalho atrás das câmeras, porém, teve - e mereceu - uma sorte bem melhor. Premiado como melhor filme de 2011 pelo Gotham Awards - empatado com o controverso "Árvore da vida", do cultuado Terrence Malick - e vencedor do Golden Globe e Oscar de melhor ator coadjuvante para o veterano Christopher Plummer, "Toda forma de amor" é um belíssimo drama romântico, que extrapola os limites do gênero ao contar não apenas uma tradicional história de amor entre homem e mulher, mas também entre pai e filho e entre um homem e sua verdadeira personalidade.
Inspirado em acontecimentos reais de sua vida, Mills conta a história de Oliver Fields (Ewan McGregor), um jovem designer emocionalmente mutilado que não consegue envolver-se profundamente com nenhuma mulher graças ao trauma de ter convivido com a fria relação entre seus pais. A entrada em sua vida da atriz francesa Anna (Mélanie Laurent) opera uma mudança radical em seu modo de enxergar as coisas, especialmente porque sua chegada coincide com o período de luto que o rapaz vem enfrentando depois da recente morte do pai, Hal (Christopher Plummer), um septuagenário que, após a viuvez, resolveu assumir a homossexualidade, viveu um novo amor com um homem mais jovem, Andy (Goran Visjnic), e descobriu sofrer de um câncer incurável. Sentindo-se incapaz de amar de verdade, Oliver precisa lutar contra a própria insegurança para fugir da infelicidade que sempre acompanhou a vida de seus progenitores, que sufocaram suas reais vontades em prol das aparências.
Mills não se priva de utilizar elementos criativos para contar sua história. Além de fugir de uma ordem cronológica tradicional - misturando as lembranças de Oliver com sua trajetória amorosa -, o roteirista/cineasta também brinca com a linguagem publicitária, inserindo informações a respeito das personagens e de suas vidas (e da sociedade americana de modo geral) de forma original e ágil, sem perder o foco da narração. Usando e abusando de elipses e confiando na inteligência do público, ele escapa divinamente do piegas e do lacrimoso mesmo nos mais comoventes momentos e emociona pelos diálogos bem escritos e pela direção segura. Ewan McGregor entrega uma de suas atuações mais interessantes, deixando de lado as bobagens comerciais que lhe tiraram a credibilidade ("Star Wars" foi um passo em falso em sua carreira) em uma interpretação silenciosa, melancólica e terna. Sua química, tanto com Plummer quanto com Mélanie Laurent (a Shosanna de "Bastardos inglórios") é perfeita, revelando um ator sensível que ainda não foi devidamente valorizado. Plummer, por sua vez, encontrou o papel de sua vida: seu Hal é despido de autopiedade e o veterano ator desfila todas as nuances do personagem com segurança e paixão - não foi à toa que tornou-se o ator mais idoso a levar uma estatueta do Oscar, vencendo a disputa com Max Von Sydow, concorrente por "Tão forte, tão perto" e que recusou o papel oferecido por Mills.
Dono de uma sensibilidade única, de uma estrutura estética e narrativa originais e extremamente delicado, "Toda forma de amor" é um filme que, apesar de ter sido lançado diretamente em DVD no Brasil - mais uma prova da miopia das distribuidoras - é uma pérola a ser apreciada por todos aqueles que admiram uma história bem contada e desprovida de exageros sentimentais. Com um DNA de filme europeu, é também um filme que joga luz sobre um assunto ainda pouco explorado pelo cinema em geral: a homossexualidade na terceira idade. Merece ser descoberto e aplaudido!
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Christopher Plummer)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Christopher Plummer)
A estreia do cineasta Mike Mills não ultrapassou os limites dos festivais de cinema. O longa "Impulsividade" angariou elogios da crítica, mas não pode ser considerado um êxito de público. Seu segundo trabalho atrás das câmeras, porém, teve - e mereceu - uma sorte bem melhor. Premiado como melhor filme de 2011 pelo Gotham Awards - empatado com o controverso "Árvore da vida", do cultuado Terrence Malick - e vencedor do Golden Globe e Oscar de melhor ator coadjuvante para o veterano Christopher Plummer, "Toda forma de amor" é um belíssimo drama romântico, que extrapola os limites do gênero ao contar não apenas uma tradicional história de amor entre homem e mulher, mas também entre pai e filho e entre um homem e sua verdadeira personalidade.
Inspirado em acontecimentos reais de sua vida, Mills conta a história de Oliver Fields (Ewan McGregor), um jovem designer emocionalmente mutilado que não consegue envolver-se profundamente com nenhuma mulher graças ao trauma de ter convivido com a fria relação entre seus pais. A entrada em sua vida da atriz francesa Anna (Mélanie Laurent) opera uma mudança radical em seu modo de enxergar as coisas, especialmente porque sua chegada coincide com o período de luto que o rapaz vem enfrentando depois da recente morte do pai, Hal (Christopher Plummer), um septuagenário que, após a viuvez, resolveu assumir a homossexualidade, viveu um novo amor com um homem mais jovem, Andy (Goran Visjnic), e descobriu sofrer de um câncer incurável. Sentindo-se incapaz de amar de verdade, Oliver precisa lutar contra a própria insegurança para fugir da infelicidade que sempre acompanhou a vida de seus progenitores, que sufocaram suas reais vontades em prol das aparências.
Mills não se priva de utilizar elementos criativos para contar sua história. Além de fugir de uma ordem cronológica tradicional - misturando as lembranças de Oliver com sua trajetória amorosa -, o roteirista/cineasta também brinca com a linguagem publicitária, inserindo informações a respeito das personagens e de suas vidas (e da sociedade americana de modo geral) de forma original e ágil, sem perder o foco da narração. Usando e abusando de elipses e confiando na inteligência do público, ele escapa divinamente do piegas e do lacrimoso mesmo nos mais comoventes momentos e emociona pelos diálogos bem escritos e pela direção segura. Ewan McGregor entrega uma de suas atuações mais interessantes, deixando de lado as bobagens comerciais que lhe tiraram a credibilidade ("Star Wars" foi um passo em falso em sua carreira) em uma interpretação silenciosa, melancólica e terna. Sua química, tanto com Plummer quanto com Mélanie Laurent (a Shosanna de "Bastardos inglórios") é perfeita, revelando um ator sensível que ainda não foi devidamente valorizado. Plummer, por sua vez, encontrou o papel de sua vida: seu Hal é despido de autopiedade e o veterano ator desfila todas as nuances do personagem com segurança e paixão - não foi à toa que tornou-se o ator mais idoso a levar uma estatueta do Oscar, vencendo a disputa com Max Von Sydow, concorrente por "Tão forte, tão perto" e que recusou o papel oferecido por Mills.
Dono de uma sensibilidade única, de uma estrutura estética e narrativa originais e extremamente delicado, "Toda forma de amor" é um filme que, apesar de ter sido lançado diretamente em DVD no Brasil - mais uma prova da miopia das distribuidoras - é uma pérola a ser apreciada por todos aqueles que admiram uma história bem contada e desprovida de exageros sentimentais. Com um DNA de filme europeu, é também um filme que joga luz sobre um assunto ainda pouco explorado pelo cinema em geral: a homossexualidade na terceira idade. Merece ser descoberto e aplaudido!
segunda-feira
BASTARDOS INGLÓRIOS
BASTARDOS INGLÓRIOS (Inglourious basterds, 2009, ) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Sally Menke. Figurino: Anna B. Sheppard. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Lloyd Phillips, Erica Steinberg, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Lawrence Bender. Elenco: Brad Pitt, Christoph Waltz, Melanie Laurent, Diane Kruger, Michael Fassbender, Eli Roth, Mike Meyers, Daniel Bruhl, B.J. Novak, Denis Menochet, Julie Dreyfuss. Estreia: 20/5/09 (Festival de Cannes)
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator Coadjuvante (Christoph Waltz), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Christoph Waltz)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Christoph Waltz)
Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes: Melhor Ator (Christoph Waltz)
Em 1978, um filme italiano chamado "O expresso blindado da S.S. Nazista" estreou nos EUA com o título "The inglourious bastards". Dirigido por Enzo G. Castellari, o filme se passava na França ocupada pelos alemães e tinha como protagonistas um grupo de homens dispostos a qualquer sacrifício para completar sua perigosa missão de cruzar a fronteira com a Suíça. O filme - não exatamente um êxito comercial ou crítico - poderia ter desaparecido com o tempo se Quentin Tarantino, dono de uma prodigiosa memória cinematográfica adquirida de seus tempos como funcionário de um videolocadora não o tivesse ressuscitado... à sua maneira. Mantendo apenas seu título ianque - com uma pequena alteração na grafia - e uma participação especial do diretor Castellari, um dos cineastas mais cultuados da moderna Hollywood inventou uma história que casa com perfeição a violência dos filmes de guerra, o humor negro característico de suas obras anteriores e uma trama capaz até mesmo de alterar o desfecho da II Guerra Mundial.
Provando seu prestígio no mundo do cinema, Tarantino estreou seu "Bastardos inglórios" no Festival de Cannes de 2009, quinze anos depois que abocanhou a Palma de Ouro com seu incensado "Pulp fiction, tempo de violência" e novamente viu os jurados conquistados por seu jeito particular de contar histórias: na pele de Hans Lauda, o oficial nazista que dedica sua vida à caça aos judeus, o austríaco Christoph Waltz levou o prêmio de melhor ator, em uma interpretação impecável que também lhe rendeu o Oscar de coadjuvante no ano seguinte. Roubando a atenção com um personagem que frequentemente se equilibra entre o carisma irônico dos vilões tarantinescos e a crueldade inerente a seus atos de violência, Waltz consegue a proeza até mesmo de sobressair-se ao maior astro do filme, Brad Pitt, que, como o Tenente Aldo Raine, esbanja charme cínico, timing cômico e o carisma que lhe caracterizam e fizeram dele um dos mais confiáveis atores de Hollywood.
Porém, apesar do nome de Pitt estampar com destaque o cartaz de "Bastardos inglórios", o ator divide a atenção com um elenco vasto, que deita e rola no universo criado por Tarantino em sua reimaginação do período. Dividido em capítulos, o filme apresenta seus personagens aos poucos, dando a cada um deles a devida importância, até que todos se encontram no grand finale, a pré-estreia de um filme de propaganda nazista estrelado pelo soldado tornado ator Fredrick Zoller (Daniel Bruhl) - cuja arrogância nascente o impede de perceber que a mulher por quem está interessado (Mélanie Laurent), a dona do cinema, que tem um trágico passado a suas costas, não tem a menor intenção de acatar seus desejos. Sobrevivente de uma família judia exterminada por Landa, a jovem Shosanna imagina uma vingança em grande estilo, que vai de encontro com as intenções dos Bastardos Inglórios e seus comparsas - e que acaba reescrevendo a história de uma das maneiras mais criativas do cinema americano.
Repleto de citações subliminares - como é tradicional na filmografia do diretor - "Bastardos inglórios" é a prova da maturidade de Quentin Tarantino. Sem abrir mão dos longos diálogos que caracterizam sua obra, ele cria uma narrativa que mescla um senso de humor raro com uma tensão constante desde a primeira sequência até seu clímax, de um absurdo nonsense que só faz mesmo sentido dentro do universo do cineasta. Inteligente, engraçado, violento e moderno, "Bastardos inglórios" poderia tranquilamente ter levado o Oscar de Melhor Filme que foi entregue à "Guerra ao terror", mas provavelmente a forma como tratou de um tema delicado junto à Academia deve ter lhe tirado muitos votos. Ainda assim, deve entrar na história como um dos grandes filmes de guerra de seu tempo.
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator Coadjuvante (Christoph Waltz), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Christoph Waltz)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Christoph Waltz)
Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes: Melhor Ator (Christoph Waltz)
Em 1978, um filme italiano chamado "O expresso blindado da S.S. Nazista" estreou nos EUA com o título "The inglourious bastards". Dirigido por Enzo G. Castellari, o filme se passava na França ocupada pelos alemães e tinha como protagonistas um grupo de homens dispostos a qualquer sacrifício para completar sua perigosa missão de cruzar a fronteira com a Suíça. O filme - não exatamente um êxito comercial ou crítico - poderia ter desaparecido com o tempo se Quentin Tarantino, dono de uma prodigiosa memória cinematográfica adquirida de seus tempos como funcionário de um videolocadora não o tivesse ressuscitado... à sua maneira. Mantendo apenas seu título ianque - com uma pequena alteração na grafia - e uma participação especial do diretor Castellari, um dos cineastas mais cultuados da moderna Hollywood inventou uma história que casa com perfeição a violência dos filmes de guerra, o humor negro característico de suas obras anteriores e uma trama capaz até mesmo de alterar o desfecho da II Guerra Mundial.
Provando seu prestígio no mundo do cinema, Tarantino estreou seu "Bastardos inglórios" no Festival de Cannes de 2009, quinze anos depois que abocanhou a Palma de Ouro com seu incensado "Pulp fiction, tempo de violência" e novamente viu os jurados conquistados por seu jeito particular de contar histórias: na pele de Hans Lauda, o oficial nazista que dedica sua vida à caça aos judeus, o austríaco Christoph Waltz levou o prêmio de melhor ator, em uma interpretação impecável que também lhe rendeu o Oscar de coadjuvante no ano seguinte. Roubando a atenção com um personagem que frequentemente se equilibra entre o carisma irônico dos vilões tarantinescos e a crueldade inerente a seus atos de violência, Waltz consegue a proeza até mesmo de sobressair-se ao maior astro do filme, Brad Pitt, que, como o Tenente Aldo Raine, esbanja charme cínico, timing cômico e o carisma que lhe caracterizam e fizeram dele um dos mais confiáveis atores de Hollywood.
Porém, apesar do nome de Pitt estampar com destaque o cartaz de "Bastardos inglórios", o ator divide a atenção com um elenco vasto, que deita e rola no universo criado por Tarantino em sua reimaginação do período. Dividido em capítulos, o filme apresenta seus personagens aos poucos, dando a cada um deles a devida importância, até que todos se encontram no grand finale, a pré-estreia de um filme de propaganda nazista estrelado pelo soldado tornado ator Fredrick Zoller (Daniel Bruhl) - cuja arrogância nascente o impede de perceber que a mulher por quem está interessado (Mélanie Laurent), a dona do cinema, que tem um trágico passado a suas costas, não tem a menor intenção de acatar seus desejos. Sobrevivente de uma família judia exterminada por Landa, a jovem Shosanna imagina uma vingança em grande estilo, que vai de encontro com as intenções dos Bastardos Inglórios e seus comparsas - e que acaba reescrevendo a história de uma das maneiras mais criativas do cinema americano.
Repleto de citações subliminares - como é tradicional na filmografia do diretor - "Bastardos inglórios" é a prova da maturidade de Quentin Tarantino. Sem abrir mão dos longos diálogos que caracterizam sua obra, ele cria uma narrativa que mescla um senso de humor raro com uma tensão constante desde a primeira sequência até seu clímax, de um absurdo nonsense que só faz mesmo sentido dentro do universo do cineasta. Inteligente, engraçado, violento e moderno, "Bastardos inglórios" poderia tranquilamente ter levado o Oscar de Melhor Filme que foi entregue à "Guerra ao terror", mas provavelmente a forma como tratou de um tema delicado junto à Academia deve ter lhe tirado muitos votos. Ainda assim, deve entrar na história como um dos grandes filmes de guerra de seu tempo.
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