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terça-feira

SEM DESTINO

 


SEM DESTINO (Easy rider, 1969, Columbia Pictures, 95min) Direção: Dennis Hopper. Roteiro: Peter Fonda, Dennis Hopper, Terry Southern. Fotografia: Laszlo Kovacs. Montagem: Donn Cambern. Direção de arte: Jerry Kay. Produção executiva: Bert Schneider. Produção: Peter Fonda. Elenco: Peter Fonda, Dennis Hopper, Jack Nicholson, Karen Black, Toni Basil. Estreia: 12/5/69 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro Original

Se metade das histórias sobre sua produção são verdadeiras, é um milagre que "Sem destino" tenha chegado às telas, e, mais ainda, que tenha se tornado um dos filmes mais icônicos da história do cinema norte-americano. Considerado um marco inicial do que se convencionou chamar de Nova Hollywood - uma série de produções que iam de encontro à formalidade narrativa e estética da era dos estúdios -, o filme estrelado por Peter Fonda e Dennis Hooper custou uma ninharia (pouco mais de 350 mil dólares) e quase imediatamente adquiriu o status de cult, conquistando um público sedento por ver, nas salas escuras, um reflexo mais realista e menos dourado da sociedade do final dos anos 1960, onde drogas, violência e sexo livre conviviam - nem sempre pacificamente - com a hipocrisia do american way of life. Lançado no Festival de Cannes de 1969, depois de um longo processo de edição que condensou mais de três horas e meia  em palatáveis noventa e cinco minutos, "Sem destino" é um retrato cru e surpreendentemente pessimista de um dos períodos de maior ebulição social dos EUA.

Tendo como protagonistas dois anti-heróis que destoavam dos mocinhos românticos e éticos que povoavam (e limitavam) o cinema de então, "Sem destino" é um road movie no sentido mais literal do termo, ao conduzir o espectador por uma viagem que, mais do que simplesmente ter um objetivo concreto, serve como uma metáfora da liberdade, tão ansiada especialmente pelos jovens, revoltados pela escalada da violência na Guerra do Vietnã e ativos nas lutas pelos direitos civis. Utilizando moradores locais como atores e subvertendo as regras da indústria - a maioria das cenas externas foram filmadas com luz natural e os diálogos eram improvisados conforme orientações básicas -, o filme (que Roger Corman declinou de produzir, para seu arrependimento posterior) é surpreendentemente coeso e consistente, ao menos dentro de seus objetivos artísticos e ideológicos. Dirigido por um Dennis Hopper no auge de seu problema com drogas - o que causava constantes conflitos com a equipe e com o próprio colega de cena e produtor Peter Fonda -, "Sem destino" também inovou na construção de sua trilha sonora: ao contrário de usar música original, os comentários à ação surgiam de canções já consagradas de gente como Steppenwolf, The Byrds e The Band, cujo som remetiam imediatamente à atmosfera de liberdade proposta pelo roteiro, que aliás, também fugia do tradicional.

 

Há versões diferentes quando se trata de falar sobre o processo de escrita de "Sem destino": uma delas afirma que Fonda e Hopper escreveram um rascunho de aproximadamente doze páginas e improvisaram os diálogos durante as filmagens; em outra versão, o roteirista Terry Southern juntou-se aos dois protagonistas em um porão e, sob o efeito de maconha, ditaram o texto para um gravador; e por fim, Southern declarou que escreveu tudo sozinho e acrescentou o nome dos atores a pedido deles, encantados com o resultado final. O fato é que, apesar de uma inesperada indicação ao Oscar da categoria, o roteiro é mero pretexto para uma declaração de amor à liberdade. Wyatt (Peter Fonda) e Billy (Dennis Hopper) são dois amigos hippies que, depois de vender uma partida de cocaína, resolvem empreender uma viagem de moto pelas estradas dos EUA, com o objetivo de chegar a Nova Orleans a tempo do Mardi Gras. Pelo caminho, eles encontram um país dividido entre pessoas ainda herméticas a estilos de vida alternativos e grupos buscando novas maneiras de encarara e realidade. É nesse segundo grupo que se encontra o jovem advogado George Hanson (Jack Nicholson, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), a quem conhecem em uma noite na cadeia.

Um indiscutível clássico da contracultura - e fundamental na história do cinema do século XX -, "Sem destino" se beneficiou, além de sua precisão cronológica, de uma dupla de atores centrais que são a cara de sua época. Foi um acerto de Peter Fonda em convencer Dennis Hopper a voltar a atuar, prometendo-lhe a cadeira de diretor se ele desistisse da ideia de abandonar o cinema para tornar-se professor: mesmo conduzindo os trabalhos de forma errática, o rebelde veterano (com 36 anos de idade durante as filmagens) desafiou chefes de estúdio, membros da equipe e até mesmo seu amigo/colega/produtor para imprimir sua personalidade ao produto acabado. Mesmo que talvez boa parte tenha sido sorte de principiante, é inegável que, com outro diretor, a história não teria sido a mesma.

quarta-feira

COLORS: AS CORES DA VIOLÊNCIA

COLORS: AS CORES DA VIOLÊNCIA (Colors, 1988, Orion Pictures, 120min) Direção: Dennis Hopper. Roteiro: Michael Schiffer, estória de Michael Schiffer, Richard DiLello. Fotografia: Haskell Wexler. Montagem: Robert Estrin. Música: Herbie Hancock. Direção de arte/cenários: Ron Foreman/Ernie Bishop. Produção: Robert H. Solo. Elenco: Sean Penn, Robert Duvall, Maria Conchita Alonso, Don Cheadle, Damon Wayans, Leon, Mario Lopez. Estreia: 15/4/88

No final da década de 80, a cidade de Los Angeles enfrentava, em seu dia-a-dia, um fenômeno dos mais perigosos: a proliferação de gangues, que agiam nos subúrbios, provocavam ondas de violência e batiam de frente com a força policial - dedicada e corajosa, mas praticamente impotente diante da abissal desigualdade numérica. Enquanto os policiais contavam com uma equipe de cerca de 250 homens e mulheres, os membros de gangues chegavam a 70.000 (espalhados em quase 600 grupos diferentes). Diante desse quadro aterrador, Dennis Hopper não viu outra solução senão modificar o roteiro original de Michael Schiffer - que versava sobre traficantes de drogas em Chicago - para retratar, com o máximo de frieza e realismo, o embate entre os dois lados da lei em seu quarto longa-metragem como diretor (e oito anos depois de sua última incursão na função, com "Anos de rebeldia"). Com o cenário e o pano de fundo modificados por Schiffer, surgia então "Colors: as cores da violência", um sucesso inesperado de bilheteria que esfregava na cara do espectador uma realidade até então conhecida apenas através de telejornais ou romantizações vindas de Hollywood. Com membros de gangues contratados como extras e seguranças da equipe, "Colors" conseguiu o feito raro de promover um cessar-fogo provisório durante as filmagens - e reacendeu a polêmica da violência no cinema quando, em algumas salas de exibição, provocou tumultos e distúrbios.

A crueza do tema e da realização de Hopper - que filma quase como um documentário, com cenas que mal se conectam entre si e são fotografadas de forma nervosa e urgente - espalhou-se também para os bastidores da produção, quando seu astro, Sean Penn, foi preso e passou trinta e três dias na cadeia por ter agredido um paparazzo (vale lembrar que, na época, ele era casado com Madonna, e os dois frequentavam os tabloides sensacionalistas com assiduidade quase religiosa). Da mesma forma, um ataque a tiros em um funeral (em uma cena crucial do filme) foi praticamente repetida a poucos metros de distância da filmagem, para descrédito de alguns críticos um tanto quanto céticos em relação ao realismo da sequência. A despeito de tal grau de realismo, porém, o resultado final do filme não deixa de ser surpreendentemente morno - uma quase decepção, especialmente por ser dirigido por um dos ícones da rebeldia no cinema e autor de um dos filmes seminais da contracultura, o clássico "Sem destino" (69). 





"Colors", apesar do visual sujo e do tom naturalista, peca por não envolver o público em sua trama, preferindo a denúncia social ao desenvolvimento dramático de seu roteiro, que dificilmente escapa dos clichês e tampouco apresenta personagens carismáticos o bastante para conquistar a plateia. Tanto o novato Danny McGavin (Sean Penn, bom ator como sempre) quanto o veterano Bob Hodges (Robert Duvall) parecem criados seguindo a regra consagrada pela série "Máquina mortífera", em que dois parceiros de personalidades diferentes se unem em prol do mesmo objetivo e passam a se admirar e respeitar mutuamente. Não há uma química muito consistente entre McGavin e Louisa (Maria Conchita Alonso), por exemplo: fica a impressão de que seu envolvimento acontece unicamente para acrescentar um obstáculo a mais no conflito entre o jovem policial e os integrantes das gangues - assim como a família feliz de Hodges serve como contraponto ao caos urbano e tenta dar densidade a um personagem que, não fosse o talento de Robert Duvall, seria igual a tantos outros já retratados pelo cinema norte-americano. Sem buscar novidades em sua narrativa, "Colors" destaca-se mesmo é pelo tema pulsante e pelo desempenho de seus atores principais.

Longe de ser um grande filme - as cenas de ação são formulaicas e editadas sem ritmo, falta empatia aos protagonistas e o roteiro é simplista ao extremo -, "Colors" se beneficia (e muito) do talento de Sean Penn e Robert Duvall. Atores extremamente competentes, eles conseguem extrair o que há de bom no roteiro e disfarçar a superficialidade da trama - basicamente a tentativa dos policiais de Los Angeles em acabar com a guerra entre gangues, mais especificamente entre os Bloods e os Crisps. Enquanto o mais experiente Hodges faz isso através do diálogo e de uma malandragem adquirida com os anos de prática, seu colega McGavin prefere apelar para a violência e a ameaça física. Nada que seja particularmente empolgante ou criativo a ponto de tornar-se memorável. É um filme que cumpre o que promete, mas deixa no ar a sensação de que poderia ter sido bem melhor, dados os talentos envolvidos. À época de seu lançamento teve seu impacto, mas não resistiu tão bem ao tempo e hoje dificilmente é capaz de surpreender aos espectadores mais exigentes.

quinta-feira

AMOR À QUEIMA-ROUPA

AMOR À QUEIMA-ROUPA (True romance, 1993, Morgan Creek Productions, 120min) Direção: Tony Scott. Roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Jeffrey L. Kimball. Montagem: Michael Tronick, Christian Wagner. Música: Hans Zimmer. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: Benjamín Fernández/Thomas L. Roysden. Produção executiva: James G. Robinson, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Gary Barber, Samuel Hadida, Steve Perry, Bill Unger. Elenco: Christian Slater, Patricia Arquette, Gary Oldman, Christopher Walken, Dennis Hopper, Brad Pitt, Saul Rubinek, Michael Rapaport, James Gandolfini, Samuel L. Jackson, Val Kilmer, Bronson Pinchot, Chris Penn, Tom Sizemore, Maria Pitillo. Estreia: 10/9/93

Antes de tornar-se febre e ser considerado o "novo Martin Scorsese" graças ao sucesso imediato de seu violento "Cães de aluguel" (92), Quentin Tarantino trabalhava como gerente de uma video-locadora, como qualquer fã de cinema bem informado sabe. O que talvez pouca gente saiba é que, durante esse período, ele e seu colega Roger Avary trabalharam em uma gigantesca história com mais de 500 páginas recheada de todas as características que posteriormente marcariam a obra do mais venerado cineasta da década de 90. Logicamente um roteiro de 500 páginas jamais seria produzido, nem mesmo pelo mais alucinado estúdio de Hollywood e a trama acabou sendo dividida em dois filmes que aparentemente nada tem em comum: o primeiro, "Assassinos por natureza", acabou se transformando em um gigantesco manifesto anti-violência dirigido por Oliver Stone e anabolizado com um excesso de efeitos de filmagem que descaracterizou o texto de Tarantino e provocou duras críticas de seu autor (apesar de ser um grande filme ainda não devidamente reconhecido por todo mundo). O segundo, com narrativa mais tradicional - mas ainda assim extremamente violento - é "Amor à queima-roupa", vendido por meros 50 mil dólares e dirigido pelo inglês Tony Scott, irmão de Ridley e mais conhecido como o autor de filmes bem-sucedidos comercialmente mas ocos em conteúdo, como "Top Gun, ases indomáveis" (86) e "Um tira da pesada II" (87). De posse do roteiro ágil e sem melindres de Tarantino - e com um grande elenco em dias pra lá de inspirados - Scott conseguiu assinar o melhor filme de sua carreira, tragicamente encerrada em agosto de 2012 com um suicídio que abalou Hollywood.

Apesar de parecer estranha a afirmação, "Amor à queima-roupa" é, como diz o título, uma história de amor, ainda que revestida de todas as obsessões e neuroses da década de 90 - bem com de suas referências à cultura contemporânea e às cenas de sexo bem fotografadas e quentes na medida certa. A fotogênica (ainda que um tanto canastrona) dupla central serve perfeitamente às intenções da trama, rocambolesca, exagerada e extremamente divertida. Clarence (Christian Slater no melhor papel de sua carreira) é um jovem atendente de uma loja de quadrinhos raros (referência autobiográfica de Tarantino) que sofre com sua falta de aptidões sociais. Na noite de seu aniversário, ele vai ao cinema assistir a uma sessão tripla de filmes de kung-fu e conhece a doce Alabama (Patricia Arquette), com quem sente uma identificação imediata. Os dois passam a noite juntos, se apaixonam e a verdade cai sobre eles como um balde de água fria: ela é prostituta e foi contratada pelo chefe do rapaz como presente de aniversário. Ao invés de ficar arrasado e sentir-se traído, Clarence sente na confissão da moça uma prova de sinceridade e a pede em casamento. Para que possam viver sua vida em paz, porém, eles precisam se livrar do cafetão de Alabama, o bizarro Drexl (Gary Oldman). E é aí que os problemas realmente começam.


Depois de um confronto com Drexl, em que tanto o cafetão quanto todos os seus comparsas são mortos, Clarence fica de posse de uma mala com 500 mil dólares em cocaína. Vendo nessa trágica circunstância a chance de ficar rico e poder viver ao lado da amada Alabama, eles viajam até Hollywood para vender a droga ao produtor de cinema (Saul Rubinek), mas não sabem que atrás deles está o verdadeiro dono da mercadoria - um mafioso pouco dado a sutilezas que não hesita em matar quem atrapalhe seu caminho - e a polícia de Los Angeles, disposta a tudo para desbaratar a quadrilha de traficantes. O resultado, como se poderia esperar, é um daqueles massacres que só Hollywood sabe orquestrar sem ofender a suscetibilidade da plateia. Exercitando a violência como poucas vezes em sua filmografia, Scott deita e rola em sequências feitas para o delírio dos fãs do gênero - em especial a luta entre Alabama e o capanga vivido pelo saudoso James Gandolfini, em que até mesmo um saca-rolhas serve de arma. É para nenhum fã de sangue botar defeito.

Mas, por trás da violência, das sacadas pop de Quentin Tarantino e do elenco cool, "Amor à queima-roupa" é um bom filme? Sem dúvida. Apesar de nunca ter conseguido realizar antes um filme que combinasse o visual apurado de suas produções com um conteúdo digno de tanto capricho, aqui ele tem a chance de explorar tanto a direção de atores - o que não é difícil quando se tem em cena dois monstros como Christopher Walken e Dennis Hopper, por exemplo - quanto o desenvolvimento de uma trama que, apesar dos clichês (utilizados com destreza ímpar), é inteligente e bem construída. O ritmo imposto a partir da morte de Drexl é alucinado, equilibrado com doses de humor negro e participações especiais que vão desde um Brad Pitt chapado em todas as cenas até a um Val Kilmer que não mostra o rosto como o fantasma de Elvis Presley que aconselha Clarence em suas aventuras. É uma história de amor ao gosto de Quentin Tarantino, com tudo que faz do seu cinema bom ou ruim, dependendo do ponto de vista. É pegar ou largar.

sexta-feira

VELOCIDADE MÁXIMA

VELOCIDADE MÁXIMA (Speed, 1994, 20th Century Fox, 120min) Direção: Jan De Bont. Roteiro: Graham Yost. Fotografia: Andrezj Bartkowiak. Montagem: John Wright. Música: Mark Mancina. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Jackson De Govia/K.C. Fox. Produção executiva: Ian Bryce. Produção: Mark Gordon. Elenco: Keanu Reeves, Dennis Hopper, Sandra Bullock, Jeff Daniels, Alan Ruck, Joe Morton. Estreia: 10/6/94

3 indicações ao Oscar: Montagem, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 2 Oscar: Som, Efeitos Sonoros

Aqueles que acreditam que, para ser bom, um filme de ação precisa de um orçamento gigantesco e um astro de primeira grandeza devem ter ficado de queixo caído com o desempenho de "Velocidade máxima", lançado pela Fox em 1994. Ao custo de meros 25 milhões de dólares - menos que o salário de Arnold Schwarzenegger, por exemplo - e com um Keanu Reeves pré-Matrix como protagonista, o filme de estreia do diretor de fotografia Jan De Bont como cineasta rendeu pelo menos quatro vezes isso somente no mercado americano e transformou tanto Reeves como Sandra Bullock em ídolos, chegando inclusive a gerar uma tenebrosa continuação - que trocava Keanu por Jason Patric.

Escrito com um invejável senso de ritmo por Graham Yost, "Velocidade máxima" é um filme que funciona justamente por não querer inventar moda. Simples e direto, ele cumpre o que promete em suas duas horas de duração manter a plateia grudada na poltrona do eletrizante início em um elevador em vias de despencar de 40 andares ao climático final no metrô de Los Angeles. Contando ainda com um carismático herói, o policial Jack Traven - papel oferecido a nomes tão díspares quanto Alec Baldwin, Johnny Depp e Tom Hanks antes que Keanu Reeves o assumisse - o filme conquista também por sua despretensão. Apesar de parecer um filme caro (as sequências de ação são caprichadíssimas e em nenhum momento traem seu orçamento apertado), "Velocidade máxima" estreou sem maiores expectativas e talvez por isso mesmo tenha surpreendido tanta gente.



O início de "Velocidade máxima" já dá uma mostra do que vem pela frente quando dois policiais da SWAT, Jack Traven (Keanu Reeves) e Harry Temple (Jeff Daniels) se vêem obrigados a resgatar um grupo de pessoas de um elevador ameaçado de ir pelos ares por um psicopata que exige 3 milhões de dólares em troca de desarmar a bomba. Depois de ser bem-sucedido na missão, Traven é novamente desafiado pelo criminoso - na verdade um ex-policial de nome Howard Payne (Dennis Hopper) - quando fica sabendo que uma bomba está armada em um dos ônibus da cidade de Los Angeles. Uma vez que o ônibus não pode nunca andar a menos de 50 milhas por hora para que a bomba não exploda, ele conta com a ajuda da civil Annie (Sandra Bullock) - que perdeu a licença de motorista justamente por excesso de velocidade - para manter o veículo em movimento e salvar a vida dos passageiros.

A maior qualidade de "Velocidade máxima" é justamente a maneira com que o roteiro de Yost e a direção de Jan De Bont combinam de forma a jamais perder a atenção da audiência. Não há cenas desnecessárias e a edição enxuta de John Wright extrai o melhor de cada sequência, todas elas de perder o fôlego. Tecnicamente impecável - foi oscarizado em duas categorias sonoras - o filme não deixa espaço para questionamentos racionais, utilizando o escapismo com inteligência e parcimônia. O único escorregão talvez seja o romance pouco provável entre os protagonistas quem, em uma situação extrema como a mostrada no filme conseguiria cair de amores por quem quer que seja??

Aliás, é perceptível, já em "Velocidade máxima", o quanto Sandra Bullock é chata. Sua personagem é irritante, esganiçada e cansativa e Bullock - em vias de tornar-se uma espécie de namoradinha da América graças a filmes como "Enquanto você dormia" - não é muito diferente. A historinha de amor entre Annie e Traven é o único elo fraco de um filmaço de ação que nada deixa a dever a seus irmãos mais anabolizados. "Velocidade máxima" é um clássico dos anos 90!

sábado

VELUDO AZUL


VELUDO AZUL (Blue velvet, 1986, De Laurentiis Entertainment Group, 120min) Direção e roteiro: David Lynch. Fotografia: Frederick Elmes. Montagem: Duwayne Dunham. Música: Angelo Badalamenti. Direção de arte/cenários: Patricia Norris/Edward 'Tantar' LeViseur. Casting: Pat Golden, Johanna Ray. Produção executiva: Richard Roth. Produção: Fred Caruso. Elenco: Isabella Rosselini, Kyle MacLachlan, Dennis Hopper, Laura Dern, Dean Stockwell, Hope Lange, Brad Dourif. Estreia: 19/9/86

Indicado ao Oscar de Diretor (David Lynch)

O “american way of life”, tão louvado em filmes de diretores como Frank Capra sofreu um duro golpe, pelo menos da maneira como estamos acostumados a vê-lo, em 1986. E quem fez a plateia perceber que por trás de cada cerca branca dos subúrbios americanos pode-se esconder muito mais do que podemos imaginar foi um diretor que concorreu ao Oscar por um filme em preto-e-branco chamado “O homem elefante” e que, ao contrário do que se poderia supor, não se deixou levar pelo mainstream. Em “Veludo azul” David Lynch fez um filme sobre aparências. E parece que sua intenção era apenas desmascará-las.

O jogo de aparências de “Veludo azul” já começa em sua estrutura. Aparentemente, é um filme noir, com mocinhos honestos, vilões crudelíssimos e mulheres fatais. Na verdade, é bem mais complexo em termos de certo e errado do que supõe a vã filosofia do espectador acostumado a maniqueísmos típicos do gênero. O herói da história, Jeffrey Beaumont (vivido por Kyle MacLachlan) é um jovem que chega a cidade onde vive sua família para visitar seu pai, vítima de um enfarte. Por mais bizarro que possa parecer (e bizarro é uma palavra que pode definir “Veludo azul” como um todo), Jeffrey encontra em um terreno baldio uma orelha humana. Essa orelha o levará, com a ajuda de Sandy (Laura Dern), a filha do chefe de polícia do local, até a cantora Dorothy Vallens (a bela Isabella Rossellini, gélida e enlouquecida como convém), cujo relacionamento doentio com o misterioso Frank (Dennis Hopper, em um dos mais assustadores vilões da década de 80) ultrapassa todos os limites da normalidade.

À primeira vista, Jeffrey é o herói do filme. Mas, ao contrário do que normalmente se espera em filmes assim, ele não é exatamente um santo. Enquanto inicia um tímido romance com Sandy, ele também fica fascinado pela beleza misteriosa de Dorothy e por seus traumas psicológicos que a levam a exigir violência durante o ato sexual. E Dorothy, aparentemente uma dama fatal, não deixa de ser a principal vítima de uma rede de obsessões, perversidades e medo.

Em uma cena do filme, Jeffrey diz que o mundo é estranho. Tudo bem, de certa forma ele está certo. Mas é inegável que um mundo dirigido por David Lynch (que recebeu nova indicação ao Oscar por este filme) é ainda mais estranho. Afinal, em que mundo considerado normal alguém (mesmo que seja um exageradamente maquiado Dean Stockwell) começa, do nada a dublar Roy Orbison e um maníaco seja tarado por um pedaço de veludo azul? O mundo de David Lynch é muito estranho... e nós gostamos dele!

quarta-feira

APOCALYPSE NOW


APOCALYPSE NOW (Apocalypse now, 1979, United Artists/Miramax, 202min) Direção e produção: Francis Ford Coppola. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Lisa Fruchtman, Gerald B. Greenberg, Walter Murch. Música: Carmine Coppola e Francis Ford Coppola. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/George R. Nelson. Casting: Terry Liebling, Vic Ramos. Elenco: Marlon Brando, Martin Sheen, Robert Duvall, Dennis Hopper, Sam Bottoms, Laurence Fishburne, Harrison Ford. Estreia: 10/5/79

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Robert Duvall), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de arte, Som
Vencedor de 2 Oscar: Fotografia, Som
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes: Melhor Filme
Vencedor de 3 Golden Globes: Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Robert Duvall), Trilha Sonora


Alguns filmes tem bastidores tão ou mais interessantes do que o produto que chega às telas dos cinemas. Um exemplo óbvio dessa afirmação é "Apocalypse now", que, lançado no festival de Cannes de 1979 tornou-se o primeiro - e até hoje único - filme a abocanhar a Palma de Ouro sem estar terminado. E se for levado em consideração que as filmagens começaram em 1976 nas Filipinas e que foram mais turbulentas que a própria guerra do Vietnã que retrata, percebe-se claramente que a adaptação livre de Francis Ford Coppola do livro "O coração das trevas", de Joseph Conrad é uma das mais problemáticas que se tem notícia. O inferno, no entanto, nesse caso, levou ao paraíso. Eleito em 2007 pelo American Film Institute como o 30º melhor filme da história, além de frequentar com assiduidade as listas dos melhores de qualquer instituição especializada em cinema, "Apocalypse now" é um dos filmes mais importantes realizados em Hollywood, e uma prova do poder de fogo de seu diretor.

Cheio de moral graças ao sucesso merecido dos dois primeiros capítulos da série "O poderoso chefão", Coppola viajou para as Filipinas - mesmo indo contra os conselhos de Roger Corman - para transformar a África do livro de Conrad no Vietnã, cuja guerra estava recém acabada e ainda dolorosamente na vida dos americanos. Seu plano era passar seis semanas filmando. Acabou passando 16 meses de crises pessoais, atrasos no cronograma, estouro de orçamento, imprevistos técnicos e artísticos e principalmente graves problemas de saúde - o ator principal, Martin Sheen, chegou a ter um enfarte (aos 36 anos), devidamente escondido dos executivos que produziam o filme. A epopeia de Coppola em realizar seu filme acabou devidamente registrado por sua esposa, Eleanor, que em 1991 lançou o documentário "O apocalipse de um cineasta", um precioso retrato de uma das mais complicadas filmagens da história do cinema.


Antes que Coppola assumisse o posto de diretor, "Apocalypse now" correu o sério risco de ser assinado por um George Lucas pré-"Star Wars", até que a demora em sua produção acabou empurrando o filme para seu colo. A demora em encontrar um protagonista - Steve McQueen, Al Pacino, Jeff Bridges e um entusiasmado Nick Nolte foram cogitados - seria o menor dos problemas que Coppola iria enfrentar. Mesmo com a saída de Harvey Keitel (substituído por Martin Sheen), as coisas não davam a impressão de que iriam transformar-se no rolo compressor que se tornaram; Sam Bottoms fez a maioria de suas cenas chapado (de speed, LSD ou maconha), Laurence Fishburne mentiu a idade para entrar no elenco(tinha apenas 14 anos), James Caan cobrou demais para participar (um jovem Harrison Ford assumiu seu papel) e Marlon Brando, escalado para o crucial papel de Kurtz foi provavelmente a causa maior do fato do cineasta ter pensado seriamente em suicídio.

A história de "Apocalypse now" começa em 1969. O capitão Benjamin Willard (Martin Sheen) recebe a missão (absolutamente secreta) de localizar, no Cambodja, o Coronel Kurtz (Marlon Brando), um genial e condecorado soldado americano que, alegam seus superiores, perdeu a sanidade mental e, liderando um grupo de nativos, vem armando atos de violência e terrorismo nas florestas asiáticas. Willard não apenas tem de encontrar Kurtz, mas também matá-lo. Acompanhado de um grupo de soldados, ele atravessa um rio que não conhece absolutamente - testemunhando atos enlouquecidos de guerra - e chega até as matas onde está seu alvo. Surpreendido e pego como refém, ele vê no homem que procura o retrato do absurdo do conflito.

Na pele do Coronel Kurtz, Marlon Brando mostra porque é um nome ímpar na história da sétima arte. Ao chegar às Filipinas muitos quilos mais gordo, careca e sem ter lido uma única linha do romance de Conrad, o ator despertou a ira de Coppola, mas é inegável que, no momento em que entra em cena, na escuridão planejada por Vittorio Storaro (vencedor do Oscar de fotografia), ele rouba o filme descaradamente. Recitando T.S. Elliot, assustadoramente perturbado e expressando física e psicologicamente os horrores da guerra, seu Coronel Kurtz imediatamente gruda no inconsciente do público como uma das performances mais fascinantes do cinema, dando sentido ao que antes parecia uma viagem alucinógena de Coppola e cia.

Mas afinal de contas, "Apocalypse now" é realmente uma obra-prima? Sim. E não. Sim, porque qualquer filme que apresentasse a atuação arrebatadora de Brando e a fotografia deslumbrante de Storaro e gravasse na memória da audiência sequências tão brilhantes como o ataque aéreo ao som da "Cavalgada das Valquírias", de Wagner mereceria o título. E não, porque obras-primas com falhas dificilmente podem ser chamadas assim. E "Apocalypse" tem algumas falhas. Entre os momentos de brilho absoluto encontram-se cenas simplesmente aborrecidas e lentas, que quebram o ritmo da narrativa - e nem mesmo a versão "Redux" lançada em Cannes em 2001 consegue salvar esses momentos. Seus trinta minutos finais - justamente aqueles em que Brando bota o filme no bolso, apesar do trabalho excelente de Martin Sheen, Dennis Hopper (como um fotógrafo de guerra) e Robert Duvall (como um militar metido a surfista) - compensam qualquer sono, mas ainda assim é um filme que requer mais paciência do que o habitual.

Claustrofóbico, lisérgico, aterrador... são palavras que descrevem o inferno imaginado por Francis Ford Coppola. Mas é a voz de Marlon Brando como Coronel Kurtz que nunca mais sai da mente da audiência: "O horror... o horror..." E dizem que este é o filme que mais perto chega da verdadeira guerra do Vietnã...

domingo

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE


ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE (Giant, 1956, Warner Bros., 201min) Direção: George Stevens. Roteiro: Fred Guiol, Ivan Moffat, baseado no romance de Edna Ferber. Fotografia: William C. Mellor. Montagem: William Hornbeck. Música: Dimitri Tiomkin. Produção: Henry Ginsberg, George Stevens. Elenco: Elizabeth Taylor, Rock Hudson, James Dean, Mercedes McCambridge, Dennis Hopper, Carroll Baker, Sal Mineo. Estreia: 24/11/56

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (George Stevens), Ator (James Dean e Rock Hudson), Atriz Coadjuvante (Mercedes McCambridge), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte
Vencedor do Oscar de Melhor Diretor (George Stevens)


Mais que um Estado americano, o Texas é um estado de espírito. Pelo menos é isso que depreende-se de "Assim caminha a humanidade", terceiro e derradeiro capítulo do que foi convencionado pela crítica chamar de "trilogia" e que dava seguimento a "Um lugar ao sol" e "Os brutos também amam". São necessárias muitas elocubrações intelectualóides e psicossociais para tentar entender a razão de alocá-los em um mesmo conjunto ideológico, mas não é preciso pensar muito para ter uma certeza absoluta: cada um, dentro de seu gênero e de suas ambições, é uma obra-prima indiscutível.

Seguindo um rumo oposto à quase instrospecção visual e psicológica de "Um lugar ao sol", "Assim caminha a humanidade" - baseado em um livro de Edna Ferber - é um épico grandioso, imponente e ambicioso, narrando a vida de uma família texana através de 25 anos, confrontando-a com problemas racias, a guerra e a mudança de mãos de poder e de dinheiro - graças, no caso, à exploração de petróleo. Contando com a vasta paisagem do Texas como uma personagem a mais em sua narrativa, Stevens criou uma saga fascinante, que, a despeito de sua longa duração (mais de três horas) em nenhum momento se torna cansativa, desnecessária e/ou anacrônica. Ao contrário de muitos dos filmes feitos em sua época, "Assim caminha..." ainda mantém intactas suas principais qualidades: o roteiro forte, a contundente crítica social e principalmente o notável elenco, em atuações impecáveis.

Último filme que James Dean fez antes de espatifar seu Porsche em uma estrada da Califórnia, "Assim caminha a humanidade" deu ao ator sua segunda indicação póstuma ao Oscar, que ele disputou com seu colega de elenco, Rock Hudson, então entrando no auge de sua carreira (no mesmo ano ele estaria em "Palavras ao vento" e começaria em breve uma bem-sucedida parceria com Doris Day em uma série de comédias românticas). E se Elizabeth Taylor já estava na estrada há tempos, uma vez que começou sua carreira ainda criança, aqui ela atinge a maturidade necessária para firmar-se como atriz adulta (e levaria seu primeiro Oscar em 4 anos, por "Disque Butterfield 8"). Juntos, eles dão a exata noção de porque ainda são considerados mitos absolutos da sétima arte. Lutando pelo amor da estonteante Liz Taylor através de mais de duas décadas, o gigantesco Hudson e o diminuto Dean se imortalizaram na retina e no coração de legião de fãs. É impossível desviar o olhar da tela quando qualquer um deles está em cena. E levando-se em consideração que os três são os protagonistas absolutos do longa-metragem, são 200 minutos de puro deleite, com o que de melhor Hollywood poderia oferecer em 1956, em termos de espetáculo e conteúdo.


A afirmação inicial deste texto, de que o Texas é um estado de espírito, é a primeira conclusão de Leslie Lynton (Taylor), uma quase dondoca sofisticada e de temperamento forte quando chega à casa do marido, o rústico Jordan Benedict II (Hudson). Dono de uma fazenda gigantesca, Reata, que dirige ao lado da irmã solteirona, Luz (Mercedes McCambridge, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), Benedict tem ideias muito próprias a respeito de como tratar as mulheres, os amigos e principalmente os empregados, quase todos mexicanos e tratados com quase desprezo. Indignada com o que presencia, Leslie aos poucos passa a tentar mudar o pensamento do marido, buscando tratar os criados com delicadeza, respeito e dando-lhes o mínimo de assistência médica. Seus atos incomodam seu marido, mas a aproximam de Jett Rink (Dean), que trabalha na fazenda graças à proteção de Luz, que o tem como um filho. Quando Luz morre depois de um acidente e deixa um pedaço de terra a Jett a relação entre ele e Jordan (chamado carinhosamente de Bick pela esposa) fica ainda mais difícil, chegando a ficar insustentável depois que Jett descobre petróleo em sua propriedade. Muitos anos depois, novos problemas ameaçam a estabilidade da família Benedict. Enquanto Jett fica a cada dia mais rico, Bick é obrigado a lidar com os fatos de que seu único filho homem (Dennis Hopper) pretende cursar medicina e cuidar das famílias carentes da região - além de casar-se com uma mexicana - e que sua caçula, Luz II (Carroll Baker) está interessada romanticamente no seu maior inimigo.

É difícil acreditar que "Assim caminha a humanidade" tenha perdido o Oscar de Melhor Filme para "Volta ao mundo em 80 dias". Aliás, é difícil acreditar que, de suas dez indicações, apenas George Stevens tenha levado um prêmio pra casa. Ainda que absolutamente merecida, sua estatueta não reflete com exatidão a qualidade insuperável do filme (não que ganhar Oscar seja garantia de alguma coisa, com bem o sabem os fãs de bom cinema). Fotografada com precisão por William C. Mellor (que dá à vastidão quase desértica do Texas a importância de um quarto protagonista), a saga da família Benedict é pontuada ainda com uma belíssima trilha sonora de Dimitri Tiomkin e com uma edição enxuta (ainda que seja bastante extenso, o filme não desperdiça nenhuma cena, utilizando cada enquadramento para fortalecer suas ideias). Até mesmo seu posicionamento a favor da tolerância racial soa moderno nos politicamente corretos dias de hoje, sem que apele em momento algum para a emoção fácil ou force uma empatia com qualquer das personagens.

E o que dizer das personagens? Poucas vezes se viu um épico com as proporções de "Giant" com tanto cuidado no desenvolvimento de suas personagens. Leslie Lynton, Jett Rink e Bick Benedict são tão críveis em seu amadurecimento (ou não, no caso de Rink, que nunca consegue abandonar o sentimento de inferioridade, mesmo com todo o dinheiro que ganha) que é difícil não envolver-se com seus dilemas, suas dúvidas e até mesmo com suas certezas. Leslie é uma mulher criada no conforto que precisa adaptar-se a um mundo novo depois de casar-se - e se sai admiravelmente bem! Jett Rink precisa encarar as próprias limitações que sua origem social lhe impusera para subir na vida e sentir-se "digno" do amor da mulher por quem é apaixonado (mesmo que décadas depois isso tenha que vir com a filha dela). E Bick Benedict se vê forçado a engolir seu preconceito e racismos incutidos pela mentalidade arcaica de sua família quando percebe que não conseguirá deter o destino e que seus filhos aceitariam morrer por ele... mas não viver por ele!

Apesar do cuidado do roteiro e da direção com as personagens secundárias (e isso inclui principalmente a irmã de Bick, a solitária Luz), é em seu elenco principal que "Assim caminha a humanidade" se sustenta. Irradiando carisma, garra e sex-appeal, Rock Hudson, James Dean e Elizabeth Taylor provam sem espaço para dúvidas que para se fazer um épico é preciso mais do que ambição: é imprescindível que se tenha talento.

terça-feira

JUVENTUDE TRANSVIADA


JUVENTUDE TRANSVIADA (Rebel without a cause, 1955, Warner Bros., 111min) Direção: Nicholas Ray. Roteiro: Stewart Stern, baseado em uma ideia de Nicholas Ray adaptada por Irving Schulman. Fotografia: Ernest Haller. Montagem: William Ziegler. Música: Leonard Rosenman. Figurino: Moss Mabry. Produção: David Weisbert. Elenco: James Dean, Natalie Wood, Sal Mineo, Jim Backus, Ann Doran, Edward Platt, Corey Allen, Frank Mazzolla, Dennis Hopper, Marietta Canty. Estreia: 27/10/55

3 indicações ao Oscar: Ator coadjuvante (Sal Mineo), Atriz Coadjuvante (Natalie Wood), História Original

No início de 1955, James Dean ainda não era James Dean, pelo menos na concepção de sua imagem que temos hoje em dia. "Vidas amargas", seu primeiro filme, ainda não havia estreado e tudo o que se sabia dele é que era mais um adepto do "método" do Actors Studio (ainda que o tenha abandonado depois de poucas aulas), que era um obcecado por Marlon Brando e que havia enervado seu diretor Elia Kazan e seu co-astro Raymond Massey durante as filmagens de "Vidas". No final de outubro do mesmo ano, quando seu filme seguinte, "Juventude transviada" estreou, James Dean já era James Dean. Louvado como ator e idolatrado como símbolo de uma juventude rebelde, ele tinha mais um filme pronto para estrear (ao lado de Rock Hudson e Elizabeth Taylor) e já tinha deixado sua marca na história do cinema. Tinha 24 anos. E estava morto.

James Dean morreu em um acidente de carro em 30 de setembro de 1955 e não pode aproveitar todo o sucesso que fez. Talvez nem mesmo quisesse. Dono de uma personalidade que, segundo aqueles que o conheceram, poderia ir da doçura à agressividade em questão de segundos, ele era a antítese do astro de cinema (talvez inspirado por Brando, talvez por escolha própria). Um tanto excêntrico, um bocado desregrado e pouco disposto a seguir os caminhos que os estúdios insistiam em lhe mostrar, Dean era a voz que os jovens queriam ouvir naquela época pré-nuclear, onde o rock ainda engatinhava e os adolescentes não tinham um espelho onde mirar-se. Nada mais natural que ele fosse o protagonista do filme que mudaria para sempre a maneira com que Hollywood via seus jovens. Influente até hoje, 55 anos depois de seu lançamento, "Juventude transviada" fixou a imagem de James Dean como símbolo máximo da rebeldia juvenil e, mesmo visto nos cínicos dias atuais, ainda mantém intacta sua aura de transgressor. Agradeça a seu diretor Nicholas Ray.

Incensado na década de 60 pela revista francesa "Cahiers du Cinèma" como um cineasta autoral, Ray mostrou, durante a feitura de "Juventude" que mereceu carregar esse título. Lutando incansavelmente contra a Warner para manter seus pontos de vista e batalhando contra o calendário (e o amadorismo de seu elenco de jovens), o cineasta é o maior responsável pelo resultado final do filme, cujas origens remontam a uma luta pessoal consigo mesmo. Segundo o livro "Live fast, die young: the wild ride of making Rebel without a cause", de Lawrence Frascella e Al Weisel (que dissecam cada aspecto da realização do filme), a primordial intenção de Ray ao iniciar a produção era tentar um contato com a geração imediatamente posterior à sua (que incluia principalmente seu filho mais velho, com quem ele cortou relações ao flagrá-lo dormindo com sua mulher...). Ao assistir-se ao filme percebe-se claramente que ele o conseguiu.


"Juventude transviada" começa quando o jovem Jim Stark (vivido com naturalidade e garra por Dean) vai preso por bebedeira, logo que chega a Los Angeles, para onde mudou-se com os pais disfuncionais (Jim Backus e Ann Doran). Na delegacia, ele tem seu primeiro contato com a problemática Judy (Natalie Wood), que vive uma relação de conflito com o pai (vivido pelo filho da colunista de fofocas Hedda Hopper) e com o carente Plato (Sal Mineo), praticamente criado pela empregada doméstica (Marietta Canty). Os três estudam na mesma escola, Dawson High (cujo nome inspirou Kevin Williamson a batizar seu seriado "Dawson's Creek"), mas são tão distantes quanto semelhantes. Logo que chega à escola, Jim arruma briga com o valentão Buzz (Corey Allen), líder de uma gangue de jovens delinquentes e, em consequência disso, acaba aceitando o desafio de participar de uma "chickie run". Em outras palavras, ele topa participar de uma espécie de racha, onde perde quem saltar por último de um carro em movimento, rumo a um precipício. Um trágico acidente mata Buzz e, temendo que Jim os denuncie à polícia, o grupo de rebeldes passa a perseguir o novato, que se esconde, junto a Judy e Plato, em uma mansão abandonada. Perseguidos pela gangue e pela polícia, os três descobrem uma nova forma de família enquanto tentam escapar de um destino trágico.

Aparentemente, em uma análise superficial, "Juventude transviada" pode parecer apenas mais um filme feito para adolescentes (ainda que seja muito superior em temática e resultado final aos seus congêneres da época). Mas basta uma olhada mais atenta para que certos aspectos sejam percebidos e admirados. Não deixa de ser absolutamente inovador (e corajoso) unir Jim, Judy e Plato como um novo núcleo familiar (hoje em dia todos sabem que os adolescentes tem seus amigos como uma nova família). Também é surpreendente como, em plenos repressores anos 50, um filme tenha tido a coragem de colocar, como um de seus protagonistas, um adolescente cuja sexualidade é evidentemente dúbia, em uma atuação marcante de Sal Mineo, que carregou o peso do papel pelo resto de sua carreira encerrada violentamente em 1976. E até mesmo a relação entre Judy e seu pai tem ecos freudianos, mais uma prova da tentativa de Ray em empurrar ao máximo os limites impostos pela mesmice dos produtos dirigidos ao público jovem da época. Nem mesmo aquelas consideradas suas falhas (a pretensa superficialidade das personagens mais velhas, por exemplo) chegam a incomodar, uma vez que o show aqui é da juventude, em um elenco escolhido a dedo pelo diretor.

Analisar todos os aspectos de "Juventude transviada" é tarefa inglória, especialmente depois da leitura do livro de Frascella e Weisel. Cada cena do filme tem tantas nuances, tantas camadas e tantas leituras que fica difícil escolher uma vertente para comentá-las. O jeito é assisti-lo e admirar-se com seu CinemaScope grandioso, com sua coragem em lidar com alguns temas espinhosos, com a química impressionante entre Dean, Natalie Wood e Sal Mineo e com seu final melancólico e por isso mesmo inesquecível. E suspirar pela grande perda ocorrida no dia 30 de setembro de 1955, quando Dean saiu da vida pra entrar na história.

PS - Assim como aconteceu com "Casablanca" também tive a oportunidade de assistir a "Juventude transviada" no cinema, em tela grande... Experiência inesquecível! Me senti, eu juro, como se estivesse em 1955...

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...