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sábado

O QUE É ISSO, COMPANHEIRO?


O QUE É ISSO, COMPANHEIRO? (O que é isso, companheiro?, 1997, Columbia Pictures/Luiz Carlos Barreto Produções, 110min) Direção: Bruno Barreto. Roteiro: Leopoldo Serran, livro de Fernando Gabeira. Fotografia: Félix Monti. Montagem: Isabelle Rathery. Música: Stewart Copeland. Figurino: Emilia Duncan. Direção de arte/cenários: Marcos Flaksman, Alexandre Meyer/Carlos Eduardo Mallet. Produção: Lucy Barreto, Luiz Carlos Barreto. Elenco: Alan Arkin, Pedro Cardoso, Fernanda Torres, Cláudia Abreu, Matheus Nachtergaele, Luiz Fernando Guimarães, Caio Junqueira, Selton Mello, Marco Ricca, Alessandra Negrini, Fernanda Montenegro, Lulu Santos, Luiz Armando Queiroz, Nelson Dantas, Maurício Gonçalves, Milton Gonçalves, Eduardo Moscovis, Othon Bastos. Estreia: 19/4/97

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Publicado em 1979 e logo alçado ao posto de um clássico contemporâneo, "O que é isso, companheiro?" narrava, em primeira pessoa, as experiências de Fernando Gabeira na luta armada contra a ditadura militar brasileira, sua participação no sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, sua prisão e seu exílio na Europa. Com mais de 250 mil exemplares vendidos, o livro foi peça fundamental na consolidação da carreira política do autor e uma das obras seminais a respeito de um dos períodos mais sombrios da história do país. Cinco anos depois de servir como uma das bases da minissérie global "Anos rebeldes" - um sucesso estrondoso que voltou a colocar os anos de chumbo em evidência - e quase duas décadas depois de seu lançamento, as memórias de Gabeira voltaram à tona com sua adaptação para o cinema. Com produção de Lucy e Luiz Carlos Barreto, direção de Bruno Barreto - já com carreira internacional consolidada - e coprodução da Columbia Pictures, a versão para as telas do infame sequestro de Elbrick ganhou a simpatia do público, da crítica e da Academia de Hollywood, que lhe indicou ao Oscar de melhor filme estrangeiro: não chegou a sair como vencedor - teve os planos atrapalhados pelo holandês "Caráter" -, mas foi um passo adiante do cinema brasileiro em direção ao respeito mundial.

O roteiro do experiente Leopoldo Serran - responsável pela adaptação de "O quatrilho", outra produção dos Barreto a ter concorrido ao Oscar, em 1996 - não abarca todo o livro de Gabeira, concentrando-se exclusivamente em seu elemento mais cinematográfico: sua entrada para o temido Movimento Revolucionário 8 de outubro (ou MR-8) e sua participação naquele que se tornaria um dos momentos mais emblemáticos da luta armada do final dos anos 1960. O próprio autor admite que sua personificação no filme (na pele do ótimo Pedro Cardoso) tem mais importância do que ele teve na realidade, mas a licença poética é plenamente compreensível em termos dramáticos: como elemento narrativo, é muito mais interessante um personagem como Fernando - um jovem sem experiência na luta que se vê no olho de um furacão e assume papel fundamental em um episódio muito maior que ele - do que um espectador passivo, servindo apenas de testemunha da história. Fernando é um homem de letras, de propensões intelectuais, e não alguém cuja índole previa pegar em armas e participar de assaltos (ou expropriações) e sequestros. É assim, graças a tal personalidade pacífica, que Fernando se aproxima do público, que se identifica com sua (falta de) vocação para a guerrilha ao mesmo tempo em que sabe que ela é a (talvez) única solução imediata. Ajuda, é claro, o talento de Pedro Cardoso em transmitir a insegurança de seu personagem e seu tom quase cômico mesmo em situações perigosas - e o grande elenco, tão incrível que pode se dar ao luxo de contar com Fernanda Montenegro em uma participação mínima mas crucial.


 

Em uma tentativa bem-sucedida de aproximar seu filme do público consumidor de programas de televisão, Bruno Barreto escolheu seu elenco a dedo. Dos consagrados Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães ao então novato Matheus Nachtergaele - passando por uma Cláudia Abreu no auge da popularidade e pelo norte-americano Alan Arkin -, a lista de créditos de "O que é isso, companheiro?" é admirável , com espaço até mesmo para pontas do cantor Lulu Santos como um militar. Se é questionável o fato de lotar o elenco de globais como forma de buscar o sucesso comercial - ainda que todos estejam excelentes em cena, independentemente de suas personas artísticas mais conhecidas -, o resultado foi bastante favorável. Além de dialogar com a audiência com mais facilidade, tal opção deu visibilidade o bastante ao filme em sua trajetória rumo a uma indicação ao Oscar - um objetivo para o qual contou também o nome de Bruno Barreto no exterior. Já bem instalado em Hollywood - principalmente graças ao êxito internacional de "Dona Flor e seus dois maridos" (1976) e produções de prestígio como "Assassinato sob duas bandeiras" (1990), estrelado por Amy Irving, com quem foi casado até 2005 -, Barreto nunca abandonou completamente suas raízes, e assim como seu irmão Fábio dois anos antes, chegou à corrida da estatueta com o apoio de nomes poderosos da indústria americana, como Steven Spielberg e a máquina de marketing da Columbia Pictures internacional. Não foi suficiente para arrebatar o prêmio - mas voltou a colocar o cinema brasileiro no mapa e jogar luz sobre um tema nunca desgastado.

Apesar de se passar durante a ditadura militar brasileira e contar uma de suas histórias mais emblemáticas, "O que é isso, companheiro?" dificilmente pode ser considerado um filme político. Longe dos questionamentos da filmografia de um Costa-Gavras, por exemplo - cujo "Z" (1969) é um cânone do gênero - e sem maior aprofundamentos do contexto histórico, o roteiro de Serran prefere focar-se na interrelação entre seus personagens, pressionados pela máquina governamental e diante da possibilidade de um fracasso que pode levá-los à morte. Boa parte da trama se passa durante o período do cativeiro do embaixador, interpretado com excelência por Alan Arkin - daí o título internacional, "Four days in September" - e são os vínculos entre os personagens que interessam a Serran e Barreto, mais do que os desdobramentos sociais e políticos de sua aventura. Tal escolha é válida, mas esbarra em alguns momentos um tanto quanto desconcertantes - como as crises de consciência do torturador a que Marco Ricca dá vida: Ricca é um ótimo ator e transmite verdade em suas cenas, mas é pouco crível que pessoas que ganham a vida com tal violência sejam tão suscetíveis a remorsos (em especial no calor do momento). Detalhes assim enfraquecem o filme como um todo - é uma tentativa não feliz em evitar o maniqueísmo - e o impedem de ter a potência que poderia. É uma produção caprichada - bem dirigida, com uma edição ágil e uma trilha sonora adequada - mas longe da obra-prima que se poderia esperar. Ainda assim, um belo produto do cinema nacional em sua fase de mesclar sucesso financeiro e prestígio internacional.

domingo

A FALECIDA

A FALECIDA (A falecida, 1965, Herbert Richers Produções Cinematográficas, 90min) Direção: Leon Hirszman. Roteiro: Leon Hirszsman, Eduardo Coutinho, peça teatral de Nelson Rodrigues. Fotografia: José Medeiros. Montagem: Nello Melli. Música: Radamés Gnatalli. Direção de arte: Régis Monteiro. Produção executiva: J.P. de Carvalho. Produção: Aloísio Leite-Garcia, Joffre Rodrigues. Elenco: Fernanda Montenegro, Ivan Cândido, Paulo Gracindo, Nelson Xavier, Joel Barcellos, Hugo Carvana, Vanda Lacerda. Estreia: 1965

Quando "A falecida" estreou no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em junho de 1953, já fazia dez anos desde que seu autor, Nelson Rodrigues, havia revolucionado o teatro brasileiro com a peça "Vestido de noiva". Nesse meio-tempo, seus textos se tornaram material preferido dos críticos e dos censores, normalmente escandalizados com seu teor altamente controverso - leia-se neuroses, incesto, adultério, homossexualidade e todas as nuances possíveis da sexualidade e da psique humanas, temas que ele também esparramava nas páginas dos jornais (com menos polêmica mas muita repercussão) com sua coluna "A vida como ela é...". Em 1965, quando Leon Hirszman traduziu para as imagens do cinema a tragicômica história de Zulmira e sua obsessão por um enterro de rainha, o dramaturgo já havia somado outros sete espetáculos (a grande maioria deles com problemas com a censura), a ditadura militar já havia se instaurado no país e o Cinema Novo surgia como uma lufada de ar fresco diante do terror. Por incrível que pareça, no entanto, o filme de Hirszman passou incólume à repressão (ainda tímida) e mostrou-se uma adaptação fiel e poética da obra teatral - amparada por (mais) uma atuação monstruosa de Fernanda Montenegro.

Ao chocar a plateia bem pensante do Teatro Municipal do Rio ao colocar no palco personagens suburbanos que falavam em futebol, iam ao banheiro e disparavam gírias sem remorso, Nelson Rodrigues fez de "A falecida" um pequeno marco - à sua maneira, ele estava fundindo um Brasil moderno e informal à elite cultural acostumada a óperas e balés clássicos. Seu texto, cru e direto, pode ter causado estranheza ao público, mas serviu como uma luva para a adaptação fidelíssima de Hirszman, um cineasta de nítidas preocupações sociais estreando como diretor de longas-metragem: os diálogos cortantes, a naturalidade quase grotesca e os protagonistas sem glamour encontraram em Hirszman o diretor ideal. Sem artifícios narrativos, ele conduz a trama com segurança e placidez, arrancando de cada cena e cada intérprete o tom exato de sublime e patético - uma linha tênue comum à obra de Nelson, um analista impenitente da natureza humana e seus desvãos. Sublinhando seu roteiro com o fino humor do dramaturgo (em um roteiro coescrito com o futuro documentarista Eduardo Coutinho), Hirszman não apenas transporta o universo do escritor dos palcos para a tela: ele comanda o casamento perfeito entre teatro e cinema, com um texto forte e imagens de grande lirismo - cortesia da bela fotografia em preto-e-branco de José Medeiros.


Fernanda Montenegro, que em 1961 já havia se encontrado com o peculiar ponto de vista de Nelson Rodrigues com sua atuação em "O beijo no asfalto", é a personificação ideal de Zulmira, a protagonista quase surreal de "A falecida". Dona-de-casa moradora da Aldeia Campista, ela começa o filme buscando ajuda nas previsões de uma cartomante suburbana e pouco confiável chamada Madame Crisálida (Vanda Lacerda): é ela quem irá alertar Zulmira a respeito de uma loura misteriosa que está à sua volta, ameaçando seu casamento. Seu marido, Tuninho (Ivan Cândido), é torcedor fanático do Fluminense e não dá confiança às visões de Madame Crisálida, mas se vê obrigado a prestar atenção à obsessão da esposa em relação ao que ela considera um futuro muito próximo: Zulmira tem certeza de que irá morrer muito em breve - e tem planos mirabolantes para seu funeral, que ela sonha ser inesquecível aos vizinhos. Para tanto, ela conta com a certeza da ajuda do milionário Pimentel (Paulo Gracindo): uma ajuda que, Tuninho irá descobrir logo, não tem nada de puramente altruísta ou caridosa.

Confiando plenamente na história e nos atores, Leon Hirszman não faz de "A falecida" um filme com propostas estilísticas ou temáticas, tão ao gosto das plateias apaixonadas pelos experimentalismos do Cinema Novo. Seu primeiro trabalho como cineasta de longas é um filme primoroso, mas que se sustenta basicamente no talento de todos os envolvidos e na sensibilidade de traduzir para o cinema a linguagem própria de um autor consagrado nos palcos. Ao respeitar a personalidade de Nelson Rodrigues e, ao mesmo tempo, imprimir ao filme sua assinatura pessoal, Hirszman fez um brilhante trabalho de adaptação, que encanta pela inteligência e pelo desejo simples de contar uma história - o que, na verdade, é o que todo cineasta deveria ter em mente. "A falecida" tem uma trama simples, mas com personagens complexos e uma estrutura ágil, que conquista o espectador desde sua primeira cena. Nunca a simplicidade foi tão bem explorada no cinema nacional!

sexta-feira

ELES NÃO USAM BLACK-TIE

ELES NÃO USAM BLACK-TIE (Eles não usam black-tie, 1981, Embrafilme, 120min) Direção: Leon Hirszman. Roteiro: Leon Hirszman, peça teatral homônima de Gianfrancesco Guarnieri. Fotografia: Lauro Escorel. Montagem: Eduardo Escorel. Música: Adoniran Barbosa, Chico Buarque, Gianfrancesco Guarnieri. Figurino: Yurika Yamasaki. Direção de arte/cenários: Jefferson Albuquerque Júnior, Francisco Osório, Marcos Weinstock. Produção: Leon Hirszman. Elenco: Gianfrancesco Guarnieri, Fernanda Montenegro, Carlos Alberto Riccelli, Bete Mendes, Milton Gonçalves, Lélia Abramo. Estreia: 05/9/81 (Festival de Veneza)


Um claro sinal de que nem sempre a história avança tão rapidamente quanto deveria é o fato da peça teatral "Eles não usam black-tie", de Gianfrancesco Guarnieri, ter sofrido tão poucas alterações em sua adaptação para o cinema, realizada 23 anos mais tarde pelo cineasta Leon Hirszman (oriundo do Cinema Novo). Com pequenas modificações na trama (transportada do final da década de 50 para o começo dos anos 80, portanto durante o fortalecimento do movimento sindicalista do ABC paulista), o roteiro do cineasta enfatiza as relações interpessoais dos personagens, ameniza o tom político quase panfletário do texto original e altera sutilmente a personalidade de uma das protagonistas, mas mantém intocado o teor ideológico de uma das obras seminais do teatro brasileiro contemporâneo. Lançada em fevereiro de 1958, a peça de Guarnieri encontrou em Hirszman, marxista assumido, a ponte ideal para sua transposição para as telas - uma produção tão amplamente influenciada pelo neorrealismo italiano que saiu do Festival de Veneza de 1981 com o prêmio especial do júri e o prêmio da crítica. É, de longe, o melhor longa de ficção do diretor - que já havia assinado adaptações para o cinema de Nelson Rodrigues ("A falecida", de 1965) e Graciliano Ramos ("São Bernardo", de 1972) - e um dos mais importantes filmes nacionais de todos os tempos (ainda que nem sempre seja tão louvado quanto deveria).

A trama do filme se passa em 1980, época de enorme turbulência entre os operários paulistas, que começavam a se organizar em movimentos sindicais, liderados por expoentes da própria indústria siderúrgica, como o futuro presidente Lula. É nesse ambiente efervescente que o jovem Tião (Carlos Alberto Riccelli) recebe a notícia de que será pai: sua namorada, Maria (Bete Mendes), também operária, está grávida, e o casal decide casar-se imediatamente. Seus planos encontram um empecilho, porém, quando justamente às vésperas do compromisso, eclode uma greve que divide os empregados da fábrica onde trabalha, além de Tião e Maria, o pai do rapaz, Otávio (Gianfrancesco Guarnieri) - que, preso durante a ditadura militar, não esconde suas tendências de esquerda. Com medo de perder o emprego e não ser capaz de sustentar o filho a caminho, Tião resolve furar a greve e entra em rota de colisão com o pai, os colegas e até mesmo com Maria - que não aceita a possibilidade de se casar com um homem fraco de espírito. Só quem permanece serena diante de todos os fatos é Romana (Fernanda Montenegro), a matriarca da família: um oásis de compassividade e compreensão perante toda a família.


Em sua estreia, em 1958, a versão teatral de "Eles não usam black-tie" contava com Guarnieri como Tião, Montenegro como Maria e Lélia Abramo como Romana - todos eles voltam na adaptação de Hirszman, em papéis diferentes (Abramo assume o papel da mãe de Maria), e apenas Milton Gonçalves permanece com a mesma missão: interpretar Bráulio, um colega de Otávio, uma espécie de liderança entre os operários e que remete (ao menos no filme) ao metalúrgico Santo Dias, morto pela polícia em 1979, durante manifestações grevistas. Tal toque - que obviamente difere da peça - é um trunfo extra na visão cinematográfica, que aproxima o público ainda mais dos personagens e seus dramas, independentemente de suas visões políticas. Como todo boa obra neorrealista, o roteiro se concentra nos dramas familiares como principal ponto de interesse, utilizando-se dos movimentos sindicalistas apenas como um pano de fundo - potente, é verdade, e imprescindível, mas como palco de um embate entre ideologias e responsabilidades, entre o certo e o mais prático, entre escolhas que podem destruir uma família ou mantê-la sob a sombra da culpa. Esse viés dramático é um acerto, principalmente porque o elenco conta com atores que estão em grandes momentos das carreiras.
 
Cinco anos antes de contracenarem na novela "Cambalacho", com registro cômico e leve, Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri inundam a tela de um talento discreto, mas poderoso a ponto de apagar quaisquer vestígios de interpretações anteriores ou posteriores - a cena final, em uma conversa aparentemente banal na cozinha, enquanto escolhe feijão para cozinhar, Montenegro mostra, sem esforço algum, porque é uma das maiores atrizes do mundo. Diante de uma dupla tão avassaladora, resta a Carlos Alberto Riccelli e Bete Mendes representarem uma nova geração - na trama, de operários e trabalhadores em busca de justiça; fora dela, como dois jovens atores esforçados, em papéis de suprema importância em suas trajetórias artísticas. E à direção de Hirszman - discreta, silenciosa, humana - cabe dar dimensão e verdade a cada um de seus personagens, evitando julgamentos óbvios e maniqueísmos baratos. A complexidade do roteiro - mérito que já vem do texto teatral - mergulha o espectador em um universo realista, sincero e passional, onde cada gesto ou omissão é catalisador de transformações radicais. "Eles não usam black-tie" é um drama perfeito - em intenções, em resultado, em ideologia. É, sem dúvida, um dos melhores filmes da história do cinema nacional.

domingo

O TEMPO E O VENTO

O TEMPO E O VENTO (O tempo e o vento, 2013, Nexus Cinema e Vídeo/Globo Filmes, 115min) Direção: Jayme Monjardim. Roteiro: Tabajara Ruas, Letícia Wierzchowski, romance de Érico Veríssimo. Fotografia: Affonso Beato. Montagem: Gustavo Giani. Música: Alexandre Guerra. Direçõ de arte: Tiza de Oliveira. Produção executiva: Rita Buzzar. Produção: Rita Buzzar, Jayme Monjardim, Beto Rodrigues. Elenco: Fernanda Montenegro, Thiago Lacerda, Marjorie Estiano, Cléo Pires, Janaína Kremer Motta, José de Abreu, Marat Descartes, Paulo Goulart, Vanessa Lóes, Luiz Carlos Vasconcelos, Suzana Pires, Zé Adão Barbosa. Estreia: 20/9/13

Um dos maiores clássicos da literatura brasileira, "O tempo e o vento", escrito por Érico Veríssimo, é uma saga épica em cinco volumes que conta a história do Rio Grande do Sul através dos dramas da família Terra Cambará. Desenvolvido em três livros - "O Continente", "O Retrato" e "O Arquipélago" - o romance de Veríssimo inspirou uma minissérie global em 1985 (estrelada por Tarcísio Meira e Glória Pires) e dois filmes nos anos 70 - "Ana Terra" e "Um certo Capitão Rodrigo" - sempre concentrando o roteiro no primeiro volume, que narra as origens do clã e sua inimizade com uma família rival, os Amaral. A ambiciosa e desnecessária versão cinematográfica cometida por Jayme Monjardim (oriundo da televisão, conforme seus vícios de narrativa deixavam bem claro em seu primeiro longa, "Olga") não faz diferente, mas nem mesmo esse foco específico a impede de soar apressada e superficial. Feito em parceira com a Globo Filmes, o filme de Monjardim fica indeciso entre ser um épico grandioso para a telona ou um produto televisivo - o fato de ter sido apresentado em formato de minissérie quatro meses depois de sua estreia no cinema apenas confirma sua sina esquizofrênica. Tivesse optado por um tratamento para o público de casa Monjardim poderia ter realizado uma obra-prima. Como cinema, não alcança nem metade das notas a que se propõe, graças a uma série de escolhas equivocadas que comprometem todo o resultado final.

O primeiro erro surge no roteiro, o que não deixa de ser decepcionante, já que seus autores são dois respeitados escritores gaúchos, Tabajara Ruas (autor de "Netto perde sua alma") e Letícia Wierzchowski (que escreveu o romance "A casa das sete mulheres"): superficial e óbvia, a adaptação não encanta, deixa fatos no ar e, erro dos erros, apela para uma narração em off que muitas vezes nem sentido faz, já que a história é contada para um dos personagens principais - que participou de muitos dos fatos mostrados. Com essa base frágil e uma edição pouco inovadora que nada acrescenta em termos dramáticos, a história surge diante dos olhos do espectador valorizada pela extraordinária fotografia de Affonso Beato - que usa e abusa de longos planos do horizonte e belíssimos crepúsculos - e uma produção caprichada que disfarça os inúmeros defeitos de um filme que muito promete e pouco cumpre. O problema de roteiro é tão óbvio - e as intenções de transformar o filme em minissérie tão evidentes - que um dos segmentos do livro, "A Teiniaguá", ficou de fora da versão para os cinemas (seus personagens são apenas citados pela narradora nas cenas finais, de forma quase constrangedora). Essa falta de comprometimento com a forte história criada por Veríssimo e com o público, que vê a trama esvaziar-se repentinamente, sem um clímax e, pior ainda, sem emoção, talvez seja o pior defeito de "O tempo e o vento". Mas existem outros, tão sofríveis quanto.

Apesar de ser uma escolha óbvia, Fernanda Montenegro sobressai-se soberana no elenco escalado por Jayme Monjardim, que inclui erros crassos - Cleo Pires no papel que foi de sua mãe, Gloria, na minissérie de 1985 chega a ser preguiçoso - e acertos admiráveis - Thiago Lacerda constrói um Capitão Rodrigo convincente apesar da memória afetiva sempre compará-lo com Tarcísio Meira e com sua própria atuação como Giuseppe Garibaldi em "A casa das sete mulheres" e Marjorie Estiano é uma atriz competente o bastante para segurar uma Bibiana jovem sem temer dividir a personagem com Montenegro. Mas não deixa de ser estranho perceber que, em uma obra cujos personagens femininos são tão fortes e marcantes, pouco espaço tenha sido dado às atrizes. Quando o filme acaba, é o Rodrigo Cambará de Thiago Lacerda que fica na mente do espectador e não Ana Terra, Bibiana e Luzia - criadas com força e sensibilidade por Érico Veríssimo e destroçadas por um roteiro que parece não saber exatamente a história que quer contar. Tudo bem, é difícil condensar em apenas duas horas (nesse caso até seria compreensível estender a duração para uns bons trinta minutos a mais) uma saga repleta de personagens interessantes e desdobramentos históricos, mas será então que não seria melhor escolher um foco e concentrar-se nele? Por que não um filme contando apenas o romance de Ana Terra e Pedro Missioneiro? Ou a história de amor entre Capitão Rodrigo e Bibiana? Ou o cerco ao sobrado de Licurgo ao final da Revolução Farroupilha? Ao tentar abarcar todas essas histórias, a produção acaba não dando conta satisfatoriamente de nenhuma delas.





Se não, vejamos: a trama começa nos estertores finais da Guerra dos Farrapos, que contrapunha os defensores da República e aqueles que exigiam a separação do Rio Grande do Sul do resto do país. No povoado de Santa Fé, o sobrado da família Terra Cambará está cercado por inimigos, mas o líder do clã, Licurgo (Marat Descartes), se recusa a render-se, mesmo sabendo que não resta mais comida e água para ele, seus companheiros e as mulheres da família - o que inclui sua mulher em trabalho de parto e sua avó, Bibiana (Fernanda Montenegro), que, ao receber a visita do espírito do amor de sua vida, seu marido Rodrigo Cambará (Thiago Lacerda), passa a relembrar todos os acontecimentos que os levaram até ali. Através de sua narração, o espectador é levado a conhecer a história de amor entre sua avó Ana Terra (Cleo Pires) com o índio Pedro Missioneiro (Martin Rodriguez), que deu origem à família que adotou o nome Cambará com a chegada do misterioso Capitão Rodrigo, que casou-se com Bibiana (Marjorie Estiano) mesmo contra a vontade dos pais dela. Mulheres voluntariosas que não encontram na tela a força que tem nas páginas do livro.

Mas então "O tempo e o vento" é um lixo completo? Não, claro que não. Opulento e tecnicamente impecável, é uma produção que visualmente não deixa nada a dever a quem está acostumado com o cinemão comercial americano, e Fernanda Montenegro é sempre um prazer. Quem não se importar com as falhas na narrativa - e aqueles que nunca leram os livros ou não sabem a história através de outros meios - pode até encantar-se com alguns momentos. Mas é difícil gostar de um filme que não sabe aproveitar as diversas possibilidades de uma obra tão rica quanto a de Érico Veríssimo, preferindo o caminho mais fácil ao invés de ousar ou simplesmente ser fiel à verdade da história (qual o motivo, por exemplo, de Ana Terra ter apenas um irmão no filme? Economia?) No final das contas, Monjardim deixa uma série de perguntas não-respondidas, no filme e fora dele. E isso não pode ser considerado um elogio. Assim como aconteceu com "Olga", ele fez do que poderia ser um grande filme apenas mais um produto televisivo que chegou às telas grandes. Desperdício de dinheiro, de história e de talentos. Uma pena!

terça-feira

O AUTO DA COMPADECIDA

O AUTO DA COMPADECIDA (O auto da Compadecida, 2000, Globo Filmes/Lereby Productions, 104min) Direção: Guel Arraes. Roteiro: Guel Arraes, Adriana Falcão, João Falcão, peça teatral de Ariano Suassuna. Fotografia: Félix Monti. Montagem: Ubiraci Motta, Paulo Henrique Farias. Música: Sá Grama. Figurino: Cao Albuquerque. Direção de arte: Lia Renha. Produção executiva: Eduardo Figueira. Produção: Guel Arraes. Elenco: Matheus Nachtergaele, Selton Mello, Fernanda Montenegro, Virginia Cavendish, Luís Mello, Paulo Goulart, Lima Duarte, Rogério Cardoso, Marco Nanini, Denise Fraga, Diogo Vilela, Bruno Garcia, Enrique Diaz, Maurício Gonçalves. Estreia: 10/9/00

Ousadia e criatividade foram os dois adjetivos mais comumente ligados à figura do diretor Guel Arraes quando ele começou a mostrar sua personalidade artística na TV Globo, assinando desde telenovelas - como a primeira versão de "Guerra dos sexos", ao lado de Jorge Fernando - até séries que brincavam com a linguagem televisiva e tinham a cara de seu tempo - exemplo da saudosa "Armação ilimitada". Tão logo seu nome tornou-se uma marca reconhecida pelo público que buscava qualidade mesmo na limitada seara da TV aberta (notadamente menos afeita a experimentações estilísticas), era questão de tempo até que o cinema o chamasse com seu canto de sereia. A estreia na tela grande, então, aconteceu com um pé em cada barco: produzido pela Globo Filmes - que depois o exibiria expandido em forma de minissérie - o primeiro filme de Arraes, "O auto da Compadecida" tinha um brilhante elenco de nomes conhecidos pelo grande público, um aparato técnico caprichado e a certeza de sucesso em um meio ou outro. A boa notícia? Ao contrário de muitos outros nomes que saíram da televisão pro cinema, Guel mostrou-se plenamente ciente das diferenças entre as duas linguagens e apresentou à audiência um filme de primeiro nível, capaz de orgulhar e deixar qualquer detrator do cinema nacional sorrindo de orelha a orelha.

Sem abrir mão de suas marcas registradas - sua linguagem televisiva já utilizava frequentemente elementos cinematográficos, como deixa claro a série "A comédia da vida privada" - Guel Arraes não fugiu de mostrar o Brasil em seu filme de estreia. Utilizando-se do texto sensacional de Ariano Suassuna para seu "Auto da Compadecida" (montado pela primeira vez em 1956 e já filmado em 1969 com Regina Duarte no papel de Nossa Senhora), o diretor mesclou a trama que unia dois companheiros do Nordeste brasileiro e suas desventuras para sobreviver ainda que às custas de mentiras e golpes com situações de outras obras de Suassuna - o que seria pretexto para encontrar papel para sua mulher, a atriz Virginia Cavendish, porém, acabou mostrando-se providencial para dar um tom romântico inexistente no texto original. Com um ritmo impecável, recheado de boas ideias visuais e piadas no tom exato entre ingenuidade e malícia, o roteiro - coescrito pelo cineasta e pelo casal Adriana e João Falcão - é um achado, coerente de tal maneira a funcionar quando se assiste tanto à versão em formato de minissérie quanto em seus 104 minutos que chegaram aos cinemas - e, para surpresa de muitos, levaram multidões às salas de cinema.


Os protagonistas de "O auto da Compadecida" são João Grilo e Chicó (em atuações inesquecíveis de Matheus Nachtergaele e Selton Mello), dois pobres coitados que tentam ganhar a vida no sertão nordestino. Sobrevivendo de golpe em golpe, os dois se utilizam da enorme criatividade de João Grilo e da covardia de Chicó para armar situações absurdas, como o funeral de um cachorro - que envolve até mesmo o ganancioso clero da região. Entre as tentativas de Chicó de conquistar o amor da doce Rosinha (Virginia Cavendish) e a cilada em que ambos se metem quando se envolvem com o perigoso cangaceiro Severino de Aracaju (Marco Nanini), eles acabam sendo assassinados. No purgatório, são julgados por todos os seus golpes - assim como várias pessoas que cruzaram seu caminho - e, entre Jesus Cristo (Maurício Gonçalves) e o Diabo (Luís Mello), recorrem à bondade de Nossa Senhora (Fernanda Montenegro) para merecerem uma chance de redenção.

Equilibrando-se entre o humor matreiro de Suassuna - autor que retratou com poesia e malandragem sua região em sua obra - e um carinho visível por seus personagens, Guel Arraes constroi uma primeira obra cinematográfica impecável. O roteiro é primoroso, a direção é certeira e o elenco dispensa comentários. Fernanda Montenegro enaltece a tela sempre que aparece, com sua presença forte e carismática. Diogo Vilela e Denise Fraga ameaçam roubar o filme a cada momento. Marco Nanini é, sem dúvida, um dos grandes atores brasileiros e cria um Severino de Aracaju esplêndido - assim como Enrique Diaz faz com seu capanga de confiança. Mas, mesmo com um elenco de apoio nunca aquém do genial, "O auto da Compadecida" jamais teria a mesma força e o mesmo resultado sem Matheus Nachtergaele e Selton Mello: com uma química fantástica e atuações irretocáveis, eles fazem do filme uma produção memorável, engraçado e comovente na medida certa.

OLGA


OLGA (Olga, 2004, Brasil, 141min) Direção: Jayme Monjardim. Roteiro: Rita Buzzar, livro de Fernando Morais. Fotografia: Ricardo Della Rosa. Montagem: Pedro Amorim. Música: Marcus Viana. Figurino: Paulo Lóes. Direção de arte/cenários: Tiza de Oliveira/Ana Anet, Erika Lovisi, Gilson Santos. Produção executiva: Guilherme Bokel, Rita Buzzar. Produção: Rita Buzzar. Elenco: Camila Morgado, Caco Ciocler, Fernanda Montenegro, Osmar Prado, Jandira Martini, Floriano Peixoto, Mariana Lima, Leona Cavali, Luis Mello, Eliane Giardini, Eliana Guttman, Werner Schunemann, Murilo Rosa. Estreia: 20/8/04

Desde que foi publicada, nos anos 80, a biografia de Olga Benário despertava a cobiça do cinema nacional. Narrada por Fernando Morais, a inacreditável porém verídica história de amor e tragédia da militante comunista judia que teve uma filha com o brasileiro Luis Carlos Prestes tinha todos os elementos de um grande filme: uma trama verdadeira, personagens fortes e um final de levar multidões às lágrimas. Sérgio Rezende, diretor de “Lamarca”, interessou-se pelo projeto e queria Patrícia Pillar no papel principal. O tempo passou, Rezende saiu de cena e Pillar passou da idade para protagonizar. E eis que Jayme Monjardim entra no projeto, e com ele sua descoberta Camila Morgado.
     
Morgado, revelada por Monjardim na minissérie global “A casa das sete mulheres” foi um achado. Além de excelente atriz, tem o tipo físico ideal para a personagem e sua entrega ao papel é nítido em cada cena. Dona de uma beleza clássica, ela empresta glamour, força e determinação a sua visão de Olga Benário. Alemã, oriunda da classe alta, Olga sempre renegou as origens, saindo da casa dos pais (Luis Mello e Eliane Giardini) para juntar-se ao movimento comunista. Foi lá que ouviu falar pela primeira vez em Luís Carlos Prestes (em uma atuação discreta e comovente de Caco Ciocler), conhecido no Brasil como “Cavaleiro da Esperança” por liderar o povo contra o governo ditatorial de Getulio Vargas. Quando recebe a incumbência de ser a responsável pela guarda pessoal de Prestes, Olga sente-se orgulhosa, mas acaba se apaixonando por seu protegido quando eles são obrigados a se fazer passar por um casal em lua-de-mel. O romance prossegue, os planos de Prestes de derrubar o governo falham e ambos são presos. Olga descobre estar grávida, mas é entregue pelo próprio Vargas (vivido por um inspirado Osmar Prado) ao governo nazista.       

        

O apuro visual de Jayme Monjardim é visível em cada cena, em cada enquadramento. A belíssima fotografia de Ricardo Della Rosa não deve nada a qualquer filme americano ou europeu, assim como a reconstituição de época, perfeita em cada e menor detalhe. O elenco escolhido pelo diretor também não podia ser melhor, a ponto de deixar um papel pequeno para a estrela máxima brasileira Fernanda Montenegro – na pele de Leocádia Prestes, a mãe de Luis Carlos, ela brilha intensamente como em qualquer trabalho. Mas as falhas no trabalho de Monjardim também são gritantes. O excesso de closes nos atores e a música grandiloquente e por vezes inadequada de Marcus Vianna são claramente vícios de um diretor criado em televisão, mas que no entanto tem talento e bom gosto em quantidade suficientes para corrigi-los em um próximo e bem-vindo trabalho.
     
Mesmo com seus defeitos – que chegam a incomodar ao público mais exigente – “Olga” é um filme de orgulhar o cinema brasileiro, graças a sua qualidade técnica e sua coragem de tocar em um assunto tão triste e pesado.

quarta-feira

CENTRAL DO BRASIL

CENTRAL DO BRASIL (1997, 120min) Direção: Walter Salles. Roteiro: Marcos Bernstein, João Emanuel Carneiro, história de Walter Salles. Fotografia: Walter Carvalho. Montagem: Felipe Lacerda, Isabelle  Rathery. Música: Antonio Pinto, Jacques Morelenbaum. Figurino: Cristina Camargo. Direção de arte/cenários: Cássio Amarante, Carla Caffé. Produção executiva: Lillian Birnbaum, Thomas Garvin, Donald Ranvaud, Elisa Tolomelli. Produção: Robert Redford, Walter Salles. Elenco: Fernanda Montenegro, Marília Pêra, Vinícius de Oliveira, Othon Bastos, Matheus Nachtergaele, Caio Junqueira, Sôia Lyra, Otávio Augusto, Stela Freitas. Estreia: 03/4/98

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Atriz (Fernanda Montenegro)
Vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim: Melhor Filme, Melhor Atriz (Fernanda Montenegro)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro

Houve um tempo em que para se elogiar um filme nacional era preciso das duas uma: ou realmente gostar das tentativas pífias que os cineastas apresentavam como forma de crítica social ou ter vocação para polêmicas. Roteiros ruins, atuações forçadas, técnica sofrível e uma distribuição praticamente amadora fizeram com que o público corresse das produções brasileiras como o diabo da cruz (exceção feita aos filmes infantis da Xuxa e dos Trapalhões). A partir da década de 90, porém, o cinema brasileiro reconquistou, a duras penas e com muita paciência, o respeito da audiência e da crítica. "Carlota Joaquina" foi a ponta do iceberg, levando um surpreendente público às salas de exibição. "O quatrilho" e "O que é isso, companheiro?" arrebataram indicações ao Oscar de melhor produção estrangeira. Mas foi somente a partir de "Central do Brasil" que os ufanistas de plantão puderam respirar aliviados. Aplaudido unanimente do Oiapoque ao Chuí - passando pelo Festival de Berlim, de onde saiu multi-premiado - o filme de Walter Salles emocionou milhares de pessoas pelo mundo, e deu à extraordinária Fernanda Montenegro uma inédita (e ainda única) indicação ao Oscar de melhor atriz para uma artista sul-americana.

Vindo do ótimo "Terra estrangeira" - onde utilizou elementos de filmes noir para contar uma história de brasileiros desterrados - o diretor Walter Salles encontrou, em "Central do Brasil", o equilíbrio perfeito entre a técnica e a emoção, entre o clássico e o moderno, entre a linguagem e o ritmo europeus de fazer cinema com o sofrimento palpável e árido de um país onde as desigualdades sociais fomenta de forma impiedosa o desmoronamento sistemático de regras éticas e morais. Triste, engraçado e dotado de uma melancolia otimista, o filme é também o palco para o brilho intenso de uma das maiores atrizes vivas não só do país, mas do mundo. Na pele de Dora, a seca e desiludida protagonista de "Central do Brasil", Fernanda Montenegro mostra que é preciso muito mais do que um belo corpo e juventude para ser uma atriz de verdade. Em uma interpretação devastadora (premiada no Festival de Berlim), ela é o cerne de um filme capaz de comover o mais cínico dos espectadores sem que seja necessário apelar para nada mais do que a realidade de um país distante dos cartões-postais.

Dora é uma professora universitária aposentada que incrementa sua renda escrevendo cartas para analfabetos na estação de trens paulista que dá nome ao filme. Amargurada e solitária, ela tem como companhia para suas noites apenas a vizinha, Irene (Marília Pêra, também excelente), com quem divide a tarefa de escolher, ao chegar em casa, quais cartas vão para o lixo e quais vão para a gaveta da cômoda (uma espécie de limbo). Em um dia que parecia igual aos outros, porém, Dora escreve uma carta endereçada a um tal de Jeus. Sua mulher, Ana (Sôya Lira) quer que ele conheça seu filho caçula, Josué (o ótimo Vinícius de Oliveira), que nasceu em São Paulo. No dia seguinte, Ana morre atropelada e Dora, penalizada com a situação do menino, o leva para sua casa. Depois de salvá-lo de uma gangue de traficante de órgãos (a única situação meio capenga do roteiro), ela resolve acompanhá-lo em sua viagem para o Nordeste, para enfim, entregá-lo a seu pai e seus irmãos.



Inspirado na história real da presidiária Socorro Nobre (que foi tema de um documentário também dirigido por ele e que escrevia cartas para as outras detentas), Salles criou a primeira obra-prima do cinema brasileiro da retomada. Sensível ao extremo, seu filme conquista pela simplicidade de sua trama, pela honestidade de seus protagonistas e pelo carinho com que a fotografia realista de Walter Carvalho apresenta um Brasil árido externamente e caloroso por dentro. É impossível não se emocionar com a forma delicada do cineasta em aproximar público e personagens - e retratar sem maneirismos lados poucos mostrados do país (o sacro, o miserável, o solidário). Ao utilizar pessoas reais em suas primeiras cenas (pedindo cartas à Dora), o diretor imediatamente joga sua audiência dentro de uma viagem assustadora mas dona de uma ternura quase ingênua. A trilha sonora impecável de Antonio Pinto e Jaques Morelenbaum também colabora com o efeito emocional devastador provocado pelo roteiro de João Emanuel Carneiro (que depois seria autor de telenovelas) e Marcos Bernstein. A cena final, de uma pungência inegável, é a prova de que, herdeiro direto do neo-realismo italiano, "Central do Brasil" é a cara de seu país.

Antes que o cinema nacional se transformasse em sinônimo de "filmes violentos passados na favela" (onda que, sejamos justos, deu origem a excelentes produções), "Central do Brasil" mostrou às audiências acostumadas com a pasteurização global televisiva que há mais Brasil do que o Leblon, do que a Avenida Paulista, do que Fernando de Noronha. Mostrou que há aridez, há uma desigualdade social berrante e há amor onde menos se espera. Provou que gente é gente em qualquer parte do mundo (caso contrário, por que os alemães aplaudiriam tão entusiasticamente o trabalho puramente emocional de Montenegro?). E, acima de tudo, reiterou o talento de Walter Salles em envolver a plateia, em contar uma história simples de maneira eficiente. O road-movie de Salles não se preocupa tanto com o destino como o faz com a viagem e com as cicatrizes boas que deixa em Dora e Josué - em uma química mágica entre Fernanda Montenegro e o menino Vinícius de Oliveira. Por Josué, Dora volta a ser humana, volta a ser mulher (é belíssima a cena em que ela reencontra sua feminilidade em um banheiro de estrada). Por Dora, Josué abandona sua agressividade, seu medo e volta a ser uma criança esperançosa. Por eles, o Brasil pode voltar a se orgulhar de seu cinema.

PS - Como é que os eleitores da Academia puderam preferir a estética Renato Aragão de "A vida é bela" em detrimento da poesia de "Central do Brasil" será para sempre uma incógnita. Só mesmo a temática "holocausto" para justificar....

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...