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quarta-feira

REVELAÇÃO

 


REVELAÇÃO (What lies beneath, 2000, 20th Century Fox/DreamWorks Pictures, 130min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Clark Gregg, história de Clark Gregg, Sarah Kernochan. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Susie DeSanto. Direção de arte/cenários: Rick Carter, Jim Teegarden/Karen O'Hara. Produção executiva: Joan Bradshaw, Mark Johnson. Produção: Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Harrison Ford, Michelle Pfeiffer, Miranda Otto, James Remar, Diana Scarwid, Katharine Towne. Estreia: 18/7/2000

Em 2000, quando dirigiu "Revelação", o cineasta Robert Zemeckis já tinha no currículo uma comédia adolescente ("Febre de juventude"), um clássico da ficção científica juvenil ("De volta para o futuro" e suas continuações), um marco na interação entre live action e animação ("Uma cilada para Roger Rabbit"), um vencedor de múltiplos Oscar ("Forrest Gump: o contador de histórias") e uma adaptação de Carl Sagan ("Contato"). Faltava ainda exercitar seu músculo hitchcockiano e a oportunidade chegou na pausa das filmagens de "Náufrago" - enquanto Tom Hanks sofria para emagrecer o necessário para a segunda etapa dos trabalhos do filme que lhe daria mais uma indicação à estatueta, Zemeckis mergulhou em seu desejo de assustar os espectadores com uma trama que mistura fantasmas, assassinatos... e um Harrison Ford deixando de lado a persona heroica para dar vida a um personagem no mínimo dúbio. 

A um custo estimado de cem milhões de dólares - recuperado facilmente nas bilheterias ao redor do mundo, seduzido pela presença de Ford e da estrela Michelle Pfeiffer -, "Revelação" é uma exibição das técnicas de Zemeckis como diretor, um filme repleto de jogos de câmera, cortes rápidos, uso generoso da trilha sonora e exploração inteligente do som e da fotografia. Mas é, também, um filme com sérios problemas de roteiro e um desfecho atolado em clichês - problemas disfarçados por uma embalagem luxuosa proporcionada pelo orçamento milionário e por seus astros fotogênicos. Pfeiffer, linda e exuberante, brilha a maior parte do tempo - mesmo quando o roteiro apela para explicações sobrenaturais pouco críveis para uma trama que se propõe séria. Ford, por sua vez, só é devidamente aproveitado na segunda metade da história - mas não consegue fugir do tom monocórdio da maioria de seus trabalhos que não Indiana Jones. A dupla de atores - escolhas únicas do cineasta desde a concepção do projeto - apresenta uma química interessante que vai crescendo a cada sequência, mas ambos esbarram na preferência de Zemeckis em abusar de seus virtuosismos visuais em detrimento da consistência da história que deseja contar.

 

"Revelação" gira em torno do casal Spencer. Ele, Norman, é um cientista respeitado que tenta desesperadamente fugir da sombra do pai, igualmente prestigiado pela comunidade. Ela, Claire, é uma violoncelista que abandonou a carreira para cuidar do marido e da filha e que, um ano depois de um violento acidente de carro, se vê diante da solidão causada pela viagem de sua filha adolescente à universidade. Sozinha e entediada, Claire começa a acreditar que seu vizinho (James Remar) assassinou a esposa (Miranda Otto), a quem testemunhou chorando através da cerca de sua propriedade. Tal certeza coloca seu casamento em crise - agravada ainda mais quando a bela dona-de-casa passa também a ouvir vozes misteriosas e sentir presenças ameaçadoras em sua bela casa à beira de um lago de Vermont. Norman tem certeza de que sua esposa está passando por uma séria crise de nervos, mas a situação muda completamente quando tais eventos começam a remeter à identidade de uma jovem estudante desaparecida - cujo destino parece intimamente ligado à mansão dos Spencer.

A história concebida pelo também ator Clark Gregg - que coescreveu o roteiro com Sarah Kernochan - apresenta várias possibilidades para o espectador, mas infelizmente não consegue equilibrá-las a contento. Ao mesclar uma narrativa policial tradicional com elementos do mais puro terror sobrenatural, o filme parece derrapar em dois gêneros que, em mãos mais seguras, podem ser complementares - mas que sob o comando de Zemeckis nem sempre conseguem dialogar entre si. De talento mais que comprovado, o cineasta perde a mão ao enfatizar o suspense visual e deixar de lado o desenvolvimento de seus personagens - talvez mais uma homenagem a Hitchcock, que privilegiava a manipulação dos nervos do público através de artifícios narrativos visuais e sonoros. Em especial no ato final, a tensão assume um protagonismo tal que a trama em si soa ainda mais insignificante, como se servisse unicamente como vitrine das peripécias estilísticas de seu diretor. No final das contas, "Revelação" se mostra um filme de suspense acima da média, mas que fica aquém do talento de seu time - ao menos em termos de roteiro e consistência.

sexta-feira

BEM-VINDOS A MARWEN

BEM-VINDOS A MARWEN (Welcome to Marwen, 2018, Universal Pictures/DreamWorks, 116min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Robert Zemeckis, Caroline Thompson. Fotografia: C. Kim Miles. Montagem: Jeremiah O'Driscoll. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Stefan Dechant/Hamish Purdy. Produção executiva: Jacqueline Levine, Jeff Malmberg. Produção: Cherylanne Martin, Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Steve Carell, Leslie Mann, Diane Kruger, Janelle Monáe. Estreia: 21/12/18

Em 2015, Robert Zemeckis transformou o documentário "O equilibrista" (2008) no drama "A travessia", estrelado por Joseph Gordon-Levitt, e amargou um dos raros fracassos de bilheteria de uma carreira repleta de êxitos incontestáveis, como a trilogia "De volta para o futuro" e "Forrest Gump: o contador de histórias", que lhe deu o Oscar de melhor filme e direção em 1995. Depois de novamente decepcionar comercialmente com "Aliados" (2016), drama de guerra que, mesmo com a presença de Brad Pitt e Marion Cottilard não chamou a atenção do público, ele voltou a buscar na vida real a inspiração para seu trabalho. "Bem-vindos a Marwen", que estreou no final de 2018 nos cinemas americanos, é a dramatização do documentário "Marwencol", dirigido por Jeff Malmberg e vencedor de diversos prêmios da crítica desde seu lançamento. A fascinante história de um homem que tenta recobrar a sanidade mental através da criação de um mundo de fantasia protagonizado por bonecos encontrou, em Zemeckis, o diretor ideal - mas acabou se tornando o terceiro malogro consecutivo em sua trajetória. Completamente ignorado até pela Academia, que esnobou seus espetaculares efeitos visuais, o filme estrelado pelo cada vez melhor Steve Carell já pode ser considerado uma das mais injustiçadas produções de seu tempo - afinal, apesar de tudo, é um trabalho belo e sensível, que reitera o talento do cineasta em equilibrar com maestria técnica e emoção.

Os primeiros minutos de "Bem-vindos a Marwen" dão a impressão de que Zemeckis voltou a brincar  com suas técnicas de captura de movimento, que marcou uma fase de sua carreira na primeira década dos anos 2000. Na sequência de abertura, um capitão norte-americano sofre um acidente com seu avião e se vê prestes a morrer nas mãos de nazistas quando é salvo por um grupo de mulheres armadas, lideradas pela corajosa Wendy. Toda a cena é apresentada em forma de animação, e logo se percebe que a situação narrada é fruto da imaginação de Mark Hogancamp (Steve Carell), um homem que tenta esquecer de um traumático incidente, quando foi violentamente espancado por um grupo de neonazistas na saída de um bar. Preso à sua nova realidade, ele mergulha sem medo na confecção de uma narrativa na qual ele mesmo é um corajoso capitão do exército que conta com a ajuda de um time de mulheres - todas inspiradas em pessoas reais - e que luta contra os alemães durante a II Guerra, em uma cidadezinha belga chamada Marwen. Enquanto espera o julgamento de seus agressores, Mark se encanta com a nova vizinha, Nicol (Leslie Mann), que passa a fazer parte de sua imaginação fértil, assim como a hostil Deja Thoris (Diane Kruger), uma bruxa que serve como uma espécie de conselheira e terapeuta.


O roteiro de "Bem-vindos a Marwen" é um achado: ao mesmo tempo em que sensibiliza o espectador com o drama de Mark (interpretado com sutilezas por Carell, em uma atuação inspiradíssima), aproveita para demonstrar o domínio que tem das técnicas de animação, oferecendo à plateia momentos divertidos e violentos com os bonecos manipulados pelo protagonista. Os efeitos visuais são perfeitos - e criados a partir da ação dos próprios atores, em um processo fascinante que impede a sensação de frieza que muitas vezes acompanha as produções mais ambiciosas. O grande achado do diretor, porém, é a forma encontrada de transmitir, através dos bonecos, a angústia e a personalidade complexa do personagem central: aos poucos o público vai compreendendo a extensão de seu problema e de como seu hobby é, mais do que uma diversão, uma terapia que pode lhe salvar da depressão mais absoluta. Sem estender-se desnecessariamente em sua trama, Zemeckis encontra o contraponto ideal entre a realidade e a ilusão, convidando a audiência a uma viagem inusitada e emocionante, que foge dos clichês graças ao talento de todos os envolvidos - com especial destaque à trilha sonora de Alan Silvestri, que evoca docemente todas as fases mentais de Mark.

Talvez o motivo do fracasso de "Bem-vindos a Marwen" seja justamente sua delicadeza.  Acostumados ao excesso de informações dos blockbusters e à total falta de sutileza das produções dos grandes estúdios, é bem possível que os espectadores não tenham se interessado por um filme que fala de pequenas emoções, de pessoas feridas em seu mais íntimo e do poder da imaginação como parte da cura de um trauma inimaginável. Azar de quem perdeu a oportunidade de ter contato com uma pequena pérola do cinema hollywoodiano - que, vez ou outra, ainda consegue acertar no alvo quando se trata contar boas histórias de forma criativa. Que o tempo lhe faça justiça e que o filme se transforme, com o passar do anos, no cult movie que merece ser.

segunda-feira

A TRAVESSIA

A TRAVESSIA (The walk, 2015, Sony Pictures Entertainment/TriStar Productions, 123min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Robert Zemeckis, Christopher Brown, livro de Philippe Petit. Fotografia: Darius Wolszki. Montagem: Jeremiah O'Driscoll. Música: Alan Silvestri. Figurino: Suttirat Anne Larlab. Direção de arte/cenários: Naomi Shohan/Geoffroy Gosselin, Ann Smart. Produção executiva: Jacqueline Levine, Cherylanne Martin, Ben Waisbren. Produção: Jack Rapke, Steve Starskey, Robert Zemeckis. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Ben Kingsley, Charlotte Le Bon, James Badge Dale, Ben Schwartz. Estreia: 26/9/15 (New York Film Festival)

O vencedor do Oscar de melhor documentário de 2008, "O equilibrista", dirigido por James Marsh, contava a inacreditável história de Philippe Petit, um francês que conseguiu, em 1974, quando as Torres Gêmeas ainda nem estavam totalmente prontas, atravessar a distância entre elas equilibrado no fio que utilizava em suas apresentações artísticas em Paris. Como documentários não são exatamente gêneros populares - com raras exceções - o cineasta Robert Zemeckis achou que a trajetória de Petit em sua tentativa de atingir seu objetivo poderia render um belo e emocionante filme, capaz de atrair as mesmas multidões que lotaram os cinemas para assistir a alguns de seus maiores sucessos de bilheteria, como a trilogia "De volta para o futuro", o divertidíssimo "Uma cilada para Roger Rabbit" (88) e o multi-oscarizado "Forrest Gump: o contador de histórias" (94). Enganou-se. Com uma renda de pouco mais de 10 milhões de dólares arrecadados no mercado doméstico, "A travessia" foi uma grande decepção comercial, e nem mesmo sua renda internacional conseguiu apagar o gostinho amargo do fracasso, mal ultrapassando os 50 milhões e nem sequer dobrando seu custo (relativamente baixo) de 35 milhões de dólares. Nem mesmo a Academia de Hollywood, tão generosa com Zemeckis em outras ocasiões, pareceu impressionar-se com seu novo filme, lhe ignorando até mesmo nas categorias técnicas. Uma tremenda injustiça! Mesmo longe de ser o melhor trabalho do diretor, "A travessia" é entretenimento honesto, tecnicamente irrepreensível e com um clímax poderoso o bastante para prender o espectador na poltrona até os minutos finais.

Construindo sua narrativa em um estilo que lembra os famosos "filmes de golpe", o roteiro, baseado em livro do próprio Petit, acompanha o protagonista desde seus primeiros passos como equilibrista - sob os cuidados do experiente e ranzinza Papa Rudy (Ben Kingsley) - até seu mais famoso e arriscado espetáculo, um acontecimento ao mesmo tempo poético e assustador, belo e transgressor. Na pele de um Joseph Gordon-Levitt com sotaque francês e lentes de contato azuis, o personagem central apresenta todas as características típicas de um protagonista arrojado: é intransigente, quase arrogante, obsessivo e dotado de uma visão artística muito superior à sua percepção do perigo. Zemeckis não tenta forçar a simpatia do público com seu herói, deixando a missão com o seu ator principal - que mais uma vez demonstra um carisma acima de qualquer dúvida, mesmo tendo em mãos um personagem cuja fixação chega, em determinados momentos, a por em risco inclusive aqueles que aceitam colaborar com ela. Ao equilibrar (sem trocadilhos) o tom cômico com um ritmo de filmes de aventura da velha Hollywood e efeitos visuais espetaculares, "A travessia" é um programa completo, capaz de agradar a todos os tipos de público, mas que infelizmente não conseguiu a atenção que merecia.


Milimetricamente construído como um programa para seduzir qualquer espectador, "A travessia" é um produto raro dentro da indústria hollywoodiana. Não apela para nenhum tipo de violência, não é inspirado em nenhuma história em quadrinhos, não é sequência de um sucesso ou tampouco tem como ator principal um nome de forte apelo popular, capaz de levar o público às salas de exibição somente por sua presença. Nem mesmo o nome de Robert Zemeckis foi o bastante para convencer a audiência, no entanto. De volta ao formato tradicional de contar histórias no cinema desde "O voo" - que concorreu aos Oscar de ator (Denzel Washington) e roteiro original - o cineasta que há anos dedicava-se a experimentações, como "O Expresso Polar" (2004) comprova que não perdeu a habilidade em mergulhar em tramas centradas mais em personagens do que em desafios técnicos. Ainda que "A travessia" tenha como maior atrativo o envolvente clímax que coloca Philippe Petit a centenas de metros do chão, é sua jornada para atingir seu objetivo que determina o ritmo do filme, ditado pela edição ágil (mas nunca histérica) e sublinhado pela trilha sonora discreta de Alan Silvestri. É assim que Petit vai explicando sua ideia fixa à plateia, enquanto vai recrutando colaboradores, entre elas a namorada Annie (Charlotte Le Bon) e seu fotógrafo oficial, Jean-Louis (Clement Sibony), que chegam à Nova York convencidos a participar de um evento sem igual - e ilegal.

É quando o grupo de Petit chega à Nova York - depois de mais de uma hora de filme - que "A travessia" parece finalmente começar, e talvez essa demora em engrenar seja seu maior problema. Quando finalmente é hora do clímax - poderoso, engraçado, tenso e emocionante - é possível que boa parte da plateia já tenha se incomodado com os dois terços iniciais, interessantes mas sem maiores atrativos exceto a produção impecável e o carisma de Gordon-Levitt. Àqueles que tem paciência, porém, Zemeckis entrega um belo presente em seus trinta minutos finais: a sequência em que finalmente Petit faz sua travessia entre as torres do World Trade Center não apenas é um feito técnico impressionante (em especial em uma sessão 3D) como também é uma linda homenagem à cidade e aos edifícios, que surgem como personagens indispensáveis à história. Essa etapa final do filme - cuidadosamente filmada, editada e sonorizada - apaga todo e qualquer deslize anterior, mostrando porque o diretor é um dos mais conceituados e bem-sucedidos de Hollywod apesar de alguns fracassos no caminho. Os efeitos visuais deslumbrantes (injustamente esquecidos pelo Oscar) podem ser o que fica na memória do espectador, mas o carinho de Petit e do cineasta por Nova York também ficam evidentes no tom melancólico de seus últimos minutos. "A travessia" pode não ser um dos melhores filmes de Zemeckis, mas não faz feio em uma carreira vitoriosa e principalmente repleta de respeito a seu público.

domingo

ALIADOS

ALIADOS (Allied, 2016, Paramount Pictures, 127min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Steven Knight. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Mick Audsley, Jeremiah O'Driscoll. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Gary Freeman/Raffaella Giovanetti. Produção executiva: Steven Knight, Jacqueline Levine, Patrick McCormick, Denis O'Sullivan, Jack Rapke. Produção: Graham King, Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Brad Pitt, Marion Cottilard, Matthew Goode, Jared Harris. Estreia: 13/11/16

Indicado ao Oscar de Figurino

Talvez tenha sido a expectativa gerada em torno da união de três grandes nomes de Hollywood no projeto. Talvez tenha sido o excesso de boatos a respeito dos bastidores, que insistiam em um rumoroso caso extraconjugal entre os atores principais. Ou talvez tenha sido a estratégia de lançamento justamente na época do ano em que chegam aos cinemas os filmes que irão disputar as principais indicações ao Oscar. O fato é que "Aliados", uma caprichada produção de época, passada durante a II Guerra Mundial, que mistura ação, suspense e romance em doses homeopáticas, dirigida por Robert Zemeckis e estrelada por Brad Pitt e Marion Cottilard naufragou nas bilheterias americanas: com um custo estimado em 85 milhões de dólares, rendeu pouco mais de 40 milhões no mercado doméstico (EUA e Canadá) e nem mesmo chegou a ser lembrado pela Academia, arrebatando uma solitária indicação ao Oscar de melhor figurino. Porém, seu relativo fracasso de bilheteria (a renda internacional ajudou a chegar aos 100 milhões de faturamento) não reflete as qualidades do filme, que, mesmo estando aquém do talento dos envolvidos, é um thriller romântico acima da média, que peca apenas por não apresentar nenhuma novidade ao gênero ou surpreender o espectador.

Assim como o clássico dirigido por Michael Curtiz e estrelado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman em 1942, "Aliados" começa sua trama em Casablanca, no Marrocos. É lá que o Comandante Max Vatan, integrante da resistência canadense na II Guerra Mundial, chega para cumprir uma missão imposta por seus superiores: encontrar a francesa Marianne Beauséjour e, junto com ela, assassinar o embaixador alemão no país. Para isso, eles precisam fingir ser casados, e não demora para que, solteiros e atraentes, eles acabem por se apaixonar de verdade depois da convivência forçada. Logo após o sucesso de sua missão, eles se casam e, resolvidos a formar uma família, vão morar na Inglaterra, onde passam a viver uma vida tranquila ao lado da filha pequena. Tal paz se mostra frágil, no entanto, quando Max é informado que sua mulher é, na verdade, uma espiã nazista que matou a verdadeira Marianne e assumiu sua identidade. Sem acreditar na verdade - mas abalado a ponto da dúvida - ele passa a investigar o passado da mulher que ama, na tentativa de provar sua inocência. No caminho, ele encontra como principal fonte de informações um antigo companheiro de Marianne, Guy Sangster (Matthew Goode), que vive preso a uma cadeira de rodas com o rosto desfigurado.


Com uma ambientação sofisticada e um cuidado extremo no visual - cortesia da fotografia climática de Don Burgess, habitual parceiro de Zemeckis - "Aliados" ganha muitos pontos por sua semelhança com os grandes clássicos produzidos em Hollywood nas décadas de 30 e 40. Amparado por um tom que dialoga diretamente com grandes filmes do passado, o roteiro de Steven Knight - indicado ao Oscar pelo script de "Coisas belas e sujas" (2003) - acerta quando direciona seu foco para as investigações de Vatan e as intrigas relacionadas à guerra, mas falha em seu ponto crucial: o relacionamento entre o casal de protagonistas. Apesar das fofocas que insistiam em colocar Marion Cottilard como pivô da separação de Brad Pitt e Angelina Jolie, sua química com o colega de cena nunca chega a esquentar a tela com cenas mais intensas (sejam elas de sexo ou de romance puro e simples). Essa falta de combustão acaba por ser um defeito mortal para as intenções do filme: sem acreditar totalmente no amor de Max por Marianne, como acreditar em tudo que ele faz para provar sua inocência?

Justiça seja feita: "Aliados" não é um filme ruim. É plasticamente impecável, dirigido com precisão e com uma dupla de atores extremamente talentosos - e da qual sobressai-se a impressionante naturalidade de Marion Cottilard em interpretar absolutamente qualquer papel. O problema é, definitivamente, a total falta de surpresas do roteiro. Até mesmo a reviravolta final soa deslocada e sem muito sentido, como se estivesse sendo tirada da cartola para caber na receita para um filme de sucesso. Os fãs do casal central não terão do que reclamar, mas não deixa de ser um tanto decepcionante ver tantos bons elementos misturados de forma tão mecânica e sem inspiração. Vale como passatempo, mas jamais será um filme inesquecível.

quinta-feira

FEBRE DE JUVENTUDE

FEBRE DE JUVENTUDE (I wanna hold your hand, 1978, Universal Pictures, 104min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Robert Zemeckis, Bob Gale. Fotografia: Donald M. Morgan. Montagem: Frank Moriss. Figurino: Roseanna Norton. Direção de arte/cenários: Peter Jamison/John Dwyer. Produção executiva: Steven Spielberg. Produção: Tamara Asseyev, Alex Rose. Elenco: Nancy Allen, Susan Kendall Newman, Theresa Saldana, Bobby DiCicco, Marc McClure, Wendie Jo Sperber, Eddie Deezen, Will Jordan. Estreia: 21/4/78

Hoje em dia é impossível acreditar que um dia um estúdio de Hollywood pudesse pensar duas vezes diante de um projeto que reuniria os Beatles, Robert Zemeckis e Steven Spielberg. Mas em 1978 as coisas eram bem diferentes: se a banda inglesa ainda era a maior do planeta mesmo tendo se separado há quase uma década e Spielberg já estava a caminho de tornar-se o cineasta mais bem-sucedido da história - já tinha no currículo "Tubarão" (75) e "Contatos imediatos de terceiro grau" (77) - o mesmo não poderia ser dito a respeito de Zemeckis, ainda inexperiente em comandar um longa-metragem para cinema. Escolhido pelo próprio Spielberg para dirigir a comédia "Febre de juventude", apesar da relutância da Universal, o cineasta que mais tarde encheria os cofres do estúdio com a trilogia "De volta para o futuro", o misto de animação e comédia "Uma cilada para Roger Rabbit" (88) e o multi-oscarizado "Forrest Gump: o contador de histórias" (95) só foi efetivamente contratado depois da promessa formal de que seu padrinho artístico assumiria as rédeas caso as filmagens estivessem sendo um desastre. Precaução desnecessária: não apenas "Febre de juventude" apontou no jovem cineasta um senso invejável de ritmo como tornou-se, com o passar do tempo, em um filme cult, um clássico das sessões da tarde, capaz de estampar um sorriso no rosto do espectador sem fazer muita força para isso.

É difícil não simpatizar de cara com "Febre de juventude", tanto por sua trama ingênua e repleta de nostalgia quanto por seu elenco, formado por jovens atores desconhecidos que encarnam seus personagens com uma garra contagiante. A história se passa em fevereiro de 1964, mais precisamente nos dias em que os Beatles chegaram pela primeira vez aos EUA, para uma apresentação no programa de Ed Sullivan, em horário nobre na televisão. Sua presença em solo americano acende ainda mais a beatlemania já instaurada entre os adolescentes e jovens e o roteiro esperto de Zemeckis e Bob Gale - posteriormente indicado ao Oscar por "De volta para o futuro" - se concentra em um grupo específico de amigas, moradoras de Nova Jersey, que, por motivos diversos, resolvem fazer a travessia à Nova York para testemunhar esse momento histórico na cultura pop. Pam (Nancy Allen) reluta em acompanhar as amigas porque está às vésperas de casar-se, mas decide que nada melhor do que uma pequena aventura para marcar sua despedida de solteira. Grace (Theresa Saldana) quer dar um passo à frente em sua vocação como fotógrafa e conseguir uma imagem exclusiva do grupo para vender a alguma revista. Rosie (Wendie Jo Sperber) é apaixonada por Paul McCartney e sonha em conhecer seu ídolo. E Janis (Susan Kendall Newman, filha do ator Paul Newman) é uma jovem politicamente ativa que acredita que o rock está eclipsando a verdadeira música de protesto de gente como Joan Baez e Bob Dylan. Juntam-se a elas o tímido Larry (Marc McClure) - cujo pai tem um carro que pode ajudá-las na viagem - e o encrenqueiro Tony Smerko (Bobby Di Cicco), que une-se à Janis em sua cruzada contra a banda inglesa.


Sem confundir-se com os inúmeros focos narrativos que acompanham suas personagens, o roteiro de "Febre de juventude" é o divertido retrato de uma época que ainda mantinha resquícios de ingenuidade, apesar do trauma da morte de JFK, ocorrida poucos meses antes dos acontecimentos mostrados no filme. Embalado na trilha sonora recheada com os maiores sucessos dos Beatles, a produção de Zemeckis convida o espectador a uma divertida e nostálgica viagem no tempo, revelando em sequências hilariantes a verdadeira obsessão das fãs pela banda. Não faltam gritos histéricos, desmaios e uma sucessão de pequenas anedotas para emoldurar as desventuras das protagonistas, que aproveitam os dois dias para realizarem uma espécie de jornada rumo à vida adulta: nenhuma delas passa incólume pela experiência, seja em termos pessoais ou emocionais. Pam passa a questionar sua decisão de casar; Grace substitui a ambição profissional à toda prova pela lealdade; Janis aceita abdicar do radicalismo e respeitar as diferenças; e Rosie descobre o amor inesperadamente. Mesmo que muitas vezes não fuja dos estereótipos - talvez pela opção em concentrar-se na ação mais do que no aprofundamento das personagens - "Febre de juventude" apresenta seus personagens com respeito e carinho, transformando em comédia seus percalços sem apelar para o caminho fácil da ridicularização. A sensibilidade imposta por Zemeckis equilibra com perfeição o humor quase infantil de alguns momentos, oferecendo ao resultado final uma interessante camada extra de inteligência que o diferencia de outras produções do gênero.

Realizado com um orçamento mínimo e sem maiores pretensões, "Febre de juventude" não foi um sucesso de bilheteria, mas deixou claro para a Universal o talento de Robert Zemeckis como contador de histórias e de Steven Spielberg como produtor executivo - uma função que o diretor de "Caçadores da Arca Perdida" (81) iria desempenhar religiosamente a partir de então. Leve, engraçado e valorizado pela trilha sonora arrebatadora a cargo do quarteto de Liverpool, é um passatempo divertido e nostálgico, sem contraindicações e dotado de um humor ingênuo e cativante. Pode não despertar gargalhadas histéricas o tempo todo, mas é uma comédia muito acima da média que, assim como "Loucuras de verão" (73), de George Lucas, remete a um passado então recente com extremo carinho e saudade. Um belo programa.

segunda-feira

DE VOLTA PARA O FUTURO - PARTE III

DE VOLTA PARA O FUTURO - PARTE III (Back to the future - Part III, 1990, Universal Pictures, 118min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Bob Gale, estória e personagens de Robert Zemeckis, Bob Gale. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Harry Keramidas, Arthus Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Margie Stone McShirley, Jim Teegarden. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Produção: Neil Canton, Bob Gale. Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Mary Steenburgen, Lea Thompson, Elisabeth Shue, Thomas F. Wilson, James Tolkan. Estreia: 25/5/90

Quando Robert Zemeckis e Bob Gale resolveram que o sucesso estrondoso de "De volta para o futuro" (85) merecia uma continuação, se depararam com uma situação atípica dentro da indústria hollywoodiana: ao invés de experimentarem um bloqueio criativo, eles foram brindados com uma profusão de ideias, que expandiam o universo de viagens no tempo a ponto de dar material não apenas para uma, mas duas sequências. Então, com o aval da Universal Pictures, entusiasmada com a centena de milhares de dólares arrecadados pelo primeiro filme, diretor e roteirista tomaram a decisão então inédita de rodar dois filmes simultaneamente, para que estreassem com o intervalo de um ano entre um e outro. Assim, a história do adolescente que precisava voltar trinta anos no passado para garantir que sua existência não fosse apagada acabava por se transformar em uma trilogia das mais amadas de sua época, repleta de personagens adoráveis, diálogos bem escritos e cenas que entraram para o inconsciente coletivo. Uma pena que seu encerramento, "De volta para o futuro - parte III" seja o menos empolgante da série, deixando no ar uma ligeira sensação de anti-clímax.

Depois de dedicar os dois primeiros filmes à família de Marty McFly (Michael J. Fox) - tanto em 1955 quanto em um 1985 alternativo - o roteiro do terceiro capítulo volta seus olhos para o outro protagonista da história, o cientista Emmett Brown (Christopher Lloyd, sempre ótimo), dessa vez remetendo os personagens para o Velho Oeste, mais precisamente para o ano de 1885, onde Brown está levando uma vida pacífica e tranquila, segundo uma carta escrita de próprio punho para ele mesmo, no futuro. A complicação começa, porém, quando ambos descobrem, em 1955, que apenas uma semana depois de ter escrito a carta, o cientista será assassinado por um conhecido criminoso local. Para impedir que tal tragédia ocorra, Marty convence o amigo a deixá-lo retornar no tempo mais uma vez. É assim que ele chega a uma Hill Valley em seus primórdios e, assumindo o pseudônimo de Clint Eastwood, conhece seus antepassados, Seamus (também Michael J. Fox) e Maggie McFly (Lea Thompson), o apavorante "Mad Dog" Tannen (Thomas F. Wilson) e a professora Clara Clayton (Mary Steenburgen), que, tão logo chega no local, desperta uma inesperada paixão no solitário Emmett Brown.


Como uma grande homenagem a um dos gêneros mais queridos de Hollywood, "De volta para o futuro - parte III" abarca uma infindável coleção dos maiores ícones do western. Do nome adotado por Marty quando chega à Hill Valley até o clímax em uma estrada de ferro, todos os elementos mais clássicos do faroeste desfilam pela tela, de forma mais ou menos explícita. Há o saloon onde se encontram os valentões e McFly dá de cara com Mad Dog pela primeira vez; há os bailes ao ar livre onde a comunidade confraterniza em momentos de paz; há os figurinos típicos, com direito a um extravagante conjunto vestido pelo protagonista ("Deve ter roubado de algum chinês morto!"); há ataques indígenas e, finalmente, há a moldura esplendorosa do Monument Valley, cenário arquetípico facilmente reconhecível até mesmo por aquela plateia que jamais ouviu falar em John Ford. Para aproximar-se de um público mais jovem e menos afeito à nostalgia, Zemeckis reveste todos esses ingredientes com um atraente senso de humor e aventura que disfarça sua real intenção: realizar um faroeste à moda antiga, mas com os recursos da (então) moderna tecnologia cinematográfica. Ao mesmo tempo em que brinca com os demais filmes da série - com cenas e situações que dialogam diretamente com os capítulos anteriores - o diretor injeta sangue novo à mitologia do enredo, mostrando a construção da torre do relógio (peça-chave nos três filmes), apresentando os pioneiros McFly nos EUA e o início da rivalidade entre a família do protagonista e os Tannen - que um século mais tarde ainda estará bem viva, como mostram as brigas entre George e Biff. Sem perder em momento algum o senso de humor e a coerência interna com o universo criado em 1985, o filme só não é perfeito por estender-se demais.

Com uma trama sem a quantidade de acontecimentos dos dois primeiros filmes - tão movimentados que chegavam a dar um nó na cabeça do espectador - e a história principal centrada no romance entre Brown e Clara Clayton, "De volta para o futuro - parte III" se ressente de uma edição mais enxuta, capaz de limar alguns excessos. O clímax do filme, por exemplo, em um trem à toda velocidade, mais cansa o público do que o encanta, e o desfecho da história, mesmo que necessário, estende-se mais do que deveria: não deixa nenhuma ponta solta, o que é admirável, mas demora a ponto do quase tédio. Por mais que o público goste de Marty McFly e Emmett Brown, sua despedida poderia ser bem mais ágil e divertida. É um final agradável, simpático e coerente, mas que não chega a estar à altura dos dois primeiros filmes, o que, de certa forma, era uma missão quase impossível.

domingo

DE VOLTA PARA O FUTURO - PARTE II

DE VOLTA PARA O FUTURO - PARTE II (Back to the future - Part II, 1989, Universal Pictures, 108min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Bob Gale, estória e personagens de Robert Zemeckis, Bob Gale. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Harry Keramidas, Arthus Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Linda De Scenna. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Produção: Neil Canton, Bob Gale. Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Elisabeth Shue, Thomas F. Wilson, James Tolkan, Billy Zane. Estreia: 22/11/89

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais

Depois do acachapante - e de certa forma inesperado - sucesso de "De volta para o futuro" (85), era até previsível que sua equipe (o diretor Robert Zemeckis, o roteirista Bob Gale e o produtor Steven Spielberg) caísse na tentação de realizar uma continuação. A novidade, contudo, surgiu quando a Universal Pictures anunciou que, para economizar custos e dar conta da enorme quantidade de ideias que surgiam na mente de seus criadores, seriam realizados, de uma só vez, duas sequências para a divertida história do adolescente Marty McFly e suas viagens pelo tempo. Os dois filmes seriam lançados com um espaço de tempo de apenas seis meses entre eles e formariam, no final, uma trilogia que contava, segundo os próprios Zemeckis e Gale, uma única história em três partes. Ocupado com as demoradas filmagens de seu premiado "Uma cilada para Roger Rabbit" (88), o cineasta deu tempo de sobra para que Bob Gale desenvolvesse os dois capítulos finais da série - separados também por tons e ambientações diferentes - e os produtores lidassem com os problemas relativos a contratos e negociações. E em uma série de filmes com roteiros tão complexos, jamais poderia imaginar que a maior dificuldade de levar "De volta para o futuro - parte II" para os cinemas fosse cair justamente no elenco coadjuvante.

Mesmo com todos os atores tendo assinado contratos para eventuais continuações do primeiro filme, a produção de "De volta para o futuro - parte II" emperrou de cara quando Crispin Glover, que no primeiro filme interpretou George McFly, o pai do protagonista, decidiu que não iria participar das sequências por não concordar com o salário oferecido - segundo ele, apenas metade do que receberiam outros membros do elenco de apoio, como Lea Thompson (sua mulher, Lorraine) e Thomas F. Wilson (seu rival, Biff Tannen). Rodadas de negociações foram gastas até que o estúdio resolvesse que Glover não estava sendo minimamente razoável e desistisse de contar com sua participação, substituindo-o por um dublê em todas as cenas em que fosse imprescindível sua presença. Outro problema no elenco dizia respeito à Claudia Wells, que vivia Jennifer, a namorada de Marty no original - e que era, de acordo com as cenas finais, parte importante do enredo do segundo filme, relacionado aos filhos do protagonista. Com a mãe diagnosticada com câncer, Wells abandonou a carreira de atriz e deixou os produtores com um abacaxi a descascar. Felizmente, nesse caso as coisas foram mais fáceis: Elisabeth Shue - que seis anos depois concorreria ao Oscar de melhor atriz por seu desempenho em "Despedida em Las Vegas" - assumiu o papel e deixou aliviados todos aqueles que esperavam ansiosamente para voltar a um dos mais queridos filmes dos anos 80.

A trama de "De volta para o futuro - parte II" começa exatamente onde acabou o original: o Dr. Emmett Brown (Christopher LLoyd, ainda mais à vontade no papel) procura o adolescente Marty McFly (Michael J. Fox) procurando ajuda para resolver um problema com seus filhos no ano de 2015. Arrastando uma atônita Jennifer junto com eles, a dupla chega ao futuro para tentar impedir que o filho de McFly, Junior (novamente Fox), seja preso e condenado devido à má influência de Griff Tannen (Thomas F. Wilson), filho de Biff, inimigo declarado da juventude de seu pai. A questão demora um pouco a ser resolvida - e faz com que Marty tenha contato ainda com sua filha, Marlene (Fox em terceiro papel), com Jennifer mais velha e com ele mesmo em uma rotina pouco entusiasmante. A situação sofre um baque, porém, quando, em 2015, Biff descobre o segredo do DeLorean máquina do tempo e, em um lance de mestre, viaja para o passado para entregar a ele mesmo jovem um almanaque com todos os resultados esportivos do século. Quando retorna a 1985, então, Marty e Brown precisa lidar com uma devastadora realidade alternativa, onde Biff é um milionário ao estilo Donald Trump e casado com sua mãe. Para evitar essa tragédia, ele convence Brown a voltar mais uma vez a 1955 e impedir o encontro dos dois Biffs - enquanto tenta impedir também um encontro consigo mesmo, o que pode causar irreparáveis danos à linha temporal.


Apostando na inteligência da plateia e entregando uma trama repleta de detalhes que vão se completando no decorrer da narrativa, "De volta para o futuro - parte II" consegue ser tão divertido e empolgante quanto o primeiro filme, por mais que tenha perdido o sabor de novidade. Ao recriar sequências do original - como a corrida de skate (dessa vez voador) - Zemeckis conduz a plateia à sua própria viagem no tempo, em especial quando recria detalhadamente o baile "Encanto submarino" e faz com que o protagonista fique sempre a um passo de esbarrar em uma outra versão de si mesmo, em um delicioso suspense no qual o espectador embarca sorridente e seduzido. Brincando também com situações banais transformadas em piadas - "Tubarão 19", anuncia a marquise do cinema, com um realista monstro em 3D assustando os transeuntes e Biff Tannen uma cópia idêntica de Donald Trump quase trinta anos antes que o milionário fosse eleito presidente - e com um roteiro que não dá trégua em seu vai-e-volta, o diretor faz uso exemplar dos efeitos visuais indicados ao Oscar (a cena da reunião familiar é sensacional) e não perde jamais o fio da meada, demonstrando total domínio de seus personagens e sua história.

Apontado por alguns como confuso demais para um filme de verão, "De volta para o futuro - parte II" é, na verdade, a prova irrefutável de que não é necessário subestimar a inteligência da plateia para conquistá-la. Exigindo mais do público do que a vasta maioria das produções a chegar às telas no meio do ano nos EUA - sempre a temporada mais lucrativa - o filme de Zemeckis consegue alcançar o equilíbrio perfeito entre ação, comédia e ficção científica, sem que para isso tenha que sacrificar a coerência interna da história ou a complexidade de seus personagens. É uma continuação exemplar, que honra seu primeiro capítulo e abre a porta para seu final com o máximo de respeito e ousadia possíveis. Não é à toa que Robert Zemeckis é um dos mais bem-sucedidos diretores de sua geração.

sábado

O VOO

O VOO (Flight, 2012, Paramount Pictures, 138min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: John Gatins. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Jeremiah O'Driscoll. Música: Alan Silvestri. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Nelson Coates/James Edward Ferrell Jr.. Produção executiva: Cherylanne Martin. Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes, Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Denzel Washington, John Goodman, Don Cheadle, Bruce Greenwood, Kelly Reilly, Melissa Leo, Brian Geraghty, James Badge Dale. Estreia: 14/10/12 (Festival de Nova York)

2 indicações ao Oscar: Ator (Denzel Washington), Roteiro Original

Levando-se em consideração que a filmografia de Robert Zemeckis inclui a trilogia "De volta para o futuro", o revolucionário "Uma cilada para Roger Rabbit" e o megapremiado "Forrest Gump" - e que desde "Náufrago", de um distante ano 2000 ele não brindava seu público com filmes em live-action - não deixa de ser surpreendente ver seu nome assinando "O voo", uma produção simples, honesta e humana e que, excetuando-se uma tensa sequência que mostra um acidente aéreo, prescinde de efeitos visuais e artifícios estilísticos para conquistar a plateia. Depois de uma sucessão de trabalhos cujo visual importava mais do que o conteúdo, o mais bem-sucedido discípulo de Steven Spielberg marcou sua volta de maneira discreta mas bastante eficiente. Com uma renda de mais de 90 milhões de dólares no mercado americano - contra seu custo de apenas 30 milhões - "O voo" ainda conseguiu agradar à crítica e à Academia de Hollywood, que o brindou com duas indicações ao Oscar: roteiro original e ator - Denzel Washington em uma atuação bem mais contida do que o normal e consequentemente mais humana e passível de identificação com o espectador.

Afeito à personagens heroicas e/ou arrogantes, Washington se sai notavelmente bem em um papel que foge de sua zona de conforto. Whip Whitaker, o piloto de aviões alcóolatra e viciado em drogas que consegue milagrosamente evitar uma tragédia de grandes proporções e depois se vê acossado por seus superiores e pela própria consciência é uma das melhores personagens de sua carreira, lhe proporcionando a chance de explorar nuances de seu talento até então escondidos sob a camada de exarcebada autoestima que seus trabalhos anteriores insinuavam. Poucas vezes o público viu Denzel tão frágil e inseguro e esse risco - talvez calculado, mas eficiente - é a maior qualidade de um filme, que, mesmo mantendo o interesse da plateia até seu final, não consegue deixar de esbarrar em alguns clichês. Ainda assim, é um filme acima da média, graças a uma união de talentos que não tinha como dar errado.


Dirigido com firmeza e sutileza por um Robert Zemeckis de volta à sua atenção às personagens e seus atores - qualidade que lhe rendeu um Oscar por "Forrest Gump" e que sempre ficou muito em evidência em seus trabalhos, mesmo os menos sérios - "O voo" é, na verdade, totalmente centrado na figura de Whitaker, um homem em constante luta contra seus fantasmas que, depois do desastre do avião que pilotava (mesmo calibrado de álcool e cocaína) vê suas certezas abaladas e tenta reencontrar seu caminho - e sente-se pressionado por uma investigação que pode dar fim à sua carreira. Zemeckis acerta em centrar a trama nas costas capazes de Washington, mas de certa forma isso acaba deixando de lado algumas possibilidades interessantes - como sua relação com a jovem viciada Nicole (Kelly Reilly), tratada de forma um tanto desajeitada pelo roteiro, escrito com seriedade e grande senso de ritmo. Sem ter muito onde apoiar-se - até mesmo as cenas de tribunal soam apenas corretas e não empolgantes, apesar do auxílio luxuoso de Melissa Leo - resta ao ator (indicado ao Oscar, mas sem muitas chances de vitória ao encarar Daniel Day-Lewis e sua recriação de Abraham Lincoln no filme de Spielberg) dar seu show particular, o que com certeza agrada a seus fãs e pode conquistar outros.c

"O voo" é um belo drama, dirigido com competência e estrelado por um ator em um grande momento. Pode não ser excepcional ou inesquecível, mas cumpre o que promete sem aborrecer ao espectador. Em uma temporada repleta de obras ambiciosas e morosas como os louvados "Lincoln" e "Os miseráveis", não deixou de ser um oásis de simplicidade e concisão - e que entrega a John Goodman um dos melhores papéis de sua carreira, como o amigo e fornecedor de drogas do protagonista que tem suas cenas ilustradas com canções dos Rolling Stones. É um alívio cômico não exagerado que ajuda personagem e plateia a respirar por alguns minutos diante de tanto drama.

domingo

NÁUFRAGO

NÁUFRAGO (Cast away, 2000, 20th Century Fox/DreamWorks SKG, 143min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: William Broyles Jr.. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Rosemary Brandenburg, Karen O'Hara. Produção executiva: Joan Bradshaw. Produção: Tom Hanks, Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Tom Hanks, Helen Hunt, Chris Noth. Elenco: 07/12/00

2 indicações ao Oscar: Ator (Tom Hanks), Som
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Tom Hanks)

A história da gênese de "Náufrago" - um projeto arriscado do cineasta Robert Zemeckis e do ator Tom Hanks que acabou se tornando um enorme sucesso de bilheteria e crítica - todo mundo conhece: para dar veracidade à história de um homem preso em uma ilha deserta, sem comida e sendo obrigado a aprender as regras de sobrevivência de um lugar até então inóspito e desconhecido, os dois interromperam as filmagens por um ano. Nesse meio-tempo, Hanks perdeu o peso que havia adquirido para criar seu personagem antes do acidente que o joga na ilha e Zemeckis concluiu outro filme - o suspense "Revelações", estrelado por Harrison Ford e Michelle Pfeiffer. O fato é que, a despeito dessa curiosa e até hoje única particularidade, o filme que saiu dela é, ao contrário da maioria das produções cujas anedotas de bastidores são mais interessantes que o resultado final, digno dos mais entusiasmados aplausos. Com exceção de um posfácio um tanto redundante, "Náufrago" é um belíssimo trabalho de roteiro, ritmo, emoção e principalmente atuação. Não foi à toa que Hanks esteve bastante perto de abocanhar um terceiro Oscar de melhor ator - perdeu para Russell Crowe em "Gladiador", mas não deixou de ficar com um Golden Globe por seu desempenho antológico.

Depois das estatuetas douradas por "Filadélfia" e "Forrest Gump, o contador de histórias", Hanks arrancou elogios rasgados e unânimes na pele de Chuck Noland, um executivo da FedEx (a agência de Correios dos EUA) extremamente dedicado ao trabalho que deixa até menos sua relação com a namorada, Kelly (Helen Hunt) em segundo plano, priorizando sempre os prazos exatos prometidos aos clientes e a imagem da empresa. Às vésperas do Natal de 1995, porém, sua vida regrada e constantemente corrida sofre um abalo profundo: durante uma viagem a negócios, seu avião cai em algum ponto do Oceano Pacífico, matando toda a tripulação (seus colegas) e deixando-o à deriva, sob uma violenta tempestade. Sozinho em uma ilha - e sem nenhum tipo de apoio da tecnologia ou conforto moderno - Noland se vê obrigado, então, a tratar da própria sobrevivência. Para não morrer de fome ou sede, ele aprende a pescar, caçar, procurar água e construir uma cabana para se proteger das intempéries da natureza. Sua solidão é quebrada apenas pelas lembranças de sua relação com Kelly e por suas longas conversas com uma bola de vôlei - encomenda de um cliente que chega intocada à ilha, junto com ele. Batizando-a de Wilson, o poderoso e controlador executivo passa a perceber de forma diferente sua vida e suas prioridades.


Um Robinson Crusoé pós-moderno, Chuck Nolan recebe, das mãos hábeis e experientes de Tom Hanks, uma interpretação precisa, que dosa com exatidão momentos de economia dramática com outros onde o ator - que começou a carreira em comédias despretensiosas mas via de regra deliciosas - esbanja o carisma que fez dele um dos astros mais poderosos de Hollywood nos anos 90. Só mesmo alguém com todo o alcance histriônico de Hanks seria capaz de segurar, praticamente sozinho, duas horas e meia de um filme que - à exceção da primeira meia-hora e dos vinte minutos finais - trata-se basicamente de uma odisseia solitária e exasperante de um homem em confronto (e diálogo) constante com o mundo natural que o cerca. Se a transformação física do ator é impressionante (mas não inédita em sua trajetória, haja visto as alterações sofridas para "Uma equipe muito especial" e "Filadélfia"), ela não é mais fascinante do que aquela que se passa interiormente, quando o personagem - quase arrogante em sua pretensa superioridade ao mundo - se curva diante de forças maiores e reconhece sua insignificância em relação ao mundo. São em momentos assim - principalmente durante os diálogos de Nolan e um obviamente calado Wilson - que fazem de "Náufrago" mais do que simplesmente uma aventura dramática: é, principalmente, um show particular de um ator no auge de seu vigor técnico.

Porém, mesmo que Hanks domine o espetáculo do princípio ao fim, seria injusto não reconhecer o trabalho impecável de Robert Zemeckis, que teve a coragem de apostar em um filme com ritmo perceptivelmente mais lento do que a maioria das produções comerciais. Mesmo que mostre seu domínio técnico em sequências absolutamente perfeitas - como o acidente de avião - são nos momentos mais humanos que o diretor (acostumado a êxitos incontestes de bilheteria, como "Uma cilada para Roger Rabbit", "De volta para o futuro" e o próprio "Forrest Gump", que deu a ele e Hanks os prêmios da Academia) mostra que, mais do que pirotecnias visuais, ele também entende de contar histórias. Sem deixar que o ritmo de seu filme caia mesmo com apenas um personagem em cena, Zemeckis fez de uma aposta arriscada um sucesso extraordinário, com uma renda superior a 200 milhões de dólares somente no mercado doméstico (EUA e Canadá). Mereceu. "Náufrago" é um dos filmes memoráveis do final do século XX.

A MORTE LHE CAI BEM

A MORTE LHE CAI BEM (Death becomes her, 1992, Universal Pictures, 104min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Martin Donovan, David Koepp. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Jackie Carr. Produção: Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Meryl Streep, Goldie Hawn, Bruce Willis, Isabella Rossellini, Sydney Pollack. Estreia: 31/7/92

Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais

Depois que mostrou que desenhos animados e atores poderiam conviver pacificamente em uma tela de cinema com o incrível sucesso de crítica e bilheteria de "Uma cilada para Roger Rabbit" (88) e que viagens no tempo poderiam ser incrivelmente divertidas com a trilogia "De volta para o futuro", encerrada em 1989, quase tudo era esperado do diretor Robert Zemeckis. Quase tudo, menos que ele partisse sem pestanejar pelo pantanoso terreno do humor negro - em especial com um filme que criticasse sem o menor pudor a busca desesperada pela eterna juventude que tanto alimenta a fogueira das vaidades do mundo artístico. De posse de efeitos visuais impecáveis que acabariam levando o Oscar do ano seguinte e um trio de atores respeitados e populares, Zemeckis, no entanto, encarou um banho de água fria quando seu "A morte lhe cai bem" estancou nas bilheterias ianques pouco abaixo dos 60 milhões de dólares - praticamente o orçamento final do projeto. Um dos típicos fracassos injustos de que a história de Hollywood está repleta, a história de inveja, vingança e competição entre duas inimigas que disputam o amor do mesmo homem - não por acaso um cirurgião plástico - às raias do absurdo é um primor de ironia, sarcasmo e mordacidade, interpretado como um filme de terror das antigas mas revestido de uma modernidade de que somente o cinemão mainstream americano seria capaz sem cair no ridículo.

A trama é puro nonsense: começa quando o bem-sucedido cirurgião Ernest Menville (Bruce Willis se divertindo em papel que seria de Kevin Kline) troca sua então noiva, Helen Sharp (Goldie Hawn), pela estrela dos palcos Madeline Ashton (Meryl Streep), mais interessada em seus talentos médicos do que exatamente por seu amor. Revoltada, Helen, que sempre manteve uma relação tumultuada com Madeline, a quem acusa de roubar sistematicamente seus namorados, se entrega à comida, engordando alucinadamente. Anos se passam e justamente quando o casamento entre Madeline e Ernest está em frangalhos - ele parou de clinicar por causa do álcool e trabalha maquiando cadáveres e ela está se sentindo cada vez mais velha, sendo desprezada até pelo amante mais jovem - Helen dá sinais de vida, mandando o convite para o lançamento de seu livro. Glamourosa, carismática, magra - e melhor ainda, dotada de uma jovialidade espantosa - ela acaba por seduzir novamente Ernest e planeja, com ele, a morte de sua maior rival. O que ela não esperava, no entanto, é o fato de Madeline ter encontrado uma nova fonte da juventude através da misteriosa Lisle Von Rhuman (Isabella Rossellini, linda). Dotada de uma nova força, ela se descobre imortal - mas também verá que tal benefício também tem seus pequenos problemas.


O tom gótico da brincadeira de Zemeckis está presente em cada minuto de celulóide - desde a chuva incessante, com direito a relâmpagos, que emoldura os momentos em que as duas rivais imortais se digladiam com espingardas, pás e agressões físicas das mais variadas, até nos mirabolantes cenários, que reconstituem mansões pra lá de sinistras. O roteiro brinca com a obsessão pela juventude e pela beleza na forma de uma fábula grotesca, sem heróis ou vilões e recheada de citações à cultura popular (entre os convidados da festa de Lisle, por exemplo, estão alguns de seus mais famosos clientes, facilmente reconhecíveis pelo público, mas que não convém revelar sob pena de estragar a surpresa aos ainda não-iniciados ao filme). Os efeitos especiais de primeira linha também chamam a atenção por se integrarem organicamente à história, divertindo o público pelo inusitado de seu visual: de repente, Meryl Streep, uma atriz respeitada e então vencedora de dois Oscar, está com o pescoço torcido ao contrário ou com a cabeça enterrada no corpo, e Goldie Hawn levanta da piscina com um rombo gigantesco no estômago, resultado de um tiro. Tais truques, realizados com perfeição, acabaram levando o Oscar da categoria, batendo filmes bem mais afeitos a tais artifícios, como "Alien 3" e "Batman, o retorno".

É lógico que o público acostumado com besteiras inconsequentes e filmes de ação descerebrados não gostou de "A morte lhe cai bem". Apesar de tudo, a obra de Zemeckis é sutil e inteligente, passando longe do humor fácil e previsível. É uma crítica pesada ao culto à beleza e à juventude, disfarçada de comédia gótica e repleta de piadas visuais e verbais que podem facilmente passar despercebidas ao espectador menos atento e informado dos bastidores da indústria do entretenimento. Para aqueles que buscam uma diversão menos superficial, porém, o filme é deliciosamente perverso, algo como uma versão high-tech de um filme estrelado por Bette Davis e Joan Crawford. Impagável!

quarta-feira

CONTATO

CONTATO (Contact, 1997, Warner Bros, 150min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: James V. Hart, Michael Goldenberg, romance de Carl Sagan, história de Carl Sagan, Ann Druyan. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Ed Verreaux/Michael J. Taylor. Produção executiva: Joan Bradshaw, Lynda Obst. Produção: Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Jodie Foster, Matthew McConaughey, David Morse, Jena Malone, William Fichtner, Rob Lowe, Tom Skerritt, Angela Bassett, John Hurt. Estreia: 11/7/97

Indicado ao Oscar de Som

Um dos mais populares escritores e astrônomos do mundo, Carl Sagan, autor da famosa série "Cosmos", morreu no final de 1996, quando as filmagens de um de seus mais estimados projetos ainda em andamento. Concebido no início dos anos 80 já em formato de filme e posteriormente transformado em romance, "Contato" chegou às telas alguns meses depois da morte de Sagan, arrancando elogios unânimes da crítica e amealhando nada desprezíveis 100 milhões de dólares somente no mercado doméstico americano. Levando-se em consideração que seu diretor é Robert Zemeckis - que fez com que "Forrest Gump", a história simples de um rapaz com problemas mentais se tornasse uma das maiores bilheterias da história - não chega a ser surpresa o sucesso do filme. Surpresa é o fato de o filme ter alcançado tamanho êxito sem apelar para efeitos visuais desnecessários nem tampouco descaracterizar a trama criada por Sagan. Apesar de classificar-se, sim, como uma ficção científica, "Contato" expande os limites do gênero ao tratar a busca por vida em outros planetas de uma maneira completamente diferente do mostrado até então.

A principal preocupação do roteiro de "Contato" não é levar o espectador à Marte ou planetas outros ao lado de personagens engraçadinhos e forjados sem a menor sutileza. A conversa aqui é bem outra, graças à inteligência da história criada por Sagan. A protagonista do filme é Ellie Arroway (vivida por uma Jodie Foster madura e sempre competente), uma astrônoma dedicada a sua busca por provas de vida fora da Terra. Lutando contra seus financiadores, que acreditam que ela está perdendo dinheiro com suas pesquisas, ela conta com a ajuda de seus colegas para manter viva a esperança de fazer a grande descoberta de sua vida. Um dia, finalmente ela ouve ruídos em seu rádio e descobre, sem sombra de dúvida, que tais sons são a prova da existência de alienígenas inteligentes. Ainda através de contatos sonoros, tais seres enviam  instruções para a construção de uma máquina que permitirá a um terráqueo viajar até eles. Quando tal nave fica pronta, porém, uma dúvida surge: quem é realmente digno de representar o planeta?



É a partir desse questionamento filosófico/religioso que "Contato" sai do lugar-comum dos filmes de ficção científica e penetra em um nível bem mais superior de entretenimento. Sem nunca descuidar do desenvolvimento dramático da história - que inclui a interessante relação entre a intelectual Ellie e o teólogo Joss Palmer (Matthew McConaughey) - o roteiro dá ao público um vasto material para discussões sem, por causa disso, confundí-lo com complexidades inúteis. Está tudo acomodado de forma sutil e convincente, principalmente porque, além de tudo, Zemeckis tem o dom de sempre escalar um elenco preciso. Logicamente, a dona da festa é Jodie Foster, que conduz toda a história com a majestade de sempre, mas seus coadjuvantes não podem jamais ser acusados de ficarem eclipsados por seu enorme talento.

Enquanto Matthew McConaughey aproveita seu status de "novo galã da hora em Hollywood" - foi seu primeiro trabalho após o sucesso de "Tempo de matar" - William Fichtner tem a maior chance de sua carreira ao interpretar o braço direito de Ellie, Kent, um cientista cego de importância fundamental na narrativa e John Hurt quase rouba a cena na pele de S.R. Hadden, o excêntrico milionário que possibilita à protagonista realizar seu sonho - em uma sequência belíssima realizada com extremo bom-gosto. Não bastasse isso, ainda fazem pequenas participações Tom Skerritt, Angela Bassett, Rob Lowe e até mesmo o presidente Bill Clinton, cujo discurso foi utilizado sem prévia permissão e causou controvérsia. E é inadmissível não lembrar das ótimas participações de Jena Malone e David Morse nas cenas iniciais, como a menina Ellie e seu pai, cuja morte tem ressonância em todo o filme.

"Contato" é, portanto, uma ficção científica com os dois pés na realidade. Não é um filme para o público que lotou as salas de cinema para assistir a bobagens indescritíveis como "Independence Day", mas para aquela plateia que gosta de ter seu cérebro bem tratado por duas horas e meia.

domingo

FORREST GUMP, O CONTADOR DE HISTÓRIAS

FORREST GUMP, O CONTADOR DE HISTÓRIAS (Forrest Gump, 1994, Paramount Pictures, 142min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Eric Roth, romance de Winston Groom. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Arthur Scmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Nancy Haigh. Produção: Wendy Finerman, Steve Starskey, Steve Tisch. Elenco: Tom Hanks, Sally Field, Robin Wright, Gary Sinise, Mykelty Williamson, Haley Joel Osment. Estreia: 06/7/94. Bilheteria nos EUA: U$ 329.691.196

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Zemeckis), Ator (Tom Hanks), Ator Coadjuvante (Gary Sinise), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais, Som, Efeitos Sonoros, Maquiagem
Vencedor de 6Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Zemeckis), Ator (Tom Hanks), Roteiro Adaptado, Montagem, Efeitos Visuais
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Robert Zemeckis), Ator/Drama (Tom Hanks)

É engraçado como alguns filmes conseguem um diálogo imediato com a plateia, mesmo que aparentemente nada tenham a ver com ela. Talvez seja culpa do cinismo que assolava o cinema americano dos anos 90, talvez seja porque o público estava precisando de uma espécie de super-herói humano, mas o fato é que "Forrest Gump, o contador de histórias", de Robert Zemeckis simplesmente superou toda e qualquer expectativa de seu estúdio (a Paramount Pictures) e, com uma renda superior a 300 milhões de dólares somente no mercado americano, tornou-se parte do inconsciente coletivo não apenas de uma nação, mas do mundo todo. Com sua mistura perfeita entre comédia, drama e efeitos visuais impecáveis, a adaptação do romance de Winston Groom foi o grande vencedor do Oscar de 1994 em seis categorias - incluindo as principais: filme, diretor e ator (o segundo consecutivo de Tom Hanks). O melhor de tudo é que mereceu o sucesso todo.

"Forrest Gump" é um filme difícil de resumir. O protagonista - vivido magistralmente por Hanks - é um rapaz de QI abaixo da média que, desde a infância traumática (abandonado pelo pai, com problemas nas pernas) contou com a superproteção da mãe (interpretada com gosto por Sally Field, apenas dez anos mais velha do que Hanks na vida real). Graças a ela, Gump estudou em uma escola para crianças normais, onde conheceu e se apaixonou à primeira vista pela doce Jenny (interpretada por Robin Wright na idade adulta). Sem dar importância a suas limitações, o rapaz entra na universidade devido a seu dom como esportista, volta da guerra do Vietnã condecorado (depois de salvar a vida de quase todo o seu pelotão), inicia um bem-sucedido negócio no ramo da pesca de camarão, torna-se ídolo do ping-pong e estampa capas de revistas depois que resolve correr país afora. Nesse ínterim, conhece três presidentes americanos, é testemunha do caso Watergate, trava conhecimento com Elvis Presley e John Lennon e em momento algum esquece ou desiste de proteger a mulher por quem é loucamente apaixonado.

Forrest Gump, o protagonista, é uma das mais carismáticas personagens da história do cinema americano. Ingênuo, simples e amoroso, Gump é uma espécie de alter-ego lúdico de qualquer pessoa da plateia. Homens ou mulheres, adultos ou crianças, todos se envolvem positivamente com sua trajetória: ele não deseja ser herói ou ídolo, ele simplesmente o é, por acaso puro e simples. Presente sempre no lugar certo e no momento exato, Forrest Gump é testemunha ocular da história americana e o fato de não ser nada além de um "caipira" do Alabama faz com que o público se identifique com ele de forma incondicional. Ao contrário do protagonista de "Rain Man", por exemplo, ele não é genial com números ou irritantemente metódico: ele é um homem com inteligência abaixo da média mas com um coração imenso e fiel.



Metódico somente o trabalho de Tom Hanks: em uma atuação consagradora, o único ator a conseguir o feito de arrebatar 2 Oscar consecutivos (o outro foi Spencer Tracy) construiu um Forrest Gump exemplar. Somente seu meticuloso trabalho vocal e corporal já lhe justificaria a estatueta, mas além disso, ele consegue humanizar sua personagem sem nunca escorregar na tentação de transformá-la em uma aberração simpática. Na interpretação de Hanks, Gump é um ser humano e não uma personagem inverossímil e, para isso, ele conta com um elenco coadjuvante de peso. Além de Field - já acostumada a conquistar o público sem muito esforço - a bela Robin Wright e o experiente Gary Sinise não ficam atrás em matéria de intensidade. Wright - na época mais conhecida por ser namorada de Sean Penn - alcança o equilíbrio perfeito entre as insanidades e a melancolia de sua Jenny, uma jovem marcada por uma infância violenta e uma vida adulta sofrida e inconstante. E Sinise - indicado ao Oscar de coadjuvante - vive um Tenente Dan Taylor excepcional (e para isso também conta a perfeição dos efeitos visuais que lhe arrancam as pernas na maior parte do filme).

Os efeitos visuais, aliás, merecem um capítulo à parte: ao misturar com extrema perfeição cenas do filme com imagens de arquivo, Robert Zemeckis atingiu um nível de excelência que é capaz de assombrar mesmo depois de quase 17 anos. Sem deixar que o aspecto técnico sobressaísse em relação ao nível emocional da trama - por si só empolgante o suficiente - o cineasta provou que, mais do que um diretor conectado aos avanços dos efeitos visuais, ele é acima de tudo um real artista, cuja principal preocupação é contar uma boa história. E uma boa história não é o que falta a "Forrest Gump".

O roteiro excepcional de Eric Roth - também vencedor do Oscar - é um primor de inteligência, bom-humor e ritmo. Em nenhum momento "Forrest Gump" é previsível ou carece de ritmo. Equilibra piadas irônicas com cenas de partir o coração. Alterna uma música original belíssima de Alan Silvestri com uma seleção de canções dos anos 60 de encantar os ouvidos. Mas, acima de tudo, jamais subestima a inteligência e a sensibilidade do espectador. Um clássico instantâneo e um dos filmes mais importantes da história do cinema!

quinta-feira

UMA CILADA PARA ROGER RABBIT


UMA CILADA PARA ROGER RABBIT (Who framed Roger Rabbit?, 1988, Amblin Entertainment/Touchstone Pictures, 104min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Jeffrey Price, Peter S. Searman, romance "Who censored Roger Rabbit?", de Gary K. Wolf. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Roger Cain, Elliot Scott. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Steven Spielberg. Produção: Frank Marshall, Robert Watts. Elenco: Bob Hoskins, Christopher Lloyd, Joanna Cassidy. Estreia: 21/6/88

6 indicações ao Oscar: Fotografia, Montagem, Direção de arte/cenários, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais
Vencedor de 4 Oscar: Montagem, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais e Especial de Animação


Filmes noir são um gênero à parte dentro do cinema americano. Desde que surgiu, nos anos 40, seus elementos foram utilizados à exaustão pelos cineastas do mundo todo, com resultados tão díspares quanto as personalidades de seus complexos personagens. Por isso não deixa de ser curioso e até irônico que seu mais legítimo representante no final do século XX seja um filme cujo protagonista nem humano é.

Exatamente. O protagonista de “Uma cilada para Roger Rabbit”, como seu próprio nome sugere, é um coelho. Mas não um coelho qualquer. Na Hollywood dos anos 40, em um mundo à parte onde seres humanos convivem com cartoons, Roger é um astro de cinema, popular e querido graças principalmente a sua participação em filmes com o amado Baby Herrman, que nos bastidores é um boçal grosseiro e cheio de vícios. Casado com a bela Jessica Rabbit, Roger é invejado e admirado, mas quando o filme começa está passando por uma crise sem precedentes. Preocupado com um de seus maiores investimentos, o dono do estúdio onde o coelho trabalha contrata o detetive Eddie Valiant (Bob Hoskins, genial em cada cena) para que siga a bela esposa de Roger. Quando o “amante” de Jessica é assassinado, o coelho passa a ser o principal suspeito e pede ajuda ao detetive para provar sua inocência. Nem um pouco disposto a colaborar com um personagem de cartoon, uma vez que seu irmão e ex-parceiro foi assassinado por um, Valiant acaba mudando de idéia ao descobrir uma conspiração orquestrada pelo sinistro Mr. Doom (Christopher Lloyd), que quer exterminar a raça de atores de animação.


Espetacular em cada cena, a obra de Robert Zemeckis é um primor da sétima arte. Engraçado como poucos, inteligente como ainda mais raros, o roteiro, baseado em um livro desconhecido fora dos EUA, brinca de forma admirável com os clichês do gênero noir, com ambientações soturnas, personagens cheios de mistérios e uma fotografia brilhante de Dean Cundey, que ressalta ainda mais o clima de mistério da trama rocambolesca e intrincada.

Mas nada é melhor em “Uma cilada para Roger Rabbit” do que a perfeita interação entre atores reais e desenho animado. Utilizando uma técnica descoberta nos filmes de Walt Disney das antigas (“Você já foi à Bahia?”, por exemplo) da forma mais criativa e polidimensional possível, a equipe responsável pelos efeitos visuais (merecidamente premiados com o Oscar da categoria) dá um verdadeiro show de talento e competência. É inacreditável em alguns momentos como a realidade impossível torna-se palpável, principalmente graças ao excepcional trabalho de Bob Hoskins, que teve que trabalhar sozinho em grande parte das filmagens e criou um Eddie Valiant crível e real.

Divertidíssimo da primeira à última cena, “Roger Rabbit” é um tributo ao talento de seus realizadores e ainda por cima cria dois personagens inesquecíveis: o protagonista, dublado pelo mesma voz do Pernalonga e sua sensual esposa, Jessica Rabbit, um dos mais surpreendentes símbolos sexuais surgidos ultimamente e dublada por Kathleen Turner e Amy Irving. Sua força é tão notável que já houve a ideia de um novo filme estrelado apenas pelos dois. Vida longa ao casal Rabbit!

sexta-feira

DE VOLTA PARA O FUTURO


DE VOLTA PARA O FUTURO (Back to the future, 1985, Universal Pictures, 116min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Bob Gale, Robert Zemeckis. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Harry Keramidas, Arthur Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Deborah L. Scott. Direção de arte/cenários: Lawrence G. Paull/Hal Gausman. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Judy Taylor. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Produção: Neil Canton, Bob Gale. Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Crispin Glover, Thomas F. Wilson, Billy Zane. Estreia: 03/7/85

4 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Canção ("The power of love"), Som, Efeitos Sonoros
Vencedor do Oscar de Efeitos Sonoros


Comprovando de vez o toque de Midas de Steven Spielberg, capaz de transformar qualquer produto com seu nome em uma máquina de fabricar dinheiro, a comédia de ficção científica “De volta para o futuro” rendeu mais de 200 milhões de dólares nos EUA, tornando-se a maior bilheteria de 1985. E sabe o que é mais surpreendente? Mereceu cada centavo. Ao contrário de dezenas de produções menos inspiradas que aportam nas telas de cinema semanalmente, o filme de Robert Zemeckis – protegido de Spielberg e diretor do hilariante “Febre de juventude” – tem um rasgo de inteligência, bom humor e auto-ironia que o separa quilometricamente de seus congêneres.

Estrelado por Michael J. Fox (saído da série de TV “Caras e caretas” e que substituiu Eric Stoltz a meio caminho), “De volta para o futuro” é um filme de ação delirante, uma comédia engraçadíssima e, por que não?, uma ficção científica com fundo romântico e nostálgico que agrada pais e filhos. É pouco provável que alguém não vá se divertir assistindo a saga de Marty McFly (J. Fox) na sua missão de, em pleno 1955, juntar seus pais em um baile de formatura e assim impedir sua existência em 1985 de desaparecer como se nunca tivesse existido.

Ok, vamos às explicações: Marty é um adolescente de 17 anos que sonha em tornar-se guitarrista famoso e vive com uma família absolutamente sem-graça. Seus pais vivem discutindo, seus irmãos não têm ambição e sua vida é definitivamente comum. Tudo muda quando seu amigo, o cientista Doc Brown (Christopher Lloyd, em uma atuação siderada) lhe apresenta sua nova invenção: uma máquina do tempo construída em um DeLorean. Por problemas que envolvem terroristas líbios, combustível feito de plutônio e um relógio na torre de um prédio, Marty acaba sem querer indo parar em outubro de 1955, às vésperas do baile de formatura onde seus pais trocaram seu primeiro beijo. Por uma ironia do destino, no entanto, sua mãe, Lorraine (Lea Thompson), nem de longe tão certinha quanto sempre quis parecer ser diante dos filhos, se interessa por ele e Marty tem então que fazê-la apaixonar-se por aquele que virá a ser seu pai, George McFly (o ótimo Crispin Glover). O problema é que George é desengonçado, tímido, atrapalhado e fã de livros de ficção científica, além de ser eternamente humilhado pelo grandalhão Biff (Thomas F. Wilson). A missão do adolescente Marty acaba se tornando de vida ou morte. Se seus pais não se apaixonarem, nem ele nem seus irmãos existirão mais.


O alucinante do roteiro de Zemeckis e Bob Gale (indicado merecidamente ao Oscar) nunca deixa o ritmo cair. De piada em piada (desde o choque de gerações até piadas mais visuais) o filme vai construindo uma trama consistente apesar da premissa um tanto absurda, apesar de engraçada. Colabora para a atemporalidade do filme - que, ao contrário de muitos filmes realizados à mesma época - sua caprichada direção de arte e o cuidado com os detalhes, um padrão de qualidade da "marca" Spielberg. Mas, além do roteiro exemplar e da admirável parte técnica, é o carisma de Michael J. Fox e sua química com seus colegas de elenco que dão sustentação a todo o projeto.

Apesar de já não ser um adolescente durante as filmagens de "De volta para o futuro", Fox convence plenamente na pele de Marty McFly, assim como o fazem Crispin Glover e Lea Thompson como seus pais - Glover inclusive parece ter nascido para o papel, em uma atuação ao mesmo tempo hilariante e patética. E Christopher Lloyd, como o amalucado Doc Brown entrega um dos trabalhos mais populares de sua carreira no cinema, iniciada com o dramático "Um estranho no ninho".

Tudo em "De volta para o futuro" colabora para o clima exato de Sessão da Tarde com pipoca e guaraná pretendido pelo diretor Zemeckis e pelo produtor Spielberg. As aventuras de Marty e Lloyd rendeu duas continuações, nenhuma tão boa quanto a primeira, ainda que longe de serem ruins. É uma diversão inofensiva que resiste bravamente ao tempo, mantendo-se tão deliciosa hoje quanto há 25 anos.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...