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terça-feira

JFK: A HISTÓRIA NÃO CONTADA

JFK: A HISTÓRIA NÃO CONTADA (Parkland, 2013, The American Film Company, 93min) Direção: Peter Landesman. Roteiro: Peter Landesman, livro de Vincent Bugliosi. Fotografia: Barry Ackroyd. Montagem: Markus Czyzewski, Leo Trombetta. Música: James Newton Howard. Figurino: Kari Perkins. Direção de arte/cenários: Bruce Curtis/Rodney Becker. Produção executiva: Tobin Armbrust, Guy East, Brian Falk, Joe Ricketts, Ginger Sledge. Produção: Gary Goetzman, Tom Hanks, Matt Jackson, Bill Paxton, Nigel Sinclair. Elenco: Marcia Gay Harden, Zac Efron, Paul Giamatti, Ron Livingston, James Badge Dale, Billy Bob Thornton, Jacki Weaver, Gil Bellows, Tom Welling, Mark Duplass, Colin Hanks, Jackie Earle Haley, Rory Cochrane. Estreia: 01/9/13 (Festival de Veneza)

Em 22 de novembro de 1963, a cidade de Dallas, Texas, foi cenário do mais traumático e devastador espetáculo que os EUA testemunhou até o atentado ao World Trade Center, quase quarenta anos mais tarde: o assassinato do então presidente John Fitzgerald Kennedy não apenas mostrou aos americanos a fragilidade de sua segurança como também abalou os alicerces da política mundial de forma indelével e ainda hoje ressoante. Em 1991, Oliver Stone abordou a morte de Kennedy no fenomenal "JFK: A pergunta que não quer calar", que, em tom semi-documental, expunha teorias da conspiração de modo tão contundente que era impossível não acabar a sessão totalmente convencido de que o presidente havia sido morto por culpa da CIA, do FBI, da KGB e da própria Casa Branca. O trabalho de Stone concorreu ao Oscar de filme, direção e roteiro - e ganhou as estatuetas de fotografia e edição - e passou à história como um dos maiores thrillers políticos dos anos 90. Com um olhar completamente oposto ao espetáculo grandioso estrelado por Kevin Costner, o discreto e pouco conhecido "JFK: A história não contada" volta sua atenção não para a investigação do crime, mas para suas consequências imediatas junto às pessoas que atenderam o presidente no Parkland Memorial Hospital, seus seguranças e um lado da questão sempre esquecida por todos: a família daquele que é considerado o autor dos tiros, Lee Harvey Oswald.

Baseado no livro "Four days in November: The assassination of John F. Kennedy", escrito pelo promotor Vincent Bugliosi - tornado famoso graças ao julgamento de Charles Manson e seus seguidores - o filme de estreia do roteirista Peter Landesman renega as teorias propostas por Oliver Stone em seu trabalho e abraça a história oficial do atirador solitário. Assim como Emilio Estevez fez em "Bobby" (2006) - que apresentava uma dúzia de personagens presentes ao Hotel onde Robert Kennedy foi assassinado, em 1968 - a obra de Landesman se debruça sobre pequenas histórias paralelas (mas todas reais) que envolveram o homicídio, mas pouco se interessa em invadir as entranhas das investigações e das incoerências que cercavam o caso. Seu interesse humano é maior que o político - o que torna o resultado final um tanto irregular, ainda que fascinante para quem se interessa pelo assunto. Produzido por Tom Hanks e Bill Pullman - que primeiro pretendiam adaptar o livro de Bugliosi como minissérie de televisão - e com um elenco de rostos conhecidos do grande público, o filme custou meros 10 milhões de dólares, mas naufragou nas bilheterias e foi ignorado nas cerimônias de premiação, mesmo tendo estreado no concorrido Festival de Veneza e lançado comercialmente no aniversário de 50 anos da tragédia.


A morte de John Kennedy - na frente de centenas de pessoas, em uma via pública e de forma a abalar toda uma nação - é o ponto de partida de "JKF: A história não contada". A partir do momento em que o presidente chega à Dallas, os personagens da trama vão sendo apresentados aos poucos: surge Abraham Zapruder (Paul Giamatti), o homem que, com sua filmadora, irá registrar um dos momentos mais estudados do século. Aparecem os jovens médicos Charles Carrico (Zac Efron) e Malcolm Perry (Colin Hanks), que irão tentar salvar a vida do presidente, ao lado da enfermeira-chefe Doris Nelson (Marcia Gay Harden). São iluminados pela tela alguns dos homens do Serviço Secreto, dispostos a descobrir qualquer detalhe sobre a tragédia, como Forrest Sorells (Billy Bob Thornton) e Roy Kellerman (Tom Welling), assim como agentes do FBI encarregados de cuidar da segurança do presidente, como James Hosty (Ron Livingston) e Gordon Shanklin (David Harbour) - o primeiro sentindo-se culpado pelo fato de não ter dado a devida atenção a um homem que estava investigando, chamado Lee Harvey Oswald. A família de Oswald, inclusive, também é lembrada pelo roteiro, nas figuras marcantes de seu atônito irmão Robert (James Badge Dale, ótimo) e sua interesseira mãe Marguerite (Jacki Weaver).

Enquanto vai contando a história desses personagens - e outros menos marcantes mas igualmente importantes no processo que tirou o corpo de Kennedy do hospital de Dallas mesmo contra a vontade do médico legista Earl Rose (Rory Cochrane) - o filme de Landesman vai mostrando os efeitos do fatídico evento na vida de cada um deles, mas sem aprofundar-se satisfatoriamente em nenhum dos casos. Mesmo que sua intenção seja exatamente um recorte específico na trajetória dos personagens, é impossível não ficar com a sensação de que algo ficou faltando. É como se o filme todo fosse uma introdução - forte, interessante, realista - de uma obra que, no fim, não existe. Bom diretor de atores, Landesman consegue extrair atuações convincentes até de Zac Efron e Tom Welling - mais conhecidos como galãs do que como intérpretes sérios - e explora com deleite o trabalho fascinante de medalhões como Paul Giamatti, Billy Bob Thornton e Jacki Weaver, a melhor em cena, com uma atuação monstruosa da igualmente monstruosa mãe de Lee Harvey Oswald - que passou o resto da vida insistindo que o filme era um agente do governo americano, o que, consequentemente, ratifica as ideias de Oliver Stone e vai contra as conclusões de Vincent Bugliosi. Em todo caso, "JFK: A história não contada" não se propõe a investigar um caso de assassinato, mas sim em como essa morte afetou diretamente alguns personagens à margem da história. Um bom filme, ainda que aquém de todo o seu potencial.

ELSA & FRED

ELSA & FRED (Elsa & Fred, 2014, Cuatro Plus Films/Defiant Pictures, 97min) Direção: Michael Radford. Roteiro: Michael Radford, Anna Pavignano. Fotografia: Michael McDonough. Montagem: Peter Boyle. Música: Luis Bacalov. Figurino: Gary Jones. Direção de arte/cenários: Stephanie Carroll/Alice Baker. Produção executiva: Aaron L. Gilbert, Jason Hewitt, Carsten H.W. Lorenz, Angel Losada Moreno, Gary Preisler, Osvaldo Ríos, Lane Sisung, Rob Weston. Produção: Matthias Ehrenberg, Ricardo Kleinbaum, José Levy, Edward Saxon, Nicolas Veinberg. Elenco: Shirley MacLaine, Christopher Plummer, Marcia Gay Harden, Scott Bakula, Chris Noth, George Segal, James Brolin. Estreia: 07/3/14 (Festival de Miami)

Que o público norte-americano tem ojeriza a filmes legendados não é novidade para ninguém. Portanto, nada mais natural e previsível que uma versão hollywoodiana de "Elsa & Fred", sucesso argentino dirigido por Marcos Carnevale. A única surpresa nesse caso foi a longa distância entre a estreia do filme original (2005) e o lançamento do remake, comandado por Michael Radford, conhecido do grande público pela direção do belo "O carteiro e o poeta", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar em 1996. Nessa quase década que separa as duas versões, Radford não emplacou nenhum grande filme e nem mesmo seu prestígio unido aos nomes premiados e conhecidos de Shirley MacLaine e Christopher Plummer ajudou sua comédia romântica para a terceira idade a decolar nas bilheterias. Praticamente ignorada pelo público, a história de amor entre dois septuagenários com visões opostas da vida estreou nos EUA no Festival de Miami, passou por diversas outras mostras internacionais (inclusive no Rio de Janeiro) e acabou melancolicamente estreando comercialmente quase no final do ano - nos cinemas e no serviço de streaming. Mesmo não sendo exatamente uma obra-prima merecia melhor sorte.

A trama, para quem não viu o filme original, é simples e direta: depois de ficar viúvo de uma mulher com quem não tinha mais nenhum tipo de vínculo afetivo, o veterano Fred Barcroft (Christopher Plummer, recém-oscarizado por "Toda forma de amor") é transferido por sua filha, Lydia (Marcia Gay Harden), para um novo e mais confortável prédio, onde se vê obrigado a contar com a ajuda de uma cuidadora, Laverne (Erika Alexander). Desanimado com a vida e passando os dias deitado na cama assistindo à televisão, Fred tenta ignorar a alegria de sua vizinha, Elsa Hayes (Shirley MacLaine, luminosa como sempre), uma mulher de eterno alto-astral, fã incondicional de "A doce vida", de Fellini e mentirosa quase compulsiva. Aos poucos, porém, a energia positiva de Elsa vai transformando a personalidade de Fred e os dois se descobrem apaixonados, para surpresa de ambas as famílias - inclusive o ex-marido de Elsa, Max (James Brolin).


Usando e abusando do carisma de seu par central de atores, Michael Radford nem precisa se esforçar muito para fazer de "Elsa & Fred" um programa agradável e divertido. Mesmo que a trama não fuja dos clichês - com direito a reviravoltas dramáticas e tudo - a forma com que o cineasta conduz a narrativa torna tudo muito simpático e envolvente. As tramas paralelas, que retratam os problemas dos filhos do casal - ela tem dois filhos, um dos quais é um artista plástico constantemente atolado de dívidas e ele tem um genro que o pressiona a ajudá-lo em um novo negócio - são pouco interessantes, mas a homenagem ao clássico de Fellini (com MacLaine vestida de Anita Ekberg em plena Fontana de Trevi) dá um gostinho a mais ao cinéfilo mais apaixonado. Além disso, é impossível não se deixar conquistar pela esfuziante Elsa de Shirley MacLaine, uma das atrizes mais completas de Hollywood, infelizmente pouco explorada nos últimos anos. Sempre que está em cena, MacLaine ilumina tudo a seu redor, e não é difícil entender porque até mesmo o sisudo Fred de Christopher Plummer se deixa seduzir por tanta energia.

Leve, divertido, emocionante e extremamente simpático, "Elsa & Fred" é uma sessão da tarde descompromissada, mas valorizada (muito) por seu casal central e pela sutileza da direção de Michael Radford, que desvia do dramalhão com muita propriedade e evita descaracterizar a obra original, tão elogiada e querida pelo público que, ao contrário dos americanos, não tem resistência a filmes estrangeiros.

quinta-feira

O SORRISO DE MONA LISA

O SORRISO DE MONA LISA (Mona Lisa smile, 2003, Columbia Pictures, 117min) Direção: Mike Newell. Roteiro: Lawrence Konner, Mark Rosenthal. Fotografia: Anastas Michos. Montagem: Mick Audsley. Música: Rachel Portman. Figurino: Michael Dennison. Direção de arte/cenários: Jane Musky/Susan Tyson, Chris Nickerson. Produção executiva: Joe Roth. Produção: Elaine Goldsmith-Thomas, Paul Schiff, Deborah Schindler. Elenco: Julia Roberts, Kirsten Dunst, Maggie Gyllenhaal, Julia Stiles, Ginnifer Goodwin, Juliet Stevenson, Marcia Gay Harden, Marian Seldes, John Slattery, Dominic West, Topher Grace. Estreia: 19/12/03

Em 1989 o australiano Peter Weir emocionou o mundo todo ao contar a história de um professor de Inglês que, desafiando a orotodoxia de uma escola para rapazes no final da década de 50, os inspirava a romper com o conformismo e buscar a felicidade através da realização de suas paixões. O filme era "Sociedade dos poetas mortos", que ganhou o Oscar de roteiro original e deu a Robin Williams um dos papéis mais populares de sua carreira e estabeleceu um padrão altíssimo a todas as produções subsequentes que retratavam a relação mestre/alunos. Quem chegou bem perto foi "Mr. Holland, adorável professor" (95), onde Richard Dreyfuss deu vida a um aspirante a compositor que acaba dedicando a vida toda a lecionar em uma escola pública, onde conquista alunos e colegas com sua paixão pela música. Quem tentou e acabou ficando no meio do caminho das boas intenções e objetivos comerciais foi Julia Roberts. A maior estrela de Hollywood juntou-se ao diretor Mike Newell, de "Quatro casamentos e um funeral" em "O sorriso de Mona Lisa", uma versão feminina de "Sociedade", agradável e fotogênica, mas com bem menos profundidade ou emoção.

A trama começa no início do ano letivo de 1953, quando a independente e carismática Katherine Wilson (Roberts, exercitando sem medo seu belo sorriso e os trejeitos que fizeram dela uma das maiores estrelas do cinema americano) chega à tradicional Wellesley, uma escola preparatória feminina das mais respeitadas da Nova Inglaterra para ensinar História da Arte. Tão logo as aulas tem início, porém, ela descobre que seus métodos de ensino - pouco ortodoxos em relação à rigidez dos programas da escola - fogem ao esperado pela direção e até mesmo pelas alunas, que frequentam as aulas apenas como uma espécie de temporada de espera antes de começarem suas vidas domésticas, como mulheres casadas e donas-de-casa dedicadas. De certa forma chocada com a visão de mundo tão estreita das jovens, ela começa uma espécie de queda de braço com a editora do jornal estudantil, Betty Warren (Kirsten Dunst), que está às vésperas do casamento e sente-se particularmente ofendida com as ideias progressistas de Katherine. Apoiada por outro professor, Bill Dunbar (Dominic West) - que se apaixona por ela - a mestra resolve dedicar seus esforços em convencer a ambiciosa porém conformista Joan Brandwyn (Julia Stiles) a não abdicar de seus sonhos de cursar Direito mesmo depois de casada.


Para que se goste de "O sorriso de Mona Lisa" é essencial que se deixe seduzir pelos talentos de Julia Roberts e não se tente comparar com o incomparável "Sociedade dos poetas mortos". O filme de Mike Newell, apesar das semelhanças em número suficiente para forçar paralelos com a obra de Weir, não parece buscar a densidade emocional deste, e baseia-se firmemente no carisma de Julia para cativar a audiência. Isso não implica, no entanto, que o roteiro, de fortes cores feministas, não dê espaço para que seus personagens coadjuvantes brilhem: enquanto narra as batalhas de sua protagonista para encontrar espaço em um mundo cercado de regras e mandamentos arcaicos, a trama também acompanha os dramas de algumas das alunas de Katherine, cada uma buscando a felicidade a seu modo. É assim que, além da reprimida e cruel Betty Warren, surgem em cena a liberal Giselle Levy (Maggie Gyllenhaal) - que tem um romance com o professor que depois se envolve com Katherine -, a sonhadora Joan e a romântica Connie Baker (Ginnifer Goodwin), que, desprovida dos encantos físicos das colegas, procura viver uma grande história de amor. Além disso, o filme também dá conta de apresentar ao público ao menos duas outras professoras com histórias dignas de nota: a solteirona Nancy Abbey (Marcia Gay Harden), que não supera a perda do noivo na II Guerra, e Amanda Armstrong (Juliet Stevenson), que vive das lembranças de seu relacionamento com outra professora, já falecida.

Ao espalhar seu foco entre tantas personagens, o roteiro de "O sorriso de Mona Lisa" acaba por não aprofundar-se em nenhuma das tramas que estabelece, apesar de dar à Katherine a primazia das atenções. Sua paixão pelo magistério, pela arte e pela possibilidade de mudar a vida de suas alunas empresta ao filme de Newell - cuja direção sem personalidade depõe mais contra a produção do que sua tentativa em abraçar várias histórias - algumas cenas bastante interessantes, que discute os critérios de julgamento de obras artísticas, os movimentos modernistas do feminismo e até as responsabilidades da educação formal em relação à comunidade. São temas intrigantes, abordados com leveza e simpatia, de acordo com as pretensões do filme. Não é uma obra-prima nem tampouco é uma produção inesquecível. Mas é uma boa sessão da tarde descompromissada.

CLUBE DAS DESQUITADAS

CLUBE DAS DESQUITADAS (The first wives club, 1996, Paramount Pictures, 103min) Direção: Hugh Wilson. Roteiro: Robert Harling, romance de Olivia Goldsmith. Fotografia: Donald Thorin. Montagem: John Bloom. Música: Marc Shaiman. Figurino: Theoni V. Aldredge. Direção de arte/cenários: Peter Larkin/Leslie E. Rollins. Produção executiva: Adam Schroeder, Erza Swerdlow. Produção: Scott Rudin. Elenco: Goldie Hawn, Bette Midler, Diane Keaton, Maggie Smith, Sarah Jessica Parker, Elizabeth Berkeley, Victor Garber, Dan Hedaya, Stockard Channing, Stephen Collins, Marcia Gay Harden, Eileen Eckart, Philip Bosco, Jennifer Dundas. Estreia: 20/9/96

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original Comédia/Musical

Tudo já começa nos créditos de abertura - que relembram as clássicas comédias que fizeram a glória de Doris Day - e na sequência inicial, que mostra a despedida de quatro inseparáveis amigas quando seus dias de colegial chegam ao fim, nos efervescentes anos 60. Esses dois momentos são pistas valiosas do que virá pela frente em "Clube das desquitadas", uma divertida comédia feminista que troca a ingenuidade matreira da época do flower power pelo cinismo materialista da década de 90. Inesperado sucesso de bilheteria em um período onde apenas produções de apelo masculino lotavam as salas de exibição, o filme de Hugh Wilson - diretor sem nenhuma obra marcante no currículo - soou como um oásis frente à destruição em massa de filmes como "Independence day" e "Twister" e mostrou que, ao contrário do que esperava a própria Paramount Pictures, ainda havia espaço na indústria americana para filmes menores e estrelado por outros nomes que não Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger.

A trama começa quando uma das quatro amigas da primeira cena, a milionária Cynthia Swann Griffin (participação especial de Stockard Channing), comete suicídio ao ler a notícia do casamento de seu ex-marido com uma garota muitos anos mais jovem. Em seu funeral, as amigas remanescentes - que não tiveram mais contato depois da formatura - se reencontram e, tristes e constrangidas com o afastamento mútuo, resolvem reafirmar sua ligação. É aí que descobrem que estão passando, todas elas, pelo mesmo problema de sua amiga recém-falecida. A atriz Elise Elliot (Goldie Hawn) está passando por uma crise na carreira por causa da idade e, além de ter sido largada pelo marido, o produtor Bill Atchinson (Victor Garber), está correndo o sério risco de ser obrigada a pagar-lhe uma pensão e dividir com ele tudo que conquistou. A dona-de-casa Brenda Cushman (Bette Midler) foi trocada pela fútil Shelly (Sarah Jessica Parker) e seu ex-marido, Morton (Dan Hedaya) não parece inclinado a compartilhar com ela tudo que eles construíram juntos. E Annie Paradis (Diane Keaton) acaba de descobrir que o marido por quem ainda é apaixonada, Aaron (Stephen Collins), está de caso com sua própria terapeuta, Leslie (Marcia Gay Harden). Frustradas e desiludidas, as três resolvem se unir para retomar o que lhes é de direito, se utilizando de todas as técnicas possíveis e imagináveis para isso.


Mais do que os mirabolantes planos bolados pelas três protagonistas para atingirem seus objetivos maquiavélicos, o mais engraçado no roteiro, baseado em um romance de Olivia Goldsmith são as inúmeras referências à cultura popular contemporânea americana, em especial quando o assunto é a carreira cinematográfica de Elise Elliot, em um papel feito sob medida para a ótima Goldie Hawn - e que, por ironia, foi oferecido primeiramente à Jessica Lange. Na pele da vaidosa atriz vencedora do Oscar e do Golden Globe, Hawn (ela mesma já premiada com as duas estatuetas) dispara farpas para todos os lados, ironizando de forma inteligente a forma como a indústria de Hollywood trata as atrizes que já não servem mais aos ideais de juventude dos estúdios e produtores. A crítica à ditadura da beleza, inclusive, é um dos pontos altos do filme, que não perde nenhuma oportunidade de alfinetar a tendência masculina de trocar suas mulheres de 50 anos por alguém com a metade da idade: nesse ponto, aliás, reside a fraqueza maior da produção, que, a favor da risada constante, opta pelo maniqueísmo absoluto, transformando todos os personagens masculinos da história em completos idiotas.

Esse pequeno senão, porém, não consegue apagar o que "Clube das desquitadas" tem de melhor: a química perfeita entre suas três protagonistas. Cada uma dentro de seu estilo de humor - a sofisticação neurótica de Diane Keaton, o escracho visual de Bette Midler, o carisma insofismável de Goldie Hawn - as veteranas atrizes nem precisam fazer muito esforço para ganhar a simpatia e a cumplicidade da plateia, que embarca sorridente a seu lado para acompanhar sua divertida história de vingança - que acaba em uma antológica cena de dança ao som de "You don't own me", cantada na versão original por Leslie Gore, falecida há poucos dias. Pode não ser um filme que mudará a vida de alguém, mas faz rir, entretém e apresenta um trio de protagonistas de tirar o chapéu - que, apesar da promessa, nunca mais se reuniu nas telas. Para uma comédia despretensiosa, está mais do que bom.

segunda-feira

AJUSTE FINAL

AJUSTE FINAL (Miller's crossing, 1990, 20th Century Fox, 115min) Direção: Joel Coen. Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen. Fotografia: Barry Sonnenfeld. Montagem: Michael R. Miller. Música: Carter Burwell. Figurino: Richard Hornung. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Ben Barenholtz. Produção: Ethan Coen. Elenco: Gabriel Byrne, Marcia Gay Harden, Albert Finney, John Turturro, J.E. Freeman, Jon Polito. Estreia: 21/9/90

Durante o processo de escrita do roteiro de "Ajuste final", que viria após de sua auspiciosa estreia com "Gosto de sangue" (84) e da visita à comédia amalucada em "Arizona nunca mais" (87), os irmãos Coen - Joel, o diretor, e Ethan, o produtor - experimentaram uma situação insólita: em determinado ponto, a estória do gângster Tom Regan - regada a tiroteios, traições e a dose sempre presente de humor negro - chegava a um impasse aparentemente insolúvel. Cansados, confusos e com uma falta de ideias até então desconhecido, eles deram um tempo e escreveram um outro filme, justamente sobre um roteirista de Hollywood paralisado por um bloqueio criativo. O filme, "Barton Fink, delírios de Hollywood" (92), acabou saindo-se vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes e recebeu rasgados elogios da crítica. E "Ajuste final", apesar de ter sido praticamente ignorado pelas cerimônias de premiação, conseguiu, em seu resultado final, superar os problemas de falta de inspiração se tornando um espetacular filme de gângster, que mistura o estilo inconfundível dos cineastas com os elementos tradicionais de um dos gêneros mais queridos dos espectadores.

A primeira cena já remete ao mais clássico dos clássicos, "O poderoso chefão" (72), quando um gângster dos anos 30, Johnny Caspar (Jon Polito), pede permissão a outro, Leo (Albert Finney), para matar Bernie Bernbaum (John Turturro), um judeu falastrão e desonesto que anda atrapalhando seus negócios. A sequência, filmada com elegância, dá a partida para a complexa trama: testemunhado por seu lacônico conselheiro Tom Regan (um silencioso e eficiente Gabriel Byrne), Leo se recusa a apoiar Caspar, mas por motivos que nada tem a ver com o submundo do crime: Bernie é irmão da amante de Leo, a sedutora Verna (Marcia Gay Harden), uma mulher pouco confiável, já que, além de Leo, também frequenta a cama de Tom. Esse perigoso triângulo amoroso, incendiado pela presença nociva de Bernie e pelo tom de constante ameaça de Caspar e seu violento capanga, Eddie Dane (J.E. Freeman), vai sofrer constantes reviravoltas, já que confiança é um artigo raro dentro do submundo criminal dos anos 30.


Esplendidamente fotografado pelo futuro cineasta Barry Sonnenfeld, "Ajuste final" é um típico produto em que a aparência chama mais a atenção do que o conteúdo. A trama complexa - por vezes em demasia - é emoldurada por uma reconstituição de época caprichadíssima e uma técnica impressionante, característica que os cineastas levariam como constante em sua vitoriosa carreira. O roteiro (não é de surpreender que tenha confundido os próprios autores) ousa em sua originalidade, misturando sexo, poder e violência em um caldeirão de referências visuais e temáticas, mas acaba, em determinado momento, deixando o espectador perdido com tantos nomes e situações. Esse pequeno detalhe, porém, não basta para anular as inúmeras qualidades do filme, uma extraordinária realização que surpreende por ser recém o terceiro trabalho dos Coen. Sua inexperiência não os impede de alcançar níveis inacreditáveis de excelência, tanto pictoriamente quanto em termos de direção de atores.

Gabriel Byrne nunca esteve tão bem antes, construindo um Tom Regan discreto, cuja raiva vai se acumulando até o limite, em sequências arrepiantes. Albert Finney surpreende como o gângster Leo, que intercala momentos de ternura apaixonada com outros de raiva extrema, e Marcia Gay Harden jamais deixa sua Verna tornar-se previsível aos olhos da plateia. No entanto, é John Turturro, na pele do venal Bernie Bernbaum, quem rouba a cena: sempre que está diante do público, ele monopoliza a atenção, com seus olhos expressivos e seu trabalho milimetricamente detalhado (não foi à toa que ele foi escolhido pelos diretores para viver o protagonista de "Barton Fink", que lhe valeu o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes). Suas sequências - em especial o fantástico duelo com Byrne em uma floresta - são a alma do filme, a prova de que, por trás da intrincada história contada pelos Coen e por seu hipnotizante visual, existe gente que sabe falar de gente. Mesmo que seja uma gente tão distante - em todos os sentidos - do espectador comum.

quinta-feira

O NEVOEIRO

O NEVOEIRO (The mist, 2007, Dimension Films, 126min) Direção: Frank Darabont. Roteiro: Frank Darabont, romance de Stephen King. Fotografia: Ron Schmidt. Montagem: Hunter M. Via. Música: Mark Isham. Figurino: Giovanna Ottobre-Melton. Direção de arte/cenários: Gregory Melton/Raymond Pumilia. Produção executiva: Richard Saperstein, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Frank Darabont, Liz Glotzer. Elenco: Thomas Jane, Marcia Gay Harden, Andre Braugher, Laurie Holden, Toby Jones, William Sadler, Frances Sternhagen. Estreia: 21/11/07

De certa forma o cineasta Frank Darabont deve sua carreira ao escritor Stephen King. Seus dois primeiros filmes - "Um sonho de liberdade" e "À espera de um milagre" - foram adaptações da obra do mestre do suspense, e conquistaram, ambos, indicações ao Oscar de melhor filme, ao explorar de maneira sensível histórias que deixavam o terror de lado, concentrando-se em personagens humanas convivendo com situações extremas. Não é de se estranhar, portanto, que Darabont - antes de criar a bem-sucedida série de TV "The walking dead" - voltasse ao universo de King depois do fracasso de seu "Cine Majestic", estrelado por Jim Carrey e praticamente ignorado por crítica e público. Porém, para fugir um pouco do previsível, o diretor arriscou na escolha: optou pela novela "O nevoeiro", publicada em 1980, e pela primeira vez trabalha com uma trama que envolve muito mais a tensão do que o drama.

Não quer dizer que Darabont abandone seu estilo de preocupar-se mais com as personagens do que com efeitos visuais ou terror em estado puro: em "O nevoeiro" ele explora muito mais as reações das personagens diante do horror do que exatamente cenas sanguinolentas, criadas para aterrorizar o espectador. E, comprovando mais uma vez seu grande talento, a receita funciona muito bem. Dirigida com firmeza e com um elenco de ótimos atores - em detrimento de astros milionários - a nova obra do cineasta é tensa, emocionante e, melhor de tudo, ousada, com um final capaz de provocar as reações mais diversas na plateia.

Logicamente a trama de "O nevoeiro" se passa em uma pequena cidade do Maine, como toda história criada por Stephen King. É lá que, depois de uma forte tempestade, o artista plástico Dave Drayton (Thomas Jane em ótimo desempenho) resolve ir ao supermercado para comprar mantimentos, acompanhado do filho pequeno e do vizinho, o advogado Brent Norton (Andre Braugher), com quem já tinha tido desentendimentos jurídicos. Logo que chegam, porém, eles percebem que uma névoa bastante densa está se aproximando do local e, para pavor de todos os habitantes que estão no local, dentro dela existe algo capaz de matar violentamente. Sem saber do que se trata e impedidos de abandonar o supermercado - sob pena de morrerem - o grupo de pessoas (que inclui funcionários, militares, gente de idade avançada, crianças e uma fanática religiosa disposta a arrebanhar fiéis para sua igreja, diante da situação) é obrigado a chegar a um acordo de convivência - que fica mais difícil à medida em que a paranoia, o medo e o desespero vão aumentando.

Como se poderia esperar de uma história de King, o maniqueísmo é moeda corrente. Fica claro, desde o início do filme, quem são os mocinhos e quem são os vilões. Ao mesmo tempo em que isso enfraquece o aprofundamento psicológico das personagens (que acabam sendo unidimensionais), serve perfeitamente para estabelecer os times - que só raramente mudam de jogadores. É assim que Dave Drayton assume as rédeas de cara, batendo de frente com a radical Sra. Carmody (em atuação sensacional de Marcia Gay Harden) e com seu vizinho, que não acredita, a princípio, no perigo à espreita. Como herói da história, Drayton precisa ainda lidar com as inseguranças do filho pequeno e até ensaia um flerte com Amanda Dunfrey (Laurie Holden), uma nova moradora da cidade - afinal de contas, o que seria de um filme sem um toque de romance, não?

Apesar de jamais tentar ser mais do que entretenimento - mesmo com cenas de grande tensão - "O nevoeiro" conquista justamente por sua simplicidade temática. Não há o menor desejo de explicar as origens misteriosas da névoa (que é vagamente mencionada e mesmo assim superficialmente) nem existe intenções de agradar ao público com um final açucarado. E é justamente seu desfecho - cruel, amargo, surpreendente - que desperta as maiores polêmicas. Mantendo-se fiel ao epílogo de seus sonhos, Darabont é capaz de enfurecer aos menos abertos a surpresas, mas certamente sua escolha é que faz com que seu filme fique na mente do público por muito mais tempo do que produtos menos ousados.

sábado

NA NATUREZA SELVAGEM


NA NATUREZA SELVAGEM (Into the wild, 2007, Paramount Vantage, 148min) Direção: Sean Penn. Roteiro: Sean Penn, livro de Jon Krakauer. Fotografia: Eric Gautier. Montagem: Jay Cassidy. Música: Michael Brook, Kaki King, Eddie Vedder. Figurino: Mary Claire Hannan. Direção de arte/cenários: Derek Hill/Danielle Berman, Christopher Nelly. Produção executiva: David Blocker, Frank Hildebrand, John J. Kelly. Produção: Art Linson, Sean Penn, Bill Pohlad. Elenco: Emile Hirsch, William Hurt, Marcia Gay Harden, Jena Malone, Hal Holbrook, Vince Vaughn, Catherine Keener, Kristen Stewart. Estreia: 01/9/07 (Festival de Telluride)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Hal Holbrook), Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção ("Guaranteed")

Que Sean Penn é um ator superlativo qualquer fã de cinema sabe. Mas que por detrás da persona agressiva com que ficou conhecido nos anos 80 - quando era casado com Madonna e tinha por hobby espancar paparazzi - existe um cineasta sensível e talentoso pouca gente sabia até o lançamento de "Na natureza selvagem", adaptação do livro de Jon Krakauer. Tudo bem que ele já tinha três filmes no currículo, mas pouca gente notou "Unidos pelo sangue" (91), "Acerto final" (95) e "A promessa" (01), por mais qualidades que eles tivessem. Mas foi somente com a história triste/pungente/libertadora de Christopher McCandless, jovem que abandona uma vida abastada para buscar um contato com a liberdade que só mesmo a natureza poderia lhe oferecer é que Penn carimbou de vez seu passaporte rumo ao panteão dos grandes cineastas.

Depois de um flerte de mais de uma década com a história de McCandless, Penn finalmente conseguiu o apoio da família do rapaz para realizar um dos filmes mais emocionantes e pungentes a chegar às telas dos cinemas no século XXI. Versando sobre liberdade pessoal, o amor à natureza e a importância das relações interpessoais, "Na natureza selvagem" é um espetáculo de delicadeza, inteligência e sensibilidade, valorizado por um roteiro maduro, um elenco excepcional - que consegue arrancar atuações convincentes até mesmo de Kirsten Stewart e Vince Vaughn - e uma trilha sonora que, mais do que comentar a ação, é uma personagem importante e onipresente.


Vivido por um sensacional Emile Hirsch - que ficou com o papel felizmente recusado por Leonardo DiCaprio - o jovem Christopher McCandless salta das páginas do livro de Krakauer para ganhar uma dimensão de herói moderno, um homem capaz de correr atrás de uma vida que fuja de tudo que ele sempre desprezou em relação aos pais (William Hurt e Marcia Gay Harden) e à sociedade em geral. Livrando-se dos cartões de crédito, do nome verdadeiro (e assumindo o pseudônimo de Alexander Supertramp) e das amarras de qualquer tipo de relacionamento (inclusive com a irmã com quem se dá bem, interpretada por Jena Malone), ele parte em busca da realização pessoal junto à natureza. Logicamente, sem preparo algum para tal aventura, ele passa por situações nada convencionais e bastante arriscadas, somente para descobrir, surpreso, que são as pessoas - e o carinho que surge entre elas - que dá sentido à vida. "A felicidade só é real quando compartilhada" é o que ele aprende, talvez tarde demais.

Pontuado por uma belíssima trilha sonora, composta por canções deslumbrantes de Eddie Vedder (da banda Pearl Jam) que ilustram com extraordinária perfeição as cenas captadas pelo editor de fotografia Eric Gautier e editadas com maestria por Jay Cassidy, "Na natureza selvagem" emociona por proporcionar ao espectador uma viagem para dentro de seus próprios desejos de fuga de uma realidade massacrante e muitas vezes estéril. Alexander Supertramp vive, na tela, tudo que o público sonha em realizar mas tem medo (ou acomodação em demasia). As lágrimas que brotam ao final da projeção - e elas surgem, com toda certeza - limpam a alma, espelham vontades e, mais do que tudo, são a catarse mais absoluta de que o bom cinema é capaz.

"Na natureza selvagem" é uma obra-prima. Lindo, delicado, emocionante, inesquecível. E que atire a primeira pedra quem não se arrepiar com a fantástica atuação do veterano Hal Holbrook como Ron Franz, o aposentado que se oferece para adotar o protagonista em uma cena devastadora. Para ver, rever, trever e chorar sempre.

sexta-feira

SOBRE MENINOS E LOBOS

SOBRE MENINOS E LOBOS (Mystic River, 2003, Warner Bros, 138min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Brian Elgeland, romance de Dennis Lehane. Fotografia: Tom Stern. Montagem: Joel Cox. Música: Clint Eastwood. Figurino: Roger Furse (Deborah Hopper). Direção de arte/cenários: Henry Bumstead/Richard C. Goddard. Produção executiva: Bruce Berman. Produção: Clint Eastwood, Judy G. Hoyt, Robert Lorenz. Elenco: Sean Penn, Kevin Bacon, Tim Robbins, Laurence Fishburne, Laura Linney, Marcia Gay Harden, Eli Wallach, Tom Guiry, Emmy Rossum, Spencer Treat Clark. Estreia: 23/5/03 (Festival de Cannes)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Clint Eastwood), Ator (Sean Penn), Ator Coadjuvante (Tim Robbins), Atriz Coadjuvante (Marcia Gay Harden), Roteiro Adaptado
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Sean Penn), Ator Coadjuvante (Tim Robbins)
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator/Drama (Sean Penn), Ator Coadjuvante (Tim Robbins)


Às vezes Clint Eastwood mira, mira e erra feio quando resolve dirigir adaptações literárias para as telas de cinema. Foi assim com "Poder absoluto", baseado em David Baldacci e "Meia-noite no jardim do bem e do mal", que nem Kevin Spacey, John Cusack e Jude Law conseguiram salvar. No entanto, quando acerta, o veterano ator e diretor se dá muitíssimo bem. Foi assim com o belo "As pontes de Madison", inspirado no romance de Robert James Waller. E é assim também com "Sobre meninos e lobos", uma história forte e poderosa criada pelo escritor Dennis Lehane.

Ao contrário do que muitas vezes acontece em adaptações para o cinema, onde o clima e os detalhes do livro muitas vezes são sacrificados a favor de ritmo e convenções comerciais, o filme de Eastwood é bastante fiel ao estilo seco de Lehane, não se importando nem mesmo com o possível pessimismo do final. Provavelmente isso se deva bastante ao roteiro de Brian Helgeland, que já havia assumido a hercúlea tarefa de transformar as mais de 500 páginas de “Los Angeles, Cidade Proibida”, de James Ellroy em um palatável e brilhante filme de duas horas, em 1997 (pelo qual ganhou um merecido Oscar). Aqui, Helgeland teve menos trabalho, uma vez que a prosa de Lehane é seca, direta e mesmo que fuja em vários momentos da tradição do cinema policial – a construção psicológica das personagens é muito mais rica do que o comum – se presta facilmente a uma adaptação menos complexa e bem mais fiel do que normalmente se espera nesses dias em que as páginas de um livro são apenas a idéia para filmes completamente diferentes. Quem leu o livro pode esperar uma adaptação quase literal, o que, levando-se em consideração a trama formidável criada por Lehane, é uma bênção.

 

O filme começa quando três adolescentes são abordados por dois homens que se apresentam como policiais. Um dos meninos é levado por eles e é submetido por vários dias a espancamentos e abusos sexuais. Logicamente a amizade dos três rapazes sofre um abalo e eles acabam por distanciar-se. Quase trinta anos depois, no entanto, eles são obrigados a se reencontrar quando a filha adolescente de um deles, Jimmy Markum (um espetacular Sean Penn) é violentamente assassinada. Markum, que deixou uma vida de crimes pra trás para virar um pai de família, entra em desespero e deseja vingar a morte da filha. O detetive encarregado do caso é  Sean Devine (Kevin Bacon), seu amigo de infância cuja esposa o abandonou em uma crise de depressão pós-parto, e investigações feitas pelas vizinhanças do crime acabam levando tanto a polícia quanto Markum e seus violentos companheiros de farra ao nome de Dave Boyle (Tim Robbins), que superou o trauma que lhe marcou a infância casando com Celeste (Márcia Gay Harden), a prima da segunda esposa de Markum, Annabeth (Laura Linney). Julgando que Boyle é o assassino, resta a Sean impedir que Markum cometa um ato de vingança com as próprias mãos.
        
O grande diferencial de “Sobre meninos e lobos” é sem dúvida o teor psicológico de suas personagens. Ao invés de dedicar-se somente à investigação do asssassinato da jovem Katie (Emmy Rossum) – cujo desfecho chocante só confirma o alto nível de verossimilhança da trama – o roteiro de Helgeland trata de temas como amizade, confiança, traumas de infância e destino com uma precisão cirúrgica. Não há cenas desnecessárias nem personagens descartáveis em suas mais de duas horas de duração. Cada peça no jogo proposto por Eastwood tem sua devida importância, nem que ela seja revelada apenas em suas dramáticas cenas finais, cujo peso conta com a ajuda da edição eficaz de Joel Cox e da atuação de seus (grandes) atores.
        
Apesar de Laura Linney estar mal-aproveitada (culpa do papel pequeno) e Marcia Gay Harden exagerar um pouco na performance como a catalisadora da tragédia final (mesmo tendo sendo indicada ao Oscar de coadjuvante), “Sobre meninos e lobos” é sobretudo um filme de personagens fortes, defendido por atores de talento inquestionável. Kevin Bacon foi injustamente deixado de lado nas premiações, mas tanto Tim Robbins quanto Sean Penn levaram merecidos Oscar por seus desempenhos. O embate final entre os dois, quando Markum confronta Boyle sobre a morte de sua filha é dolorosamente real e cruel, digno de figurar entre as cenas antológicas da carreira de ambos.
        
Um poderoso estudo sobre o poder do destino e das conseqüências de atos aparentemente insignificantes, “Sobre meninos e lobos” é um dos melhores filmes de Clint Eastwood e um dos policiais mais inteligentes e sérios já realizados. É triste e é pesado, mas é um inesquecível trabalho de um grande diretor cercado por grandes atores e trabalhando sobre um roteiro espetacular.

segunda-feira

ENCONTRO MARCADO

ENCONTRO MARCADO (Meet Joe Black, 1998, Universal Pictures, 178min) Direção: Martin Brest. Roteiro: Ron Osborn, Jeff Reno, Kevin Wade, Bo Goldman. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Joe Hutsching, Michael Tronick. Música: Thomas Newman. Figurino: Aude Bronson-Howard, David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Leslie Bloom. Produção executiva: Ronald L. Schwary. Produção: Martin Brest. Elenco: Brad Pitt, Anthony Hopkins, Claire Forlani, Marcia Gay Harden, Jake Weber. Estreia: 13/11/98

Alguém deveria matricular Martin Brest em algum curso que ensine a ser conciso. Em "Perfume de mulher", seu filme mais famoso - e que concorreu ao Oscar de melhor filme, além de ter premiado Al Pacino com a estatueta - ele estendeu a história central da relação entre seu protagonista cego com um jovem estudante ao máximo, acrescentando ao filme uma desnecessária trama paralela que só se justifica por sua vontade de dar ao veterano ator mais um momento de brilho. Em "Encontro marcado", seu filme seguinte, ele novamente comete o mesmo erro de estender-se em demasia, dando importância exagerada a cenas que poderiam facilmente ter sido limadas na edição. Ao contrário de "Perfume", porém, nessa refilmagem livre de um clássico dos anos 40 as coisas não funcionaram tão bem. Nem em termos críticos - foi ignorado nas cerimônias de premiação - nem tampouco perante o público: custou quase 100 milhões de dólares e rendeu menos da metade, apesar do apelo do nome de Brad Pitt nos cartazes.

É fácil entender os motivos que levaram "Encontro marcado" a bombar nas bilheterias. É sabido que o público médio americano não é chegado a filmes com duração excessiva - e quase três horas de duração sem que haja necessidade para isso testa a paciência de qualquer um - e além do mais, desta vez Brest realmente errou a mão. Apesar da presença sempre carismática de Pitt e Anthony Hopkins, a refilmagem de "Uma sombra que passa" (estrelado por Fredric March em 1934) é arrastada, pouco emocionante e o que é ainda pior: não explora nem a metade do talento de seus atores principais (que voltam a contracenar depois do sucesso de "Lendas da paixão"). Tudo bem, é visualmente lindo, mas nem mesmo a beleza de Pitt e de Claire Forlani consegue evitar que a audiência boceje a cada vez que a história central se desvia para a desnecessária subtrama envolvendo os negócios de William Parrish (o magnata vivido por Hopkins no piloto automático).


William Parrish é um multimilionário que, às vésperas de completar 65 anos, recebe a visita da morte. Na pele de um jovem galante e sedutor - que se apresenta como Joe Black - a morte deseja levá-lo, mas adia o desfecho de sua missão quando se apaixona pela filha caçula do empresário, a bela Susan (Claire Forlani). Enquanto o dia da morte de Parrish se aproxima, o romance entre Joe e Susan assume ares de amor impossível e, antes de ir embora, Joe ajuda o milionário a perceber os reais interesses de seu braço-direito Drew (Jake Weber), que quer casar-se com Susan para assumir o controle de suas empresas de comunicação (a tal história paralela que não precisava estar no roteiro).

"Encontro marcado" tem uma direção de arte esplendorosa, que retrata com exatidão todo o glamour e o luxo que cerca os Parrish e uma fotografia deslumbrante de Emmanuel Lubezki (em especial em sua sequência final, de tirar o fôlego). A trilha sonora imponente de Thomas Newman dá o clima romântico necessário às cenas entre Joe e Susan - que, justiça seja feita, formam um lindo casal. E a trama central é interessante e adequada a esses tempos "espiritualizados" (além de alguns diálogos realmente bem escritos). Mas quando o filme acaba - aparentemente muito tempo depois de ter começado - a impressão que fica é que poderia ter sido muito mais bem-sucedido. Agrada aos mais românticos, mas perde a oportunidade de ser um belíssimo e inesquecível drama romântico.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...