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sábado

O LOBISOMEM

O LOBISOMEM (The wolf man, 1941, Universal Pictures, 70min) Direção: George Waggner. Roteiro: Curt Siomak. Fotografia: Joseph A. Valentine. Montagem: Ted Kent. Figurino: Vera West. Direção de arte/cenários: Jack Otterson/R.A. Gausman. Produção: George Waggner. Elenco: Lon Chaney Jr., Claude Rains, Bela Lugosi, Warren William, Ralph Bellamy, Patric Knowles, Evelyn Ankers, Maria Ouspenskaya. Estreia: 09/12/41


Em 2010, o cineasta americano Joe Johnston – cujos títulos mais impressionantes do currículo eram as comédias infanto-juvenis “Querida, encolhi as crianças”, “Jumanji” e “Jurassic Park 3” – aceitou o desafio proposto pela Universal e resgatou do limbo cinematográfico um dos personagens mais conhecidos tanto do estúdio quanto do imaginário popular. Baseado com bastante fidelidade no roteiro original escrito por Curt Siodmak na década de 40, “O lobisomem” do século XXI fartou-se de efeitos especiais da mais alta categoria e um trabalho de maquiagem excepcional, premiado merecidamente com um Oscar. Com um elenco de primeira – Benicio Del Toro, Anthony Hopkins e Emily Blunt – o filme não chegou a ser o sucesso estrondoso, mas serviu ao menos para relembrar ao público o prestígio do personagem-título, um dos monstros mais bem-sucedidos do estúdio na década de 40. Realizado com um orçamento modesto, “O lobisomem” nem tomou conhecimento do ataque japonês a Pearl Harbor – um temor do estúdio, que no fim comprovou-se infundado – e tornou-se uma das maiores bilheterias de 1941.

Primeiramente pensado como mais um veículo para Boris Karloff, um dos astros do estúdio graças ao êxito de “Frankenstein”, “O lobisomem” acabou vendo seu papel central indo parar nas mãos de Lon Chaney Jr., cujo pai havia sido um ídolo dos filmes de terror graças a títulos como “O fantasma da Ópera” (31). Assumindo sem medo um lugar ao lado de nomes icônicos do gênero, como Karloff e Bela Lugosi – que aparece no filme em papel coadjuvante mesmo tendo assumido publicamente seu desejo em interpretar o protagonista – Chaney Jr. mostrou-se um talento à altura, suportando sem reclamar as seis horas necessárias para aplicar a maquiagem de seu alter-ego lupino e outras três para retirá-la. Além do mais, entrou de cabeça no método da Universal, capaz de realizar filmagens em pouco tempo e lançar seus filmes em um prazo insano – só para exemplificar, “O lobisomem” foi filmado entre 27 de outubro e 25 de novembro de 1941...  e lançado menos de um mês depois!! Em uma época como a atual, em que o período de pós-produção de um filme é muitas vezes superior a seis meses, não deixa de ser admirável tamanha pressa – especialmente se for levado em consideração que trata-se de uma produção que dá muita importância a efeitos visuais.


Quem assistiu ao filme de Johnston sabe o que esperar também dessa versão, dirigida por George Waggner e que, exceto por algumas pequenas (mas cruciais) modificações nas interrelações entre alguns personagens, segue o mesmo argumento e roteiro. A história começa quando Lawrence Talbott (Lon Chaney Jr.) retorna à cidade natal, logo após a morte do irmão. Amante da astronomia e inteligente, ele encontra um local dominado por lendas e superstições, inflamadas por um grupo de ciganos liderados pela idosa Maleva (Maria Ouspenskaya). Logo depois de uma visita a tais curiosos moradores ao lado da bela Gwen Cunliffe (Evelyn Ankers), por quem está interessado, uma amiga da moça, Kelly, é violentamente atacada por um lobo. Para protegê-la, o rapaz enfrenta o animal com sua bengala e, após matá-lo, descobre que foi mordido por ele. A partir de então, passa a conviver com a certeza de que faz parte de uma maldição que o transformará em lobo em noites de lua cheia.

Criativo, o roteiro de Siodmark – que viu sua vida normal ser abalada com a chegada do nazismo e pessoas aparentemente pacíficas transformando-se em cruéis máquinas de matar – estabeleceu algumas das regras primordias em filmes de lobisomem, que atravessaram décadas e se transmutaram em mitos absolutos do personagem na sua trajetória cinematográfica. Foi nessa versão de “O lobisomem”, por exemplo, que surgiram leis como a contaminação através da mordida de lobos, a bala de prata como única forma de matar o monstro, a lua cheia e a utilização de pentagramas para identificar os contaminados (outra referência ao nazismo, ou seja, campos de concentração). Com a trama enxuta e bem condensada em pouco mais de uma hora de duração, Waggner se aproveita ao máximo do clima de suspense enfatizado pela neblina e pela ambientação barata mas eficientíssima, dos atores dedicados e principalmente da maquiagem de Jack P. Pierce, um dos maiores responsáveis pelo sucesso de que os filmes de monstro da Universal desfrutavam à época. Hoje talvez seja um filme um tanto ingênu e simples demais, mas é, sem dúvida, um entretenimento competente e parte de um movimento importantíssimo no cinema comercial americano.

sexta-feira

RELÍQUIA MACABRA

RELÍQUIA MACABRA (The maltese falcon, 1941, Warner Bros, 100min) Direção: John Huston. Roteiro: John Huston, romance de Dashiel Hammett. Fotografia: Arthur Edeson. Montagem: Thomas Richars. Música: Adolph Deutsch. Figurino: Orry-Kelly. Direção de arte: Robert Haas. Produção executiva: Hal B. Wallis. Elenco: Humphrey Bogart, Mary Astor, Peter Lorre, Gladys George, Lee Patrick, Sydney Greenstreet. Estreia: 03/10/41

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Sydney Greenstreet), Roteiro


Uma das mais frequentes críticas feitas às transposições de livros para o cinema é a falta de fidelidade ao material original, independente se tal material é um clássico absoluto ou o mais efêmero best-seller. Tal reclamação, no entanto, jamais poderá ser feito a respeito de “Relíquia macabra”, terceira adaptação do romance de Dashiell Hammet para as telas: apaixonado pela obra e por seu estilo seco e direto, o roteirista tornado diretor John Huston manteve, com fidelidade canina, a estrutura e os diálogos do livro original, um policial noir que não apenas estabeleceu os paradigmas do gênero como marcou a estreia de Huston como diretor e Humphrey Bogart como astro. Normalmente relegado a papéis de vilões ou gângsteres, Bogart tirou a sorte grande ao ser escalado para viver o detetive particular Sam Spade, criado por Hammett em 1930 e para o qual a Warner havia pensado seriamente em Edward G. Robinson. Cínico, quase amargo e insensível a ponto de não deixar que o amor atrapalhe qualquer um de seus negócios, Spade é uma espécie de pai de todos os detetives da ficção policial, nascido da experiência do próprio escritor na função. E ao lhe dar carne e osso, o ator – dois anos antes de assumir seu lado romântico em outro produto icônico do estúdio, “Casablanca”, de Michel Curtiz – forjou seu nome a ferro e fogo no ideário popular com um personagem que tornou-se, para o bem ou para o mal, a essência de sua carreira.

Suspenso pela Warner por ter se recusado a participar de “Três homens maus” (41), Bogart acabou sendo o escolhido pelo estúdio para viver o protagonista da nova versão do romance de Hammett – as duas primeiras, “O falcão maltês” (31) e “Satã encontrou uma dama” (43) não haviam sido exatamente sucessos comerciais nem tampouco haviam mudado a história do cinema. John Huston, porém, ainda não era o diretor do filme, cujo comando estava nas mãos de Jean Negulesco (que iria dirigir “Como agarrar um milionário”, com Marilyn Monroe e Lauren Bacall doze anos depois). Foi somente com a demissão de Negulesco que Huston, até então apenas roteirista, pegou sua chance com unhas e dentes: com um orçamento pequeno de 300 mil dólares e um elenco sem grandes astros, o cineasta de primeira viagem filmou o livro de Hammett em ordem cronológica e, aproveitando ao máximo do talento de cada membro da equipe, criou uma obra-prima que lhe colocou, de cara, no rol dos imortais da sétima arte.







Primeiro a fotografia em preto-e-branco de Arthur Edeson: fazendo uso exemplar do jogo de luz e sombra que se tornaria característica marcante do gênero nos anos 40, Edeson criou uma atmosfera envolvente de tensão e perigo, como se a cada esquina e atrás de cada porta houvesse a chance de uma violência inesperada e sádica – culminando com a sequência final, onde as sombras em forma de cela sugerem o destino de um dos vilões da trama. Depois, a trilha sonora de Adolph Deutsch, pouco intrusiva mas incisiva, comentando a ação sem jamais roubar a atenção para si mesma. E por fim, além da ambientação simples mas eficiente em sublinhar a temática da ambição desmedida e da traição, o elenco de encher os olhos. Se Bogart rouba a cena com seu imortal Sam Spade, os coadjuvantes não ficam atrás. Talvez Mary Astor não tenha exatamente o tipo físico de uma femme fatale – ela ficou com um papel para o qual foram consideradas Rita Hayworth, Ingrid Bergman e Olivia de Havilland - mas não deixa que isso atrapalhe sua composição da ambígua Brigid O’Shaughnessy, uma misteriosa mulher que adentra o escritório do protagonista para contratar seus serviços e o leva a uma espiral de morte e violência.

Tudo começa quando o sócio de Spade, Miles Archer (Jerome Cowan) é enviado pelo companheiro para vigiar o desconhecido Floyd Thursby, a pedido da própria Brigid. Quando ambos são mortos, cabe ao detetive buscar na misteriosa dama algumas respostas – principalmente porque a polícia já está no seu calcanhar. É então que entram no jogo novas peças, que levam a todos para um caminho completamente diferente. Um deles é o inglês Kasper Gutman (o ótimo Sidney Greenstreet, estreando no cinema aos 62 anos de idade e concorrendo ao Oscar de coadjuvante). O outro é o aparentemente delicado mas extremamente traiçoeiro Joel Cairo (Peter Lorre, o vampiro de Dusseldorf em pessoa). Ambos revelam que tudo gira em torno de um artefato histório, um falcão oriundo da ilha de Malta, incrustado de joias, que é o objeto do desejo de todos eles – e cuja posse os faz abdicar dos mais óbvios sentimentos humanos.

Uma fábula sobre amoralidade e ambição, “Relíquia macabra” é, também, um dos maiores filmes policiais da história por não ter medo em abraçar seus temas controversos ou criar personagens que fogem do padrão habitual do cinema comercial – em especial durante a vigência do famigerado Código Hays, que implicava com qualquer coisa que fugisse do convencional. Além disso, oferece um roteiro brilhante e repleto de cenas antológicas e diálogos inteligentes, que permite a seus atores demonstrarem um perfeito domínio de sua arte. Não é à toa que se mantém, mesmo com mais de sessenta anos, tão fresco quanto à época de seu lançamento.

quinta-feira

CIDADÃO KANE


CIDADÃO KANE (Citizen Kane, 1941, RKO Pictures, 119min ) Direção: Orson Welles. Roteiro: Orson Welles, Herman J. Mankiewicz. Fotografia: Gregg Toland. Montagem: Robert Wise. Música: Bernard Herrman. Figurino: Edward Stevenson. Direção de arte/cenários: Van Nest Polgase/Darrell Silvera. Produção: Orson Welles. Elenco: Orson Welles, Joseph Cotten, Dorothy Comingore, Agnes Moorehead, Ruth Warrick. Estreia: 01/5/41

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Orson Welles), Ator (Orson Welles), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor do Oscar de Roteiro Original

Perguntem a qualquer crítico de cinema quais são seus dez filmes preferidos e se existe uma obra que certamente estará na lista de todos é "Cidadão Kane". Lançado em 1941 sob uma saraivada de protestos do magnata das comunicações William Randolph Hearts, que via no protagonista uma cópia mal-disfarçada de sim mesmo (e com toda razão), o filme de estreia do então menino-prodígio Orson Welles foi um fracasso de bilheteria, para alívio de Hearts, mas, conforme o tempo foi passando, mais e mais estudiosos foram descobrindo suas inúmeras e inegáveis qualidades, que o levaram facilmente a encabeçar as listas de melhores filmes de todos os tempos dos anos 60 pra cá.

Quando foi contratado pela RKO Pictures para estrear como cineasta, Welles - com meros 24 anos à época das filmagens - já era um nome consagrado no teatro, como um criativo ator e diretor shakespereano e no rádio, onde sua transmissão de "A guerra dos mundos", de H.G. Wells causou pânico generalizado. Tido como um gênio, ele surpreendeu o mundo do cinema com uma liberdade artística que nem mesmo aos mais consagrados autores era permitida. Nada mais natural, portanto, que as expectativas em torno de seu primeiro filme fossem as mais altas possíveis. O fracasso financeiro de "Cidadão Kane", sendo assim, deu um banho de água fria em seus planos. Seu filme seguinte, "Soberba", lhe foi tomado das mãos na fase de edição e nunca mais Welles atingiu a unanimidade de seu primeiro trabalho. Polêmico e não exatamente uma pessoa fácil de se conviver, ele acabou por se deixar queimar pela vaidade, mas ninguém poderá dizer que não deixou sua marca indelével na história do cinema já em seu passo inicial na sétima arte.

Antes de começar "Cidadão Kane", Welles tinha a intenção de dirigir uma versão para as telas do clássico "Coração das trevas", de Joseph Conrad. A história do magnata das comunicações só foi sua terceira opção, mas assim que a ideia do roteirista Herman J. Mankiewicz (irmão do cineasta Joseph) lhe chegou às mãos, parecia-lhe que não havia papel melhor para seu debut. A história de Charles Foster Kane - um menino pobre que herda uma fortuna e cria um império jornalístico não exatamente ético mas incrivelmente popular - acabou despertando a curiosidade do então todo-poderoso Hearst, que viu na trajetória do personagem de Welles um espelho de sua própria. Foi o que bastou para que ele iniciasse uma guerra sem precedentes contra um único filme. Represálias, ameaças e chantagens foram algumas das armas utilizadas pelo magnata, o que não impediu o corajoso Welles de estrear seu filme - para logo em seguida, vê-lo fracassar nas bilheterias e ser alvo do desprezo de seus próprios colegas de cinema - como retrata de forma sublime o documentário "A batalha por Cidadão Kane", disponível como extra no DVD duplo lançado pela Warner. Foi preciso uma distância de duas décadas para que se tornasse um dos mais admirados e louvados produtos do cinema americano em toda a história.


Talvez o que mais tenha prejudicado "Cidadão Kane" em sua estreia - mais até do que a campanha difamatória e negativa da imprensa comandada por Hearst - tenha sido sua coragem em romper com os padrões dos filmes da época. Ousado e inteligente, Welles simplesmente contou a história de Kane da maneira mais surpreendente e aparentemente caótica possível. Ao apresentar seu protagonista sob diversos pontos de vista - utilizando para isso uma edição complexa e uma ordem cronológica aparentemente desconexa - o cineasta destrói as convenções até então em voga e convida o espectador a uma experiência inédita. Para isso contribui a fotografia excepcional de Gregg Tolland, a cereja do bolo: inovando praticamente de todas as formas, Tolland virou de cabeça pra baixo as regras da narrativa convencional, sendo a manifestação visual perfeita para o roteiro genial de Welles e Mankiewicz, que usa e abusa de flashbacks, cinejornais forjados e diálogos sobrepostos. À parte isso, ainda existe o talento do Welles ator, que encarna o protagonista da juventude à velhice, quando ele morre em sua mansão Xanadu, construída para sua amante - tal como Hearst fez na vida real.

É a morte de Kane que dá início ao filme. Na busca da imprensa pelo significado de sua última palavra - "Rosebud" - o filme se desenrola, com personagens fornecendo pistas sobre sua personalidade complicada, tal como peças de um quebra-cabeça que só vai ser completo na cena final, quando o sentido da vida do milionário finalmente fica claro ao público. É tudo tão admirável na maneira como Welles conta sua história que pouca gente percebe um erro quase grotesco: se Kane morre sozinho em seu quarto, quando diz sua palavra final, quem a ouve para iniciar a busca central do filme?

Se é o melhor filme de todos os tempos é questionável. Mas é inegável que "Cidadão Kane" foi essencial para que o cinema desse muitos passos adiante com seu formato narrativo e suas inovações até hoje assombrosas. Ainda bem que o poderio de Hearst não foi capaz de queimar os negativos como queria. Certamente o cinema seria bem mais pobre.

domingo

SUSPEITA



SUSPEITA (Suspicion, 1941, RKO Pictures, 99min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Alma Reville, Samson Raphaelson, Joan Harrison, baseado no romance "Before the fact", de Frances Iles. Fotografia: Harry Stradling. Montagem: William Hamilton. Música: Franz Waxman. Elenco: Cary Grant, Joan Fontaine, Nigel Bruce, Sir Cedrick Hardwicke. Estreia: 14/11/41

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme e Atriz (Joan Fontaine)
Oscar de Melhor Atriz (Joan Fontaine)


A tímida e delicada Lina MacLaidlaw (Joan Fontaine) é a filha única de um casal que já nem acredita mais em um casamento para ela. Em parte para provar aos pais que é capaz de arrumar alguém e em parte por paixão, ela sobe ao altar com o misterioso e charmoso Johnnie Aysgarth (Cary Grant), que nunca teve um emprego na vida e tem por hobby apostar em corridas de cavalos. Aos poucos, com sua ajuda, o bon-vivant Johnnie tenta mudar de vida, com um ambicioso projeto turístico que envolve seu melhor amigo, o simpático Beacky (Nigel Bruce). No entanto, quando Beacky morre assassinado, Lina começa a desconfiar que o interesse excessivo de seu marido por romances policiais pode na verdade não ser casual e, ao descobrir inúmeras mentiras contadas por ele, passa a ter certeza absoluta de que será sua próxima vítima.

Em 1940, Alfred Hitchcock havia lançado "Rebecca, a mulher inesquecível", que, além de sucesso financeiro levou pra casa o Oscar de melhor filme. Seu filme seguinte, este "Suspeita" utiliza a mesma atriz - a bela Joan Fontaine - para, mais uma vez, brincar com os nervos do espectador com o poder miraculoso da sugestão. Enquanto em "Rebecca" a protagonista tinha de conviver com a lembrança sempre presente da falecida mulher de seu marido, em "Suspeita" a personagem de Fontaine tem como companhia uma outra obsessão: a possibilidade de que seu amado e dedicado cônjuge pode, na verdade, ter a intenção de matá-la para ficar com seu dinheiro.

Joan Fontaine ganhou o Oscar de melhor atriz por seu desempenho em "Suspeita", onde leva mais longe o ar assustado que já vinha usando desde "Rebecca". O prêmio foi justo. É a jovem e apavorada Lina que conduz o espectador rumo às sombras negras de sua imaginação - ou não -, revelando aos poucos para si e para a audiência todas as nuances da personalidade de Johnnie. Afinal, ele é ou não um assassino em potencial?



Hitchcock brinca com a dúvida do princípio ao fim de seu filme. Certezas absolutas vão sendo descartadas cena a cena, e dúvidas aterradoras vão surgindo em cada fotograma - e como não se deslumbrar com a famosa cena em que Johnnie serve um copo de leite à eposa? O leite brilha mais do que o normal, graças a truques do diretor de fotografia Harry Stradling e o público fica na ponta da cadeira...

Mas se Joan Fontaine brilha como a esposa que luta pela vida e pela sanidade mental é Cary Grant quem rouba a cena. O charme do ator, sua personalidade sedutora e sua classe servem como uma luva às intenções do cineasta em lançar as sementes da dúvida na percepção de seu público. Estivesse um outro ator em cena a dubiedade não seria tão eficaz, mas Grant é tão perfeito em seu papel que, assim como Lina, é impossível não apaixonar-se por ele e, conforme a história avança, não duvidar de suas intenções.

"Suspeita" não é um dos filmes mais falados do mestre do suspense. Mas é inegável que precisa ser descoberto e louvado como um dos essenciais terrores psicológicos de sua obra.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...