CAFÉ SOCIETY (Café Society, 2016, Gravier Productions/Perdido Productions/FilmNation Entertainment, 96min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Suzy Benzinger. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Regina Graves, Nancy Haigh. Produção executiva: Ronald L. Chez, Adam B. Stern, Marc I. Stern. Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum, Edward Walson. Elenco: Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Steve Carrell, Corey Stoll, Blake Lively, Parker Posey, Sheryl Lee, Jeannie Berlin, Ken Stott. Estreia: 11/5/16 (Festival de Cannes)
Em sua longa carreira como cineasta, Woody Allen pode ter seus filmes divididos em três grupos: as obras-primas (onde se inserem "Noivo neurótico, noiva nervosa", "Manhattan", "Crimes e pecados", "A rosa púrpura do Cairo", "Hannah e suas irmãs", "Match point" e "Meia-noite em Paris"), os pouco inspirados (onde cabem "O escorpião de jade", "Para Roma, com amor" e "Magia ao luar") e os simpáticos mas pouco memoráveis (caso de "Misterioso assassinato em Manhattan", "Igual a tudo na vida" e "Scoop: o grande furo"). "Café Society", que abriu o Festival de Cannes 2016 faz parte do último grupo: é uma comédia dramática sofisticada e inteligente como se poderia esperar do diretor, mas lhe falta aquele lance de genialidade que destaca suas melhores obras de tudo que é produzido em Hollywood. Filme mais caro de sua carreira (o orçamento inicial de 18 milhões de dólares inchou até inacreditáveis - para seus padrões - 30 milhões ao final da produção), ele também marca o primeiro trabalho de Allen depois da morte de seu coprodutor executivo Jack Rollins - seu parceiro artístico há 40 anos - e sua primeira colaboração com o festejado diretor de fotografia Vittorio Storaro. Além disso, retoma um dos temas mais caros ao veterano realizador (os bastidores da indústria cinematográfica, ainda que apenas como pano de fundo) e é um de seus filmes mas simples em termos de narrativa, além de ser um de seus raros filmes com protagonistas mais jovens.
Ao contrário da maioria de seus trabalhos anteriores, em que os personagens principais são normalmente intelectuais de meia-idade atravessando crises existenciais enquanto exorcizam seus dilemas nas melhores paisagens de Nova York (ou, no caso de seus filmes mais recentes, pelas cidades mais belas da Europa), em "Café Society" grande parte da trama se passa na Los Angeles dos anos 1930 e acompanha um jovem de vinte e poucos anos em sua tentativa de assumir uma vida adulta diante do glamour oferecido por seu tio milionário e do caminho da contravenção que vislumbra ao lado do irmão mais velho. Retornando o recurso da narração em off que tanto funcionou em "A era do rádio" (87), Allen apresenta o público ao desajeitado e ingênuo Bobby Dorfman (Jesse Eisenberg em seu segundo filme com o cineasta), que deixa o Brooklyn de seus pais e chega à capital do cinema para encontrar seu tio, Phil Stern (Steve Carell), um agente de astros de Hollywood a quem mal conhece. Stern lhe emprega como seu assistente e logo Bobby se vê frequentando festas à beira da piscina e coquetéis frequentados por grandes produtores. Deslocado, ele se apaixona pela secretária do tio, Vonnie (Kristen Stewart), que não esconde dele o fato de ter um relacionamento com um homem casado. Algum tempo depois, já de volta à sua cidade natal, ele se torna sócio do irmão mais velho, Ben (Corey Stoll) - que tem sérios problemas com os gângsters do submundo - em uma boate, e se casa com a bela Veronica (Blake Lively). Seu amor por Vonnie, porém, não o deixa ser completamente realizado e feliz.
O maior problema de "Café Society" nem é sua trama tênue - muitos grandes filmes de Allen se sustentam em enredos aparentemente banais -, mas sim a forma como o cineasta parece não saber exatamente como conectar os dois atos de seu roteiro. A impressão que se tem é de que são duas ideias distintas unidas por uma linha frágil demais para justificar um longa-metragem, especialmente quando personagens cruciais da primeira metade praticamente desaparecem de cena: é o caso de Steve Carell, cujo Phil Stern parece nunca atingir todo o seu potencial mesmo quando se revela muito mais importante do que parecia em um primeiro olhar. O mesmo pode ser dito do ótimo Corey Stoll, que brilhou como Hemingway em "Meia-noite em Paris" (2011) e aqui se vê tentando dar destaque a um personagem que é mais citado do que mostrado, apesar de ser uma das bússolas morais (ou amorais) do protagonista. Não bastasse isso, Jesse Eisenberg parece mais deslocado que seu Bobby Dorfman - como muitas vezes acontece na filmografia de Woody Allen, o ator transmite a sensação de estar tentanto emular o estilo do diretor, com seu gestual desajeitado e modo de falar titubeante. Para surpresa de todos, quem se sai melhor é Kristen Stewart, que consegue romper o estigma "Crepúsculo" e entrega uma atuação sensível e convincente.
Visualmente atraente, com a fotografia deslumbrante de Vittorio Storaro enchendo os olhos do espectador e uma direção de arte caprichadíssima, "Café Society" se ressente de um roteiro mais coeso e de personagens mais empáticos do que aqueles que apresenta. Bobby Dorfman, com sua falta de traquejo social e uma interpretação quase preguiçosa de Jesse Eisenberg (repetindo tiques de seu Mark Zuckerberg, de "A rede social", filme que lhe rendeu uma indicação ao Oscar), não cativa a plateia e acaba abrindo espaço para personagens coadjuvantes muito mais interessantes, como sua irmã - cuja rixa com um vizinho acelera o destino da família - e a socialite vivida por Parker Posey, que infelizmente é quase totalmente posta de lado em detrimento da história principal. São pequenos defeitos estruturais, mas que comprometem o resultado final e fazem do filme um produto apenas regular, muito longe do brilhantismo dos melhores momentos da carreira de Woody Allen - mas também acima de seus maiores tropeços. Um entretenimento de classe, mas apenas isso.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade.
Mostrando postagens com marcador JESSE EISENBERG. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador JESSE EISENBERG. Mostrar todas as postagens
terça-feira
segunda-feira
BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA
BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA (Batman v Superman: The Dawn of Justice, 2016, Warner Bros, 151min) Direção: Zack Snyder. Roteiro: Chris Terrio, David S. Goyer, personagens criados por Bob Kane e Bill Finger (Batman), Jerry Siegel e Joe Shuster (Superman) e William Moulton Marston (Mulher Maravilha). Fotografia: Larry Fong. Montagem: David Brenner. Música: Junkie XL, Hans Zimmer. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Patrick Tatopoulos/Carolyn "Cal" Loucks. Produção executiva: Wesley Coller, David S. Goyer, Geoff Johns, Benjamin Melniker, Steven Mnuchin, Christopher Nolan, Emma Thomas, Michael E. Uslan. Produção: Charles Roven, Deborah Snyder. Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Laurence Fishburne, Jesse Eisenberg, Gal Gadot, Diane Lane, Kevin Costner, Holly Hunter, Jeremy Irons, Michael Shannon, Jeffrey Dean Morgan. Estreia: 20/3/16
Primeiro foi a polêmica em torno do nome de Ben Affleck para viver o Cavaleiro das Trevas, praticamente imortalizado por Christian Bale na trilogia dirigida por Christopher Nolan entre 2006 e 2012. Depois, as críticas generalizadas a "O Homem de Aço" (2013), que recomeçava a apresentar o Superman às novas gerações de cinéfilos - depois do inesquecível Christopher Reeve e do pouco memorável Brandon Routh. Por fim, havia a dúvida se Zack Snyder (cujo currículo incluía o sucesso "300", de 2008, e o fracasso "Sucker punch", de 2010) seria capaz de apagar a má impressão de seu primeiro filme estrelado pelo herói de Krypton - criticado principalmente pelo excesso de violência e efeitos visuais supérfluos. Com um orçamento generoso de aproximados 250 milhões de dólares, a volta do britânico Henry Cavill à pele de Clark Kent e uma trama que daria origem ao esperado filme sobre a Liga da Justiça (daí o subtítulo "Dawn of justice"), "Batman vs Superman: a origem da justiça" chegou aos cinemas cercado de expectativas e medos. Como era de se esperar, dividiu opiniões: puristas e fãs dos quadrinhos surgiram com listas intermináveis de reclamações; a imprensa não exatamente ficou entusiasmada, mas o público não deixou de correr às salas de exibição. Com uma renda mundial de quase 900 milhões de dólares, o filme de Snyder conseguiu o principal: deixou felizes os executivos da Warner, preparou terreno para um próximo capítulo ainda mais explosivo e, para alegria dos espectadores, apresentou em primeira mão sua arma mais poderosa e esperada, a Mulher Maravilha do século XXI, interpretada pela israelense Gal Gadot.
Protagonista de seu próprio filme de origem, que viria a ser lançado em 2017, a Mulher Maravilha é apenas uma pequena (mas crucial) peça no roteiro escrito por David S. Goyer e Chris Terrio (Oscar por "Argo") a partir de uma ideia surgida em 2001, quando o roteirista Andrew Kevin Walker (de "Seven: os sete crimes capitais") propôs um filme em que o Batman, enfurecido pela perda de sua noiva nas mãos do Coringa, parte em busca de vingança e se vê impedido pelo Superman. Diz-se que, na época, o script ficaria a cargo de Akiva Goldsman (Oscar por "Uma mente brilhante"), a direção seria do alemão Wolfgang Petersen e os protagonistas seriam George Clooney (voltando ao papel do Homem Morcego) e John Travolta. Felizmente a ideia acabou não vingando nos termos imaginados por Walker, e depois de mais de quinze anos no limbo, o que parecia meio absurdo começou a tomar forma. Com sérias mudanças, é verdade, mas com seu principal trunfo intacto: o encontro entre dois dos maiores super heróis dos quadrinhos (e do cinema) em uma produção caprichada, repleta de astros e, felizmente, bem melhor do que o público médio poderia esperar (apesar das ressalvas da crítica especializada e dos leitores mais radicais).
Começando dois anos depois dos eventos de "O Homem de Aço" - ou seja, após o show de destruição comandado pelo Superman em sua luta contra o General Zod (Michael Shannon) -, o filme de Snyder mostra uma população dividida entre acreditar nas boas intenções do misterioso alienígena de Krypton e temer por ainda mais tragédias na Terra. Mesmo defendido ferrenhamente pela jornalista Lois Lane (Amy Adams), o Superman é constantemente atacado pela mídia e pela congressista June Finch (Holly Hunter), que o intima a comparecer a uma sessão no Capitólio para defender-se diante da população. A explosão de uma bomba - plantada pelo milionário Lex Luthor (Jesse Eisenberg) - acaba por dar ainda mais credibilidade a quem o considera uma ameaça: acusado de ser o responsável pelo atentado, Superman abandona o planeta. Acreditando que tem o dever de proteger a humanidade dos poderes daquele que considera uma temeridade à população, Bruce Wayne assume a responsabilidade de, como Batman, destruí-lo sem compaixão. De certa forma manipulado por Luthor, ele bate de frente com Superman - mas não demora para que ambos, auxiliados pela corajosa Mulher Maravilha, se unam diante de um perigo ainda maior, representado por um monstro criado por Lex Luthor.
A princípio, parece que a trama de "Batman vs Superman" é um tanto forçada, criada mais pela necessidade de unir seus protagonistas do que exatamente contar uma história interessante ou plausível. No entanto, é surpreendente como as peças se encaixam, de forma a prender a atenção do público e construir uma base razoavelmente verossímil para o explosivo conflito final - esse sim, mais uma vez, exagerado e sem muita criatividade. Por incrível que pareça, Snyder se sai melhor quando estabelece o clima e as causas de todo o desfecho do que quando finalmente põe as mãos no clímax. Para isso, claro, ele conta com um elenco coadjuvante de nomes como Holly Hunter, Jeremy Irons e Laurence Fishburne, com o poder de fogo de seus personagens e com a produção caprichada - da fotografia de Larry Fong à trilha sonora, dividida entre Hans Zimmer e Junkie XL, tudo funciona muito bem, sem maiores percalços. Infelizmente nem tudo são flores, e a luta final - que finalmente coloca os heróis todos ao mesmo lado - é desnecessariamente longa, minando a força de um final que poderia ter sido ainda mais poderoso. Sem muito o que fazer em cena, Amy Adams e Diane Lane (como Martha, a mãe adotiva de Clark Kent), apenas enfeitam o filme com seu talento e beleza, e Jesse Eisenberg talvez esteja a um passo do overacting, mas o que era motivo de mais questionamentos antes da estreia acabou por ser um ponto positivo: emprestando prestígio a uma produção de objetivos claramente comerciais, o premiado Ben Affleck não compromete como Batman, mesmo estando à sombra de Christian Bale e assumindo as rédeas de um dos mais icônicos personagens da cultura popular mundial. Sua criticada escalação é, por fim, uma das maiores qualidades de um filme que, mesmo não sendo inesquecível ou artisticamente potente, serve muito bem como entretenimento. É só deixar o mau-humor de lado e embarcar na viagem!
Primeiro foi a polêmica em torno do nome de Ben Affleck para viver o Cavaleiro das Trevas, praticamente imortalizado por Christian Bale na trilogia dirigida por Christopher Nolan entre 2006 e 2012. Depois, as críticas generalizadas a "O Homem de Aço" (2013), que recomeçava a apresentar o Superman às novas gerações de cinéfilos - depois do inesquecível Christopher Reeve e do pouco memorável Brandon Routh. Por fim, havia a dúvida se Zack Snyder (cujo currículo incluía o sucesso "300", de 2008, e o fracasso "Sucker punch", de 2010) seria capaz de apagar a má impressão de seu primeiro filme estrelado pelo herói de Krypton - criticado principalmente pelo excesso de violência e efeitos visuais supérfluos. Com um orçamento generoso de aproximados 250 milhões de dólares, a volta do britânico Henry Cavill à pele de Clark Kent e uma trama que daria origem ao esperado filme sobre a Liga da Justiça (daí o subtítulo "Dawn of justice"), "Batman vs Superman: a origem da justiça" chegou aos cinemas cercado de expectativas e medos. Como era de se esperar, dividiu opiniões: puristas e fãs dos quadrinhos surgiram com listas intermináveis de reclamações; a imprensa não exatamente ficou entusiasmada, mas o público não deixou de correr às salas de exibição. Com uma renda mundial de quase 900 milhões de dólares, o filme de Snyder conseguiu o principal: deixou felizes os executivos da Warner, preparou terreno para um próximo capítulo ainda mais explosivo e, para alegria dos espectadores, apresentou em primeira mão sua arma mais poderosa e esperada, a Mulher Maravilha do século XXI, interpretada pela israelense Gal Gadot.
Protagonista de seu próprio filme de origem, que viria a ser lançado em 2017, a Mulher Maravilha é apenas uma pequena (mas crucial) peça no roteiro escrito por David S. Goyer e Chris Terrio (Oscar por "Argo") a partir de uma ideia surgida em 2001, quando o roteirista Andrew Kevin Walker (de "Seven: os sete crimes capitais") propôs um filme em que o Batman, enfurecido pela perda de sua noiva nas mãos do Coringa, parte em busca de vingança e se vê impedido pelo Superman. Diz-se que, na época, o script ficaria a cargo de Akiva Goldsman (Oscar por "Uma mente brilhante"), a direção seria do alemão Wolfgang Petersen e os protagonistas seriam George Clooney (voltando ao papel do Homem Morcego) e John Travolta. Felizmente a ideia acabou não vingando nos termos imaginados por Walker, e depois de mais de quinze anos no limbo, o que parecia meio absurdo começou a tomar forma. Com sérias mudanças, é verdade, mas com seu principal trunfo intacto: o encontro entre dois dos maiores super heróis dos quadrinhos (e do cinema) em uma produção caprichada, repleta de astros e, felizmente, bem melhor do que o público médio poderia esperar (apesar das ressalvas da crítica especializada e dos leitores mais radicais).
Começando dois anos depois dos eventos de "O Homem de Aço" - ou seja, após o show de destruição comandado pelo Superman em sua luta contra o General Zod (Michael Shannon) -, o filme de Snyder mostra uma população dividida entre acreditar nas boas intenções do misterioso alienígena de Krypton e temer por ainda mais tragédias na Terra. Mesmo defendido ferrenhamente pela jornalista Lois Lane (Amy Adams), o Superman é constantemente atacado pela mídia e pela congressista June Finch (Holly Hunter), que o intima a comparecer a uma sessão no Capitólio para defender-se diante da população. A explosão de uma bomba - plantada pelo milionário Lex Luthor (Jesse Eisenberg) - acaba por dar ainda mais credibilidade a quem o considera uma ameaça: acusado de ser o responsável pelo atentado, Superman abandona o planeta. Acreditando que tem o dever de proteger a humanidade dos poderes daquele que considera uma temeridade à população, Bruce Wayne assume a responsabilidade de, como Batman, destruí-lo sem compaixão. De certa forma manipulado por Luthor, ele bate de frente com Superman - mas não demora para que ambos, auxiliados pela corajosa Mulher Maravilha, se unam diante de um perigo ainda maior, representado por um monstro criado por Lex Luthor.
A princípio, parece que a trama de "Batman vs Superman" é um tanto forçada, criada mais pela necessidade de unir seus protagonistas do que exatamente contar uma história interessante ou plausível. No entanto, é surpreendente como as peças se encaixam, de forma a prender a atenção do público e construir uma base razoavelmente verossímil para o explosivo conflito final - esse sim, mais uma vez, exagerado e sem muita criatividade. Por incrível que pareça, Snyder se sai melhor quando estabelece o clima e as causas de todo o desfecho do que quando finalmente põe as mãos no clímax. Para isso, claro, ele conta com um elenco coadjuvante de nomes como Holly Hunter, Jeremy Irons e Laurence Fishburne, com o poder de fogo de seus personagens e com a produção caprichada - da fotografia de Larry Fong à trilha sonora, dividida entre Hans Zimmer e Junkie XL, tudo funciona muito bem, sem maiores percalços. Infelizmente nem tudo são flores, e a luta final - que finalmente coloca os heróis todos ao mesmo lado - é desnecessariamente longa, minando a força de um final que poderia ter sido ainda mais poderoso. Sem muito o que fazer em cena, Amy Adams e Diane Lane (como Martha, a mãe adotiva de Clark Kent), apenas enfeitam o filme com seu talento e beleza, e Jesse Eisenberg talvez esteja a um passo do overacting, mas o que era motivo de mais questionamentos antes da estreia acabou por ser um ponto positivo: emprestando prestígio a uma produção de objetivos claramente comerciais, o premiado Ben Affleck não compromete como Batman, mesmo estando à sombra de Christian Bale e assumindo as rédeas de um dos mais icônicos personagens da cultura popular mundial. Sua criticada escalação é, por fim, uma das maiores qualidades de um filme que, mesmo não sendo inesquecível ou artisticamente potente, serve muito bem como entretenimento. É só deixar o mau-humor de lado e embarcar na viagem!
quinta-feira
A REDE SOCIAL
A REDE SOCIAL (The social network, 2010, Columbia Pictures, 120min) Direção: David Fincher. Roteiro: Aaron Sorkin, livro "Bilionários por acaso", de Ben Mezrich. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: Kirk Baxter, Angus Wall. Música: Trent Reznor, Atticus Ross. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Victor J. Zolfo. Produção executiva: Kevin Spacey. Produção: Dana Brunetti, Ceán Chaffin, Michael De Luca, Scott Rudin. Elenco: Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Max Minghella, Armie Hammer, Joseph Mazzelo, Rooney Mara, Rashida Jones. Estreia: 24/9/10
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David Fincher), Ator (Jesse Eisenberg), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Mixagem de Som
Vencedor de 3 Oscar: Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (David Fincher), Roteiro, Trilha Sonora Original
Primeiro a questão fundamental: qual a relevância em se fazer um filme
sobre o criador do Facebook? Depois a questão estética: o quão chato
poderia ser um filme sobre um nerd rejeitado pela namorada que se
transforma em bilionário ao criar um site de relacionamentos? Pois então
vamos às respostas: com mais de 500 milhões de usuários, o Facebook é o
mais acessado site do mundo e no mundo globalizado em que vivemos,
negar-se a aceitar sua existência ou importância é fechar os olhos a uma
realidade evidente. E segundo: nas mãos de David Fincher, que já
dirigiu obras-primas como "Seven" e "Zodíaco", a história de Mark
Zuckerberg transformou-se em um empolgante thriller, que só não saiu-se como o grande vencedor do Oscar 2011 porque bateu de frente com o soporífero "O discurso do rei", bem mais palatável ao gosto dos tradicionais - e quase sempre aborrecidos - acadêmicos.
Baseado no livro de Ben Mezrich, o roteiro de Aaron Sorkin começa mostrando como, depois de uma briga com a namorada, e com a ajuda do melhor amigo Eduardo Saverin (Andrew Garfield, o novo Homem-aranha). o jovem estudante de Harvard Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) tem a ideia de criar um site classificando a beleza das alunas da universidade. Chamando a atenção pelo talento, ele é convidado por dois gêmeos, alunos mais graduados (vividos por Armie Hammer com efeitos visuais impecáveis) para criar um website para a universidade. Depois de um tempo, em que não apresenta nenhuma ideia aos irmãos, ele surge com o"The facebook" e, conforme vai ganhando fama e dinheiro - através da ajuda do fundador do Napster, Sean Parker (Justin Timberlake, em surpreendente atuação) - ele vai arrumando brigas e processos: não só os poderosos irmãos Winklevoss os colocam como réu, mas também Eduardo. O filme, contado em flashbacks, conta como ele chegou aos tribunais.
Narrado de forma não exatamente convencional - para o que colabora a estupenda edição - "A rede social" tira proveito da inteligência do roteiro e jamais se prende à tentação de ser apenas mais uma cinebiografia corriqueira - mesmo porque seu protagonista não é o que se pode chamar de mega-astro. Na interpretação contida mas raivosa de Jesse Eisenberg (demonstrando uma maturidade surpreendente), Zuckerberg é um ser humano cheio de dúvidas, raivas e inseguranças, como qualquer um - com a diferença de ser o mais jovem bilionário do mundo. O senso de humor injetado por Aaron Sorkin em sua história serve como um alívio perfeito para uma trama de sucesso e ambição contada com agilidade e ironia. Até mesmo quem não tem a menor noção de informática fica hipnotizado com o filme de David Fincher, um diretor dos mais criativos e originais de sua geração.
Sem cair no maniqueísmo tão comum a este tipo de produções, Fincher não hesita em explicitar os defeitos de seu protagonista, mas tampouco o apresenta como vilão. Mesmo que não seja um exemplo de simpatia e carisma, Zuckerberg conquista a plateia com seu jeito reservado e quase arrogante e essa compaixão da audiência por ele - no fundo um rapaz solitário e sem traquejo social - é o grande trunfo do filme de Fincher, que aqui comprova seu imenso talento - que injustamente não lhe deu um Oscar. Aliás, a Academia foi obrigada a reconhecer outras qualidades do filme: seu roteiro, sua edição, sua trilha sonora são impecáveis(e todas foram premiadas), assim como as atuações dos dois atores centrais. Jesse Eisenberg entrega uma atuação impactante, que não se deixava entrever em seus filmes anteriores - dentre os quais o mais conhecido é "Zumbilândia". E Andrew Garfield, que substituiu Tobey Maguire na nova franquia do Homem-aranha não pode ter um cartão de visitas mais memorável em sua carreira.
"A rede social" é um filme que merece ser visto e revisto. É atual, é instigante, é inteligente. E é mais uma prova de que, com um bom diretor, até mesmo a vida de um nerd pode ser interessante...
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David Fincher), Ator (Jesse Eisenberg), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Mixagem de Som
Vencedor de 3 Oscar: Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (David Fincher), Roteiro, Trilha Sonora Original
Baseado no livro de Ben Mezrich, o roteiro de Aaron Sorkin começa mostrando como, depois de uma briga com a namorada, e com a ajuda do melhor amigo Eduardo Saverin (Andrew Garfield, o novo Homem-aranha). o jovem estudante de Harvard Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) tem a ideia de criar um site classificando a beleza das alunas da universidade. Chamando a atenção pelo talento, ele é convidado por dois gêmeos, alunos mais graduados (vividos por Armie Hammer com efeitos visuais impecáveis) para criar um website para a universidade. Depois de um tempo, em que não apresenta nenhuma ideia aos irmãos, ele surge com o"The facebook" e, conforme vai ganhando fama e dinheiro - através da ajuda do fundador do Napster, Sean Parker (Justin Timberlake, em surpreendente atuação) - ele vai arrumando brigas e processos: não só os poderosos irmãos Winklevoss os colocam como réu, mas também Eduardo. O filme, contado em flashbacks, conta como ele chegou aos tribunais.
Narrado de forma não exatamente convencional - para o que colabora a estupenda edição - "A rede social" tira proveito da inteligência do roteiro e jamais se prende à tentação de ser apenas mais uma cinebiografia corriqueira - mesmo porque seu protagonista não é o que se pode chamar de mega-astro. Na interpretação contida mas raivosa de Jesse Eisenberg (demonstrando uma maturidade surpreendente), Zuckerberg é um ser humano cheio de dúvidas, raivas e inseguranças, como qualquer um - com a diferença de ser o mais jovem bilionário do mundo. O senso de humor injetado por Aaron Sorkin em sua história serve como um alívio perfeito para uma trama de sucesso e ambição contada com agilidade e ironia. Até mesmo quem não tem a menor noção de informática fica hipnotizado com o filme de David Fincher, um diretor dos mais criativos e originais de sua geração.
Sem cair no maniqueísmo tão comum a este tipo de produções, Fincher não hesita em explicitar os defeitos de seu protagonista, mas tampouco o apresenta como vilão. Mesmo que não seja um exemplo de simpatia e carisma, Zuckerberg conquista a plateia com seu jeito reservado e quase arrogante e essa compaixão da audiência por ele - no fundo um rapaz solitário e sem traquejo social - é o grande trunfo do filme de Fincher, que aqui comprova seu imenso talento - que injustamente não lhe deu um Oscar. Aliás, a Academia foi obrigada a reconhecer outras qualidades do filme: seu roteiro, sua edição, sua trilha sonora são impecáveis(e todas foram premiadas), assim como as atuações dos dois atores centrais. Jesse Eisenberg entrega uma atuação impactante, que não se deixava entrever em seus filmes anteriores - dentre os quais o mais conhecido é "Zumbilândia". E Andrew Garfield, que substituiu Tobey Maguire na nova franquia do Homem-aranha não pode ter um cartão de visitas mais memorável em sua carreira.
"A rede social" é um filme que merece ser visto e revisto. É atual, é instigante, é inteligente. E é mais uma prova de que, com um bom diretor, até mesmo a vida de um nerd pode ser interessante...
Assinar:
Postagens (Atom)
OS AGENTES DO DESTINO
OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...
-
SOMMERSBY, O RETORNO DE UM ESTRANHO (Sommersby, 1993, Warner Bros, 114min) Direção: Jon Amiel. Roteiro: Nicholas Meyer, Sarah Kernochan, h...
-
EVIL: RAÍZES DO MAL (Ondskan, 2003, Moviola Film, 113min) Direção: Mikael Hafstrom. Roteiro: Hans Gunnarsson, Mikael Hafstrom, Klas Osterg...
-
O SILÊNCIO DOS INOCENTES (The silence of the lambs, 1991, Orion Pictures, 118min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Ted Tally, romance de ...



