Mostrando postagens com marcador WILLIAM H. MACY. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador WILLIAM H. MACY. Mostrar todas as postagens

quarta-feira

BENNY & JOON: CORAÇÕES EM CONFLITO

 


BENNY & JOON: CORAÇÕES EM CONFLITO (Benny & Joon, 1993, Metro Goldwyn Mayer, 98min) Direção: Jeremiah S. Chechik. Roteiro: Barry Berman, estória de Barry Berman, Leslie McNeil. Fotografia: John Schwartzman. Montagem: Carol Littleton. Música: Rachel Portman. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Barbara Munch. Produção executiva: Bill Badalato. Produção: Susan Arnold, Donna Roth. Elenco: Johnny Depp, Mary Stuart Masterson, Aidan Quinn, Julianne Moore, Oliver Platt, William H. Macy, CCH Pounder, Dan Hedaya, Joe Grifasi. Estreia: 16/4/93

No começo dos anos 1990 o nome de Johnny Depp já era sinônimo de excentricidade em Hollywood - em boa parte devido ao sucesso de sua performance em "Edward Mãos de Tesoura", dirigido por seu amigo Tim Burton. Por isso, não foi surpresa para ninguém quando ele foi escalado para interpretar um dos papéis centrais do drama romântico "Benny & Joon: corações em conflito": na pele do esquisitão Sam, fã de Chaplin e Buster Keaton, calado, semianalfabeto e dono de uma grande capacidade de amar, Depp confirmou sua persona dentro da indústria (que exploraria seu estilo em outras produções de relativo êxito) e foi, provavelmente, o maior responsável pelas críticas positivas do segundo filme do diretor Jeremiah Chechik. Sensível, honesta e despretensiosa, a história de amor entre duas pessoas à margem da sociedade - e a forma com que tal romance afeta as pessoas a sua volta - não chegou a fazer grande barulho nas bilheterias, mas tornou-se cult justamente pela presença do ator, particularmente inspirado em seu desempenho. Discreto em sua forma de suscitar emoções - e evitando a todo custo o melodrama barato -, "Benny & Joon" é um pequeno grande filme, que encontrou em Depp (e no resto do elenco) sua tradução perfeita.  

Ao contrário do que o subtítulo em português dá a entender, Benny e Joon não formam a dupla romântica central do filme. Benjamin e Juniper Pearl são, na verdade, irmãos, que vivem uma vida quase medíocre em uma pequena cidade de Washington. Ele (vivido por Aidan Quinn) é um mecânico solitário que abdicou de qualquer tipo de relacionamento amoroso para cuidar dela (interpretada por Mary Stuart Masterson) desde a morte de seus pais, em um acidente de carro. Juniper (ou Joon, como é conhecida pelos amigos e vizinhos) é uma jovem com deficiência intelectual - e dom para as artes - e exige do irmão, mesmo involuntariamente, dedicação quase absoluta. Depois do abandono de várias cuidadoras - incapazes de lidar com a inconstância de seu comportamento -, ela corre o sério risco de ser posta em um lar especializado quando um acontecimento inesperado muda os rumos de sua existência. Depois de perder em um jogo de cartas, Joon é obrigada por um amigo a abrigar em sua casa o estranho Sam (Johnny Depp) e, para sua surpresa - e de um atônito Benny - os dois acabam se apaixonando.

 

Projeto relativamente antigo da MGM, "Benny & Joon" quase teve, liderando seu elenco, a dupla de astros Tom Hanks e Julia Roberts (ainda que hoje seja difícil imaginá-los nos papéis). Depois de tentar também o então casal Tim Robbins e Susan Sarandon (outro par inusitado), as coisas pareciam finalmente ter entrado nos eixos com a escalação de Depp e sua namorada, Winona Ryder (começando uma trajetória ascendente em Hollywood). O fim do namoro acarretou na saída de Winona, que foi substituída por Laura Dern (recém saída de uma indicação ao Oscar por "As noites de Rose") ao mesmo tempo em que Woody Harrelson assumia o papel de Benny. Porém, tudo mudaria mais uma vez graças a dois acontecimentos fortuitos: Dern não gostou de saber que seu nome estaria em terceiro lugar nos créditos, e Harrelson foi convidado pela Paramount para ser o marido de Demi Moore em "Proposta indecente" (1993). Com Depp ainda firme no projeto, surgiram os nomes de Mary Stuart Masterson e Aidan Quinn, ambos promissores e, como mostra o resultado final, extremamente adequados aos personagens. Com a direção pouco invasiva de Chechik (em seu segundo longa-metragem) e um roteiro delicado e repleto de uma honestidade cativante, o filme acabou por agradar em cheio aos fãs de Depp - e, por consequência, a todos que procuravam escapar dos clichês do gênero.

A maior qualidade de "Benny & Joon" - além do elenco escalado com precisão - é o modo discreto com que Jeremiah Chechik conduz sua trama, sem pressa e com uma delicadeza surpreendente vinda de quem começou sua carreira no cinema com o pouco sutil "Férias frustradas de Natal" (1989) e que chegou a ser indicado a um Framboesa de Ouro pelo medonho "Os vingadores" (1999). Com um ritmo que leva o espectador a acompanhar vidas simples e personagens com sentimentos reais, o cineasta abraça o prosaico como forma de encantar.e emocionar (porém sem apelar para o sentimentalismo barato). E, se não bastasse tal cuidado, ainda há uma das primeiras aparições de Julianne Moore no cinema, como a garçonete e ex-atriz que se envolve com Benny a despeito de seus problemas familiares. Um motivo a mais para conhecer uma produção das mais simpáticas de seu tempo.

terça-feira

FANTASMAS DO PASSADO

 


FANTASMAS DO PASSADO (Ghosts of Mississippi, 1996, Columbia Pictures, 130min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Lewis Colick. Fotografia: John Seale. Montagem: Robert Leighton. Música: Marc Shaiman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Karen A. O'Hara. Produção executiva: Charles Newirth, Jeffrey Stott. Produção: Nicholas Paleogolos, Rob Reiner, Andrew Schneiman, Frederick Zollo. Elenco: Alec Baldwin, Whoopi Goldberg, James Woods, Craig T. Nelson, Virginia Madsen, Diane Ladd, Susanna Thompson, William H. Macy, Jerry Levine, Terry O'Quinn, James Pickens Jr., Lucas Black, Jerry Hardin. Estreia: 20/12/96

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (James Woods), Maquiagem

Quando "Fantasmas do passado" chegou aos cinemas, em dezembro de 1996, fazia apenas dois anos e meio que sua história havia tido seu desfecho. O  terceiro julgamento de Byron de la Beckwith pelo assassinato do líder negro Medgar Evers em 1963 - depois de dois outros anulados por uma série de circunstâncias que beneficiavam o réu  - tornou-se assunto dominante em Jackson, Mississippi no começo de 1994 e sua versão cinematográfica aproveitou-se da energia de revolta local para tentar transmitir ao espectador toda a força dos acontecimentos que foram um marco na luta pelos direitos civis na sociedade norte-americana. Não conseguiu completamente. A bilheteria pouco expressiva e a receptividade morna da crítica acabaram por relegar o filme a uma espécie de limbo na carreira do diretor Rob Reiner, apenas um meio-termo entre o sucesso de "Conta comigo" (1986), "Harry & Sally: feitos um para o outro" (1989), "Louca obsessão" (1990) e "Questão de honra" (1992) e o fracasso comercial de "O anjo da guarda" (1994) e "Alex & Emma: escrevendo sua história" (2003).  Mesmo assim, chamou a atenção o suficiente para render a James Woods uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante - a segunda de sua carreira.

Woods - na pele do venal Byron de la Beckwith - é o destaque absoluto do filme de Reiner. Mesmo com poucos minutos em cena, seu desempenho consegue eclipsar tanto a potente atuação de Whoopi Goldberg (tentando dar consistência às falas clichês de sua personagem) quanto o esforço de Alec Baldwin, ainda não exatamente reconhecido como o ator de respeito que se tornaria com o passar dos anos. Fugindo da tentação de fazer de Beckwith um vilão humanizado (basta ver entrevistas reais para perceber que isso é impossível), o veterano ator dá o seu melhor para transmitir, em cada aparição, todo o ódio e o desprezo que move o movimento supremacista do sul dos EUA - e do resto do mundo. Sempre que surge na tela, seu olhar maligno e sua expressão de desprezo pela justiça tornam impossível ignorar seu minucioso trabalho - algo que nem mesmo a maquiagem exagerada (inexplicavelmente indicada ao Oscar) consegue atrapalhar. Lamentável que o roteiro não lhe dê mais espaço e se concentre naquele que talvez seja o grande problema do filme: a figura do criticado white savior - termo que caracteriza, normalmente de forma pejorativa, uma pessoa branca que se torna o herói em uma luta racial. Ok, o advogado que levou Beckwith aos tribunais em 1994,Bobby DeLaughter, é branco. Mas fica, mesmo assim, a sensação de um foco inadequado a uma trama tão nitidamente específica.


 

Apesar de dar a Whoopi Goldberg o importante e crucial papel de Myrlie Evers, a viúva do ativista pelos direitos civis Medgar Evers (vivido no filme por James Pickens Jr., de "Grey's Anatomy"), o roteiro de "Fantasmas do passado" se concentra basicamente em Bobby DeLaughter, promotor do Mississipi que entra, quase por acaso, no caso do terceiro julgamento de um racista radical acusado pelo assassinato. Casado, pai de dois filhos e parte de uma família tradicional e respeitada, Bobby se deixa convencer pela persuasiva Myrlie de que trinta anos já é tempo suficiente para tentar novamente a condenação do homem que matou seu marido. Para conquistar sua confiança, o promotor põe em risco seu casamento, sua carreira e até mesmo sua vida. Sem o apoio daqueles que o rodeiam - todos profundamente enraizados nos preconceitos sulistas - e questionado até mesmo por Myrlie, ele descobre, no processo rumo ao tribunal, que condenar um homem tão abertamente preconceituoso e intolerante não é tarefa fácil, especialmente em seu contexto geográfico e social.

Assumindo um papel que foi cogitado para ser de Tom Cruise ou de Tom Hanks - ambos com potencial comercial bem maior -, Alec Baldwin sofre com a direção quase mecânica de Rob Reiner e com o roteiro esquemático e quase frio. Ao tentar evitar o sentimentalismo inerente à história, Reiner nega à plateia o tom emocional que poderia fazer de seu filme uma produção marcante e relevante. Lançado no mesmo ano do sucesso "Tempo de matar" e do fiasco "O segredo" - ambos com temática semelhante, ainda que relatos de ficção baseados em livros de John Grisham -, "Fantasmas do passado" passou praticamente em branco nos cinemas e dificilmente é lembrado mesmo nas filmografias de seus atores principais. Não deixa de ser uma injustiça: mesmo longe de ser um dos melhores filmes do diretor ou até mesmo sobre o tema, é um entretenimento decente - ainda que seu foco seja um tanto problemático.

sábado

O QUARTO DE JACK


O QUARTO DE JACK (Room, 2015, Element Pictures/Film4/FilmNation Entertainment, 118min) Direção: Lenny Abrahamson. Roteiro: Emma Donoghue, romance de sua autoria. Fotografia: Danny Cohen. Montagem: Nathan Nugent. Música: Stephen Rennicks. Figurino: Lea Carlson. Direção de arte/cenários: Ethan Tobman/Mary Kirkland. Produção executiva: Jeff Arkuss, Emma Donoghue, Rose Garnett, David Kosse, Andrew Lowe, Keith Potter, Tessa Ross, Jesse Shapira. Produção: David Gross, Ed Guiney. Elenco: Brie Larson, Jacob Tremblay, Joan Allen, William H. Macy. Estreia: 04/9/2015 (Festival de Telluride)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Lenny Abrahamson), Atriz (Brie Larson), Roteiro Adaptado

Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Brie Larson)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Brie Larson) 

Já é clichê dos mais batidos dizer que a arte imita a vida. Porém, muitas vezes o contrário também é verdadeiro. Que o diga a escritora Emma Donoghue: três anos depois que seu romance "O quarto de Jack" foi publicado, em 2010, um perturbador caso policial com impressionantes similaridades com sua trama chegou às manchetes. De forma muito semelhante ao que acontece com sua protagonista, uma mulher chamada Amanda Berry conseguiu fugir do cativeiro onde era mantida há anos junto com seu filho, fruto dos constantes estupros a que era submetida por seu sequestrador. Berry não era a única vítima de Ariel Castro, que também mantinha outras duas mulheres em seu poder. Também na Áustria houve situação parecida, com um homem mantendo a própria filha, Elisabeth Fritzl, como prisioneira por 24 anos e tendo, com ela, outras sete crianças, das quais três ficaram com a mãe durante o período que durou o sequestro. Casos isolados ou não, as histórias de Berry e Fritzl servem como um ponto a mais de credibilidade à história da escritora, que, antes mesmo de lançar seu livro, já o havia transformado em roteiro, confiante em sua força dramática e tema potente. Quando finalmente sua adaptação para o cinema chegou às telas, cinco anos depois da publicação do livro, a recepção não poderia ter sido melhor: aplaudido pela crítica, "O quarto de Jack" arrebatou quatro importantes indicações ao Oscar (incluindo melhor filme) e levou a cobiçada estatueta de melhor atriz, entregue à jovem Brie Larson - também premiada com o Golden Globe, o BAFTA e o prêmio do Sindicato dos Atores.

Até então conhecida basicamente pelo público consumidor de cinema independente - seu crédito mais importante era o de protagonista do elogiado "Temporário 12" (2013) -, Larson ganhou o papel principal de "O quarto de Jack" em uma disputa com a talentosa Shailene Woodley, depois que Emma Watson e Rooney Mara, também cotadas, ficaram de fora do projeto. Seu trabalho foi um divisor de águas em sua carreira: logo depois de alguns filmes menos ambiciosos, seu nome estampava o cartaz de "Capitã Fantástica" (2019), um blockbuster de enorme visibilidade, que, mais do que o Oscar, a colocou em posição privilegiada em Hollywood. E se a protagonista da Marvel é uma heroína clássica, sua personagem em "O quarto de Jack" explora níveis dramáticos muito mais profundos - traduzidos em uma interpretação sutil, que busca a comunicação mais pelo silêncio do que por discursos inflamados. Em uma parceria impecável com o pequeno Jacob Tremblay - que rouba a cena e injustamente ficou de fora dos indicados pela Academia -, Larson deixou para trás nomes muito mais experientes (Cate Blanchett, Charlotte Rampling) na corrida pela estatueta, e fortaleceu o filme a ponto de levá-lo às categorias mais nobres do Oscar.

 


Filmado em um período de dez semanas - com uma intensa preparação anterior por parte de seus atores principais, como o confinamento voluntário de Brie Larson por um mês antes do começo das filmagens, para experimentar a sensação de isolamento de sua personagem e um contato mais próximo entre a atriz e Jacob Tremblay -, "O quarto de Jack" foi realizado praticamente em sequência. Tal situação, rara no cinema, foi a forma escolhida pelo cineasta para ajudar Tremblay (escolhido dentre mais de 2000 crianças) a desenvolver as emoções requeridas pelo roteiro. Foi uma providência e tanto: é difícil não se deixar conquistar pelo desempenho do pequeno ator, que escapa das armadilhas melodramáticas que a trama poderia oferecer com segurança de veterano. Aliás, é um grande mérito do roteiro sua ousadia em evitar cenas lacrimosas e apostar suas fichas nas consequências psicológicas do drama de Joy, o que afasta o filme do lugar comum e lhe imprime um tom mais sufocante - o que condiz, logicamente, com a história contada por Emma Donoghue. Donoghue concorreu ao Oscar de roteiro adaptado e perdeu para "A grande aposta" (2015), mas com certeza seu script tem muito mais possibilidades de permanecer na memória do público do que o quase hermético trabalho de Adam McKay.

A principal qualidade do roteiro de "O quarto de Jack" surge logo nos primeiros minutos, quando o público é apresentado sem muitas firulas ao intenso drama vivido pela protagonista interpretada por Larson: sem saber seu nome ou nada mais a seu respeito, a plateia precisa entender aos poucos tudo o que está acontecendo, sem explicações mastigadas. Conforme o filme anda, as coisas começam a ficar mais claras, e se compreende que a personagem é mantida refém há anos, que é constantemente abusada por seu sequestrador e, pior ainda, vive com um menino, Jack, que é seu filho com ele - e a quem protege desesperadamente. A relação entre mãe e filho é o cerne da trama, e a direção de Lenny Abrahamson a explora de maneira comovente e verdadeira - não à toa, quando o foco da história muda e passa a girar em torno da readaptação da dupla à vida fora do cativeiro, o ritmo cai e a inclusão de novos personagens enfraquece o todo. Talvez superestimado em demasia - suas qualidades são inegáveis, mas o excesso de indicações ao Oscar e prêmios da crítica soa como alucinação coletiva -, "O quarto de Jack" é uma produção importante e relevante, porém não atinge todo o seu potencial dramático. Foi o filme certo na hora certa, mas não se sabe se sobreviverá ao tempo com a mesma força que demonstrou em sua estreia.

CAKE: UMA RAZÃO PARA VIVER

CAKE: UMA RAZÃO PARA VIVER (Cake, 2014, Lou Films/Echo Films/We're Not Brothers Productions, 102min) Direção: Daniel Barnz. Roteiro: Patrick Tobin. Fotografia: Rachel Morrison. Montagem: Kristina Boden, Michelle Harrison. Música: Christophe Beck. Figurino: Karyn Wagner. Direção de arte/cenários: Joseph T. Garrity/Lisa Son. Produção executiva: Jennifer Aniston, Yu Wei-Chung, Patty Long, Shyam Madiraju. Produção: Ben Barnz, Mark Canton, Kristin Hahn, Courtney Solomon. Elenco: Jennifer Aniston, Chris Messina, Sam Worthington, Anna Kendrick, Felicity Huffman, William H. Macy, Adriana Barraza, Mamie Gummer, Lucy Punch. Estreia: 08/9/14 (Festival de Toronto)

Conhecida do grande público por sua atuação como a mimada Rachel Green da série "Friends" - que durou dez temporadas, ganhou dezenas de prêmios e se mantém como uma das mais queridas da história - a atriz Jennifer Aniston foi a única do elenco a conseguir romper com relativo sucesso o limite entre sua carreira na televisão e no cinema. Presença cativa em comédias românticas de qualidades variadas, ela surpreendeu meio mundo em 2014 quando surgiu desglamorizada e repleta de nuances dramáticas em "Cake, uma razão para viver", que estreou no Festival de Toronto e lhe rendeu tanto elogios unânimes quanto indicações ao Golden Globe e ao Screen Actors Guild Awards - infelizmente, a esperada e merecida lembrança por parte da Academia não chegou, mas é inegável que seu trabalho, sério e denso, empurrou-a em direção a um patamar de respeito artístico junto à comunidade cinematográfica que poucos atores oriundos da TV conseguiram atingir.

Dirigido pelo mesmo Daniel Barnz que cometeu o indescritível "A fera" (2011), "Cake" é um drama intimista e delicado, com pegada de cinema europeu em seu enfoque naturalista e pouco dado a soluções fáceis - que o público não espere por intermináveis cenas de choro histérico ou uma história de superação pessoal como aquelas que Hollywood adora contar de forma enfeitada e envernizada por momentos de humor constrangedor. O roteiro de Patrick Tobin, a direção de Barnz e principalmente a interpretação de Aniston (e do elenco coadjuvante formado por rostos relativamente conhecidos da plateia) afastam o filme do convencional, e se isso pode incomodar a quem procura mais do mesmo, funciona à perfeição para aqueles que gostam de envolver-se com uma história que apresenta gente normal, com problemas reais e dificuldades palpáveis de superar seus obstáculos. E quem acha que Aniston é bonita demais para convencer como uma mulher sofrida vai se surpreender com a maturidade e a coragem com que a ex-mulher de Brad Pitt se entrega a seu melhor papel no cinema até agora.


Aniston vive, de corpo e alma, Claire Bennett, uma advogada que frequenta um grupo de apoio para mulheres que convivem com algum tipo de dor física crônica. Coberta de cicatrizes depois de um acidente de carro que matou seu filho - e consequentemente a afastou do marido, Jason (Chris Messina) - ela tenta superar suas angústias de todas as formas possíveis, desde hidroginástica até os encontros do grupo comandado por Annette (Felicity Huffman), mas são apenas os comprimidos que consegue sem receita que eventualmente dão algum resultado. Contando sempre com a ajuda da fiel empregada doméstica, a mexicana Silvana (Adriana Barraza, indicada ao Oscar por "Babel"), Claire torna-se obcecada com o suicídio de Nina Collins (Anna Kendrick, indicada ao Oscar por "Amor sem escalas"), uma colega do grupo de apoio que jogou-se de uma ponte e deixou para trás o marido e o filho pequeno. Sem razão aparente, ela procura o viúvo, Roy (Sam Worthington), e inicia com ele uma amizade inusitada que poderá ajudar a ambos a superar seus tormentos pessoais.

Oferecendo aos poucos as informações sobre seus personagens e deixando que o público se envolva devagar com seus problemas, "Cake" ainda injeta um tantinho de surrealismo ao apresentar diálogos imaginários entre Claire e Nina - que a acusa de estar dando em cima de seu marido - e induz o espectador a um estado de cumplicidade com a protagonista. Mesmo que Claire não seja exatamente simpática (e não se espera isso de alguém que perdeu tanta coisa em tão pouco tempo, afinal), é difícil não sentir empatia por sua dor e seu desespero silencioso, muitas vezes revelado em uma agressividade se não compreensível, ao menos perdoável. Sua trajetória em relação a uma paz de espírito desejada e talvez afastada por uma série de autossabotagens é recheada de grandes momentos dramáticos, felizmente espalhados pelo roteiro com cuidado e delicadeza. "Cake" é um belo e simples filme sobre a vida e suas tristezas - e de como elas podem, paradoxalmente, unir as pessoas.

segunda-feira

AS SESSÕES

AS SESSÕES (The sessions, 2012, Fox Searchlight Pictures, ) Direção: Ben Lewin. Roteiro: Ben Lewin, artigo "On seeing sex surrogate", de  Mark O'Brien. Fotografia: Geoffrey Simpson. Montagem: Lisa Bromwell. Música: Marco Beltrami. Figurino: Justine Seymour. Direção de arte/cenários: John Mott/Sofia Elena Jimenez. Produção executiva: Douglas Blake, Julius Colman, Maurice Silman. Produção: Judi Levine, Ben Lewin, Stephen Nemeth. Elenco: John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy, Moon Bloodgood, Annika Marks, Adam Arkin, Rhea Perlman. Estreia: 23/01/12

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Helen Hunt)

Uma verdade quase absoluta entre a indústria hollywoodiana é que o papel de uma pessoa com qualquer tipo de deficiência física ou mental já é meio caminho andado para os tapetes vermelhos que levam a prêmios cobiçados como Golden Globe e Oscar. Por isso não deixou de ser uma surpresa quando John Hawkes ficou de fora da lista de indicados à estatueta dourada de 2013 por seu trabalho em "As sessões". Produção independente dirigida por Ben Lewin - cujo currículo inclui vários episódios de séries de TV e o denso "Georgia", de 1995, que deu a Mare Winningham uma indicação ao Oscar de coadjuvante - e baseado em fatos reais, o filme agradou em cheio ao público do Festival de Sundance e recebeu inúmeras loas por sua qualidade, mas somente o trabalho de Helen Hunt foi lembrado pelos eleitores da Academia. Tentando uma volta aos holofotes quinze anos depois de seu Oscar de melhor atriz por "Melhor é impossível", Hunt teve, porém, poucas chances de vitória contra a favorita Anne Hathway, vencedora pela pavorosa adaptação do musical "Os miseráveis".

Hawkes - que concorreu ao Golden Globe e ao Screen Actors Guild por seu desempenho impecável - vive Mark O'Brien, um homem de 38 anos condenado à uma paralisia quase total que lhe impede de mexer quaisquer partes do corpo abaixo do pescoço, devido a uma poliomielite adquirida na infância. Virgem, ele não deixa de ter intensos desejos lúbricos, o que o leva a constantes conversas com o padre de sua paróquia (atuação hilariante de William H. Macy). Sua condição sexual acaba chamando a atenção de sua enfermeira que, com a ajuda de conhecidos, lhe recomenda a contratação dos serviços de Cheryl Cohen-Greene (Helen Hunt), uma terapeuta sexual. Casada e mãe, Cheryl leva sua profissão a sério e tentará, em seis sessões, fazer com que O'Brien descubra os prazeres de uma vida sexual ativa a despeito de suas limitações. Encantado por ela, o homem acaba se apaixonando, mesmo sabendo que suas chances com ela são nulas.


Apesar do tema pesado e das inúmeras possibilidades de esbarrar em clichês melodramáticos, "As sessões" se beneficia muito da leveza com que o cineasta/roteirista lhe envolve. Ao contrário do que poderia ocorrer, a doença do protagonista nunca descamba para o lacrimoso ou o exagerado, ficando sempre no limiar do melancólico com o tragicômico. A atuação de John Hawkes - que concorreu ao Oscar de coadjuvante em 2011 por "Inverno da alma" - é sutil e não força a compaixão do espectador, principalmente porque jamais tem pena de si mesmo. Seus diálogos com o pároco interpretado por William H. Macy são ao mesmo tempo ternos e engraçados, possibilitando ao espectador um saudável distanciamento do drama do protagonista, enquanto todas as cenas em que Hawkes e Helen Hunt estão juntos aumentam o interesse pelo desenrolar da trama. É admirável a maneira com que Lewin não explora com vulgaridade as cenas de sexo entre os dois, mesmo que Hunt não tenha o menor pudor em mostrar seu corpo. O sexo como visto aqui não é uma manifestação erótica e sim uma forma de inclusão social e sentimental, e a maneira como tudo é filmado (sem artifícios sensuais ou uma edição que transmita outra ideia) é extremamente acertada. Fugindo do estilo "doença da semana", Lewin faz um gol e tanto, oferecendo à plateia mais do que simplesmente um drama com o objetivo de levá-la às lágrimas.

Por não ser um "deficiente engraçadinho" como muitos dos filmes semelhantes que volta e meia são louvados pela Academia, o Mark O'Brien de John Hawkes não conquista a plateia com cenas exageradas ou por discursos inflamados. Seu olhar - ora lúbrico ora apaixonado - diz o suficiente sobre seus pensamentos e sua relação com o mundo é neutra o bastante para não potencializar o dramalhão que sua história poderia transformar-se em mãos menos hábeis e mais vorazes em conquistar o coração do público e da Academia. Essa quase neutralidade imposta por sua direção é louvável, mas provavelmente acabou sendo a responsável por tirar Hawkes do páreo pelo Oscar. É perceptível, no entanto que seu trabalho é fascinante, em especial se for considerado que o ator é bem mais velho que seu personagem - fato que se torna irrelevante graças a seu desempenho.

"As sessões" é um belo filme, competente e interessante. Por sua opção em fugir do melodrama e abraçar com naturalidade um tema complexo pode afastar àqueles que procuram por algo mais caloroso e piegas. Mas a história é inspiradora e as atuações do elenco são esplêndidas, o que deixa sem importância qualquer pecado que possa ter.

sábado

IMPÉRIO DOS SONHOS

IMPÉRIO DOS SONHOS (Inland Empire, 2006, StudioCanal, 180min) Direção e roteiro: David Lynch. Fotografia: David Lynch. Montagem: David Lynch. Figurino: Karen Baird. Direção de arte/cenários: Christina Wilson/Melanie Rein. Produção executiva: Keith Kjarval, Marek Zydowicz. Produção: David Lynch, Mary Sweeney. Elenco: Laura Dern, Jeremy Irons, Justin Theroux, Grace Zabriskie, Harry Dean Stanton, Diane Ladd, William H. Macy, Julia Ormond, Mary Steenburgen, Nastassja Kinski, Laura Harring. Estreia: 06/9/06 (Festival de Veneza)

Um belo dia, a atriz Laura Dern recebeu um telefonema do diretor David Lynch - com quem já havia trabalhado nos filmes "Veludo azul" e "Coração selvagem" - e ouviu dele uma proposta tão estranha quanto irresistível: "Você quer experimentar?", perguntava a voz de um dos cineastas de maior prestígio do cinema americano independente. Intrigada e disposta a mergulhar novamente no universo onírico do criador de Laura Palmer, Dern topou a brincadeira. Surgia assim o mais hermético, bizarro e assustador de Lynch, "Império dos sonhos". Quem considerava sua obra fascinante, envolvente e poética a seu modo particular ganhou mais uma obra-prima. Aqueles que o rechaçavam como um diretor capaz de construir climas e imagens instigantes mas vazias de conteúdo tiveram mais munição. Mas o fato é que seu filme - o último até agora - parece ser tese final de décadas de estudo sobre a natureza complexa e muitas vezes maligna do ser humano. Você pode até não entender absolutamente nada do filme - assim como a própria Dern e seu colega de elenco Justin Theroux - mas é impossível ficar incólume à toda a carga de angústia, tensão e excitação intelectual que ele transmite a cada cena.

Quem começar a assistir a "Império dos sonhos" em busca de um filme com começo, meio e fim lógicos e bem definidos certamente irá decepcionar-se. Assim como "A estrada perdida" (99) e "Cidade dos sonhos" (02), seu filme se presta a inúmeras interpretações - e todas elas certamente estarão corretas, uma vez que o próprio David Lynch não faz a menor questão de esclarecer totalmente a trama, borrando deliberadamente as fronteiras entre o real e o imaginário, o passado e o presente, o palpável e o onírico. Contando com uma atuação assombrosa de Laura Dern, o cineasta mistura a uma história, já intrincada por natureza, imagens do mais puro nonsense - uma família de coelhos comporta-se como seres humanos em uma sitcom, por exemplo - e sequências de dar orgulho a qualquer discípulo de Jung. Usando e abusando de lentes grande-angulares, distorções de imagem e ruídos perturbadores, ele arquiteta um gigantesco painel de neuroses, culpas e violência que joga as pistas no colo do espectador, desafiando-o a montar um quebra-cabeças que talvez não se utilize de todas as peças - ao menos da maneira convencional.


A história - ou pelo menos o fio narrativo que dá o empurrão inicial - começa quando a atriz Nikki Grace (vivida por Laura Dern em estado de graça) aceita o papel principal de um filme romântico que está prestes a ser rodado pelo diretor Kingsley Stewart (Jeremy Irons). Antes do começo das filmagens, ela é procurada por uma nova vizinha (Gracie Zabriskie, de "Twin Peaks"), que a adverte em relação ao novo papel e, através de códigos, a alerta a respeito das consequências que a decisão de realizá-lo pode trazer. Ignorando os avisos, Nikki se envolve de cabeça no projeto e acaba por se apaixonar por seu colega de cena, o ator Devon Berk (Justin Theroux, o sr. Jennifer Aniston) - o que espelha a trama do filme que estão fazendo, na verdade o remake de um original que nunca chegou a ser finalizado porque seu casal de protagonistas morreu assassinado. Tal descoberta afunda Nikki ainda mais em um estado em que ela passa a confundir a realidade com a ficção.

Em seu terço inicial, "Império dos sonhos" até consegue enganar o público, com uma narrativa onde expõe alguns dos elementos com os quais irá jogar mais adiante. Não demora muito, porém, para que as pistas comecem a se acumular sem explicações plausíveis, o que transmite a exata sensação de desespero de sua protagonista, perdida em um mundo sem entradas e saídas facilmente definíveis. Na desordem organizada de Lynch frases são repetidas em momentos diametralmente opostos, situações aparentemente contraditórias completam uma a outra, personagens de épocas e mundos diferentes convivem pacificamente e atores consagrados fazem pontas quase imperceptíveis (caso de Diane Ladd, William H. Macy e Nastassja Kinski). No mundo feérico do diretor, a lógica como a conhecemos no dia-a-dia não se aplica. Tal característica - que a tantos confunde e afasta - é uma qualidade das maiores em um cinema cada vez mais estéril como o de Hollywood. Só isso já faz de "Império dos sonhos" um programa imperdível.

sexta-feira

BOBBY

BOBBY (Bobby, 2006, The Weinstein Company, 120min) Direção e roteiro: Emilio Estevez. Fotografia: Michael Barrett. Montagem: Richard Chew. Música: Mark Isham. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Patti Podesta/Lisa Fischer, Radha Mehta. Produção executiva: Dan Grodnick, Anthony Hopkins, Michelle Krumm, Matthew Landon, Gary Michael Walters. Produção: Edward Bass, Michael Litvak, Holly Wiersma. Elenco: Harry Belafonte, Emilio Estevez, Laurence Fishburne, Heather Graham, Anthony Hopkins, Helen Hunt, Joshua Jackson, David Krumholtz, Ashton Kutscher, Shia LeBeouf, Lindsay Lohan, William H. Macy, Demi Moore, Freddie Rodriguez, Martin Sheen, Christian Slater, Sharon Stone, Elijah Wood. Estreia: 05/9/06 (Festival de Veneza)

Em 1991, Oliver Stone lançou o espetacular "JFK", em que investigava o assassinato do presidente John Fitzgerald Kennedy, ocorrido em novembro de 1963, utilizando-se, para isso, de toda a sua parafernália de artifícios narrativos e visuais - deu certo, e, além de várias indicações ao Oscar (e das estatuetas de fotografia e edição) e do sucesso de bilheteria, tornou-se um clássico instantâneo do cinema político e talvez o melhor trabalho de sua carreira. O roteiro - baseado em dois livros com teorias distintas e que paradoxalmente se completavam - citava, em determinado momento, a morte do irmão caçula de John, o senador Robert, assassinado em Los Angeles, justamente quando estava a caminho de tornar-se ele mesmo presidente dos EUA, em 1968. Tal fato, que confirmava o triste destino dos Kennedy e que serviu de combustível a mais em um país em um período de convulsão social - com lutas violentas pelos direitos civis e a guerra do Vietnã suscitando as mais beligerantes discussões entre todas as classes sociais - serve de tema para "Bobby", escrito e dirigido pelo ator/cineasta Emilio Estevez: ao contrário do filme de Stone, porém, Estevez optou por um caminho menos ambicioso, ao utilizar a tragédia apenas como pano de fundo para um representativo painel humano da época. Se por um lado acerta - ao fugir das comparações e evitar controvérsias desnecessárias - também peca - com tantos personagens em cena é difícil aprofundá-los. Mas a indicação ao Golden Globe de melhor filme dramático de 2006 mostra que, entre mortos e feridos, a obra do irmão mais velho de Charlie Sheen tem muito mais méritos do que defeitos.

A trama de "Bobby" se passa no dia 04 de junho de 1968, data das eleições primárias na Califórnia, onde Robert Kennedy é o franco-favorito graças à sua campanha baseada no pacifismo e nos interesses do povo. O QG de sua campanha é o Hotel Ambassador, onde ele é esperado no final da noite para discursar a seus eleitores e apoiadores. E é nesse hotel de luxo em Los Angeles que vários dramas se desenrolam durante o dia, atingindo funcionários e hóspedes que esperam ansiosamente pela chegada do homem que eles acreditam ser capaz de renovar as esperanças do país. Entre eles está o antigo porteiro do hotel, o veterano John Casey (Anthony Hopkins, produtor executivo do filme) e seu velho amigo Nelson (Harry Belafonte), inconscientes dos problemas da cozinha do local, quase implodindo com o racismo do responsável pelo departamento, Daryl (Christian Slater) e pelas conversas entre o experiente cozinheiro Edward (Laurence Fishburne) e o latino Jose (Freddie Rodriguez), contrariado pelo expediente duplo que o impedirá de assistir a um jogo de baseball já clássico antes mesmo de acontecer. É nas dependências dos empregados também que Paul (William H. Macy) esconde da esposa - a cabeleireira Miriam (Sharon Stone) - seu relacionamento com a telefonista Angela (Heather Graham) e os responsáveis pela campanha de Kennedy - Wade (Joshua Jackson) e Dwayne (Nick Cannon) - tentam dar ordem aos jovens cabos eleitorais e organizar a leva de jornalistas sequiosos por entrevistas.

Entre os hóspedes também há espaço para drama: a veterana cantora Virginia Fallon (Demi Moore, que foi noiva de Estevez antes de tornar-se diva sexy) luta contra o vício em álcool enquanto enlouquece seu marido e empresário Tim (o próprio Estevez). O casal Samantha (Helen Hunt) e Jack (Martin Sheen) luta contra a instabilidade mental dela, a jovem Diane (Lindsay Lohan) se casa com o amigo William (Elijah Wood) para impedí-lo de ser chamado ao Vietnã e os dois amigos Jimmy (Brian Geraghty) e Cooper (Shia LaBeouf), em vez de buscar eleitores, entram em uma viagem de LSD proporcionada pelo traficante Fisher (Ashton Kutscher). Como é comum em filmes-coral - popularizados por Robert Altman no início dos anos 90 e quase obrigatórios desde então - os personagens se cruzam ocasionalmente, até o clímax, quando a chegada do senador e a subsequente tragédia unem a todos, independente de classe social, fama ou drama pessoal.


Intercalando cenas reais de discursos de Robert Kennedy aos dramas dos personagens fictícios de seu filme (embora alguns sejam levemente inspirados em histórias reais, como o jovem cozinheiro vivido por Freddie Rodriguez, que ficou ao lado do senador enquanto aguardava o socorro médico e o porteiro interpretado por Anthony Hopkins), Emilio Estevez dá a ele um tom acertado de nostalgia e ao mesmo tempo mostra um amplo painel de relações humanas à luz de sua época, sem soar exageradamente saudosista e demonstrando clara admiração pelas palavras do homem que dá título à sua obra. Enquanto apresenta hippies, ativistas, negros e latinos em busca de aceitação social, jovens com medo da guerra do Vietnã e até repórteres socialistas atrás de cinco minutos de atenção com o homem do dia, o filme também mostra sequências que mostram o carisma enorme de Bobby, ao som da eloquente "The sound of silence", da dupla Simon & Garfunkel - em especial depois dos tiros que o vitimam é díficil não se emocionar com elas, em um toque emocional que chega perto do clichê, mas que funciona muito bem, assim como o encontro de duas das mais belas mulheres do cinema americano da década de 90 (Sharon Stone e Demi Moore) na cena mais interessante do filme, quando elas discutem a força do tempo em relação à efemeridade da juventude.

Talvez a indicação ao Golden Globe de melhor filme tenha sido mais por causa do elenco atraente ou das boas intenções de Estevez - que demorou sete anos para transformar a ideia em algo concreto. Mas é inegável que é um filme correto, sem exageros e até discreto - deixando de lado a atuação vergonhosa de Ashton Kutscher. Vale uma espiada, especialmente por seguir um viés diametralmente oposto ao "JFK" de Oliver Stone.

domingo

CELULAR, UM GRITO DE SOCORRO

CELULAR, UM GRITO DE SOCORRO (Cellular, 2004, New Line Cinema, 94min) Direção: David R. Ellis. Roteiro: Chris Morgan, estória de Larry Cohen. Fotografia: Gary Capo. Montagem: Eric Sears. Música: John Ottman. Figurino: Christopher Lawrence. Direção de arte/cenários: Jaymes Hinkle/Robert Gould. Produção executiva: Richard Brener, Douglas Curtis, Toby Emmerich,, Keith Goldberg. Produção: Dean Devlin, Lauren Lloyd. Elenco: Kim Basinger, Chris Evans, Jason Statham, William H. Macy, Jessica Biel. Estreia: 10/9/04

Existem algumas provas vivas de que um filme, mesmo repleto de clichês e com um roteiro não exatamente crível pode tornar-se um entretenimento eficaz quando tem a seu favor um conjunto de acertos. Com um roteiro com exata noção de timing, um direção eficiente e um elenco de atores adequados, "Celular, um grito de socorro" é o tipo de filme que entretém durante uma boa hora e meia e que, mesmo que seja esquecido pouco depois, cumpre o que promete sem pretender ser mais do que puro entretenimento.

E se é apenas entretenimento que o espectador procura, em "Celular" não há motivos para reclamação. Escrito por Chris Morgan com base em uma ideia de Larry Cohen - também autor da trama de "Por um fio", grande suspense de Joel Schumacher onde Colin Farrell se via preso em uma cabine telefônica de Nova York enquanto era progressivamente ameaçado por um misterioso psicopata - o roteiro de "Celular" não deixa o público ter tempo para pensar nos inúmeros buracos da narrativa graças à agilidade com que a trama é conduzida pelo diretor David R. Ellis - que posteriormente assinaria o cult trash "Serpentes a bordo" e morreria aos 60 anos de idade em janeiro de 2013. Veterano de filmes onde a adrenalina era ingrediente imprescindível, como o tenso "Premonição 2", Ellis conduz o espectador a uma jornada cujo final se pode antever desde o princípio - basta ser plateia assídua dos filmes policiais que Hollywood produz a granel - mas que nem por isso deixa de ter seus momentos de tensão.


Ellis não demora em começar sua história, já mostrando a que veio nos primeiros minutos: a professora Jessica Martin (Kim Basinger) vê sua bela casa invadida, sua doméstica morta e ela mesma nas mãos de um grupo de sequestradores liderados pelo truculento Ethan (Jason Statham, antes de virar ídolo de filmes descerebrados de ação). Presa em um quarto e incomunicável, ela dá um jeito de consertar o telefone do local (sim, os sequestradores a prendem em um quarto com um telefone...) e faz uma ligação aleatória (!!). A ligação acaba sendo para o celular de Ryan (Chris Evans), jovem californiano tranquilo e pacífico cujo maior problema é tentar reconquistar a namorada (Jessica Biel em participação relâmpago). A princípio descrente na situação descrita por uma apavorada Jessica, Ryan a ouve ser espancada e resolve ajudá-la, mantendo-a na linha (!!!) enquanto tenta encontrar um policial que o ouça - mesmo porque parece que nem mesmo a força policial está acima das suspeitas.

A profusão de absurdos da trama central - principalmente as relacionadas à ligação telefônica entre os dois protagonistas - poderia ser um problema, mas é difícil não se deixar envolver na história graças principalmente a dois trunfos: Kim Basinger e Chris Evans. Basinger, que conquistou o respeito e o prestígio com o Oscar de coadjuvante por "Los Angeles, cidade proibida" transmite com segurança e verossimilhança o desespero de sua personagem, atraindo para si a empatia do espectador que vai descobrindo aos poucos as circunstâncias que a levaram ao cativeiro. E Evans, carismático, deu seu primeiro passo para tornar-se um herói de filmes de ação baseados em quadrinhos - como aconteceu com os posteriores "Quarteto Fantástico" e "Capitão América". Amparados por um ritmo veloz e pela presença do sempre competente William H. Macy - aqui como um policial que tem a ambição de deixar a delegacia para tornar-se dono de um "spa de um dia" - Basinger e Evans dão conta do recado admiravelmente.

"Celular" é exatamente o que parece - e que é escondido por seu trailer sem graça: um filme para quem deseja divertir-se sem ligar o cérebro ou ser ofendido pela burrice de alguns produtores do cinemão. Não muda a vida de ninguém, mas é altamente recomendável para passar o tempo.

segunda-feira

A VIDA EM PRETO E BRANCO

A VIDA EM PRETO E BRANCO (Pleasantville, 1998, New Line Cinema, 124min) Direção e roteiro: Gary Ross. Fotografia: John Lindley. Montagem: William Goldenberg. Música: Randy Newman. Figurino: Judianna Makovsky. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Jay Hart. Produção executiva: Michael De Luca, Mary Parent. Produção: Robert J. Degus, Jon Kilik, Gary Ross, Steven Soderbergh. Elenco: Tobey Maguire, Joan Allen, Jeff Daniels, Reese Witherspoon, William H. Macy, J.T. Walsh, Paul Walker. Estreia: 17/9/98 (Festival de Toronto)

3 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original (Drama), Figurino, Direção de Arte/Cenários

De vez em quando, apesar da mesmice do cinemão americano, surge uma pequena pérola, um filme que, dentro de sua aparente simplicidade, conquista pela inteligência e pela delicadeza. Em 1998, esse filme foi "A vida em preto e branco", uma deliciosa comédia romântica que, por trás de uma sátira carinhosa aos seriados de televisão dos anos 50 - com suas famílias perfeitas e um mundo cor-de-rosa - esconde uma poderosa crítica ao fascismo moral e ao preconceito. Escrita e dirigida por Gary Ross - que cinco anos depois veria seu quadradinho "Seabiscuit, alma de herói" ser alçado à importante indicação ao Oscar de melhor filme - a co- produção de Steven Soderbergh é um deleite para os olhos e para a alma.

A princípio, parece bem bobinho - e talvez seja essa a intenção de Ross: um casal de irmãos gêmeos, a exuberante Jennifer (Reese Witherspoon antes da fama que acabou lhe rendendo um Oscar) e o introvertido David (Tobey Maguire) começam a brigar pela posse do controle remoto da televisão, cada um acreditando ter motivos mais fortes que o outro para ter o domínio da programação. Enquanto Jennifer espera assistir a um programa musical ao lado do colega de escola por quem tem uma forte atração, David prefere dedicar-se à "Maratona Pleasantville", que irá mostrar, sem interrupção, diversos episódios de sua série preferida - e acabar com um quiz que pode lhe dar um prêmio. A briga é interrompida quando o controle quebra e eles recebem a visita de um misterioso homem, que, ao invés de consertá-lo, joga os dois dentro do programa adorado por David. De uma hora pra outra, os dois adolescentes dos anos 90 - acostumados com refeições saudáveis e uma vida sem normas muito rígidas de comportamento social - se veem em um mundo totalmente diferente, tanto em termos morais quanto estéticos.


Enquanto David - acostumado com as regras desse novo mundo e ciente de todos os meandros de sua sociedade - sai-se bastante bem na suas tentativas de integrar-se a ele, Jennifer, rebelde por natureza, passa a questionar um por um dos itens que fazem da cidade um exemplo de convivência pacífica e apática. Seu desejo liberador por Skip Martin (Paul Walker) é o catalisador de uma profunda transformação na pacata Pleasantville, que nunca antes havia falado, pensado ou imaginado qualquer coisa relacionada à sexo ou sentimentos que pudessem abalar o status quo. Com a chegada dos irmãos, o mundinho em preto-e-branco da cidade começa a colorir-se conforme as pessoas passam a experimentar novas sensações - e até a mãe do casal, Betty (Joan Allen) descobre que amor é algo bem diferente da comodidade indiferente que sente ao lado do marido (em uma sequência genial onde ela encontra o caminho para a satisfação sexual em um banho de banheira que acaba dando trabalho aos bombeiros da cidade, que até então não faziam nada mais do que salvar gatinhos em árvores).

Utilizando-se de metáforas visuais para atacar o conformismo - e as tentativas ditatoriais para mantê-lo como forma de controle - "A vida em preto e branco" tem o mérito de não esquecer, em momento algum, que, antes de receber uma mensagem, o público procura uma boa história, narrada com coerência e clareza. E isso não é negado à plateia do filme de Ross, que testemunha, diante de seus olhos, uma trama delicada, por vezes engraçada e muito comovente, contada com recursos visuais deslumbrantes. Da fotografia de John Lindley até a criação de toda a Pleasantville - passando pela trilha sonora emocionante de Randy Newman, que comporta inclusive um versão de "Across the universe" na voz de Fiona Apple - tudo conflui para um resultado nunca aquém de soberbo, capaz de encantar qualquer audiência que se disponha a abrir o coração. Um pequena obra-prima.

OBRIGADO POR FUMAR

OBRIGADO POR FUMAR (Thank you for smoking, 2005, Room 9 Entertainment, 92min) Direção: Jason Reitman. Roteiro: Jason Reitman, romance de Christopher Buckley. Fotografia: James Whitaker. Montagem: Dana E. Glauberman. Música: Rolfe Kent. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Steve Saklad/Kurt Meisenbach. Produção executiva: Michael Beugg, Alessandro Camon, Max Levchin, Elon Musk, Edward R. Pressman, John Schmidt, Peter Thiel, Mark Woolway. Produção: David O. Sacks. Elenco: Aaron Eckhart, Katie Holmes, Maria Bello, Cameron Bright, Robert Duvall, Todd Louiso, J.K. Simmons, Kim Dickens, William H. Macy, Sam Elliot, Adam Brody, Rob Lowe, Melora Hardin. Estreia: 09/9/05 (Festival de Toronto)

Em uma época tão ridiculamente apegada a uma risível onda de correção política não deixa de ser um motivo de grandes comemorações que um filme como "Obrigado por fumar" tenha chegado às telas. Cínico, debochado e sardônico, o filme de estreia do cineasta Jason Reitman - filho do diretor Ivan e que se tornaria queridinho da crítica com seu filme seguinte, o hypado e inferior "Juno" - é um tapa na cara das convenções sociais dos EUA do início do século XXI, ao eleger como seu protagonista um anti-herói desprovido de moralidade e ética e que, apesar disso (ou talvez até mesmo por causa disso) é total e absolutamente carismático. Interpretado por um Aaron Eckhart mais à vontade do que nunca, Nick Naylor, lobista da indústria tabagista americana, é provavelmente uma das personagens mais interessantes a surgir na comédia ianque em muito tempo.

Criado pelo escritor Christopher Buckley no livro que deu origem ao filme, Naylor é o vice-presidente da Academia dos Estudos do Tabaco e, como tal, é um aguerrido defensor de seu produto, o que o torna de cara uma persona non grata por uma parcela do Congresso americano, em especial o senador Ortolan Finistirre (William H. Macy, ótimo), que propõe que todo e qualquer maço de cigarro seja vendido com a imagem mundial de veneno (uma caveira com dois ossos cruzados). Sendo constantemente agredido pela patrulha politicamente correta, Naylor ainda precisa lidar com a possibilidade de seu único filho, Joey (Cameron Bright) desprezar seu trabalho. Para evitar isso - e desafiar a ex-mulher - ele resolve então levar o menino em uma viagem a negócios, onde lhe mostrará o outro lado de seu emprego. Nesse meio tempo - que envolve uma viagem a produtores de Hollywood e a um ex-garoto propaganda que está morrendo de câncer de pulmão - ele ainda se envolverá com uma ambiciosa repórter, Heather Holloway (Katie Holmes), cuja maior intenção é fazer com ele uma reportagem pouco amável.



O maior mérito de "Obrigado por fumar" - além da veia cafajeste de Eckhart voltar a aflorar depois do polêmico "Na companhia de homens" - é o roteiro esperto de Reitman, que esbanja sarcasmo e tiradas engraçadíssimas a respeito do american way of life. São particularmente inspirados os diálogos que incluem Naylor e seus melhores amigos - auto-denonimados como os Mercadores da Morte - que representam as indústrias de arma e álcool e ficam disputando quem é o recordista de óbitos no país. A visita do protagonista ao executivo de cinema vivido por Rob Lowe também é hilariante - dando um vislumbre de como são as reuniões que resultam em filmes já originados como bombas - e nem mesmo o que em tese deveria ser levado a sério - a doença do símbolo da masculinidade imposta pelo cigarro (em uma atuação inspirada de Sam Elliott)  - é retratado com sobriedade. E justamente essa coragem em não se deixar contaminar pelo corriqueiro é que eleva o filme de Reitman a um nível superior às comédias que emburrecem o espectador.

No fim das contas, "Obrigado por fumar" é uma comédia das mais inteligentes produzidas no cinema americano em muito tempo. Não arranca gargalhadas histéricas, mas mexe com o cérebro e com a percecpção da audiência a respeito de um assunto que já foi tratado anteriormente com seriedade e contundência no ótimo "O informante". Assistir aos dois na corrida provavelmente seria muito mais útil do que muitos comerciais apelativos transmitidos pela TV.

quinta-feira

MAGNÓLIA

MAGNÓLIA (Magnolia, 1999, New Line Cinema, 188min) Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Música: Jon Brion. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: William Arnold, Mark Bridges/Chris Spellman. Produção executiva: Michael De Luca, Lynn Harris. Produção: Paul Thomas Anderson, JoAnne Sellar. Elenco: Jason Robards, Julianne Moore, Philip Seymour Hoffman, Tom Cruise, John C. Reilly, Melora Walters, William H. Macy, Philip Baker Hall, Melinda Dillon, Alfred Molina, Luiz Guszman, Jeremy Blackman. Estreia: 17/12/99

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Tom Cruise), Roteiro Original, Canção Original ("Save me")
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Tom Cruise)

Quando trata-se de cinema, normalmente o adjetivo "épico" vem acompanhado de cenários grandiosos, fotografia esplendorosa cobrindo vastas paisagens, uma trilha sonora grandiloqunte e personagens heroicos lutando por causas nobres e altruístas em espetáculos longos de ritmo alucinante. Por isso não deixa de ser um choque assistir-se à "Magnólia", de Paul Thomas Anderson, descrito por seu criador como um "épico sobre pessoas comuns". Épico? Os cenários são apartamentos à meia-luz, auditórios de programas de TV, bares frequentados por perdedores. A fotografia é sutil, discreta, tenuamente iluminada. A trilha sonora é composta por canções que falam de dor, rejeição e insegurança interpretadas por uma cantora folk de voz delicada. E as personagens podem ser consideradas quaisquer coisas, menos nobres e altruístas, porque lutam pela própria felicidade e contra a solidão e o arrependimento. Excetuando-se a longa duração (quase três horas), nada em "Magnólia" corresponde ao conceito de "filme épico". E talvez justamente por isso, por essa distorção, o trabalho de Anderson seja um dos melhores filmes da década de 90.
Anderson, também diretor do ótimo “Boogie nights, prazer sem limites” não tem medo de ousar em sua nova obra. Nada em “Magnólia” acontece da maneira que acontece em outros filmes e sim da maneira como ocorre na vida real. A história de amor contada no decorrer de sua duração - entre o policial  Jim (John C. Reilly) e a viciada em cocaína Claudia (Melora Walters, a grande revelação do filme) -  não ocorre entre dois exemplos de beleza em busca de uma felicidade de comercial de margarina e sim entre duas pessoas adultas e inseguras, com um belo histórico de problemas e personalidades conflitantes de verdade. Donnie Smith, o gênio mirim do passado (o ótimo William H. Macy) não quer ganhar dinheiro para viajar para Aspen e sim para colocar um aparelho nos dentes e assim conquistar a atenção e quem sabe o amor de um garçom mais jovem e atraente. Stanley Spector (Jeremy Blackman), o gênio mirim do presente, quer conquistar o amor do ambicioso pai e ter o direito de ir ao banheiro no momento em que precisar. O empresário moribundo Earl Partridge (o veterano Jason Robards em seu último e grande trabalho) não quer morrer em paz e sim obter o perdão do filho que abandonou, o guru de autoajuda sexual Frank T. Mackey(Tom Cruise em seu melhor trabalho, indicado ao Oscar de ator coadjuvante) e sua mulher, Linda (Julianne Moore nunca aquém de espetacular), que casou-se com ele por dinheiro, descobre, na iminência de sua morte, que o ama de verdade.



Cada cena em “Magnólia” surpreende por sua capacidade de emocionar sem apelar para o trivial e em buscar sempre a solução menos convencional, fato que fica evidente em seu clímax – uma chuva de sapos aparentemente sem qualquer explicação racional – e em uma das cenas mais comentadas de seu tempo – uma bela seqüência onde todos os personagens entoam a bela “Wise up”, da cantora Aimée Mann. A edição ágil de Dylan Tichenor colabora com a intenção do diretor em demonstrar o estado de excitação e angústia de seu grande número de personagens, todos envolvidos em momentos de total e dolorida verdade, seja ela o reencontro com um pai cuja imagem nunca foi positiva ou a revelação de um passado pouco agradável.

Contando com um elenco impecável (onde até mesmo Tom Cruise se sai bem, apesar da personagem irritante) e com uma trilha sonora que dificilmente pode ser excluída do rol de personagens devido à sua importância capital no desenrolar das cenas - mais do que simplesmente comentá-las, a trilha surge quase como uma espécie de consciência - "Magnólia" talvez seja o melhor exemplo de como um filme pode ser denso sem ser petulante e triste sem ser piegas. Envolvente desde sua fascinante sequência de abertura, é também a prova viva de quem nem sempre a palavra "épico" precisa estar necessariamente ligada a vastas paisagens (ainda que a alma humana muitas vezes seja tão seca e árida quanto o maior deserto).

segunda-feira

A QUALQUER PREÇO

A QUALQUER PREÇO (A civil action, 1998, Touchstone Pictures/Paramount Pictures/Wildwood Enterprises, 115min) Direção: Steven Zaillian. Roteiro: Steven Zaillian, romance de Jonathan Harr. Fotografia: Conrad L. Hall. Montagem: Wayne Wahrman. Música: Danny Elfman. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: David Gropman/Tracey A. Doyle. Produção executiva: David Wisnievitz, Steven Zaillian. Produção: Rachel Pfeffer, Robert Redford, Scott Rudin. Elenco: John Travolta, Robert Duvall, Tony Shalhoub, William H. Macy, Zeljko Ivanek, John Lithgow, Kathleen Quinlan, James Gandolfini, Dan Hedaya, Stephen Fry, Sydney Pollack. Estreia: 25/12/98

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Robert Duvall), Fotografia
Vencedor do Screen Actors Guild: Ator Coadjuvante (Robert Duvall)

Cerca de dois anos antes que Julia Roberts ganhasse o Oscar por seu trabalho em "Erin Brokovich, uma mulher de talento", uma história semelhante já havia sido levada às telas, sob a competente direção de Steven Zaillian, premiado pela Academia pelo roteiro de "A lista de Schindler". Baseado em um livro de Jonathan Harr - por sua vez inspirado em um fato real - "A qualquer preço" é um eficiente drama de tribunal, que compensa sua falta de maiores emoções por uma narrativa enxuta e sóbria, valorizada pela bela fotografia do veterano Conrad L. Hall e pelo trabalho sutil de John Travolta.

Tentando manter a boa fase da carreira - fase essa que começou com a indicação ao Oscar por "Pulp fiction" - Travolta tem uma atuação discreta como Jan Schlichtmann, um advogado bem-sucedido de Boston que vê cair em suas mãos um caso que pode lhe dar fama e dinheiro: oito famílias o procuram com o objetivo de processar um curtume responsável por poluir um rio que lhes proporciona a água potável que consomem. Dessas famílias, crianças morreram de leucemia e, através de uma das mães, Anne Anderson (Kathleen Quinlan), ele toma contato com todos os problemas causados pela empresa (na figura de seu dono, vivido por um perfeito Dan Hedaya). Indo para os tribunais, Jan enfrenta o advogado Jerome Facher (Robert Duvall) e fica meses a fio em um julgamento complicado que acaba com todo o dinheiro de sua firma. Mesmo falido, ele transforma o caso em uma espécie de obsessão.


O roteiro, escrito pelo próprio Zaillian, foge como o diabo da cruz das armadilhas de transformar o filme em um drama lacrimoso - assim como o fez Francis Ford Coppola em "O homem que fazia chover" - e prefere centrar seu foco nos problemas financeiros de seu protagonista, mais um exemplar de personagem que sofre uma transformação ética no decorrer do processo. John Travolta segura bem a gradual mudança na personalidade de Schlichtmann, nunca ultrapassando os limites da discrição. Seu trabalho encontra eco em William H. Macy (como seu contador) e Kathleen Quinlan, que também se destaca pelo minimalismo, apesar do fato de apenas Robert Duvall ter sido lembrado pelas cerimônias de premiação (o veterano ator chegou a ser indicado ao Oscar). Em um filme que dá mais importância a seus atores do que a qualquer outro quesito, "A qualquer preço" encontra em seu elenco o maior trunfo.

Pecando por evitar maiores reviravoltas ou grandes cenas dramáticas que fazem a glória dos filmes de tribunal, "A qualquer preço" é um programa que agrada aos fãs do gênero justamente por evitar seus maiores clichês. É um tanto longo demais, mas vale uma conferida.

domingo

MERA COINCIDÊNCIA

MERA COINCIDÊNCIA (Wag the dog, 1997, New Line Cinema, 97min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Hilary Henkin, David Mamet, livro "American hero", de Larry Beinhart. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Stu Linder. Música: Mark Knopfler. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Robert Greenfield. Produção executiva: Michael De Luca, Claire Rudnick Polstein, Ezra Swerdlow. Produção: Robert De Niro, Barry Levinson, Jane Rosenthal. Elenco: Dustin Hoffman, Robert De Niro, Anne Heche, Denis Leary, Willie Nelson, Kirsten Dunst, Woody Harrelson, William H. Macy, James Belushi. Estreia: 25/12/97

2 indicações ao Oscar: Ator (Dustin Hoffman), Roteiro Adaptado
Prêmio Especial do Júri no Festival de Berlim

A vida imita a arte, a arte imita a vida ou o mundo da política é tão previsível que nada mais surpreende o eleitor? Essa é a dúvida que fica no ar após uma sessão de "Mera coincidência", lançado pelo premiado Barry Levinson em dezembro de 1997, no auge do escândalo envolvendo o presidente Bill Clinton e a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky. Porém, apesar do timing perfeito - que beneficiou o filme, m termos de badalação midiática - e da extrema semelhança entre ficção e acontecimentos reais, tudo não passou exatamente de, com o perdão do trocadilho, mera coincidência. Quando Clinton chegou às manchetes, acusado de manter um caso extra-conjugal com Lewinsky, o trabalho de Levinson já estava em fase de pós-produção. Quer se acredite ou não, "Mera coincidência" (título mais apropriado à ironia da questão em si do que ao filme propriamente dito) não é inspirado no governo do marido de Hilary. E isso faz dele ainda mais desconcertante.

Quando o filme começa, o presidente dos EUA está em uma acirrada campanha pela reeleição. Esta campanha - amparada na velha frase Pra que trocar de cavalos no meio da corrida?, oriunda de um discurso de Abraham Lincoln - sofre um abalo considerável quando uma estudante acusa o chefe máximo da nação de tê-la assediado sexualmente. Desesperados para diminuir o estrago, os assessores de marketing da Casa Branca apelam para Conrad (Robert De Niro), especializado em resolver problemas. Conrad, raposa velha dos meios políticos sabe que somente uma coisa rivaliza em interesse com escândalos sexuais uma guerra. Porém, como o país está passando por um período de paz, essa guerra terá que ser criada. Para isso, é chamado Stanley Motss (Dustin Hoffman), um produtor hollywoodiano. Talentoso e criativo, Motss praticamente inventa uma guerra - com direito a imagens falsas, heróis viris, vítimas inocentes e até mesmo uma cançã-tema. Em poucos dias, toda a atenção dos eleitores está nas notícias sobre o conflito entre EUA e Albânia (que não tem a menor ideia do que está acontecendo).



"Mera coincidência" é uma comédia de ironias. Desperta sorrisos, nunca gargalhadas. O cérebro ri mais do que a boca, uma vez que as piadas não são sideradas ou explícitas. Tudo é muito sutil no roteiro inteligente a cargo do dramaturgo David Mamet e de Hilary Henkin - adaptando um romance de Larry Beinhart. As situações criadas por Beinhart são muito mais engraçadas do que as (poucas) piadas, que fazem todo o sentido do mundo para uma audiência acostumada ao mais ridículos absurdos providos pela televisão. A trama, repleta de reviravoltas e surpresas inacredítáveis (mas muito verossímeis) leva as personagens - e o espectador - a situações engraçadíssimas (o herói de guerra escolhido, por exemplo, é um condenado por estuprar uma freira). Até mesmo a canção criada para "embalar" a guerra não deixa de ser hilária, por lembrar nitidamente eventos como os "We are the world" da vida.

Filmado durante um intervalo nas filmagens de "Esfera" - também dirigido por Levinson e estrelado por Hoffman - "Mera coincidência" tem um resultado bastante superior à chata ficção científica do cineasta. É um humor inteligente, adulto e politicamente incorreto. Um filme para ser descoberto.

segunda-feira

BOOGIE NIGHTS, PRAZER SEM LIMITES

BOOGIE NIGHTS, PRAZER SEM LIMITES (Boogie nights, 1997, New Line Cinema, 155min) Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Música: Michael Penn. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: Bob Ziembicki/Sandy Struth. Produção executiva: Lawrence Gordon. Produção: Paul Thomas Anderson, Lloyd Levin, John Lyons, Joanne Sellar. Elenco: Mark Wahlberg, Burt Reynolds, Julianne Moore, John C. Reilly, Heather Graham, Phillip Seymour Hoffman, William H. Macy, Don Cheadle, Joanna Gleason, Thomas Jane, Alfred Molina, Luis Guzman, Melora Walters, Philip Baker Hall. Estreia: 10/10/97

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Burt Reynolds), Atriz Coadjuvante (Julianne Moore), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Burt Reynolds)

Em 1988 um ainda adolescente Paul Thomas Anderson escreveu e dirigiu um falso documentário em curta-metragem chamado "The Dirk Diggler story", que narrava a ascensão e a queda de um ator pornô. Menos de dez anos depois, Anderson já era um cineasta - seu primeiro filme "Jogada de risco" havia sido lançado em ... - mas a história de seu curta ainda martelava em sua cabeça. Assim, com um orçamento um pouco mais generoso (mas ainda irrisório em comparação com outras produções da época) ele dirigiu seu segundo longa, que expandia - e muito - a história de Diggler. "Boogie Nights, prazer sem limites" acabou deslumbrando a crítica especializada e mostrou que Anderson era um cineasta já pronto antes mesmo dos 30 anos de idade.

A história começa em 1977, quando o adolescente Eddie Adams (Mark Wahlberg) é convidado pelo diretor de filmes "para adultos" Jack Horner (Burt Reynolds) a juntar-se à sua já consagrada equipe. Trabalhando como auxiliar de cozinha de uma casa noturna e em constante atrito com a família, Eddie identifica na relação de Horner e seus empregados um núcleo familiar mais saudável do que o seu e, com a ambição de ficar rico e famoso, assume o nome de Dirk Diggler e torna-se o maior astro pornô da época. Dotado de um instrumento de trabalho invejável, ele ganha todos os prêmios da indústria, cria personagens históricos e se envolve no mundo das drogas, iniciando então uma decadência física e moral.

Utilizando a meteórica ascensão de Diggler, o diretor/roteirista/produtor Anderson faz um inventário de uma das épocas mais queridas do imaginário americano e mundial. Os anos 70, com seus excessos, glamour e liberdade sexual, é uma personagem a mais na trama de "Boogie nights", tendo papel de fundamental importância para o desenvolvimento do roteiro - cujas 300 páginas iniciais foram diminuídas para 180 no produto final. A trilha sonora escolhida pelo diretor, por exemplo, jamais chama a atenção para si: é orgânica, parte essencial da narrativa, como um papel de parede (ou um dos pôsters do quarto do jovem Eddie). Da mesma forma, a direção de arte kitsch e o figurino espalhafatoso ajudam a contar a história, situando cada momento de forma inconfundível. É brilhante a maneira com que todos os elementos de "Boogie nights" estão absolutamente conectados, como peças interdependentes que se unem para formar um painel gigante. E para isso, além do visual, Paul Thomas Anderson conta com um elenco de causar inveja a Quentin Tarantino.



Assim como na filmografia de Tarantino, não há, em "Boogie nights", um protagonista absoluto. Ainda que Dirk Diggler seja o objeto da trama e seu catalisador, a narrativa do filme se estende além de sua trajetória. Anderson é um roteirista inspirado e inteligente, que dá a seus coadjuvantes histórias próprias que os elevam acima da condição de meras escadas. Julianne Moore está em uma de suas melhores atuações como Amber Waves, a estrela da companhia de Jack Horner, uma mulher madura, delicada e intensa que luta pela guarda do filho pequeno ao mesmo tempo em que, em sua vida paralela, pratique cenas de sexo explícito e consuma quilos e mais quilos de cocaína. Burt Reynolds - no papel de sua vida - dá a Jack Horner um intenso senso de desejo artístico (sua personagem quer mais do que simplesmente ganhar dinheiro com cinema pornô, ele quer ser reconhecido como um artista...) Heather Graham faz de sua Rollergirl (papel recusado por Gwyneth Paltrow) uma jovem tentando encontrar seu caminho na vida e até mesmo o produtor dos filmes de Horner, Coronel James, do alto de sua pedofilia, é capaz de despertar uma certa compaixão no espectador. Esse talento de Anderson em dar uma aura humana a qualquer personagem faz de "Boogie nights" um dos melhores dramas intimistas da década de 90 (a despeito de não ser tratado como tal). Melhor que ele, somente "Magnólia", lançado dois anos depois e também assinado por ele.

Mas falar de "Boogie nights" sem falar de seu tema central seria absurdo. Mesmo que suas personagens secundárias sejam tão interessantes quanto a trama principal, é sobre a indústria pornô dos anos 70 que versa "Boogie nights". A era disco - retratada de maneira carinhosa mas ainda assim com um certo ar de decadência depressiva - é a espinha dorsal do filme, o cenário sobre o qual se desenvolvem todos os dramas criados por Anderson: a entrega de Dirk às drogas, a luta de Amber pelo filho, a tragédia envolvendo Little Bill (William H. Macy) - que mata a mulher adúltera em plena festa de Reveillon - e a substituição do filme por videotape no início da década de 90 são narrados com maestria por um jovem cineasta no auge de sua energia. A primeira cena - um plano-sequência de cerca de 3 minutos que apresenta as principais personagens em um clube noturno - já demonstra, de cara, que Paul Thomas Anderson não é um cineasta qualquer.

E boa parte da energia que "Boogie nights" transmite ao espectador se deve à presença de Mark Wahlberg. Desacreditado como ator e vindo de uma carreira como modelo de cuecas Calvin Klein e como o rapper Marky Mark, o quase estreante ficou com o papel oferecido a Leonardo DiCaprio e não poderia ter se saído melhor. Não é um grande ator, mas tem uma presença cênica forte o bastante para jamais comprometer - além de ter uma estampa bagaceira que casa perfeitamente com o protagonista que interpreta. É ele o rosto (e o corpo) de "Boogie nights" e, se o filme é tão bom muito da responsabilidade é de sua entrega ao papel e da direção nervosa de Paul Thomas Anderson.

"Boogie nights" é um dos melhores filmes dos anos 90 e ponto final. É forte, é audacioso, é inteligente e tem um senso de humor dos mais macabros. Obra de gênio!

sexta-feira

FARGO, UMA COMÉDIA DE ERROS

FARGO, UMA COMÉDIA DE ERROS (Fargo, 1996, Polygram Filmed Entertainment/Working Title Films, 98min) Direção: Joel Coen. Roteiro: Joel & Ethan Coen. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/Lauri Gaffin. Produção executiva: Tim Bevan, Eric Fellner. Produção: Ethan Coen. Elenco: Frances McDormand, William H. Macy, Steve Buscemi, Peter Stormare, Kristin Rudrud, Harve Presnell, John Carroll Lynch. Estreia: 08/3/96

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Joel Coen), Atriz (Frances McDormand), Ator Coadjuvante (William H. Macy), Roteiro Original, Fotografia, Montagem
Vencedor de 2 Oscar: Melhor Atriz (Frances McDormand), Roteiro Original
Palma de Ouro Festival de Cannes: Melhor Diretor (Joel Coen)

Afinal de contas, a que gênero cinematográfico pertence o filme "Fargo, uma comédia de erros"? Ora uma comédia de humor negro, ora um policial repleto de surpresas, ora uma mordaz crítica ao modo de vida dos "caipiras" americanos, o 6º longa dos irmãos Coen - queridinhos da crítica desde a década de 80 - aprimorou seu estilo mezzo anárquico mezzo subsersivo de forma a finalmente conquistar a sisuda Academia. Indicado a sete estatuetas do Oscar, levou duas - roteiro original e atriz - provando que, de vez em quando, boas ideias e inteligência são mais importantes que efeitos mirabolantes e orçamentos inchados. Desde que surgiram no cenário artístico americano - com o noir tardio "Gosto de sangue", de 1984 - Joel e Etan Coen nunca fizeram nada que não merecesse elogios rasgados da crítica. Roteiristas, diretores, produtores e até mesmo editores (sob o pseudônimo de Roderick Jaynes), eles são uma indústria de dois homens. E "Fargo" é uma de suas obras-primas.

Fargo é uma pequena cidade do interior de Dakota do Norte, onde acontece o encontro que dá o pontapé inicial à trama criada pelos Coen - falsamente indicada como uma história real nos créditos de abertura. É em um bar esfumaçado de Fargo que o Jerry Lundegaard (William H. Macy) conhece os mal-encarados  Carl Showalter (Steve Buscemi) e Gaear Grimsrud (Peter Stormare), recomendados por um colega de trabalho. Gerente de uma concessionária de automóveis, Jerry tem um plano aparentemente infalível para arrumar o dinheiro que lhe dará a oportunidade de investir em um negócio próprio: ele contrata os dois desconhecidos para que sequestrem sua esposa e peçam resgate a seu rude e seco sogro (Harve Presnell). Quando as coisas saem do controle - e corpos começam a se acumular - entra em cena Marge Gunderson (Frances McDormand), uma policial grávida de muitos meses que, detalhista e dedicada, tem como missão resolver o caso dos assassinatos ocorridos em sua jurisdição.

A recepção calorosa dos membros da Academia a "Fargo" é fácil de entender. Apesar de manter intactas as principais características de seu cinema - e até exagerá-las em determinadas sequências - Joel e Ethan Coen atingem, aqui, um equilíbrio raro entre a subversão e o mainstream. O visual apurado - cortesia de uma fotografia gélida de Roger Deakins - está um passo acima de seus trabalhos anteriores, e é brilhante a forma como o roteiro escrito a quatro mãos é conciso e assertivo. Sem apelar para as complicações de "Ajuste final", por exemplo, os irmãos contam sua história de forma direta, evitando ao máximo desviar a atenção da audiência para tramas paralelas. E, ao contrário da regra não escrita que dita que um filme policial precisa ser levado a sério e uma comédia não deve recorrer à violência, embaralham as cartas de maneira a surpreender o público a cada nova cena. E para isso, contam com personagens quase inacreditáveis vividos por um elenco nunca aquém de brilhante.


O humor nos filmes dos irmãos Coen é absolutamente particular. Não desperta gargalhadas histéricas nem tampouco é fácil ou comum, surgindo sempre da ironia, e isso nunca foi tão óbvio quanto em "Fargo". Os cadenciados diálogos que movem a história de morte e violência encontram em atores sensacionais sua voz perfeita. William H. Macy começa aqui uma galeria de homens fracassados que encontraria o auge em sua parceria com o diretor Paul Thomas Anderson, nos filmes "Boogie nights" e "Magnólia", onde viveria respectivamente um marido traído e um ex-gênio precoce decadente. Sua indicação ao Oscar de ator coadjuvante foi justíssima e um prêmio não seria imerecido - principalmente se for levado em conta que perdeu a estatueta para o exagerado Cuba Gooding Jr.. Steve Buscemi e Peter Stormare formam uma dupla impecável em suas diferenças cruciais - e Stormare consegue ser apavorante nos momentos mais fortes do filme. Mas é Frances McDormand quem rouba descaradamente a cena, em uma interpretação genial, felizmente reconhecida com uma estatueta dourada.

Falando com um sotaque absurdo - e com uma naturalidade impressionante - McDormand faz de sua Marge uma personagem multidimensional, alternando sua personalidade metódica de policial com a doçura de uma futura mãe. É McDormand, com suas inflexões vocais e físicas (seu rosto é excepcional para comunicar-se com o público mesmo sem uma palavra dita) que parece dar um sentido de ordem à bagunça orquestrada pelos realizadores. Suas cenas com John Carroll Lynch - que vive seu marido dono-de-casa - são tranquilas, quase tediosas, como forma de demonstrar sua vida doméstica. Quando contracena com William H. Macy transforma-se em uma mulher forte que esconde sua inteligência atrás do barrigão de gestante. Com seus interrogados ela transmuta-se no que for preciso para arrancar informações. Como atriz, McDormand - esposa de Joel Coen - é digna de arrancar os maiores elogios possíveis.

"Fargo" é uma pequena pérola do cinema independente americano. Realizado com meros 7 milhões de dólares, é uma prova cabal de que pouco dinheiro nunca foi desculpa para falta de talento. Mesmo não agradando a todos os tipos de público - cuja maioria prefere assistir sempre a filmes mais "comuns" - é uma obra que une a ousadia do cinema de autor com a qualidade técnica da indústria hollywoodiana.

segunda-feira

MR. HOLLAND, ADORÁVEL PROFESSOR

MR. HOLLAND, ADORÁVEL PROFESSOR (Mr. Holland's Opus, 1995, Hollywood Pictures/Polygram Filmed Entertainment, 143min) Direção: Stephen Hereck. Roteiro: Patrick Sheane Duncan. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Trudy Ship. Música: Michael Kamen. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: David Nichols/Jan Bergstrom. Produção executiva: Patrick Sheane Duncan, Scott Kroopf. Produção: Robert W. Cort, Ted Field, Michael Nolin. Elenco: Richard Dreyfuss, Glenne Headly, Jay Thomas, Olympia Dukakis, William H. Macy, Alicia Witt, Terrence Howard, Forest Whitaker, Joanna Gleason, Joseph Anderson. Estreia: 29/12/95

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Richard Dreyfuss)

Não há como subestimar o poder de um grande ator. Mesmo muito tempo depois de ser um dos mais populares astros de Hollywood - o que aconteceu nos anos 70, quando trabalhou com Steven Spielberg em "Tubarão" e "Contatos imediatos de terceiro grau" - Richard Dreyfuss é a principal razão pela qual o drama "Mr. Holland, adorável professor" fez o sucesso que fez nas bilheterias americanas. Mesmo sem ter a seu favor uma beleza estonteante ou fazer parte de qualquer franquia milionária, Dreyfuss tem carisma o bastante para fazer com que o filme de Stephen Herek tenha rendido mais de 80 milhões de dólares somente no mercado americano. Indicado ao Oscar por seu precioso trabalho, ele teve o azar de bater de frente com o ultra-premiado Nicolas Cage. Caso contrário, era bem possível que também tivesse conquistado os eleitores da Academia mais uma vez, quase vinte anos depois de sua primeira vitória, por "A garota do adeus".

Quando a história de "Mr. Holland" começa, em 1965, o protagonista tem 30 anos de idade, enquanto Dreyfuss já estava perto dos cinquenta. Basta alguns minutos, porém, para que esse pequeno problema matemático seja abstraído, graças à atuação gigantesca do ator. Ele vive Glenn Holland, que tem como maior sonho de sua vida compor uma sinfonia para deixá-lo rico e famoso. Buscando tempo suficiente para atingir seu objetivo, ele arruma um trabalho como professor de Apreciação Musical em uma tradicional escola do interior dos EUA. A princípio frustrado com sua falta de vocação, logo ele descobre uma maneira pouco tradicional de conquistar seus alunos: misturando Bach com rock'n'roll, ele choca seus superiores, mas seduz seus estudantes, que passam a admirá-lo incondicionalmente. A cada dia mais e mais empurrado para longe da realização de seu sonho - principalmente por compromissos financeiros domésticos - ele não percebe a passagem dos anos, até que, trinta anos depois, quando a escola decide fechar o departamento de música, ele nota que sua vida girou em torno de influenciar todos os que passaram por suas aulas.



O roteiro de Patrick Sheane Duncan - indicado ao Golden Globe - faz milagres ao compactar trinta anos de movimentos sociais e musicais em pouco mais de duas horas de duração sem soar apressado ou superficial. Seu maior toque de inteligência foi utilizar um sub-gênero hollywoodiano - o filme de professor - para contar uma trama que alterna momentos puramente emocionais com uma disfarçada crítica às instituições de ensino americanas, bem como sua história. Traumas como a guerra do Vietnã e a morte de John Lennon são o pano de fundo para a trajetória de um homem comum, que precisa lidar com problemas pessoais - como a surdez do único filho - ao mesmo tempo em que precisa ser a inspiração para adolescentes em ebulição. E é comovente como ele ajuda a tímida Gertrude Lang (Alicia Witt) a levantar a auto-estima, o problemático Louis Russ (Terrence Howard) a manter-se na escola e a talentosa Rowena Morgan (Jean Louisa Kelly) a buscar suas aspirações - e com quem tem um perigoso flerte. Seus alunos, como bem diz uma personagem na sequência final, são sua sinfonia. E entre eles, em participações não creditadas, estão atores como Forest Whitaker e Balthazar Getty.

E a música é elemento fundamental em "Mr. Holland, adorável professor". Ao acompanhar a evolução rítmica do mundo ocidental, da década de 60 - quando o rock ainda estava em seu período áureo - até a metade dos anos 90, o público é brindado com um apanhado de belas canções, que vão de Gershwin a Beatles. E é justamente a morte de John Lennon a responsável pela mais bela cena do filme, quando Holland faz uma singela homenagem ao filho cantando "Beautiful boy", que o ex-Beatle compôs para o herdeiro Sean. São esses momentos de absoluta ternura que conquistam a plateia, a despeito de estarem perigosamente perto do piegas. E é aí que o talento de seus protagonistas faz toda a diferença.

Richard Dreyfuss é um dos atores mais sensacionais do cinema americano e demonstra isso em cada momento de "Mr. Holland". Dos 30 aos 60 anos de idade, ele convence plenamente, seja como professor dedicado, como compositor frustrado ou marido em crise de meia-idade. Capaz de emocionar e fazer rir, ele encontra em Glenne Headly uma parceira ideal. Na pele de Iris, sua esposa fiel e companheira, a atriz não deixa o astro eclipsar um trabalho sutil e delicado, injustamente esquecido pelas cerimônias de premiação do ano de 1995. Juntos, o casal conduz o público por um caminho emocionante, agradável e pontuado por uma trilha sonora deliciosa.

O único problema de "Mr. Holland, adorável professor" é que ele é capaz de despertar lágrimas até mesmo no mais empedernido espectador. E nem todo mundo gosta de assumir seu lado sensível...

sábado

ASSASSINATO EM PRIMEIRO GRAU

ASSASSINATO EM PRIMEIRO GRAU (Murder in the first, 1995, Warner Bros, 122min) Direção: Marc Rocco. Roteiro: Dan Gordon. Fotografia: Fred Murphy. Montagem: Russell Livingstone. Música: Christopher Young. Figurino: Sylvia Vega Vasquez. Direção de arte/cenários: Kirk M. Petruccelli/Greg Grande. Produção executiva: Marc Rocco, David L. Wolper. Produção: Marc Frydman, Mark Wolper. Elenco: Kevin Bacon, Christian Slater, Gary Oldman, Embeth Davidtz, William H. Macy, Stephen Tobolowsky, Brad Dourif, R.Lee Ermey. Estreia: 20/01/95

Um dos mais famosos presídios do mundo, Alcatraz foi o tema central de um dos mais conhecidos filmes de Clint Eastwood, "Alcatraz, fuga impossível", de 1979. Considerado um dos presídios mais seguros do planeta, localizado em uma ilha perto de San Francisco e construída em 1934 (sobreviveu como instituição penal até 1963), Alcatraz passou, ao menos na sétima arte, de cenário a personagem. Em "Assassinato em primeiro grau", ele foi, inclusive, acusado de cumplicidade em um homicídio. Baseado em uma história real, o filme de Marc Rocco - que ficou com um projeto inicialmente pensado para Oliver Stone - tem boas intenções (denunciar o sistema penitenciário e a violação de direitos humanos), mas esbarra na total falta de sutileza de seu diretor.

Nos anos 30, quando Alcatraz estava no auge de sua fama como um local de fuga impossível, o jovem Henry Young (Kevin Bacon) tenta escapar, em companhia de outros presidiários. Capturado em seguida, ele é mandado para a solitária, ficando sem sol, sem luz e sem contato com quaisquer seres humanos pelo absurdo prazo de 3 anos e 2 meses - sendo que o máximo permitido por lei para tal castigo é de apenas 19 dias. Brutalizado pelo superindentente do lugar, o frio Milton Glenn (Gary Oldman), ele sai do buraco onde esteve encarcerado e tenta voltar à vida normal de condenado. No entanto, ele mata violentamente o delator de seu plano de fuga e volta ao banco dos réus, sob risco de ser condenado à morte - sendo que foi preso pela primeira vez por roubar 5 dólares de um posto de correio. Para defendê-lo, é designado o jovem e idealista James Stamphill (Christian Slater), que surpreende a audiência ao afirmar que o principal culpado do crime não é Young, e sim o sistema carcerário de Alcatraz.


Como convém a um filme com pretensões comerciais, "Assassinato em primeiro grau" toma algumas liberdades poéticas para contar sua história, a principal delas em relação a um de seus protagonistas, o apenado Henry Young. Retratado no roteiro de Dan Gordon como uma vítima absoluta do sistema e da sociedade (como normalmente acontece com filmes com intenções de provocar discussões), o verdadeiro Young não era tão desprovido de maldade e nem tão puro assim, tendo cometido roubo a banco, violência contra um refém e até mesmo um assassinato ANTES de ser encarcerado em Alcatraz. Não justifica nenhuma violência cometida contra ele, é claro, mas é um truque um tanto sujo dos produtores, que forçam assim uma empatia óbvia com ele. E talvez seja justamente nesse ponto que a receita desanda.

Dirigindo com mão pesada uma história por si só trágica e absurda, Marc Rocco - que não assinou mais nenhum filme desde então - peca principalmente por não permitir ao público as discussões que tenta suscitar. Não há espaço para argumentos, uma vez que, no maniqueísta roteiro, o bem e o mal estão claramente delineados. Henry Young é puro, virgem, injustiçado e torna-se um herói involuntário da mídia. James Stamphill é idealista, íntegro e corajoso, capaz de lutar contra todo o sistema apenas para ver a justiça prevalecer. E Milton Glenn, que dirige o presídio, é frio, cruel, arrogante e incapaz de um sentimento nobre. Essa pobreza de nuances é o calcanhar de Aquiles do projeto, que se salva da mediocridade graças a seu elenco.

Apesar de Christian Slater ser sempre o mesmo, ele divide a cena com dois atores que, de maneiras diferentes, atigem seus objetivos. Enquanto Kevin Bacon luta claramente para dar credibilidade a seu Henry Young, mesmo caindo na armadilha do exagero em alguns momentos (sua entrega ao papel é louvável), Gary Oldman não parece precisar de muito esforço para sobressair-se. Seu olhar impenetrável, seu tom monocórdio e sua expressão de rocha dizem muito mais do que a trilha sonora exagerada e os diálogos empolados e repleto de frases de efeito do roteiro. Nem mesmo a fotografia - aparentemente claustrofóbica mas na verdade apenas escura e sem criatividade - chama a atenção, sendo tão comum quanto o resultado final do filme.

A história de "Assassinato em primeiro grau" é interessante. O elenco convence. Mas o filme é desnecessariamente longo e aborrecido. Um diretor mais talentoso talvez o salvasse de ser tão comum e tão historicamente discutível!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...